Palavras Domesticadas

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

João Bosco e o Disco Linha de Passe (O Pasquim - 1979)


 Em 1979 João Bosco lançava seu quinto disco, Linha de Passe. João e sua parceria antológica com Aldir Blanc (no disco também aparece Paulo Emílio na parceria) se solidificava cada vez mais. Na ocasião, o crítico Roberto Moura em sua coluna no Pasquim fazia uma ótima resenha do disco:

"Mal saído o elepê Tiro de Misericórdia, o noticiário do show biz se viu sacudido pela notícia da separação de João Bosco e Aldir Blanc. Um ano depois, reforçados pela presença triúnvera de Paulo Emílio, voltam o músico e o letrista a público com um elepê e um show intitulados Linha de Passe, com o apoio plástico de um outro artista ligado ao grupo, o festeiro e festejado Mello Menezes.

No espetáculo em cartaz no Teatro Claro Nunes, dada a saída na bola para Linha de Passe, é Mello Menezes quem bate o 'valeu'. Pipas, balões, bonecos - a atmosfera que recria no palco os arquétipos mais fundos dos meninos de tempos atrás, ainda desobrigados do confinamento nas áreas de serviço. Neste ambiente (afinal, tão íntimo) trabalham Aldir e Paulo Emílio, dirigindo, roteirizando, sugerindo por exemplo a colocação daquela faixa onde se lê 'Anistia' à esquerda de João Bosco.

Bem, aí chegamos à música e a bola, bem controlada, vai aos pés controlada, vai aos pés de João Bosco. Não fora a inclusão de três ou quatro músicas com andamentos mais difíceis de rotular, eu me atreveria a dizer que se trata de um espetáculo de sambas & boleros, como aqueles que anunciavam antigamente as grandes orquestras. E não digo isso com qualquer intenção restritiva: João Bosco enfatiza nele que faz sambas e boleros com uma espantosa facilidade e que são estas espantosa facilidades e que são estas composições a marca maior de seu estilo (coloquemos aqui também Cabaré, nem samba nem bolero, mas fruto colhido no mesmo contexto em que João sedimentou sua formação).

Estruturalmente, a diferença entre o show anterior Tiro de Misericórdia e este Linha de Passe consiste no violão de sete cordas de Rafael substituindo o percussionista Moura, que atuava no ano passado. Nesta diferença, creio, está o grande trunfo de João Bosco no caminho de criação de uma massa sonora que identifique o seu trabalho (especialmente porque o sete cordas não tem bom trânsito nem entre a maioria dos maestros - poucos sabem escrever pra ele - nem entre os compositores da camada dita universitária da nossa música popular). Algumas músicas são apresentadas apenas pelos dois. Em outras, os outros músicos só entram quando os violões de João e Rafael já fixaram o andamento e a cadência do samba. Nestas, é bem verdade, Rafael é obrigado a um super-esforço para não ver o seu acústico instrumento abafado pela tecnologia dos teclados e do baixo elétrico.

O repertório do show é um apanhado geral. De 'Caçador de Esmeraldas', a música ainda do primeiro e quase desconhecido disco do compositor, até Corsário, que João jamais cantou e fora confiada apenas a uma gravação de Ney Matogrosso. Naturalmente, os destaques são as novidades contidas no novo álbum, leitmotiv do show, mas será mais pertinente vê-las no disco (a produção de um show implica em muito mais dificuldade do que supõe o humor dos críticos).

São onze faixas que no fundo são dez. Numa, Patrulhando, Aldir e Paulo Emílio colocaram duas letras e foram feitas duas gravações. Duas metáforas odara. Das outras nove, quatro são sambas e duas boleros (notem a marca do compositor novamente em maioria). Os sambas funcionam como pontas de lança voltados para a chamada realidade brasileira. É através deste estoque em 2 por 4 que Aldir, João e Paulo vão espetando as coisas. Em Linha de Passe, faixa-título, que é uma espécie de Aquarela do Brasil com muito mais sentido de auto-crítica. Ou em O Bêbado e a Equilibrista, um samba-enredo para quando o carnaval da anistia chegar.

Parati é um partido alto cuja sutileza está na melodia da parte 'improvisada', onde a mineirice de João garantiu uma solução melódica absolutamente original. Boca de Sapo já foi gravada também por Zezé Motta e é uma coisa tão João e Aldir que lembra outra da dupla - Incompatibilidade de Gênios, que Clementina gravou.

Os boleros fazem a deliciosa nostalgia dos que ainda viveram os bailes sem conjunto pop e sem discoteca e, entre os modernos, ninguém captou melhor aquele momento brasileiro que João e Aldir. Neste Linha de Passe, mais duas ótimas contribuições ao gênero: Conto de Fadas e Ai, Aydée. Neles, desde as velhas e demodées gargantilhas até a indispensável bênção da avó. As três outras faixas, por coincidência todas em parceria com Paulo Emílio remetem e um João Bosco mineiro (Como em Cobra Criada) ou mais barroco (como em Natureza Viva, ótima). Das músicas com o novo parceiro, contudo, será difícil chegar a outra conclusão: o destaque é Sudoeste, onde a agilidade da melodia é perseguida pela agilidade de versos de ventos uivantes."




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