Palavras Domesticadas

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domingo, 7 de agosto de 2016

Matéria Antológica - Revista Veja (1975) - 3ª Parte

"Seria ótimo se elogios bastassem. Se o reconhecimento de celebridades derretesse a gélida mentalidade comercial das gravadoras, cuja atuação é 'de uma incompetência cósmica', no dizer de Walter Franco. 'Não estou interessado em nenhuma teoria/nenhuma fantasia e no algo mais/ nem tinta no meu rosto/ oba-oba ou agonia/ para acalentar bocejos'(*), como escreveu Belchior. Que, em outra música, distribui uma carapuça geral: 'Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém/ Mas é você que ama o passado e não vê que o novo sempre vem'. Para, com sinceridade pungente, enterrá-la na própria cabeça em outra composição: 'Minha dor é perceber que apesar de tudo que fizemos/ Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais'(**).
Sinceridade, honestidade, objetividade - três das palavras mais usadas pelos críticos ao comentar versos da 'turma dispersa'. Explica-se. A maioria dos novos compositores possui formação universitária. Walter Franco é filho do falecido deputado socialista Cid Franco, 'um político-poeta ou um poeta-político', como amorosamente define o filho, acostumado desde menino a ver em sua casa os escritores Mário e Oswald de Andrade e o poeta Manuel Bandeira. Os ídolos de Franco, quem são? 'John Lennon, o vanguardita-erudito, o americano John Cage e João Gilberto - a santíssima trindade dos Joões.'
Fagner, por sua vez, incorpora orgulhosamente a seu currículo estudos em Paris com o guitarrista flamenco Pedro Soler e com o cantor espanhol Pepe de la Matrona. Já musicou versos de Garcia Lorca. Já escreveu poemas para músicas de Villa-Lobos. Largou o curso de arquitetura no primeiro ano, como também ocorreu com o surpreendente Raul Seixas, que fez vestibular para filosofia, psicologia e direito, sendo  aprovado em primeiro e segundo lugar, 'só para mostrar aos meus pais como era fácil ser medíocre'.
João Bosco, ao contrário, terminou o curso de engenharia, e Gonzaga Jr, formou-se pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas da Universidade Cândido Mendes. E Belchior, com um diploma de filosofia da Universidade do Ceará, abandonou a medicina no quarto ano.
São títulos que Oswaldo Melodia, pai do compositor Luiz Melodia, sempre desejou para o filho. Se não isso, pelo menos um emprego estável, 'talvez funcionário público da Petrobras ou qualquer outro órgão assim'. Na verdade, o menino nunca gostou de estudar. Passava a maior parte do dia no morro de São Carlos jogando futebol com amigos ou na praia do Calabouço. Faltava sistematicamente às aulas e apanhava da mãe costureira, porque chegava tarde em casa, embevecido com a natureza e a calma de seu pedaço de mar. O pai, aposentado, era um grande tocador de viola e acompanhava Nelson Cavaquinho e outros compositores da velha guarda.
Até hoje Luiz visita a casa de reboco e sem pintura onde moram os pais e três irmãs. Quando nada, para a mãe trançar todo seu cabelo, uma coisa de que ele gosta muito. Como também de cinema, filmes policiais e desenho animado na televisão. Lê pouquíssimo. Mas sente demais as coisas, como demonstrou a Lúcia Rito, de Veja: 'Com os amigos aqui do morro não existe a mesma aproximação de antes. Às vezes falo do que aprendi fora e as pessoas não compreendem. E também há a violência que machuca. É só ver a barra pesada das pessoas, lutando com quatro, cinco, sete filhos pra criar.
Ultimamente, Melodia tem tocado e composto muito pouco. Seu estado é de 'observação das coisas e das pessoas'. Para ele, a calma é essencial. Detesta pessoas autoritárias. Excessivamente tímido, ao contrário do alucinado cantor de 'Ébano' que a TV Globo mostrou no Festival Abertura, ele se julga também ingênuo. 'A ingenuidade dos meus tempos de moleque continua presente em mim, apesar das pauladas.' Exemplo oposto, da excessiva divulgação, foi o de Ivan Lins, que com Gonzaga Jr., César Costa Filho, Aldir Blanc, Silvio Silva e Emilio Costa formava o grupo MAU (Movimento Artístico Universitário). Exposto no programa Som Livre Exportação, de 1971, 'foi estraçalhado', segundo Gonzaga Jr. 'A televisão comeu o grupo.'
Apesar de recentemente sumido do público, embora por outros motivos, Raul Seixas também está em plena atividade - matrimonial, inclusive, pois acaba de se casar, pela terceira vez. Eternamente agitado, parece adorar não apenas seu trabalho como também falar dele. 'Dentro da música  brasileira eu não me coloco em lugar nenhum. Eu sou Raul Seixas. Minha linha musical é carnaval, é rock, cha-cha-cha, não importa. Meu ritmo é o do planeta Terra. É o ritmo da raça humana. O único em que eu poderia viver. O ritmo em que meu coração bate, o ritmo de levantar a cabeça.' Entre outras coisas, está escrevendo um livro para crianças, 'muito elucidativo, onde conto, por exemplo, como inventaram a gravata. E também a história do rei que calçava sapatos 39 e ordenou que todo mundo usasse o mesmo número, sem levar em conta que, na natureza, tudo é diferente. Até as folhas de uma árvore são diferentes'. Cabelos curtos, barba arruivada. Raul veste uma calça Lee, um quimono aberto ao peito e um crachá, com fita e tudo, pendurado no pescoço. Na porta de seu apartamento no Leblon, um aviso: 'Vá embora'. Dentro, graças à ioga e ao karatê, ele se adestra diariamente, mantendo inalteráveis os 57 quilos que pesa há dez anos. 'Sou um ator da vida, pode crer.'
Fagner, por sua vez, prefere exrcitar-se no futebol - nas laterais e como quarto zagueiro. 'Meu pai é um sírio que chegou aqui com 27 anos. Ele fazia parto em vaca. Minha mãe é do interior de Orós', contou a José Márcio Penido, de Veja. Sorriso largo, mãos grandes e inquietas, Fagner descreve apaixonadamente o seu trabalho. E se incendeia de santo furor ao falar de todos que criam obstáculos à criação - sua e dos companheiros. 'Gosto de de cantar as coisas mais escondidas', ele confessa. 'Sou o poeta do sufoco, do gemido, do pânico. Eu canto de todo jeito. A minha razão sempre se emociona quando o momento brilha. Meu disco 'Ave Noturna', por exemplo, é choro da primeira à última faixa. Aliás, está todo mundo chorando. Essa é a grande verdade. Todos têm o que dizer - e tudo quer acontece é contra. Tudo que você escuta tem o lamento do sufoco.'
Fagnerjá conheceu dias mais alegres. Há três anos, lançado por um ruidoso e poderoso grupo de intelectuais do Rio de Janeiro, cantou 'Mucuripe' no Disco de Bolso que trazia, no outro lado, Caetano Veloso interpretando 'Asa Branca'. Em 1973 lançou o LP 'Manera Fru-Fru' e, com Chico Buarque, compôs a trilha sonora do filme 'Joanna Francesa', de Cacá Diegues, com Jeanne Moreau. Mas não se recorda com saudade desse período. 'Algumas pessoas me idolatravam. Eu era uma revelação. Teve aquele negócio de boates, vida noturna, colunas sociais, badalação. Fiz temporadas com Nara Leão pelo Brasil. Produzi o disco do percussionista Naná. Joguei no Maracanã. Aí minha cuca fundiu. Eu não estava acreditando mais em mim. Fui para a Europa, fiquei três meses. Mas nada me atisfazia. Eu andava de roupa preta. Só faltava botar luto no meu violão. Cantei no Olympia  e achei uma tristeza. Afinal, concluí: por andar com a elite, elitizaram minha música. E não é nada disso. Hoje, passado algum tempo, reencontrei meu equilíbrio e minha harmonia. Aceito agora a badalação nos seguintes termos: quando eu trabalhar, quero que badalem meu trabalho. Pois ele é uma grande verdade.' "

(continua)

(*) A letra de Alucinação, ainda inédita na época, aparece um pouco diferente de como foi gravada
(**) Há uma segunda citação da letra de Como Nossos Pais, mas a matéria diz tratar-se de outra composição. A música também ainda era inédita

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