Palavras Domesticadas

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

The Who (Revista Rock Espetacular - 1977)


 Entre dezembro de 1976 e fevereiro de 1977 foram publicados três volumes mensais de uma revista que contava a história do rock, com ótimo material de texto e fotos. A revista se chamava Rock Espetacular. No volume 2 dentre os artistas e bandas destacados, havia uma resenha sobre o The Who. Na época a banda ainda trazia sua formação original e estava a pleno vapor. Segue abaixo o texto sobre o The Who:

"No princípio, o rock e o rock blues americano dos anos 50 deram a luz aos Beatles e aos  Rolling Stones: o som duro e autêntico de Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins e Bo Diddley ressuscitado para uma juventude que o havia esquecido completamente.

Iluminado o cenário, surge o The Who - conjunto autenticamente britânico, que encontrava força nas suas próprias canções e, se I Can't Explain só iria estourar na primavera de 64, desde a sua aparição, no início dos anos 60, eles foram considerados um dos melhores grupos de sua área. 

Um tratamento de choque. Eles haviam descoberto as possibilidades de se levar a amplificação ao seu limite máximo, num rugido de caos, raiva e frustração - música para os ouvidos da juventude Mod, a imagem pura, aguda e obscena do adolescente dos subúrbios ingleses, que andava de moto e gastava o seu dinheiro em roupas e nas verdadeiras batalhas dos concertos de fins-de-semana.

Estava completa a coreografia do grande modismo da época, embalada nos rocks blues e soul music do Flamingo e do Scene, no Soho, aquela parte negra da swinging London que o resto do mundo conhecia por Carnaby Street. The Who sentia isso, eles sabiam o que cantavam, pois, também vinham de um subúrbio típico da baixa classe média londrina, na zona oeste, nas cercanias de Shepherd's Bush e Acton. Tinham em Pete Townshend um compositor de gênio muito sutil e original, embora o primeiro cantor, Roger Daltrey, que já tivera seu próprio conjunto antes, fosse o que mais se aproximava de um líder do grupo. O contrabaixista John Entwistle, tinha lugar garantido, mas o baterista Keith Moon, o último a entrar, usou toda a sua vontade para conseguir um lugar na banda, tomado ao seu antecessor.

Antes do sucesso de I Can't Explain, o The Who mudou o nome, por sugestão dos empresários Kit Lambert e Chris Stamp: The High Numbers soava muito esquisito e, como eles não conseguissem nenhum contrato de gravação, voltaram a ser The Who. E foi assim que assinaram com a Brunwick, uma gravadora que havia declinado junto com Bill Haley, sua única estrela.

Com I Can't Explain, rude violenta, estridente, e, acima de tudo, forte, Pete Townshend começou a por feed-back em sua guitarra; e, na composição seguinte, Anyway, Anyhow, Anywhere, a confusão eletrônica encontrou o seu estado natural naquele caos de efeitos sonoros - mas, inexplicavelmente, não conseguiu sucesso nas paradas.

Mas , My Generation venceu, tornando-se o hino do The Who a marcar a conquista definitiva da Juventude Mod, nas palavras do adolescente revoltado:

As coisas que eles fazem parecem estranhamente frias/ Espero morrer antes de envelhecer. (Dez anos depois, My Generation ainda vivia nas apresentações do conjunto).

Uma noite, Townshend foi mais além: no climax de um espetáculo, ele arrancou o braço de sua guitarra, dando um símbolo a uma arte que se chamava auto-destrutiva. repetido todas as noites, o gesto deixou a dúvida: Um protesto contra a sociedade materialista? A expressão de uma filosofia profunda? Ou simplesmente bonito?

Ao final, o que importava? Pete encarava a plateia balançando os braços na guitarra, em movimentos intensos e bruscos, ao mesmo tempo em que Roger balançava o microfone em volta da cabeça, como se fosse um laço. E Keith despejava sua fúria na imensa bateria, em contraponto com John, sempre de preto, um sorriso discreto ao fundo do palco, enquanto explodiam bombas de fumaça e tambores eram furados. Não havia bis, o conjunto desaparecia de repente.

My Genertation, o primeiro álbum, lançado em 65, mostrava na capa um grupo muito bem vestido (não tendo sido impresso em grande quantidade, agora é impossível de ser obtido). It's a Legal Matter e La-Lies mostraram a péssima qualidade de gravação que os levou a  mudar de editora, entrando na Reaction, marca dos seus três próximos sucessos em 66: Substitute, em março: I'm a Boy, em outubro e Happy Jack, no Natal.

Townshend começou a ser considerado um expert em música pop, ganhando crédito pelas suas composições, enquanto pensava em coisas maiores do que um compacto. A Reaction lançou um álbum, A Quick One, um pequeno drama doméstico, com personagens incomuns, como Ivor, o Maquinista, - a primeira pedra na construção de uma ópera rock.

John Entwistle
Já em nova marca, a Track, dirigida pelos empresários do grupo, Lampert e Stamp, surge, entre outros, o que é considerado o melhor compacto do grupo - I Can See for Miles, que só conseguiu o 10º lugar nas paradas. assim como em Anyway, Anyhow, Anywhere, a música mais pura no estilo do The Who era demais para os compradores de discos; e não causava impacto nos Estados Unidos, onde também o The Kinks, o grupo que compôs com The Who o início da fase autenticamente britânica, não era aceito.

Para conquistar a América, os primeiros ventos sopraram do Festival de Woodstock, impulsionando uma carreira que subia lentamente. Aí veio Tommy, a história de um rapaz surdo, cego e bobo. A forma era de uma ópera tradicional, com uma abertura que dava a visão dos temas principais e dos vários personagens - o Tio Ernie, o primo Kevin, Sally Simpson e a Rainha do Ácido. Mas a primeira ópera rock de sucesso fundia, numa formidável mistura, religião, drogas, negócios de uma estrela da música Rock, metafísica e pinball.

(Ray Davies tinha escrito a sua ópera rock, Arthur, um pouco antes, mas ela passou despercebida).

Os portões da América tinham sido arrombados e, depois de Tommy, o The Who passou a dividir com os Rolling Stones a dúvida da melhor banda de rock do mundo. Na apresentação da ópera rock no Metropolitan Opera House de Nova Iorque, os críticos a consideraram completa em grande escala. O The Who apresentou Tommy durante três anos, até não conseguir mais tocá-la.

Como se o esforço de Tommy tivesse esgotado um pouco o grupo, o The Who iniciou os anos 70 com uma linha praticamente calma: eles continuaram com as excursões, lançando um compacto ocasionalmente, mas passaram-se dois anos antes do próximo álbum, Who's Next. Live at Leeds tinha surgido no ano anterior, mas numa gravação irregular, embora notável pelo documentário da história do grupo, apresentada através de cópias de contratos anteriores, cartas e fotografias. eles estavam dando um tempo.

Who's Next era diferente de tudo que o conjunto havia feito antes. Townshend tinha se tornado mais suave e abstrato e, principalmente, havia descoberto o sintetizador, que deu o tom ao álbum. Foi um passo à frente, mas não teria sido demais? Afinal, isso ainda seria rock? De qualquer maneira, as coisas ficaram meio paradas para o The Who.

Assim, Entwistle produziu dois álbuns sozinhos, que venderam bastante nos Estados Unidos. Daltrey teve dois compactos de sucesso e fez um excelente álbum, sob a direção de Adam Faith, mas com muito pouco a ver com o seu trabalho. Moon trabalhou em That'Il be the day? e se divertiu ao se tornar líder no Campeonato Britânico de Aviação. Townshend também fez o seu álbum individual, ao mesmo tempo em que participava da superprodução Tommy, com um super-elenco.

Mas, se todos fizeram os seus projetos individuais, o conjunto não se desfez. Keith Moon, um dos mais individualistas do grupo, declarou, em recente entrevista, que o grupo está unido como sempre:

' - Todos nós reconhecemos que a melhor coisa de nossas vidas, destes doze anos, é ainda o The Who'.

Porque, de fato, os projetos individuais continuaram, ainda intensos em 75 e 76: Roger Daltrey se dedica quase exclusivamente ao cinema, depois do sucesso no papel título de Tommy, versão em celulóide da ópera-rock, - trabalhando como estrela em Liztomania, de Ken Russel; John Entwistle forma uma banda alternativa, a OX, gravando e e excursionando com ela; e até Keith Moon, não contente com um LP individual, se diverte tocando nos discos dos amigos.

Mas o Who permanece, acima de tudo isso. No final de 74, lançaram mais um álbum duplo, conceitual: Quadrophenia, tragicomédia de sua geração, da geração mod. Em 75, outro LP, de faixas  irresistíveis: Who By Numbers. E prosseguiam na estrada, trabalhando, tocando, agitando, com  a mesma febre rock de sempre, que o tempo não conseguiu abalar."


 







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