Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Ednardo - O Voo do Pavão Misterioso - 1976

Em 1976 Ednardo fazia um grande sucesso com" Pavão Misterioso", embora a música tenha sido lançada dois anos antes. Ao ser escolhida como tema de abertura da novela Saramandaia, a música alcançou um grande sucesso. Na ocasião, Ednardo já havia lançado seu segundo LP solo -" Berro", mas o compositor cearense ficaria conhecido para o grande público com a música da novela.
Na ocasião a revista "Rock, a História e A Glória" nº 19 trazia uma matéria com Ednardo, assinada por Carlos Gomide, e intitulada "Ednardo - O Voo do Pavão Misterioso":
"Por trás das plumas do Pavão Misterioso ainda está escondida a aridez do canto cearense de Ednardo; esta foi a primeira impressão que me passou pela cabeça no Teatro Nídia Lícia, ao deparar com o enorme pavão, luxuosamente montado, ocupando uma área de uns 15 metros no fundo do palco. E as minhas suspeitas foram se confirmando: ao lado do luxo do pavão, caixotes de madeira, onde mais tarde sentariam os músicos, e estes mesmos caixotes se prestariam a um dos momentos mais agrestes do show, quando são usados como percussão na abertura do espetáculo. Toda essa contradição foi planejada  em cima da própria situação de Ednardo com o repentino sucesso do Pavão Misterioso, após dois anos de seu lançamento.
'Na verdade não fiquei sabendo de imediato da inclusão do Pavão na trilha sonora da novela. Depois soube; na época eu estava gravando o segundo disco, e achei ótimo porque penso que o artista brasileiro deve acabar com esse falso pudor de não tocar em trilha de novela; principalmente porque em termos de promoção, a novela repete a mecânica que antes era provocada pelos festivais.'
'No começo eu fiquei com medo que o sucesso de Pavão abafasse o o lançamento do Berro; mas parece que esse sucesso abriu os olhos do público para todo o meu trabalho, e, inclusive, atualmente os dois discos são tocados no rádio.'
Este show foi o primeiro que Ednardo fez com uma montagem de espetáculo e foi produzido por Miriam Muniz.
'Antes eu só preparava apresentações artesanais, onde tudo era improvisado e a aparelhagem emprestada como na Feira de Música do Teatro Aplicado, que eu fiz no ano passado. Mas isso tudo foi muito legal pois me deu uma vivência incrível. Até a apresentação de Vaila no (festival) Abertura, foi ótima, apesar da proposta inicial da Globo de colocar coisas novas no esquema de televisão ter sido totalmente estereotipada.'
'Agora, este show foi transado com muita pressa, e em cima do sucesso do Pavão Misterioso, por isso em alguns momentos eu não fico à vontade no palco, tenho que obedecer à sequência das músicas e isso me tira a liberdade de me envolver com o público, o que pinta na hora. Outra coisa que me distancia da identificação são as roupas brilhosas cheias de lantejoulas; então o momento que eu acho mais impressionante é a hora que nós tiramos essas roupas e ficamos com os trapos que nós vestimos por baixo. O mais incrível deste momento é que esta cena provoca um choque incrível no público deixando-o mais aberto para entender toda a transação das músicas.'
O momento mais comunicativo do show acontece depois disso quando Ednardo canta o Pavão Misterioso com o público acompanhando a melodia que já é do conhecimento de todos.
'Parte do meu primeiro disco foi feita ainda no Ceará e mesmo o Pavão Misterioso, que foi feita em São Paulo, tem uma transação baseada no cordel, o negócio da história contada em versos, que os cantadores vendem em livretos nas feiras do Nordeste.'
Um dos aspectos principais das músicas de Ednardo é o choque entre o regionalismo (a sua formação nordestina) e o urbanismo (a realidade sufocante de São Paulo).
'Não existe música universal, toda e qualquer música é resultado de emoções de um momento. Não preciso romper com as minhas origens para fazer um som universal porque sempre haverá influências dos lugares onde eu vivi, e também influências do lugar onde eu estou vivendo. No Brasil todo acontecimento musical tem um ponto convergente: a bossa-nova por exemplo, era tipicamente regionalista e a máquina publicitária do Rio e de São Paulo impuseram-na ao resto do país.'
Compositores como Ednardo viveram na marginalidade do mundo do disco desde que o sistema comercial de músicas brasileiras começou a mudar em 1969, com o esvaziamento dos festivais e o recesso dos compositores que dominavam o mercado da época. Depois dessa vazante, a promoção de artistas novos que criavam dentro de um esquema fora do catalogado comercialmente nas gravadoras, se tornou quase impossível; essa problemática gerou uma verdadeira geração de músicos que se auto-produziam e se empresariavam. Durante esse período compositores que eram chamados de 'o grupo cearense' tentaram furar o esquema rígido de promoção, sem muito sucesso; mas este ano Belchior e Ednardo alcançaram um pique de vendagem muito bom, desorientando as gravadoras que agora procuram aproveitar o material que anos antes haviam rejeitado. No caso de Ednardo, o LP Pavão Misterioso teve de ser reeditado e a música lançada em compacto.
'Na época do lançamento do Pavão, o ambiente era desfavorável para a gravadora promover o disco, em virtude da restrição da matriz em termos comerciais; o que realmente provocou essa reviravolta  foi a vendagem em função da novela. Essa brecha para um artista novo é ótima, não se deve perder. Quando você percebe isso não pode ser romântico, afinal essa transação musical toda é um operariado, você tem que ter consciência da situação atual. Eu me desenvolvi à margem do esquema de vendagem por isso acho importante o artista levar ao público esse costume de ouvir o que não é permitido.'
'A minha história com o grupo cearense foi a seguinte: em 69, 70 mais ou menos eu, Belchior, Rodger & Teti, nos reuníamos num bar em Fortaleza, depois de vários shows amadores e algumas tentativas de fazer algo concreto viemos para cá aos poucos, primeiro para o Rio de Janeiro depois para São Paulo. Minha primeira apresentação em São Paulo foi na TV Cultura; Walter Silva me levou para a Continental onde eu, Rodger & Teti gravamos o LP Pessoal do Ceará que de certa forma nos limitou, pois as pessoas achavam que a gente era um conjunto quando na verdade nosso único ponto em comum era o fato de sermos cearenses. Tivemos até que fazer vários shows limitados; em consequência, saímos logo dessa porque cada um já tinha suas ideias pessoais.'
O grupo cearense surgiu quase como uma determinação da crítica musical que necessitava de uma corrente opositora ao trabalho dos baianos. Apesar de alguns artistas tomarem partido dessa ideia, os fatos provaram que na verdade esse dito grupo cearense não formava uma e sim várias correntes dentro da música brasileira. O que prova esta teoria é o fato de cada cearense estar fazendo sucesso individualmente.
'No meu caso nunca houve intenção de opor meu trabalho ao dos baianos, pelo contrário; nas minhas músicas você pode encontrar influências de Gil, principalmente no que diz respeito ao uso de certos instrumentos nordestinos. O meu show no dia oito, dia seguinte da prisão de Gil, foi dedicado a ele.'
Com o lançamento do LP Berro e o relançamento do Pavão Misterioso, Ednardo se viu às voltas com um dilema: qual dos dois discos deveria ser mais promovido?
'Quando eu tomei consciência que  o Pavão havia vendido dez mil compactos em uma semana, eu tive que pensar em uma forma de equilibrar a saída dos dois discos; pelo menos nas apresentações dar um jeito de mostrar os dois lados do meu trabalho, porque na verdade eles se completam: enquanto um tinha muita transação do Ceará, o outro já foi um resultado de vivências mais poluídas. Esta apresentação aqui no Teatro Nídia Lícia veio solucionar este problema, uma vez que eu apresento, na maioria, músicas do Berro que foram feitas em São Paulo.'
Ednardo está  apresentado as músicas do Berro, entre elas uma chama a atenção da plateia, em especial: Artigo 26, cujo refrão em francês fala em 'fraternitè, igualitè e libertè', do meu lado perguntam se é uma música de protesto, mas na verdade ela é apenas uma sátira social. A única música que talvez se aproxime desse gênero é Passeio Público devido à sua trágica letra.
O show termina com uma modesta distribuição de pão entre o público, e um senhor perguntando aos músicos do grupo um pouco assustado e inquisidor: - O que vocês estão distribuindo aí?' 'Esta é mais uma ideia para o padeiro amassar'. "

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