Palavras Domesticadas

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domingo, 25 de outubro de 2015

Belchior: Um Retrato 3x4 - Jornal de Música (1976) - 4ª Parte

" - Muita gente diz que essa informação prosaica vem de Bob Dylan. Se viesse, eu acharia muito bom, a referência é boa. Mas como estudei em colégio de padre, cantando gregoriano, adquiri naturalmente isso que ele eles chamam de desequilíbrio. As letras dos versículos enormes da Bíblia, encaixadas numa melodia pequena. E ouvir, a gente ouve tudo. Eu ouço Dylan, como ouço Hendrix e não posso atualizar a informação de Hendrix que tem dentro de mim.
- A comparação que foi feita pela Ana Maria Bahiana de Forever Young do Dylan com minha música Antes do Fim, para mim, é errada, porque no disco do Dylan ela tem dois arranjos e nenhum deles se parece com o meu. Quanto à letra 'sempre jovem' que eu também falo na música, isso não é privilégio do Dylan. O pessoal que procurava a fonte da juventude já desejava. É uma coisa muito superficial esse lance. Que fiquem sempre jovens e tenham as mãos limpas, eu dizia na música.
Mãos limpas é uma imagem bíblica, que o Dylan bebe nisso também, mas bebe no negócio francês, que o pessoal nem conhece. Agora, eu conheço tudo. Georges Moustaki, Georges Brassens, John Lennon. Do ponto de vista formal, eu podia citar inclusive João Cabral, Manoel Bandeira, Carlos Drummond e até Augusto dos Anjos. Eu sou também viciado em cinema. Assisto 3, 4 vezes `mesma fita. Tenho muito a ver com uma linguagem cinematográfica, do ponto de vista do corte, cenas, distanciamento. Também há um elemento teatral nas minhas músicas, de distanciamento muito característico, eu acho que é talvez uma memória brechtiana de leituras.
- As pessoas pensam que estou fazendo uma autobiografia individual, mas ela é feita do ponto de vista de uma geração. Quando eu mudei, em A Palo Seco, de 73 para 76, e mantive 'o rapaz de 25 anos' (N.R.: citação à Marginália II, de Gilberto Gil) era porque continua valendo para uma geração. É como eu também digo em Mucuripe: 'um rapaz novo e encantado, com 20 anos de amor'. Minha música também funciona como uma reflexão sobre a própria história, é um ensaio. Estou admirado desse aspecto ter sido tão pouco evidenciado na crítica. Citações de  Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, os intelectuais da rive gauche francesa, em 'Como o Diabo Gosta', e tal. Me parece que o pessoal tem pouco repertório para descobrir esse tipo de coisa. Mas como é uma obra artística, com o tempo ela vai receber outros níveis de leitura.
- Quanto à parte musical, quando você adota uma linguagem, assimila culturalmente uma coisa assim como o blues ou o rock, você está adotando todo um comportamento, que no caso do soul, sei lá, é um dado libertador do negro. Do mesmo modo que você adotar uma linguagem latino americana, você está adotando uma linguagem do oprimido, do humilhado, de pessoas em véspera de uma libertação. A informação rock é um dado natural, como na época de Orlando Silva havia a informação fox. Não sou do tempo das bossa nova, sou do tempo do rock. Minha preferência pelo blues vem da própria pungência do blues. E também porque eu morava vizinho de uns músicos negros descendentes de americanos que tocavam várias músicas nordestinas à  moda deles, no piano, no violino, instrumentos de sopro.
- Me preocupa muito as pessoas definirem para si mesmas um espaço muito pequeno de liberdade criativa. Elas querem uma forma de liberdade, quando a liberdade de criação são todas as formas. Acho uma verdadeira tolice a crítica que aparece em revistas e jornais definir raízes como uma coisa geográfica, folclórica. A raiz do homem é o homem mesmo. A informação toda que está dentro dele. Todos os estímulos sensoriais, de audição, visão, intelectuais, sexuais, todos, absolutamente todos. Daí é que vai surgir uma coisa nova. Não tenho preocupação nenhuma de nordestinidade. Não preciso enfatizar nada de nordestino, porque só sei ser isso. Não o nordeste místico dos livros, criado para enganar cada vez mais as pessoas.
- Falo do tropicalismo, da mentalidade 'divino maravilhosa', digo 'Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem para a cidade e vai viver na rua', estou fazendo com isso o mesmo que Caetano fez, a mesma dose de crítica. Eu acho que os artistas novos estão em natural contradição, em tensão dialética, criativa com os anteriores que, de tão bons, já se tornaram tradições na música brasileira. Se eu sentisse por eles apenas idolatria, eu estaria comprando os discos e ouvindo, não é? Não estaria aí trabalhando. "

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