Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 1 de março de 2021

II Festival Internacional de Jazz de São Paulo- 1980


 A partir do final dos anos 70, com o Festival de Jazz de São Paulo, os festivais de jazz passaram a fazer parte do calendário cultural do Brasil, vide também as edições do Free Jazz e do Haineken Concerts, que aconteceram nos anos 80 e 90. Em 1980 aconteceria em São Paulo, a segunda edição do Festival Internacional de Jazz, que reuniu atrações de peso nacionais e internacionais, como Spyro Gyra, Trio Elétrico de Dodô e Osmar, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Dexter Gordon Mary Lou Williams, Toot Thielemans, Peter Tosh, B.B. King, Joe Pass, Champion Jack Duprée, Pepeu Gomes e muita gente mais, ou seja, um time de pesos-pesados do jazz, blues e outros segmentos. Em sua edição nº 41 a revista Música trouxe um belo material sobre o evento. Todas as fotos dessa publicação foram tiradas da matéria:

"A plateia pegou fogo de vez, com um blues cadenciado. Todo mundo de pé, dançando freneticamente o som do reggae e do jazz rock. A multidão batia palmas e urrava para a usina de sons, que a embalou durante os quatro dias de uma grande festa, da qual todo mundo participou, sem exceção.

Estamos falando do II Festival Internacional de Jazz de São Paulo, assistido, no Palácio das Convenções do Anhembi, por mais de 26 mil pessoas e centenas de milhares que acompanharam por rádio e televisão.

O II Festival Internacional de Jazz de São Paulo foi um sucesso absoluto. Um sucesso que, de certa forma, já se prenunciava em 1978, assim que acabou o I Festival, que os mais céticos não acreditavam que fosse vingar. Mas o primeiro Festival contradisse todas as expectativas e lançou definitivamente o Brasil como centro polarizador das mais diversas tendências do jazz atual. E este segundo Festival só veio reforçar as perspectivas do primeiro.

Em termos de público, pelo menos, a satisfação foi visível nos quatro dias do concerto. Tanto da parte do público mais jovem, que foi ao Anhembi, para curtir o som pauleira de Pepeu Gomes, Peter Tosh, A Cor do Som e Hermeto Pascoal, quanto daqueles de gosto mais refinado, interessados nas elaborações de Joe Pass, Woody Shaw, Betty Carter, Mary Lou  Williams e B.B. King. 'Há música para todos os gostos' - dizia, no último dia do festival, um jovem músico.

Pepeu Gomes
Presenças inesquecíveis e de real importância marcaram este II Festival Internacional de Jazz de São Paulo, como a da 'Primeira Dama do Piano', no jazz, a maravilhosa Mary Lou Williams, a da singular e extraordinária vocalista Betty Carter, e a do excelente 'Mingus Dynasty', que, a par de apresentar músicos de elevada categoria, impressionou pela homogeneidade e força de sua interpretação coletiva. Sem falar nos solistas de primeira linha do jazz atual, como o sax tenor, Dexter Gordon, com seu definitivo 'As Time Goes By'; o sax alto Phil Woods com seu belíssimo 'Body and Soul', o gaitista Toots Thielemans, muito bem secundado por seu discípulo Maurício Einhorn e pelo trio de Nelson Ayres; o pistonista Woody Shaw, com sua técnica impecável, extraordinário vigor e segurança interpretativa; o maravilhoso 'entertainer', pianista, cantor e compositor Champion Jack Duprée, com seus blues simples e humorísticos, mas  de alto teor musical; e o incrível B.B. King, que, além de expoente como cantor, toca uma guitarra que fala, canta, chora e cria clima, às vezes com maior lirismo outras da mais alta tensão.
Joe Pass

Do ponto de vista do espetáculo, os destaques maiores deste Festival foram os conjuntos de jazz-rock: Spyro Gyra, norte-americano; o Native Son, japonês; e o que poderia ser chamado de grupo de tango-rock, o sexteto do bandeonista Rodolfo Medeiros. Ente os brasileiros merece destaque nessa linha, o show do conjunto A Cor do Som, que do ponto de vista musical não se enquadrou no contexto do festival, enquanto o grupo de Pepeu Gomes decepcionou, embora movimentando a plateia. Mas a  participação brasileira mais forte ficou a cargo, outra vez, de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti.

Finalmente, como capítulo à parte, a grande badalação do festival foi o grupo de reggae de Peter Tosh (a grande jogada promocional do evento) e um encerramento marcado por uma linha nitidamente de final apoteótico, com um carnaval comandado pelo Trio Elétrico de Dodô e Osmar.

Paralelamente, foram realizados espetáculos em dois auditórios bem menores, que deram oportunidades a grupos novos de jazz, jazz-rock e outros gêneros experimentais: Tentáculo Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, Divina Increnca com Roberto Sion, Conjunto Azul, D'Alma, Bendegó, Ponte Aérea e Carlos Camargo (no auditório G) e Original Jazz Band, Quarteto Moderno, São Paulo Dixieland Band, Paulo Soledade, Mário e Alberto, Duo Ricardo e Vitinho, e Wilson Cúria Trio (no Auditório E)."



domingo, 28 de fevereiro de 2021

Yes - O Som Que Leva Ao Delírio (Revista Pop - 1975)


 Em 1975 o rock progressivo vivia seu auge, e a banda Yes era um dos seus nomes mais representativos. A banda havia trocado de tecladista, tendo o suíço Patrick Moraz ocupado a vaga deixada por Rick Wakeman, que passara a seguir carreira-solo, tendo, inclusive, naquele ano realizado shows muito concorridos no Brasil. A revista Pop de dezembro daquele ano publicou uma matéria sobre o Yes, que trazia um texto de apresentação: "Muito imitado no mundo inteiro, dono de sucesso indiscutível há vários anos, o Yes é um dos grupos mais importantes do chamado rock progressivo. De volta à estrada, depois de um recesso muito produtivo, o conjunto está em sua melhor fase, levando o público ao delírio em seus shows impecáveis, emocionantes e perfeitos." Segue abaixo a matéria:

"Quando o Yes voltou a se apresentar ao vivo, este ano, depois de um longo período de ausência, a primeira sensação da moçada foi de alívio. Afinal, desde a substituição do eloquente Rick Wakeman pelo pouco conhecido Patrick Moraz nos teclados do grupo, o Yes lançou um bom disco, provou que os teclados estavam em boas mãos, mas logo saiu de cena. Na verdade, os cinco carinhas se recolheram para ensaiar e levar às últimas consequências aquela que é uma das características do Yes: apresentar ao vivo exatamente o som conseguido em disco. E nisso Steve Howe (guitarra), Chris Square (baixo), Alan White (bateria), Jon Anderson (vocal) e Patrick Moraz (teclados) são rigorosos. Cada música, cada trecho, cada harmonia é estudada exaustivamente, e os ensaios são como uma guerra.

O Yes com a formação da época

Mas é uma guerra pacífica onde os cinco têm o mesmo objetivo: conseguir o melhor som, obter um resultado perfeito, transmitir a emoção mais nobre. Por isso, tudo é decidido em grupo, através de papos que começam na casa de campo de um deles ou num quarto de hotel e se desenvolvem através de longas horas de estúdio. A partir de uma proposta qualquer, todos descrevem suas emoções e dizem como imaginam o resultado final. Todos participam de tudo, o carinha da guitarra dá palpite no trabalho do baixista, este sugere uma frase aos teclados, e assim por diante. O trabalho só é dado como pronto quando não há mais possibilidade de reparos, quando todos concordam com tudo, quando o som está perfeito.

Foi esse som perfeito nos mínimos detalhes que o Yes apresentou no Festival de Reading (Inglaterra), este ano. E não só aliviou os ansiosos fãs: levou-os ao delírio total. E também a crítica, há muito tempo de olho na crise de perspectivas do grupo, acabou concordando que o conjunto cresceu muito a partir da entrada de Moraz. 'Ele está perfeitamente integrado em toda a transação do Yes', disseram, 'e revelou-se um músico muito criativo e de grande sensibilidade. Ao contrário de Wakeman, que sempre procurou brilhar mais do que todos os outros músicos juntos, Moraz permanece num plano de participação mais consciente, voltado para a música como uma manifestação total de emoções, raciocínio e sensibilidade.' E o próprio Moraz reconhece essa integração: 'Seria fácil e cômodo tocar como um louco para aparecer, para brilhar. Difícil é funcionar como uma parte de um todo perfeito...'

Com o sucesso de público e crítica conseguido no Festival de Reading, os próprios caras do Yes acabaram contagiados pelo entusiasmo. Steve Howe, bebendo seu infalível suco de laranja com vodka falou: 'Foi realmente emocionante. A gente estava meio tenso, imaginando como o público reagiria... Mas tudo foi muito bem, o som saiu perfeito e eu acho que demos o recado com muito jeito.' Jon Anderson, pouco depois, completava: 'O grupo está em sua melhor forma. E o público sentiu isso. Esse aplauso delirante não é à toa. Agora é sair para a estrada, em excursão, e espalhar o delírio pelo mundo.'

Mas, de todos os cinco, o yesman mais entusiasmado é Patrick Moraz. Quando esteve no Brasil, antes desse show ao vivo com o grupo, ele dizia estar consciente de suas condições: 'Afinal, eu sempre adorei tocar com o Yes. Quando o outro tecladista saiu, só fiquei em casa esperando que eles me chamassem. E eles me chamaram. Em poucos minutos estávamos tratando de contratos e essas coisas.' Agora, está ainda mais eufórico: 'Tem gente que fala que nosso rock sinfônico é pretensioso. Mas basta olhar para esta moçada que vem nos assistir, para sacar que os estamos tocando. Nós levamos emoções sublimes para eles. Porque encaramos a música como uma coisa sublime.' "



sábado, 27 de fevereiro de 2021

Celso Blues Boy (Revista Roll - 1983)


 Celso Blues Boy foi um nome muito importante na cena do rock brasileiro que surgiu nos anos 80. Por trazer um trabalho diferenciado da maioria dos artistas e bandas  que surgiram no período, já que seguia uma linha de rock com influência direta do blues, daí seu nome artístico, Celso ganhou uma matéria no na edição de estreia da revista Roll, em 1983. A introdução da matéria diz: "Era um garoto que muito cedo amou Ray Charles e os Beatles cantando 'My Bone is over the ocean...'. O pai lhe ensinou um ou dois acordes no violão e depois, aos nove anos de idade o menino já exigia: 'uma guitarra elétrica ou a morte'. Como o pai não queria um filho morto, como é de se esperar da maioria dos pais existentes no mundo, não lhe restou outra opção a não ser atender o desejo do filho. A partir daí entre as oitavadas de Roy Buchanan, Eric Clapton e B.B. King (o Blues Boy que lhe inspirou o nome artístico), os dedos do menino Celso começaram a criar notas e até hoje não pararam."  Pelo fato de na época Blues Boy ainda ser inédito em disco, acredito ser essa uma das primeiras matérias escritas sobre ele.

"Desde a adolescência, quando a inevitável auto-afirmação o fazia ousar solos super-rápidos e violentos até hoje, mais seguro da qualidade de seu trabalho, são mais de 1.500 músicas, umas perdidas e jamais encontradas, outras em casas de amigos, muitas jogadas fora e algumas guardadas em seu poder.

Um processo de  criação que nunca foi interrompido ao longo dos dez anos de carreira como músico de bandas como a de Raul Seixas, Luiz Melodia, Sá & Guarabyra e, destacando, Renato e Seus Blue Caps, em que, segundo Celso Blues Boy, 'todo mundo adorava na época, e por isso era a maior chinfra tocar com eles'.

Aliás, Blues Boy não parou de compor nem mesmo quando, em 1981, saturado de tocar em bandas dos outros, decidiu largar tudo e desistiu de ser músico. Mas foi uma decisão que não poderia ser levada por muito tempo, a não ser que Blues Boy estivesse com vontade de morrer; 'eu passei um ano trancado em um apartamento de Santa Tereza, vivendo da renda de um livro que havia escrito e que minha irmã levara pro Ziraldo'. Mesmo assim, durante esse ano, ele compôs. Blues, é claro, baladas, rockzinhos tipo anos 50, heavy metal, tudo, tudo que sempre soube fazer.

Com o amigo Cazuza

Até que, em 1982 o Lorival, que hoje é seu empresário, disse que havia uma rádio no Rio tocando blues. Blues (é assim que os amigos o chamam) não acreditou, mas daí até levarem uma fita para a Fluminense não se passaram muitos dias.

Pronto, estava dada a a largada para a carreira-solo de Celso Blues Boy, compositor, cantor, guitarrista, baixista, baterista, arranjador... uff. Dessas pessoas que sentem muito de perto as coisas e que só precisam de uma pitada de tristeza para compor um blues maravilhoso e uma pequena dose de bom-humor para fazer um heavy-metal como a famosa 'Aumenta Que Isso Aí É Rock'n Roll'.

Blues é um cara essencialmente sentimental. Diz ele: 'eu valorizo tanto a tristeza quanto a alegria, porque ninguém nunca pôde e nunca vai poder compor um blues  se não estiver mergulhado na tristeza e nunca poderá interpretar bem um blues no palco se seu estado de espírito, pelo menos ali, na hora, não se voltar para a tristeza'.

Todos os sentimentos estão na música de Celso Blues Boy. A tristeza num blues, a alegria no rock'n roll, o romantismo numa balada. 'Em minhas letras, estou sempre a fim de falar de amor, de uma maneira sutil, porque não gosto de banalidade, mas sempre falo de amor'. Em suma, um romântico. Nas letras, nas músicas e nos solos de guitarra, quando solta suas emoções e arranca o delírio da plateia.

Para Blues, naturalmente amedrontado no início da carreira com entrevistas, fotografias (que ele continua detestando com todas as suas forças) e o próprio grilo da crítica, não houve nada pior do que fazer play-back na televisão: 'que coisa terrível, fazer a mímica de mim mesmo, com a guitarra sem plug. Pra dar um toque de bom-humor, eu dava uma nota super-grave na minha guitarra sem plug ao mesmo tempo em que a música rolava uma nota aguda. senão não dava pra aguentar'.

Bem mais acostumado a dar entrevistas, embora embora ainda fique meio nervoso, Blues Boy acha que o rock no Brasil 'agora vai'. E continua: 'Esta é, sem dúvida, a mais forte tentativa de penetração do rock no Brasil. Por enquanto estamos vivendo o boom, todo mundo tocando, contratos para grupos que não tem nem seis meses, etc e tal. Isso porque finalmente estão se tocando de que existe uma camada de público ávida por rock, e que esta faixa sempre vai existir, porque o rock nunca vai morrer'. 'Aliás', afirma, 'o rock como o samba veio da África e já está na hora de acabar com esse papo de que rock é importado. O samba é tão brasileiro quanto o rock'.

Cheio de  certeza, ele ressalva que 'daqui a pouco vai haver uma retração. O público vai escolher os melhores e quem não estiver na lista, vai dançar'. Naturalmente, ele é que não vai ser um desses pobres infelizes, e nem mesmo os invejosos vão conseguir isso.

De planos, Blues Boy está cheio. Enquanto espera o lançamento de seu primeiro compacto, ele procura mais um guitarrista para sua banda: 'quero poder me soltar mais e mostrar uma outra parte de meu trabalho que ainda não foi executada em shows, já que eu só conto com o baixista Beto e o baterista Wigberto'.

Tocando para o ídolo B.B. King
Ser um roqueiro no Brasil, para Celso Blues Boy, é fundamental ter fé. Encarar todas as pressões e amarguras de ser visto como um superstar sem o ser e sem ganhar nem um décimo do que um superstar merece. Até o dia em que as multinacionais resolverem investir de cabeça no rock. 'Nesse dia', afirma, 'a crítica finalmente vai ter que se livrar dos resquícios da 'Síndrome da Jovem Guarda', quando  houve uma revolta muito grande por parte dessas pessoas, porque diziam que a Jovem Guarda estava matando a MPB, desempregando os sambistas, tudo por  causa desses cabeludos. O Tinhorão, por exemplo,, gosta tanto de mim quanto eu gosto de dor de dente. Eu não quero que ele fale bem de mim, mas o que eles todos precisam é se livrar desse ranço de preconceito, porque não há nada mais lógico a  fazer senão respeitar o rock nacional, que nunca quis desempregar ninguém, que só é uma coisa inevitável. Mas eu acredito que, com o tempo, o rock vai ganhar o seu espaço, de igual pra igual com qualquer artista da MPB'.

É isso aí, Celso Blues Boy na cabeça. 'Eu sou um bluesman e um rocker, mais um bluesman do que qualquer outra coisa, e vou continuar fazendo isso a minha vida inteira, dê ou não dê pé no Brasil. Eu já aturei a época da disco-music fazendo a mesma coisa que faço agora, então o meu lance é esse e vai continuar sendo esse. O que vier está bem-vindo.' "
 




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O Funk e o Fusion


Nos anos 80 a editora Três, que publicava a revista Somtrês, lançou uma série de quatro volumes contando a história do rock e suas vertentes , em ótimo texto escrito por Roberto Muggiatti, um grande pesquisador e conhecedor do assunto. Em seu quarto volume há um tópico que destaca o funk, música essencialmente negra, que ganhou grande projeção a partir dos anos 60 e o jazz-rock ou fusion, surgido no final daquela década, a partir de um experimento vindo principalmente de experiências musicais de Miles Davis. O texto é bem elucidativo e didático para os interessados no assunto. Segue abaixo o texto:

"Nos anos 50, o adjetivo 'funky' surgiu no jazz para designar um tipo de música de ritmo vibrante e autenticamente negro, em oposição ao cool jazz e ao jazz branco da West Coast. Nos anos 70, a palavra voltou sob a forma de 'funk', um desenvolvimento nascido da música soul dos anos 60  e da discoteca dos anos 70.

James Brown e Sly Stone são os pioneiros, Kool and the Gang e o Earth, Wind & Fire as maiores expressões recentes. E o incrível homem-orquestra Prince projeta o funk no futuro com seu rock altamente instigante (ouçam seu último álbum, 1999).

James Brown

Já o fusion é a fusão do rock com o jazz - se é que houve realmente. Na verdade, há o electric jazz, tomando emprestado do rock a instrumentação eletrônica, um pouco da batida, mas não deixando de ser jazz, isto é, música instrumental improvisada. E há o rock jazzificado, música vocal apoiada em instrumentação e orquestrações oriundas do jazz e abrindo espaço para solos improvisados. As primeiras experiências do rock com o jazz começaram em bandas de metais tipo Blood, Sweat & Tears e Chicago. Do lado do rock, Frank Zappa foi um pioneiro do fusion, principalmente em álbuns como Hot Rats e The Grand Wazzoo.

Do lado do jazz, a criação do fusion é atribuída a Miles Davis, com o álbum duplo de 1970, Bitches Brew. Do efeito que lhe causou a música de Jimi Hendrix e de sua associação nos anos 60 com músicos como o saxofonista Wayne Shorter, os tecladistas Herbie Hancock, Joe Zawinul e Chick Corea, os guitarristas George Benson e John McLaughlin, Davis começou a eletrificar a sua banda - teclados, guitarra, baixo e até mesmo saxofone e trompete. Wayne Shorter e Joe Zawinul deixaram Miles para formar, ainda em 70, o Weather Report, que se tornaria o grupo mais representativo do fusion. McLaughlin, com o violonista de Zappa, Jean-Luc Ponty, formou a Mahavishnu Orchesta, outro marco do jazz-rock.

Miles Davis
O blues inglês produziu guitarristas improvisadores como Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck, mas o artista mais significativo do movimento foi John Mayall, que conseguiu equilibrar letras de rock com um clima de improvisação jazzística. Mayall mudou-se para os Estados Unidos nos anos 70 e lançou a jazz-blues fusion, utilizando, entre outros, músicos de jazz como o trompetista Blue Mitchell e o saxofonista Clifford Solomon, sem abrir mão das letras, de sua autoria e na sua voz.
Outro fenômeno curioso foi o ressurgimento, em meados dos anos 70, do jazzman maldito Ornette Coleman - criador do free jazz - lançando uma espécie de free-funk-fusion, jazz de vanguarda com algo da batida e da eletricidade do rock. Coleman fez escola - a chamada teoria 'harmolódica' - principalmente através do guitarrista James Blood Ulmer e do baterista Ronald Shannon Jackson. Embora a ênfase do funk seja basicamente rítmica e o do fusion  predominantemente instrumental e improvisada, as duas tendências são forças atuantes na formação dos sons do futuro."



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Roberto Carlos Anos 70 (Revista Bizz Especial - 2011)


 Em 2011, ano em que Roberto Carlos completou 70 anos a revista Bizz lançou uma edição especial sobre o cantor. Nesse ano, em que Roberto completa 80 anos, talvez algumas edições comemorativas sejam publicadas, afinal é uma data redonda comemorativa de um ídolo nacional. Daquela edição de dez anos atrás, irei transcrever um capítulo referente ao período que compreende a década de 70. Em destaque nesse capítulo, cujo texto é assinado por Flávia Ribeiro, um resumo daquela década na vida de Roberto: "Um tempo de amadurecimento, marcado pelo casamento com Nice e pela chegada dos filhos. O terror dos pais se transforma no cantor romântico querido por toda a família". Abaixo, o texto do capítulo:

"Casado, pai, hippie no visual nos anos 70. O fim da Jovem Guarda deixou uma série de ídolos do iê-iê-iê no ostracismo, mas o Rei - assim como sua parceria com o amigo de fá Erasmo Carlos - seguiu na contra-mão, alcançando um sucesso ainda maior na nova fase. Nos anos 60, virou ídolo. Nos 70, tornou-se mito.

Com o indefectível jeans surrado e o inseparável medalhão que ganhou de uma freira de Cachoeiro de Itapemirim no pescoço, Roberto assumiu os cachos e a verve sentimental. Como diz Luiz Carlos Ismail, amigo desde 1961 e backing vocal de seus shows desde 77, 'um dos segredos do Roberto é que ele só canta o que sente'. E foi assim que ele enfileirou um sucesso atrás do outro.

Cantando o que sente, ele compôs Jesus Cristo em 70 e gritou que Todos Estão Surdos em 71. O apego à religião marcaria sua vida e sua carreira a partir daí. O maior sucesso, Detalhes, foi gravado em 71, Cantou o amor em músicas como Amada Amante e Proposta. Em 79, quando se separou de sua primeira mulher, Nice - para quem ainda nos anos 60 havia composto Como É Grande o Meu Amor por Você -, Roberto escreveu Costumes, em que declara que 'de repente ser livre até me assusta, me aceitar sem você certas vezes me custa'. A mãe ganhou Lady Laura em 78; o pai, Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo em 79. Para o até então exilado Caetano Veloso dedicou Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, também em 71, em que demonstra sensibilidade com o drama do amigo, embora jamais tenha se envolvido em política, mesmo nos períodos mais pesados da ditadura.

E Erasmo, parceiro em quase todas as músicas citadas, o 'mais certo das horas incertas', foi presenteado com Amigo, em 77. 'Quando Roberto foi embora, Narinha me disse que jamais vira uma demonstração tão pura de amizade', lembra Erasmo em sua autobiografia, Minha Fama de Mau (Objetiva, 2008), depois de contar que Roberto apareceu em sua casa à noite e botou a fita para tocar, de surpresa, sem dizer que música era aquela: 'Minhas lágrimas vieram com uma abundância de fazer inveja ao mar de Ipanema. Nós nos abraçamos demoradamente enquanto a música prosseguia'.

Foi nos anos 70 que a dupla criou sua única composição por telefone: Imoral, Ilegal ou Engorda foi feita com Roberto em Los Angeles e Erasmo no Rio. O Tremendão hoje em dia faz várias composições à distância, com outros parceiros. Mas com Roberto há sempre um encontro, um na casa do outro, até altas madrugadas. 'Além do Horizonte foi especial. Por dois dias, em 1975, viramos meninos de novo', conta Erasmo, lembrando as 48 horas passadas em um sítio em Piracicaba, no interior de São Paulo: 'Quando vinha fome, Roberto fritava ovos, que comíamos com pão'.

O Rei tinha hábitos simples: gostava de brincar com os filhos quando a agenda de shows e viagens permitia, jogar sinuca com os amigos, fumar cachimbo e tocar violão. Pai de Roberto Carlos II, o Segundinho ou Dudu, nascido em 69, e de Ana Paula, filha do primeiro casamento de Nice que ele logo assumiu, Roberto ainda teve Luciana em 71 - um quarto filho, Rafael, seria reconhecido por ele 20 anos depois. Mostrava-se romântico com Nice e carinhoso com os filhos. O casamento acabou em 79, mas ele fez questão de manter-se próximo. Carinhoso, aliás, é um adjetivo muito usado pelos amigos para falar sobre Roberto. Fiel é outro. Tanto que a maioria dos músicos de sua banda está com ele há mais de 30 anos, alguns há quase 50, como o percussionista Dedé.

Nesse período, aflorou seu lado cheio de manias. O garoto que, segundo a atriz Maria Gladys, sua namorada no fim dos anos 50, tinha um belo casaco marrom, baniu a cor de seu guarda-roupa, adotou o branco e o azul e passou a  ser visto conversando com plantas.

'Qualquer piração que possa ter não faz mal a ninguém. Não gosta de marrom? Ok, e daí? Isso atrapalha a vida de alguém? Ele é o maior artista popular do Brasil. Isso é um fardo pesado! Tem gente que leva para o lado da droga. Roberto é saudável. É um cara que malha até hoje, na casa dele, se alimenta bem, se cuida. Tem superstições? Tem, mas isso só dá mais charme para a carreira dele', defende o maestro Eduardo Lages, à frente de sua orquestra desde 77, compadre e grande amigo de Roberto Carlos.

Filas de pessoas querendo falar com ele em hotéis pelo Brasil afora passaram a ser comuns, e não eram mais apenas fãs histéricas querendo rasgar um pedaço da velha calça desbotada. Havia agora de aspirantes a compositores querendo mostrar o trabalho e pessoas pobres precisando de ajuda. Dedé filtrava e levava um ou outro para conhecê-lo, geralmente alguém precisando de ajuda financeira para tratamento médico.

Roberto atendia e ajudava, enquanto lotava shows em toda a América Latina. No Canecão, chegou a fazer uma temporada de seis meses de casa lotada, em 75. 'Roberto sabe dizer a letra, e isso é importante na música popular. Tem o dom de compor muito bem, e ao longo dos anos foi exercitando o dom de emocionar as pessoas', tenta explicar o maestro Eduardo Lages. Mito, no entanto, não tem explicação."



 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Roberto Menescal (Revista do CD - 1992)


 Roberto Menescal foi um dos criadores da Bossa Nova. Participou ativamente das reuniões musicais que aconteciam no apartamento de Nara Leão, onde os principais nomes do movimento participavam de noitadas musicais, e dali surgiam parcerias e nasceram várias músicas que ser tornaram clássicas, algumas de sua autoria. Mais tarde Menescal deixaria um pouco de lado sua carreira de músico para se dedicar a seu trabalho de produtor musical da gravadora Phillips/Polygram. Mas vez por outra Menescal voltava a tocar e se apresentar, e também a gravar discos. A Revista do CD nº 11 (fevereiro/1992) trazia uma matéria sobre mais um CD que o músico estava lançando, em texto assinado por Tárik de Souza:

"Ele foi um dos artífices da bossa nova a bordo de um punhado de clássicos de lavra própria e um violão a tiracolo, além de um conjunto de instrumental que formou exclusivamente para servir ao movimento. 'Cada grupo estava pensando muito individualmente, tocando só sua música, e achei que havia uma brecha para uma formação maior que os trios da moda, cujo objetivo fosse acompanhar o artista.' Assim nasceu o conjunto Roberto Menescal, conforme ele mesmo descreve numa entrevista para a reedição de seu disco da Elenco, A Bossa Nova de Roberto Menescal. Gravado em 1964, com músicos da estirpe de Eumir Deodato (piano) e Ugo Marotta (vibrafone) tocando standards de época, como Samba de Verão, Aruanda, Só Tinha de Ser com Você, e Adriana. A Nova Bossa volta ao mercado no próximo mês em CD da segunda leva de relançamento da Elenco.

Mas Menescal, com 54 anos e um nome de produtor e diretor artístico (da Polygram) firmado depois da bossa, não vai ficar na saudade. Depois de trabalhar em dupla com cantores como Nara Leão (de quem foi colega de infância; ambos capixabas criados em Copacabana) e Leila Pinheiro, ele reconstrói seu célebre conjunto e 22 anos depois volta a assinar um disco como band-leader. É claro que em duas décadas muita coisa mudou, inclusive a concepção do grupo, agora com duas cantoras, Josi e Cristiane, que não chegam a conferir ao resultado sonoro a marca Sérgio Mendes, celebrizada a partir do Brasil 66. 'Quero retrabalhar as coisas velhas misturando com novidades.'

Menescal e Nara Leão

Ditos e Feitos, o CD deste recomeço, a partir da faixa-título, exibe um cardápio pragmático de quem acostumou seu público à cozinha ligeira - sem entupi-lo com as calorias do fast food. Ele engendra uma pop-bossa de classe, que lubrifica dançarinos e homenageia ouvidos mais acurados com ricas concepções harmônicas e eventual espaço para solos de gente como Fernando Merlino (teclados), Jacaré (baixo) e ele próprio no violão e guitarra, bem calçados pela bateria de Rubinho e percussão de Reginaldo.

Sem preconceito, Menescal faz releituras de clássicos pessoais (O Barquinho acoplado a Você, Telefone e o pré-ecológico A Morte de um Deus de Sal, agora em embalagem mais naturalista) e alheios (Anos Dourados), inserindo pitadas pop de teclados high-tec aqui e ali. Nada que sanitize o produto final a ponto de pasteurizá-lo a um nível Jean Michel Jarre. Ele confeita com swing o Bye Bye Brasil de quebrada funk (e mais adiante bossa nova latinizada), que escreveu com Chico Buarque. Ícones do romantismos feminino, as canções Tetê (sucesso na voz de Sylvia Telles) e Vagamente (míssil de lançamento de Wanda Sá) reaparecem em versões em inglês num torpedo direto para os mercados externos, também visados pelo disco.

Na época da Bossa Nova - anos 60
Há ainda a bossa docemente amor-sorriso-flor intituilada Ciúme ('esses seus parentes que lhe beijam tanto assim/ Esses seus amigos que só falam mal de mim'). Entre as novidades, a boa surpresa é a versão bossa/funk Retornar Àquele Dia, do japonês Yumi Arai, que parece biografar o cotidiano de um dos artistas brasileiros que mais atuaram no show bizz oriental: 'Hoje de manhã/ Quando o sol voltou do Japão/ O meu grande amor me deixou na escuridão'. Com muito jogo de cintura, Roberto Menescal concilia no eterno retorno de seu conjunto as duas faces da moeda musical - a estética e a monetária."



terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sivuca Enfim Solo (Revista Música Brasileira - 1998)


 A revista Música Brasileira, como o próprio nome diz, falava de nossa música e nossos artistas, famosos ou não, veteranos ou iniciantes. Muita coisa ligada ao samba e nossa música urbana ou interiorana, mas sempre destacando artistas ou grupos musicais com um trabalho consistente e de valor. Em seu número 9, de janeiro de 1998, a revista traz uma matéria com o grande Sivuca, um dos melhores músicos que esse país conheceu, e que deixou uma contribuição das mais significativas para nossa música, aqui e no exterior, onde trabalhou por muitos anos. A matéria é assinada por Mario de Aratanha, jornalista e produtor de discos, que trabalhou com Sivuca no disco que o músico estava lançando, intitulado Enfim Solo:

"A imagem que se tem de Sivuca é aquele sanfoneiro albino da Paraíba, que começou em rádio no Recife, correu o mundo tocando com Miriam Makeba e Harry Belafonte, fazendo samba e jazz, forró e musette, choro e calipso. Solista carismático, virtuose em vários instrumentos, arranjador do quarteto ao sinfônico, Sivuca sempre deu preferência aos conjuntos, às formações maiores, aos arranjos ricos em vozes diferentes.

Mas quem não se lembra, quando em suas apresentações Sivuca fica sozinho no palco e ataca na sanfona o Quando Me Lembro, de Luperce Miranda, ou a Tocata em Ré Menor, de Bach. Ponto alto do virtuosismo que empolga e prepara a volta do conjunto para a segunda parte...

Pois este Sivuca só se entrevia.

Nos últimos anos, quase que paralelamente com o desenvolvimento de seus arranjos sinfônicos, o sanfoneiro se dedicou mais a Bach e a Pixinguinha na sanfona só, gerando um embrião de repertório para este disco, ideia de sua companheira Glorinha Gadelha.

'Sivuca está cada vez melhor', dizia.

Pois lá fomos nós, em três etapas, de julho de 95 a julho de 97. Primeiro ele gravou sanfona só: Luperce e o Bach, mais o Pixinguinha duas valsas, uma brasileira, Subindo ao Céu (a pedido de Janine Houard) e outra dinamarquesa, Véu de Grinalda ('Meu amigo Eric Petersen vai chorar quando ouvir esta', disse Sivuca esfregando as mãos).

Em setembro de 96, ele levou o violão e a sanfona, e gravou em multicanal o choro em homenagem ao Dino 7 Cordas e Em Nome do Amor, de Glória Gadelha. Aproveitou para refazer o Pixinguinha e criar de improviso o pot-pourri de frevos, lembrando seu velho Recife de tantos anos atrás.

Aliás, falando em Recife, um parênteses. Fui há quatro anos ao Recife com Sivuca para uma gravação. Pois lá as pessoas o param nas ruas, os motoristas o saúdam pela janela: 'ô sanfoneiro!' E quando ele entrou no tradicional restaurante Leite foi lindo: Nem bem se percebeu a cabeleira branca adentrando o Lamas de lá o burburinho cessou, ou foi abafado pelos aplausos de pé, generosos, saudando a volta dele pelo pedaço.

Em julho deste ano, voltamos ao estúdio para finalizar o CD, e aí, além do Aboio e do Forró Praieiro, vieram as maiores surpresas: o pianista originalíssimo de Da Cor do Pecado, Guacira e Aquariana, e o cantor emocionante de Canção que se Imaginara, em memória da amiga Nara Leão, composta com Paulinho Tapajós na noite em que ela se foi.

No meio das gravações, de vez em quando Sivuca confessava que se sentia 'meio' nu tocando solo ou com poucos instrumentos. Mas aos poucos o repertório foi crescendo, e nosso sanfoneiro se empolgando:

'Hoje, eu amo este Enfim Solo intimista. Não me sinto só, me sinto numa sala rodeado de amigos, mostrando o que tenho de melhor dentro de mim. É um sarau, uma noitada dessas que o Radamés e o Pixinguinha gostavam tanto...

- Dessas em que o dia amanheceu e a gente nem sentiu.' "