Palavras Domesticadas

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Gonzaguinha - A Busca do Equilíbrio nos Caminhos do Coração (1982)


 Em 1982 Gnzaguinha já era um compositor e cantor consagrado na MPB.  Suas músicas eram gravadas por diferentes intérpretes e seus discos eram aguardados com expectativa. Assim foi com Caminhos do Coração, álbum que estava sendo lançado na época, e que ganhou uma matéria com entrevista na revista Música nº 63, em texto assinado por Tetê Ribeiro:

"Quando Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior - o Gonzaguinha, apareceu como compositor, em 1968, no I Festival Universitário da Música Popular com 'Pobreza por Pobreza', e no ano seguinte classificava-se em primeiro lugar com a música 'O Trem', as pessoas não poderiam imaginar que um dia aquele jovem franzino e introvertido seria uma das figuras mais respeitadas e que já começava a solidificar seu espaço na história da MPB.

A cada disco, a cada show, Gonzaguinha - além do seu crescimento como pessoa e intérprete - confirma a coerência e o conteúdo de sua obra, construída com muito chão-pó-poeira. Ao longo desses anos, Gonzaguinha, filho de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que nasceu no bairro do Estácio, na barra pesada do Rio de Janeiro -, sempre foi uma figura polêmica e controvertida, amada por uns, contestada por outros.

Hoje, quando acaba de lançar - Caminhos do Coração - o décimo elepê de uma carreira de 15 anos, Luiz Gonzaga Jr., afirma que muita coisa mudou. - 'Eu tenho consciência de que não sou o mesmo. Talvez eu não esteja sendo tão severo quanto eu era anos atrás, a ponto de Gilberto Gil me colocar que eu não deveria ser tão severo com as pessoas. Estou me mostrando mais, me questionando, conversando com as pessoas, estou num momento de auto-crítica, de muita calma. Porém, continuo sendo uma pessoa de muito trabalho, uma pessoa que quer aprender sempre porque não sou, nem quero ser verdade absoluta, ninguém é verdade absoluta. Faço o que faço com a consciência que tenho. Sou uma pessoa preocupada em aprender constantemente, nunca estacionar como pessoa.'
Música: Muitas cantoras estão gravando músicas suas, como você vê isso?
Gonzaguinha: 'Não sei explicar o porquê, acredito que seja consequência de um trabalho sério.'
M: Você fez 'Uma Canção de Amor' e "Quarto de Hotel' especialmente para Joana, e 'Redescobrir', para Elis. Você faz música por encomenda?
G: 'Eu trabalho por encomenda; uma pessoa cantar uma música minha é uma relação de amor. Eu só faço música para uma pessoa quando eu a conheço bem.'
M: A lacuna deixada por Elis Regina pode ser ocupada por outra intérprete?
G: 'Como Elis Regina só ela mesma; e não existe sucessora para esta ou aquela cantora.Existem pessoas que têm grandes trabalhos como Maria Bethânia e Gal Costa; outras com um caminhar muito longo como Simone, Joana, e Clara Nunes; cada uma será acontecendo dentro do seu tempo, porque cada uma tem seu trabalho. Não se  pode dizer que uma determinada intérprete será sucessora de Angela Maria ou de Elizete Cardoso; a história de ambas, o trabalho delas é completamente diferente. É como querer que apareça um novo Chico Buarque, um novo Milton Nascimento ou um Gilberto Gil. O novo é justamente porque porque não é. Então isso não existe, é uma colocação limitada.'
M: Compor muito num curto espaço de tempo pode levar a uma repetição?
G: 'Às vezes eu me repito um pouco; se se repete num aspecto de memória é perigoso, porque pode levar a uma acomodação.'
M: Você declarou algumas vezes que todos os trabalhos são uma vida. Caminhos do Coração é mais um momento seu?

G: Minha relação é trabalho-vida, eu não separo um do outro, porque se eu faço um trabalho e o exponho aos mais variados entendimentos, é minha vida que está ali.'

M: Em 15 anos de carreira e 10 discos, o que você modificaria  no seu trabalho?

G: 'Cada vez que se trabalha ou que se realiza um trabalho, está se vivendo todos os trabalhos, os quais são uma vida. Não existiram momentos ou trabalhos mais fortes. Ou mais forte será. Quanto à modificação, eu gostaria de gravar novamente os meus primeiros discos; justamente para ver a prática do hoje ou do ontem. Acho que não teria muito sentido colocar músicas daquela época hoje, tudo é espaço-tempo.' 

M: A objetividade é algo muito mais forte nas suas músicas, porém muitas pessoas a questionam. Como você encara isso?

G: 'A clareza e a objetividade são uma necessidade; acho que de repente as pessoas acham que objetividade incomoda. A música 'Quarto de Hotel' fala da solidão de uma pessoa, porém nem sempre quando você está só significa que a pessoa esteja se sentindo só, ou vice-versa. Eu acho ótimo esse tipo de questionamento porque de repente eu percebo que meu trabalho está passando uma mensagem pras pessoas, está tocando as pessoas.'

M: Você não tem muitas parcerias, por quê?

G: 'Acho que é uma questão de oportunidade, porém já fiz algumas músicas com meu pai e Miltinho; e compor sozinho é uma prática que pra mim não é difícil.'

M: Como você vê o reconhecimento tardio do trabalho de pessoas como João do Vale, seu pai e o falecido Jackson do Pandeiro?

G: Toda vez que uma pessoa morre - no caso Jackson do Pandeiro - prestamos grandes homenagens, se bem que o trabalho do Jackson já é reconhecido. Meu pai é uma pessoa que está sempre atuante, mesmo sendo marginalizado. Infelizmente, esses coisas ainda acontecem.'

M: As crianças estão sempre presentes nas suas músicas. Qual sua relação com elas?

G: 'Minha relação com as crianças é ótima, principalmente porque eu sou meio moleque, meio criança. Tenho um filho - Daniel, 10 anos -  somos muito amigos e eu aprendo muitas coisas com ele. Devido a essa relação forte com as crianças, estou pensando em fazer um trabalho em teatro; um musical provavelmente.'

M: O que é 'Caminhos do Coração'?

G: 'É vida, é sentimento, é meu momento de calma, é mais vida. 'Caminhos o Coração' é uma espécie de sucedâneo do 'Coisa Mais Maior de Grande, Pessoa'. 'Caminhos do Coração' foi um disco que eu não estava a fim de fazer, a minha situação emocional no momento - acabei de me separar da minha mulher. Depois achei que eu não deveria esconder esse momento que estou vivendo; então, entrei no estúdio e fiz o disco, que não tem muita ordem como nos anteriores; não foi proposital, aconteceu de sair assim. 'Caminhos do Coração' é vida mesmo, 'Maravida' tem vida, 'Felicidade' tem vida, 'Ser, Fazer, Acontecer' tem vida. A música que dá nome ao disco é muito importante pra mim. É muito do que eu vivi e viverei; é uma coisa de muito que andar por aí e cada vez com maior profundidade.' "







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