Palavras Domesticadas

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terça-feira, 14 de junho de 2016

Gonzaguinha - Jornal Opinião (1973)

Em 1973 Gonzaguinha era ainda um promissor cantor e compositor, buscando seu espaço na MPB. Sob o nome artístico de Luiz Gonzaga Jr. - o Gonzaguinha era apenas uma forma carinhosa pelo qual era tratado pelo mais íntimos - ele ainda era mais conhecido como filho do Rei do Baião como propriamente por um novo talento da música brasileira. Naquele ano Gonzaguinha lançaria seu primeiro disco, e a crítica especializada passava a prestar uma maior atenção ao seu trabalho. Na época, o jovem compositor carregava a fama de mal-humorado, e alguns temas de suas músicas, de letras às vezes rebuscadas e difíceis, ajudavam a lhe darem o epíteto de "cantor-rancor", que o acompanhou durante os anos iniciais de sua carreira. Em abril daquele ano, o crítico e jornalista Tárik de Souza escreveria uma matéria sobre Gonzaguinha no jornal semanal Opinião:
"Duas semanas atrás, Luiz Gonzaga Jr. gastou sete dias percorrendo as rádios de São Paulo. Foi desfazer o boato de que seu compacto Comportamento Geral havia sido proibido. Por causa dele, algumas rádios, usando uma espécie de autocensura, excluíram-no de suas programações e o compositor, cantor e violonista foi obrigado a cumprir este roteiro estranho.
Para Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha, foi uma boa experiência, porque ficou conhecendo 'as pessoas que tocam minhas músicas e sabendo o que pensam de mim'. Na verdade, como compositor de sucesso popular (modesto, ele acredita que seu disco, nas paradas, tenha vendido só uns 15 mil exemplares) foi seu primeiro contato com qualquer tipo de público. Antes ele era o autor 'maldito', 'hermético', 'antipático', 'mascarado', de letras longas e músicas de harmonia trabalhada, respeitado, mas quase ignorado. Participou de três festivais universitários enquanto se formava em Economia. Foi finalista (Pobreza por Pobreza), quarto colocado (Parada Obrigatória para Pensar) e vencedor (O Trem). Sempre distante, afinando sua magreza com um comportamento ríspido, ele chegou mesmo ao suntuoso Festival Internacional da Canção, sem nunca, no entanto, ter-se integrado nele. Igualmente à margem permanecia Gonzaguinha nas aparições da TV ou excursões de teatro, com seu pai. Qualquer semelhança entre Luiz Gonzaga, rei do baião, sorridente, cara de lua e Gonzaga Jr., agressivo, equilibrando o cigarro entre os dedos enquanto tocava, só podia ser coincidência. Tanto que se espalhou outro boato que de certa forma o constrange: o de que seria filho adotivo. 'É uma longa história', diz Gonzaguinha, entre inquieto e encabulado. E conta que não é filho da atual mulher de Luiz (Helena) Gonzaga. Foi criado no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, no Rio, por pais adotivos. 'A Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e o Baiano (Henrique Xavier), com quem aprendi a tocar violão.'
Isso talvez explique a pouca interferência de Luiz Gonzaga na linha musical principal de influências do filho. E no seu comportamento geral. 'Fui moleque de morro, quebrei vidro, joguei bola, roubei fruta mas principalmente do quintal das pessoas que eu não gostava.' Gonzaguinha, 27 anos, define-se dentro desta atmosfera construída na infância. 'Sou um moleque. Mas um moleque bem alegre, um marginal que sabe que é e será marginal.'
Suas bruscas mudanças de tom - às vezes sorri franco e simpático, outros momentos parece desconfiado das perguntas - correspondem, de certa forma, aos altos e baixos de sua carreira de inescondível indecisão poética ('vai carregado de esperança, amor, verdade e outros ades', O Trem) e outros, de inabalável objetividade ('Mas sonha que passa/ ou toma cachaça/ aguenta firme irmão, na oração/ Deus tudo vê e Deus dará, Um Sorriso nos Lábios). Desde 68, quando começou a tentar a carreira (sua primeira música, Primavera, foi gravada pelo pai em 1959), manteve-se apenas fiel a um tipo de resultado sonoro que lembra (inclusive quanto ao registro de voz) Milton Nascimento. Gonzaguinha diz que não é influência: 'Começamos praticamente na mesma época. O que há é que ele é alegre e moleque como eu'.
Depois de Comportamento Geral ('Você merece/ tudo vai bem/ tudo legal/ cerveja, samba, e amanhã, seu Zé, se acabarem com seu carnaval?'), um samba envolvente, quase arrastado. Gonzaguinha marcou sua presença, até então fluída, na música brasileira. Não sabe exatamente como se situar, porque 'pertenço a esta geração meio espremida que pegou a barra pesada logo', mas admira de Milton Nascimento a Edu Lobo. 'Influência é como gripe' e a única preocupação dele é filtrar os principais vírus, 'compor consciente, como um exercício: venho aqui pra casa e fico horas mexendo com música'. Quando não está compondo, constrói móveis. As cadeiras, de barril e couro - 'parece que custaram uma fortuna' - foram feitas por ele. Orgulha-se de estar em dia com o aluguel do apartamento modesto na Tijuca, onde mora, vista para uma pedreira cinco metros à frente das janelas. Tem pago tudo sem ajuda, 'só com minha carreira de compositor hermético, brinca ele.
Sem  ser uma nova candidatura ao trono desocupado por Geraldo Vandré, Gonzaguinha tem recebido um tipo de aplauso parecido, depois de ter ouvido muitas vaias sem se abalar. No caso, para ele, é apenas uma questão de imagem preconcebida do público, da qual não tem culpa. 'Qualquer pessoa pode ser chata, antipática, antes que você se aproxime dela', justifica-se. Entre Gonzaguinha e Vandré, porém, parece guardar-se uma distância. Comportamento Geral e Sorriso nos Lábios não apresentam necessariamente uma guinada na minha carreira nem são a única coisa que sei fazer'. De seu próximo elepê, que já começou a ser pré-gravado para apresentação à Censura, há músicas completamente diferentes 'daquelas que o público vaiava. É uma carreira de equilíbrio difícil, mas meu pé é da largura do arame'. "

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