Palavras Domesticadas

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Nelson Motta: Notas Para um Brazilianist Musical (O Globo - 1977)


 Desde adolescente eu já gostava de ler sobre música, e recortar e guardar matérias que achava interessantes. Uma coluna de jornal que eu gostava muito de ler era a que Nelson Motta escrevia em O Globo. Entre meus guardados existe essa resenha escrita em 1977, chamada "Notas Para um Brazilianist Musical", onde o colunista critica músicas de fácil apelo comercial, como o estilo musical chamado de "Pilantragem", que tinha como principal referência Wilson Simonal, e o chamado na época "sambão-jóia", um estililo de  samba de apelo fácil. Ao mesmo tempo, exalta compositores que produziam uma música de qualidade, e que elevava a boa música que era criada no Brasil. Segue o texto:

"Depois de tempos breves e efervescentes, com o movimento triunfando e modificando definitivamente os caminhos da arte brasileira, pelos idos de 67/68, o Tropicalismo foi bruscamente esvaziado em sua continuidade com a ida de Caetano e Gil para Londres. A outra corrente musical forte, que tinha seus trabalhos mais representativos e suas tendências mais nítidas através do gênio de Chico Buarque, também caiu num incômodo vazio. Em Roma, Chico e sua música estavam muito mais que geograficamente distantes da música do Brasil.

Nesse período sombrio e sem qualquer perspectiva de criação deu-se o fenômeno-Simonal. O tempo mostra que não há qualquer necessidade de aspas em fenômeno já que se torna cada vez mais claro que a explosão popular, propaganda e clima geral do país foram fatores fundamentais para o extraordinário sucesso de Wilson Simonal, sua música, sua maneira de ser e sua postura artística. No vazio criativo do Tropicalismo e da MPB que tinha sua maior expressão em Chico, estourou a Pilantragem. Com 'P' maiúsculo mesmo, como nome de uma tendência - não destinada a modificar o rumo da música brasileira, mas reflexo direto dos tempos por que passavam o país, sua música e  seus criadores, tempos confusos, estranhamente 'eufóricos', multidões dóceis à batuta vocal do 'Simona', cantando um monte de bobagens pela simples necessidade de alguém - mesmo que fosse Simonal - para lhe dar as ordens e dizer o que deveria ser cantado e como.

Wilson Simonal

Foram os tempos de maior crise criativa da música brasileira nas últimas décadas. Há esperanças desses tempos na sólida posição do atual 'sambão jóia': um desdobramento natural da pilantragem de Simonal. As mudanças formais foram no sentido de substituir uma americanização de arranjos e estilo de Simonal por doses maiores de 'nacionalismo' musical, com o samba deixando de ser o gênero popular mais característico do povo brasileiro para assumir uma discutível e perigosa postura de música oficial do país. Quase obrigatória. Na maioria das músicas do gênero, não há qualquer contribuição para o renovar ou, pelo menos, para fixar os traços mais fortes da música nacional do Brasil. Melancólicas diluições da força e energia que regem o samba como expressão musical.

É um pouco como bebidas fortes: muitos preferem misturar com água. Há os que tomam vinho e os que bebem sangria. Samba, como cachaça, é melhor puro, límpido, cristalino, ígneo. Mas também é bom com o limão de Chico Buarque, o caju de Gilberto Gil, o maracujá de Caetano Veloso ou o côco de Raul Seixas. Sambão jóia é como um refresco de cachaça industrializada, daquelas que provocam terremóticas ressacas. Muita água, muito açúcar, e uns traços de cachaça...

Está aí o Benito di Paula que não deixa mentir.

Estão aí mesmo as multidões que se deliciam com esse tipo de música que, apesar de utilizar-se da mesma estrutura rítmica, não tem nenhum parentesco com o gênero musical onde navegam criadores como Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Cartola ou Ismael Silva. É outro departamento, mesmo. Enfim, cada um tem a música que merece ou que pode suportar.

O sambão-jóia é, ao mesmo tempo, uma clara e nítida projeção de um tempo brasileiro. De uma face de um tempo brasileiro. Há outras projeções e testemunhos de outras faces, das muitas faces que tem a ampla música que fazem os brasileiros.

No mesmo vazio onde se alastrou a pilantragem de Simonal, brotou pouco depois uma inviável - e por isso mesmo heróica - geração de criadores. Surgidos no vazio, mal saídos ou mal saindo das universidades, sem nenhuma perspectiva profissional mais ampla e sem uma proposta artística coletiva ou individual capaz de um movimento de transformação musical. Luiz Gonzaga Junior, Ivan Lins, Aldir Blanc e César Costa Filho são sobreviventes desses tempos semi-mortos. Brilhantes sobreviventes que, mesmo maltratados e castigados por equívocos e pelos mecanismos do sucesso, conseguiram amadurecer na dor e na indiferença para encontrarem suas próprias linguagens, para imporem suas músicas e postura diante do público.

Ivan Lins

Ivan é a mais bonita fênix dos últimos anos. Encontrou um parceiro - Vítor Martins - capaz de dar a suas músicas o peso, a densidade e a intensidade que merecem. Ivan está produzindo uma música vigorosa, direta, pessoal. Basta ouvir seu LP 'Somos Todos Iguais Nesta Noite' para entender tudo.

Mesmo César Costa Filho, que tem objetivos bem mais modestos que seus contemporâneos, ao encontrar um igualmente bom parceiro em Heitor Valente, está mostrando que possui grandes qualidades de melodista.

Aldir Blanc
Aldir é outra enfermaria, é caso à parte, raridade. Um dos maiores talentos de letrista que a música brasileira abriga. Letrista de briga, carioca, malandro, de inacreditável habilidade com as palavras, de verdadeiro virtuosismo na criação da poesia popular. Com humor, com ironia, com raiva - sempre original, consequente, de significados intensos. Aldir também veio na barriga dessa espremida geração pós-Tropicalismo que se agrupava sob o nome de MAU (Movimento Artístico Universitário). Sobreviveu ao negror dos tempos e brilha com luz cada vez mais própria e intensa, ao lado de João Bosco.
É verdade que depois do Tropicalismo, não surgiu outro movimento musical com características próprias de linguagem e objetivos. Mas em compensação, o tempo e as feridas amadureceram e adensaram os criadores de outras gerações, atualmente explodindo em maturidade criativa, com vários compositores trabalhando em tão íntegros e pessoais estilos que cada um deles poderia ser a base de uma escola ou movimento de rumos próprios e muitos integrantes.
Aí estão Chico Buarque, Caetano Veloso, Jorge Ben, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, a eternidade de Tom, Vinícius e João Gilberto, os roqueiros antropófagos como Rita e Raul, a grande música de músicos como Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Dory Caymmi, Francis Hime, uma geração amadurecida e sofrida, invencível, e indomável pois abençoada com um raro dom de talento e originalidade, uma geração ferida, renascida, ouvida cada vez mais e com mais atenção por mais gente. Como as  boas safras de vinho, essa geração da música brasileira é inacreditavelmente rara, lendária, como um cometa que só passa de tantos em tantos anos.

Caetano Veloso

Caetano Veloso, recentemente: 'Eu ainda sou um líder!'

Como líderes são os outros todos, mesmo que não queiram, mesmo que não possam, mesmo que não devam: a música que eles produzem modifica profundamente os rumos da música que as novas gerações vão produzir, modificando uma maneira de criar e pensar a vida, as pessoas, o país e os tempos."




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