Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A Volta do Deep Purple (Jornal Rock Press - 1984)


 O Deep Purple é uma banda clássica do rock dos anos 70. Lançou discos antológicos que nem cabe aqui enumerá-los para não alongar demais essa introdução. Porém, como é comum acontecer em grupos musicais, ao longo de sua trajetória ocorreram desentendimentos que originaram substituições de membros e dissolução. Assim foi com o Purple, principalmente em virtude do temperamento difícil do temperamental guitarrista Ritchie Blackmore. Mas o Deep Purple, que já teve muitas formações diferentes ao longo dos anos, voltou aos palcos e estúdios de gravação em várias oportunidades. Em outubro de 1994 o nº 1 do jornal musical Rock Press, em uma coluna chamada Caverna do Metal, assinada por Paulo Sisino, anuncia uma das voltas da banda:

"1984 será um ano sempre lembrado pelos roqueiros do mundo inteiro como O Ano da Volta do Deep Purple. Pois é, o campeão do Heavy Metal na década de sessenta acaba de se reagrupar, debaixo de total espanto dos até agora incrédulos fãs, voltando com a sua 2ª formação, ou seja: Ian Gillan - vocais; Ritchie Blackmore - guitarra; Roger Glover - baixo; Jon Lord - teclados; Ian Paice - bateria.

Depois do susto inicial a gente começa a pensar: Que será agora dos filhotes do Purple: Whitesnake, Rainbow e Gillan? Bem; o próprio Gillan, que como o próprio nome indica é a banda formada pelo vocalista soberbo Ian Gillan, vai acabar, sem dúvida. Seus integrantes partem para trabalhos novos com outras bandas. O primeiro de que temos notícias é o baixista John McCoy, que estaria formando um novo grupo com o guitarrista Paul Samson, da também extinta banda Samsom. Aguardem notícias sobre Bernie Torme, guitarra; Mick Underwood, bateria e Colin Towns, tecladista.

Outra banda que fatalmente está condenada é o Rainbow, de Ritchie Blackmore. Com a saída de Blackmore o grupo simplesmente evaporou. Muito estimado pelos fãs brasileiros, será sempre lembrado por discos como Long Live Rock'n Roll, On Stage e Rising. Vai ser pranteado também pelo mérito do grupo revelador de ótimos músicos, tais como Ronnie James Dio, Jimmy Bain, Cozy Powell. Joe Linn Turner e muitos outros.

Por fim, o Whitsnake. Este é o de final mais incerto e futuro deveras nebuloso. David Coverdale, fundador do grupo e também um ex-Deep Puple, deve estar furibundo nas calças. Em primeiro lugar ele perde a 'boquinha' no novo Purple em detrimento de Ian Gillan. Em segundo lugar, com a volta do Deep Purple o Whitesnake também ficou em pedaços. O magistral tecladista Jon Lord, um dos fundadores do Purple e também um dos principais responsáveis pelo som do grupo, era uma peça-chave na estrutura do Whitesnake. Sem ele Coverdale fica num dilema: ou termina o grupo, reconhecendo que seu som tradicional nunca mais será o mesmo, ou o leva adiante seguindo numa linha mais arrojada*. Com isso, ele aproveitaria o renome do Whitesnake para se lançar num terreno que o grupo ainda não tinha explorado devidamente: o som mais cru e áspero dos grupos da Nova Onda do Heavy Metal Inglês. As condições para isso ele tem na pessoa de John Sykes, seu novo guitarrista: Sykes, que já foi do Tygers of Pan Tang e Thin Lizzy, agora tem a faca e o queijo na mão para convencer Coverdale a 'empaulerar' o som do Whitesnake. Fiquem ligados para novas notícias.

Quanto ao Purple propriamente dito, o que sabemos é que estão trancados a sete chaves numa aprazível estância no campo, mas trabalhando duro, com sua inspiração divina, para não desapontar os fãs e, em último caso, os chefões das gravadoras. Aguenta, coração!"

* A verdade é que três meses depois da publicação da matéria o Whitesnake se apresentou na primeira edição do Rock In Rio, fazendo shows muito elogiados


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