Palavras Domesticadas

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terça-feira, 22 de março de 2016

Led Zeppelin - O Ataque dos Replicantes ( O Globo - 1988)

Volta e meia o Led Zeppelin é assunto em publicações sobre rock. As bandas clássicas e históricas do rock, surgidas nos anos 60 e 70, sempre serão lembradas e seguem ganhando novos fãs, adolescentes que nem eram nascidos na fase áurea daquelas bandas. Um exemplo é o Led, que em 03/04/88 foi matéria principal da coluna Rio Fanzine, publicada no jornal O Globo. Assinada pelo crítico José Emílio Rondeau, a matéria que tinha por título "O ataque dos replicantes", traz um resumo da influência que a banda exercia na época, sobre o trabalho de outras que deixavam essa influência transparecer em seus trabalhos, e até denuncia uma imitação descarada, que segundo Rondeau, beirava o plágio, por parte da novata banda Kingdom Come. Segue abaixo a reprodução da matéria:
"Se alguma pessoa resolvesse montar, 10 anos atrás, uma banda de rock 'tipo Led Zeppelin', ou estava com pelo menos um pé firmemente plantado na entrada do hospício ou era de tal maneira afeita à Ordem Antiga do Rock que não via (ou não entendia) a efervescente e convicta cena punk da época, para a qual o Led Zeppelin representava 'o inimigo': a banda megamilionária, parasitária, egotrípica, velha e ultrapassada. O Led Zeppelin era o que chamávamos de 'dinossauro'. O Led Zeppelin era a decadência.. Não importava que o passado da banda a absolvia; o presente a condenava a uma crucificação prontamente executada pela ala mais jovem da crítica. Não que o Led tenha sido em alguma época, favorecido pela crítica. Apesar da imensa popularidade o LZ era tradicionalmente execrado pela crítica. Foi, portanto, uma 'morte' festejada.
Mas foi ontem. Hoje, março de 1988, parece não haver coisa mais 'in' do que o Led Zeppelin. A banda mais odiada da década passada está passando por um processo de redescoberta e reabilitação jamais visto em toda a  história do rock. Por um lado, diferentes artistas estão tomando emprestado mais do que um bocado dos chavões, timbres, temas, fraseados, e penteados até, de uma banda extinta desde 1980, estabelecendo, assim, toda uma linhagem confessa de 'filhos do Led Zeppelin'. Por outro, o artigo genuíno, por assim dizer, está de volta à praça: o vocalista Robert Plant acaba de lançar um álbum solo, Now and Zen, no qual não apenas retorna ao topo de sua forma, como também reclama seu passado como um dos integrantes da mais importante e influente banda de rock dos anos 70, depois de muito tempo renegando essa herança.
A ressurreição de Plant talvez se explique pela força crescente do heavy pop. Afinal, tudo que se ouve hoje, em termos de rock pesado, faz parte de uma cartilha escrita há anos, pelo Led Zeppelin: a temática gótica, a postura heroica e toda-poderosa, o blues elétrico. Se hoje fazem sucesso Bon Jovi, Scorpions, Megadeth e Metallica é porque um dia existiu o Led Zeppelin. Não se entende, porém, o encanto súbito da crítica com artistas tão desdenhados no passado: se antes o Led era chamado de 'coisa de criança', hoje o grupo é louvado como clássico e pioneiro. Coisas da história.
De qualquer forma, é fascinante observar a reemergência do Led Zeppelin na cena rock, seja como alvo das gozações dos imbeciloides Beastie Boys - que chuparam trechos sampleados do Led Zeppelin em seu álbum de estreia -, seja sob a forma de 'parentes' e 'pastiches' que vão de The Cult e Mission e Whitesnake e Kingdom Come. O que levaria o Whitesnake, por exemplo, a criar uma uma nova imagem e um novo repertório mais próximos do Led Zeppelin do que do Deep Purple, de onde o grupo liderado por por David Coverdale realmente nasceu? O que empurraria o Mission a recrutar um ex-Zeppelin, John Paul Jones, para produzir seu novo álbum? É, mais gritante ainda, por que uma banda desconhecida estrearia em disco literalmente copiando nota-por-nota, o Led Zeppelin, como fez a novata Kingdom Come? Será que toda essa gente gostaria de ser o Led Zeppelin? E se esse fosse o objetivo, por que? Que força irresistível é essa que leva gente a querer tanto ser um mesmo 'fantasma'? Deve ter vantagens ser o Led dos 80? para uma geração que nunca ouviu falar da antiga banda original, mas e no caso do Kingdom Come? Toda essa clonagem é repetidamente reforçada  no álbum de estreia do grupo e a gravadora (Polydor) querem que todo mundo saiba que seu objetivo é ser parecido com o Led Zeppelin. Só que não se trata de um 'parente', por assim dizer: é um imitador irritantemente igualzinho ao original. Justo como pretendia o vocalista alemão Lenny Wolf, o cérebro por detrás do Kingdom Come, descoberto 'por acaso' (conheço esses 'acasos') por uma rádio FM norte-americana, numa compilação de novatos metálicos tipo pau-de-sebo. São de Lenny todas as  músicas e é ele quem dá as ordens no grupo. E é ele, portanto, o maior cara-de-pau da tropa.
Porque só mesmo muito cinismo para arquitetar um grupo como o KC: a voz de Wolf é processada para ficar mais igual à de Plant do que ele já força. E todas as faixas repetem timbres, arranjos e fraseados dos discos antigos do Led: 'Get It On' é irmã gêmea de 'Kashmir'; 'Loving You' começa com uma guitarra saída de 'Starway to Heaven' e engrena no tipo de balada folk celta característica do álbum Led Zeppelin III, com bandolins, violões de 12 cordas e odes à fada da floresta. '17' é 'Since I've Been Loving You' sem tirar nem pôr. 'The Shuffle' é o carbono acelerado de 'When the Levee Breaks'... e daí por diante, ladeira abaixo.
Essa frenética zeppelinzação do rock  só foi reforçada por Now and Zen. A mídia norte-americana de rock se ocupa exclusivamente de Robert, seus novos planos, e, a memória do Led Zeppelin. A MTV dedicou um fim-de-semana ao assunto e as FMs não cansam de tocar as duas faixas do álbum em que Robert e Page se reúnem publicamente pela primeira vez desde o Live Aid, em 1985: 'Heaven Knows' e 'Tall Cool One'. A primeira é um híbrido de blues elétrico dos anos 60 com os ritmos eletrônicos da era atual. Nela, Page arranca um de seus solos marca-registrada, combinando frases curtas e descasadas; 'Tall Coll Ane' é uma brincadeira rockabilly em que Plant brinca com a sexualidade inerente ao rock em geral e revisita com extremo bom humor seu passado zeppeliniano: Plant editou e sampleou trechos de clássicos do LZ numa coda interessantíssima, misturando passagens de 'Black Dog' ('he-hey, mama!), 'Dazed and Confused', 'The Ocean' e 'Wolla Lotta Love'. Mais notável ainda é que, pela primeira vez desde que iniciou carreira solo, Plant canta parecido com seus tempos de juventude. Não chega a ser aquele rugido nórdico que arrebentava o cristal dos microfones, mas lembra.
Para a horda de 'herdeiros' e imitadores do Led Zeppelin, o retorno de Plant é igualmente bênção e maldição: se por um lado estimula o interesse pelo tipo de música que fazem, por outro expõe a fragilidade das contrafações. Com Plant na estrada a partir de maio e abrindo fogo na imprensa contra seus 'sucessores' (ver box), não deve estar sendo confortável o sono de Coverdale e Wolf."
O box a que se refere a matéria, é o que segue abaixo, intitulado "Plant Não Engole Moscas":
Sobre o Whitesnake:
" O apelido de David Coverdale na Inglaterra é David Coverversion (David Imitação)".
"Ouvi falar que durante algum tempo ele (Coverdale) trabalhava como travesti".
"Coverdale passou os últimos dois anos tentando ser Paul Rodgers. Precisava ir adiante. Daqui a 10 anos ele vai ser  George Michael".
Sobre Si Mesmo:
"Não quero que a garotada ache que eu sou o padastro do Bon Jovi".
"Cansei de ficar me desculpando por um período incrível de sucesso e aceitação fanática. Agora chegou a hora de aproveitar. Quero me divertir em vez de inventar desculpas".
Sobre o Led Zeppelin:
"Para mim a banda deixou de existir no minuto em que Bonzo se foi".
"A canção definitiva do Led Zeppelin é 'Kashmir' ".
"Hoje em dia não é possível lançar material inédito, ao vivo, do Led Zeppelin. Como competir com o som dos CDs do Dire Straits?"

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