Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Tom Zé - Jornal O Estado de São Paulo (1999)


Em 1999 o compositor e músico baiano Tom Zé seguia uma carreira internacional, após ser descoberto por David Byrne, ex-membro do Talking Heads. O jornal O Estado de São Paulo de 21/05/99 noticiava um show do músico no Irving Plaza, com o grupo Totoise, de Chicago, cantando em português para uma plateia formada por universitários e críticos de veículos importantes. O texto é assinado por Guto Barra:

"Nova York ´- Tom Zé acaba de transformar-se no maior agitador cultural  brasileiro que passou por Nova York nos últimos anos. O cantor foi consagrado pelo público de mais de mil pessoas que lotou o Irving Plaza, na noite de anteontem, quando se apresentou acompanhado pelo grupo Tortoise, de Chicago. O brasileiro atraiu centenas de estudantes universitários americanos e  críticos de publicações como New York Times, Rolling Stone, Interview e Village Voice, entre outros, para o show que fez parte da turnê Zé2K, que vai passar por seis cidades do país.

Recebido como ídolo cult, Tom Zé não podia estar mais à vontade. 'Estou muito emocionado com tudo o que está acontecendo, já que no Brasil eu fui enterrado vivo em 1940 e depois, de novo, em 1970'., disse ele, antes do show. O músico, que havia se apresentado em Boston na noite anterior, passou o dia dando entrevistas para veículos internacionais. À tarde, ensaiou com a banda, formada por Doug McCombs, John Herndon, Jeff Parker, John McEntire e Dan Fliegel. Ele disse estar muito satisfeito com  a boa relação profissional com o músico David Byrne.

Foi Byrne, ex-integrante do grupo Talking Heads, com seu selo fonográfico, o Luaka Bop, o responsável pelo lançamento dos discos de Tom Zé nos Estados Unidos. 'Tenho com ele uma relação igual a que meu avô tinha com seus empregados na fazenda lá na Bahia: valia o fio do bigode, não existiam contratos', disse Tom Zé. Byrne disse também estar satisfeito com  a repercussão que o novo disco de Tom Zé, Com Defeito de Fabricação, vem tendo nos Estados Unidos.

 'Nos últimos tempos percebi que não existe uma hierarquia na música, como eu aprendi quando era mais novo', disse. 'Hoje fico feliz de ver que a música mais criativa do mundo não está sendo feita necessariamente onde a mídia está.' Quando Byrne subiu ao palco para anunciar a chegada do músico brasileiro, logo depois do show de outro brasileiro, Vinícius Cantuária, que mora nos Estados Unidos, o público estava ansioso. 'Meu nome é David e hoje vocês vão ver a verdadeira Ameaça Fantasma, disse, fazendo trocadilho com o nome do filme de George Lucas que estreou na mesma noite no país. Tom Zé começou a apresentação com a música Nave Maria, que prendeu a atenção da plateia. Em seguida veio Curiosidade, que abre o disco Com Defeito de Fabricação, e que vem tendo boa execução em emissoras de rádio universitárias, como a WUFM. Também entraram no repertório Menina Amanhã de Manhã, Juventude Javali, Androide Candango e Feira de Santana.

A integração de Tom Zé com os músicos do Tortoise chamou a atenção. O grupo, que tem um bom público formado por fãs de jazz e de rock alternativo do circuito universitário, ofereceu-se para acompanhar o brasileiro, de quem seus integrantes são admiradores. Com apenas duas semanas de ensaios, eles prepararam o repertório da turnê, conseguindo uma sonoridade consistente e ao mesmo tempo fiel ao trabalho do compositor brasileiro. O destaque fica para o groove do baterista, Dan Fliegel, que já morou dois meses no Brasil e fala um pouco de português.

Mas o mais impressionante, na apresentação de Tom Zé em Nova York, é ver o quanto ele desconcerta o público que não domina ou desconhece o português, Tom Zé comunica-se com sua expressão corporal. Apesar de estar estudando inglês ('Não saio da escola, lá em São Paulo', diz), ele tem um carregado sotaque e cria os melhores jogos de palavras e metáforas inspiradas em português. Arrancou risadas ao falar que no Brasil ele é 'um escravo'. Mas ressalvou: 'Aqui, eu sou o rei.' Tom Zé fez propaganda do disco, em forma de um inacreditável jingle, pôs toda a plateia para cantar o refrão instrumental de Hey Jude, dos Beatles, de trás para a frente, e terminou o show com um estonteante solo de esmeril, produzindo uma chuva de faíscas no palco.

A consagração de Tom Zé em Nova York vai além do sucesso desfrutado por nomes como Caetano Veloso, Gal Costa ou Marisa Monte. O músico vem atraindo uma curiosidade similar à de Lee 'Scratch' Perry, mais um caso em que a personalidade do artista transcende a barreira da língua ou do ritmo. A julgar pela histeria causada pela distribuição de fitas promocionais, na saída do show, os próximos da fila serão, com certeza, os Mutantes, de quem o selo Luaka Bop lança um disco, em junho. Usando o trocadilho de Byrne, a verdadeira força está com o psicodelismo brasileiro."



domingo, 20 de setembro de 2020

O Que Foi Woodstock - parte 4


Max Yasgur tinha duas preocupações.

- Ele achava que uma grave injustiça tinha sido feita em Wallkill. E ele queria se assegurar de que ele conseguiria os U$ 75.000 antes que alguma outra fazenda de leite conseguisse - disse Rosenman. - Não exatamente nessa ordem. Eu não estou certo do que era mais importante para ele. Tendo dito isto, eu direi mais sobre o Max: ele nunca nos exigiu um níquel a mais depois que o pagamos. Eu me lembro de que todas as vezes em que nós íamos até lá. Max nos dava uma daquelas caixas de leite achocolatado. Todas as vezes. Nós acabamos com esse monte de caixas de leite pelo escritório.

Contratados pelo uso da terra ao redor da fazenda de Yasgur acabaram custando à Ventures outros U$ 25.000.

- Nós poderíamos ter comprado a terra pelo preço que a alugamos - disse Lang. Enquanto isso cartazes escritos a mão estavam sendo colocados na cidade de Bethel. Eles diziam: "Não comprem nenhum leite. Parem o Festival de Música Hippy de Max."

Lang tinha fixado um teto de U$ 15.000 por qualquer apresentação. Mas a melhor apresentação no país, o guitarrista Jimi Hendrix, queria mais. Hendrix tinha conseguido U$ 150.000 por um show, naquele verão, na Califórnia. Seu agente estava exigindo o mesmo para ele tocar em Woodstock. Mas, por volta de julho, Lang tinha algum poder também. Ele não precisava de Hendrix para fazer o maior concerto do ano. Se Hendrix quisesse vir, seria bem-vindo.

- Nós pagamos a Jimi Hendrix U$ 32.000. Ele era a atração principal, e era isso que ela queria - disse Rosenman. Então a Ventures mentiu sobre os contratos.

Apresentação do Mountain

 - Nós dissemos a todos que isso foi porque ele faria duas apresentações de U$ 16.000 cada. Nós tínhamos de fazer isso, ou The Airplane ia querer mais U$ 12.000.

Lang fixou o calendário para que as apresentações folk como a de Joan Baez fossem feitas na sexta-feira, o dia de abertura. O rock'n roll foi guardado para sábado e domingo. Mas a apresentacão única de Hendrix tinha o tempo todo de ser final. Seu contrato dizia que nenhuma apresentação poderia seguir à dele.

- As reuniões da cidade nunca atraíram mais que moscas, antes - disse Tiber. - Mas dessa vez tínhamos, talvez, 300 pessoas. Talvez fosse porque Michael estava descalço. Ele saiu do helicóptero sem sapatos Eu nunca tinha visto nada assim antes, mas esse era o jeito dele ser. Estava tudo bem por mim, mas eu acho que eles não gostaram daquilo.

Santana

Os residentes de Bethel tinham lido sobre as preocupações em Wallkill: drogas, tráfego, esgoto, e água. A fúria pública cresceu mais uma vez. Um proeminente residente de Bethel contactou Lang. Ele disse que poderia subornar algumas pessoas de poder, e poderia assegurar que Lang conseguiria as aprovações de que precisava. Tudo o que o "assegurador" queria era U$ 10.000. A Woodstock Ventures arranjou o dinheiro vivo e o pôs em uma bolsa de papel. Lang não diz o nome do homem que solicitou o suborno. Mas no final a Woodstock Ventures não pagou.

- Nós estávamos muito preocupados com carma - disse Lang. - Nós pensamos que se subornássemos alguém, isso estaria errado e nós mudaríamos o modo como as coisas deveriam acontecer.

A sugestão de um suborno pôs em ação o apoio de Yasgur. Lang disse:

- Naquele ponto, ele se tornou realmente um aliado, não só um espectador.

Bob Dylan era o único dos herois do rock de Lang que não tinha assinado um contrato. Os promotores tinham pego emprestado algo da mística de Dylan, dando ao concerto o nome da cidade adotada por ele, distante apenas 112 quilômetros de Bethel. A banda que acompanhava Dylan, The Band, já tinha assinado. Lang achou que Dylan aparecer seria natural. Então ele fez a peregrinação ao esconderijo de Dylan no Condado de Ulster.

Janis Joplin

 - Eu fui ver Bob Dylan aproximadamente  três semanas antes do festival - disse Lang. Fui com Bob Dacey, um amigo de Dylan, e nós nos reunimos em sua casa por umas poucas horas. Eu lhe contei o que estávamos fazendo e lhe disse: "Nós amaríamos ter você lá". Mas ele não veio. Eu não sei o porquê.

Finalmente, no final de julho, a Woodstock Ventures obteve aprovações de licenças do advogado Frederick W. V. Schadt, da Cidade de Bethel e do inspetor de construções Donald Clark. Mas, sob ordens de interrupção do trabalho; os promotores rasgaram os cartazes com a aprovação de Clark. Ele sentia que estava sendo feito de bode expiatório pela cidade.

Schadt disse que o impulso de Woodstock estava acelerando como um trem em fuga.

- Naquele momento, aquilo tinha progredido tanto, que qualquer tipo de ordem de parar teria resultado em caos - disse ele. - Milhares de pessoas chegando inconvenientemente à comunidade. Como seria possível pará-los?




sábado, 19 de setembro de 2020

O Que Foi Woodstock - parte 3


Allan Markoff olhava as  duas monstruosidades entrando em sua loja no final de abril ou início de maio. Eles eram Lang e o amigo dele,  Stan Goldstein. Goldstein, de 35 anos, tinha sido um dos organizadores do Miami Pop Festival de 1968.. Na Woodstock Ventures ele era o coordenador de acampamentos.

- Eles queriam que eu projetasse um sistema de som para mais ou menos 50.000 pessoas - disse Markoff, que possuía a única loja de estéreo em Middletown, a Áudio Center, na Nort Street. - Eles disseram que poderia haver até mesmo 100.000 pessoas, poderia ir até mesmo a 150.000. Ele pensou que Lang e Goldstein estavam loucos.

- Nunca tinha havido um concerto para 50.000; isso era incrível - disse Markoff - Agora, 100.000, isso era impossível. É equivalente a fazer um sistema de som para para 30 milhões de pessoas, hoje em dia. Markoff, então com 24 anos, era o único residente local listado na Audio Engineering Society Magazine (Revista da Sociedade de Engenharia Sonora). Lang e Goldstein tinham escolhido o nome dele da revista de repente.  Markoff era responsável por arranjar aparelhagem de som para o maior show da Terra. Ele se lembra de uma característica do sistema de som: volume mais baixo do amplificador, os alto-falantes de Woodstock causavam dor para qualquer um que se encontrasse dentro de 3 metros de distância.

Wadleigh estava experimentando como usar rock em seus filmes como suplemento para os temas sociais e políticos daqueles dias.  Ele também estava trabalhando com imagens múltiplas para fazer documentários mais divertidos do que esses que destacam um grupo de cabeças falantes. E então os meninos de Woodstock vieram à sua porta. A ideia deles era irresistível. O dinheiro não era. Wadleigh entrou nessa de qualquer maneira. Um dia a casa cai...

Alvin Lee, do Teen Years After

A Woodstock Ventures definiu o concerto como uma "comunidade temporária para um fim de semana no campo". Os  anúncios foram lançados nos jornais, tanto politicamente corretos quanto underground, e em estações de rádio em Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque, Boston, Texas e Washington, DC. Um ingresso para o concerto também pagava por uma área de acampamento. Mas até mesmo uma comunidade hippie desse tipo requer algum tipo de organização. No fim de junho, Goldstein chamou a Hog Farm.

A Hog Farm começou como uma fazenda de porcos em uma comunidade na Califórnia; seus membros eventualmente compraram terras perto de uma reserva de índios Hopi, no Novo México. Seu líder era um hippie magrela e desdentado cujo nome verdadeiro era Hugh Romney. Ele era um beatnick cômico que tinha mudado seu nome para Wavy Gravy e mantinha o título de cara esperto, o "Ministro da Conversa".

-Nós trouxemos a Hog Farm para ser nossa relação com a multidão - explicou Goldstein. - Nós precisávamos de um grupo específico para ser o exemplo para tudo que se seguiria. Nós acreditávamos que a ideia de dormir ao ar livre, debaixo das estrelas seria muito atraente para muitas pessoas, mas nós sabíamos muito bem que o tipo de pessoas que estava vindo nunca tinha dormido debaixo das estrelas em suas vidas. Nós tínhamos que criar uma circunstância na qual elas estariam bem cuidadas. Foi pra conta!

Woodstock foi oficialmente banido de de Walkill em 15 de julho de 1969. Sob o aplauso de residentes membros do conselho disseram que os planos dos organizadores eram incompletos. Eles também disseram que banheiros ao ar  livre, como esses que seriam usados no concerto, eram ilegais em Wallkill. Duas semanas antes, o conselho da cidade tinha passado uma lei requerendo uma licença para qualquer ajuntamento de mais de 5.000 pessoas.

Johnny Winter em Woodstock

 - A lei que eles criaram excluía uma coisa e somente uma coisa: Woodstock - disse Al Room, o então editor de The Times Herald-Record, que foi contra e lei de Wallkill. O supervisor Jack Schloser negou que fose essa a intenção. O conselho de Wallkill pode ter feito um favor à Woodstock Ventures. A publicidade sobre o que tinha acontecido fez acontecer uma chuva de interesse. Além disso, se Woodstock tivesse sido organizado em Wallkill, Lang disse, as vibrações teriam arruinado o show ou o transformariam em uma revolta. Outro membro da Woodstock Ventures, Lee Blumer, lembrou-se das ameaças feitas na cidade: - Eles disseram que iam atirar no primeiro huppie que entrasse na cidade - disse Blumer.

A Kodak queria dinheiro vivo, mas a equipe de filmagem não conseguiu nenhum dinheiro adiantado para filmar. Então Wadleigh retirou U$ 50.000 da poupança, tanto da sua conta pessoal quanto de uma conta para seu negócio de filmes independentes. Durante julho, Wadleigh estava fora, em Wyoming, fazendo um filme sobre montanhismo. Quando os promotores perderam o local de Wallkill, Wadleigh se apavorou.

- Eu tinha essa sensação de terror absoluto de que as coisas não iam andar - disse Wadleigh - aquela sensação de que alguém poderia nos dar uma rasteira não passava, até que a música começou.

Richie Havens

 "Por que nós não vamos ver meu amigo Max Yasgur? Ele me vende leite e queijo há anos. Ele tem uma grande fazenda lá em Bethel".

Yasgur acabou conhecendo Lang no campo de alfafa. E desta vez, Lang gostou do jeito da terra.

- Era mágico - disse Lang. - Era perfeito. O campo em forma de bacia se inclinando, uma pequena subida para o palco. Um lago ao fundo. O negócio foi fechado ali mesmo no campo. Max e eu estávamos caminhando na subida do campo. Quando nós começamos a falar de negócios, ele estava calculando quanto ia lhe custar para replantar o campo. Ele era um sujeito afiado, o velho Max, e ele estava calculando tudo com um lápis e papel. Ele ia molhando a ponta do lápis com a língua. Eu me lembro de apertar sua mão, e essa foi primeira vez em que eu notei que ela só tinha três dedos na mão direita. Mas o aperto dele era como ferro. Ele preparava aquela terra sozinho.

Os 600 acres pelos quais a Ventures se interessou eram apenas uma parte da propriedade de Yasgur, que se estendia ao longo de ambos os lados da Rota 17B, em Bethel.

Dias depois de conhecer Yasgur, Lang trouxe o resto do time da Ventures em oito limusines; até isso acontecer, Yasgur já conhecia a Woodstock, e o preço tinha subido consideravelmente. A Woodstock Ventures manteve todas as negociações em segredo, para que não se repetisse o que tinha acontecido em Wallkill.  Em algum ponto durante as conversas, Tiber e Lang foram jantar no Lighthouse Restaurant, um restaurante italiano exatamente na Rota 18B, em White Lake .Foi ali que as notícias vazaram.

Apresentação do Jefferson Airplane

 - Enquanto nós estávamos pagando a conta, o rádio estava ligado no bar. A estação de rádio de lá,  a WVOS, anunciou que o festival ia para White Lake - disse Tiber. - Os garçons ou as garçonetes devem ter ligado para a estação de rádio. Nós ficamos exatamente em choque. O bar agora estava vazio. Michael tinha apenas uma expressão vazia. Todos nós entramos em choque.

Em julho 20 de julho de 1969, o mundo estava falando sobre o primeiro homem a pisar na Lua. Mas a conversação em Bethel era sobre esse "festival hippie de Woodstock".

- Eu estava acostumado a brigas, mas eu não estava pronto para essa - disse Tiber. Os parceiros da Woodstock admitiram desde então que eles estavam comprometidos com o festival. Eles disseram aos oficiais de Bethel que eles estavam esperando 50.000 pessoas, no máximo. Desde o princípio eles sabiam que Woodstock atrairia muito, muito mais.

(continua)






sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O Que Foi Woodstock - parte 2


Unidos naquele fim de semana em 1969 estavam mentirosos e amantes, profetas e aproveitadores. Eles fizeram amor, eles fizeram dinheiro e eles fizeram um pouco de história. Arnold Skolnick, o artista que projetou o símbolo da pomba e violão de Woodstock, o descreveu desse modo:

- Algo grandioso foi feito nesse país. E todo mundo simplesmente veio.

Woodstock custou basicamente, mais de U$ 2,4 milhões e foi patrocinado por quatro homens muito diferentes e muito jovens: John Roberts, Joel Rosenman, Artie Kornfeld e Michael Lang. Até hoje, os idealizadores de Woodstock discordam quanto a quem propôs a ideia original do concerto.

- Nós teríamos coquetéis a canapés  em uma barraca ou algo assim - disse Rosenman - Nós enviaríamos limusines até Nova Iorque para pegar todo mundo. Tim Hardin ou alguém mais poderia cantar. Talvez, se nós tivéssemos sorte, Joan Baez se levantaria e cantaria umas músicas.

Ao final da sua terceira reunião, o pequeno festival lá em Woodstock tinha virado uma bola de neve e passou a ser um concerto para 50.000 pessoas, o maior espetáculo de rock do mundo. Os quatro sócios formaram uma corporação em março. Cada um ficou com 25%. A companhia foi chamada de Woodstock Ventures Inc., em homenagem à cidadezinha do Condado de Ulster, onde Dylan viveu.

O time da Woodstock Ventures correu para achar um local. Agentes imobiliários por todo o meio-Hudson estavam rastreando a zona rural em Orange. Mas, finalmente, por U$ 10.000 a Woodstock Ventures alugou uma área de terra na cidade deWallkill, cujo dono era Howard Mills Jr. Os 300  acres do Mills Industrial Park ofereciam um acesso perfeito. Ficava a menos de 2 km da Rota 17, que dava na auto-estrada do Estado de Nova Iorque, e saía direto da Rota 211, uma principal estrada local. O local tinha o essencial, eletricidade e água encanada.

A terra era dividida em zonas para indústria; entre os usos permitidos estavam exibições culturais e concertos. Os promotores entraram em contato com a secretaria de urbanismo da cidade e receberam uma permissão verbal para ir à frente por causa da demarcação.

No início de abril, os promotores estavam cultivando a imagem de Woodstock cuidadosamente na imprensa underground, em publicações como a Village Voice e a revista Rolling Stone. Anúncios começaram a ser lançados em The New York Times e The Times Herald-Record em maio. Para Kornfeld, Woodstock não era uma questão de construir palcos, assinar atos, ou até mesmo vender ingressos. Para ele, o festival era sempre um estado da mente, um acontecimento que tornaria a geração um exemplo.. A publicidade do evento com esperteza se apropriou de símbolos a frases de efeito.

O grupo concordou quanto ao slogan concreto de "Três Dias de Paz e Música". Os promotores calcularam que "paz" ligaria o sentimento anti-guerra ao show de rock. Eles também queriam evitar qualquer violência e calcularam que um slogan com "paz" ajudaria a manter a ordem.

A logomarca de Woodstock, na realidade, não era uma pomba; o original era um outro pássaro, empoleirado em uma flauta.

- Eu estava em em Shelter Island, perto de Long Island, e eu estava desenhando todo o tempo - disse o artista Arnold Skolnick - Assim que Ira Arnold (um copywriter do projeto) apareceu como os tais "Três Dias de Paz e Música", eu só peguei uma gilete e recortei aquele pássaro do bloco de desenhos que eu estava usando. Primeiro, ele estava sentado na flauta. Eu estava escutando jazz no momento, e eu acho que esse é o porquê. Mas de qualquer maneira, ele ficou sentado em uma flauta durante um dia, e eu finalmente acabei pondo ele em um violão.

E começaram as contratações...

Melanie Safka tinha uma música no rádio chamada "Beautiful People". Um DJ extremamente hippie chamado Roscoe na WNEW-FM tocava essa música. Um dia, Melanie se encontrou com um sujeito de cabelo encaracolado, que trabalhava na área da música, chamado Michael Lang, que estava falando sobre um festival que ele estava produzindo. Quando Melanie perguntou se ela poderia tocar lá, a resposta foi bem tranquila:

- Claro.

-  Eu pensei que aquilo era seria muito pouco emocionante - recorda-se Melanie.

A Woodstock Ventures estava tentando conseguir as maiores bandas de rock da América, mas o roqueiros estavam relutantes em se comprometer com um empreendimento de risco, que poderia ser impossível de se levar adiante..

-  Para adquirir os contratos, nós tínhamos que ter credibilidade, e para adquirir a credibilidade, nós tínhamos que ter os contratos - disse Rosenman.

A Ventures resolveu o problema prometendo cachês jamais vistos antes de 1969. A grande inovação veio com  a confirmação da principal banda psicodélica daqueles dias, The Jefferson Airplane, pela incrível quantia de U$ 12.000. O Airplane normalmente recebia cachês de U$ 5.000 a U$ 6.000. Creedence Clearwater Revival assinou por U$ 11.500. The Who entrou, então, por U$ 12.500. Todas as coisas começaram a entrar na linha. Ao todo, a Ventures gastou U$ 180.000 em pagamentos desse gênero.

- Eu tomei uma decisão de que nós precisávamos de três atos principais, e eu lhes disse que não me preocuparia com o que custasse - disse Lang. - Se eles estavam pedindo U$ 5.000, eu dizia: "Paguem U$ 10.000". Assim nós pagamos eles, assinamos os contratos, e era isso aí: credibilidade imediata.

Os residentes de Wallkill tinham ouvido falar de hippies, drogas e concertos de rock, e depois que o anúncio de Woodstock chegou a The New York Times, The Times Herald-Record e as estações de rádio, os residentes locais souberam que um show de rock de três dias, talvez o maior de todos, estava para acontecer. Além disso, os empregados da Woodstock Ventures se pareciam de verdade com hippies.

Nas mentes de muitas pessoas, cabelo longo e roupas descuidadas eram associados com política de esquerda e uso de drogas. As ideias novas sobre reordenar a sociedade eram ameaçadoras para muitas pessoas. Em Wallkill, esses sentimentos foram lançados sobre Mills e sua família. Residentes paravam Mills na igreja para reclamar. A Ventures tentou acabar com algumas reclamações contratando Wes Pomeroy, um ex-acessor do Departamento de Justiça, para chefiar os detalhes de segurança. Um ministro, o reverendo Donald Ganoung, foi posto na folha de pagamento para chefiar relações locais.

(continua)




quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O Que Foi Woodstock - 1ª Parte


Bethel, Nova Iorque, 15, 16 e 17 de agosto... 1969. Festival de música e feira de arte, Woodstock. Definitivamente, se você tinha que estar em algum lugar nestes três dias, era em Woodstock. O maior concerto de rock da história estava pra começar, em Bethel. E não eram três horas de show, eram três dias. Três dias de paz, amor e muita música, esse era o objetivo de Woodstock. Todos acampando, e dormindo sob as estrelas... Ia ser uma festa mesmo.

O estado de Nova Iorque estava pronto para a festa. Os policiais locais, estaduais e do resto do país estavam preparados. Sabiam o que estava por vir e confiavam em suas habilidades para que corresse tudo bem com o trânsito, as pessoas, emergências médicas, saneamento e outros problemas inesperados. Então, pelo que eles não esperavam? Já ouviu falar da lei de Murphy?

500 mil convidados! Senhoras e senhores... Os convidados: manifestantes anti-guerra, militantes negros, anti-gays, a turma do lagalyze, governistas, veteranos do Vietnã, anti-negros, gays e lésbicas, anti-drogas, oposicionistas. Ah, e tinha também aquele grupo do... "Eu só vim aqui por causa da música."

Tá, e aí, o que tinha depois? E como desgraça pouca é bobagem, tínhamos também: falta de comida; condições sanitárias precárias, ou inexistentes; drogas (muitas drogas) e álcool (muito álcool); e preocupações do gênero: "Onde está meu carro?" - "Onde estão meus amigos?" A má notícia... de acordo com a polícia, houve três  mortes (mas também três nascimentos!)

Apesar de tudo, não aconteceu nenhuma ocorrência grave. Não foi comunicado nenhum crime violento na área e nenhum caso de roubo ou invasão de domicílio nas casas  vizinhas. A ação da polícia limitou-se à apreensão de drogas e pequenos casos, somente.

Agora, a boa... 500 mil jovens foram abandonados, e descobriram, sozinhos, o verdadeiro significado das palavras dividir, ajudar, considerar e respeitar. Tudo isso no ritmo de muita paz, amor e música (muita música). Milhares deles saíram de Woodstock com uma visão totalmente diferente do mundo. E como não poderia deixar de ser... e bota música nisso:

Joan, Baez, Arlo Guthrie, Tim Hardin, Incredible String Band, Ravi Shankar, Richie Havens, Sly & The Family Stone, Bert Sommer, Quill, The Who, Cannet Heat, Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, The Grateful Dead,, The Keef Hartley Band, Blood, Sweat and Tears, Crosby, Stills & Nash (& Young), Santana, The Band, Ten Years After,, Johnny Winter, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joe Cocker, Mountain, Melaine, Sha Na Na, John Sebastian, Country Joe and The Fish,, The Paul Butterfield Blues Band.

É impossível escrever a a última palavra sobre Woodstock. Foi mais do que um show de rock, foi um marco histórico, com diferentes significados, para diferentes pessoas.

O último fã encharcado de lama deixou o pasto de Max Yasgur há mais de 50 anos atrás. Isso foi quando o debate sobre o significado histórico de Woodstock começou. Verdadeiros crentes na cultura hippie chamam Woodstock de "o marco final de uma era dedicada ao avanço humano". Os cínicos dizem que foi "o fim adequado e ridículo de uma era de uma era de ingenuidade". Há ainda os que dizem que aquilo foi apenas uma festa dos infernos!

A Feira de Arte e Música de Woodstock, em 1969, trouxe mais de 450.000 pessoas para um pasto no Condado de Sullivan. Durante quatro dias, o local se tornou uma mini-nação contracultural na qual as mentes estavam abertas, drogas eram o que havia de mais legal e o amor era "livre". A música começou na tarde de 15 de agosto, sexta-feira, às 17:07 e continuou até a metade da manhã do dia 18 de agosto, segunda-feira. O festival fechou a via expressa do Estado de Nova Iorque e criou um dos piores engarrafamentos da nação.

Também inspirou um monte de leis locais e estatais para assegurar que nada como isto jamais aconteceria novamente. Woodstock, como poucos eventos históricos, se tornou uma espécie de herança cultural, para os EUA e para o mundo. Assim, como "Watergate" representa uma crise nacional e "Waterloo" representa derrota, "Woodstock" se tornou um adjetivo imediato que denota o poder dos jovens e os excessos dos anos 69.

- O que nós tivemos aqui foi um fato que ocorre uma vez na vida, na cidade de Bathel - diz o historiador Bert Feldman. Dickens disse isso primeiro: "Foi o melhor dos tempos. Foi o pior dos tempos." É uma mistura que nunca será reproduzida novamente.

(continua)



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Bob Dylan, O Poeta do Caos e do Amor


Em 1986 foi lançado no Brasil a tradução do livro Tarântula, de Bob Dylan, pela Editora Brasiliense. Na ocasião, o informativo Primeiro Toque, publicado pela Editora Brasiliense, trouxe um texto de divulgação para o livro, escrito pelo historiador Nicolau Sevcenko. Abaixo, a transcrição:

"Numa de suas entrevistas mais polêmicas, perguntado pelo repórter do Greenwich Village Voice se ele acreditava ter desempenhado um papel de líder do desenvolvimento da cultura pop, Dylan respondeu: 'Eu espero que não'. Esta resposta estourou como uma verdadeira bomba de estilhaços em meio à legião de fãs, que sempre o tiveram na conta de profeta e guia. Eles se sentiram perplexos, paralisados entre a incredulidade e a decepção. Seria apenas mais uma ironia do autor de Lily, Rosemary e o Valete de Copas, ou será que o autor de Blowing in the Wind, o hino radical do underground politizado dos anos 60, havia mergulhado no mais torpe cinismo? Ou será que tudo não passava de mais uma sacada genial do impenetrável nonsense que sempre foi uma das marcas registradas de seus poemas? É muito provável que tudo isso seja verdade ao mesmo tempo. Mas o que é mais verdade ainda, é que Dylan não estava mentindo. 

Não que Dylan, o mais notável poeta da cultura pop, não tenha tido uma influência decisiva sobre todos os seus artistas e representantes mais significativos. Isso é indiscutível, todos o sabem e admitem. O que é muito mais difícil de aceitar, é que ele sempre se sentiu muito pouco à vontade nesse papel central e preferiu a todo momento atacar e destruir a imagem que faziam dele, do que relaxar e gozar, confortavelmente acomodado ao papel de condutor do povo eleito, constituído pela juventude rebelde do mundo inteiro. Isso explica as relações sempre tensas e  intempestivas que ele mantém com a indústria cultural, com a imprensa e mesmo com seu próprio e imenso público. Coisa rara no universo dos grandes astros do pop: quase nada se sabe de sua vida particular, ele evita a mídia como a peste - ele é inevitavelmente um mito, porque sua própria vida é um mistério.

Já em 1965, na contracapa do magnífico 'Bringing it All Back Home', Dylan abria o coração e, coisa pouco comum, falava claramente dos incômodos de sua posição. 'Eu aceito o caos. Mas não estou certo se ele me aceita. (...) O sucesso não significa absolutamente nada... Eu não quero ser Bach, Mozart, Tolstói, Joe Hill, Gertrude Stein ou James Dean, eles estão mortos. Os grandes livros já foram escritos. Os grandes dizeres já foram ditos. Eu só pretendo esboçar uma imagem do que acontece por aqui às vezes. Embora eu próprio não entenda muito bem o que é que está acontecendo. Eu só sei que todos nós vamos morrer um dia e que nenhuma morte jamais fez o mundo parar. (...) Uma música é algo que pode caminhar pelos seus próprios pés. Eu sou chamado de compositor. Um poema é uma pessoa nua... Algumas pessoas dizem que sou um poeta.'

Um grande, um prodigioso poeta, seria necessário acrescentar. E por isso mesmo um homem indefinível, plural, paradoxal. Ele diz que só fugiu de casa, aos 18 anos, porque as minas da sua cidade fecharam e não havia alternativas. Mas  continuou fugindo sempre, mudando constantemente, fez disso um estilo de vida. Nunca passou fome ou sofreu as dificuldades dramáticas dos folk singers, como Woody Guthrie, seu mestre. Aos 22 anos já era um sucesso consagrado e assinava contratos milionários. Mas suas músicas só cantam boêmios, marginais, prostitutas, vagabundos e rebeldes, gente fracassada. Não foi ele quem inventou a canção de protesto, tradição do folk, mas ele provocou a politização irreversível da cultura pop. Não foi ele que introduziu as guitarras elétricas no folk, mas depois dele ambos não se separam mais. Quando todos esperavam que empunhasse a bandeira libertária de Woodstock em 69, ele foi cantar com os reacionários e racistas que controlavam a indústria da música country, em Nashville. Foi outro choque para todos, mas depois dele, os racistas e reacionários perderam aquele monopólio. Quando todos esperavam dele mais um hino contra a guerra do Vietnã, ele compunha baladas de amor e refletia sobre complexas experiências existenciais. Quando lhe cobraram lirismo, ele ofereceu misticismo. Quando lhe exaltaram a fé, ele exibiu sarcasmo e cinismo. Neutralizou sua melancolia com um humor e sua audácia com um anseio de plenitude. Em meio a tudo isso, uma poética centrada no absurdo e no silêncio, das palavras e da vida. Definitivamente: Dylan não pertence a ninguém, para a sorte dele e a nossa. 'Está tudo certo, mamãe, eu só estou sangrando...' "


sábado, 25 de julho de 2020

Gonzaguinha - Revista Rock, a História e a Glória (1976)

Em 1976 Gonzaguinha já fazia parte de um grupo seleto da MPB, de compositores surgidos na década anterior, e que traziam um trabalho renovador e diferenciado. Na ocasião ele estava lançando seu quarto álbum, Começaria Tudo Outra Vez. Na ocasião, a revista Rock, a História e a Glória nº 20 trazia no tablóide Jornal de Música, que vinha encartado na revista, uma entrevista com o compositor, feita pelo jornalista Paulo Macedo, e intitulada "Luiz Gonzaga Jr. (era assim seu nome artístico) Começaria Tudo de Novo":
" Ele embarcou em um trem ao primeiro Festival Universitário de Música Brasileira*, e venceu. Nesta oportunidade, uma boa parte da plateia não entendeu a sua mensagem, até mesmo vaiaram a sua apresentação. No entanto, apesar da dúvida da maioria, uma outra parte observava aquele jovem compositor de outra maneira. Houve quem dissesse: 'É o compositor que está faltando à nossa música'.
Certamente essas pessoas estavam com razão, e quem não entendeu a mensagem, já deve ter mudado seu ponto de vista. A crítica especializada, em pouco tempo de trabalho, já o colocou entre os nomes mais importantes de MPB.
Gonzaguinha lançou recentemente o seu quarto álbum. O disco tem nove composições inéditas e uma nova versão para 'Asa Branca'. Das músicas inéditas, as que merecem uma indicação mais particular são; 'Espere por Mim, Morena'; 'Começaria Tudo Outra Vez' (música título do disco) e 'O Sabiá Cantou'. Nesse LP ele está mais aberto, mais alegre. Colocou-se pra fora, em relação de um ponto de vista crítico, e propõe-se a começar tudo de novo.

- Quando você pintou nos festivais universitários, algumas pessoas apontaram você como uma das promessas principais da nossa música. Você acha que correspondeu à expectativa?
- Eu simplesmente continuei o meu trabalho. No entanto, existem muitas pessoas que acham que não, e isso é muito importante, é como eu digo em Mundo Novo Vida Nova - deixar de ser somente aquilo que se espera, em forma, luz e cor. Eu não sou somente aquilo que se espera, eu sou muito mais coisa, porque acima de tudo eu sou uma pessoa, eu tenho desejos e anseios diferentes daquilo que as pessoas projetam para mim. Eu posso dizer que estou tranquilo, acho que correspondi, pois minha consciência diz isso.
- Você já teve problemas com as entidades que arrecadam o Direito Autoral?
- Sim, já tive muitos problemas. Mas isto é um problema muito sério, porque o Direito Autoral no Brasil é uma brincadeira, é uma piada. Quem melhor paga atualmente, é a Sicam, com quem o pessoal teve briga. Eu sou da Sbacem, uma outra arrecadadora. Agora se eu fosse viver de Direito Autoral eu não viveria, porque é realmente ridículo o que se ganha em Direito Autoral no Brasil. O Brasil arrecada tanto quanto Buenos Aires arrecada, daí dá pra notar a situação, é uma diferença muito grande. Em outros países, quando um compositor faz sucesso, ele vive praticamente em razão daquele sucesso. Aqui no Brasil a coisa é diferente: o cara faz sucesso e daqui a três meses já acabou, já foi embora, não existe um controle rigoroso da coisa, e não existe uma distribuição certa, uma distribuição bem feita.
- Você está satisfeito com o representante de sua classe no Conselho Nacional do Direito Autoral? 
- O problema não é estar satisfeito ou não, o meu negócio é ver o que vai acontecer, eu não posso pré-julgar o representante da classe. Eu acho um erro pré-julgar o representante da classe. eu acho um erro pré-julgar qualquer pessoa. Eu apenas fico esperando que ele corresponda aos anseios da classe que ele pertence. E acredito que ele vá fazer força para isso, se ele não corresponder, não vai ser só eu a recriminá-lo, mas toda uma classe, porque existe atrás dele uma classe  que exige uma atuação dele. Quando ele entra no Conselho, ele não é o Roberto Carlos famoso, quando ele entra no Conselho, ele é uma pessoa, o Roberto Carlos que faz parte de uma classe, portanto, ele tem deveres e obrigações para com a classe. É bem verdade, ele foi nomeado, ou seja, colocado de cima pra baixo, e não de baixo pra cima.
- Como você sente a música popular brasileira atualmente? 
- Atualmente a música popular do Brasil, está vindo muito bem, no sentido de que tem muita gente nova aparecendo por aí, procurando sua chance, batalhando e organizando-se. Tem por exemplo o surgimento de uma entidade muito importante,a SOMBRAS - Sociedade Musical Brasileira - uma entidade que visa defender, estudar e divulgar a música popular brasileira, e tudo que é gerado por ela. A SOMBRAS tem procurado ajudar estes compositores através de uma série de shows que são organizados pelo grupo O2, que tem como diretor o Aldir Blanc. E tem procurado estudar Direito Autoral, através do grupo 01, que tem como diretores eu e o Vitor Martins. A SOMBRAS está agindo com muita calma, ela tem procurado agir coisas que são da necessidade dos autores, compositores, dos músicos e dos intérpretes, já que a SOMBRAS não é uma sociedade apenas de músicos, é uma sociedade de todo mundo que lida com música. Esta parte está bastante desprotegida, sabe-se que existe cerca de 150.000 músicos no Brasil, e 60% deste montante está desempregado, e isto é um problema muito sério, e que nós temos que enfrentar. Para isso existe a SOMBRAS, uma entidade que visa melhorar esse problema, visa colocar o músico como peça mais importante, mais consciente, mais consequente no seu meio, um pouco mais sabedor dos seus direitos e deveres.
- E você está satisfeito?
- Eu estou satisfeito, porque tem aparecido muita gente boa depois de mim, como por exemplo: Fagner, João Bosco, Sueli Costa, Beto Guedes, Lô Borges, e tem uma série deles que precisam somente de um pouco mais de apoio, e tem outros compositores que não tiveram uma chance, como o Nelson Angelo. Há uma série deles, eu devo estar esquecendo uma outra grande série. Existe uma série de grupos aparecendo, mas isto é muito lento, porque o processo atual é muito difícil. Com o término dos festivais e com o término dos musicais na televisão, o movimento musical diminuiu muito. Por isso a coisa tornou-se mais fechada. E tem outra coisa, as gravadoras querem uma resposta a curto prazo, uma resposta em termos de lucro.
- O que você acha do samba?
- Muita gente acha que eu sou contra o samba, que eu tenho preconceito e até maltratado o samba. Eu fui criado no Morro de São Carlos no Estácio de Sá e gosto de samba. Mas tem um porém, eu gosto de samba e não da moda do samba. Porque samba atualmente para a nossa infelicidade é uma moda, eu acho uma palhaçada, eu digo até que já ultrapassou. Ao invés de fortalecer o samba, deixaram que ele caísse do outro lado. Ouvir samba já está enchendo o saco. Tá legal eu aceito o argumento mas não me altere o samba tanto assim. Um outro problema, esse é mais sério ainda, é o das escolas de samba. O desfile das escolas virou um tremendo espetáculo circense, é um negócio que deve ser analisado de outro ângulo, eu acho uma frustração total.
- O quer você acha da crítica  especializada?
- Eu acho que um dos principais pecados da crítica, é não fazer uma visão global do trabalho de uma pessoa. Eu acho que o trabalho de uma pessoa deve ser julgado não apenas por um trabalho que saia anualmente, mas sim pela coerência em relação aos outros trabalhos, a não ser que a própria pessoa destaque aquele trabalho, como uma coisa que está dirigindo a um determinado ponto. Eu acho que falta um aprofundamento maior, a crítica de um modo geral fica no não gostei, ou eu gostei, do que qualquer outra coisa. Ou então ela segue o que os outros falam, e às vezes discorda por discordar.
- O seu novo disco se chama 'Começaria Tudo Outra Vez'. Por quê?
- Porque sim. Porque eu gosto do caminho que fiz, seja ele de altos e baixos, fraquezas e franquezas, verdades e inverdades, brigas, lutas, colocação para fora de um ponto de vista crítico, o ponto de vista consequente. Eu concordo, e começaria tudo outra vez. Não que eu esteja arrependido, pelo contrário eu começaria fazendo exatamente a mesma coisa. "

* Na verdade ele venceu o segundo festival, e não o primeiro

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Titãs - O Melhor Show de 86 (Revista Zorra)

Em 1986 vivíamos o auge do sucesso do rock brasileiro dos anos 80, e naquele ano especialmente, os Titãs passariam a figurar entre as mais importantes bandas brasileiras daquele segmento, após o lançamento de seu terceiro álbum, Cabeça Dinossauro, que significou uma virada na sonoridade da banda, sendo um dos discos mais aclamados daquele período. Na ocasião, a revista Zorra nº 2, especializada em rock brasileiro, traz uma matéria sobre um show dos Titãs no Projeto SP, assinada por Fabian Chacur e intitulada O Melhor Show de 86:
"No dia 24 de agosto de 86, os Titãs iniciavam a sua temporada do lançamento do LP Cabeça Dinossauro, no Projeto SP. Após uma turnê de mais de 3 meses por todo o Brasil, e também depois de conseguir vencer o bloqueio das FMs em relação ao seu  álbum, a banda conseguiu o que para muitos parecia impossível: um disco de ouro com o seu LP mais radical. Para comemorar tal façanha, fizeram um novo show onde a temporada se iniciou, no dia 10/12/86, uma quarta-feira. Apesar do dia não ser dos mais propícios, no meio da semana, as dependências do Projeto SP estavam completamente tomadas por uma plateia composta por fãs entusiastas e que demonstravam uma vibração e um carinho pela banda simplesmente incríveis. Outro ponto a destacar: a diversidade deste mesmo público, composto desde punks radicais até intelectuais e curtidores de MPB, provando que a qualidade realmente une as facções mais diversas.
Os Titãs deram uma lição daquelas à mídia. Enquanto muitos grupos se sujeitam aos ditames da moda, eles não titubearam em assumir uma proposta extremamente radical, abordando temas considerados tabu por muitos, tais como igrejas, políticos, família e outros, com uma roupagem musical agressiva e que vai do punk ao funk, sempre de forma extremamente bem acabada. As rádios boicotaram de início as músicas deste álbum, mas o público merece os parabéns por tal façanha.
Um certo crítico diz para quem quiser ouvir que 'Os Titãs Não Tocam nos Discos'. Pura inveja. Quem já assistiu a banda nos shows, em especial no Projeto SP, pode sentir músicas excelentes e com uma garra de acabar com qualquer possível dúvida. Nando (baixo) e Charles (bateria) formam provavelmente a melhor cozinha do rock nacional, precisa e versátil. Nando canta os reggaes da banda com muito swing, além de encarnar a revolta na agressiva 'Igreja'. Charles estraçalha nas baquetas, além de se utilizar de bateria eletrônica na música 'O Que', onde ele faz percussão de forma impecável. A dupla de guitarristas, Marcelo Fromer e Tony Belotto também merecem todo o destaque. Belotto toca barbaridades, com garra e uma presença de palco simplesmente arrasadora, com seus pulos.
Que banda, no mundo, pode se orgulhar de poder cantar com 5 ótimos vocalistas? De Nando, eu já falei. Vamos então, aos outros. Arnaldo Antunes assume o papel do jovem que 'a televisão deixou muito burro demais', e dá conta do recado. Branco Mello faz o tipo 'boyzinho', e também bota pra quebrar. Sérgio Brito, que também toca teclados, surpreende por seu poder de controle sobre a plateia. No bis da música 'Polícia', ele conseguiu fazer a plateia cantar a música com ele sem acompanhamento da banda, a capella! Sua garra  e vibração também são incríveis. Paulo Miklos é seguramente o melhor dos 4, embora por pouco, e se mostra completamente possesso na interpretação da visceral 'Bichos Escrotos'. As músicas eram executadas em blocos, onde cada um dos vocalistas cantava uma sequência, sendo Branco o coringa. A iluminação teve um destaque todo especial, iluminando a banda também de baixo para cima, um recurso que há muito não se usava em shows no Brasil, e que se mostrou de excelente utilidade. Duas piras, uma de cada lado da bateria, exalavam vapores e criavam um clima visual exótico.
A plateia literalmente enlouqueceu desde a primeira música, a que deu nome ao álbum da banda, 'Cabeça Dinossauro'. Além das canções deste álbum, a banda tocou os melhores de seus 2 álbuns anteriores, e propositadamente deixou de tocar os seus antigos hits bregas, tais como 'Sonífera Ilha' e 'Insensível' (graças a Deus!). Como diria o bom Ezequiel Neves, a banda 'não nos deixou sentados de jeito nenhum'. Quando vocês ouviram falar de show com 8 (eu disse 8!) músicas no bis? A plateia simplesmente não deixava o grupo sair do palco! Portanto, queiram desculpar os fãs do RPM, cujo show também foi excelente, mas pra mim não há discussão: o melhor show de rock em 86 foi o dos Titãs, que eu considero a nossa melhor banda, já com nível internacional. Podem escrever: se houver o tal de Rock in Rio II, os Titãs serão seguramente um dos destaques, e darão pau em muita banda de nome dos Estados Unidos e Inglaterra. Valeu, garotos! Que em 87 vocês consigam manter todo esse pique!"

sábado, 18 de julho de 2020

Adoniran Barbosa e o Samba do Arnesto

O Samba do Arnesto é uma das músicas mais interessantes e conhecidas de Adoniran Barbosa, um verdadeiro cronista da vida paulista. Usando uma linguagem coloquial, carregada de erros gramaticais, o que era uma de suas marcas mais características, esse samba, gerou diferentes histórias e explicações, que o próprio autor inventava. O Arnesto do samba, que se chamava Ernesto realmente existiu, e desmentiu a história em que é personagem no samba. Num livro da série Anotações com Arte, que na verdade é uma agenda do ano de 2010, quando foi publicado, a história é contada:
"Ernesto Paulelli diz que nunca convidou Adoniram para um samba no Brás, nem deixou um bilhete pendurado na porta. De onde então, veio a inspiração para escrever a letra do Samba do Arnesto? Veio de um fato real? É pura ficção? Com as várias versões sobre a origem da letra, Adoniran criou mais uma lenda urbana: a história do Arnesto é mito ou realidade? O que se sabe é que o nome Arnesto teve inspiração num fato real. Num domingo, num bar no centro da cidade, Adoniran pede um cigarro a um frequentador. O homem diz que não fuma. E Adoniran, na bucha, diz: 'Então, me dá seu cartão'. Era o cartão de Ernesto Paulelli. Adoniran lê o cartão e comenta: 'Arnesto?'. O jovem músico retruca que é Ernesto, com E. Adoniran não se dá por vencido: 'É Arnesto. E vou fazer um samba pra você, Aduvida?'. Esse encontro aconteceu em 1938 a Adoniran só foi compor o samba em 1952. Vinte anos depois, Adoniran deu duas explicações para a inspiração. Para a TV Cultura ele inventou uma história maluca:
'O Arnesto existiu... mora no Brás, o malandro. Irmão do Nicola Caporrino. O Ernesto Caporrino. Ele convidou a gente pro samba. Eu fui lá com meus maloqueiros. Com fome... Disse que tinha comida... Não tinha nada, sabe? Cheguei lá...  você quer ver uma coisa? Marcaram ao meio-dia... cheguei à uma. Tinha uma panela de arroz só coma casca do arroz embaixo.'
Para a História da Música Popular Brasileira, da Abril Cultural, Adoniran foi mais eloquente:
'Um dia saí da Record e fui à procura do Joca e do Mato Grosso. Eles tinham me convidado para um samba na casa de um amigo do Joca, que morava no Brás. O amigo do Joca se chamava Ernesto, mas a turma chamava de Arnesto. Apanhamos o bonde na Praça Clóvis e rumamos para o Brás. Descemos na rua Bresser e caminhamos até a terceira travessa, aonde morava o Ernesto. Era um cortiço, e quando chegamos lá ficamos sabendo que o Arnesto não tinha recebido o dinheiro para fazer o baile. Envergonhado, fechou a maloca e se mandou para a Penha. Decepcionados, voltamos para a cidade e dentro do bonde veio a vontade de fazer esse samba.'
Seis anos depois, declarou ao jornal Viver, de Campinas:
'Arnesto também é imaginação. Ele não existe, não, é imaginação, mesmo.' O parceiro dessa música, o Nicola, tem a explicação final. Ele conta que Adoniran apareceu em sua casa para levá-lo à praia. Como estava sem grana, Nicola se escondeu e mandou dizer que não estava. Mas Peteleco, o cachorro de estimação de Adoniran, entrou na casa e achou Nicola em seu quarto. Envergonhado, ele decidiu contar a verdade ao amigo. E foi Adoniran quem sugeriu: 'Da próxima vez, você põe um recado na porta'.
Nicola concordou e disse que isso dava samba. Adoniram também achou que dava samba e disse que ia homenagear um colega a quem tinha prometido um samba há muitos anos atrás. Esse colega era o Ernesto Paulelli!"

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Belchior - O Rompimento com o Passado como Opção Filosófica

Belchior é uma das personalidades musicais brasileiras mais reverenciadas e respeitadas nos dias de hoje. Suas letras, carregadas de mensagens, simbolismos e uma poesia direta e cortante, ajudaram a torná-lo um mito após sua morte. Seus últimos anos de vida foram de reclusão, como uma opção pessoal, e que só fizeram aumentar um certo culto à sua imagem.
Em sua edição de 07/05/17, o jornal O Globo trazia uma matéria com o grande compositor cearense. Nessa matéria há um tópico  que fala dessa fase reclusa, em que ele buscou o anonimato, embora isso fosse quase impossível para um artista que durante tantos anos viveu nos holofotes e na mídia. Esse tópico, assinado pelo jornalista Nelson Gobbi, destaca  que "Amigos e profissionais que trabalharam com Belchior negam que o cantor tenha desaparecido por conta de dificuldades financeiras'. Segue abaixo o texto:
"Ao interromper a carreira e partir para um autoexílio que durou até sua morte, Belchior deixou para trás uma série de bens, objetos pessoais e obras, que hoje têm destino incerto. Também acumulou dívidas no percurso, por pensões alimentícias dos filhos - dois com Ângela Margareth, sua ex-mulher, e uma fora do casamento - ou por despesas não quitadas em hotéis onde se hospedou com a última mulher, a produtora cultural Edna Prometeu, em cidades como Fortaleza, São Paulo e Niterói.
O cantor também abandonou dois carros, um deles um Hyundai Sonata, no estacionamento do Aeroporto de Congonhas, onde permanece até hoje, junto a outros quatro veículos na mesma situação. Outro débito foi contraído com um de seus últimos colaboradores, o produtor e ex-secretário Célio Silva, que ganhou em 2010 uma causa trabalhista contra o ex-patrão, embora não tenha recebido até hoje. Sem confirmar o valor da causa, o ex-funcionário diz ter sido impactado pela morte de Belchior, com quem trabalhou por mais de dez anos, e afirma não saber o que fará em relação à dívida.
Quando o desaparecimento do cantor se tornou público, em 2008, e a imprensa passou a seguir seus passos no Brasil e  no Uruguai (onde foi encontrado pela equipe do 'Fantástico', em 2009), especulou-se que o retiro de Belchior se deu por dificuldades econômicas. Amigos e profissionais que trabalharam com ele até o encerramento da carreira contudo, afirmam que o cantor e  compositor possuía bens e fontes financeiras com os quais poderia quitar as dívidas e se manter no período em que vagou por Uruguai, Porto Alegre e cidades do interior do Rio Grande do Sul, até encerrar seus dias em Santa Cruz do Sul, a 150 quilômetros da capital.
- Belchior não tinha problemas econômicos, tinha dificuldades financeiras circunstanciais. Como parou de fazer shows, ele perdeu liquidez, mas ainda tinha um patrimônio considerável, incluindo imóveis - argumenta o empresário Jackson Martins, que trabalhou por 14 anos com o cantor, até seu último show profissional, realizado em Colatina (ES), em 2006. - Fizemos mais de 200 shows do disco 'Um Concerto a Palo Seco', gravado com o violonista Gilvan de Oliveira. Nos apresentávamos um dia no Vale do Jequitinhonha e, no outro, em Curitiba. Conheço o Brasil inteiro graças ao Belchior.
Produtor de shows de nomes como Zé Ramalho e Almir Sater, Martins diz imaginar que Belchior também poderia recorrer a outra fonte financeira, a arrecadação de direitos autorais.
- Um autor do seu porte deve receber de R$ 15 mil a R$ 20 mil mensais de direitos - calcula o ex-empresário de Belchior, que diz nunca ter  parado de receber pedidos de shows. - Fui muito procurado para apresentações, ainda mais depois de o caso aparecer na TV. Certamente ele continuaria com média de 20 shows mensais que tinha antes de parar.
Desejo Por Uma Vida Nova
A pessoas próximas, Edna, e Belchior teriam dito que os repasses feitos pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) estavam bloqueados, até ao menos 2016. O Ecad, responsável pelo pagamento de direitos de  músicas aos seus autores, não revela os valores dos depósitos, mas informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que Belchior recebia regularmente seus rendimentos. Segundo a entidade, em 2016, os segmentos de rádio, TV aberta e música ao vivo foram responsáveis por 78% de rendimentos relativos aos direitos da execução pública de suas músicas. Contudo, não se sabe se Belchior e Edna tinham acesso à conta em que esse montante era depositado
Parceiro de Belchior em cerca de 40 canções, o ex-sócio Jorge Mello mantém em sua casa, em São Paulo, um acervo de milhares de documentos sobre o amigo. Guarda itens como borderôs de shows, por meio dos quais calcula que entre 1984 e 1995 Belchior tenha feito mais de 1.400 apresentações. No último registro, de 1995, o show foi vendido a R$ 45 mil. Afirmando que o cantor possuía imóveis em Fortaleza, Campinas e São Paulo, Mello não cogita que seu desaparecimento tenha se dado por questões financeiras, mas sim pelo desejo de levar uma nova vida, longe dos palcos.
- Ele tinha umas 600 músicas, muitas delas sucessos até hoje, um verdadeiro patrimônio. Não foi por problemas financeiros que ele sumiu, era uma questão filosófica. Ele queria se dedicar a  projetos como a tradução de 'A Divina Comédia', de Dante Alighieri, em versão popular - afirma Mello, que também é cantor e se prepara para gravar algumas de suas parcerias com o amigo, como 'Arte-Final' e 'O Negócio É o Seguinte'.
Primo de Belchior e seu ex-sócio, Ednardo Nunes guarda em Campinas algumas telas pintadas pelo cantor que estavam abandonadas na casa usada por ele como escritório, em São Paulo. Também músico, Nunes acredita que uma experiência semelhante vivida por Wilson, um dos irmãos de Belchior, possa ter influenciado a sua decisão de deixar tudo para trás.
- Wilson tinha uma grande construtora em Fortaleza, a Consibel, e um dia abandonou seus negócios e foi viver no México, ficou mais de 20 anos longe do Brasil. Isso pode ter ficado na cabeça do Belchior durante todos esses anos, até que um dia, ele decidiu fazer o mesmo - opina.
Preparando a biografia 'Apenas um rapaz latino-americano' a ser lançada em setembro, o jornalista Jotabê Medeiros também diz acreditar na hipótese de o exílio de Belchior ter sido uma decisão espontânea:
- Belchior faz parte dessa linhagem de Tolstói, Rimbaud, de pensadores que romperam com seu passado e sua obra. Certamente teria ótimas ofertas para retomar a carreira, mas quis encerrar esse capítulo. Ele tinha referências intelectuais intricadíssimas, era uma ave rara da música. Acabou optando pelo silêncio e pelo distanciamento. "

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Screamin Jay Hawkins, o Feiticeiro Gritador da Música

Screamin' Jay Hawkins (1929-2000) foi uma figura lendária, embora não tão conhecida, da música e dar artes cênicas. Suas performances nos palcos são sempre lembradas. Em sua carreira, que se iniciou antes do surgimento do rock'n roll, mas que chegou a fazer parte daquela primeira geração, Hawkins teve como a música de maior destaque I Put A Spell On You, uma balada que tem várias regravações, como a ótima releitura do Creedence, e a de Nina Simone. Em 10/11/1991, a seção Rio Fanzine, de O Globo trazia uma matéria com ele, assinada por Tom Leão:
"Ele se parece com uma cruza de James Brown com Little Richard e consegue ser ao mesmo tempo rotulado como rock, funk, jazz, blues e soul, sem ser absolutamente nada disso. Tem 40 anos de carreira (e 62 de vida) e mesmo assim só foi descoberto pela nova geração por causa de um filme. Estamos falando do cantor e dublê de feiticeiro vodu Screamin' Jay Hawkins.
Sua fama de exótico nasceu nos anos 50, participando dos programas do notório DJ e propagador da expressão 'rock'n roll' (que vem de uma gíria negra para transar), Alan Freed, justamente interpretando seu primeiro e maior sucesso até hoje, 'I Put a Speel on You'. Como a letra falava de feitiços e Hawkins tem um tipo meio 'macumbeiro', Freed sugeriu que ele cantasse ela em seus shows saindo de dentro de um caixão. Foi a consagração.
Daí em diante  só o que Screamin' Jay Hawkins fez foi cantar essa  música (e no caixão) de todas as formas possíveis, vestido com capas de feiticeiro, com colares de dentes e ossos enfiados no nariz. Ele bem que tentou se livrar do estigma, mas se num show ele não canta essa a plateia fica fula (o mesmo de Cab Calloway não cantar 'Minnie, The Moocher', por exemplo).
Contudo, nos anos 70 e parte dos 80 ele esteve no ostracismo, até que o cineasta Jim Jermush colocou 'I Put a Spell on You' na trilha de seu filme de estreia, o aclamado 'Strangers than paradise' (é a música que toca direto no gravador da personagem  Eva). Foi a glória. Logo todo mundo quis saber quem era aquele cantor e Hawkins voltou ao circuito dos barzinhos de jazz do eixo EUA-Europa.
E Jarmush fez mais por Hawkins. Ele aparece como ator em 'Mistery Train' (é o dono do hotel onde transcorre a ação do filme) e por consequência, também está no inédito aqui, 'A rage in Harlem', fora as participações em programas de TV e anúncios. Em menor escala foi quase como o mesmo que John Landis fez por nomes do blues e soul no filme 'The Blues Brothers'.
Mas antes disso, Screamin' Jay Hawkins já tinha influenciado muita gente boa. Do rockabilly terror dos Cramps ao visual espalhafatoso de George Clinton, tudo tem um toque dele.
Nascido em Cleveland, ex-campeão de boxe amador e fã de Caruso, Jalacy J. Hawkins começou a carreira aos 21 anos numa banda pré-rock chamada Tiny Grimes' Rockin' Highlanders (eles se  vestiam com kilts escoceses). Sua fama de 'gritador' veio com a gravação do blues 'Screamin' the Blues'. Como ele exagerava na interpretação, fazendo uns scats gritados, acabou cunhando um estilo próprio e inimitável.
Sua estreia já com o nome artístico deu-se com o a primeira gravação em andamento de balada, de 'I Put a Spell on You', lançada em 1949. A música chamou a atenção e foi sucesso por duas vezes nos anos 50 - em 52 e 56 -, já com versões mais alucinadas. Depois, o jeito foi dar ao público o que ele queria. E daí em diante Jay passou a gravar canções chamadas 'Little Demon', 'Alligator Wine', 'Frenzy' (que inspirou uma banda psychobilly alemã homônima) e outras onde as letras engraçadas e seu jeito de cantar eram destaques. Muitas soam como rip-offs de 'I Put a Spell...', mas nenhuma superou ou igualou a original.
 Infelizmente não há nada do artista lançado no Brasil, mas a Epic, através da série Legacy, que sai apenas em fita cassete, relançou há pouco a compilação 'At Home With Screamin' Jay Halkins', que com faixas-extras e resmaterizada foi rebatizada 'Cow fingers and mosquitio pie'. Encomende em sua importadora favorita e divirta-se."

Stevie Wonder - Songs In The Key Of Life (1976)

Em 1976 Stevie Wonder lançava um de seus mais importantes e representativos álbuns: Songs In Key Of Life, um álbum duplo que traz uma série de informações musicais que Wonder absorvia com seus ouvidos atentos e uma criatividade a todo vapor. Foi um de seus álbuns mais bem-sucedidos, sendo sucesso de vendas e de crítica. Ao ser lançado no Brasil, o Jornal de Música nº 27, de dezembro de 1976, trazia uma resenha do álbum, assinada por Dom Gabriel:
" Demorei algumas semanas para dar o meu ponto-de-vista sobre Songs In The Key Of Life, de Stevie Wonder, porque desde que recebi esse álbum, ainda não parei de ouvi-lo. A Top-Tape lançou o disco exatamente como nos Estados Unidos - com capa dupla, compacto e livreto - e a cópia nacional é até bem silenciosa, em comparação com a maioria das cópias nacionais de matrizes importadas, que têm um chiado horrível e tornam-se inaudíveis num bom sistema de som. Além disso, esse álbum foi lançado aqui quase ao mesmo tempo que nos Estados Unidos.
Songs In The Kay Of Life é o conjunto de dois LPs e um compacto que somam 104 minutos de Stevie Wonder em sua melhor forma. O livreto tem 24 páginas com letras, ficha técnica, mensagens e uma lista de agradecimentos a 172 pessoas (incluindo Jeff Beck, Frank Zappa, Doobie Brothers, Quincy Jones e Sérgio Mendes). Aliás, Stevie é um dos poucos artistas que conseguiram fazer um disco desses usando pouca ou nenhuma orquestração. Neste álbum ele toca a maior parte dos instrumentos e faz todos os vocais (com exceção de alguns backing vocals).
Stevie sempre teve a capacidade de atrair em torno de si, brancos e pretos, velhos e jovens. Seu recurso principal é a voz e, em Songs In The Key Of Life ele está cantando melhor do que em qualquer trabalho anterior. Considero sua voz melhor, porque não cai nas entonações melodramáticas que antes utilizava. Mas, Stevie ainda retém uma certa urgência ao cantar,  por causa dos seus fraseados e divisão das letras. Seu timbre está um pouco mais grave e ele explora esse registro mais baixo constantemente nesse álbum (dando continuidade ao que havia começado a fazer no álbum Innervisions). Ouçam Mr. Know It All. Stevie também explora mais sua gaita. Em Have A Talk With God, ele toca uma gaita blues parecendo com Joe Cotton ou Little Walter, e ainda toca uma gaita cromática durante a maior parte de Isn't She Lovely, obtendo um som muito pessoal com um instrumento tão limitado.
A música de Stevie, nesse álbum, pode ser definida em uma palavra: sabor. Todas as músicas são perfeitas tanto na concepção musical quanto nas letras. Prestem atenção na letra de Village.
Ghetto Land, onde ele fala das pessoas comprando ração de  cachorro para sobreviver e pergunta se nós, que estamos 'bem de vida', podemos encarar isso como apatia da classe  média. Tem até uma faixa instrumental, mas tão fora do contexto que parece algumas coisas do Hot Rats de Frank Zappa.
Stevie também incluiu um tributo a Duke Ellington, fazendo uma orquestração semelhante a de Duke, mas sem cair num flasback sarcástico. O interessante é que, apesar de ser um álbum duplo, Songs In The Key Of Life não tem músicas parecidas. Cada uma tem seus momentos de alegria em cada audição. Mas, tenho algumas prediletas que, por alguma razão (principalmente porque minha namorada canta de cor) ficaram na minha cabeça. Uma delas é a excelente Isn't She Lovely. No momento em que escrevo estou escutando o samba-disco chamado Another Star. Vai acabar virando clássico.
Nos seus outros trabalhos (Innnervisions e Fullfillingness First Finale) a mixagem era do tipo 'threedimensional digital-echo', mas, nesse disco Stevie optou por uma mixagem 'achatada'. Não me surpreenderia se tivesse usado 16 canais ao invés dos 32 normais (pra ele). O som está limpo e os instrumentos soam naturais ao invés de arranjados. Mesmo os metais (nas poucas músicas em que Stevie os utiliza) têm som de metais.
Os críticos americanos andaram dando uma esnobada nesse álbum ('nenhum progresso, etc, etc.'). Acho que esperavam um disco altamente digerível ou um jazz-funk tipo Herbie Hancock. Bem, o disco vendeu 1.700.000 cópias em 12 dias, subindo de cara para o primeiro lugar na parada da Billboard, façanha conseguida pelo Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, de Elton John, devendo-se levar em conta que o álbum de Stevie é duplo e caro.
Discutir esse disco é como discutir sexo. Poderíamos continuar falando durante horas. Mas o melhor é experimentá-lo e chegar às suas próprias conclusões. Tenho certeza que concordarão comigo. 50 milhões de estrelas."

quarta-feira, 15 de julho de 2020

The Who Sell Out - Revista Dynamite

A banda inglesa The Who é um dos principais nomes do rock mundial de todos os tempos. Em 1967  a banda lançou um interessante disco, chamado Sell Out, que satirizava o mercado publicitário, colocando entre as faixas pseudo-anúncios de produtos. Mas o mais importante é que o disco é muito bom, trazendo todo o pique e a energia da banda em seu início de carreira. 
A revista Dynamite, que circulou nos anos 90, e que falava de rock, traz uma matéria sobre esse disco, assinada pelo pesquisador Ayrton Mugnaini Jr.:
"Desta vez falaremos de um LP antológico do rock aqui e que pertence à Polygram, que é, como a Odeon, outra grande empresa que visa lucro - imaginem se não fosse. Bem, o disco é 'The Who Sell Out', de 1967, considerado o melhor LP do Who por muitos - inclusive por seu baterista, Keith Moon.
Não importa que muitos considerem 'Sell Out' o pior disco do Who - inclusive seu contrabaixista, John Entwistle. Com certeza, este LP é histórico por vários motivos. Para começar, é um disco perfeito para chatear os incautos que insistem em levar o rock a sério; 'Sell Out' é um dos discos mais bem-humorados de todo rock. E o bom humor do disco vai além de faixas como 'Tatoo', onde Pete Townshend goza o uso de tatuagens ('Benvinda à minha vida, tatuagem/ espero me arrepender de ti/ Mas o removedor de tatuagens não vai te pegar/ Estarás aí quando eu morrer/ Meu pai me bateu porque a minha mãe dizia 'Mamãe'/ Mas minha mãe, é claro, adorou e bateu no meu irmão/ Porque a tatuagem dele era de uma dama nua'), 'Rael' (ancestral imediata de Tommy, onde Townshend fantasia um futuro superpovoado onde cada pessoa tenha apenas alguns centímetros quadrados para viver) ou 'Silas Stingy' (composição de Entwistle sobre um avarento que chega a não tomar banho 'porque sabão custa caro/ e a sujeira o mantinha aquecido'). O LP é (perdoem a linguagem universitária), salvo engano, o primeiro exercício de metalinguagem do rock: quase todas as faixas estão interligadas por paródias de comerciais de rádio e vinhetas de rádios piratas inglesas - Pete Townshend e o Who sempre apoiaram a pirataria e a livre iniciativa geral.
E muitas das faixas do LP são justamente comerciais gaiatos de desodorante (Odorono), feijão (Heinz Baked Beans), pomada para espinhas (Medac, que na edição americana tem título Spotted Henry) e o famoso curso de musculação de Charlie Atlas (uma vinheta não creditada que abre o lado 2 do LP), num belo exemplo de humor inglês - até na capa, onde cada integrante do Who aparece às voltas com um dos produtos 'anunciados' (a fábrica de  feijões enlatados Heinz tentou se opor, mas acabaram convencidos de que era publicidade gratuita). Detalhe: Roger Daltrey aparece numa banheira cheia desse feijão - só que de camisa; a censura da época não permitiu o torso nu.
O nome do LP é o toque final de (auto)gozação: 'The Who Sell Out', ou seja, o Who se vende' ou 'o Who faz uma liquidação'. Interessante é que o LP foi o mais vendido do Who até então nos EUA - embora tenha sido o menos vendido na Inglaterra. E o grande sucesso do LP foi 'I Can See For Miles' (regravada por Tina Turner).
Se 'The Who Sell Out' tem um defeito incontestável, é de as vinhetas pararem logo após o início do lado dois (ou, na edição em CD, pouco depois da metade). Mas isso é apenas um detalhe para muitos fãs, que não perdoam o Who por ter ficado velho antes de morrer e, na opinião desses fãs, ter perdido o 'sense of humour' e virado um grupo maduro, prolixo e pedante.
De '...Sell Out", aqui no Brasil só saíram, em coletâneas, as faixas 'I Can See For Miles' e "Our Love Was, Is' (que teve boa regravação no primeiro LP solo de Edgar Scandurra). Agora, quem dificilmente vai 'sell out' é nossa Polygram. O que fazer com uma gravadora que em 1975 chegou a agradecer ao Who 'pela maior cartada que uma gravadora pode ter nas mãos' e em 1989 editou a coletânea 'Who's Better, Who's Best' como sendo 'o mínimo que a Polygram poderia fazer'? Pois é, quem faz o mínimo tende a não receber nem o mínimo. Eu sei disso, você sabe disso. Mas a Polygram Stingy sabe disso? 'They can't see for miles and miles and miles...'
Ah, sim: a Polygram acaba de lançar mais uma das coletâneas do Who que lança a mais ou menos cada cinco anos e que, face a 'The Who Sell Out' e outros discos do Who ainda inéditos no Brasil, é tão útil quanto a volta do fusca."

terça-feira, 14 de julho de 2020

Nelson Cavaquinho - Revista Música Brasileira (1998)

A revista Música Brasileira era uma revista independente, de circulação restrita, que circulou no fim dos anos 90. Falava sobre cantores e compositores brasileiros, ligados a uma tradição musical, principalmente gente ligada ao samba. Portanto, Nelson Cavaquinho não poderia deixar de ser lembrado. Em sua edição nº 13 ele ganhou uma matéria, assinada por Luís Pimentel, e intitulada "Como Soldado da PM, Foi Um Excelente Compositor":
"- Fui o pior soldado da história da Polícia Militar do Rio e Janeiro! - disse ele, certa vez. E não estava exagerando. Começou a vida como cavalariano no Batalhão da Cavalaria da PM, onde ficou sete anos. Metade em cima do cavalo, metade em cana. Foi o mais assíduo hóspede do xadrez do quartel da Rua Evaristo da Veiga. Mas como para ele tudo tinha uma explicação, dos porres exagerados às vendas de sambas aos 'comprousitores' de plantão, as prisões tinham lá suas vantagens:
- Era bom pegar cana. Se não fosse pro xadrez do batalhão, eu não teria feito muito samba de sucesso. Às vezes ficava um mês confinado. Então aproveitava a tranquilidade para compor.
Nelson da Silva nasceu no Rio de Janeiro, na Tijuca (Rua Mariz e Barros), no dia 28 de outubro de 1911. Entrou na Polícia Militar muito jovem e a contragosto, levado pelo pai, tocador de tuba da Banda da PM, Brás Antonio da Silva, com quem aprendeu a tocar cavaco. A determinação paterna também tinha uma explicação: Nelson engravidara uma namoradinha de adolescência e estava querendo fugir à responsabilidade, alegando que não tinha dinheiro para cuidar de mulher e filho. 'Não seja por isso', disse o velho Brás. 'Vai ser  polícia'. Ele não sabia com quem estava lidando.
Nelson sentou praça e recebeu as rédeas de um cavalo. Tinha que fazer a ronda montado, apesar de morrer de medo do animal. No meio do caminho desistia da ronda e deixava o cavalo amarrado em uma cerca do pé do Buraco Quente, no Morro da Mangueira. Ali varava as noites com os amigos e depois parceiros Cartola, Carlos Cachaça e Zé Com Fome. Voltava para o quartel dias depois, sem o cavalo - que geralmente se soltava e ficava vagando e pastando pelas ruas. Aí, tome xadrez, para aumentar a produção musical.
Pouco antes de morrer ele estimou sua produção em torno de 800 músicas, cerca de 400 gravadas, umas 100 inéditas e 'pelo menos 300 vendidas, totalmente ou só parceria'. Apesar dos números, quando partiu, no dia 18 de fevereiro de 1986, vítima de enfisema pulmonar, deixou apenas uma minguada pensão do antigo INPS e uma casinha da Cehab em Vila Esperança, lugarejo escondido no bairro carioca de Jardim América.
Nelson Cavaquinho teve vários parceiros, entre parcerias 'armadas' - com aqueles que pagavam para entrar nos créditos do samba - e as verdadeiras. Entre essas um nome desponta: o grande poeta Guilherme de Brito, com quem legou à história da MPB preciosidades como Quando Eu Me Chamar Saudade (Sei que amanhã quando eu morrer/Os meus amigos vão dizer/Que eu tinha bom coração), A Flor e o Espinho (Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor), que já mereceu inúmeras regravações, Folhas Secas (Quando eu piso em folhas secas/Caídas de uma mangueira/Penso na minha escola/E nos poetas da minha Estação Primeira), Cinzas, Pranto do Poeta, Degraus da Vida e tantas outras. Cantores como Clara Nunes, Chico Buarque, Beth Carvalho e Paulinho da Viola já gravaram e regravaram a dupla Nelson/Guilherme de Brito, uma eterna garantia de bom gosto.
Da fabulosa parceria com Guilherme vale o registro também de obra inédita, resgatada depois por pesquisadores, que se chama Arma de Covarde e que teria ficado inédita pelo fato de o presidente Getúlio Vargas ter se suicidado pouco tempo depois da construção da letra. Os autores ficaram constrangidos diante da tragédia nacional que foi a morte de Getúlio, porque os versos dizem o seguinte:
'A arma do covarde é o suicídio, eu bem sei.
É um erro que eu sempre condenei.
Existe sempre alguém que troca a vida pela morte.
Eu peço sempre a Deus para não me dar essa sorte.
Quisera viver eternamente
Servindo de exemplo a esta gente.
Eu vivo triste, sou um desgostoso,
Mas acho meu viver tão precioso.'
Mas, a bem da verdade, pela vida que levou, talvez ele não achasse o seu 'viver tão precioso' assim. A primeira gravação só aconteceu em 1943, o samba Não Faças Vontade a Ela, parceria com Henricão e Rubens Campos. Nelson compunha onde chegava, até porque onde chegava costumava ficar um bom tempo. Metade de sua obra foi feita em bar (seu primeiro lar), pois tinha amigos muito próximos e um fígado invejável. Abordou vários temas, mas jamais quis se envolver com o carnaval. Sobre isto, certa vez deu uma explicação:
- Música é ideia. Não faço música com livro de história do lado. Depois, esse negócio de samba-enredo dá uma confusão danada. 
Sabia das coisas."