Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Yes - O Som Que Leva Ao Delírio (Revista Pop - 1975)


 Em 1975 o rock progressivo vivia seu auge, e a banda Yes era um dos seus nomes mais representativos. A banda havia trocado de tecladista, tendo o suíço Patrick Moraz ocupado a vaga deixada por Rick Wakeman, que passara a seguir carreira-solo, tendo, inclusive, naquele ano realizado shows muito concorridos no Brasil. A revista Pop de dezembro daquele ano publicou uma matéria sobre o Yes, que trazia um texto de apresentação: "Muito imitado no mundo inteiro, dono de sucesso indiscutível há vários anos, o Yes é um dos grupos mais importantes do chamado rock progressivo. De volta à estrada, depois de um recesso muito produtivo, o conjunto está em sua melhor fase, levando o público ao delírio em seus shows impecáveis, emocionantes e perfeitos." Segue abaixo a matéria:

"Quando o Yes voltou a se apresentar ao vivo, este ano, depois de um longo período de ausência, a primeira sensação da moçada foi de alívio. Afinal, desde a substituição do eloquente Rick Wakeman pelo pouco conhecido Patrick Moraz nos teclados do grupo, o Yes lançou um bom disco, provou que os teclados estavam em boas mãos, mas logo saiu de cena. Na verdade, os cinco carinhas se recolheram para ensaiar e levar às últimas consequências aquela que é uma das características do Yes: apresentar ao vivo exatamente o som conseguido em disco. E nisso Steve Howe (guitarra), Chris Square (baixo), Alan White (bateria), Jon Anderson (vocal) e Patrick Moraz (teclados) são rigorosos. Cada música, cada trecho, cada harmonia é estudada exaustivamente, e os ensaios são como uma guerra.

O Yes com a formação da época

Mas é uma guerra pacífica onde os cinco têm o mesmo objetivo: conseguir o melhor som, obter um resultado perfeito, transmitir a emoção mais nobre. Por isso, tudo é decidido em grupo, através de papos que começam na casa de campo de um deles ou num quarto de hotel e se desenvolvem através de longas horas de estúdio. A partir de uma proposta qualquer, todos descrevem suas emoções e dizem como imaginam o resultado final. Todos participam de tudo, o carinha da guitarra dá palpite no trabalho do baixista, este sugere uma frase aos teclados, e assim por diante. O trabalho só é dado como pronto quando não há mais possibilidade de reparos, quando todos concordam com tudo, quando o som está perfeito.

Foi esse som perfeito nos mínimos detalhes que o Yes apresentou no Festival de Reading (Inglaterra), este ano. E não só aliviou os ansiosos fãs: levou-os ao delírio total. E também a crítica, há muito tempo de olho na crise de perspectivas do grupo, acabou concordando que o conjunto cresceu muito a partir da entrada de Moraz. 'Ele está perfeitamente integrado em toda a transação do Yes', disseram, 'e revelou-se um músico muito criativo e de grande sensibilidade. Ao contrário de Wakeman, que sempre procurou brilhar mais do que todos os outros músicos juntos, Moraz permanece num plano de participação mais consciente, voltado para a música como uma manifestação total de emoções, raciocínio e sensibilidade.' E o próprio Moraz reconhece essa integração: 'Seria fácil e cômodo tocar como um louco para aparecer, para brilhar. Difícil é funcionar como uma parte de um todo perfeito...'

Com o sucesso de público e crítica conseguido no Festival de Reading, os próprios caras do Yes acabaram contagiados pelo entusiasmo. Steve Howe, bebendo seu infalível suco de laranja com vodka falou: 'Foi realmente emocionante. A gente estava meio tenso, imaginando como o público reagiria... Mas tudo foi muito bem, o som saiu perfeito e eu acho que demos o recado com muito jeito.' Jon Anderson, pouco depois, completava: 'O grupo está em sua melhor forma. E o público sentiu isso. Esse aplauso delirante não é à toa. Agora é sair para a estrada, em excursão, e espalhar o delírio pelo mundo.'

Mas, de todos os cinco, o yesman mais entusiasmado é Patrick Moraz. Quando esteve no Brasil, antes desse show ao vivo com o grupo, ele dizia estar consciente de suas condições: 'Afinal, eu sempre adorei tocar com o Yes. Quando o outro tecladista saiu, só fiquei em casa esperando que eles me chamassem. E eles me chamaram. Em poucos minutos estávamos tratando de contratos e essas coisas.' Agora, está ainda mais eufórico: 'Tem gente que fala que nosso rock sinfônico é pretensioso. Mas basta olhar para esta moçada que vem nos assistir, para sacar que os estamos tocando. Nós levamos emoções sublimes para eles. Porque encaramos a música como uma coisa sublime.' "



sábado, 27 de fevereiro de 2021

Celso Blues Boy (Revista Roll - 1983)


 Celso Blues Boy foi um nome muito importante na cena do rock brasileiro que surgiu nos anos 80. Por trazer um trabalho diferenciado da maioria dos artistas e bandas  que surgiram no período, já que seguia uma linha de rock com influência direta do blues, daí seu nome artístico, Celso ganhou uma matéria no na edição de estreia da revista Roll, em 1983. A introdução da matéria diz: "Era um garoto que muito cedo amou Ray Charles e os Beatles cantando 'My Bone is over the ocean...'. O pai lhe ensinou um ou dois acordes no violão e depois, aos nove anos de idade o menino já exigia: 'uma guitarra elétrica ou a morte'. Como o pai não queria um filho morto, como é de se esperar da maioria dos pais existentes no mundo, não lhe restou outra opção a não ser atender o desejo do filho. A partir daí entre as oitavadas de Roy Buchanan, Eric Clapton e B.B. King (o Blues Boy que lhe inspirou o nome artístico), os dedos do menino Celso começaram a criar notas e até hoje não pararam."  Pelo fato de na época Blues Boy ainda ser inédito em disco, acredito ser essa uma das primeiras matérias escritas sobre ele.

"Desde a adolescência, quando a inevitável auto-afirmação o fazia ousar solos super-rápidos e violentos até hoje, mais seguro da qualidade de seu trabalho, são mais de 1.500 músicas, umas perdidas e jamais encontradas, outras em casas de amigos, muitas jogadas fora e algumas guardadas em seu poder.

Um processo de  criação que nunca foi interrompido ao longo dos dez anos de carreira como músico de bandas como a de Raul Seixas, Luiz Melodia, Sá & Guarabyra e, destacando, Renato e Seus Blue Caps, em que, segundo Celso Blues Boy, 'todo mundo adorava na época, e por isso era a maior chinfra tocar com eles'.

Aliás, Blues Boy não parou de compor nem mesmo quando, em 1981, saturado de tocar em bandas dos outros, decidiu largar tudo e desistiu de ser músico. Mas foi uma decisão que não poderia ser levada por muito tempo, a não ser que Blues Boy estivesse com vontade de morrer; 'eu passei um ano trancado em um apartamento de Santa Tereza, vivendo da renda de um livro que havia escrito e que minha irmã levara pro Ziraldo'. Mesmo assim, durante esse ano, ele compôs. Blues, é claro, baladas, rockzinhos tipo anos 50, heavy metal, tudo, tudo que sempre soube fazer.

Com o amigo Cazuza

Até que, em 1982 o Lorival, que hoje é seu empresário, disse que havia uma rádio no Rio tocando blues. Blues (é assim que os amigos o chamam) não acreditou, mas daí até levarem uma fita para a Fluminense não se passaram muitos dias.

Pronto, estava dada a a largada para a carreira-solo de Celso Blues Boy, compositor, cantor, guitarrista, baixista, baterista, arranjador... uff. Dessas pessoas que sentem muito de perto as coisas e que só precisam de uma pitada de tristeza para compor um blues maravilhoso e uma pequena dose de bom-humor para fazer um heavy-metal como a famosa 'Aumenta Que Isso Aí É Rock'n Roll'.

Blues é um cara essencialmente sentimental. Diz ele: 'eu valorizo tanto a tristeza quanto a alegria, porque ninguém nunca pôde e nunca vai poder compor um blues  se não estiver mergulhado na tristeza e nunca poderá interpretar bem um blues no palco se seu estado de espírito, pelo menos ali, na hora, não se voltar para a tristeza'.

Todos os sentimentos estão na música de Celso Blues Boy. A tristeza num blues, a alegria no rock'n roll, o romantismo numa balada. 'Em minhas letras, estou sempre a fim de falar de amor, de uma maneira sutil, porque não gosto de banalidade, mas sempre falo de amor'. Em suma, um romântico. Nas letras, nas músicas e nos solos de guitarra, quando solta suas emoções e arranca o delírio da plateia.

Para Blues, naturalmente amedrontado no início da carreira com entrevistas, fotografias (que ele continua detestando com todas as suas forças) e o próprio grilo da crítica, não houve nada pior do que fazer play-back na televisão: 'que coisa terrível, fazer a mímica de mim mesmo, com a guitarra sem plug. Pra dar um toque de bom-humor, eu dava uma nota super-grave na minha guitarra sem plug ao mesmo tempo em que a música rolava uma nota aguda. senão não dava pra aguentar'.

Bem mais acostumado a dar entrevistas, embora embora ainda fique meio nervoso, Blues Boy acha que o rock no Brasil 'agora vai'. E continua: 'Esta é, sem dúvida, a mais forte tentativa de penetração do rock no Brasil. Por enquanto estamos vivendo o boom, todo mundo tocando, contratos para grupos que não tem nem seis meses, etc e tal. Isso porque finalmente estão se tocando de que existe uma camada de público ávida por rock, e que esta faixa sempre vai existir, porque o rock nunca vai morrer'. 'Aliás', afirma, 'o rock como o samba veio da África e já está na hora de acabar com esse papo de que rock é importado. O samba é tão brasileiro quanto o rock'.

Cheio de  certeza, ele ressalva que 'daqui a pouco vai haver uma retração. O público vai escolher os melhores e quem não estiver na lista, vai dançar'. Naturalmente, ele é que não vai ser um desses pobres infelizes, e nem mesmo os invejosos vão conseguir isso.

De planos, Blues Boy está cheio. Enquanto espera o lançamento de seu primeiro compacto, ele procura mais um guitarrista para sua banda: 'quero poder me soltar mais e mostrar uma outra parte de meu trabalho que ainda não foi executada em shows, já que eu só conto com o baixista Beto e o baterista Wigberto'.

Tocando para o ídolo B.B. King
Ser um roqueiro no Brasil, para Celso Blues Boy, é fundamental ter fé. Encarar todas as pressões e amarguras de ser visto como um superstar sem o ser e sem ganhar nem um décimo do que um superstar merece. Até o dia em que as multinacionais resolverem investir de cabeça no rock. 'Nesse dia', afirma, 'a crítica finalmente vai ter que se livrar dos resquícios da 'Síndrome da Jovem Guarda', quando  houve uma revolta muito grande por parte dessas pessoas, porque diziam que a Jovem Guarda estava matando a MPB, desempregando os sambistas, tudo por  causa desses cabeludos. O Tinhorão, por exemplo,, gosta tanto de mim quanto eu gosto de dor de dente. Eu não quero que ele fale bem de mim, mas o que eles todos precisam é se livrar desse ranço de preconceito, porque não há nada mais lógico a  fazer senão respeitar o rock nacional, que nunca quis desempregar ninguém, que só é uma coisa inevitável. Mas eu acredito que, com o tempo, o rock vai ganhar o seu espaço, de igual pra igual com qualquer artista da MPB'.

É isso aí, Celso Blues Boy na cabeça. 'Eu sou um bluesman e um rocker, mais um bluesman do que qualquer outra coisa, e vou continuar fazendo isso a minha vida inteira, dê ou não dê pé no Brasil. Eu já aturei a época da disco-music fazendo a mesma coisa que faço agora, então o meu lance é esse e vai continuar sendo esse. O que vier está bem-vindo.' "
 




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O Funk e o Fusion


Nos anos 80 a editora Três, que publicava a revista Somtrês, lançou uma série de quatro volumes contando a história do rock e suas vertentes , em ótimo texto escrito por Roberto Muggiatti, um grande pesquisador e conhecedor do assunto. Em seu quarto volume há um tópico que destaca o funk, música essencialmente negra, que ganhou grande projeção a partir dos anos 60 e o jazz-rock ou fusion, surgido no final daquela década, a partir de um experimento vindo principalmente de experiências musicais de Miles Davis. O texto é bem elucidativo e didático para os interessados no assunto. Segue abaixo o texto:

"Nos anos 50, o adjetivo 'funky' surgiu no jazz para designar um tipo de música de ritmo vibrante e autenticamente negro, em oposição ao cool jazz e ao jazz branco da West Coast. Nos anos 70, a palavra voltou sob a forma de 'funk', um desenvolvimento nascido da música soul dos anos 60  e da discoteca dos anos 70.

James Brown e Sly Stone são os pioneiros, Kool and the Gang e o Earth, Wind & Fire as maiores expressões recentes. E o incrível homem-orquestra Prince projeta o funk no futuro com seu rock altamente instigante (ouçam seu último álbum, 1999).

James Brown

Já o fusion é a fusão do rock com o jazz - se é que houve realmente. Na verdade, há o electric jazz, tomando emprestado do rock a instrumentação eletrônica, um pouco da batida, mas não deixando de ser jazz, isto é, música instrumental improvisada. E há o rock jazzificado, música vocal apoiada em instrumentação e orquestrações oriundas do jazz e abrindo espaço para solos improvisados. As primeiras experiências do rock com o jazz começaram em bandas de metais tipo Blood, Sweat & Tears e Chicago. Do lado do rock, Frank Zappa foi um pioneiro do fusion, principalmente em álbuns como Hot Rats e The Grand Wazzoo.

Do lado do jazz, a criação do fusion é atribuída a Miles Davis, com o álbum duplo de 1970, Bitches Brew. Do efeito que lhe causou a música de Jimi Hendrix e de sua associação nos anos 60 com músicos como o saxofonista Wayne Shorter, os tecladistas Herbie Hancock, Joe Zawinul e Chick Corea, os guitarristas George Benson e John McLaughlin, Davis começou a eletrificar a sua banda - teclados, guitarra, baixo e até mesmo saxofone e trompete. Wayne Shorter e Joe Zawinul deixaram Miles para formar, ainda em 70, o Weather Report, que se tornaria o grupo mais representativo do fusion. McLaughlin, com o violonista de Zappa, Jean-Luc Ponty, formou a Mahavishnu Orchesta, outro marco do jazz-rock.

Miles Davis
O blues inglês produziu guitarristas improvisadores como Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck, mas o artista mais significativo do movimento foi John Mayall, que conseguiu equilibrar letras de rock com um clima de improvisação jazzística. Mayall mudou-se para os Estados Unidos nos anos 70 e lançou a jazz-blues fusion, utilizando, entre outros, músicos de jazz como o trompetista Blue Mitchell e o saxofonista Clifford Solomon, sem abrir mão das letras, de sua autoria e na sua voz.
Outro fenômeno curioso foi o ressurgimento, em meados dos anos 70, do jazzman maldito Ornette Coleman - criador do free jazz - lançando uma espécie de free-funk-fusion, jazz de vanguarda com algo da batida e da eletricidade do rock. Coleman fez escola - a chamada teoria 'harmolódica' - principalmente através do guitarrista James Blood Ulmer e do baterista Ronald Shannon Jackson. Embora a ênfase do funk seja basicamente rítmica e o do fusion  predominantemente instrumental e improvisada, as duas tendências são forças atuantes na formação dos sons do futuro."



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Roberto Carlos Anos 70 (Revista Bizz Especial - 2011)


 Em 2011, ano em que Roberto Carlos completou 70 anos a revista Bizz lançou uma edição especial sobre o cantor. Nesse ano, em que Roberto completa 80 anos, talvez algumas edições comemorativas sejam publicadas, afinal é uma data redonda comemorativa de um ídolo nacional. Daquela edição de dez anos atrás, irei transcrever um capítulo referente ao período que compreende a década de 70. Em destaque nesse capítulo, cujo texto é assinado por Flávia Ribeiro, um resumo daquela década na vida de Roberto: "Um tempo de amadurecimento, marcado pelo casamento com Nice e pela chegada dos filhos. O terror dos pais se transforma no cantor romântico querido por toda a família". Abaixo, o texto do capítulo:

"Casado, pai, hippie no visual nos anos 70. O fim da Jovem Guarda deixou uma série de ídolos do iê-iê-iê no ostracismo, mas o Rei - assim como sua parceria com o amigo de fá Erasmo Carlos - seguiu na contra-mão, alcançando um sucesso ainda maior na nova fase. Nos anos 60, virou ídolo. Nos 70, tornou-se mito.

Com o indefectível jeans surrado e o inseparável medalhão que ganhou de uma freira de Cachoeiro de Itapemirim no pescoço, Roberto assumiu os cachos e a verve sentimental. Como diz Luiz Carlos Ismail, amigo desde 1961 e backing vocal de seus shows desde 77, 'um dos segredos do Roberto é que ele só canta o que sente'. E foi assim que ele enfileirou um sucesso atrás do outro.

Cantando o que sente, ele compôs Jesus Cristo em 70 e gritou que Todos Estão Surdos em 71. O apego à religião marcaria sua vida e sua carreira a partir daí. O maior sucesso, Detalhes, foi gravado em 71, Cantou o amor em músicas como Amada Amante e Proposta. Em 79, quando se separou de sua primeira mulher, Nice - para quem ainda nos anos 60 havia composto Como É Grande o Meu Amor por Você -, Roberto escreveu Costumes, em que declara que 'de repente ser livre até me assusta, me aceitar sem você certas vezes me custa'. A mãe ganhou Lady Laura em 78; o pai, Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo em 79. Para o até então exilado Caetano Veloso dedicou Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, também em 71, em que demonstra sensibilidade com o drama do amigo, embora jamais tenha se envolvido em política, mesmo nos períodos mais pesados da ditadura.

E Erasmo, parceiro em quase todas as músicas citadas, o 'mais certo das horas incertas', foi presenteado com Amigo, em 77. 'Quando Roberto foi embora, Narinha me disse que jamais vira uma demonstração tão pura de amizade', lembra Erasmo em sua autobiografia, Minha Fama de Mau (Objetiva, 2008), depois de contar que Roberto apareceu em sua casa à noite e botou a fita para tocar, de surpresa, sem dizer que música era aquela: 'Minhas lágrimas vieram com uma abundância de fazer inveja ao mar de Ipanema. Nós nos abraçamos demoradamente enquanto a música prosseguia'.

Foi nos anos 70 que a dupla criou sua única composição por telefone: Imoral, Ilegal ou Engorda foi feita com Roberto em Los Angeles e Erasmo no Rio. O Tremendão hoje em dia faz várias composições à distância, com outros parceiros. Mas com Roberto há sempre um encontro, um na casa do outro, até altas madrugadas. 'Além do Horizonte foi especial. Por dois dias, em 1975, viramos meninos de novo', conta Erasmo, lembrando as 48 horas passadas em um sítio em Piracicaba, no interior de São Paulo: 'Quando vinha fome, Roberto fritava ovos, que comíamos com pão'.

O Rei tinha hábitos simples: gostava de brincar com os filhos quando a agenda de shows e viagens permitia, jogar sinuca com os amigos, fumar cachimbo e tocar violão. Pai de Roberto Carlos II, o Segundinho ou Dudu, nascido em 69, e de Ana Paula, filha do primeiro casamento de Nice que ele logo assumiu, Roberto ainda teve Luciana em 71 - um quarto filho, Rafael, seria reconhecido por ele 20 anos depois. Mostrava-se romântico com Nice e carinhoso com os filhos. O casamento acabou em 79, mas ele fez questão de manter-se próximo. Carinhoso, aliás, é um adjetivo muito usado pelos amigos para falar sobre Roberto. Fiel é outro. Tanto que a maioria dos músicos de sua banda está com ele há mais de 30 anos, alguns há quase 50, como o percussionista Dedé.

Nesse período, aflorou seu lado cheio de manias. O garoto que, segundo a atriz Maria Gladys, sua namorada no fim dos anos 50, tinha um belo casaco marrom, baniu a cor de seu guarda-roupa, adotou o branco e o azul e passou a  ser visto conversando com plantas.

'Qualquer piração que possa ter não faz mal a ninguém. Não gosta de marrom? Ok, e daí? Isso atrapalha a vida de alguém? Ele é o maior artista popular do Brasil. Isso é um fardo pesado! Tem gente que leva para o lado da droga. Roberto é saudável. É um cara que malha até hoje, na casa dele, se alimenta bem, se cuida. Tem superstições? Tem, mas isso só dá mais charme para a carreira dele', defende o maestro Eduardo Lages, à frente de sua orquestra desde 77, compadre e grande amigo de Roberto Carlos.

Filas de pessoas querendo falar com ele em hotéis pelo Brasil afora passaram a ser comuns, e não eram mais apenas fãs histéricas querendo rasgar um pedaço da velha calça desbotada. Havia agora de aspirantes a compositores querendo mostrar o trabalho e pessoas pobres precisando de ajuda. Dedé filtrava e levava um ou outro para conhecê-lo, geralmente alguém precisando de ajuda financeira para tratamento médico.

Roberto atendia e ajudava, enquanto lotava shows em toda a América Latina. No Canecão, chegou a fazer uma temporada de seis meses de casa lotada, em 75. 'Roberto sabe dizer a letra, e isso é importante na música popular. Tem o dom de compor muito bem, e ao longo dos anos foi exercitando o dom de emocionar as pessoas', tenta explicar o maestro Eduardo Lages. Mito, no entanto, não tem explicação."



 


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Roberto Menescal (Revista do CD - 1992)


 Roberto Menescal foi um dos criadores da Bossa Nova. Participou ativamente das reuniões musicais que aconteciam no apartamento de Nara Leão, onde os principais nomes do movimento participavam de noitadas musicais, e dali surgiam parcerias e nasceram várias músicas que ser tornaram clássicas, algumas de sua autoria. Mais tarde Menescal deixaria um pouco de lado sua carreira de músico para se dedicar a seu trabalho de produtor musical da gravadora Phillips/Polygram. Mas vez por outra Menescal voltava a tocar e se apresentar, e também a gravar discos. A Revista do CD nº 11 (fevereiro/1992) trazia uma matéria sobre mais um CD que o músico estava lançando, em texto assinado por Tárik de Souza:

"Ele foi um dos artífices da bossa nova a bordo de um punhado de clássicos de lavra própria e um violão a tiracolo, além de um conjunto de instrumental que formou exclusivamente para servir ao movimento. 'Cada grupo estava pensando muito individualmente, tocando só sua música, e achei que havia uma brecha para uma formação maior que os trios da moda, cujo objetivo fosse acompanhar o artista.' Assim nasceu o conjunto Roberto Menescal, conforme ele mesmo descreve numa entrevista para a reedição de seu disco da Elenco, A Bossa Nova de Roberto Menescal. Gravado em 1964, com músicos da estirpe de Eumir Deodato (piano) e Ugo Marotta (vibrafone) tocando standards de época, como Samba de Verão, Aruanda, Só Tinha de Ser com Você, e Adriana. A Nova Bossa volta ao mercado no próximo mês em CD da segunda leva de relançamento da Elenco.

Mas Menescal, com 54 anos e um nome de produtor e diretor artístico (da Polygram) firmado depois da bossa, não vai ficar na saudade. Depois de trabalhar em dupla com cantores como Nara Leão (de quem foi colega de infância; ambos capixabas criados em Copacabana) e Leila Pinheiro, ele reconstrói seu célebre conjunto e 22 anos depois volta a assinar um disco como band-leader. É claro que em duas décadas muita coisa mudou, inclusive a concepção do grupo, agora com duas cantoras, Josi e Cristiane, que não chegam a conferir ao resultado sonoro a marca Sérgio Mendes, celebrizada a partir do Brasil 66. 'Quero retrabalhar as coisas velhas misturando com novidades.'

Menescal e Nara Leão

Ditos e Feitos, o CD deste recomeço, a partir da faixa-título, exibe um cardápio pragmático de quem acostumou seu público à cozinha ligeira - sem entupi-lo com as calorias do fast food. Ele engendra uma pop-bossa de classe, que lubrifica dançarinos e homenageia ouvidos mais acurados com ricas concepções harmônicas e eventual espaço para solos de gente como Fernando Merlino (teclados), Jacaré (baixo) e ele próprio no violão e guitarra, bem calçados pela bateria de Rubinho e percussão de Reginaldo.

Sem preconceito, Menescal faz releituras de clássicos pessoais (O Barquinho acoplado a Você, Telefone e o pré-ecológico A Morte de um Deus de Sal, agora em embalagem mais naturalista) e alheios (Anos Dourados), inserindo pitadas pop de teclados high-tec aqui e ali. Nada que sanitize o produto final a ponto de pasteurizá-lo a um nível Jean Michel Jarre. Ele confeita com swing o Bye Bye Brasil de quebrada funk (e mais adiante bossa nova latinizada), que escreveu com Chico Buarque. Ícones do romantismos feminino, as canções Tetê (sucesso na voz de Sylvia Telles) e Vagamente (míssil de lançamento de Wanda Sá) reaparecem em versões em inglês num torpedo direto para os mercados externos, também visados pelo disco.

Na época da Bossa Nova - anos 60
Há ainda a bossa docemente amor-sorriso-flor intituilada Ciúme ('esses seus parentes que lhe beijam tanto assim/ Esses seus amigos que só falam mal de mim'). Entre as novidades, a boa surpresa é a versão bossa/funk Retornar Àquele Dia, do japonês Yumi Arai, que parece biografar o cotidiano de um dos artistas brasileiros que mais atuaram no show bizz oriental: 'Hoje de manhã/ Quando o sol voltou do Japão/ O meu grande amor me deixou na escuridão'. Com muito jogo de cintura, Roberto Menescal concilia no eterno retorno de seu conjunto as duas faces da moeda musical - a estética e a monetária."



terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sivuca Enfim Solo (Revista Música Brasileira - 1998)


 A revista Música Brasileira, como o próprio nome diz, falava de nossa música e nossos artistas, famosos ou não, veteranos ou iniciantes. Muita coisa ligada ao samba e nossa música urbana ou interiorana, mas sempre destacando artistas ou grupos musicais com um trabalho consistente e de valor. Em seu número 9, de janeiro de 1998, a revista traz uma matéria com o grande Sivuca, um dos melhores músicos que esse país conheceu, e que deixou uma contribuição das mais significativas para nossa música, aqui e no exterior, onde trabalhou por muitos anos. A matéria é assinada por Mario de Aratanha, jornalista e produtor de discos, que trabalhou com Sivuca no disco que o músico estava lançando, intitulado Enfim Solo:

"A imagem que se tem de Sivuca é aquele sanfoneiro albino da Paraíba, que começou em rádio no Recife, correu o mundo tocando com Miriam Makeba e Harry Belafonte, fazendo samba e jazz, forró e musette, choro e calipso. Solista carismático, virtuose em vários instrumentos, arranjador do quarteto ao sinfônico, Sivuca sempre deu preferência aos conjuntos, às formações maiores, aos arranjos ricos em vozes diferentes.

Mas quem não se lembra, quando em suas apresentações Sivuca fica sozinho no palco e ataca na sanfona o Quando Me Lembro, de Luperce Miranda, ou a Tocata em Ré Menor, de Bach. Ponto alto do virtuosismo que empolga e prepara a volta do conjunto para a segunda parte...

Pois este Sivuca só se entrevia.

Nos últimos anos, quase que paralelamente com o desenvolvimento de seus arranjos sinfônicos, o sanfoneiro se dedicou mais a Bach e a Pixinguinha na sanfona só, gerando um embrião de repertório para este disco, ideia de sua companheira Glorinha Gadelha.

'Sivuca está cada vez melhor', dizia.

Pois lá fomos nós, em três etapas, de julho de 95 a julho de 97. Primeiro ele gravou sanfona só: Luperce e o Bach, mais o Pixinguinha duas valsas, uma brasileira, Subindo ao Céu (a pedido de Janine Houard) e outra dinamarquesa, Véu de Grinalda ('Meu amigo Eric Petersen vai chorar quando ouvir esta', disse Sivuca esfregando as mãos).

Em setembro de 96, ele levou o violão e a sanfona, e gravou em multicanal o choro em homenagem ao Dino 7 Cordas e Em Nome do Amor, de Glória Gadelha. Aproveitou para refazer o Pixinguinha e criar de improviso o pot-pourri de frevos, lembrando seu velho Recife de tantos anos atrás.

Aliás, falando em Recife, um parênteses. Fui há quatro anos ao Recife com Sivuca para uma gravação. Pois lá as pessoas o param nas ruas, os motoristas o saúdam pela janela: 'ô sanfoneiro!' E quando ele entrou no tradicional restaurante Leite foi lindo: Nem bem se percebeu a cabeleira branca adentrando o Lamas de lá o burburinho cessou, ou foi abafado pelos aplausos de pé, generosos, saudando a volta dele pelo pedaço.

Em julho deste ano, voltamos ao estúdio para finalizar o CD, e aí, além do Aboio e do Forró Praieiro, vieram as maiores surpresas: o pianista originalíssimo de Da Cor do Pecado, Guacira e Aquariana, e o cantor emocionante de Canção que se Imaginara, em memória da amiga Nara Leão, composta com Paulinho Tapajós na noite em que ela se foi.

No meio das gravações, de vez em quando Sivuca confessava que se sentia 'meio' nu tocando solo ou com poucos instrumentos. Mas aos poucos o repertório foi crescendo, e nosso sanfoneiro se empolgando:

'Hoje, eu amo este Enfim Solo intimista. Não me sinto só, me sinto numa sala rodeado de amigos, mostrando o que tenho de melhor dentro de mim. É um sarau, uma noitada dessas que o Radamés e o Pixinguinha gostavam tanto...

- Dessas em que o dia amanheceu e a gente nem sentiu.' "


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Cat Stevens - Revista Rock Espetacular Vol. 3 (1977)


 A revista Rock Espetacular foi um projeto para contar a história do rock em três fascículos, que circularam de dezembro de 76 a fevereiro de 77. Os principais astros e bandas de rock eram destacados em textos biográficos. O terceiro volume, entre outros é destacado Cat Stevens, que anos depois se converteria para o islamismo, e praticamente abandonaria a carreira, lançando trabalhos esporádicos, mas fora do estilo que o consagrou. Segue abaixo o texto sobre Stevens:

"Em outubro de 1966, um avulso fez um sucesso razoável nas paradas inglesas: a música I Love My Dog, e o cantor e compositor se chamava Cat Stevens e tinha apenas 17 anos. O avulso seguinte, Matthew And Son, foi um sucesso de verdade e, mais que isso, chamou a atenção de todos, crítica e público, para o talento de seu autor, a firmeza e delicadeza de sua melodia e a sensibilidade de sua letra, coisas raras nos frequentadores habituais das paradas.

Cat gravou um álbum, foi eleito por um jornal como 'Revelação de 1968' e, quando parecia prestes a se tornar uma estrela, caiu doente com tuberculose. Dois anos se passaram até que ele tivesse condições de voltar a trabalhar. E a cena musical que ele encontrou ao voltar, em 1970, era bastante diferente daquela do início de sua carreira, intensamente impregnada de psicodelismo. Agora havia rock pauleira e rock clássico, mas existia também a corrente doce-amarga liderada por James Taylor, a geração dos cantores-compositores. E isso, num certo sentido, ajudava o retorno de Cat, mas dificultava também: ele podia passar a ser apenas um entre muitos.

Mas, mais uma vez, o seu talento brilhou acima do esperado. Cat voltou com força total no LP Mona Bone Jakon - que muitos acham, por seu despojamento, o melhor de sua carreira - e estabeleceu seu lugar como artista único, de voz inconfundível e estilo pessoal de compor.

Esse estilo seria desenvolvido e firmado nos três discos seguintes: Tea For The Tillerman, Teaser And The Firecat e Catch Bull At Four. Desses três, talvez Teaser seja o mais representativo do estilo - Cat Stevens, com as guitarras acústicas bem presentes procurando e tecendo ritmos novos e a voz marcante de Cat ondulando ao sabor das emoções.

O álbum seguinte, Foreigner, marcou uma nova etapa na vida de Cat. O disco foi muito mal recebido pela crítica, que achou o desempenho de Cat 'forçado' e 'pouco autêntico'. Os fãs também estranharam a substituição do violão e da guitarra pelo piano. Alguns anos depois, Cat também manifestaria seu desagrado por esse disco, não pelas ideias em si, mas pela pressa e desleixo em sua execução. Mas foi exatamente esse descontentamento geral que fez nascer um novo Cat, não mais acomodado ao seu ambiente de cantores-compositores, mas inquieto, eternamente em busca de novas formas.

Foi essa inquietação que o trouxe, entre outras coisas, ao Brasil, onde suas temporadas de férias se tornaram cada vez maiores e mais frequentes. Curioso e bastante informado sobre música brasileira, Cat acabou contratando o percussionista Chico Batera para integrar sua banda de apoio, e deixou que seu trabalho se impregnasse de ritmos e vibrações brasileiras.

Uma atmosfera mais relaxada aparece no LP de 74, Buddah And The Chocolate Box, mas o ambiente brasileiro só aparecerá por completo no álbum seguinte, Numbers, inteiramente composto no Brasil. É um disco conceitual, quase uma suíte, contando a história de um planeta que fabrica números e vive em torno deles, e das modificações que ocorrem quando aparece um forasteiro: o zero.
Simples até a ingenuidade - como ele mesmo tinha previsto ao dizer 'quero começar complexo e acabar simples' - mas vigoroso e imaginativo em seu talento, Cat Stevens ultrapassa as fronteiras do rock doce-amargo como uma das carreiras mais duráveis da cena musical inglesa."


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Mestre Cartola Vira Documentário (O Globo - 2004)


 Em sua edição de 25/04/2004 o jornal O Globo trazia uma matéria sobre um documentário que estava sendo finalizado sobre o compositor Cartola. Dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, o filme traça a trajetória de um dos mais importantes personagens do samba. A matéria é assinada por Jaime Biaggio:

"Há um filme sobre a vida de Cartola sendo filmado na casa noturna Rio Scenarium, na Lapa. Beth Carvalho está cantando "As Rosas Não Falam' ao violão e a produção pena para conseguir silêncio. O tempo todo, algum funcionário da casa faz o piso de madeira ranger e ameaça estragar um take. E isso sem falar nos carros na rua em frente. Os diretores Lírio Ferreira (co-diretor de 'Baile Perfumado') e Hilton Lacerda (roteirista de 'Amarelo Manga') demoram a conseguir fechar o depoimento/canja da sambista.

Mas dá para entender que seja assim: não há segurança na porta nem gente da produção de walkie-talkie para garantir silêncio. 'Cartola' não é 'Cazuza', não tem Columbia, Globo Filmes, orçamento confortável, atores conhecidos. À exceção do garoto Marcos Paulo, de 11 anos, aliás, nem tem atores: será um documentário sui-generis, em que a realidade a ser buscada será realçada com cenas de filmes, manipulação de áudio e vídeo ou inserts ficcionais. Daí as cenas em que Marcos Paulo faz as vezes do Cartola jovem nunca capturado por uma câmera de cinema (mas não é bem um docudrama; Ferreira arrisca um 'atualidade reconstituída' inventado na hora da entrevista).

- É a montagem que vai amarrar tudo - diz Ferreira, que tem dificuldade em achar definições para o filme, iniciado na quarta-feira. - O filme tem um lado... não tão louco, mas que também não é assim tão mastigado.

- Ao mesmo tempo, não queremos partir para o hermetismo total - acrescenta Lacerda.

Esse papo foi antes da chegada de Beth Carvalho, última personalidade a gravar um depoimento. O término das filmagens foi no dia seguinte, com um ato de 'atualidade reconstituída': a recriação na quadra da Mangueira, de um típico ensaio da escola nos anos 40.

Lacerda e Ferreira não parecem muito dispostos a revelar coisa demais sobre o filme. Mas dizem quais foram os entrevistados que deram depoimentos. É uma lista longa que inclui Jards Macalé, Nelson Motta, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral, Cacá Diegues, Nelson Sargento e nomes menos reconhecíveis de cara, como Pelão, que produziu o primeiro disco de Cartola (isso não aconteceu há tanto tempo assim, lembre-se que Cartola, nascido em 1908, só foi gravar aos 66 anos).

Sobre as histórias de Cartola que serão contadas, Ferreira e Lacerda são mais econômicos. Mas adiantam que não serão contadas pelos entrevistados, e sim pelo próprio Cartola, em imagens ou falas  de arquivo.

- As informações básicas de Cartola virão dos offs de Cartola. E os depoimentos comentarão as informações que ele trouxer.

Beth Carvalho conta histórias pré-selecionadas pela produção, presumivelmente mencionadas pelo próprio Cartola em algumas centenas de gravações de arquivo pesquisadas. Ou fornece mais evidências sobre o jeito de ser do compositor, também a partir de causos como o rompimento dele com Nelson Cavaquinho (Nelson vendeu a uma editora musical a sua parte num samba composto pelos dois em parceria, e Cartola ficou furioso). Ou o orgulho (e proteção) que ele tinha de 'O Mundo É Um Moinho', que Beth queria gravar e Cartola desaconselhou.

- 'Isso não vai dar certo' - disse ele, segundo Beth, a cantora que mais gravou músicas do sambista. - ele falou 'Essa música não é pra você. 'As Rosas Não Falam' você grava, aí vai dar certo, mas esse não'. Um ano depois, eu gravei 'O Mundo É Um Moinho', e estourou também.

As fontes dos registros da imagem e da voz de Cartola que aparecerão no filme são as mais variadas possíveis, do Museu da Imagem e do Som à proverbial fita-cassete-achada-num-canto. Porém, as 'atualidades reconstituídas' darão conta do início da vida de Cartola, já que há pouco material dessa época.

- A imagem mais antiga que temos é do filme 'Orfeu do Carnaval' (1959), de Marcel Camus - diz Lacerda. - De gravações em áudio temos uma de 1940: ele com o maestro Leopold Stokowski.

Há registros de gravações de Cartola desde 1929. A primeira parte de sua carreira termina, segundo os diretores, em 1949, quando ele deixa a esposa, dona Zica.

O sumiço vai até 1956, quando Cartola volta à Mangueira, pelas mãos de Zica e de Carlos Cachaça. Sobre esse período, sabe-se pouco (ele teria ido morar no Caju).

O sumiço de Cartola pode não ter sido exatamente um sumiço, e sim, descaso: ele estaria ao alcance de todos, apenas não teria sido procurado por ninguém.

É tanta história que todas as fontes de informação são bem-vindas. Por exemplo, um dos dois curtas-metragens existentes sobre Cartola, 'A morte de um poeta', composto exclusivamente de imagens de seu enterro, foi rodado por Aloysio Raulino (o outro, 'Chega de demanda', é de Roberto Moura). No Rio Scenarium, lá estava comandando a câmera da gravação com Beth Carvalho.

- Conheço Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, eles me falaram do filme deles, eu cedi as imagens do meu - disse Raulino.

O filme está mudando sempre. Mas há elementos já pensados e fechados, como revela Ferreira:

- Estamos estabelecendo a relação entre Cartola e Machado de Assis. Cartola nasceu no ano em que Machado morreu. O filme começará com a morte de Cartola (1980). Um elemento machadiano."




sábado, 20 de fevereiro de 2021

Naná Vasconcelos (Jornal Canja - 1980)


 Naná Vasconcelos, um dos grandes nomes da percussão mundial, viveu boa parte de sua vida em terras estrangeiras, para desenvolver seu trabalho da forma que sempre quis e idealizou, já que no Brasil viveria com uma série de limitações, fato que ocorre com vários músico no país. Mas ele sempre que podia passava longas temporadas no Brasil, ou mesmo pequenas e ligeiras visitas, quando seus compromissos davam uma trégua, ou mesmo quando vinha tocar no país. Assim foi quando Naná foi convidado a tocar num grande festival de jazz em São Paulo, chamado Monterey Jazz Festival, em 1980. O jornal musical Canja fez uma boa matéria com o percussionista pernambucano na ocasião, assinada por Bell Kranz, e intitulada "Coalhada, pamonha, tutu de feijão e mé. Naná quase pira". Abaixo, a matéria:

"Depois do Festival, Naná fez de novo as malas e se mandou para Recife, sua terra. Não quis que fossem buscá-lo no aeroporto. Ia ser um tal de 'ele vai no meu carro', 'não, ele vai no meu', que ele saltou fora. Foi sozinho. Foi, mas quando chegou, até escola de samba tinha à sua espera. Teve festa na família e convite do clube do bairro para dar uma canjinha. Passou dias na casa da mãe, bajulado como nunca, tipo comidinha na boca. Até um gol o irmão dedicou a ele. Num sábado, Naná foi pro campo e não entendeu direito. Era um tal de gritar Coalhada pra cá, Coalhada pra lá, o que era aquilo? Só depois entendeu, quando explicaram a razão do apelido. Mas o gol saiu. O irmão chutou para as redes e saiu correndo em direção a ele. 'Não falei, não falei, mano?'

Saudade matada, Naná veio para São Paulo. E, quinta-feira, dia 4, passou um dia incrível em Tatuí, cidade-música.

- 'Que maravilha, que maravilha', o dia inteiro ele não falava outra coisa.

Foi tratado como príncipe. No almoço, atenderam seu pedido: peixinho frito. De quebra, vejam só, tutu de feijão, arroz soltinho, salada farta, cerveja e, para abrir os trabalhos, o mé de Tatuí, cana pura, outro orgulho da cidade.

- 'Pra quem comeu tanta lata na América, nossa mãe! Isso aqui é demais'.

Fim do almoço, o diretor do conservatório não deixou por menos. Levou Naná para sua casa pra comer pamonha. Naná comeu duas e não saiu antes de bater um papinho rápido (e bem baixinho) com 'as meninas', ou seja, as plantas da casa.

No Conservatório, 60 meninos estavam lá pra assistir sua palestra. O prédio pomposo contrasta com o visual da cidade, cheia de casinhas pequenas e muitas árvores. Naná lembrou das mangueiras de Recife. Apresentou o berimbau a todos, passando de mão em mão. Tocou um chorinho no pandeiro com os alunos e distribuiu autógrafos e ideias. 'Os de cá batem palma nesse ritmo, os de lá nesse daqui, depois batem todos juntos'. Vibração geral. Os olhos brilhavam na plateia e todos deram muita risada com os exercícios. Na hora do berimbau, total silêncio.

Menos de uma hora depois, Naná sai pingando de suor, satisfeito. Alegria geral.

O respeito da plateia, as palmas que recebeu no festival de Monterey o surpreenderam. Mas mesmo assim ele não está de todo seguro:

- 'O receio continua. Eu quero que o berimbau saia do folclore assim como outros instrumentos afro-brasileiros. Despertar o desenvolvimento da percussão no Brasil.'

O que mexeu mesmo com a cabeça de Naná nesse tempo todo em que esteve fora do Brasil foi o trabalho de musicoterapia que fez com crianças francesas.

- 'O cuidado em tratar com as crianças exigiu muito da minha criação. De repente, um deslize podia fundir a cuca delas. As crianças tinham problemas de coordenação, traumas psicológicos que impediam, às vezes, até de falar. Na maioria, filhos de imigrantes que tinha de falar na rua o francês e, em casa, o árabe. O pai vai para a casa comer e engolir televisão. Uma barra. A nossa criança tem rua, a piração dela é outra. De repente ela pode pegar um copinho de iogurte e tirar um ritmo. Tem senso de improvisação imediata. Lá eu era músico e amigo. Colocava música em tudo.'

Acende um cigarro, com a voz mansa e baixa, continua:

- 'O segredo do swing é a simplicidade. É preciso ter uma fórmula e técnica para executar as propostas. Depois disso é que o músico pode incrementar. Eu sabia que aqui não tinha uma coisa definida no geral, mas estou surpreso porque tá melhor do que eu esperava. Agora tá tudo voltando. Zé Ramalho, a produção independente, a vocalização moderna e de fórmula simples do Boca Livre, que lembra o Waldick Soriano, é excelente...'

Por essas e outras ele não gostou nada do piche que George Duke deu na Baby e no Pepeu. e manda até um recadinho pro moço americano:

- 'Olha, meu, tenha calma pra não confundir. Você gravou música brasileira, mas não quer dizer que você manja de música brasileira.'

E o que é música brasileira?

- 'É samba, é bossa nova, é carnaval?, me perguntavam os gringos. A dificuldade de impor a música brasileira lá fora é muito maior do que aqui. Tem música mineira, música nordestina... então pode-se falar que existe o som de Naná. Eu sou muito sozinho no meu trabalho, mas ele não é isolado.'

Para simbolizar a chegada desse seu som ao Brasil, Naná vai fazer o disco Chegada, junto com seu grupo Assum, formado pelo irmão Erasto Vasconcelos e Afbye Djeng, do Senegal. Depois se apresenta com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, regida pelo maestro Diogo Pacheco. Antes porém, como diretor do Criative Music School, em Woodstock, Naná dirige nos EUA um curso de férias para músicos de todo o mundo.

Mas para o pessoal de Tatuí, ele não deixou barato. Prometeu voltar em dezembro. Podem ir fritando o peixe, servindo o mé, que ele vem mesmo."
 


 






sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

B.B. King - Revista Rock Stars (1983)


 B. B. King foi um mestre do blues, que influenciou uma infinidade de guitarristas que surgiram ao longo de décadas, e continua influenciando até hoje. Falar de rock sem falar de blues, uma de suas raízes, é contar a história pela metade. E para se falar em blues e seus principais nomes, não se pode deixar de mencionar B.B. King. A revista Rock Stars, em seu nº 3 (1983) trazia uma matéria sobre esse mestre, intitulada "B.B. King: Do 'Bar Blues' aos Blues de Luxo":

"Falando em nome dos negros norte-americanos, o guitarrista e cantor B.B. King salientou certa vez que 'para nós os blues são quase sagrados, pois eles são uma parte de nossa cultura e uma parte de nós'. Isso não o impediu de vestir os blues com uma roupagem modernosa, seção de sopros incluída, que contribuiu para propagar o ritmo entre plateias mais amplas ao mesmo tempo que recebia fortes críticas dos puristas. A isso ele responde com certa dose de humor: 'Algumas pessoas acham que se você é um cantor de blues, você deve aparecer como um cara que fica sentado em um banquinho olhando para o norte, com um boné na cabeça apontando para o sul, um cigarro na boca pendurado à leste e ainda uma garrafa de whisky ao seu lado, indicando o oeste. Sua guitarra, de preferência, velha e surrada. Mas isso não funciona mais. Se os blues tivessem parado por aí, já teriam morrido.'

Riley King nasceu em setembro de 1925, numa plantação de algodão situada entre Indianola e Itta Bena, no Mississipi. Trabalhou na fazenda de uma família branca, ordenhando vacas, plantando e colhendo algodão, pela bagatela de 22 dólares semanais. Interessou-se pela música ao escutar seu tio Archie Fair, que era ministro da igreja local e animava os serviços dominicais tocando guitarra. 'Eu aprendi simplesmente olhando e ouvindo meu tio tocar.' Depois foi recebendo outras influências: Blind Lemon Jefferson, Loonie Johnson, Robert Johnson, Django Reinhardt, Charlie Christian, T-Boone Walker, Oscar Moore e Bukka White (seu primo).
Mudando-se para Memphis, Teneesee, caiu nas graças do grande gaiteiro Sonny Boy Willisanson, que lhe concedeu um espaço de 10 minutos no programa de rádio que comandava, numa emissora para pretos. Ali Riley ganhou o apelido de 'Blues Boy', que abreviou para B.B.
Foi abrindo seu caminho, através de apresentações com diversos artistas de blues e jazz até chegar ao primeiro avulso: 'Miss Martha King', em 1949. No  ano seguinte lançou 'Three O'Clock Blues', que permaneceria durante 18 semanas encabeçando as paradas de rhythm' blues. Se estilo então era o do 'bar blues', amadurecido em grandes cidades do Leste, como Chicago, onde os artistas se exibiam em estabelecimentos ruidosos. Para se sobreporem à algazarra ambiente, os bluesmen contavam com o volume e impacto de suas guitarras elétricas, da bateria jazzística e de um canto energético e inflamado. B.B. King sobressai nessa corrente, com performances magníficas que fizeram de 'Woke Up This Morning', 'Sweet Little Angel', 'Eyesight To The Blind' e 'Caldonia' verdadeiros clássicos do gênero.
O revival do blues em fins dos '60 valeu para B.B. King homenagens e gravações com vários roqueiros brancos. Indianola Mississipi Speeds (1970, ora relançado pela Ariola) tem a participação de Joe Wash, Leon Russel e Carole King, enquanto o antológico B.B. King In London reúne Peter Green, Alexis Korner, Steve Marriott e Ringo Star. Tem corrido mundo cm sua versão sofisticada de blues, que lhe valeu aclamações desde no Brasil até na União Soviética. Gosta de pilotar, de dirigir seu Cadillac rosa pelo deserto de Nevada, de colecionar casos amorosos e de auxiliar na reabilitação de presos."


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Jards Macalé Lança "O Q Faço É Música" (Revista Bizz - 1998)


 Em 1998 Jards Macalé lançava mais um disco, "Jards Macalé - O Q Faço É Música", em que ele faz releituras  de antigas gravações suas, faz versões próprias e pessoais de músicas gravadas por outros intérpretes, além de apresentar músicas com letras inéditas deixadas por seu parceiro das antigas, Torquato Neto. A revista Bizz de setembro de 1998 trazia uma matéria, assinada por Danilo Monteiro, com o compositor carioca:

"Trinta anos depois de composta, a canção 'Vapor Barato', de Jards Macalé e Waly Salomão, está cada vez mais viva. Recuperada pelo filme Terra Estrangeira em 1995, depois revisitada pelo grupo O Rappa, e pela própria Gal Costa (sua intérprete original), em dueto com Zeca Baleiro, no Acústico MTV, ela ganha agora mais duas regravações. Uma, seguindo tendência inglesa moderna, o trip hop, foi feita por um grupo carioca iniciante, Vulgue Tolstoi (com clipe indicado entre os melhores demos do VMB da MTV). A outra, mais importante, é do próprio Macalé e faz parte do álbum Jards Macalé - O Q Faço É Música, que rompe um silêncio fonográfico de seis anos do compositor, cantor e violonista. Além de canções inéditas com letras de Torquato Neto e do cineasta Glauber Rocha, o disco também traz novas interpretações de algumas pérolas do seu pouco conhecido repertório, como 'Movimento dos Barcos' e 'Poema da Rosa'.

Macalé é um criador constante que registra bissextamente sua obra. Sua música não é  considerada das mais 'comerciais'. Para Arnaldo Antunes, que acha Aprender a Nadar (o segundo disco de Jards, de 1974) 'antológico', 'a integração do violão com o canto que ele tem é muito original'. Seria original demais? Outra fonte de dificuldade pode ser a fama de 'maldito', expressão usada para definir os artistas alternativos na década de 70. Macalé confessa que usou conscientemente esse rótulo, até perceber que ele tinha adquirido uma conotação pejorativa. 'Na ditadura militar, ser maldito era ser promovido a general. Claro, a gente era da resistência. Depois, acabou virando uma pecha.'
Fazendo poucos shows - 'bem menos do que eu gostaria' - e poucos discos, ele garante: 'Quer me ver contente, me põe pra trabalhar'. Leva uma vida modesta. Mora em apartamento alugado no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e não tem carro. 'Minha única propriedade privada é meu violão', declara. 'Só não aconteceu uma coisa mais grave até hoje porque minha mãe recebe uma pensão da Marinha -  meu pai foi reformado como contra-almirante -, e ela de vez em quando pergunta se eu estou precisando de alguma coisa.'

Lidar com limitações faz parte do trabalho deste carioca de 56 anos. Ele conta que compôs a música-tema para o filme Tenda dos Milagres, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1977, em uma viagem de carro do Rio para a Bahia. 'As cordas do cavaquinho foram estourando, no fim da viagem só restava uma, mas terminei o choro.'

As regravações de 'Vapor Barato' aumentaram seus ganhos com direitos autorais, mas  nada que lhe permita luxos. 'Quando toca muito, recebo 2 mil reais por trimestre. Mas como a própria letra diz, 'Não preciso de muito dinheiro'.'

A versão de 'Vapor Barato' que toca no filme de Walter Salles Jr. não é exatamente igual à original, gravada por Gal Costa no disco A Todo Vapor, de 1971. 'O Wisnik (José Miguel, autor da trilha sonora) colocou umas cordas, ficou mais bonito', opina Macalé.

Ele sempre trabalhou com música. 'Nunca pensei em desistir, as dificuldades me fortaleceram. 'Mesmo quando contou com o apoio de amigos, esbarrou em dificuldades. Em 1982, o empresário Cláudio Cohen bancou a gravação de uma jam session de Macalé com Naná Vasconcelos, percussionista de renome internacional. A sessão resultou num álbum que hoje é 'cult', Let's Play That, mas que teve de esperar até 1993 para ser lançado.

Macalé e Naná Vasconcelos no estúdio

Seu primeiro emprego foi como copista da Orquestra Tabajara, aos 14 anos, com o qual aprendeu a ler música. 'Escrevia, levava as partituras na rádio Mayrink Veiga, colocava para cada músico, e então sentava para assistir a apresentação e entender o que eu tinha copiado.' Aos 16, frequentava a churrascaria Pirajá, que ficava ao lado de seu apartamento, em Ipanema, e deve ter sido uma boa escola. Lá, sentava com Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Grande Otelo. 'Ficava bisolhando o Baden tocar aquele violão'.

Foi o envolvimento com o grupo tropicalista que lhe deu a primeira projeção. destacou-se como arranjador e diretor musical de Maria Bathânia e Caetano Veloso. Chegou a se mudar para Londres no começo dos anos 70, onde Caetano estava exilado, para trabalhar com ele nos arranjos do disco Transa, outro cult, no qual Macalé toca violão e guitarra. 'A gente vivia na mesma casa, aí as diferenças ficavam bem patentes, mas levamos o trabalho até o final', afirma sem querer se estender sobre o assunto.

Hoje, ele e Caetano não se falam mais.* No entanto, Macalé diz que a divergência foi com o grupo do qual faziam parte Bethânia, Gilberto Gil, Caetano e Gal, não com alguns deles especificamente. 'Fizemos grandes trabalhos, eu colaborei no que podia, e talvez até no que não podia. Eles moraram na minha casa em Ipanema, onde Guilherme Araújo (empresário que lançou o grupo) os conheceu. Foi um problema de caráter, teve um momento em que não atinávamos mais.'

Uma amizade mais peculiar Macalé desenvolveu com João Gilberto. 'Chegamos a ficar doze horas conversando no telefone, aí uma hora ele falou: 'Espera um pouco que eu vou fazer um cafezinho', e voltou depois.' Em sua homenagem, Macalé  compôs 'Um Abraço No Oliveira' (título que se refere a um dos sobrenomes menos conhecidos do pai da bossa nova), registrada agora em seu novo trabalho.

A recente volta de Jards ao estúdio permitiu que se refizessem algumas antigas parcerias. O guitarrista Lanny Gordin, que causou furor no início dos anos 70 por suas  participações em músicas de Caetano e Gal, gravou violões para 'Movimento dos Barcos', refazendo a colaboração que já tinha acontecido na primeira gravação dessa música, no primeiro álbum de Macalé.

O outro reencontro não foi tão 'físico'. Ele musicou dois poemas que Torquato Neto (um deles, o belíssimo 'Destino', prevê: 'o destino do poeta é grande'), um dos principais letristas do Tropicalismo, deixou antes de se suicidar, em 1972. 'Fiquei muito tempo sem mexer nisso, pela dor de perder um amigo', conta, com olhar distante. O momento da retomada pode ser um pouco melancólico, mas a música brasileira  agradece."
 

* Tempos depois, os dois voltaram a se entender




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A Volta do Deep Purple (Jornal Rock Press - 1984)


 O Deep Purple é uma banda clássica do rock dos anos 70. Lançou discos antológicos que nem cabe aqui enumerá-los para não alongar demais essa introdução. Porém, como é comum acontecer em grupos musicais, ao longo de sua trajetória ocorreram desentendimentos que originaram substituições de membros e dissolução. Assim foi com o Purple, principalmente em virtude do temperamento difícil do temperamental guitarrista Ritchie Blackmore. Mas o Deep Purple, que já teve muitas formações diferentes ao longo dos anos, voltou aos palcos e estúdios de gravação em várias oportunidades. Em outubro de 1994 o nº 1 do jornal musical Rock Press, em uma coluna chamada Caverna do Metal, assinada por Paulo Sisino, anuncia uma das voltas da banda:

"1984 será um ano sempre lembrado pelos roqueiros do mundo inteiro como O Ano da Volta do Deep Purple. Pois é, o campeão do Heavy Metal na década de sessenta acaba de se reagrupar, debaixo de total espanto dos até agora incrédulos fãs, voltando com a sua 2ª formação, ou seja: Ian Gillan - vocais; Ritchie Blackmore - guitarra; Roger Glover - baixo; Jon Lord - teclados; Ian Paice - bateria.

Depois do susto inicial a gente começa a pensar: Que será agora dos filhotes do Purple: Whitesnake, Rainbow e Gillan? Bem; o próprio Gillan, que como o próprio nome indica é a banda formada pelo vocalista soberbo Ian Gillan, vai acabar, sem dúvida. Seus integrantes partem para trabalhos novos com outras bandas. O primeiro de que temos notícias é o baixista John McCoy, que estaria formando um novo grupo com o guitarrista Paul Samson, da também extinta banda Samsom. Aguardem notícias sobre Bernie Torme, guitarra; Mick Underwood, bateria e Colin Towns, tecladista.

Outra banda que fatalmente está condenada é o Rainbow, de Ritchie Blackmore. Com a saída de Blackmore o grupo simplesmente evaporou. Muito estimado pelos fãs brasileiros, será sempre lembrado por discos como Long Live Rock'n Roll, On Stage e Rising. Vai ser pranteado também pelo mérito do grupo revelador de ótimos músicos, tais como Ronnie James Dio, Jimmy Bain, Cozy Powell. Joe Linn Turner e muitos outros.

Por fim, o Whitsnake. Este é o de final mais incerto e futuro deveras nebuloso. David Coverdale, fundador do grupo e também um ex-Deep Puple, deve estar furibundo nas calças. Em primeiro lugar ele perde a 'boquinha' no novo Purple em detrimento de Ian Gillan. Em segundo lugar, com a volta do Deep Purple o Whitesnake também ficou em pedaços. O magistral tecladista Jon Lord, um dos fundadores do Purple e também um dos principais responsáveis pelo som do grupo, era uma peça-chave na estrutura do Whitesnake. Sem ele Coverdale fica num dilema: ou termina o grupo, reconhecendo que seu som tradicional nunca mais será o mesmo, ou o leva adiante seguindo numa linha mais arrojada*. Com isso, ele aproveitaria o renome do Whitesnake para se lançar num terreno que o grupo ainda não tinha explorado devidamente: o som mais cru e áspero dos grupos da Nova Onda do Heavy Metal Inglês. As condições para isso ele tem na pessoa de John Sykes, seu novo guitarrista: Sykes, que já foi do Tygers of Pan Tang e Thin Lizzy, agora tem a faca e o queijo na mão para convencer Coverdale a 'empaulerar' o som do Whitesnake. Fiquem ligados para novas notícias.

Quanto ao Purple propriamente dito, o que sabemos é que estão trancados a sete chaves numa aprazível estância no campo, mas trabalhando duro, com sua inspiração divina, para não desapontar os fãs e, em último caso, os chefões das gravadoras. Aguenta, coração!"

* A verdade é que três meses depois da publicação da matéria o Whitesnake se apresentou na primeira edição do Rock In Rio, fazendo shows muito elogiados


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O Demiurgo - Um Filme dos Tropicalistas


 O exílio de Caetano e Gil em Londres proporcionou a ambos a aproximação com Jorge Mautner, também exilado e buscando novas formas de expressão artística. Além de poeta e compositor, Mautner também resolveu se aventurar no cinema, e lá em Londres roteirizou, dirigiu e atuou em um filme experimental chamado O Demiurgo, com a  participação de entre outros, Caetano, Gil e Jards Macalé. O filme hoje é um importante documento do período do exílio dos dois baianos, e da contracultura brasileira. Em sua edição nº 68 o jornal musical International Magazine trazia uma matéria sobre o filme, assinada por Toninho Buda em sua seção "Contracultura":

"Demiurgo é o nome dado pelos platônicos ao deus que teria criado o mundo, mas significa também operador de milagres. E hoje (25 de agosto de 2000) é uma data muito oportuna para falarmos deste filme, porque estamos comemorando no mundo todo o centenário da morte de Frederico Nietzsche. A influência deste filósofo é tão vasta, que eu chego a ficar emocionado quando leio o caderno Ideias, do Jornal do Brasil desta semana, especial sobre ele. Curiosamente, encontrei por acaso e reli hoje mesmo as anotações que fiz há exatos dois anos, assistindo a um fantástico filme dos tropicalistas. Naquela noite mágica, o Marcos - que tem com a Tropicália uma ligação semelhante à que eu tenho com a Sociedade Alternativa - me mostrou esta relíquia da Kaos Filmes, que pouca gente conhece. Diga-se de passagem, Kaos sempre foi o nome da proposta político-filosófica de Jorge Mautner, que é um outro verdadeiro apaixonado por Nietzsche. É o próprio Mautner que inicia o filme, no papel de Satã. Gilberto Gil logo aparece - fantástico - no papel de Pan e em seguida vem Caetano Veloso, no papel do Demiurgo. E este demiurgo é um discípulo de Sócrates... Da trama ainda participam Jards Macalé e Dedé Veloso, a primeira mulher de Caetano.

Ora, é importante salientar nesta abertura, a representação da violência contra a natureza humana que foi causada pela maniqueísta divisão entre o corpo e a mente, ou entre physis e logos, desde os tempos dos gregos. Os gregos são os autores da máxima mens sana in corpore sano (mente sadia em corpo são), que pressupõe essa integridade entre corpo e mente. Mas foi exatamente com um grego - Sócrates - que nós passamos a assistir à decapitação do ser humano, num processo em que a cultura socrático-cristã veio - durante os séculos posteriores - desprezar a  terra e valorizar somente o céu. Bem como desprezar o corpo e valorizar somente a alma. E ainda dizer que o corpo tem parte com o diabo e a alma deve buscar se livrar dele e buscar a Deus. Assim, o filme O Demiurgo se inicia com Caetano fazendo o papel de representante de Deus e Mautner e Gil representando os lados demoníaco e dionisíaco da natureza: Satã e Pan, Luta & Prazer (aproveito aqui pra relembrar o nome desta fantástica e infelizmente desaparecida publicação alternativa da contracultura brasileira: Luta & Prazer)

Satã é o mesmo Satanás, chefe dos anjos rebeldes contra Deus, segundo a Bíblia. É ainda o demônio da ira, do ódio, da guerra, do repúdio e do revide. Seus colegas são Lúcifer (orgulho), Mammon (avareza), Asmodeu (luxúria), Belzebú (gula), Leviatã (inveja) e Belphegor (preguiça). Mas voltemos ao filme: os diálogos são fantásticos e as cenas, cheias  de símbolos. Mautner usa o pentagrama invertido (símbolo do mal) e o anjo o utiliza na forma positiva. A cena de Gil (Pan) com as lésbicas é antológica! O demiurgo dá consultas às mulheres, castiga-as, lê suas mãos e, de repente, grita 'viva a lógica!' Logo em seguida, Sócrates quer ler suas mãos... É evidente aqui uma grande gozação com o logos grego, pois a leitura de mãos não tem a ver com a lógica (que é a parte da filosofia que estuda as leis do raciocínio). Em dado momento, sete amazonas matam o demiurgo e bebem o seu sangue (a amazona parece representar o domínio da delicada beleza sobre a besta - o cavalo. Ou seja, a besta selvagem subjugada à vontade da mãe, gerado da vida). Mas o demiurgo ressuscita e discursa sobre a divina comédia humana, com saudades da Bahia, Porto Seguro e do sol dos trópicos (Na Divina Comédia, Dante colocou no inferno grande parte dos políticos do seu tempo...O filme, que assistimos em vídeo mas parece ter sido feito em super/8, parece ter sido rodado durante o exílio deles na Europa e época da Ditadura Militar no Brasil. Seria interessante se o International Magazine buscasse uma entrevista sobre o assunto)...

Caetano e Gil
A presença de citações de Nietzsche então se torna muito forte no filme. Na cena do equilibrista, em que Caetano cita o grande poeta Rimbaud (o primeiro grande hippie), o filósofo alemão é muito evidente num texto que é do Zaratustra e diz mais ou menos o seguinte: 'o homem é uma corda esticada entre o animal e o além do homem; uma corda sobre o abismo'. Além disso, Caetano faz uma outra citação do Zaratustra, que o próprio Mautner sempre usou em seu trabalho: 'Aquele que não trouxer dentro de si o caos, não poderá dar à luz a grande estrela bailarina' (na verdade, o texto original está na parte do item V do Zaratustra, e diz: 'e Zaratustra falava assim ao povo: é tempo que o homem cultive o germe da mais elevada esperança. Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros'). Mas tem outra nota importante a esse respeito: Ordem da Estrela Bailarina era o nome de uma ordem iniciática criada por Edenilton Lampião (editor da revista Planeta no início dos anos 80), onde ele tentava aglutinar o que restava dos movimentos alternativos no Brasil, esta ordem era de clara inspiração nietzschiana e crowleyana... Não é a primeira vez que falamos entre a Jovem Guarda, o Tropicalismo e a Sociedade Alternativa... mas voltemos ao filme.

Jorge Mautner

A cena da lata de Coca-Cola é digna de Salvador Dali! Quem mais poderia criar uma analogia entre a beleza externa de uma lata de Coca com Apolo (o deus da beleza na mitologia grega) e o seu conteúdo com Dionísio (o deus do vinho entre os gregos ou mesmo Baco entre os romanos)? E quem mais poderia ter a genialidade de pintar um pacto entre o Demiurgo, o diabo e Sócrates, para daí resultar a morte de Pan, senão os tropicalistas?! Gilberto Gil interpreta de forma brilhante a morte de Pan. E não estaria aqui também a morte de Deus, que é uma das essências da grande obra de Nietzsche? O Grande Deus Pan morreu... Em resumo: ao tentar separar-se do corpo (physis), a própria cabeça (logos) morre imediatamente de fome! Aí reside a essência da morte de Deus: a ninguém é possível ir para o céu assassinando dentro de si o Grande Deus Pan!"

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ednardo, Brigando Por Seu Espaço (Revista Música - 1980)


 Em sua edição nº 4 (1980), a revista Música trazia uma boa matéria sobre o cearense Ednardo.  Um dos representantes da invasão nordestina que aconteceu na música brasileira nos anos 80, Ednardo lançou naquele período alguns dos discos mais marcantes daquela vertente que fez história. A matéria traça uma trajetória de sua carreira e sua contribuição para a geração de músicos e compositores que ganharam força e representatividade a partir dos anos 70:

" 'Desde 1973 lancei seis discos e mudei três vezes de gravadora. Saí p... da vida da Continental, RCA e WEA. As gravadoras estão aqui mais para difundir coisas de fora do que para nos dar condições de realizar um verdadeiro trabalho. Nenhuma delas aceitou minha colocação estética, como pessoa, nem admitiu a crítica, implícita em toda a minha obra, ao sistema que elas representam.'

Ednardo fala em ilusões de sua carreira e de sua convivência com a máquina, o sistema. Sabe que a relativa notoriedade do Pessoal do Ceará se deu 'porque queriam nordestinos para saciar a curiosidade folclórica do Sul-Maravilha'. Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem (1973) acabou servindo apenas para introduzir os compositores e intérpretes Ednardo, Rodger e Teti, mais os compositores Belchior e Fagner. Talvez porque não aceitaram 'embarcar nas canoas furadas de algum movimento ou posicionamento postiço', foram obrigados a recomeçar quase do nada, batalhando suas carreiras-solo.

Em 1974, Ednardo apresentou uma brilhante descrição poética de sua saída da terra natal e viagem rumo à cidade grande, uma história contada através de doze músicas, à maneira da literatura de cordel: O Romance do Pavão Misteriozo. Mas a moda dos cearenses passara e o caráter inovador e criativo da obra só foi reconhecido por alguns críticos de jornais e revistas. Em termos de grande público, o disco passou completamente despercebido. No entanto, bastou aproveitarem sua faixa final na novela 'Saramandaia' para se transformar num sucesso do dia para a noite.

O caminho para a lucrativa coopção estava aberto. Se incidentalmente produzira tal sucesso, o que Ednardo não poderia alcançar se trabalhasse com o propósito assumido de criar temas para telenovelas e músicas que dão ibope? Mas ele e o Pessoal do Ceará já haviam se lançado com uma postura definida quanto às 'Palmas Pra Dar Ibope' (faixa do LP de 1973). Ednardo recusou com lucidez esse sucesso fácil: 'Eu não quero costurar minha própria camisa-de-força. Os meios que fazem o sistema artístico musical criam apelos e necessidades cada vez mais fortes, direcionando a arte, e alguns criadores passam então a se repetir ou desenvolver esquemas que possam então se repetir ou desenvolver esquemas que possam anular ou englobar aos outros. Não quero seguir aquela máxima do futebol, que estranhamente algumas  pessoas adotaram para a arte, em time que está ganhando, não se mexe'.

A voga do 'Pavão Misteriozo' acabou passando meteoricamente, sem consolidar qualquer público novo para o trabalho de Ednardo. E inclusive ofuscou seu LP de 1976, Berro. Uma lição muito útil sobre em que sentido a indústria cultural trabalha.

Em 1977, Ednardo realizou sua obra-prima: O Azul e o Encarnado, onde a preocupação básica era 'abordar uma discussão dialética da vida, com músicas se negando uma à outra para estabelecer uma verdade maior'; mas, acima de tudo, se colocava o dilema de toda uma geração, que sonhara com a perfeição social, e vira desfeitas as esperanças de transformações imediatas, tendo então que optar por uma lucrativa adesão ao status quo ou manter-se firme em seus ideais. a escolha do poeta é inequívoca: embora seja difícil não ter mais 18 anos e conservar a semente da inocência, é preciso, sempre, renascer das cinzas.

Coincidência ou não, este LP, o mais incisivo da carreira de Ednardo, precipita mais uma troca de gravadora: 'Quando eu estava realizando O Azul e o Encarnado na RCA, propus que dele constasse um encarte-brinquedo, tipo desses joguinhos onde a criançada percorre tantas casas a partir dos pontos tirados de dados; só que a trajetória era percorrida dentro do corpo humano e ampliava ou esclarecia vários toques do disco. Depois de muitas discussões, o pessoal da RCA disse que,  se eu queria tanto, mandasse fazer com meu próprio dinheiro. Veja só, acabei mesmo eu, um pobre compositor brasileiro, dando dez mil encartes de presente para essa multinacional, a fim de manter a integridade da obra. Aí, vinte dias depois do lançamento do LP, eu rompi com a RCA. E sabe o que eles fizeram? Tiraram o disco de circulação, por simples pirraça'.

Cauim, o disco seguinte, fazia parte de um projeto que envolvia também cinema, 'um média-metragem, documentário e ficção sobre trilogia étnica que constitui a raça brasileira - o índio, o negro e o europeu -, cujo sincretismo pode ser observado no maracatu, daí termos utilizado esse ritmo para simbolizar a transmutação, a reciclagem constante que é o homem brasileiro'.

Finalmente Ednardo (1979) se constitui numa panorâmica nacional na última década, inclusive tratando de temas como a guerrilha do Araguaia, que dificilmente seriam tolerados antes da chamada abertura (mesmo agora, o disco andou alguns meses retido na Censura). 'Fiz questão de gravar agora esses versos feitos há tantos anos para expressar um descontentamento que não era individual, era geral, mas a gente tinha que ocultar'.

Embora seu relacionamento com a CBS não reedite os problemas encontrados nas outras gravadoras, Enardo não fez as pazes com o 'poder musical e todos que estão nele há tanto tempo., quanto a situação que fingiram combater em pseudo-guerras e arreglos'.  E compara sua situação à do operário nordestino, 'que trabalha nas construções das grandes cidades. Durante o dia sangra, transpira de suor e de medo de despencar lá de cima, suporta a solidão. À noite, exausto, dorme dentro do projeto ainda por acabar, alimentando o firme propósito de habitá-lo, embora muitas vozes, após utilizarem sua força de trabalho, agora queiram expulsá-lo. Na arte, eu sei que esse espaço acompanha quem o tem verdadeiramente, e é nisso que eu acredito, e é por isso que eu brigo e canto'."