Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A História do Disco de Bolso do Pasquim - 1ª Parte

Os discos de Bolso, lançados nos anos 70 pelo jornal O Pasquim, hoje fazem parte da história de uma iniciativa importante na MPB. Isso se deve, não só por terem lançado nomes de artistas iniciantes e desconhecidos, como João Bosco e Fagner, como também por serem considerados os primeiros lançamentos de discos independentes no Brasil.
Em 1982, o próprio jornal O Pasquim lançou nas bancas de jornais um disco no formato LP trazendo vários artistas que ao longo dos anos lançaram discos independentes, como Antonio Adolfo, Aguillar e a Banda Performática, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Paulinho Boca de Cantor, Arnaldo Baptista e outros. Junto ao disco vinha acompanhando um livreto chamado MPB - Edição Independente, contando um pouco da história do disco independente no Brasil, inclusive o texto sobre os discos de bolso, que irei reproduzir abaixo.
O livreto/encarte começa com o seguinte texto:
"Todos sabem que O Pasquim foi o criador da imprensa alternativa, surgindo como um jornal independente, desvinculado de grandes esquemas, e com uma nova linguagem, aberta ao cotidiano. Mas ficou meio esquecido que o Pasquim foi também um dos pioneiros da produção independente de discos, lançando em 72, por conta própria os célebres Discos de Bolso, numa época de baixa na MPB."
Abaixo, um pouco da história do Disco de Bolso:
"Conversar com Sérgio Ricardo sobre a experiência do disco de Bolso é algo alegre e triste. Fala com entusiasmo da importância desse projeto, do prazer de ter criado algo diferente, uma saída pro marasmo musical depois da porrada da repressão pós AI-5, do corte geral da Censura. Apesar do clima pesado, uma nova geração artística surgia - depois daquela do Tropicalismo - mas sem encontrar espaços pra mostrar o que trazia. O Disco de Bolso era novo.
E fala, amargurado, que este projeto importante teve apenas dois números. Como tantos empreendimentos de grande valor cultural no Brasil, durou pouco. Foi lançado, mas, por inúmeras razões - má administração, falta de experiência, descuido, contingências - não se consolidou.
Mais uma ótima ideia que ficou. Sérgio Ricardo explica que 'essa ideia foi baseada numa necessidade de sair de um esquema que eu sentia meio emperrado, o negócio do Sistema de Comunicações, o controle da televisão. Quem fazia sucesso em festival é que acontecia. Começou a pintar muita repressão na cultura, que recebeu a navalhada do AI-5 e ficou desmembrada.
'Na época, nem tinha esse nome 'disco independente', era um disco que o compositor teria que dar um jeito de fazer. A gente mesmo teria que se virar; se fosse esperar, nunca aconteceria. E senti que teria que ser vendido em banca. Havia um grande público praquilo: a torcida que havia perdido o duelo, que buscava o elo perdido. Chegamos também a uma maneira de mostrar as coisas que achei a ideal: cada compacto mostraria uma música inédita de um compositor conhecido, e um compositor desconhecido de grande talento. Daí o grande caráter desbravador do Disco de Bolso. Era uma coisa jornalística, informativa.' Num tempo em que circulava pouca informação.
Sérgio Ricardo
Sérgio continua: 'Aí bolei esse nome: 'disco de bolso'. Quem primeiro iria transar isso comigo era o Zélio, irmão do Ziraldo, mas depois entrou o Ziraldo e fez pro Pasquim. O administrador do Pasquim resolveu colocar mais uma empresa, e foi feito um triângulo: a Philips ficou com a parte comercial do disco, o Pasquim com a parte comercial da revista, e eu com  a produção. Luiz Lobo era o editor da revista e Prósperi fazia a sua arte-final.'
Como assistente de produção, entrou um rapaz chamado Eduardo Athayde, membro do quarteto vocal 004, autor de uma coluna de música na Última Hora, a badalado Som 70, e um dos criadores do MAU (Movimento Artístico Universitário), do qual faziam parte Gonzaguinha, Ivan Lins, Taiguara e que gerou o programa Som Livre Exportação.
'Um dia - lembra Athayde - 'conversando com Sérgio Ricardo, que vinha acompanhando esse bando de gente jovem, ele me disse que tava a fim de fazer um trabalho com eles que daria o maior pé. 'Os caras não têm a menor chance de fazer nada, pela voracidade incrível da máquina, que tem compromisso com o sucesso imediato, com o já estabelecido no sistema econômico. Olha, tenho uma ideia de juntar esse pessoal em disco'. Eu disse: 'Se houver essa possibilidade, acho que a fórmula de conseguir a colocação disso no mercado seria esse pessoal ter ao seu lado grandes nomes lançando músicas novas.' Ele então me convidou pra ser produtor.'
Começou a escolha de quem inauguraria a série. 'Sugeri começar com quem, no meu entender, era o padrinho musical de todos que estavam aí: o Tom. Nessa época, Tom havia começado a elaborar uma música que veio a se tornar a música do século, numa eleição de revistas especializadas americanas: Águas de Março. Tinha uma letra quilométrica, de muita riqueza, com uma música repetitiva. É uma melodia simples com uma linguagem maravilhosa e brasileiríssima.'
De imediato, Águas de Março ficou represada na Censura. Athayde foi lá falar com uma moça, que explicou que 'pau' era polícia, e 'pedra'  Cohn-Bendit(*). O verso 'é pau, é pedra' seria um confronto entre polícia e estudante! Dentro desse raciocínio, 'é o fim do caminho' seria o quê? A derrubada do regime?"

(*) Líder estudantil do "Maio de 68", na França
(continua)

Nenhum comentário:

Postar um comentário