Palavras Domesticadas

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domingo, 15 de fevereiro de 2015

David Nasser Fala de Caetano - 1971 (1ª Parte)

David Nasser era jornalista, cronista e compositor. Porém tinha posições políticas reacionárias, sendo um apoiador do Golpe de 64, e costumava em suas crônicas denunciar personalidades e artistas de esquerda, e exaltar o governo militar. Por isso é um personagem que à principio, eu jamais incluiria nesse blog. Mas uma crônica escrita sobre Caetano Veloso (que ainda vivia no exílio londrino) e publicada na revista O Cruzeiro em fevereiro de 1971, me surpreendeu pelos elogios ao compositor baiano, que em tese seria mais um artista a ser criticado por suas posições esquerdistas. Talvez, por ser também um compositor (teve várias de suas músicas gravadas por Nelson Gonçalves e outros intérpretes), Nasser tenha tido a sensibilidade de reconhecer o grande artista que Caetano já era na ocasião. Isso é uma prova que o pensamento direitista daquela época era menos burro e sectário do que nos dias atuais. Caetano, inclusive gravaria uma música de David Nasser, Baião da Penha, no disco Circuladô. Segue abaixo a primeira parte da crônica, que teve por título "Inseminação Artificial":
"A menina do lado quer saber se gosto de Caetano Veloso. Claro que gosto. E das suas músicas? Claro, claro, menina. E da sua cabeleira? Claro, claro, claro. Gosto do arzinho celestial com que ele nos olha com aqueles olhos de Maria Bethânia, sua irmã de berço trocado. Gosto do andaime novo de harmonia que ele pôs em suas canções, usando a madeira velha de Xavier Cugat. Há juventude, alegria, otimismo na música desse bom baiano. A gente se lembra de como apareceu, naqueles programas de Blota junior, na TV Record, eta baianinho anêmico e cabeludo deixando meio mundo bestificado com sua prodigiosa memória de letras e músicas do passado. Num instante, como foguete, Caetano se projetou ao infinito de uma glória falsa e legítima. Falsa pela pressa. Legítima pelo talento.
O prestígio que a televisão dá ao artista brasileiro (não sei se no resto do mundo é assim) é rápido como gozo de galo. Vem depressa, vai depressa. Aqueles que têm cabeça (como Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra0 usam o vídeo em doses homeopáticas, cortam o monstro em fatias. Caetano Veloso, poeta vivo, excelente musicista, demonstrou bom senso em parar (ou, antes, em dar uma parada) quando sentiu que o mito estava oco de cupim.
Por estranho que pareça, a Revolução foi o pretexto utilizado por vários artistas que emigraram num falso exílio. O exílio promocional(*). Entre eles, estava Caetano Veloso. Sim, e possível que tenha havido excesso na repressão, que algumas cabeleiras tenham sido cortadas, injustamente, que esta ou aquela autoridade tenha se zangado com uma linguagem que, de tão simbólica, de tão oculta, estava na cara - e a zanga do coronel ou do delegado, sei lá, terminasse o festival de um socialismo promocional, inautêntico, regado a bom uísque escocês. Daí para justificar o autodesterro vai um oceano de boa vontade.
A maioria dos compositores brasileiros - de comunistas ou, usando expressão mais doce, de socialistas, só tem a barba, a cebeleira, o rótulo. Fazem boa música, trabalham sobre boas letras, porque vêm de uma geração lítero-musical universitária bem melhor que as anteriores, mas sabem que o povo gosta dos canários que cantam nas gaiolas. Por isso se apresentam como vítimas. Houve uma excessão: Geraldo Vandré. Mas este, também, foi longe demais. Cabra-da-peste.
A música é a pátria. A primeira base que depois da língua se procura destruir é a maneira de cantar de um povo. Todas as fronteiras, então, desaparecem e aí começa aquela história de operários de todo o mundo, uni-vos.
O brasileiro tem horror ao ridículo. Virou moda ser tachado de quadrado ou de ufanista brasileiro que falasse de Brasil. O próprio ritmo do samba, vindo nos terreiros da Bahia, virou antiguidade, museu de cera, velharia. Numa época em que todo o mundo cultua seus valores definitivos e eternos em todos os campos, mantendo-os vivos e sagrados juntos aos valores novos e sagrados juntos aos valores novos, o Brasil enterra antes da morte seus maiores. Ary Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo - nunca lutaram tanto para sobreviver como depois da morte.
 A televisão cria mitos e os fulmina. Daí essa estratégia inteligente do exílio voluntário. Não posso imaginar que , numa terra em que se lhe ofereça 50 milhões antigos por apresentação, o sr. Caetano Veloso se considere um banido. Um banido que pega o avião tranquilamente no Aeroporto do Galeão, vai até a Bahia, assiste à missa da mãe com os bentinhos no pescoço e fica à espera de que os convites lhe entrem pela casa aos borbotões, subindo, subindo sempre na cotação do mercado musical."

(*) Revolução é como era chamado o Golpe de 64. Nesse trecho de sua crônica, e em alguns outros, Nasser deixa aflorar sua veia reacionária, ao afirmar que alguns artistas se autoexilaram como uma forma de promoção, embora reconheça uma rigidez exagerada no caso de Caetano.

(continua)

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