Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 25 de julho de 2020

Gonzaguinha - Revista Rock, a História e a Glória (1976)

Em 1976 Gonzaguinha já fazia parte de um grupo seleto da MPB, de compositores surgidos na década anterior, e que traziam um trabalho renovador e diferenciado. Na ocasião ele estava lançando seu quarto álbum, Começaria Tudo Outra Vez. Na ocasião, a revista Rock, a História e a Glória nº 20 trazia no tablóide Jornal de Música, que vinha encartado na revista, uma entrevista com o compositor, feita pelo jornalista Paulo Macedo, e intitulada "Luiz Gonzaga Jr. (era assim seu nome artístico) Começaria Tudo de Novo":
" Ele embarcou em um trem ao primeiro Festival Universitário de Música Brasileira*, e venceu. Nesta oportunidade, uma boa parte da plateia não entendeu a sua mensagem, até mesmo vaiaram a sua apresentação. No entanto, apesar da dúvida da maioria, uma outra parte observava aquele jovem compositor de outra maneira. Houve quem dissesse: 'É o compositor que está faltando à nossa música'.
Certamente essas pessoas estavam com razão, e quem não entendeu a mensagem, já deve ter mudado seu ponto de vista. A crítica especializada, em pouco tempo de trabalho, já o colocou entre os nomes mais importantes de MPB.
Gonzaguinha lançou recentemente o seu quarto álbum. O disco tem nove composições inéditas e uma nova versão para 'Asa Branca'. Das músicas inéditas, as que merecem uma indicação mais particular são; 'Espere por Mim, Morena'; 'Começaria Tudo Outra Vez' (música título do disco) e 'O Sabiá Cantou'. Nesse LP ele está mais aberto, mais alegre. Colocou-se pra fora, em relação de um ponto de vista crítico, e propõe-se a começar tudo de novo.

- Quando você pintou nos festivais universitários, algumas pessoas apontaram você como uma das promessas principais da nossa música. Você acha que correspondeu à expectativa?
- Eu simplesmente continuei o meu trabalho. No entanto, existem muitas pessoas que acham que não, e isso é muito importante, é como eu digo em Mundo Novo Vida Nova - deixar de ser somente aquilo que se espera, em forma, luz e cor. Eu não sou somente aquilo que se espera, eu sou muito mais coisa, porque acima de tudo eu sou uma pessoa, eu tenho desejos e anseios diferentes daquilo que as pessoas projetam para mim. Eu posso dizer que estou tranquilo, acho que correspondi, pois minha consciência diz isso.
- Você já teve problemas com as entidades que arrecadam o Direito Autoral?
- Sim, já tive muitos problemas. Mas isto é um problema muito sério, porque o Direito Autoral no Brasil é uma brincadeira, é uma piada. Quem melhor paga atualmente, é a Sicam, com quem o pessoal teve briga. Eu sou da Sbacem, uma outra arrecadadora. Agora se eu fosse viver de Direito Autoral eu não viveria, porque é realmente ridículo o que se ganha em Direito Autoral no Brasil. O Brasil arrecada tanto quanto Buenos Aires arrecada, daí dá pra notar a situação, é uma diferença muito grande. Em outros países, quando um compositor faz sucesso, ele vive praticamente em razão daquele sucesso. Aqui no Brasil a coisa é diferente: o cara faz sucesso e daqui a três meses já acabou, já foi embora, não existe um controle rigoroso da coisa, e não existe uma distribuição certa, uma distribuição bem feita.
- Você está satisfeito com o representante de sua classe no Conselho Nacional do Direito Autoral? 
- O problema não é estar satisfeito ou não, o meu negócio é ver o que vai acontecer, eu não posso pré-julgar o representante da classe. Eu acho um erro pré-julgar o representante da classe. eu acho um erro pré-julgar qualquer pessoa. Eu apenas fico esperando que ele corresponda aos anseios da classe que ele pertence. E acredito que ele vá fazer força para isso, se ele não corresponder, não vai ser só eu a recriminá-lo, mas toda uma classe, porque existe atrás dele uma classe  que exige uma atuação dele. Quando ele entra no Conselho, ele não é o Roberto Carlos famoso, quando ele entra no Conselho, ele é uma pessoa, o Roberto Carlos que faz parte de uma classe, portanto, ele tem deveres e obrigações para com a classe. É bem verdade, ele foi nomeado, ou seja, colocado de cima pra baixo, e não de baixo pra cima.
- Como você sente a música popular brasileira atualmente? 
- Atualmente a música popular do Brasil, está vindo muito bem, no sentido de que tem muita gente nova aparecendo por aí, procurando sua chance, batalhando e organizando-se. Tem por exemplo o surgimento de uma entidade muito importante,a SOMBRAS - Sociedade Musical Brasileira - uma entidade que visa defender, estudar e divulgar a música popular brasileira, e tudo que é gerado por ela. A SOMBRAS tem procurado ajudar estes compositores através de uma série de shows que são organizados pelo grupo O2, que tem como diretor o Aldir Blanc. E tem procurado estudar Direito Autoral, através do grupo 01, que tem como diretores eu e o Vitor Martins. A SOMBRAS está agindo com muita calma, ela tem procurado agir coisas que são da necessidade dos autores, compositores, dos músicos e dos intérpretes, já que a SOMBRAS não é uma sociedade apenas de músicos, é uma sociedade de todo mundo que lida com música. Esta parte está bastante desprotegida, sabe-se que existe cerca de 150.000 músicos no Brasil, e 60% deste montante está desempregado, e isto é um problema muito sério, e que nós temos que enfrentar. Para isso existe a SOMBRAS, uma entidade que visa melhorar esse problema, visa colocar o músico como peça mais importante, mais consciente, mais consequente no seu meio, um pouco mais sabedor dos seus direitos e deveres.
- E você está satisfeito?
- Eu estou satisfeito, porque tem aparecido muita gente boa depois de mim, como por exemplo: Fagner, João Bosco, Sueli Costa, Beto Guedes, Lô Borges, e tem uma série deles que precisam somente de um pouco mais de apoio, e tem outros compositores que não tiveram uma chance, como o Nelson Angelo. Há uma série deles, eu devo estar esquecendo uma outra grande série. Existe uma série de grupos aparecendo, mas isto é muito lento, porque o processo atual é muito difícil. Com o término dos festivais e com o término dos musicais na televisão, o movimento musical diminuiu muito. Por isso a coisa tornou-se mais fechada. E tem outra coisa, as gravadoras querem uma resposta a curto prazo, uma resposta em termos de lucro.
- O que você acha do samba?
- Muita gente acha que eu sou contra o samba, que eu tenho preconceito e até maltratado o samba. Eu fui criado no Morro de São Carlos no Estácio de Sá e gosto de samba. Mas tem um porém, eu gosto de samba e não da moda do samba. Porque samba atualmente para a nossa infelicidade é uma moda, eu acho uma palhaçada, eu digo até que já ultrapassou. Ao invés de fortalecer o samba, deixaram que ele caísse do outro lado. Ouvir samba já está enchendo o saco. Tá legal eu aceito o argumento mas não me altere o samba tanto assim. Um outro problema, esse é mais sério ainda, é o das escolas de samba. O desfile das escolas virou um tremendo espetáculo circense, é um negócio que deve ser analisado de outro ângulo, eu acho uma frustração total.
- O quer você acha da crítica  especializada?
- Eu acho que um dos principais pecados da crítica, é não fazer uma visão global do trabalho de uma pessoa. Eu acho que o trabalho de uma pessoa deve ser julgado não apenas por um trabalho que saia anualmente, mas sim pela coerência em relação aos outros trabalhos, a não ser que a própria pessoa destaque aquele trabalho, como uma coisa que está dirigindo a um determinado ponto. Eu acho que falta um aprofundamento maior, a crítica de um modo geral fica no não gostei, ou eu gostei, do que qualquer outra coisa. Ou então ela segue o que os outros falam, e às vezes discorda por discordar.
- O seu novo disco se chama 'Começaria Tudo Outra Vez'. Por quê?
- Porque sim. Porque eu gosto do caminho que fiz, seja ele de altos e baixos, fraquezas e franquezas, verdades e inverdades, brigas, lutas, colocação para fora de um ponto de vista crítico, o ponto de vista consequente. Eu concordo, e começaria tudo outra vez. Não que eu esteja arrependido, pelo contrário eu começaria fazendo exatamente a mesma coisa. "

* Na verdade ele venceu o segundo festival, e não o primeiro

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Titãs - O Melhor Show de 86 (Revista Zorra)

Em 1986 vivíamos o auge do sucesso do rock brasileiro dos anos 80, e naquele ano especialmente, os Titãs passariam a figurar entre as mais importantes bandas brasileiras daquele segmento, após o lançamento de seu terceiro álbum, Cabeça Dinossauro, que significou uma virada na sonoridade da banda, sendo um dos discos mais aclamados daquele período. Na ocasião, a revista Zorra nº 2, especializada em rock brasileiro, traz uma matéria sobre um show dos Titãs no Projeto SP, assinada por Fabian Chacur e intitulada O Melhor Show de 86:
"No dia 24 de agosto de 86, os Titãs iniciavam a sua temporada do lançamento do LP Cabeça Dinossauro, no Projeto SP. Após uma turnê de mais de 3 meses por todo o Brasil, e também depois de conseguir vencer o bloqueio das FMs em relação ao seu  álbum, a banda conseguiu o que para muitos parecia impossível: um disco de ouro com o seu LP mais radical. Para comemorar tal façanha, fizeram um novo show onde a temporada se iniciou, no dia 10/12/86, uma quarta-feira. Apesar do dia não ser dos mais propícios, no meio da semana, as dependências do Projeto SP estavam completamente tomadas por uma plateia composta por fãs entusiastas e que demonstravam uma vibração e um carinho pela banda simplesmente incríveis. Outro ponto a destacar: a diversidade deste mesmo público, composto desde punks radicais até intelectuais e curtidores de MPB, provando que a qualidade realmente une as facções mais diversas.
Os Titãs deram uma lição daquelas à mídia. Enquanto muitos grupos se sujeitam aos ditames da moda, eles não titubearam em assumir uma proposta extremamente radical, abordando temas considerados tabu por muitos, tais como igrejas, políticos, família e outros, com uma roupagem musical agressiva e que vai do punk ao funk, sempre de forma extremamente bem acabada. As rádios boicotaram de início as músicas deste álbum, mas o público merece os parabéns por tal façanha.
Um certo crítico diz para quem quiser ouvir que 'Os Titãs Não Tocam nos Discos'. Pura inveja. Quem já assistiu a banda nos shows, em especial no Projeto SP, pode sentir músicas excelentes e com uma garra de acabar com qualquer possível dúvida. Nando (baixo) e Charles (bateria) formam provavelmente a melhor cozinha do rock nacional, precisa e versátil. Nando canta os reggaes da banda com muito swing, além de encarnar a revolta na agressiva 'Igreja'. Charles estraçalha nas baquetas, além de se utilizar de bateria eletrônica na música 'O Que', onde ele faz percussão de forma impecável. A dupla de guitarristas, Marcelo Fromer e Tony Belotto também merecem todo o destaque. Belotto toca barbaridades, com garra e uma presença de palco simplesmente arrasadora, com seus pulos.
Que banda, no mundo, pode se orgulhar de poder cantar com 5 ótimos vocalistas? De Nando, eu já falei. Vamos então, aos outros. Arnaldo Antunes assume o papel do jovem que 'a televisão deixou muito burro demais', e dá conta do recado. Branco Mello faz o tipo 'boyzinho', e também bota pra quebrar. Sérgio Brito, que também toca teclados, surpreende por seu poder de controle sobre a plateia. No bis da música 'Polícia', ele conseguiu fazer a plateia cantar a música com ele sem acompanhamento da banda, a capella! Sua garra  e vibração também são incríveis. Paulo Miklos é seguramente o melhor dos 4, embora por pouco, e se mostra completamente possesso na interpretação da visceral 'Bichos Escrotos'. As músicas eram executadas em blocos, onde cada um dos vocalistas cantava uma sequência, sendo Branco o coringa. A iluminação teve um destaque todo especial, iluminando a banda também de baixo para cima, um recurso que há muito não se usava em shows no Brasil, e que se mostrou de excelente utilidade. Duas piras, uma de cada lado da bateria, exalavam vapores e criavam um clima visual exótico.
A plateia literalmente enlouqueceu desde a primeira música, a que deu nome ao álbum da banda, 'Cabeça Dinossauro'. Além das canções deste álbum, a banda tocou os melhores de seus 2 álbuns anteriores, e propositadamente deixou de tocar os seus antigos hits bregas, tais como 'Sonífera Ilha' e 'Insensível' (graças a Deus!). Como diria o bom Ezequiel Neves, a banda 'não nos deixou sentados de jeito nenhum'. Quando vocês ouviram falar de show com 8 (eu disse 8!) músicas no bis? A plateia simplesmente não deixava o grupo sair do palco! Portanto, queiram desculpar os fãs do RPM, cujo show também foi excelente, mas pra mim não há discussão: o melhor show de rock em 86 foi o dos Titãs, que eu considero a nossa melhor banda, já com nível internacional. Podem escrever: se houver o tal de Rock in Rio II, os Titãs serão seguramente um dos destaques, e darão pau em muita banda de nome dos Estados Unidos e Inglaterra. Valeu, garotos! Que em 87 vocês consigam manter todo esse pique!"

sábado, 18 de julho de 2020

Adoniran Barbosa e o Samba do Arnesto

O Samba do Arnesto é uma das músicas mais interessantes e conhecidas de Adoniran Barbosa, um verdadeiro cronista da vida paulista. Usando uma linguagem coloquial, carregada de erros gramaticais, o que era uma de suas marcas mais características, esse samba, gerou diferentes histórias e explicações, que o próprio autor inventava. O Arnesto do samba, que se chamava Ernesto realmente existiu, e desmentiu a história em que é personagem no samba. Num livro da série Anotações com Arte, que na verdade é uma agenda do ano de 2010, quando foi publicado, a história é contada:
"Ernesto Paulelli diz que nunca convidou Adoniram para um samba no Brás, nem deixou um bilhete pendurado na porta. De onde então, veio a inspiração para escrever a letra do Samba do Arnesto? Veio de um fato real? É pura ficção? Com as várias versões sobre a origem da letra, Adoniran criou mais uma lenda urbana: a história do Arnesto é mito ou realidade? O que se sabe é que o nome Arnesto teve inspiração num fato real. Num domingo, num bar no centro da cidade, Adoniran pede um cigarro a um frequentador. O homem diz que não fuma. E Adoniran, na bucha, diz: 'Então, me dá seu cartão'. Era o cartão de Ernesto Paulelli. Adoniran lê o cartão e comenta: 'Arnesto?'. O jovem músico retruca que é Ernesto, com E. Adoniran não se dá por vencido: 'É Arnesto. E vou fazer um samba pra você, Aduvida?'. Esse encontro aconteceu em 1938 a Adoniran só foi compor o samba em 1952. Vinte anos depois, Adoniran deu duas explicações para a inspiração. Para a TV Cultura ele inventou uma história maluca:
'O Arnesto existiu... mora no Brás, o malandro. Irmão do Nicola Caporrino. O Ernesto Caporrino. Ele convidou a gente pro samba. Eu fui lá com meus maloqueiros. Com fome... Disse que tinha comida... Não tinha nada, sabe? Cheguei lá...  você quer ver uma coisa? Marcaram ao meio-dia... cheguei à uma. Tinha uma panela de arroz só coma casca do arroz embaixo.'
Para a História da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural, Adoniran foi mais eloquente:
'Um dia saí da Record e fui à procura do Joca e do Mato Grosso. Eles tinham me convidado para um samba na casa de um amigo do Joca, que morava no Brás. O amigo do Joca se chamava Ernesto, mas a turma chamava de Arnesto. Apanhamos o bonde na Praça Clóvis e rumamos para o Brás. Descemos na rua Bresser e caminhamos até a terceira travessa, aonde morava o Ernesto. Era um cortiço, e quando chegamos lá ficamos sabendo que o Arnesto não tinha recebido o dinheiro para fazer o baile. Envergonhado, fechou a maloca e se mandou para a Penha. Decepcionados, voltamos para a cidade e dentro do bonde veio a vontade de fazer esse samba.'
Seis anos depois, declarou ao jornal Viver, de Campinas:
'Arnesto também é imaginação. Ele não existe, não, é imaginação, mesmo.' O parceiro dessa música, o Nicola, tem a explicação final. Ele conta que Adoniran apareceu em sua casa para levá-lo à praia. Como estava sem grana, Nicola se escondeu e mandou dizer que não estava. Mas Peteleco, o cachorro de estimação de Adoniran, entrou na casa e achou Nicola em seu quarto. Envergonhado, ele decidiu contar a verdade ao amigo. E foi Adoniran quem sugeriu: 'Da próxima vez, você põe um recado na porta'.
Nicola concordou e disse que isso dava samba. Adoniram também achou que dava samba e disse que ia homenagear um colega a quem tinha prometido um samba há muitos anos atrás. Esse colega era o Ernesto Paulelli!"

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Belchior - O Rompimento com o Passado como Opção Filosófica

Belchior é uma das personalidades musicais brasileiras mais reverenciadas e respeitadas nos dias de hoje. Suas letras, carregadas de mensagens, simbolismos e uma poesia direta e cortante, ajudaram a torná-lo um mito após sua morte. Seus últimos anos de vida foram de reclusão, como uma opção pessoal, e que só fizeram aumentar um certo culto à sua imagem.
Em sua edição de 07/05/17, o jornal O Globo trazia uma matéria com o grande compositor cearense. Nessa matéria há um tópico  que fala dessa fase reclusa, em que ele buscou o anonimato, embora isso fosse quase impossível para um artista que durante tantos anos viveu nos holofotes e na mídia. Esse tópico, assinado pelo jornalista Nelson Gobbi, destaca  que "Amigos e profissionais que trabalharam com Belchior negam que o cantor tenha desaparecido por conta de dificuldades financeiras'. Segue abaixo o texto:
"Ao interromper a carreira e partir para um autoexílio que durou até sua morte, Belchior deixou para trás uma série de bens, objetos pessoais e obras, que hoje têm destino incerto. Também acumulou dívidas no percurso, por pensões alimentícias dos filhos - dois com Ângela Margareth, sua ex-mulher, e uma fora do casamento - ou por despesas não quitadas em hotéis onde se hospedou com a última mulher, a produtora cultural Edna Prometeu, em cidades como Fortaleza, São Paulo e Niterói.
O cantor também abandonou dois carros, um deles um Hyundai Sonata, no estacionamento do Aeroporto de Congonhas, onde permanece até hoje, junto a outros quatro veículos na mesma situação. Outro débito foi contraído com um de seus últimos colaboradores, o produtor e ex-secretário Célio Silva, que ganhou em 2010 uma causa trabalhista contra o ex-patrão, embora não tenha recebido até hoje. Sem confirmar o valor da causa, o ex-funcionário diz ter sido impactado pela morte de Belchior, com quem trabalhou por mais de dez anos, e afirma não saber o que fará em relação à dívida.
Quando o desaparecimento do cantor se tornou público, em 2008, e a imprensa passou a seguir seus passos no Brasil e  no Uruguai (onde foi encontrado pela equipe do 'Fantástico', em 2009), especulou-se que o retiro de Belchior se deu por dificuldades econômicas. Amigos e profissionais que trabalharam com ele até o encerramento da carreira contudo, afirmam que o cantor e  compositor possuía bens e fontes financeiras com os quais poderia quitar as dívidas e se manter no período em que vagou por Uruguai, Porto Alegre e cidades do interior do Rio Grande do Sul, até encerrar seus dias em Santa Cruz do Sul, a 150 quilômetros da capital.
- Belchior não tinha problemas econômicos, tinha dificuldades financeiras circunstanciais. Como parou de fazer shows, ele perdeu liquidez, mas ainda tinha um patrimônio considerável, incluindo imóveis - argumenta o empresário Jackson Martins, que trabalhou por 14 anos com o cantor, até seu último show profissional, realizado em Colatina (ES), em 2006. - Fizemos mais de 200 shows do disco 'Um Concerto a Palo Seco', gravado com o violonista Gilvan de Oliveira. Nos apresentávamos um dia no Vale do Jequitinhonha e, no outro, em Curitiba. Conheço o Brasil inteiro graças ao Belchior.
Produtor de shows de nomes como Zé Ramalho e Almir Sater, Martins diz imaginar que Belchior também poderia recorrer a outra fonte financeira, a arrecadação de direitos autorais.
- Um autor do seu porte deve receber de R$ 15 mil a R$ 20 mil mensais de direitos - calcula o ex-empresário de Belchior, que diz nunca ter  parado de receber pedidos de shows. - Fui muito procurado para apresentações, ainda mais depois de o caso aparecer na TV. Certamente ele continuaria com média de 20 shows mensais que tinha antes de parar.
Desejo Por Uma Vida Nova
A pessoas próximas, Edna, e Belchior teriam dito que os repasses feitos pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) estavam bloqueados, até ao menos 2016. O Ecad, responsável pelo pagamento de direitos de  músicas aos seus autores, não revela os valores dos depósitos, mas informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que Belchior recebia regularmente seus rendimentos. Segundo a entidade, em 2016, os segmentos de rádio, TV aberta e música ao vivo foram responsáveis por 78% de rendimentos relativos aos direitos da execução pública de suas músicas. Contudo, não se sabe se Belchior e Edna tinham acesso à conta em que esse montante era depositado
Parceiro de Belchior em cerca de 40 canções, o ex-sócio Jorge Mello mantém em sua casa, em São Paulo, um acervo de milhares de documentos sobre o amigo. Guarda itens como borderôs de shows, por meio dos quais calcula que entre 1984 e 1995 Belchior tenha feito mais de 1.400 apresentações. No último registro, de 1995, o show foi vendido a R$ 45 mil. Afirmando que o cantor possuía imóveis em Fortaleza, Campinas e São Paulo, Mello não cogita que seu desaparecimento tenha se dado por questões financeiras, mas sim pelo desejo de levar uma nova vida, longe dos palcos.
- Ele tinha umas 600 músicas, muitas delas sucessos até hoje, um verdadeiro patrimônio. Não foi por problemas financeiros que ele sumiu, era uma questão filosófica. Ele queria se dedicar a  projetos como a tradução de 'A Divina Comédia', de Dante Alighieri, em versão popular - afirma Mello, que também é cantor e se prepara para gravar algumas de suas parcerias com o amigo, como 'Arte-Final' e 'O Negócio É o Seguinte'.
Primo de Belchior e seu ex-sócio, Ednardo Nunes guarda em Campinas algumas telas pintadas pelo cantor que estavam abandonadas na casa usada por ele como escritório, em São Paulo. Também músico, Nunes acredita que uma experiência semelhante vivida por Wilson, um dos irmãos de Belchior, possa ter influenciado a sua decisão de deixar tudo para trás.
- Wilson tinha uma grande construtora em Fortaleza, a Consibel, e um dia abandonou seus negócios e foi viver no México, ficou mais de 20 anos longe do Brasil. Isso pode ter ficado na cabeça do Belchior durante todos esses anos, até que um dia, ele decidiu fazer o mesmo - opina.
Preparando a biografia 'Apenas um rapaz latino-americano' a ser lançada em setembro, o jornalista Jotabê Medeiros também diz acreditar na hipótese de o exílio de Belchior ter sido uma decisão espontânea:
- Belchior faz parte dessa linhagem de Tolstói, Rimbaud, de pensadores que romperam com seu passado e sua obra. Certamente teria ótimas ofertas para retomar a carreira, mas quis encerrar esse capítulo. Ele tinha referências intelectuais intricadíssimas, era uma ave rara da música. Acabou optando pelo silêncio e pelo distanciamento. "

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Screamin Jay Hawkins, o Feiticeiro Gritador da Música

Screamin' Jay Hawkins (1929-2000) foi uma figura lendária, embora não tão conhecida, da música e dar artes cênicas. Suas performances nos palcos são sempre lembradas. Em sua carreira, que se iniciou antes do surgimento do rock'n roll, mas que chegou a fazer parte daquela primeira geração, Hawkins teve como a música de maior destaque I Put A Spell On You, uma balada que tem várias regravações, como a ótima releitura do Creedence, e a de Nina Simone. Em 10/11/1991, a seção Rio Fanzine, de O Globo trazia uma matéria com ele, assinada por Tom Leão:
"Ele se parece com uma cruza de James Brown com Little Richard e consegue ser ao mesmo tempo rotulado como rock, funk, jazz, blues e soul, sem ser absolutamente nada disso. Tem 40 anos de carreira (e 62 de vida) e mesmo assim só foi descoberto pela nova geração por causa de um filme. Estamos falando do cantor e dublê de feiticeiro vodu Screamin' Jay Hawkins.
Sua fama de exótico nasceu nos anos 50, participando dos programas do notório DJ e propagador da expressão 'rock'n roll' (que vem de uma gíria negra para transar), Alan Freed, justamente interpretando seu primeiro e maior sucesso até hoje, 'I Put a Speel on You'. Como a letra falava de feitiços e Hawkins tem um tipo meio 'macumbeiro', Freed sugeriu que ele cantasse ela em seus shows saindo de dentro de um caixão. Foi a consagração.
Daí em diante  só o que Screamin' Jay Hawkins fez foi cantar essa  música (e no caixão) de todas as formas possíveis, vestido com capas de feiticeiro, com colares de dentes e ossos enfiados no nariz. Ele bem que tentou se livrar do estigma, mas se num show ele não canta essa a plateia fica fula (o mesmo de Cab Calloway não cantar 'Minnie, The Moocher', por exemplo).
Contudo, nos anos 70 e parte dos 80 ele esteve no ostracismo, até que o cineasta Jim Jermush colocou 'I Put a Spell on You' na trilha de seu filme de estreia, o aclamado 'Strangers than paradise' (é a música que toca direto no gravador da personagem  Eva). Foi a glória. Logo todo mundo quis saber quem era aquele cantor e Hawkins voltou ao circuito dos barzinhos de jazz do eixo EUA-Europa.
E Jarmush fez mais por Hawkins. Ele aparece como ator em 'Mistery Train' (é o dono do hotel onde transcorre a ação do filme) e por consequência, também está no inédito aqui, 'A rage in Harlem', fora as participações em programas de TV e anúncios. Em menor escala foi quase como o mesmo que John Landis fez por nomes do blues e soul no filme 'The Blues Brothers'.
Mas antes disso, Screamin' Jay Hawkins já tinha influenciado muita gente boa. Do rockabilly terror dos Cramps ao visual espalhafatoso de George Clinton, tudo tem um toque dele.
Nascido em Cleveland, ex-campeão de boxe amador e fã de Caruso, Jalacy J. Hawkins começou a carreira aos 21 anos numa banda pré-rock chamada Tiny Grimes' Rockin' Highlanders (eles se  vestiam com kilts escoceses). Sua fama de 'gritador' veio com a gravação do blues 'Screamin' the Blues'. Como ele exagerava na interpretação, fazendo uns scats gritados, acabou cunhando um estilo próprio e inimitável.
Sua estreia já com o nome artístico deu-se com o a primeira gravação em andamento de balada, de 'I Put a Spell on You', lançada em 1949. A música chamou a atenção e foi sucesso por duas vezes nos anos 50 - em 52 e 56 -, já com versões mais alucinadas. Depois, o jeito foi dar ao público o que ele queria. E daí em diante Jay passou a gravar canções chamadas 'Little Demon', 'Alligator Wine', 'Frenzy' (que inspirou uma banda psychobilly alemã homônima) e outras onde as letras engraçadas e seu jeito de cantar eram destaques. Muitas soam como rip-offs de 'I Put a Spell...', mas nenhuma superou ou igualou a original.
 Infelizmente não há nada do artista lançado no Brasil, mas a Epic, através da série Legacy, que sai apenas em fita cassete, relançou há pouco a compilação 'At Home With Screamin' Jay Halkins', que com faixas-extras e resmaterizada foi rebatizada 'Cow fingers and mosquitio pie'. Encomende em sua importadora favorita e divirta-se."

Stevie Wonder - Songs In The Key Of Life (1976)

Em 1976 Stevie Wonder lançava um de seus mais importantes e representativos álbuns: Songs In Key Of Life, um álbum duplo que traz uma série de informações musicais que Wonder absorvia com seus ouvidos atentos e uma criatividade a todo vapor. Foi um de seus álbuns mais bem-sucedidos, sendo sucesso de vendas e de crítica. Ao ser lançado no Brasil, o Jornal de Música nº 27, de dezembro de 1976, trazia uma resenha do álbum, assinada por Dom Gabriel:
" Demorei algumas semanas para dar o meu ponto-de-vista sobre Songs In The Key Of Life, de Stevie Wonder, porque desde que recebi esse álbum, ainda não parei de ouvi-lo. A Top-Tape lançou o disco exatamente como nos Estados Unidos - com capa dupla, compacto e livreto - e a cópia nacional é até bem silenciosa, em comparação com a maioria das cópias nacionais de matrizes importadas, que têm um chiado horrível e tornam-se inaudíveis num bom sistema de som. Além disso, esse álbum foi lançado aqui quase ao mesmo tempo que nos Estados Unidos.
Songs In The Kay Of Life é o conjunto de dois LPs e um compacto que somam 104 minutos de Stevie Wonder em sua melhor forma. O livreto tem 24 páginas com letras, ficha técnica, mensagens e uma lista de agradecimentos a 172 pessoas (incluindo Jeff Beck, Frank Zappa, Doobie Brothers, Quincy Jones e Sérgio Mendes). Aliás, Stevie é um dos poucos artistas que conseguiram fazer um disco desses usando pouca ou nenhuma orquestração. Neste álbum ele toca a maior parte dos instrumentos e faz todos os vocais (com exceção de alguns backing vocals).
Stevie sempre teve a capacidade de atrair em torno de si, brancos e pretos, velhos e jovens. Seu recurso principal é a voz e, em Songs In The Key Of Life ele está cantando melhor do que em qualquer trabalho anterior. Considero sua voz melhor, porque não cai nas entonações melodramáticas que antes utilizava. Mas, Stevie ainda retém uma certa urgência ao cantar,  por causa dos seus fraseados e divisão das letras. Seu timbre está um pouco mais grave e ele explora esse registro mais baixo constantemente nesse álbum (dando continuidade ao que havia começado a fazer no álbum Innervisions). Ouçam Mr. Know It All. Stevie também explora mais sua gaita. Em Have A Talk With God, ele toca uma gaita blues parecendo com Joe Cotton ou Little Walter, e ainda toca uma gaita cromática durante a maior parte de Isn't She Lovely, obtendo um som muito pessoal com um instrumento tão limitado.
A música de Stevie, nesse álbum, pode ser definida em uma palavra: sabor. Todas as músicas são perfeitas tanto na concepção musical quanto nas letras. Prestem atenção na letra de Village.
Ghetto Land, onde ele fala das pessoas comprando ração de  cachorro para sobreviver e pergunta se nós, que estamos 'bem de vida', podemos encarar isso como apatia da classe  média. Tem até uma faixa instrumental, mas tão fora do contexto que parece algumas coisas do Hot Rats de Frank Zappa.
Stevie também incluiu um tributo a Duke Ellington, fazendo uma orquestração semelhante a de Duke, mas sem cair num flasback sarcástico. O interessante é que, apesar de ser um álbum duplo, Songs In The Key Of Life não tem músicas parecidas. Cada uma tem seus momentos de alegria em cada audição. Mas, tenho algumas prediletas que, por alguma razão (principalmente porque minha namorada canta de cor) ficaram na minha cabeça. Uma delas é a excelente Isn't She Lovely. No momento em que escrevo estou escutando o samba-disco chamado Another Star. Vai acabar virando clássico.
Nos seus outros trabalhos (Innnervisions e Fullfillingness First Finale) a mixagem era do tipo 'threedimensional digital-echo', mas, nesse disco Stevie optou por uma mixagem 'achatada'. Não me surpreenderia se tivesse usado 16 canais ao invés dos 32 normais (pra ele). O som está limpo e os instrumentos soam naturais ao invés de arranjados. Mesmo os metais (nas poucas músicas em que Stevie os utiliza) têm som de metais.
Os críticos americanos andaram dando uma esnobada nesse álbum ('nenhum progresso, etc, etc.'). Acho que esperavam um disco altamente digerível ou um jazz-funk tipo Herbie Hancock. Bem, o disco vendeu 1.700.000 cópias em 12 dias, subindo de cara para o primeiro lugar na parada da Billboard, façanha conseguida pelo Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, de Elton John, devendo-se levar em conta que o álbum de Stevie é duplo e caro.
Discutir esse disco é como discutir sexo. Poderíamos continuar falando durante horas. Mas o melhor é experimentá-lo e chegar às suas próprias conclusões. Tenho certeza que concordarão comigo. 50 milhões de estrelas."

quarta-feira, 15 de julho de 2020

The Who Sell Out - Revista Dynamite

A banda inglesa The Who é um dos principais nomes do rock mundial de todos os tempos. Em 1967  a banda lançou um interessante disco, chamado Sell Out, que satirizava o mercado publicitário, colocando entre as faixas pseudo-anúncios de produtos. Mas o mais importante é que o disco é muito bom, trazendo todo o pique e a energia da banda em seu início de carreira. 
A revista Dynamite, que circulou nos anos 90, e que falava de rock, traz uma matéria sobre esse disco, assinada pelo pesquisador Ayrton Mugnaini Jr.:
"Desta vez falaremos de um LP antológico do rock aqui e que pertence à Polygram, que é, como a Odeon, outra grande empresa que visa lucro - imaginem se não fosse. Bem, o disco é 'The Who Sell Out', de 1967, considerado o melhor LP do Who por muitos - inclusive por seu baterista, Keith Moon.
Não importa que muitos considerem 'Sell Out' o pior disco do Who - inclusive seu contrabaixista, John Entwistle. Com certeza, este LP é histórico por vários motivos. Para começar, é um disco perfeito para chatear os incautos que insistem em levar o rock a sério; 'Sell Out' é um dos discos mais bem-humorados de todo rock. E o bom humor do disco vai além de faixas como 'Tatoo', onde Pete Townshend goza o uso de tatuagens ('Benvinda à minha vida, tatuagem/ espero me arrepender de ti/ Mas o removedor de tatuagens não vai te pegar/ Estarás aí quando eu morrer/ Meu pai me bateu porque a minha mãe dizia 'Mamãe'/ Mas minha mãe, é claro, adorou e bateu no meu irmão/ Porque a tatuagem dele era de uma dama nua'), 'Rael' (ancestral imediata de Tommy, onde Townshend fantasia um futuro superpovoado onde cada pessoa tenha apenas alguns centímetros quadrados para viver) ou 'Silas Stingy' (composição de Entwistle sobre um avarento que chega a não tomar banho 'porque sabão custa caro/ e a sujeira o mantinha aquecido'). O LP é (perdoem a linguagem universitária), salvo engano, o primeiro exercício de metalinguagem do rock: quase todas as faixas estão interligadas por paródias de comerciais de rádio e vinhetas de rádios piratas inglesas - Pete Townshend e o Who sempre apoiaram a pirataria e a livre iniciativa geral.
E muitas das faixas do LP são justamente comerciais gaiatos de desodorante (Odorono), feijão (Heinz Baked Beans), pomada para espinhas (Medac, que na edição americana tem título Spotted Henry) e o famoso curso de musculação de Charlie Atlas (uma vinheta não creditada que abre o lado 2 do LP), num belo exemplo de humor inglês - até na capa, onde cada integrante do Who aparece às voltas com um dos produtos 'anunciados' (a fábrica de  feijões enlatados Heinz tentou se opor, mas acabaram convencidos de que era publicidade gratuita). Detalhe: Roger Daltrey aparece numa banheira cheia desse feijão - só que de camisa; a censura da época não permitiu o torso nu.
O nome do LP é o toque final de (auto)gozação: 'The Who Sell Out', ou seja, o Who se vende' ou 'o Who faz uma liquidação'. Interessante é que o LP foi o mais vendido do Who até então nos EUA - embora tenha sido o menos vendido na Inglaterra. E o grande sucesso do LP foi 'I Can See For Miles' (regravada por Tina Turner).
Se 'The Who Sell Out' tem um defeito incontestável, é de as vinhetas pararem logo após o início do lado dois (ou, na edição em CD, pouco depois da metade). Mas isso é apenas um detalhe para muitos fãs, que não perdoam o Who por ter ficado velho antes de morrer e, na opinião desses fãs, ter perdido o 'sense of humour' e virado um grupo maduro, prolixo e pedante.
De '...Sell Out", aqui no Brasil só saíram, em coletâneas, as faixas 'I Can See For Miles' e "Our Love Was, Is' (que teve boa regravação no primeiro LP solo de Edgar Scandurra). Agora, quem dificilmente vai 'sell out' é nossa Polygram. O que fazer com uma gravadora que em 1975 chegou a agradecer ao Who 'pela maior cartada que uma gravadora pode ter nas mãos' e em 1989 editou a coletânea 'Who's Better, Who's Best' como sendo 'o mínimo que a Polygram poderia fazer'? Pois é, quem faz o mínimo tende a não receber nem o mínimo. Eu sei disso, você sabe disso. Mas a Polygram Stingy sabe disso? 'They can't see for miles and miles and miles...'
Ah, sim: a Polygram acaba de lançar mais uma das coletâneas do Who que lança a mais ou menos cada cinco anos e que, face a 'The Who Sell Out' e outros discos do Who ainda inéditos no Brasil, é tão útil quanto a volta do fusca."

terça-feira, 14 de julho de 2020

Nelson Cavaquinho - Revista Música Brasileira (1998)

A revista Música Brasileira era uma revista independente, de circulação restrita, que circulou no fim dos anos 90. Falava sobre cantores e compositores brasileiros, ligados a uma tradição musical, principalmente gente ligada ao samba. Portanto, Nelson Cavaquinho não poderia deixar de ser lembrado. Em sua edição nº 13 ele ganhou uma matéria, assinada por Luís Pimentel, e intitulada "Como Soldado da PM, Foi Um Excelente Compositor":
"- Fui o pior soldado da história da Polícia Militar do Rio e Janeiro! - disse ele, certa vez. E não estava exagerando. Começou a vida como cavalariano no Batalhão da Cavalaria da PM, onde ficou sete anos. Metade em cima do cavalo, metade em cana. Foi o mais assíduo hóspede do xadrez do quartel da Rua Evaristo da Veiga. Mas como para ele tudo tinha uma explicação, dos porres exagerados às vendas de sambas aos 'comprousitores' de plantão, as prisões tinham lá suas vantagens:
- Era bom pegar cana. Se não fosse pro xadrez do batalhão, eu não teria feito muito samba de sucesso. Às vezes ficava um mês confinado. Então aproveitava a tranquilidade para compor.
Nelson da Silva nasceu no Rio de Janeiro, na Tijuca (Rua Mariz e Barros), no dia 28 de outubro de 1911. Entrou na Polícia Militar muito jovem e a contragosto, levado pelo pai, tocador de tuba da Banda da PM, Brás Antonio da Silva, com quem aprendeu a tocar cavaco. A determinação paterna também tinha uma explicação: Nelson engravidara uma namoradinha de adolescência e estava querendo fugir à responsabilidade, alegando que não tinha dinheiro para cuidar de mulher e filho. 'Não seja por isso', disse o velho Brás. 'Vai ser  polícia'. Ele não sabia com quem estava lidando.
Nelson sentou praça e recebeu as rédeas de um cavalo. Tinha que fazer a ronda montado, apesar de morrer de medo do animal. No meio do caminho desistia da ronda e deixava o cavalo amarrado em uma cerca do pé do Buraco Quente, no Morro da Mangueira. Ali varava as noites com os amigos e depois parceiros Cartola, Carlos Cachaça e Zé Com Fome. Voltava para o quartel dias depois, sem o cavalo - que geralmente se soltava e ficava vagando e pastando pelas ruas. Aí, tome xadrez, para aumentar a produção musical.
Pouco antes de morrer ele estimou sua produção em torno de 800 músicas, cerca de 400 gravadas, umas 100 inéditas e 'pelo menos 300 vendidas, totalmente ou só parceria'. Apesar dos números, quando partiu, no dia 18 de fevereiro de 1986, vítima de enfisema pulmonar, deixou apenas uma minguada pensão do antigo INPS e uma casinha da Cehab em Vila Esperança, lugarejo escondido no bairro carioca de Jardim América.
Nelson Cavaquinho teve vários parceiros, entre parcerias 'armadas' - com aqueles que pagavam para entrar nos créditos do samba - e as verdadeiras. Entre essas um nome desponta: o grande poeta Guilherme de Brito, com quem legou à história da MPB preciosidades como Quando Eu Me Chamar Saudade (Sei que amanhã quando eu morrer/Os meus amigos vão dizer/Que eu tinha bom coração), A Flor e o Espinho (Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor), que já mereceu inúmeras regravações, Folhas Secas (Quando eu piso em folhas secas/Caídas de uma mangueira/Penso na minha escola/E nos poetas da minha Estação Primeira), Cinzas, Pranto do Poeta, Degraus da Vida e tantas outras. Cantores como Clara Nunes, Chico Buarque, Beth Carvalho e Paulinho da Viola já gravaram e regravaram a dupla Nelson/Guilherme de Brito, uma eterna garantia de bom gosto.
Da fabulosa parceria com Guilherme vale o registro também de obra inédita, resgatada depois por pesquisadores, que se chama Arma de Covarde e que teria ficado inédita pelo fato de o presidente Getúlio Vargas ter se suicidado pouco tempo depois da construção da letra. Os autores ficaram constrangidos diante da tragédia nacional que foi a morte de Getúlio, porque os versos dizem o seguinte:
'A arma do covarde é o suicídio, eu bem sei.
É um erro que eu sempre condenei.
Existe sempre alguém que troca a vida pela morte.
Eu peço sempre a Deus para não me dar essa sorte.
Quisera viver eternamente
Servindo de exemplo a esta gente.
Eu vivo triste, sou um desgostoso,
Mas acho meu viver tão precioso.'
Mas, a bem da verdade, pela vida que levou, talvez ele não achasse o seu 'viver tão precioso' assim. A primeira gravação só aconteceu em 1943, o samba Não Faças Vontade a Ela, parceria com Henricão e Rubens Campos. Nelson compunha onde chegava, até porque onde chegava costumava ficar um bom tempo. Metade de sua obra foi feita em bar (seu primeiro lar), pois tinha amigos muito próximos e um fígado invejável. Abordou vários temas, mas jamais quis se envolver com o carnaval. Sobre isto, certa vez deu uma explicação:
- Música é ideia. Não faço música com livro de história do lado. Depois, esse negócio de samba-enredo dá uma confusão danada. 
Sabia das coisas."

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Jimi Hendrix Está na Dele - O Pasquim (1969)

Jimi Hendrix é inegavelmente um símbolo do rock, e uma das imagens mais difundidas para simbolizar o rock e os anos 60. Por isso, hoje, no Dia Internacional do Rock, resolvi publicar uma matéria sobre ele, de uma época em que ele ainda vivia. Foi publicada no jornal O Pasquim em 1969, escrita por Luiz Carlos Maciel. Segue abaixo:
"Para quem quiser saber como vai ser a música do futuro, da próxima década dos setenta, não conheço dica melhor do que os discos de Jimi Hendrix. Três deles já foram editados no Brasil - Smash Hits, Eletric Ladyland e Axis: Bold As Love. E outros certamente virão. Os quadrados torcem o nariz diante deles. Mas a garotada prafrentex identifica neles o som da nova Idade Elétrica na qual, segundo Marshall McLuhan, estamos inexoravelmente ingressando.
Hendrix é um crioulo americano de cara esquisita, cuja formação musical foi claramente feita pelo rhytm and blues que floresce no Harlem e em outros guetos negros dos Estados Unidos. Sem a sofisticação do jazz, que sempre foi uma manifestação musical superior, o R&B tem, porém, as suas inflexões negroides e força primitivas. Como o jazz, o R&B conheceu a sua variante branca, diluída e dirigida por interesses comerciais mais simples. Chama-se rock and roll e, como se sabe, foi a origem da música dos Beatles e o canal adequado para que as guitarras elétricas manifestassem a sua inédita sonoridade. Hendrix tocou a guitarra com alguns conjuntos de R&B, viajou para a Inglaterra, sofreu a influência do trabalho dos Beatles e dos Rolling Stones e voltou aos Estados Unidos para formar o seu próprio conjunto: o hoje célebre Jimi Hendrix Experience.
Hendrix não usa muitos instrumentos: o Experience é um trio que conta, além de sua guitarra elétrica, com um baixo e uma bateria. Ao contrário do esquema tradicional da base rítmica (feita pelo baixo e pela bateria, por exemplo), Hendrix cria uma rica polifonia de três linhas melódicas, usando cada instrumento como solista e harmonizando-os com muita inventiva. Ele retomou a orientação experimentalista dos Beatles e tenta levá-la ao seu limite. Recolheu também a contribuição da música oriental, o que veio a ser um dos elementos característicos de seu novo som.
Em que reside, porém, a originalidade desse novo som?  Ao contrário da maioria de seus companheiros de viagem, Hendrix concentra suas experiências sobre o aparato elétrico de seus instrumentos. Excelente instrumentista, na verdade um músico de qualidade superior por qualquer critério, ele explora todos os sons conhecidos e alguns desconhecidos da guitarra elétrica. Até mesmo a distorção deliberada do registro elétrico de suas gravações, é amplamente utilizada. Basta escutar Electric Ladyland, principalmente na edição original, que consta de dois LPs, para verificar que Hendrix já transformou hoje, a eletricidade no seu verdadeiro veículo de expressão musical. O que a música eletrônica aspirou a fazer, Hendrix realiza ao nível da música popular.
A diferença está no fato de que a música eletrônica, apesar da audácia, continua ligada à tradição racionalista, letrada - como diria McLuhan - da arte ocidental, enquanto a de Hendrix corresponde ao que o mesmo McLuhan chama de tendência à retribalização da juventude contemporânea. Ela envolve, para ser devidamente apreciada, uma nova sensibilidade musical que os Beatles apenas insinuaram nos seus ouvintes. Hendrix a assume, na sua integridade, e a exige em seus próprios ouvintes. É por isso que digo quer a guitarra elétrica, em Jimi Hendrix, não é apenas um novo som: é uma nova experiência existencial que exige, para que se estabeleça uma comunicação efetiva, uma alteração profunda na própria maneira de viver do ouvinte, nos próprios valores que norteiam seu comportamento e  no seu próprio sistema nervoso. Sim: a música de Jimi Hendrix exige uma realidade certamente mais fácil aos jovens e que é a condição indispensável da nova sensibilidade. Esse é o segredo da sua força e de sua originalidade.
O surgimento do jazz, na primeira metade do século, também exigiu uma nova sensibilidade e também implicava uma nova maneira de viver. Mas o jazz ainda mantinha laços firmes com os antigos padrões culturais. Havia sido criado por um negro intimamente rebelado, mas que sufocava a revolta em sua resignação: o jazz sofre a tensão desse esforço, é alegre quando bem sucedido, mas sempre dilacerado e pungente. No caso do rock elétrico de Jimi Hendrix, as pontes com os padrões culturais estabelecidos estão destruídas. Em vez de rebeldia e resignação, temos aqui uma marginalização deliberada. 'A cultura e a civilização' - diz Gilberto Gil, admirador confesso de Hendrix - 'elas que se danem ou não'.
Acredito que são os hippies, hoje o grupo humano que melhor introjetaram em seu sistema nervoso a nova sensibilidade. Eles assumiram, em sua plenitude, a nova tendência para a retribalização. Seus festivais de música revivem as antigas festas dionisíacas dos gregos através da química (drogas, LSD) e a eletrônica (guitarras elétricas, os sistemas de amplificação, os alto-falantes). Os hippies não sofrem passivamente o processo do avanço tecnológico: eles o utilizam para reformular o seu próprio sistema nervoso. Melhor do que qualquer conjunto moderno de rock, o Jimi Hendrix Experience expressa essa reformulação. Suas execuções criam um verdadeiro ritual elétrico, de orientação tribal e intenção dionisíaca. Através dos Beatles e dos Rolling Stones, o R&B percorreu um longo caminho até chegar  a Jimi Hendrix. Hoje, ele não tem mais nada a ver com a cultura ou a civilização. Está na dele."

domingo, 12 de julho de 2020

Roger Waters Fala do Cream

A revista Rolling Stone lançou um número especial intitulado Os 100 Maiores Artistas de Todos os Tempos. Nessa revista um artista consagrado escrevia um texto sobre um outro astro ou banda que ele admira ou influenciou em sua carreira. Dentre os artistas que deram seu depoimento, Roger Waters, do Pink Floyd escreveu um texto sobre o power-trio Cream, que marcou uma geração de músicos durante os dois anos (1966 a 1968) em que esteve em atividade. No texto ele fala de um show que ele assistiu do Cream, antes de formar o Pink Floyd, e como a banda marcou a sua vida, e aquele show específico ficou em sua memória. É um testemunho de fã, antes de tudo. Segue abaixo o texto de Waters:
"Eu estava no terceiro ano de estudo em um lugar de Londres chamado Regent Street Polytechnic School of Architecture, que foi onde conheci Nick Mason e Rick Wright. No final de cada período acontecia um show e naquela vez tivemos o Cream - em um pequeno hall onde eu havia certa vez interpretado Happy Loman em Morte de um Caixeiro Viajante, o que na verdade não vem ao caso. A cortina se abriu e os três começaram a tocar 'Crossroads'. Eu nunca tinha visto algo assim antes. Eu estava simplesmente atordoado pela quantidade de equipamento que eles tinham: pela bateria de bumbo duplo de Ginger Baker, pelos amplificadores Marshall 4 por 12 de Jack Bruce e por todas as coisas que Eric Clapton tinha. Era uma visão maravilhosa e um som explosivo.
Depois de dois terços do set, um deles disse: 'Gostaríamos de convidar um americano amigo nosso ao palco'. Era Jimi Hendrix, e esta foi a primeira noite em que tocou na Inglaterra. Ele veio e fez todas aquelas coisas hoje famosas, como tocar com os dentes. Aquele ingresso custou uma libra ou algo assim. Pode ter sido a melhor compra que fiz na vida. Depois disso, o Pink Floyd começou sua carreira profissional, e a gente encontrava o Cream na estrada. Eles afetaram tanta gente - Jimmy Page deve ter visto o Cream e pensado: 'Cacete, acho que vou fazer isso também', e assim montado o Led Zeppelin. Junto com os Beatles, eles deram a nós todos que estávamos começando no negócio naquela época algo em que aspirar e que não era exatamente pop, mas ainda era popular.
Lembro que Ginger Baker era insano naquele tempo e tenho certeza de que ainda é. Ele acertava a bateria mais forte do que qualquer um que tenha visto, com a possível exceção de Keith Moon. E Ginger batia em um estilo rítmico que era todo seu e extraordinário. De Eric Clapton não precisamos nem falar - é óbvio o quão incrível ele é. E então há Jack Bruce -  e provavelmente o baixista mais abençoado musicalmente que já existiu.
O Cream foi inovador dentro do contexto de toda aquela música vindo da costa oeste dos Estados Unidos na época, de bandas como Doors e Love. Além de ser uma grande banda de blues, o Cream mandava realmente bem em inúmeros outros estilos.
Há músicas em todos os álbuns do Cream que ainda me espantam até hoje, como 'Crossroads', 'Sunshine of Your Love', 'White Room' e 'I Feel Free'. Eles estavam tentando compor material que fosse verdadeiramente progressivo e original. E conseguiram."

sábado, 11 de julho de 2020

Caetano Veloso - Em Meio À Geleia Geral

A contribuição de Caetano Veloso para a música brasileira, e mais amplamente falando, para a cultura brasileira de uma forma geral é inegável. Por isso seu nome sempre é lembrado ao se falar da cena musical brasileira, a partir dos anos 60, quando ele surgiu, até os dias atuais. Assim, uma coleção voltada aos grandes mestres de nossa música, chamada Os Grandes da MPB, e que saía em fascículos em bancas de jornais nos anos 90, teve um número dedicado a Caetano. Dele extraí esse texto, assinado por Francisco Rodrigues:
"Uns dez anos depois do estouro da Bossa Nova, a estão chamada vanguardista música brasileira, que servia de trilha para filmes de sucesso, conhecidos e premiados no exterior, como Orfeu Negro, de Marcel Camus, e Um Homem... Uma Mulher, de Claude Lelouch, começava a invadir terras americanas e europeias e a música feita no Brasil - e para os brasileiros - não conhecia novos horizontes. Foi em meio a esse panorama, muito influenciado por João Gilberto e Tom Jobim, mas querendo ampliar as perspectivas e mesclar o gênero já estabelecido com motivos que vinham do Nordeste, sem com isso cair no regionalismo puro e simples, e as novas experimentações harmônicas e eletrônicas, que surgiram os baianos.
Caetano Veloso e Gilberto Gil eram como líderes dessa renovação, que contava ainda com o compositor Tom Zé, os poetas Torquato Neto e Capinam e as vozes ímpares de Gal Costa e Nara Leão (Maria Bethânia, irmã de Caetano e que viera para o Rio substituir Nara no musical Opinião, corria por fora, cantando na noite e se chegando mais perto do povão, que adorava os sambas de Noel Rosa, e as canções românticas, tipo dor-de-cotovelo, mais próprias de um público noturno), embalados pelas guitarras e irreverência do grupo Os Mutantes e as orquestrações de Rogério Duprat.
Alegria, Alegria, considerado o estopim do movimento baiano, conseguiu um quarto lugar no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record/São Paulo, enquanto o Ponteio de Edu Lobo, o Domingo no Parque de Gilberto Gil e a Roda Viva de Chico Buarque ganhavam os três primeiros lugares. Era ainda 1967. O grande estouro do Tropicalismo aconteceria no ano seguinte, a partir do álbum que levava, justamente, o nome de Tropicália.
Era, ao mesmo tempo que um trabalho de vanguarda, uma manifestação que procurava exorcizar, fazendo dele a base de sua manifestação, o mau gosto, o kitsch, a geleia geral (título de uma das músicas do disco, de Gil e Torquato) que o Brasil representava naquele momento.
'O poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira
No calor, girassol com alegria
Na geleia geral brasileira
Que o Jornal do Brasil anuncia
Ê bumba iêiê boi
Ano que vem, mês que foi
Ê bumba iê iê iê
É a mesma dança, meu boi...'
Junto dos motivos de inspiração folclórica haviam também canções com temas-limite, como 'Coração Materno' de Vicente Celestino (nada mais trágico e mais cômico), o bolero 'Lindonéia', inspirado por uma pintura de Rubens Gerschman, a balada 'Baby', que viraria um grande sucesso popular nas paradas na voz de Gal Costa, e até uma revisitação atualizada a um chachacha antigo, 'Las Tres Carabelas'.
Foi um marco e um grande início de renovação para a nossa música popular, que desembocaria em dezenas de novos artistas e de novos gêneros e de novas sonoridades, e como deve ser, novas experimentações.
Como Caetano e Gil dizem em 'Cinema Novo', do álbum Tropicália 2, de 1993, que comemorava os 25 anos da Tropicália:
'Quer ser velho, de novo eterno,
Quero ser novo de novo'. " 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Muddy Waters, O Maioral do Blues em Chicago

Muddy Waters é figura fundamental na história do blues. Foi o grande responsável pela eletrificação do blues, que até então era eminentemente acústico. Essa mudança aconteceu ainda nos anos 40, e a partir de então o gênero não seria mais o mesmo, ou melhor, expandiria seus horizontes, fazendo uma fusão com o nascente rock'n roll, que na verdade sofreu forte influência do blues em sua formação.
A figura de Waters exercia grande influência entre os novos músicos da segunda geração do rock, principalmente dos ingleses, que invadiram o cenário musical nos anos 60. Os Rolling Stones, por exemplo, nunca esconderam sua admiração e veneração por Waters, sempre o citando como referência no início de sua carreira.
A matéria abaixo, não assinada, foi publicada no nº 1 da revista Rock Stars, de 1983, ano de morte do grande bluesman.
" 'É o não é um homão?' - assim o integrante do conjunto The Band, fazendo as vezes de apresentador, reverenciou o mestre Muddy Waters, quando este deixava o palco após uma interpretação eletrizante de 'Manish Boy'. O concerto de despedida do grupo canadense, imortalizado no filme O Último Concerto de Rock, vivera seu momento culminante. Embora sexagenário, aquele crioulo corpulento ainda conseguia irradiar energia por todos os poros. Estava possuído pela força selvagem do rhythm' blues, o som enérgico e metálico americano.
Ao final, gotas de suor brotando na sua testa, o velho Muddy projetou seu corpo para o ar, no arrebatamento de uma música em que ecoava o protesto ancestral de sua gente. O salto meio desajeitado não teve nada de teatral, foi antes um imperativo, tal a tensão que crescia dentro dele - força a custo contida, necessitando se desencadear. Que instante mágico! Via-se ali a arte despojada, de todos os artificialismos, restituída à dimensão humana, corporal: emoção pura e transbordante de um artista que deixava aflorar os instintos, sensibilidade à flor da pele. Cena de arrepiar, guardar para sempre na lembrança como um troféu, tripudiando sobre os cultores do rock cibernético: 'Meninos, eu vi!'

Seu nome real era McKinley Morganfield, tendo nascido em abril de 1915 no Mississippi. Criança, recebeu o apelido de 'Muddy Water' (Água Lamacenta'), que o acompanhou pelo resto da vida. Perdeu a mãe aos três anos e foi criado pelos avós, numa plantação próxima a Clarksdale, delta do Missississippi - região em que o blues vicejava. Começou cedo a tocar harmônica em saloons, por cinquenta cents a noite. Aos treze anos, já estava tão popular que seu cachê aumentara para dezoito dólares, por doze horas de trabalho (das sete da noite às sete da manhã, com direito a sanduíches de peixe nos intervalos).
Aos quinze, ele já constituíra e liderava um quarteto, no qual aparecia como cantor. Dois anos mais tarde começou a tocar guitarra, tendo o lendário Son House como mentor. Segue-se um período obscuro, ao cabo do qual vamos encontrá-lo trabalhando numa plantação de algodão em 1941. Lá dois pesquisadores do folk foram procurá-lo, a fim de registrar sua versão rústica do blues rural (com óbvia influência de Robert Johnson) para a Biblioteca do Congresso.
Em 1943 foi tentar a sorte em Chicago, empregando-se numa fábrica de papel. Percebendo que sua música não era suficientemente ruidosa para se fazer ouvir em meio à algazarra dos bares locais, adquiriu no ano seguinte a sua primeira guitarra elétrica. Breve começaria a gravar na Chess Records, alcançando importante êxito no seu 78 rpm de estreia, "I Can Be Satisfied" - canção que atestou as possibilidades comerciais do blues elétrico, abrindo as portas das gravadoras (principalmente da própria Chess). Criaram-se assim  as condições para o sucesso de artistas como Howlin' Wolf, Lightnin' Hopkins, John Lee Hooker, Albert King, Freddie King e B.B. King. Mas o principal expoente da chamada 'Escola de Chicago' foi mesmo  Muddy Waters, que emplacou hits sucessivos: 'She Moves Me', 'Hoochie Coochie Man, 'I Just Wanna Make Love To You', 'Got My Mojo Working'.
Depois de influenciar poderosamente os primeiros roqueiros americanos, Muddy visitou a Inglaterra em 1958. O saldo de suas apresentações foi a constituição do conjunto Blues Incorporated, com que esse ritmo começou a fazer a cabeça dos novos músicos americanos - os Stones e os Yardbirds, por exemplo, beberam dessa fonte. Em reconhecimento, o pessoal do rock sempre prestigiou Muddy e gravou com ele - vide as extraordinárias London Sessions, em 1972, com Rory Gallagher, Rick Grech e Stevie Winwood, e mais recentemente, o empenho de Johnny Winter em tornar conhecida a obra e as performances desse gigante da música negra norte-americana, falecido este ano."

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Marianne Faithfull - Revista Bizz (1992)

Marianne Faithfull foi uma presença marcante na cena do rock dos anos 60, fazendo parte especificamente da história dos Rolling Stones, por sua proximidade com a banda, principalmente com Mick Jagger, com quem teve um conturbado relacionamento. Mas seria injusto atribuir somente a esse envolvimento sua passagem pelo mundo do rock, afinal teve uma boa, embora efêmera carreira como cantora e atriz. Por isso Marianne foi lembrada na revista Bizz nº 79, de fevereiro de 1992, na seção Jukebox, em texto escrito por René Ferri:
"Ela é um caso raro na música pop. Uma artista que, mesmo com uma produção bissexta, é o tempo todo fascinante - jamais caindo no esquecimento, nunca saindo do foco da atenção do público e da crítica.
Há muito, desde os anos 60, sua voz perdeu o frescor e o encantador vibrato, para ganhar um registro rouco, gutural, fantasmagórico, cada vez mais acentuado. Como cantora e personalidade, Marianne é uma das mais interessantes do seu tempo. E note-se, ela surgiu na fervilhante Londres dos anos 60, a das grandes revelações que transformaram a história da música popular ocidental.
Desde seu aparecimento, Marianne só fez chocar, começando por sua descendência nobre: seu tio-bisavô  foi o infame Leopold Von Sacher-Masoch. Sua mãe é baronesa do ex-império austro-húngaro.
Uma aristocrata decadente no meio da escumalha noveau riche do rock causou impacto: primeiro estupefação e deslumbramento, depois uma perseguição abjeta movida pela morbidez de certa imprensa rancorosa e cheia de preconceitos.
No auge do sucesso trocou a música pelo teatro sério. Autêntica liberal, facilitou a imagem de anjo caído e libertina impingida pela opinião conservadora.
Como intérprete, começou gravando originalmente o hit "As Tears Go By", dos Rolling Stones, e prosseguiu estabelecendo colaborações com Andrew Oldhan, Jackie DeShannon e Paul McCartney (fez a primeira cover de Yestarday).
Gravou "Scarborough Fair" e "Spanish Is A Loving Tongue" antes de, respectivamente Simon & Garfunkel e Bob Dylan. E ainda várias canções de Donovan, antes de ficarem famosas na voz do autor. Sua "Sister Morphine" antecedeu a dos Stones em três anos.
Uma série de crises - culminando em tentativa de suicídio - e o uso de drogas praticamente encerraram sua carreira no início dos anos 70. Depois fez várias tentativas frustradas de voltar, já recuperada do ciclo das drogas pesadas, mas acumulando um fascínio doentio pela morte. Só fomos assistir a seu verdadeiro ressurgimento em 79, com o incrível LP Broken English, um dos mais ousados e melhores discos já concebidos. A temática, passando por terrorismo, autodestruição, pornografia explícita e suicídio, pregou um susto em todo mundo e fez com que Marianne voltasse ao sucesso.
Doze anos e apenas quatro álbuns depois, espera-se que a qualquer momento ela reapareça e, de novo, nos encante. Lá fora, pelo menos, a espera pode ser atenuada com o vídeo Blazin' Away (de sua última turnê, em 89/90) e a recém-lançada biografia As Tears Go By.
Cada disco seu tem algo forte, chocante, novo ou surpreendente. Tem sido assim desde seu primeiro single, e lá se vão mais de 25 anos!
Definitivamente, Marianne Faithfull é única."

Milton Nascimento: "Só Eu Posso Mandar em Mim" (Revista Pop - 1975)

1975 foi um bom ano para Milton Nascimento. Naquele ano ele lançaria um de seus melhores e mais bem sucedidos discos, Minas, além de estar envolvido com outros projetos, inclusive a nível internacional. Quando esta matéria foi publicada na revista Pop, Milton não havia lançado ainda o citado disco, mais falava de alguns projetos paralelos, dentre eles, fazer o lançamento de seu amigo Beto Guedes, que na ocasião só havia participado de uma única gravação: um disco coletivo com Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta. Beto aliás, participaria de forma destacada no disco Minas, não só como instrumentista, como no dueto vocal em uma das músicas que mais se destacaram naquele álbum, Fé Cega, Faca Amolada.
Abaixo segue a transcrição da matéria:
"Cada show de Milton é um acontecimento em que crianças, velhos e jovens partilham emoções intensas geradas pela música. Aqui, ele fala de como descobriu que não há nada de errado em sua cuca, revela seu grande amor pelas crianças e conta que está escrevendo uma peça musical.
Gosto de fazer shows para estudantes e deixar a cargo deles a organização e divulgação dos espetáculos. Tenho viajado muito pelo Brasil e estou impressionado com a incrível renovação do público. Você pinta no palco e vê gente de 13, 14 anos superlotando o teatro e curtindo o mesmo som. Já o Circuito Universitário não me satisfaz. Esse negócio de chegar de manhã numa cidade, cantar à noite e viajar em seguida não dá pé. Dá a impressão de que a gente está tomando banho em água suja. Prefiro chegar uma semana antes, entrar em contato com o povo do lugar, curtir a cidade, receber e dar o máximo de informações.
Este ano, quero viajar por todo o Brasil cantando minhas músicas. Estou com várias composições novas e ando louco para mostrá-las. Também estou escrevendo uma peça musical junto com Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant para lançar Beto Guedes, um compositor e cantor da pesada. É capaz de virar um grande musical, uma coisa incrível mesmo.
Até bem pouco tempo atrás eu morria de medo das pessoas pensarem mal de mim. Fui criado em Três Pontas, interior de Minas, onde os grilos são inacreditáveis. Nunca gostei de gente que vive censurando o procedimento dos outros, pouco se importando com a verdade de cada um. Levei grande parte da minha vida fazendo autocensura, me policiando mesmo. Mas o artista, por sua própria natureza, não pode ficar tolhido por qualquer tipo de censura. Do medo nasce o pânico, e aí a autodestruição vem rápida: bebida, desinteresse, chateação. Então, num dia de extrema lucidez, bati um papo comigo mesmo e percebi que nada havia de errado no meu interior. Tudo o que me conflitava vinha de fora. Aí saquei que a única pessoa que tinha direito a mim era eu mesmo. Daí em diante, fiz só o que achava certo e entrei numa muito boa.
Meu sonho atualmente é comprar uma casa onde possa viver com gente legal, aberta, sem nenhum preconceito e cheia de verdade interior. Minha maior paixão é meu filho Pablo. Eu adoro crianças! Ela mora em São Paulo, com a mãe. Mas estou sempre em contato com ele. Quando me apresentei no Anhembi, em São Paulo, houve um negócio que me emocionou muito: tinha gente à beça e, quando cantei Pablo, os pais ergueram seus filhos nos braços e ficaram cantando e pulando. Uma loucura! Parecia que todos os bebês de São Paulo estavam lá. Menos meu Pablo. A mãe dele teve medo da multidão e preferiu não lavá-lo. Nesse dia, chorei de montão."

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Show MPB 4 no Safari (1976)

O MPB 4 é um grupo vocal que fez história na música brasileira. Sua participação na cena musical desde os anos 60, época áurea dos antigos festivais de música, com seus arranjos vocais e instrumentais, que davam uma roupagem nova a seu repertório sempre impecável, fizeram do quarteto formado por Ruy, Magro, Miltinho e Aquiles, um nome dos mais respeitáveis e sólidos em nossa música, sendo sinônimo de qualidade e refinamento.
Ao longo dos anos o quarteto, além de lançar discos antológicos, realizou shows sempre bem produzidos, dando voz aos nossos melhores compositores. Sua associação ao nome de Chico Buarque no início de carreira do compositor é sempre inevitável em qualquer biografia de Chico. Hoje, apesar da perda lastimável de dois de seus membros, Ruy e Magro, o MPB 4 continua na ativa, porém sem aquele brilho de sua fase original. De qualquer forma, é bom ver o grupo resistindo, e tentando levar adiante seu legado.
Em sua edição nº3, de agosto de 1976, a revista Música trazia uma matéria sobre o show MPB 4 no Safari. Segue abaixo a matéria:
"Rui, Aquiles, Miltinho e Magro. Um grupo de música popular é enviado a um país do 4º mundo para fazer um estágio. Depois, as grandes plateias. Em Piratunga, o tal país, os quatro integrantes do grupo são pressionados pelo MAT, Mercado de Auxílio ao Talento, a seguirem ordens estritas: música, apenas música, nada mais.
Um texto de Antonio Pedro, Chico Buarque e do próprio MPB 4, uma seleção musical dos melhores momentos do grupo nesses 10 anos de sobrevivência. Em sua maioria, trechos de "Antologia", "Palhaços e Reis" e "MPB 4 10 Anos Depois". Duas músicas de Miltinho em parceria com Maurício Tapajós e Luiz Gonzaga Jr. : "Nosso Mal e "Assim Seja, Amém'.
De volta a São Paulo, onde iniciou a carreira, o MPB 4 atesta mais uma vez que o texto é indispensável a um espetáculo, pois o público exige mais que cantar, propondo-se a um trabalho mais elaborado, onde o diretor, Antonio Pedro, procura tirar o que cada um oferece de si, além da competência musical e bom-gosto comprovados do grupo no decorrer de seu trabalho.
A direção musical é de Magro, a sonoplastia de Gerson Pereira, também atuando como ator convidado, a produção executiva de Wellington Luiz, Doris Mara na contra-regra e a participação especial de Mário Negrão na bateria e Bebeto Castilho no baixo. Destaque para a iluminação de Walter Rocher em "Fé Cega, Faca Amolada".
A ampliação instrumental é Palmer, o baixo usado é um Danelectro, o piano, um RMI, o PA para voz Shure Vocal Master Sound System. Miltinho toca violão de 12 cordas Del Vecchio com captador Barcus Berry. Rui ocupa-se da percussão.
Com novo show já sendo preparado por Chico e Paulo Pontes, o MPB 4 afirma que a mensagem do Safari compete a cada um definir, mas finalizando o espetáculo com "sonho que se sonha junto é realidade" (Prelúdio de Raul Seixas), não fica muito difícil. "

terça-feira, 7 de julho de 2020

Clementina de Jesus, A Mãe do Samba

Clementina de Jesus é uma personalidade marcante de nossa música. Dona de uma voz peculiar, que trazia a marca de sua ancestralidade africana, Clementina se tornou uma de nossas intérpretes de samba mais exaltadas, com todo merecimento. No livro Memória Musical, do jornalista Nelson Motta, lançado em 1990, reunindo textos variados sobre personagens de nossa música, o jornalista fala de Clementina em um desses textos. O livro não informa sobre a data em que as análises foram escritas, por isso fica uma dúvida sobre essa informação, porém creio que haja um erro de informação ao ser informado que a cantora tinha à época 68 anos de idade e 20 de carreira. Nascida em 1901, Clementina teria essa idade em 1969, mas naquele ano ela não tinha 20 anos de carreira, pois em 1949 ela nem sonhava em se tornar uma cantora profissional. Ela foi descoberta lá pelos idos dos anos 60 por Herminio Bello de Carvalho. Acredito que tenha havido um engano na informação de sua idade, e o texto tenha sido escrito nos anos 80. De qualquer forma, segue abaixo o texto:
"Em Vila Isabel há uma rua pequena e dentro dela uma vila. No fundo da vila, numa casinha verde e rosa de três cômodos, mora uma preta simpática, amorosa e que canta maravilhosamente bem. Clementina de Jesus tem 68 anos de idade e acaba de completar 20 anos de carreira profissional, mas é artista por vontade e vocação desde sempre, desde criança ouvindo, aprendendo e cantando as canções que sua mãe cantava enquanto lavava roupa ao sol forte de Valença.
Dentro de casa há um homem doente e Clementina toma conta dele com amor e humor. Pé Grande é seu companheiro há 35 anos - 'os melhores de minha vida', ela afirma sorrindo. Trabalhou 20 anos como empregada doméstica e aos 48 anos se transformou quase que instantaneamente em uma grande estrela para todos que encontram no samba mais que uma música, uma cultura, uma maneira de viver. Nesse mundo os maiores chamam Clementina de mãe e não há compositor que não imagine suas músicas um dia em sua voz grave, rouca e forte.
- Eu adoro essa criançada, eles são muito bons comigo. Você sabe, eu canto muito em faculdade, eles adoram. Gosto muito dessa criançada. Agora o João Bosco fez um samba pra mim. Como é que é, meu Deus?... Acho que agora esqueci; depois eu lembro.
E canta um, bendito, belíssimo, que acompanha na memória desde a beira do tanque, ao sol forte de Valença. Bendita seja.
Deitado e doente, Pé Grande gosta, sempre gostou, juntos há tanto tempo. Apesar das dificuldades há disposição para o alegre e o triste que a vida oferece. Ela conta como foi:
- Mulher está em casa, com a comida pronta, tudo na hora, o marido chega e diz que tem um pagode bom num lugar, a mulher se apronta logo e os dois vão ver se o pagode é legal mesmo. Se tem cerveja pra gente beber a gente bebe e se diverte e volta pra casa, os dois mais pra lá do que pra cá, sem fazer barulho pra vizinhança não reclamar.
Mas a vizinhança às vezes reclama da chegada dos dois, amanhecendo, alegres e cansados, rindo e falando alto, dizendo que a vida é boa.
Durante vinte anos Clementina trabalhou como empregada doméstica na casa de uma família portuguesa, no Rio.
- Eles gostavam muito de mim, eu gostava muito deles, mas a madame...
Seu orgulho e sua elegância a fazem interromper a frase. Apenas ri, sorri maliciosa, e conta como tudo começou. Quando o poeta Hermínio Bello de Carvalho a convidou para cantar no Menestrel. E em nenhum momento ela pensou que tinha 48 anos, que era empregada doméstica, se ia dar certo ou errado: tinha muita simpatia por aquele moço e muita alegria em cantar numa festa para ele e os amigos dele.
E assim foi, como num filme. Os amigos do moço adoraram: entre eles, os que preparavam o musical Rosa de Ouro, com Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Aracy Cortes, Anescarzinho; histórico espetáculo que se tornou um marco do samba carioca - onde foi lançada Clementina de Jesus, que nunca tinha pisado num palco, sacudindo o teatro e os jornais com seus jongos e partidos. Altíssimos.
Quando ela disse que ia cantar num show de teatro ouviu para que não fosse, para que deixasse daquilo, que podia ser ruim, que não tinha mais idade. Era o que a patroa dizia, e Clementina foi. Na noite da estreia - conta - tomou sozinha uma garrafa de Cinzano e entrou em cena à vontade, como quem entra num pagode legal. O preto reluzente da pele dentro do buraco do vestido, a voz do povo no porte de uma rainha; durante meses o Teatro Jovem, na Praia de Botafogo, lotou para aplaudir Clementina.
Logo depois não podia continuar trabalhando para a família portuguesa. Não quer nem precisa dizer, mas seu olho conta muito do que se passou entre ela e a madame. Concede, porém, uma graça, cochichando confidente: 'às vezes eu estava fazendo o serviço e cantando baixinho e ela passava e dizia: tá cantando ou tá miando?'
Clementina apresentou-se na Europa e África, já cantou a Marselhesa na França, foi aplaudida em todo lugar que pisou, gravou discos, conquistou corações, e começou quase aos 50 anos a ganhar a vida com o que queria e sabia desde que ouvia a mãe cantando à beira do tanque em Valença e era menina. "