Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Belchior: Um Retrato 3X 4 - Jornal de Música (1976) - 1ª Parte

Em 1976 Belchior vivia um momento de grande popularidade e prestígio. Seu disco Alucinação emplacou vários sucessos e vendia muito bem, alcançado diferentes classes sociais, desde as mais intelectualizadas às com menos estudo, mas que entendiam sua música e suas mensagens.
Em sua edição nº 22, de 09 de setembro de 1976, o Jornal de Música trazia uma ótima matéria/entrevista com o ídolo do momento, assinada por Tárik de Souza. Segue abaixo, a primeira parte:
"Pelo tempo de convivência com esta publicação, e mais especialmente pela leitura constante das cartas e votos  (Melhores de 75) dos leitores, acredito que conheço um pouco aquele que está diante deste texto. Basicamente é uma pessoa não apenas interessada em música, mas participante ativo: não importa se compra, ou somente ouve os discos, ou até mesmo acompanha a música pelo rádio e pela TV. Mas discute, é capaz de apaixonar-se ou odiar compositores, cantores, músicos - e a crítica que aqui se faz - com intensa adrenalina. Daí a útil necessidade desta matéria. Até um ponto raramente alcançado antes, ela desnuda o mundo em sonhos em que o nosso leitor acostumou-se a embarcar, quem sabe abstraindo seu cotidiano principal, nem sempre tão faiscante, ou nem sempre com  a mesma aparência de compreensão imediata e calorosa.
'Viver é melhor que sonhar', me fornece um ambíguo lema (vocês verão porque) o próprio centro da matéria, o compositor e cantor Belchior. Ele foi entrevistado, juntamente com  as eminências (nem tão) pardas (assim) que constituem os bastidores de quase todos os ídolos do Brasil. Waldemir Marques, do Jornal de Música de São Paulo, ouviu o primeiro produtor de Belchior, Marcus Vinícius, que, por acordo com o artista, não consta como autor deste trabalho de estreia. Na Chantecler, onde o LP foi gravado, Caito Gomide, também em São Paulo, entrevistou Salatiel Coelho, 'gerente de artistas e repertório' da empresa. O diretor de repertório da gravadora seguinte de Belchior, a Phonogram, Roberto Menescal, falou, no Rio, ao nosso repórter Aloysio Reis. Encarregado da produção deste disco Alucinação - devidamente creditado por isso - Mazola, ex-Phonogram, atual WEA (Warner-Elektre-Atlantic), conversou com Liana Fortes. E contou, entre outras coisas, como levou o ex-artista maldito e atual superastro (Alucinação já vendeu 40 mil cópias e deve chegar a 80 mil, segundo Menescal) para sua nova empresa. Não foi pequena porém a participação do diretor desta, o ativo André Midani, na transação. Estimulado por duas caipirinhas, no requintado restaurante Le Mazot, ele abriu o jogo para Ana Maria Bahiana: só não falou de cifras, para não ferir o novo contratado, ou alertar demais concorrentes. Outros números que aparecem no decorrer da matéria, no entanto, servirão para mostrar ao nosso leitor como, quanto e o que custa a um rapaz latino-americano, 'sem dinheiro no banco/sem parentes importantes/e vindo do interior' tornar-se ídolo nacional.
Belchior é quase um modelo, protótipo, do artista desta geração de briga que não teve a TV ou qualquer máquina de sucesso rápido a favor: quase teve contra. As diferenças entre o caso dele e o de João Bosco, por exemplo, entre ele e Fagner, ou Gonzaguinha, ou Alceu Valença, ou Walter Franco, ou Luiz Melodia, ou Ednardo, ou Raul Seixas, ou Sérgio Sampaio são pequenas. Ficam por conta das reações características de cada personalidade. O quadro de dificuldades, loucura, baixos  e altos instintos, pelo menos é praticamente o mesmo para todos. Afinal, não é por acaso que Belchior é o autor do hino desta geração de briga; 'Tenho vinte e cinco anos/de sangue e de sonho/e de América do Sul'.
Estamos contando a história de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cearense de Sobral, nascido em 1946 numa família de 23 irmãos, filho de uma cantora de coro de igreja e um modesto bodegueiro. (À revista Vogue, ele falou em 'coronel do sertão'). Depois de estudar com os padres Capuchinhos, num convento perto de Fortaleza, tanto filosofia quanto literatura francesa e dicção, ele abandonou tudo. Moleque de recados desde os 10 anos, cantador de feira, criador de galinha e pombo, fabricante  de máscaras de carnaval, alfabetizador de adultos, Belchior acostumara-se  desde  muito cedo à liberdade. Foi tentar medicina. Mas caiu fora, segundo diz, quando percebeu que o curso 'reciclava a opressão do conhecimento'. Agora, professor de cursinho, passou a cantar na TV de Fortaleza. Acabou expulso do colégio por causa da dupla atividade e, em 68, tomou a decisão histórica: 'Ia viver ou morrer de música.' Mandou-se para o Rio, num avião da FAB, obrigado a cortar os cabelos, para viajar de graça.
Chegou com 70 pratas, muito tempo poupadas, graças à ajuda dos amigos. Confessa que não teve coragem de mostrar aos destinatários as cartas de apresentação que tinha trazido do Ceará. Mas não se recusou a enfrentar a barra pesada. Morou em Caxias, Marechal Hermes, 'vi tiroteio na Lapa', trabalhou na Tijuca, num hospital, em troca de almoço e jantar. Quando mudou para São Paulo, tomou conta de uma casa que ia ser demolida, trocando sua cama de quarto em quarto, até só lhe restarem quatro paredes e a poeira do reboco.
Ele chegou confiante e até convencido, do Ceará: 'Na condição em que está a música brasileira', pensou na época, 'com esse trabalho vou sensibilizar diversas áreas'. Parecia que ia dar certo: ganhou logo o festival universitário, com sua música Na Hora do Almoço ('No centro da sala/diante da mesa/no fundo do prato/comida e tristeza'). Mas depois veio um longo silêncio de quatro anos, até conseguir gravar o primeiro LP, A Palo Seco, em janeiro de 74. Marcus Vinícius, produtor, consentiu que seu nome ficasse apenas como diretor musical. Conta que Belchior 'estava por aí morrendo de fome e buscando uma chance para gravar'.
Marcus tinha seu próprio disco, Dédalus, engatilhado: 'Fizemos uma força, demos até uma de trombadinha lá dentro da Chantecler, para que saísse o disco dele'. Segundo o produtor omitido (e pela entrevista, um pouco zangado também), Belchior 'tinha aquela voz de vaqueiro', 'informação nordestina bem densa, bem rica', mas 'não era nada de novo, como não é até hoje'. Sentencia Marcus: 'O que existia mesmo era um suporte de letra importante, para uma música primitiva.'
A Palo Seco, segundo Salatiel Coelho, gerente de artistas e repertório da Chantecler, 'não vendeu nada'. Meio assustado, demorando a responder, Salatiel disse que o próprio Belchior pediu rescisão de contrato. Lamenta-se o funcionário: 'Ele já estava com um novo repertório a ser lançado, e não conseguiria divulgar suficientemente por aqui. Este problema é muito sério: leva muito tempo para se formar um bom divulgador. Os que estão trabalhando por aí já têm 20 anos no ramo e as gravadoras não soltam de jeito nenhum. Doce ironia: a Chantecler, agora, depois do sucesso de Belchior, prepara o relançamento de suas gravações na empresa. Primeiro, 1000 compactos e, depois, 1.500 LPs vão às lojas."
(continua)

2 comentários:

  1. Como ver o resto da matéria?

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  2. A matéria foi reproduzida na íntegra em 4 partes. É só pesquisar "Belchior Jornal de Música" que vc terá acesso às 4 partes

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