Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Gal Costa - Revista Música (1977) - 1ª Parte



Em 1977, a revista Música trouxe uma boa matéria sobre Gal Costa, onde são relatados vários fatos de sua carreira, e tem vários de seus discos e shows comentados. O texto é assinado por Maria Cecília:
“Em 1973, o cenário do show-business brasileiro é bafejado por ares inovadores e sensuais. E um espetáculo, cujo carro chefe é uma antiga guarânia, até então sinônimo de mau gosto, passa a atrair a atenção da crítica especializada, dos espectadores mais afoitos e dos menos interessados. Uma nova imagem delineia-se no palco, onde a boca rasgada e generosamente vermelha disputa com as pernas bem torneadas os ávidos olhares dos antigos e recém-conquistados fãs.
Pudico invólucro – Hoje, no limite do décimo-primeiro ano de carreira, Maria da Graça Costa Pena Burgos, 31 anos, reconhece a importância e o inusitado de ‘Índia’.
Assim, uma complexa fusão do natural arrojo de Caetano Veloso ao sugerir a guarânia e os passos de dança, a elaborada direção musical de Gilberto Gil somam-se à inclusão do hábil sanfoneiro Dominguinhos num salutar resultado forró-funk. ‘Era um show com detalhes de sons, como os tímpanos e a percussão. E muito rico visualmente. Além disso, o meu canto era muito bem feito. Eu dançava pela primeira vez, e eu mesma me dirigia no palco.’
A surpresa, contudo, não se restringe ao show. E, no disco, uma capa dupla apresentava uma Gal/Índia seminua. Naturalmente, a censura veta e um pudico invólucro de plástico preto passa a esconder, e, por isso, a atrair nas lojas de disco a ânsia da imagem. ‘Eu não gosto muito daquela capa. Fiz as fotos e viajei em excursão pelo norte e sul. Quando voltei já estavam prontas, e a Philips me pressionou para que o disco saísse. Eu resisti à princípio, mas depois concordei. A ideia da capa é muito boa, mas foi mal realizada. O show, eu adorava.’
O disco, por sua vez, também não conta com uma aprovação irrestrita. A excursão marcada e consequentemente uma época agitada, difícil, explicam a pressa desse trabalho, ‘um disco no sufoco’.
A imagem adquirida a partir daí, entretanto, é rigorosamente cultivada. A magreza, graças à macrobiótica, os cabelos armados e soltos, a boca fortemente vermelha, o som funk, ao lado da envolvente sensualidade, formam ingredientes indispensáveis ao fiel público: a juventude. ‘A sensualidade é uma coisa muito brasileira e bacana. Eu sou um símbolo no Brasil, porque sou uma pessoa sensual. E ligo muito música à sensualidade. Me sinto sensual quando canto. Isso já é da minha alma, é inevitável. É muito bom porque as pessoas nos shows podem procurar a mulher, a coisa do sexo, a cantora que canta bem e a pessoa louca. A cantora ligada à juventude, o cabelo desalinhado.’

Ceder demais – Na verdade, um fato real e acima de tudo instintivamente cobrado. As reações em ‘Cantar (74), um espetáculo calmo, perfeccionista, à semelhança do trabalho com João Gilberto, e, exceção à regra, exibindo Gal um discreto vestido rosa, recebe de forma unânime comentários lamentosos. ‘Mas eu fiquei contente. Era um show lindo, muito musical. As pessoas reclamavam porque eu estava muito queita. E escondia um lado meu, que acham qualidade. O meu corpo. Reclamações, no entanto, benvindas, ‘pois fugir um pouco daquela imagem é quebrar um compromisso, de certa forma já esperado, e não convém ceder demais’.
Exatamente o mesmo posicionamento que orienta a escolha do repertório. Além da própria Gal, pessoas amigas e o empresário Guilherme Araújo têm também livre acesso às sugestões. O melhor exemplo é o elepê ‘Cantar’.
Produzido por Caetano Veloso, revela nas músicas, nos arranjos, uma visão dele próprio sobre a cantora e intérprete. ‘Cantar  foi feito emocionado, bem cantado, liso. ‘Canção que Morre no Ar’ é uma faixa que me emociona. Esse disco é uma coisa que eu tenho. Eu sei emitir a voz com perfeição, com clareza, com afinação, num timbre bonito. E na hora que eu quiser. Mas tem o outro lado importante, que é o cantar emocionado, sujo, onde a nota sai desafinada, mas a emoção canta também. Um lado mais animal, impulsivo, que eu acho um barato. E que eu também tenho. Foi um trabalho que me enriqueceu como intérprete.’
Subir e descer oitavas – ‘Cantora, cantora mesmo é Gracinha. Cantora para dar aquele tom certo, cantora é mesmo Gracinha.’ (João Gilberto)
A entusiástica afirmação do grande ídolo, mestre, como ela própria costuma definir, capitaliza, e ao mesmo tempo esbarra em marcantes características ditadas, acima de tudo, pela emoção. A naturalidade, e a espontaneidade substituem, dessa forma, apuradas técnicas didáticas. Eu tenho uma técnica natural de colocar a voz. Já nasci com isso. A respiração é uma técnica natural minha. O fato de segurar a respiração, a fim de a emissão ficar ou não mais longa, e subir ou descer oitavas, é espontâneo para mim’. Hoje, contudo, a experiência traz uma conscientização maior, ‘eu já faço feito’.
O que não significa, entretanto, uma placidez e constância inabaláveis a situações e climas musicais. Gravar em estúdio, por exemplo, não era, até a pouco, uma situação encarada com satisfação. ‘Eu gosto de movimento, de emoção. O estúdio é muito limitado. Mas agora, com ‘Gal Canta Caymmi’ (76), eu aprendi a gostar de estúdio. Aprendi a ter a espontaneidade necessária e descobri como ficar relaxada, despreocupada. A incorporar esses dados ao trabalho em estúdio. Hoje eu gosto de gravar.’

Marcantes alterações, no entanto, somam-se ao mero trabalho de estúdio. E mesmo o fato de Caymmi, um compositor mais velho, ser o responsável por toda a seleção, contraria uma discografia onde normalmente autores clássicos unem-se a elementos novos como Luiz Melodia, Carlos Pinto e Péricles Cavalcanti. Dessa forma, Hermínio Belo de Carvalho tem sua coleção de discos de Caymmi solicitada e, durantes seis meses, audições diárias e uso do violão conseguem a solução ideal. ‘Só faço esse disco se puder incorporar nesse trabalho uma linguagem nova, a imagem do meu trabalho. Canto samba, eu boto funk e mudo um pouco o ritmo da música. E isso foi feito. Tem a minha mão em tudo. Na escolha total do repertório, na realização musical e até na escolha da capa. Eu não sou arranjadora, mas transmito para o músico o que imagino, o clima para cada música. Perinho Albuquerque, o arranjador, fez tudo como eu quis. Então é um disco muito meu.’
Cuidadosas elaborações e o fortalecimento como personalidade aliam-se a inovadoras situações: surge uma nova cantora. ‘Quando eu me ouço cantando, parece uma pessoa nova. A emoção, o jeito de dizer as palavras. Eu acho que a palavra é mais valorizada que a música. Eu sempre tive uma ligação com a música em termos de música pura mesmo. A emoção, a palavra traduzindo a carga de emoção, era menos acentuada. E mesmo o dizer as palavras é mais claro, mais firme, mais maduro. Como a forma de sentir, de cantar, de dizer as coisas. A minha postura, na época, era nova. O olho era diferente.’ "

(continua)

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