Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Roberto Menescal Fala Sobre Os Novos Baianos

Os Novos Baianos passaram pela gravadora Philips/PolyGram, cujo diretor artístico era Roberto Menescal. No livro Essa Tal de Bossa Nova, Menescal conta vários casos envolvendo artistas com os quais ele manteve relações pessoais e profissionais. Sobre os Novos Baianos ele deu o seguinte depoimento:
"Novos Baianos foi uma coisa muito nova no Brasil, tanto na música quanto no comportamento. Quando eles conheceram João Gilberto, tiveram uma grande influência dele e conseguiram misturar muito bem a proposta inicial com aquilo que eles  tiraram do encontro com o João. E a partir dessa mistura eles começaram a fazer uma coisa mais puxada pro samba, meio 'Preta Pretinha'.
Eu estava acompanhando a carreira deles de longe, até que eles assinaram com a PolyGram para fazer um trabalho e me pediram para bater um papo com eles, fui visitá-los no apartamento onde moravam.
Quando eu cheguei, eles me receberam em uma sala completamente vazia e com as luzes apagadas. Alguém já chegou dizendo pra mim: 'Menesca, Menesquinha! Festinha, festinha!'.
Passamos pelos quartos, e em cada um deles havia três barracas de camping, e cada família morava em uma. Unindo uma barraca à outra, havia bandeiras de São João. O prédio onde eles moravam era simples, mas estavam em uma cobertura com um terraço grande. Eles me levaram para o terraço e nos sentamos em uma mesa grande com bancos, e em volta da gente tinha um montão de crianças brincando, filhos deles e dos amigos.
Batemos um papo, e em algum momento me ofereceram um café. Daqui a pouco um deles veio com um recipiente grande com o café e servia as canequinhas de plástico usando uma concha de sopa.
Naquele dia tinha gravação marcada na PolyGram, então lá pelas cinco horas da tarde eu tive que voltar para a gravadora. Saí de lá meio tonto, me sentindo um pouco mal, e achei que deveria ser por conta de tudo aquilo que eles estavam fumando.
Quando entrei no carro eu já estava completamente loucão. A sensação que eu tinha é que todos os carros estavam vindo na minha direção, então fui dirigindo por cima do canteiro ali do Aterro do Flamengo. Perto do Museu de Arte Moderna, tinha sempre segurança do exército, da marinha e da aeronáutica, e eu quase passei por cima dos caras com o carro. Loucura total!
Cheguei na PolyGram me sentindo muito louco. A gravação já havia começado e eu cheguei dizendo que não haveria gravação nenhuma e mandei todos pra casa. A essa altura, todo mundo já estava me estranhando. Fui para casa e não conseguia dormir. Passei num dia e meio me sentindo assim.
Passado um tempo, estava conversando com o maestro Waltel Branco, que havia acabado de fazer um arranjo incrível para os Baianos.
- Todo mundo aqui achou que você arrasou nesse arranjo!
- É interessante que o arranjo não tinha ficado muito bom, os Baianos não tinham gostado. Mas aí eu estava ali no apartamento deles, tomei um suco de laranja que eles me deram e acabei escrevendo ali mesmo esse arranjo. Eu até fiquei tão empolgado com o arranjo que fui pra casa, não conseguia dormir e passei a madrugada inteira cortando grama!
Depois eu fiquei sabendo que alguém ali havia botado ácido no meu café pra eu ficar mais 'alegrinho' e também no suco do Waltel. Eu fiquei tão bravo quando descobri! Mas era o auge do movimento hippie, uma época de muitas loucuras no mundo inteiro. Mas, depois que essa época passou, cada um foi se encontrando e fazendo as suas carreiras de uma forma muito bacana."


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Eduardo Araújo - Rock, a História e a Glória (1976)

Em 1976 Eduardo Araújo vivia a sua fase mais roqueira. Após lançar o emblemático disco Pelos Caminhos do Rock, Eduardo lançava o disco seguinte, Sou Filho Deste Chão. Na época, a revista Rock, a História e a Glória tinha uma seção fixa intitulada Rock e Eu, onde era entrevistada uma figura ligada ao rock, seja artistas, jornalistas, radialistas, etc. Em sua edição nº 20 a revista entrevistou Eduardo Araújo, em matéria assinada pelo jornalista Caíto Gomide.
Na introdução da matéria foi destacado o seguinte texto:
"Do Rei do Rock de Minas ao Filho Deste Chão, passando por cachaça com farinha, lambretas, giradoras. Os Bons, Elvis e as raízes: os caminhos do ex-Garoto do Rock. 'Toda essa vivência culmina neste último trabalho, brasileiro num contexto universal, como Airto.' "
Segue abaixo a transcrição da matéria:
"Na adaptação do rock no Brasil, em termos de música, sempre foi conciliar as influências estrangeiras; no caso, o rock com ritmos originais, com as raízes.
Eduardo Araújo sempre buscou esse caminho, que por vezes é árido demais, mas num momento onde a criação musical do mundo inteiro se volta para o Brasil, é importante que se tenha um trabalho em resposta a essa exportação de influências.
Isso é uma preocupação capilar no novo disco de Eduardo Araújo, que soa nas caixas de som de seu estúdio, comprado após uma ligeira decepção com a música depois de seu disco Pelos Caminhos do Rock.
Eduardo fala com entusiasmo deste novo trabalho: funky, jazz, rock mas, principalmente, com uma pulsação brasileira inconfundível de capoeira, baião etc.
Seus músicos: Pestana (sax), Valdeci (baixo), Luciano (guitarra), Peninha (bateria), mais Eduardo & Silvinha concordam tacitamente que este novo disco, Sou Filho Deste Chão - nome de uma das faixas - traduz literalmente o ambiente como ele foi criado.
Importante investigar as origens desse trabalho, as quais se tornam claras, quando olhamos para trás na história de Dudu: quem não se lembra de Maringá, De Papo pro Ar, talvez as primeiras tentativas de conciliação do rock com a música brasileira?
Dudu estudava num internato em Belo Horizonte numa época sintomática: o filme Juventude Transviada impulsionava a juventude para um novo ritmo de vida; sua turma, a primeira a usar os ostensivos blusões de couro à James Dean, foi a primeira a tocar e dançar rock naquela época em parques públicos enquanto a polícia não chegava, escoltada por uma legião de lambretas.
'Neste momento, Mônica, filha de Eduardo: - 'Era parecida com a pestana sobre as 'giradoras': garupas das lambretas'.
Eduardo: ´Era parecida com a moto que meu pai tinha..., a resposta acompanhada da decepção de Silvinha de nunca ter andado na garupa de uma lambreta e da recordação de Pestana sobre as 'giradoras': gatas malucas que andavam nas garupas das lambretas.'
Nessa época, Dudu já tinha composto alguns de seus rocks, instintivamente com andamento de baião, por exemplo: - 'Cachaça com Farinha', que em um dos versos dizia: '... e o padre caiu no rock e todo mundo só pedia cachaça com farinha...'
E a carreira começa com 'Rock Around the Clock', cantado e dançado no programa 'Volta ao Mundo' de Rosana Tapajós, que focalizava a música dos Estados Unidos, com Dudu tendo um acesso de tosse em plena transmissão, devido ao primeiro cigarro fumado em sua vida. O passo seguinte foi a eleição de Rei do Rock de Minas Gerais e a formação de um grupo com Silvinha & Nivaldo Ornelas no sax.
Vindo para o Rio após uma fuga de casa cantou no programa Hoje É Dia de Rock, de Taumaturgo, que ficou impressionado com o swing diferente na música Be Bop a Lula, de Gene Vincent, produzido por uns gritos criados pelo 'Rei do Rock de Minas Gerais'.
Com o sucesso da primeira apresentação, veio a gravação do primeiro compacto: 'O Garoto do Rock', datado de 1958, com Baden Powell, Os Cariocas, onde a faixa 'Deixa o Rock' tinha inconfundível sotaque mineiro entre as inflexões vocais 'elvisianas'. Na mesma época, participava dos programas de Carlos Imperial: 'Os Brotos Comandam', 'Festival da Juventude', junto com Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps...
Em 65 com o sucesso da Jovem Guarda, Eduardo volta de seu retiro, como administrador de fazendas, a conselho de Imperial para encontrar seus velhos amigos como 'reis do yê yê yê'.
Grava O Bom, indiscutivelmente seu maior sucesso, e ganha um programa de televisão no extinto Canal 9 de São Paulo, dividindo a apresentação com uma velha amiga sua: Silvinha, depois namorada e esposa.
Nessa época, o sucesso de Eduardo era o inverso de Roberto Carlos com seu disco tocado na Boite Cave de São Paulo, e sua música curtida por uma certa elite que apreciava sua performance mais violenta que as peripécias juvenis de Roberto Carlos e do elenco da Jovem Guarda. Dessa época também consta a formação da primeira banda de rock, com 12 membros e logo depois o conjunto 'Os Bons', por onde passaram os guitarristas Lanny e Cacho Valdez e o baixista Villy Verdaguer.
Eduardo e Silvinha
Com a vazante da onda da Jovem Guarda, tenta um outro disco, A Onda É Bugaloo, com backgrounds de Tim Maia, e a faixa Você, que depois se tornaria hit de Tim Maia. Este disco era uma tentativa de introduzir o funky no Brasil e ainda numa apresentação no 'Programa RC7', com sua banda formada no Hotel Danúbio, causando o maior alvoroço nos bastidores do programa.
Eduardo atravessou a época das vacas magras da música brasileira de 69 a 71 vindo a gravar um LP em 71 com músicas tradicionais como 'No Rancho Fundo' e 'Ave Maria do Morro', arranjadas em ritmo de rock, esse primeiro passo concreto no rumo do som de hoje.
Desse disco até hoje, Eduardo gravou mais três lps, entre eles: Pelos Caminhos do Rock tendo problemas de divulgação e aceitação num sistema musical que não permite a evolução musical de seus astros. Seu novo lp, Sou Filho Desse Chão, será lançado em julho pela Copacabana, desta vez contando com sua banda bem coesa, apesar dos handcaps diversificados de seus músicos como o flautista Pestana e o baixista Valdeci, emersos da cultura urbana e da influência jazzística e de Luciano, guitarrista, companheiro de Pepeu, com estilo característico dos melhores choristas brasileiros, e por fim Peninha, baterista acompanhante de Peri Ribeiro e Leni Andrade, aluno de Walter Smetak.
'A realização de toda essa vivência musical, culmina neste último trabalho, diz Eduardo, onde eu procuro catalisar todo o conhecimento musical com o qual eu e meus músicos tivemos contato, colocando este disco essencialmente brasileiro, dentro de um contexto musical universal, característico das obras vanguardistas de músicos como Airto Moreira, Milton Nascimento e outros.' "


sábado, 24 de novembro de 2018

Jorge Mautner Fala de Luiz Melodia - Jornal Rolling Stone (1972)

Em 1972 Luiz Melodia ainda era um jovem compositor ainda pouco conhecido e inédito em disco. Seu primeiro álbum, Pérola Negra, seria lançado no ano seguinte, e revelaria um cantor e compositor dos mais talentosos de sua geração. Melodia, até então, já chamava atenção por ser o desconhecido compositor descoberto por  Waly Salomão, e autor de Pérola Negra, uma das músicas que mais se destacaram no aclamado show Fa-Tal - Gal A Todo Vapor, de Gal Costa em 1971.
O jornal Rolling Stone em sua edição nº 32, de dezembro de 1972, trazia uma das primeiras matérias com Luiz Melodia, assinada pelo sempre antenado Jorge Mautner, que tinha como título "Luiz Melodia, o gato eletrônico". Segue abaixo a transcrição:
"Luiz Melodia é um genial compositor, cantor e emissário da negritude na música popular brasileira. Autor de Pérola Negra, cantado por Gal Costa, Luiz Melodia é do Estácio de Sá, isto é: as raízes mais básicas da negritude brasileira.
Mas Luiz Melodia é ao mesmo tempo um salto de qualidade, ele é um sofisticado do morro, ou um intelectual de pensamento vertiginoso e que inclui em suas letras toda uma informação, absorção, um assumir de toda sua cultura negra de morro carioca. Orgulhoso de sua cultura, Melodia a meu ver reúne quatro grandes influências motoras:
1ª) A que emana naturalmente de seu meio-ambiente de formação, o morro carioca e a Escola de Samba de Estácio de Sá.
2ª) Blues de Jimi Hendrix e Janis Joplin.
3ª) Dramaticidade e informação pop, certas atmosferas melódico-poéticas que vêm de Roberto Carlos.
4ª) A de Gilberto Gil, o experimentalista, o alquimista da cultura negra brasileira, de sofisticação máxima, a quintessência.
Como se vê, as combinatórias produzem um produto complexo. Luiz Melodia tem em suas composições a consciência e ironia de quem enfoca as coisas com radicalismo, um radicalismo de consciência, consciência de sua negritude, de morro, de compositor de morro intelectual, e que vai fundo no amargor da existência, da amargura de sua luta, seus conflitos, e extrai daí não mais um lamento lindo mas complacente, extrai, isso sim, uma afirmação de uma alegria ativa, um ironizar criticando, mas sem perder a graça dançarina que é o conteúdo dionisíaco e vital da cultura afro-americana.
Um compositor em conflito, letras em conflito. Mas passando por cima e por dentro delas um bálsamo confortador. Um bálsamo de alegria positiva aqui agora, a sabedoria de sua cultura negra de ex-escravos, a afirmação da alegria do momento, em suma, o prazer. Uma música muito contraditória que faz sua ordem e união através da cadência do ritmo, da herança que vem dos velhos sambas, dos uivos do blues (samba dos irmãos lá do norte), daquela cadência que faz explodir em nós paisagens de maravilhas.
As músicas de Melodia são músicas de um homem ágil, um gato, um dançarino, um malandro. Melodia retransmite (agora em linguagem que adquiriu novos níveis de consciência) a mensagem de habilidade e sobrevivência que o samba sempre conteve. A música da sobrevivência, agilidade, pretos de morro sobrevivendo no difícil mundo (e eis o motivo deles retratarem também a nossa dor, pois especialmente no Brasil os brancos absorveram a cultura negra num nível maior e com muito menos resistências e conflitos do que, por exemplo nos USA. A dor de Melodia é nossa dor também, assim como a alegria, quase toda gente em nossa terra sabe batucar, o futebol anda de braço dado como  samba, heróis olímpicos pretos confundem-se com estandartes de escolas de samba.
Mas Melodia é um salto nessa consciência, ele já tem atrás de si a televisão, a influência do vídeo, as informações vertiginosas de nossa época, o próprio morro, o próprio Estácio de Sá possui antenas de televisão.
Suas músicas vão de uma ironia sobre o pitoresco, até variações sobre provérbios com emoção patética, até o sarcasmo e a tragédia. Sua música sofre dissonâncias e preciosismos difíceis mesmo de acompanhar, outras vão para o básico, retornam às raízes em plenitude. É neste ziguezague radical, neste dançar por entre agudos opostos que reside sua força e característica.
É 8 ou 80 a unidade deste ziguezague (digo-o novamente) é fabricada pelo ritmo afro-brasileiro do samba já banhado em blues, blues eletrônico, os dois interligados, como consciência panamericana, ritmo das Américas negras que se reconheceu e identificou, embora mantivesse em ambas manifestações características locais profundas.
Luiz Melodia, Estácio blues, seguindo o próprio autor, música do malandro eletrônico, no fundo um sábio, na verdade um mestre.
Luiz Melodia compõe muito, seu universo é tão rico, tão variado, tão forte, sua potência criadora, sua fome, sua sede, sua força vital tão elétrica, que músicas sucedem-se a músicas, como mensagens contínuas de uma passagem borbulhante, cheia de requebros e gingas, malandragens, a vida ali no conflito. Já na base e com toda aquela visão panorâmica de paisagem colorida que só tem quem mora no alto do morro, ou que partilha de alguma maneira de sua esfera mágica, de perspectiva de subida e descida, barracos coloridos, tradição cultural com estandartes, honras, prêmios, uma História e uma História mitológica, mitos, cortejos, desfiles.
E ao mesmo tempo o desafio da cidade, o monstro de concreto que pode se transformar a qualquer minuto se se fizer o gesto correto ou se disser a palavra certa e sempre mágica (pois o marginal sabe que o mágico é realidade e a fantasia algo concreto) num maná de possibilidades. O morador do morro faz parte da cidade, não é um homem do campo, jamais tem a sua ingenuidade, ele compartilha de maneira marginal (e por isso mais profunda pois vê as coisas de um ângulo absolutamente original) da vida da cidade.
O morro, a escola de samba em contradição com a cidade e fazendo parte de sua vida, eis o complicado temário de Luiz Melodia. Que paisagem rica! Tropical, carioca urbana, onde numa riqueza de aparições existe de tudo: histórias de sabedoria de preto velho, ironia sobre a vida urbana, diálogos de empregadas 'sacando' a vida das patroas, visão cósmica de quem vê o mundo lá de cima, às vezes cores puras, simplesmente beleza, xuxu beleza, vento, sol, passarinhos, outras é só a raiva, que brota muitas vezes, tantas vezes quanto a alegria e a informação de viver com o entusiasmo de gato selvagem urbano.
Eu poderia me estender infinitamente sobre Melodia, mas prefiro passar como um relâmpago, pois é assim que vejo Melodia, como um relâmpago poético, em pessoa se apresentando: um gato elétrico e nervoso com seus grandes olhos sempre sacando coisas, seu som eletrônico, seu sorriso incrível, um dos maiores artistas dessa terra, aprendo com Melodia mil segredos que a profundíssima cultura negra tem a transmitir, e agradeço a ele, e através dele toda a sua cultura que é tão nossa, volto novamente ao batuque e carnaval de nossa infância, e sempre volto aos mil trejeitos e gingas aprendidos com todos nós com a cultura africana, e às mil visões e pensamentos incríveis, fantasias que a cultura negra criou e que hoje estão absorvidas e fazem parte viva da cultura brasileira.
Melodia é o poeta do conflito, da paixão em tom eletrônico e afastado, incursões do novo sistema nervoso do homem urbano, voltar à velha saudade, um molho único peculiar, onde a efervescência da liberdade é tão forte quanto as vibrações de sua música."


quarta-feira, 11 de abril de 2018

Raul Seixas: O Delirante e Atrevido Elogio da Mentira (1977)

Em 1977, o jornalista e crítico Nelson Motta fez uma análise da personalidade de Raul Seixas, um artista controverso e talentoso, em sua coluna em O Globo. O jornalista em seu texto fala no costume que Raul tinha de inventar histórias a seu respeito, de mentir constantemente. Era uma marca na personalidade de Raul, que Nelson Motta analisa no texto abaixo:
"O atual show de Raul Seixas é cabal demonstração prática do auto-conceito que já expressou muitas vezes - e que, como muito do que disse -, não foi devidamente levado em conta:
- Eu sou um ator que representa o papel de cantor e compositor.
Não posso deixar de associá-lo a outro ilustre baiano, Glauber Rocha, ao dizer-se na realidade um político que se vale do cinema como forma capaz de melhor expressar suas ideias.
Ao contrário do que se pensa, num mundo de crescente cinismo, desencanto e pé-atrás, Raul não quer enganar ninguém. Ou melhor, quer enganar tanto e tão ostensivamente - por determinação própria e consciente - que a sua presença artística, como um todo, se apresenta cristalina em sua verdadeira essência e na plenitude de seu potencial desmistificador.
Inquieto e atento navegante dos mares de lama e púrpura das civilizações industriais de nosso tempo, Raul não se furta a viver plenamente as torturantes contradições que são próprias dos seres artísticos em geral quando criativos, e conscientes em particular.
Um dia ele me disse que havia feito (ou iria fazer, não interessa) um filme em que estaria pelas ruas de Nova York vestido de palhaço, abrindo latas de lixo e devorando com prazer quase sexual os restos da opulência e da pobreza da nação mais poderosa de nosso tempo. Tá legal, uma boa cena de filme, se bem interpretada. Ao lembrar-me dela vejo Raul mostrando como iria representá-la, no jardim da minha casa... E mais, tenho quase certeza que ele me disse que tinha vivido, ao vivo mesmo, de corpo presente, a cena supracitada. Deve ser 'mentira' dentro dos padrões tão estupidamente repressivo-punitivos que habitam o rigor dos pouco criativos. Afinal, é tão difícil e complexo - quase inatingível mesmo - conseguir perceber com clareza o real, que o exercício da imaginação se torna uma das formas mais ricas e bonitas de tentar chegar ao Real e à tentativa de sua compreensão...
Raul mente até cair de costas. Sempre, cada vez mais, com tal coerência e constância que tudo acaba se tornando exemplarmente verdadeiro aos que o veem e ouvem suas palavras - que são as de um ator, um grande ator, que às vezes representa melhor e outras, pior o seu papel de cantor e compositor.
Você, que é mais arguto/a, já deve ter notado que uma visão um pouco mais profunda do que representam o trabalho-figura de Raul Seixas, no momento nos remete obrigatoriamente aos signipecados da instituição universal da 'mentira', quase todos de origem moral - disciplina na qual são raros e complexos os mestres e tantos e intolerantes os cobradores.
Sem adentrar os breves receituários da 'mentira caridosa', 'mentira desinteressada' e outros qualificativos, diga-se que a fantasia e a capacidade de recriar a realidade representam atributos próprios dos artistas e como tal são aceitos pela sociedade, não no nível condenatório de 'mentira', mas já no status de 'arte' - a mentira consentida, aprovada 'moralmente' como atividade humana necessária à comunidade. Seria talvez um... 'mentir com arte'? E quando a mentira é tão bem e convenientemente contada que você a vive como real e como tal a incorpora, a seus universos interiores de memória, informações e emoções?
Agora... se você conta uma maravilhosa história que você (não) viveu e ela a todos encanta, a ponto de despertar as invejas e as imediatas suspeitas de que você não pode ter tido o privilégio de vivê-la, você passa a ser investigado e fiscalizado como um mentiroso.
A menos que - estranha 'moral' - ganhe a vida com isso; que torne suas mentiras ostensivas ao reunir pessoas especificamente para ouvi-las e fazendo-as pagar por isso.
Tantas vezes alguém é levado a recriar a realidade que consegue perceber por lhe ser insuportável a sua aceitação...
Tantas vezes alguém revela as coisas e pessoas não da forma como são vistas e aceitas mas à imagem e semelhança de suas reais potencialidades não exercidas...
São algumas ideias importantes para uma devida valoração do trabalho de Raul Seixas, que talvez por não se ter agregado a qualquer corrente, movimento ou partido musical-promocional-criativo, ainda não só tenha desfrutado de atenções mais profundas dos que pretendem - como quem separa 'o joio do trigo' ou os santos dos pecadores - colocar de um lado os 'artistas' e do outro os 'mentirosos'...
Tipo solitário, introspectivo, tímido, Raul representa o exato oposto a isso como artista criador - e como tal assusta as pessoas, desperta-lhes o temor de atribuir-lhe alguma forma de 'seriedade' e depois perceber que tudo não passava de um grande deboche, desperta-lhes inveja pela capacidade de exercer de forma tão competente as suas fantasias; sejam elas Elvis Presley, Bob Dylan, John Lennon ou Raul Seixas mesmo, o seu próprio e mitológico personagem favorito.
No seu show ele aparece de roqueiro/70, alto rockand-roller/50 e como underground-maquis/60. Tudo uma supercascata, justamente porque ele recorre a esses símbolos tão fortes, que marcaram três gerações, para expressar a sua própria realidade e suas contradições; porque se sente exatamente como quem viveu e está vivendo realidades gêmeas das formidáveis 'mentiras' que seu talento e atrevimento transformam na realidade concreta de um dos mais interessantes, surpreendentes e ágeis artistas de sua geração: a que está na faixa dos 30. Ou dos 97? Ou dos 14 e meio? Ou dos 0,83? Ou..."

sábado, 31 de março de 2018

The Beatles (Álbum Branco) - Um Disco Controvertido

O disco que ficou conhecido como Álbum Branco, de 1968, é um álbum que apesar do bom resultado final, foi gravado num  clima de grande discórdia pelos Beatles. Apesar de ser um álbum duplo, o que leva a entender que havia uma grande produção musical, e portanto, que os quatro integrantes estivessem numa fase de grande criação coletiva, a verdade é que a banda estava bastante dividida, e o clima de união não existiu no estúdio. O núcleo mais criativo do quarteto, a dupla Lennon/McCartney praticamente não trabalhava mais em dupla. Lennon estava cada vez mais envolvido com a heroína, e seu envolvimento cada vez mais próximo com Yoko, o levou a praticamente não se envolver com a gravação do álbum. A ausência do empresário Brian Epstein, morto no ano anterior, também ajudou a causar uma ruptura entre John e Paul, já que os dois não entraram em acordo com relação à gestão dos negócios da banda. Enfim, o clima estava péssimo.
Nos anos 80, a revista SomTrês lançou uma série de revistas-poster dos Beatles, cada uma contando a história de um álbum da banda. No edição sobre o Álbum Branco, esse foi o texto que acompanha o poster, que media 1,10 x 0,90:
"- Ali não há nada de música dos Beatles (...) É sempre John e a Banda, Paul e a Banda, George e a Banda... E eu gostei muito de trabalhar assim.
A declaração, referente ao chamado Álbum Branco, é de John Lennon. Foi durante uma entrevista, anos depois do lançamento do LP, primeiro álbum duplo dos Beatles. Era também o LP de estreia do selo Apple que, até então, só havia editado o compacto 'Hey Jude'/Revolution', cerca de três meses antes.
Tão controvertido quanto os trabalhos anteriores (Sargent Peppers, Magical Mistery Tour), o Álbum Branco, como ficou conhecido) foi gravado de maio a outubro de 1968. As gravações não foram muito tranquilas e já prenunciavam o fim: começavam as crises que levariam à ruptura de um dos maiores fenômenos da música contemporânea.
Poster que acompanha o disco
Chegou a acontecer mesmo uma separação dos Beatles, pois Ringo deixou o grupo, aborrecido com as críticas de Paul a seu estilo de tocar. Alguns dias depois, porém, ele voltou, pois os três pediram, repetindo incessantemente que ele era o melhor baterista do mundo. Mas os problemas não acabavam aí. Desde a morte do empresário Brian Epstein, ocorrida no ano anterior, que o grupo estava meio órfão. Paul estava atuando como líder, mas isso não era suficiente e estavam todos baratinados. Sem Brian, também a parte financeira da Apple estava mal administrada. E o pior é que quatro parceiros musicais se viram na obrigação de atuarem também como sócios de uma empresa. E nisso, eles não eram bons. Mas mesmo sobre a contratação de um novo empresário para a firma houve divergências: Paul queria seu futuro sogro, Lee Eastman, e John, Allen Klein.
O fato é que na hora de gravar e editar o LP ninguém estava muito entusiasmado, mas havia um contrato a cumprir com a EMI. O resultado é bem diversificado, mas em termos de qualidade, é homogêneo. E apenas reforça o que já sabemos: só gênios podem conseguir que um trabalho desleixado resulte num produto do nível do Álbum Branco.
A diversidade das faixas também atesta a genialidade dos Beatles: conseguem passar do rock pesado ('Helter Skelter') às baladas ('Blackbird' e 'Mother Nature's Son'), via Hollywood ('Good Night') em contraste com a loucura de 'Revolution 9'.
John e Yoko
Foram gravadas cerca de 40 faixas, a maioria das quais, composta durante a viagem à Índia, quando estiveram com Maharishi Mahesh Yogi ('homenageado' por Joh Lennon em 'Sex Sadie'). Algumas foram, então, eliminadas, entre as quais, 'What's the New Mary Jane', que seria lançada em compacto, mas continua inédita até hoje. Restaram 31: 4 de George, 1 de Ringo e 26 assinadas por John e Paul. Apenas assinadas, pois não compuseram juntos (com excessão de 'Birthday'). Em geral, o autor é aquele que faz os vocais principais. Na verdade, cada um fez o que quis nesse disco. E, como sempre, acertou.
A capa branca é uma compensação à parafernália dos últimos trabalhos e traz apenas o título do LP em relevo. Dentro, os títulos das faixas e uma foto preto e branco de cada um. Como encartes, as mesmas fotos em cores e um poster com uma colagem que já foi chamada de 'versão visual de Revolution 9'. Do outro lado do poster, as letras. É ver, ouvir e conferir mais uma vez. Beatles 4 ever. "

quarta-feira, 28 de março de 2018

Djavan: "Minha Música É Minha Cabeça" - Revista Pop (1979)

Djavan se lançou na música nos anos 70, primeiramente participando de trilhas de novelas, e também se destacando no Festival Abertura, da Globo, em 1975, ao se classificar em segundo lugar com "Fato Consumado". Em 1976 lançou seu primeiro LP pela Som Livre, já mostrando uma musicalidade diferente, com muito balanço e suingue, além de escrever letras bem criativas. Mesmo assim, só viria a gravar seu segundo disco, "Cara de Índio", em 1978. Na edição de março do ano seguinte, a revista Pop trazia uma matéria com o músico, que começava a chamar a atenção e fazer sucesso. A matéria é assinada por Leo Correa, e traz o título "Djavan: 'Minha Música É Minha Cabeça' ":
Cara de Índio está fazendo sucesso. A música, tema da novela Aritana, da TV Tupi de São Paulo, é também o carro-chefe do disco que marca a estreia de Djavan Caetano Viana na gravadora EMI-Odeon.
Para Djavan, o sucesso de Cara de Índio é consequência de um pensamento que ele sempre defendeu: Não há distinção entre índios e nós, o povo em geral. 'Do meu ponto de vista', diz ele, 'estamos todos diante da mesma situação, isto é, cercados.' Na letra da música, ele procura deixar claro esta identidade comum: 'Nessa terra tudo dá, terra de índio/ Nessa terra tudo dá, não para o índio/ Apesar da minha roupa, também sou índio'. Mas, quando a gente pergunta se ele se inspirou nas discussões sobre a emancipação do índio, tão em moda ultimamente, Djavan nega: 'Fiz essa música há mais de dois anos, porque é um lance que sinto desde garoto. Para mim, isso que está acontecendo é apenas uma gota d'água diante do problema real, muito mais amplo'.
Alagoano de Maceió, Djavan foi considerado um sambista na época em que gravava na Som Livre. Este seu segundo trabalho revela o lado nordestino de sua música, em faixas como Alagoas e Estória de Cantador, esta última baseada na tradição e na linguagem do cordel. Ele demonstra ser também um bom cantor e compositor romântico da música na bela e sensual Álibi, que Maria Bethânia gravou com honras de faixa-título. Na área do samba, suas harmonias e divisões situam-no no samba numa linha progressiva, ao lado de Gilberto Gil, Jorge Ben, Paulinho da Viola e outros renovadores do gênero.
Participando do Festival Abertura, em 1975
Aos 29 anos de idade (e dez de batalha artística), Djavan acha que existem muitos outros caminhos a explorar. 'Tenho um som essencialmente nordestino, com todas as influências que recebi na região. Coisas que vão de Luiz Gonzaga a Lupiscínio Rodrigues, Angela Maria, e por aí afora. Mas também tive meu grupo de rock, lá pelos 18 anos. Chamava-se LSD (explica, rindo, que o nome se referia a luz, som e dimensão). Quem não cantava música dos Beatles naquela época? O jazz veio depois, junto com a Bossa Nova. E comecei a compor em cima de tudo isso, meio de brincadeira, até que resolvi ganhar o mundo.'
No tempo da Som Livre, Djavan gravou trilhas de novelas, sempre cantando músicas de outros compositores. Em seguida veio o festival Abertura, onde ele se classificou em segundo lugar, com Fato Consumado, e gravou um compacto duplo, bastante executado. Seu primeiro LP mostrava sua preocupação com o lado instrumental. 'Explorei muito o violão, e o pessoal achou interessante. Mas aí fiquei sentindo, sem querer admitir, que isso não era o que eu queria, não era só aquilo que eu tinha pra mostrar. Sou uma pessoa mais inconstante, mais circunstancial.'
Grandes mudanças de lá para cá, consequência de seu amadurecimento pessoal e artístico, mostram hoje um compositor preocupado com músicas que mostrem também o cantor, não apenas o instrumentista. Hoje, Djavan mora em Vila Isabel, tranquilo bairro carioca da Zona Norte. Lá ele encontra o clima das peladas de rua e das conversas de botequim às quais se habituou durante sua infância, em Maceió. 'Hoje em dia as pessoas conversam muito pouco.', ele se queixa. 'Acabou aquele negócio de chegar na esquina, trocar ideias, saber o que as pessoas estão pensando. E eu preciso saber disso, minha música é isso. As coisas estão aí, pelo ar. Quem chegar primeiro pega.'


domingo, 25 de março de 2018

Gilberto Gil Fala de Refavela

Lançado em 1977, o disco Refavela, de Gilberto Gil, é um dos melhores trabalhos de sua carreira.  Trata-se de um álbum em que Gil revela toda uma influência não só da música africana, a raiz da música negra mundial, como também da black music e do movimento Black Rio, que vivia seu auge naquele período. Em 2012, ano em que completou 70 anos, Gil foi homenageado com uma série de fascículos, denominada Coleção Gilberto Gil 70 Anos. Sob pesquisa editorial e textos do pesquisador Marcelo Fróes, a série traz depoimentos do músico sobre seus principais álbuns, e o volume 8 da série destacava o disco Refavela. Abaixo segue o texto do citado fascículo:
" 'Quando eu fiz 'Refazenda' com essa densidade da revisita e da retomada, eu quis levar o 're' adiante e aí o segundo estágio foi o 'Refavela' - com a coisa da revisita ao mundo negro', lembra Gilberto Gil, 35 anos depois. 'Eu queria aprofundar a questão da revisita... e aí a oportunidade foi com a África e o festival na Nigéria, que foi uma coisa enorme! Na volta concluí que, depois da fazenda haveria a favela - ambos territórios importantes, periféricos ao centro da civilização brasileira. A fazenda era um canto, a favela era outro. O conceito já estava praticamente estabelecido, mas a coisa na África foi fundamental - porque a vila olímpica que se construiu para abrigar os 50 mil representantes que vieram do mundo todo era como os blocos do BNH aqui. Havia essa ligação direta. Havia em mim um gosto por esse trabalho conceitual, unindo elementos da sociologia, da política e da antropologia, tudo isso num nível popular... num nível pop', define.
Gil foi convidado a participar do 2º FESTAC - Festival Mundial de Arte e Cultura Negra - que aconteceria por cerca de um mês a partir do final de janeiro de 1977 em Lagos, na Nigéria.
Ainda no final de 1976, quando foi convidado, Gil não só aceitou como também montou uma banda especialmente para apresentar-se ao vivo no evento ´com Perinho Santana (guitarra), Cidinho (teclados), Rubão Sabino (baixo), Djalma Correa (percussão) e Robertinho Silva (bateria). 'Quando Robertinho Silva soube que eu ia pra África, ele bateu lá em casa: 'Quem vai sou eu! Não quero nem saber!' Aí eu respondi: 'Mas rapaz, você tem seu trabalho com Milton (Nascimento)...' Ele já havia falado e disse 'eu vou pra África com você!', lembra Gil. 'A ideia de fazer um novo disco surgiu na Nigéria', lembra Gil.
'Quando voltamos, Robertinho reintegrou-se à banda de Milton e chamamos Paulinho Braga para gravar conosco, mas mesmo assim Robertinho ainda voltou pra que gravássemos um compacto daquela banda que fora à Nigéria', historia o autor, que participou como co-autor e músico das duas faixas registradas pela Brazil Very Happy Band para a Polydor em maio de 1977. Antes, porém, Gil e sua banda - com Robertinho substituído por Paulinho na maioria das faixas - entraria no novo estúdio de 16 canais da Phonogram para registrar o álbum 'Refavela'.
Era época do movimento Black Rio, com o funk começando por aqui e Gil quis aproveitar a maré - começando por uma controvertida versão do Samba do Avião de Jobim. 'O disco era pra isso, para registrar os 'aforismos' que havia na época - como era juju music de 'Balafon' e os blocos afro-baianos de 'Ilê Ayê', lembra.
'Era Nova' já existia no repertório de Gil, quando fora feita para Roberto Carlos - que não a gravou -, enquanto que 'Sandra' tivera origem na prisão de Gil por porte de maconha durante a passagem dos Doces Bárbaros por Florianópolis em julho de 1976. Embora Sandra fosse o nome de sua mulher à época, e que a mesma tenha sido um discreto personagem na letra da música, como foram as enfermeiras do sanatório em que Gil foi internado por ordem da Justiça, Sandra e Andréa eram duas amigas tietes de Caetano e Gil. 'Refavela', 'Aqui e Agora' e várias outras foram compostas durante a viagem  à Nigéria. 'Eu trouxe um balafon típico da região do Golfo da Guiné e fiz 'Balafon' ', lembra-se Gil, que ficou feliz de ter o amigo Roberto Santana - dos velhos tempos de Salvador - na produção do novo álbum. 'Refavela' foi gravado entre o final de março e o final de abril de 1977, quando também foram registradas as novas músicas 'Sala do Som' e 'É', além de 'Músico Simples' (de 1974). Todas as três acabaram ficando de fora do LP, mas foram finalmente lançadas pela Universal Music no CD 'Satisfação' de 1999.
'Quando eu fiz 'Refavela', já sabia que era a segunda parte de uma trilogia que eu iniciara', comenta Gil. 'Mas eu tinha consciência de que a terceira parte não seria 'Refestança', complementa. Gil refere-se à turnê relâmpago que realizou com Rita Lee e seu grupo Tutti Frutti em outubro de 1977, e que rendeu o disco ao vivo 'Refestança' naquele Natal. É que a turnê 'Refavela', iniciada pouco após o lançamento do LP de Gil em maio de 1977, acabou sendo interrompida por falta de apoio logístico. Para alcançar o interior do país com um pouco menos de desconforto, Gil desejava adquirir um ônibus monobloco usado e solicitou que este custo fizesse parte do tour support pago pela gravadora, mas não foi atendido. Gil resolveu bancar o ônibus do próprio bolso e pediu rescisão contratual à Phonogram.
Gil não sabe se teria ido para a Warner caso a Phonogram lhe tivesse apoiado na aquisição do ônibus, então é óbvio que a saída do amigo André Midani da presidência da gravadora na mesma época acabou pesando. Midani deixara a Phonogram para ser o primeiro presidente da Warner no Brasil, quando a mesma aqui se instalou em 1977. O convite para integrar o cast da nova gravadora incluía nas luvas o reembolso do valor dispendido particularmente por Gil no ônibus da turnê de 'Refavela'. Lendas da MPB. "

sexta-feira, 23 de março de 2018

Aldir Blanc e os Deveres de Poeta e Cidadão - O Pasquim (1979)

Em sua edição de 30/03 a 05/04/79 o jornal O Pasquim em sua coluna "Todo Ouvidos", assinada pelo crítico Roberto Moura, falava do grande letrista e cronista Aldir Blanc, também colaborador do jornal, onde assinava ótimas crônicas. É uma bela análise sobre o grande mestre das palavras e seus parceiros na época, João Bosco e Paulo Emílio:
"Não, não foi uma grande entrevista e valeu exclusivamente pelo talento dos entrevistados. Pela própria posição vanguardista do suplemento Folhetim, da Folha de São Paulo, no contexto da imprensa brasileira, seria previsível que extraísse mais - pelo menos polemizando temas óbvios - da linha de passe formada hoje na MPB por João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio. Este último, aliás, mais tímido e menos conhecido, teve o seu grande talento e imenso potencial praticamente desprezados e, em consequência, Aldir comandou a linha de passe e deixou mofando os goleiros-entrevistadores como um centeralfe do passado. Foi o dono da bola e algumas de suas observações parecem iluminar todo este período dito das trevas na música brasileira, o que o letrista e contista veementemente repele e no que apoio.
Não, não, Folhetim. Esses meninos não vão 'ainda dar o que falar'. Vêm dando há anos (e, no caso de Aldir, seria conveniente lembrar sua participação no MAU, seus intermináveis festivais e seu definitivo Amigo É Pra Essas Coisas) e nem tão meninos são. Eu diria até que, do alto de seus trinta e poucos (somando os três deve dar um século de inspiração), estamos diante de três artistas absolutamente maduros, dos quais se sabe o que esperar e com os quais tudo é lícito discutir, sem recair no ramerrão da ingenuidade de artistas em formação.
É possível que eu e Aldir desafinemos em muitas coisas mas será sempre muito maior o números de coisas em que estamos permanentemente acordes - e sem trocadilho. Por exemplo, quando ele cita o semi-anonimato das coisas de Caymmi e a despreocupação absoluta do compositor em relação a isso como um ideal a ser perseguido. Recordo que, há uns dois anos, em entrevista às páginas amarelas da revista Veja, Caymmi declarava pretender compor 'uma música que se perdesse no ouvido do povo, que se tornasse uma coisa tão dele que ninguém mais se lembrasse de quem a fez'.
Aldir Blanc e João Bosco
De lá pra cá, citei esta frase algumas vezes (na verdade, me parece mesmo um padrão, assim como Carlitos está acima de Charlie Chaplin ou a Gioconda ultrapassou Leonardo da Vinci) e fico feliz de ver Aldir chegar à mesma conclusão por força de um raciocínio indiscutivelmente pessoal, pessoalíssimo: 'Bonito é ele, Caymmi, que fica lá, com aquela camiseta, aquele mar, aquele cabelo todo, enquanto numa gafieira qualquer você dança atraído pela música dele, mesmo sem saber que a música é dele. Esse é popular.'
A sutileza do pensamento de Aldir é que, ao mesmo tempo, ele não prega para o compositor, enquanto indivíduo, um comportamento passivo diante da sociedade e estabelece uma distinção que é simples (aliás, estas foram as declarações principais da entrevista e deveriam ter saltado para o título ou, no mínimo, para a abertura, que resultou um desastre). Quer dizer: 'a gente tem que compor paca, porque enquanto esta força estiver na rua, nós somos os compositores populares. Eu morro e o repertório continua, não tem jeito. Então, eu não tenho que reivindicar nada. A não ser como pessoa, mas aí já não é dever do compositor, e sim de qualquer sujeito que saiba que é uma pessoa política, né? Como tal, quero Anistia ampla e irrestrita, quero o meu dinheiro que é roubado paca, ainda hoje, pelas arrecadadoras, que não me pagam, por exemplo, teatro há dois anos. Agora, o que sou como compositor vai passar por cima disso tudo. E é claro que morrer de fome não é a glória, não. Chega desse tempo.'
Uma posição inatacável, tanto do ponto de vista estético (que não se escuda em ideologias para desculpar uma possível escorregadela) como do ponto de vista político (que não se furta a ter uma visão-de-mundo e externá-la sem receio, grupismo, oportunismo ou interesses menos nobres). No letrista e no cidadão, a mesma coerência que se verifica no contista, depois do lançamento, pela Editora Codecri, do original Rua dos Artistas e Arredores e seus personagens quase míticos a se moverem como doces fantasmas num habitat que - outro ponto de encontro entre o poeta e o crítico - nos é comum.
Outro reparo fundamental a uma espécie de consenso da inteligentzia nacional que Aldir Blanc faz dentro da maior lógica: 'na época do JK eu não faia música, eu era um garoto'. Esta frase conclui um argumento irrespondível sobre a discussão teórica imposta pela existência da Censura e por atividade artística desenvolvida apenas em eras mais amenas e favoráveis. Aldir explica que 'o outro lado que é tão falado, que poderia revelar talentos, eu desconheço. A situação tem uma hora que serve de capa para ocultar os falsos talentos. Então, discute-se como se nós conhecêssemos os dois lados da equação e eu não conheço.'
Baseado nisso, o que Aldir prega é o óbvio: que não se pode escolher a realidade em cima da qual se gostaria de trabalhar. O que é preciso é realizar alguma coisa, o possível, independente disso ser até, em determinadas circunstâncias, praticamente impossível. Este óbvio, porém, tem sido dificílimo de ser enxergado."

quinta-feira, 22 de março de 2018

Novos Baianos - Jornal Rolling Stone (1972)

Em sua edição de 15 de fevereiro de 1972, o jornal Rolling Stone, um marco na cultura alternativa brasileira, trazia uma matéria sobre um show dos Novos Baianos, acontecido no verão daquela ano no Rio . Na época, o histórico disco "Acabou Chorare" ainda não havia sido lançado, mas já estava sendo elaborado, e os músicos ainda moravam no apartamento em Botafogo, antes de se transferirem para o famoso sítio em Jacarepaguá. A matéria, intitulada "Novos Baianos: outra transação" é assinada por Joel Macedo:
"O que aconteceu na madrugada do último dia 16 no Teatro da Siqueira Campos foi de arrepiar. Os Novos Baianos e a Cor do Som transportaram a sua comunidade de Botafogo para o palco do teatro e fizeram o maior show que eu já vi no Brasil desde que eu me entendo por gente.
Apesar de D. Tereza Raquel com o apoio do empresário Paulo Lima cobrar 20 contos a entrada (10 para estudante, o que não é nada legal), à meia-noite, hora de início do show, as galerias do teatro já estavam lotadas. Grande parte do público de Gal resolve emendar e nem saiu do teatro em protesto contra o preço absurdo dos ingressos. Transações. Expectativa. Pepeu e Dadi entram no palco em penumbra e começam a acertar os ponteiros de suas guitarras. Moraes chega de manso e toma posição num banquinho. Baby e Paulinho Boca vão pra perto do microfone de voz. Quando Baixinho entra com seu bumbo verde-amarelo amarrado pelo pescoço, as luzes se acendem, e as guitarras, junto com o cavaquinho cheio de molho de Jorginho, começam a introduzir Brasil Pandeiro, a obra-prima exaltação de Assis Valente. Paulinho e Baby arrastam o vocal e a plateia desbunda.
Pepeu tinha seu amplificador a todo som e sambava com  a guitarra. Eu me lembro que a primeira vez que vi ele tocar, não entendi nada. Fiz crítica ao seu fraseado, achando grosso demais para o meu gosto, condicionado a anos por Clapton e Jeff Beck. O fraseado. Mas que touca é essa de fraseado. Com Pepeu é a malandragem em cima de uma guitarra. O Pepeu usa uma boina igual às toucas de meia dos moleques do morro. O Pepeu ri quando toca, se esbalda, solta tudo. O Pepeu balança, é o único cara no mundo que eu já vi sambar com uma guitarra na mão. E eu preocupado com o fraseado do Pepeu.
Quando um bando de desbundados entra num palco e toca Brasil Pandeiro, de Assis Valente, é sinal que uma coisa muito séria tá pra acontecer nos famosos 'rumos' da música popular brasileira. E que os Novos Baianos e a Cor do Som acabam de mostrar pra todo mundo, o caminho de casa.
O samba corria e Paulinho machucava seu pandeiro ao lado de Baby que bamboleava dengosa, merecedora dos maiores fiu-fius. Queiram ou não queiram, Baby Consuelo é a Rainha da Juventude Brasileira e não tem conversa. Baby arrebentando com a imagem da superestrela e curtindo tudo no maior relax. A plateia reagia como se estivesse em casa e aquilo parecia mais uma festinha íntima, que um concerto de entrada paga. Paulinho cantou 'eu estou apaixonado por você...' e arrancou suspiros da plateia feminina presente. E daí em diante tudo foi ficando cada vez mais bonito, e eu via bandeirolas por todo o palco, foguetes espocando e muitos cuscus e cocadinhas pretas. Teve uma hora que Moraes entrou de acordeom, Paulinho de maraca, e o encontro deles com as guitarras foi incrivelmente lindo como já estava sendo o encontro das guitarras com o alegre cavaquinho. Era um suingue alucinante e o som do rock nacional estava finalmente achado. E eu só não direi que se tratava de um samba-rock, porque os Novos Baianos também fazem dele um maxixe-rock ou um bolero-rock, música, enfim. O que aconteceu na histórica madrugada de 16 de janeiro  foi o encontro de várias culturas, a unificação de várias estreias e linguagens musicais, naquilo que daquele dia em diante passou a ser o som brasileiro do desbunde universal. Uma mistura de ponto de macumba com hard-rock, xaxado, baladas de Roberto Carlos, samba-enredo e muita queimação, da parte das tumbas, baterias, maracas, agogôs e pandeiros.
Paulinho Boca de Cantor
Paulinho Boca é a cara do novo ritmo, saltando com seu pandeiro como um jaburu elétrico. Paulinho é a mágica, a energia e o perfume do novo som brasileiro que pra dizer a verdade, não é novo, é sim, muito vivo e portador de grande antiguidade. E Herivelto Martins trazido à cena e o Bando da Lua com participação especial de Moraes e Galvão. A abelhinha zzummm... acabou chorare... eu sou amor... da cabeça aos pés... e depois foi Preta Pretinha enquanto corria a barca, um frevo rasgado que embarcou todo mundo nas águas do carnaval. Aí todo mundo brincou e pulou pelo palco e pelas arquibancadas do teatro. Era sugesta geral, Live, em pessoa. Gal Costa comandava um trenzinho na galeria e Waly Salomão não quis nem saber de se sentir recompensado por aquilo tudo - caiu firme na folia. Até o carnaval foi diferente. Dadi no seu baixo, contido e imóvel dava um leve toque de psicodelismo californiano na transação. Pepeu já não sabia mais se tocava ou entrava na dança e cada vez mais fazia os dois. O som todo foi uma brincadeira mas foi sério pra burro. E Brasil com suas loucuras e sua beleza não era mais uma crítica. Nem um simples folclore. Era uma verdade assumida com coragem e com muito orgulho. A voz da geral. A umbanda revolution que como linguagem não exige mais que CAIR NA PÂNDEGA!

terça-feira, 13 de março de 2018

Alceu Valença e Zé Ramalho - O Globo (1975)

Em sua coluna no jornal O Globo, de 28/08/75, o crítico Nelson Motta falava de Alceu Valença, um talento em ascensão na época. Projetado no Festival Abertura, da Globo, acontecido naquele mesmo ano, Alceu já era uma promessa de nossa música, fato que se concretizou ao longo de sua carreira. A matéria fala também de Zé Ramalho, que na época ainda era conhecido como Zé Ramalho da Paraíba. A matéria é intitulada "Alceu Valença: a descoberta (tardia) do danado de Catende", referindo-se a música "Vou Danado pra Catende", que Alceu defendeu no citado festival. Segue a matéria:
"Há muitos anos que Alceu Valença vem amadurecendo seu talento nos gostos amargos dos desinteresses, acomodações, fraudes e incompreensões. Agora o seu fruto começa a amadurecer, a ser notado pelo que Tárik de Souza chama com propriedade 'valor alimentício'. Também começa a tornar-se dourado, o que de certa forma também está atraindo os, digamos, 'fruticultores'. E até os vendedores de frutas. E está começando a chegar com seus sabores doces e amargos ao paladar das pessoas. No Teatro Tereza Raquel, ao lado de uma banda notável.
O primeiro impacto que me provocou Alceu Valença foi seu disco, lançado praticamente em segredo em novembro de 74. Depois, mesmo algumas opiniões respeitáveis que não viram importância em 'Abertura', reconheceram em Alceu uma personalidade original e poderosa. Seu 'Vou Danado pra Catende' representou o maior e mais instigante impacto numa mostra que contou com trabalhos expressivos de criadores da qualidade de Jards Macalé, Walter Franco, Ednardo e Jorge Mautner.
Por misteriosas caridades, Alceu foi (como ele diz) 'agraciado' com um 'Prêmio Especial do Júri', graças ao entusiasmo que despertou em um homem de agudo senso popular como J.B. de Oliveira Sobrinho.
Algumas vezes, depois de 'Abertura', alguns artistas me falaram com muito entusiasmo em relação ao trabalho de Alceu: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, o próprio supracitado e ex-concorrente Jards Macalé.
Alceu conseguiu a loucura de unir os mais vivos e sanguinios sons dos cantadores de feira, dos cantos mouros e dos ritmos nordestinos às explosivas estruturas tecnológicas do rock. Em sua forma de se apresentar estão as posturas dos stars do rock, da mesma forma que as sonoridades e comportamentos musicais de sua banda.
A banda de Alceu Valença é um capítulo à parte. Mas dentro desse capítulo à parte, existe um dado muito especial: o violeiro Zé Ramalho da Paraíba - uma figura impressionante, um músico extraordinário.
Os que veem em Alceu as forças vitais que impulsionam loucuras em gente como Mick Jagger, certamente ouvirão o trabalho de Zé Ramalho com a devoção que Dylan inspira.
Calma. Não estou comparando Alceu e Zé Ramalho a Dylan e Jagger - o que horrorizaria os memorialistas da colônia. Alceu e Zé ainda estão no levantar do voo e a aproximação com os stars é para mostrar uma personalidade artística sanguínea e instintiva ao lado de reflexiva e emocionada. Então usa-se modelos conhecidos, reconhecidos e autenticados...
N.R.: Mas comparar a poesia de Caetano Veloso com a de Bob Dylan faria  Dylan igualmente feliz. Dylan escreveu numa contracapa sua que seu sonho era um dia cantar como João Gilberto. Daí... as pessoas aqui ainda se escandalizam... Mick Jagger acha Gilberto Gil um barato. E diz. E adoraria cantar com ele...
Numa época em que se discute frequentemente a mistura de rock feita no Brasil por um lado e opondo a isto o compromisso incondicional com o brasileiro, o que vem de fontes autenticamente populares, Alceu Valença começou a ser notado: o que vinha tentando em desespero desde 1968.
Passada a maldição dos sete anos (provavelmente um espelho quebrado...) Alceu volta ao Rio para uma temporada regular no Teatro Tereza Raquel. Por desinteresse e falta de informação (o que não é culpa só das pessoas), a primeira semana de Alceu foi desastrosa. Por duas vezes teve que suspender o espetáculo por falta de público.
Mas os poucos que assistiram se encarregaram de espalhar o poderoso e novo som que veio de Recife. E por sorte de Alceu, alguns dos poucos eram algumas das pessoas que mais influem na formação de uma opinião musical na cidade.
Contra a expectativa inquietante de pouco mais de mil cópias vendidas de seu LP, o diretor artístico da Sigla, Guto Graça Mello, investiu ainda mais na incerteza do talvez demorado mas inevitável sucesso de Alceu Valença.
Já na segunda semana o teatro recebeu bom público: tão bom que o empresário Benil Santos decidiu esticar a temporada por mais duas semanas. Ao mesmo tempo, a melhor imprensa musical - os de elogios mais econômicos - revelou ao público que finalmente, depois de uma espera relativamente longa,  um som poderosamente novo se oferecia aos ouvidos e cabeças gerais. E há sempre um grande entusiasmo na plateia de Alceu Valença e seu grupo. Já tem até groupies o cabra...
Zé Ramalho
O trabalho de Zé Ramalho da Paraíba  é um inacreditável blending dos blues arrastados de Dylan com as linguagens de  cordel dos cantadores de feira, dos contadores de estórias sem nome e sem lugar, dos observadores da vida e das pessoas. Tudo envolvido por uma contida inquietação.
(Walter Franco diz que há certos artistas que são como o cisne: quem vê nadando parece a paz flutuante, mas se a gente olha por baixo da água vê os pezinhos a mil...)
Zé Ramalho é meio isto. Intimista, intenso, um músico que está entre a fala e o canto, que no entanto corre em volta, entre as pausas e espantos.
O flautista de Alceu, por exemplo, chama-se Zé da Flauta. E tira do seu instrumento uma sonoridade agressiva e raramente ouvida em palcos cariocas. A não ser quando Yom Muniz está na banda, é claro. São os sons maravilhosamente mal acabados dos flautistas de ruas, mesclados aos sons novos e 'sujos' de Ian Anderson, por exemplo. Zé da Flauta não toca aquela flauta comportada de fundinho. Toca uma flauta ativa, nervosa, mal comportada, vigorosamente popular. Apesar de ser uma banda realmente de exceção (que leva ainda mais longe a proposta dos instrumentistas  dos Novos Baianos) há dois buracos importantes a serem referidos: a ausência de Lula Côrtes e seu tricórdio, instrumento de loucura que nas mãos de Lula grita os fraseados poderosamente originais. E outra é o volume do som, que dentro das possibilidades técnicas do equipamento, deve ser levado à confundência dos sons do rock, tornando assim, ainda mais forte a proposta de Alceu and Band.
Como dizia Emersom Fittipaldo na televisão...'eu recomendo.'... "



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Peter Gabriel no Brasil - 1993


Peter Gabriel, quando deixou o Genesis, resolveu seguir uma bela carreira-solo, lançando grandes discos. Gabriel era o front-man do Genesis, e mesmo com o grande sucesso que a banda fazia na época, decidiu seguir carreira-solo, arriscando trocar um sucesso garantido por uma sempre arriscada empreitada individual. Em seu trabalho solo Peter Gabriel não se prendeu ao progressivo, gênero que o consagrou como vocalista de uma das  bandas mais representativas do estilo. Resolveu arriscar, e abrir o leque de estilos, sendo inclusive identificado por parte da crítica musical como um artista de world music, um rótulo criado para identificar músicas normalmente criadas por artistas de países que tem uma sonoridade própria, e que não se encaixam em referências musicais mais conhecidas, como países africanos, latinos, e a música brasileira, entre outros. Em 1993 Gabriel tocou Brasil, numa turnê intitulada Secret World Tour. O show que ele fez na casa de shows Imperator no dia 7 de outubro daquele ano, foi comentado no jornal A Clava do Som, em matéria assinada por Mario Marques Neto:
" 'Finalmente vim tocar no Brasil'. Mais apoteótica que as primeiras palavras dirigidas ao público por Peter Gabriel só mesmo sua entrada no palco. Singelo, misterioso e fascinante, o vocalista lança seus olhos azuis na plateia que retribui com os olhos fixos em todos os seus movimentos. O que parecia ser uma loteria - já que a poucas horas do show houve modificações no repertório - se transformou no melhor espetáculo do ano.
Com o Imperator lotado, Gabriel despreza o infeliz, fabricado 'world music' e mistura Música Progressiva, ritmos africanos e pop refinado, aliados à tecnologia de ponta. Não aquela coisa de 'chaka chaka' e derivados. Música trabalhada, característica rara num mercado onde a música fácil vende mais. E não poderia ser diferente. A banda infernal que o acompanha não desmente isso: Davis Rhodes (guitarra), Tony Levin (baixo), Manu Katché (bateria), Jean Claude Naimro (teclados) e L. Shankar (violino).
A Secret World Tour, que percorre a América Latina divulga seu mais recente trabalho, 'Us' (aliás, segundo disco com  título resumido em apenas duas letras. Superstição?), que contaria com a participação da polêmica Sinéad O'Connor. O desespero tomou contas dos fãs quando foi anunciado o possível 'backing' de Gal Costa em pelo menos três músicas, substituindo Sinéad já que a irlandesa teve que voltar mais cedo por motivos não divulgados. Graças a Deus não aconteceu.
Ao contrário do que a maioria esperava, o show de Gabriel foi mais progressivo que pop. Utilizando elementos básicos nas mudanças de clima outorgados pelo eficiente Naimro e sustentados por heroicas viradas de batera do africano Katché, Gabriel surpreendeu quando colocou à prova seus dotes vocais, íntegros e sem ruídos cômicos. 'Solsbury Hill', uma de suas composições mais inspiradas, foi distinta da apresentação em 'Plays Live', que foi amparada por Mr. Synergy, Larry Fast. 'Red Rain' também foi fundo na galáxia progressiva, esticando os módulos até o ritmo concreto. 'In Your Eyes', algo meio 'brasileiro', tipo 'forró-melodia', saltou do disco com mais alguns pontos, devido à presença do mestre Milton Nascimento, que deu uma 'palhinha' entremeando a canção com um refrão da clássica 'Carpet Crawl' (Genesis), e pelo jeito era uma das poucas coisas que ele conhecia do trabalho de Gabriel, face ao constrangimento a que foi submetido. Isso porque nas três músicas em que permaneceu no palco ficou mudo. Em 'Biko', balada progressiva com sangue africano, sua voz praticamente não apareceu. Ao final da  música, foi deixado de lado por Gabriel que abandonou o palco sem nem olhar para Milton. E ele foi atrás um tanto decepcionado. O grupo de meninos do Olodum foi um show à parte. Um pouco fora de compasso, valeu mais pela animação, o clímax.
Pra solidificar ainda mais essa praia progressiva, Gabriel teve o apoio do violino de Shankar como solo para sua voz e, hora ou outra, duelavam as vozes. Shankar fazia o agudo aportando o tom de Gabriel.
Peter Gabriel nos tempos do Genesis
Se o conceito de Peter Gabriel junto à crítica subiu nos últimos três anos, se deve à música 'Mercy Street', do disco 'So", que fez o nome do ex-Genesis frequentar as FMs brasileiras onde se encontra consignado. A projeção da música pop no Brasil é tão forte que entre a belíssima 'Come Talk To Me' e a fraquinha 'Sledgehammer' adivinha qual deu mais ibope? É. A segunda foi o pico de empolgação do show enquanto a primeira, que foi a abertura, ficou a ver navios.
As músicas de 'Us' ao vivo tiveram um tratamento instrumental que valorizou as performances dos músicos, explorando seu lado teatral. E nessa arte, Gabriel era melhor com o progressivo. É que o teor das novas músicas impõe ao cantor coreografias que nada tem a ver com sua personalidade. Pulinhos, rebolados, corridas ao redor do palco, caras e bocas, mão pro lado, braço pro outro. Estranho. Mas Gabriel se esforça para parecer natural. Quem já o prestigia há algum tempo, sabe que ele é sóbrio e às vezes, muito tímido. É o lado pop da coisa. "

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Gal Costa - Jornal Hit-Pop (1977)

Em 1976 Gal Costa lançou o álbum Gal Canta Caymmi, que foi muito bem recebido por  público e crítica. Nesse disco Gal homenageava o grande mestre que influenciou tanta gente em nossa música, em especial os baianos. Após ouvir inúmeras composições de Caymmi e selecionar o repertório, o disco foi lançado tendo que se deixar muitas boas composições de fora. Em janeiro de 1977, o jornal Hit-Pop, suplemento da revista Pop, traz uma entrevista com Gal, que ensaiava o show que seria realizado com o repertório do disco. Na entrevista Gal fala de seu trabalho, do disco, do show, e de uma polêmica que acontecia na  época, entre os baianos e os demais artistas nordestinos, em especial os cearenses. A matéria intitulada "Depois dos trinta, Gal quer voltar a acontecer" é assinada por Eduardo Athayde:
"Era a terceira vez que Vatapá era ensaiada. Naquele calor infernal, Gal Costa se empenhava ao máximo, movimentando-se na saleta de ensaios da gravadora Phonogram. Seus músicos é que demonstravam cansaço. Gal sentou-se ao lado do guitarrista Perinho e reclamou:
- Tá faltando molho. Aumenta o pique, Perinho.
A uma ordem do líder, Rubão (baixo), Antonio Adolfo (piano) e Pedrinho (bateria) empreenderam um pique que deu a devida retaguarda rítmica à pulsante voz de Gal. Assim alegre, ela retomou a alegria, os vestidos floridos, o riso aberto.
- O pique nunca deixou de existir, mas está tudo mais forte agora. Estou louca para pisar num palco e rasgar o peito.
Quando isso acontecer, o público verá uma cantora cheia de garra e de explosões, voltando ao gênero que abandonara nos tempos de 'Cantar' e 'Encontro com Caymmi'. Gal tem sido muito bem comportada, na voz e no palco. Ela analisa a mudança:
- Esses dois últimos anos de minha carreira foram super-gratificantes. O Caymmi, eu sempre admirei, mas não o conhecia pessoalmente. O show que fizemos juntos foi uma grande homenagem a ele, e só isso já tornava o espetáculo uma coisa difícil, corajosa. Ali, eu tinha que ter muita vitalidade, para compensar a quietude do Caymmi, e tentar equilibrar a coisa. Mas foi um show realmente genial.
São quase dez horas da noite. Gal está ensaiando desde as cinco, repassando músicas para conseguir aquele pique falado. Vestida de calça jeans, blusa vermelha amarrada na cintura, descalça, ela rodopia num minúsculo tablado de madeira, enquanto canta Baby. Gal está contente, e mais alegre fica ao lembrar dos 'Doces Bárbaros':
- Foi um momento maravilhoso. Reencontrei Gil, Cae, Bethânia. Somos pessoas que se conhecem há muito tempo, e que nunca se encontravam, à vontade, para discutir, curtir. Na Bahia, iniciando a carreira, éramos jovens e idealistas, sonhadores que queriam tomar o Rio de assalto. Com os 'Doces Bárbaros', tivemos a chance de de nos expormos, brigarmos da forma mais despojada possível. Isso tudo nos enriqueceu muito. Bethânia, que sempre foi a mais desligada do grupo, entrosou-se no show de verdade. Éramos como irmãos, e havia muita tensão no ar. Ou você pensa que irmão não briga? Ninguém podia mentir, e tivemos que rasgar o coração, para conseguir nosso intento. Tudo era encarado como uma forma de criação, e resultou num despojamento total das individualidades, e extrema boa vontade de todos.
Às onze, Gal resolve parar. E, da Barra, seguimos para seu apartamento em Ipanema., 'onde me seguro, enquanto as obras de minha casa na Barra não terminam'. Mal se abre a porta do sétimo andar, três cachorros, enormes filas, intimidam o visitante. Em poucos minutos, Gal está se servindo de vatapá e algas marinhas, mistura que garante ser ótima. Na tevê, um tape de futebol. Gal, sorvendo uma cervejinha na lata, quer saber: 'Rivelino joga bem, né, nego? Pelo menos, tem um chute arretado. Não entendo muito de futebol, mas me amarro no chute do Rivelino'.
Ao lado da amiga Vilma, Gal fica curtindo o jogo do escrete brasileiro, sem se esquecer de repartir atenções entre os três cachorros. Que continuam intimidando o visitante desavisado. Com os pés sobre o sofá - findo o tape, desligada a tevê - Gal Costa fala sobre sua vida, sua carreira:
- Agora, estou sentindo uma vitalidade muito grande nas pessoas, com relação à música. Uma vontade de criar coisas bonitas e fortes. Estou totalmente apaixonada pelo meu trabalho. Quero retomar as  coisas que fiz em Fa-Tal e Le-Gal, mas de uma forma nova e madura. Muito ritmo. Não sei se é o verão, mas parece que estou renascendo. Aliás, dizem que depois dos 30, a gente cria alma nova. Acho que isso é o tal de amadurecimento. Isso não quer dizer absolutamente, que Gal Costa se acomodou. Pelo contrário. Estou de olho, preparando o bote certo.
Resumindo. Em poucos dias, a brejeira Maria da Graça volta a dar lugar num palco, à exuberante Gal, misto de mulher e pantera, disposta a rasgar o peito e conquistar o público. E  é essa mesma Gal Costa que se mostra enfezada, ao comentar as  declarações de Fagner. O compositor cearense, tempos atrás, acusou o 'grupo baiano' de se fechar em igrejinha, impedindo a ascensão de novos valores. Gal está furiosa: 'Mas isso é uma ingenuidade das mais tremendas. Nunca tive, ou tivemos intenção de prejudicar alguém. Se Fagner não acontece é por incompetência. Belchior é novo e já estourou muito na praça. Ele é sacador, é brilhante, coisa que não acontece com Fagner. Isso é coisa de criança. Pior ainda. É uma forma para explicar incompetência. Aliás, quem é esse tal de Fagner?' Gal desculpa-se: quer dormir. "

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Burnier e Cartier - Jornal de Música (1976)

A dupla Burnier e Cartier, formada por Octávio e Burnier e Cláudio Cartier foi uma bela revelação surgida nos anos 70. Em termos de visibilidade a nível nacional, a música Ficaram Nus, apresentada pela dupla no Festival Abertura da Globo em 1975 foi de grande importância. Chegaram a gravar dois discos, e depois a dupla foi dissolvida, e cada em seguiu carreiras individuais. Em dezembro de 1976 o Jornal de Música em sua edição 27 trazia uma entrevista com Octávio Burnier, falando da dupla e seus projetos, em matéria intitulada "Dois violões ficaram nus: Burnier e Cartier" e assinada por Paulo Macedo:
" 'Crosby, Stills, Nash & Young? Isso não tem nada a ver com o nosso trabalho. Nós ainda não conseguimos entender o porque dessa comparação. Nós nunca ouvimos esse grupo. O que nós fazemos é tocar nossas violas e cantar. Será que isso é imitar alguma coisa?' Achamos que quem fala isso está muito enganado e não entende bulufas de música'.
Atualmente, antes de prestar qualquer depoimento, a dupla Luiz Octávio Bonfá Burnier e Cláudio Brandini Cartier fazem questão de explicar que são improcedentes essas acusações de que são o estereótipo do quarteto sensação de Woodstock. Segundo Burnier a música é a única coisa que interessa: 'Nós só utilizamos letra na nossa música por dois motivos: o primeiro é porque o Cartier curte muito isso e  o outro é por causa da gravadora.'
Mas para falar dessa dupla que se tornou conhecida do público com a música Ficaram Nus, no Festival Abertura da Rede Globo, convém recapitular:
Burnier: Começou a tocar aos oito anos de idade quando o seu tio, o violonista Luís Bonfá lhe presenteou com um violão. Desde então não parou de tocar e passou a prestar atenção na técnica utilizada por seu tio. Aos 14 anos, participou do Movimento Artístico Universitário. Nessa mesma época, participou da série de programas Som Livre Exportação. Com 16 anos gravou o seu primeiro disco: Baby Liberato, na Som Livre, que foi um dos temas da novela O Homem que Deve Morrer. Em 71 fez parte do grupo vocal-instrumental Som Livre que depois se chamou Aquarius. Em 72 o Aquarius foi para a Espanha e gravou um LP na Ariola, só com músicas brasileiras. Em 73 voltou para o Brasil com a dissolução do grupo.
Cartier: Iniciou os seus estudos musicais aos 11 anos de idade com o professor Jodacyl Damasceno até ingressar na Escola Nacional de Música. Paralelamente à E.N.M. cursou e Escola Nacional de Belas Artes, trabalhando logo em seguida como professor de Artes Plásticas. Também atuou como cartunista de TV; produtor de filmes publicitários e compositor de jingles. Em 67 começou a participar do MAU e lá conheceu Burnier.
Com o encontro dos dois na casa do Dr. Aluízio Porto Carrero, sede do MAU, descobriram que possuíam os mesmo gostos. Mas a dupla só se concretizou com a  vinda de Burnier da Espanha.
- 'Durante esse período o meu período na Espanha - fala Burnier - o Cartier me enviava regularmente cartas. E nessas cartas ele me falava da  vontade que ele tinha de fazer uma dupla com dois violões. A última carta que eu recebi dele, foi quando eu estava vindo pra cá. E ele dizia que se eu não viesse ele iria para a Espanha fazer música comigo.. E quando cheguei aqui ele ficou muito contente e começamos a compor, participar de movimentos, fazer circuitos universitários, até que apareceu o Abertura, festival que nos projetou em todo o Brasil. A música que nós concorremos foi muito pichada pela crítica, porém, estranhamente, atingiu um sucesso surpreendente.'
Burnier e Cartier se apresentando no Festival Abertura em 75
E o LP que vocês estão lançando, como está?
- O que eu mais queria era lançar um disco instrumental, mas não existe gravadora nesse país que acredite nisso. Eu acho que o disco está muito legal e digo mesmo, gostei muito das letras. Não concordo, portanto com a Dona Ana Maria Bahiana que diz que nós precisamos arranjar outros letristas. Agora eu acho ideal um disco só com música, mas além da gravadora, o meu parceiro Cartier, que tem formação clássica, se amarra nas letras.
E os planos da dupla?
- Nós estamos planejando fazer uma excursão pelo sul do país, pois o nosso disco está sendo muito bem aceito por lá. Agora, estamos pensando seriamente em nos mandar para os Estados Unidos e desenvolver nosso trabalho naquelas plagas. Mas isso ainda não é concreto, pode ser que não aconteça."