Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

David Bowie Lança The Next Day (O Globo - 2013)


 David Bowie é um nome fundamental na história do rock. Falar de Bowie é falar de uma das personalidades mais marcantes das artes do séc. XX e do início do novo século. Nunca deixou de  criar, de experimentar e de ser ousado ao longo de sua carreira. Ao morrer, aos 69 anos em 2016 Bowie encerrou um ciclo de criação e talento sem precedentes. Em 2013, já um artista maduro, mas ainda criativo e buscando novas formas de expressão. Em sua edição de 03/03,2013 o jornal O Globo traz uma matéria sobre o lançamento, assinada por Carlos Albuquerque:

Já de  cara, 'The Next Day' provoca. Na capa do seu novo disco, o primeiro após uma década de incômodo silêncio, David Bowie quebra expectativas e simplesmente desaparece, deixando um quadrado branco no lugar da arte original do disco.... 'Heroes', de 1977, parte da aclamada trilogia feita em Berlim, ao lado de 'Low', lançado no mesmo ano, e de 'Lodger', de 1979. E onde estava o título daquele disco, inseriu o seu nome. É só a primeira parte de seu aparente enigma, no qual Bowie (ou Ziggy ou Major Tom ou Thin White Duke ou Alladin Sane) subverte as suas próprias imagens e o seu próprio passado, na flor dos seus 66 anos.

Ouvir repetidamente o disco - em streaming, desde sexta-feira passada, na loja digital iTunes e oficialmente à venda a partir da próxima sexta-feira - é como desvendar cada uma das suas camadas, recheadas de citações. Como lembrou Alexis Petridis, do jornal britânico 'The Guardian', é um desafio que a maior parte dos seus contemporâneos já não consegue propor. 'Gostaríamos que eles se mantivessem nos seus seus maiores sucessos', disse o crítico, um dos primeiros a ter acesso ao disco.

A faixa 'Where Are We Now?' é exemplar. Uma melancólica balada,, oferecida para download no começo de janeiro, no mesmo dia em que a chegada do álbum foi surpreendentemente anunciada - finalizando rumores de aposentadoria - ela traz na letra, incluindo marcos como a Potsdamer Platz, uma das principais praças da cidade. Diferentemente da referida trilogia, porém, 'The Next Day' foi todo gravado em Nova York, ao lado do produtor Tony Visconti, antigo parceiro do cantor, com quem fez os discos 'Diamond Dogs', de 1974, e 'Young Americans', de 1975. É como se Bowie desafiasse a geração shuffle a exercitar sua hiperatividade e buscar no seu oráculo, o Google, a solução dessas charadas - ou se perdesse em uma teia de (des)informações.
Na faixa-título, aberta por um riff de guitarra que dá a impressão de ir rumo ao glam-rock de 'Rebel Rebel', hit de 1974, até desviar para um atalho mais funkeado, Bowie brinca com os boatos sobre sua morte (o grupo americano Flaming Lips chegou a gravar, em 2011, uma música chamada 'Is David Bowie Dying?'): 'Aqui estou eu, não exatamente morrendo'.
'Valentine's Day' tem guitarra e violão de outro parceiro, Earl Slick, que excursionou com Bowie em 1983, na turnê do disco 'Let's Dance', substituindo o saudoso Stevie Ray Vaughan. Mas apesar do título, a faixa não traz referências ao Dia dos Namorados. É, na verdade, uma amarga e irônica reflexão de uma vítima de bullyng contra seus antigos desafetos de colégio. O formato, porém, é pop.

Nas batidas quebradas de 'If You Can See Me', Bowie refaz a rota de seus experimentos com o drum and bass nos anos 1990, ao mesmo tempo em que a letra, do ponto de vista de um invasor, faz referências a tempos e práticas medievais ('Vou tomar suas terras/ Dilacerar suas bestas').

Em meio a esse incessante zigue-zague de referências e pontos de vista, a vibrante 'The Stars (Are Out Tonight)' é, talvez, o ponto central do disco. Na música, ele reflete sobre o culto às celebridades, enquanto contracena, no vídeo, com a atriz Tilda Swinton, justamente a pessoa que o divertido site Tilda Stardust garante ser seu mais perfeito reflexo."



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Gilberto Gil - Revista Rock, a História e a Glória (1975)


 Em 1975 Gilberto Gil deu um depoimento à revista Rock, a História e a Glória, numa seção chamada Rock e Eu, em que o entrevistado falava sobre a presença do rock em sua vida. Gil falou à revista em sua edição nº 11 em matéria assinada por Ana Maria Bahiana:

"Gilberto Gil encontrou o rock quando foi pro sertão nordestino. É verdade. Caetano Veloso conta, e ele mesmo confirma. Depois de andar pelos caminhos conhecidos da música brasileira, depois de ver o nordeste do litoral e dos folhetos de turismo, ele foi pro agreste. E cansado, a procura de fonte nova para alimentar suas inquietações. Encontrou a Banda de Pífanos de Caruaru. E encontrou o rock. A mesma violência, a mesma faca afiada da paixão cortando a geleia geral brasileira. Gil conta:

'Foi uma descoberta simultânea. De um lado, tudo o que havia de oculto na própria música beasileira, na música mesmo do nordeste. De outro, os Beatles, a coisa universal, nova, forte dos Beatles. Já existe rock no meu trabalho naquele disco do fardão, existe rock no disco da Bahia, o que tem o poema de Rogério Duarte na  capa. Eu cheguei a Londres já por dentro do rock. Daí que eu curti Londres de fora, observando, naquela fase o rock já estava muito elaborado, uma coisa orquestral, wagneriana.

Estava numa fase em que o grupo, o combo, já era uma unidade ativa, já preocupada com orquestrações, arranjos. Eu curtia, mas de fora. Eu ia muito ver as coisas do Traffic, por exemplo, eu gostava. Mas via sempre com uma distância. Era uma coisa branca demais pra mim'.

E quem, o que é rock pra Gilberto Gil? 'Eu não posso ser considerado um rocker. Eu não faço rock. Raulzito Seixas sim, faz rock, é um rocker. Mas existe muita coisa rock em mim, influências minhas da tradução da linguagem para o meu universo. É principalmente Beatles e Dylan. Beatles é uma coisa muito ampla, é toda a novidade: as experiências que Lennon gostava de fazer com palavras e timbres elétricos das mesas de gravação, os diferentes sons, os ecos, aquelas coisas todas. A utilização paralela de sinfônicas, aquele universo musical misturado, variado. E a composição, que era de uma novidade incrível.

Hendrix também. Hendrix era o ser, a alma, aquela dimensão que canta, toma, interpreta daquele jeito. A composição, também extraordinária em Hendrix. O disco Axis Bold As Love tem pra mim o mesmo valor, o mesmo significado que o Sgt Peppers.

Dylan era o arrojo poético, a loucura descritiva, o poder da palavra. E muito mesmo o negócio da aparência dele, primeiro ao nível da música popular mesmo, dos cantores country, rurais, americanos, e a parecença dele e disso com o canto rural brasileiro (Atenção - nota minha - aí estão algumas chaves para abrir a Refazenda). Com o cantador, por exemplo. Nos primeiros discos dele, só com o violão e a gaita, me impressionava a igualdade da fonte, a dele e as nordestinas que eu estava descobrindo. E é mesmo incrivelmente parecido. Aquela cantoria, aquelas palavras mastigadas, o mesmo sotaque, aquela coisa ali forte, aquela exuberância. Aquilo me impressionava imensamente. E eu acho que é por onde o Dylan emociona todo mundo. Claro que tem a coisa toda do pensamento político de Dylan, que evidentemente nos círculos mais intelectualizados era onde ele chegava, na crítica europeia, francesa, inglesa e mesmo novaiorquina. Tinha aquela coisa do Herói do Village. Mas eu gostava mesmo era do timbre, a voz e o modo de cantar. Eu via Dylan por  aí.

'Essas figuras são mais fortes pra mim, no rock. Depois, principalmente depois de Londres, eu passei a uma apreciação dos talentos vários que iam surgindo por aí. Como o Traffic, músicos incríveis. E Miles Davis, muito'.

Parece bem claro porque, mesmo na hora em que Gil está refazendo tudo, o rock fica lá, presente, raiz e semente. Porque sempre esteve, esteve lá mesmo antes de Gil ir ao seu encontro. E porque Gil, alquimista poderoso, aprendiz confesso e esforçado de Jorge Ben, compreende até o fim que seja rock, nessas terras ao sul do Equador. Sua lucidez chega a ser cruel:

'Rock brasileiro é Jorge Ben. Ele sempre fez isso, só faz isso. Ele é antriopofágico, tem todos os elementos da transmutação total. É ecológico. Respeita a ecologia cultural. Tem o elemento estrangeiro, mas tem a transmutação local. Porque rock é blues é samba é... toda uma energia que vai acabar na Mother Earth, na Mother África. Eu sou rock nessa medida, na medida que faço isso. Porque rock é mais um feeling. Eu acho muito perigosa essa universalização apriorística  do rock que tem muito por aí. Essa imposição meio totalitária da palavra rock com uma abrangência que não pode ser tão fácil assim. Isso resulta numa defasagem. Essas gerações que vão chegar agora, vão ouvir falar que tudo é rock, e não vão saber porque, o que é rock naquilo. Vão achar que rock, naquilo, é o wagneriano, o superficial, a aparelhagem.. A gente nota isso hoje., já, no Brasil. Às vezes a gente tá tocando num lugar, fazendo um tremendo rock com o Expresso 2222 ou com Jurubeba e a moçada não está sacando, não está compreendendo bem. Mas se você vem com uma clicheria elétrica, uma percussão marcial, aí parece rock. E com o tempo a essência fica perdida.

Torno a dizer que o rock brasileiro é Jorge Ben, é a transmutação. Mas o que foge a isso, que é única e exclusivamente mímica, é um mimetismo puro e simples. Eu acho legal. Mas também não dou essa importância que o pessoal fica dando. Teve as jam-sessions que possibilitaram a assimilação de elementos de jazz pelo que viria a ser a bossa nova. Hoje tem as TV-sessions, verdadeiros audiovisuais, onde o garoto aprende tudinho, os gestos, deixar cair o cabelo de um certo jeito, bater com o pé no chão. Ele sai fazendo depois como viu o Emerson, Lake & Palmer fazer na TV.

Eu não estou achando que isso é bom ou ruim. É o modo que está aí. A volta está sendo dada por aí. É que eu falo como quem já quer ver a volta dada, o outro lado do negócio."





domingo, 17 de janeiro de 2021

Moraes Moreira: Buscando Nova Linguagem Musical (1982)


 Em 1982 Moraes Moreira vivia um bom momento em sua carreira. Seus discos vendiam bem, e eram geralmente bem recebidos pela crítica. Fazia muitos shows pelo Brasil, que sempre lotavam os locais em que se apresentava com seu frevo elétrico e contagiante. Em sua edição nº 59, que circulou naquele ano, a revista Música trazia uma matéria com o grande músico baiano:

" 'Não parar pra pensar, mas pensar sem parar'. Esta é a síntese do pensamento de Moraes Moreira, baiano de Ituaçú, que cresceu ao som do rádio e dos alto-falantes do Brasil.

Evoluir na linguagem musical e valorizar o ritmo foi sempre a preocupação que tornou-se mais viva a partir do Festival de Montreux, na Suíça, do qual Moraes participou ano passado. Um som contemporâneo com uma solução brasileira, portanto livre, aberto, moderno, sem imitação e que tenha eco no exterior é a atual intenção de Moraes. Fazer folclore ou música só para si não é seu objetivo.

'Estou recebendo o mundo todo o dia dentro da minha casa, por isso não posso ficar fazendo música só pra mim ou só para o Brasil. O meu último trabalho tem a pretensão de querer dar um voo além fronteiras.  E isso tem a ver com a linguagem musical que estou buscando, que é a de, através do som, sugerir. A pessoa pode até não entender o que é, porém está sentindo. A linguagem que eu procuro é a dos arranjos, é na maneira de apresentar a música pela harmonia, pela melodia ou pelo ritmo'.

Em novembro do ano passado, Moraes Moreira, ainda sob o 'pique' de Montreux, lançou o décimo terceiro disco de sua carreira. Ao mesmo tempo iniciou uma série de espetáculos pelo Brasil, que deve terminar após o verão, mostrando seus 13 anos de trabalho. O resultado até agora tem sido positivo, com o público cantando todas as composições do tempo dos novos Baianos.

Moraes tem se caracterizado pela constante preocupação em estar atento a manifestações e projetos contemporâneos, sabendo dosar razão e emoção em composições próprias, de um criador intuitivo. Por tudo isso, pode-se afirmar que Moraes Moreira já começou a perpetuar seu nome na MPB.

'Eu sempre quis fazer coisas pra toda vida; nunca quis fazer música para fazer sucesso um tempo e acabar. Eu acho que já possuo um trabalho perene. Algumas músicas, como 'Preta Pretinha' e 'Pombo Correio', eu tenho que cantar em quase todos os shows por causa dos pedidos da plateia. Quer dizer, são coisas que vão marcando o trabalho e que vão ficando pra outras gerações. Acho importante a minha contribuição, junto com a dos Novos Baianos, para a música brasileira. Mas não estou preocupado em fazer'.

Moraes Moreira assume com muita tranquilidade tudo o que fez em treze anos de  carreira. Os erros serviram para realimentar seu trabalho, a energia necessária para avançar e fazer cada vez melhor. A isto soma-se o amadurecimento profissional e pessoal, o que o fez encarar o sucesso com  naturalidade.

Inquieto e atento, ele fala do seu grande sonho: 'tenho vontade de mostrar meu trabalho no exterior, em qualquer lugar que for. E não só para mostrar como para aprender também. Acredito que já passou da hora da música brasileira acontecer lá fora, no mundo. Mas estamos conseguindo, o Flamengo é campeão, daqui a pouco a música; é o espaço cultural brasileiro que a gente vai tomar; esse espaço cultural tem que existir. E temos que trabalhar pra isso, porque as coisas entram aqui com tanta facilidade'.

Em seu último disco, além das canções balançadas  e alegres, Moraes Moreira acrescentou duas músicas em homenagem ao afoxé 'Filhos de Ghandi' da Bahia, um bloco que desfila anualmente no carnaval de Salvador com a missão mística de acalmar os ânimos, equilibrar os sentimentos, provocar uma sensação de paz. 'O Afoxé - explica Moraes - é uma coisa riquíssima, é um ritmo que pouca gente conhece, de uma riqueza superior à do reggae. É uma música negra fortíssima na Bahia. Se você for no afoxé 'Filhos de Ghandi' vai encontrar milhares de compositores, milhares de músicos. No afoxé 'Ilê Ayê' é outra coisa. A música negra da Bahia é fortíssima, existe mesmo. E é uma coisa que pouca gente tá sabendo porque folclorizou-se muito a música nordestina, ou seja o xote, o baião, o forró. Eu também componho utilizando esses gêneros, mas no momento estou mais interessado nos afoxés, nessa música negra'."
 


 

sábado, 16 de janeiro de 2021

Milton Nascimento - Revista Pop (1977)


 Em sua edição nº 55 (maio de 1977), a revista Pop trazia uma matéria sobre Milton Nascimento, que vivia uma ótima fase em sua carreira, após lançar em sequência, dois discos que alcançaram sucesso e reconhecimento, Minas (75) e Geraes (76). O título da matéria exemplifica bem a fase que o artista atravessava: "Milton Nascimento - Finalmente surge um superstar brasileiro!". O texto introdutório da matéria diz:

"Com o meteórico sucesso de seus recentes espetáculos no Rio, São Paulo e Porto Alegre, e com a vendagem de seus LPs ultrapassando a marca das 100 mil cópias, Milton Nascimento inaugura, de maneira brilhante, uma nova fase em sua carreira. Realizando um trabalho importante e consistente, onde utiliza todas as manifestações musicais da cultura  brasileira, Milton é a síntese viva de seu tempo e de seu povo". Segue abaixo a matéria:

" 'O papel de todo artista é botar a sua lucidez pra fora. Até onde ele pode chegar, só Deus sabe...'        Milton Nascimento

No mundo da música popular, nada como o tempo para definir o verdadeiro lugar dos personagens que o habitam. Muitos artistas conhecem o sucesso da noite para o dia, e dele se divorciam com igual velocidade. Outros, ainda que apresentem um bom trabalho, nunca chegam a conquistar popularidade, por imprevisíveis caprichos da psicologia popular. A história dos verdadeiros supertalentos, no entanto, é sempre muito parecida, e reforça invariavelmente um velho postulado: nenhum fenômeno social ocorre da noite para o dia.

Por isso mesmo, o fato de Milton Nascimento lotar ginásios de grandes dimensões (Maracanãzinho, Ibirapuera, Gigantinho) e vender mais de 100 mil LPs em poucas semanas não chega a surpreender ninguém. Afinal, desde o histórico Festival da Canção que o revelou com Travessia, Milton vem construindo sua carreira em bases sólidas, desenvolvendo um dos trabalhos musicais mais importantes e consistentes que a música popular já conheceu. Sintomaticamente, a trajetória artística de Milton nunca teve altos e baixos, não conheceu o aflitivo contraste entre discos de muito sucesso e outros de baixa vendagem, não foi resultado de quaisquer campanhas promocionais mirabolantes ou inescrupulosas. Atualmente, se Milton Nascimento atrai milhares de pessoas a seus concertos é porque o público se identifica com suas mensagens.
De fato, nenhum outro artista da moderna MPB consegue mesclar, de maneira tão brilhante, as dezenas de estilos musicais da cultura brasileira. De toada mineira à folia de reis, do samba urbano ao folclore latino-americano. Milton consegue uma surpreendente unidade entre os gêneros musicais mais diferentes.
Esta unidade, que consumiria centenas da páginas no caso de uma explicação científica ou jornalística, é feita por Milton num estalar de dedos, numa simples combinação de compassos e acordes.

A trajetória de Milton Nascimento até o sucesso começa na cidade mineira de Três Pontas. Aos 18 anos, Milton era um adolescente dividido entre a música e a técnica da contabilidade, que estudava por influência de seu pai adotivo.

- Se a arte não der certo, você tem como se virar.

Certo dia, no entanto, Milton tomou algumas cervejas com os amigos e decidiu: a música era o único caminho a seguir. No dia seguinte, com quinze cruzeiros antigos no bolso, Milton rumou para Belo Horizonte, disposto a a enfrentar qualquer barra. Lá chegando, arranjou de  cara dois empregos. Durante o dia, trabalhava num escritório de contabilidade. À noite, apresentava-se numa boate japonesa chamada Fujiyama, tocando e cantando com o grupo Evolusamba. Mas a contabilidade definitivamente, não estava destinada a fazer parte da vida de Milton. Como ele saía da boate de madrugada, acabava dormindo sobre a mesa do escritório. O emprego, naturalmente, durou menos de um mês.

Depois, Milton ainda formou grupos com o tecladista Wagner Tiso e com o baixista Novelli, até encontrar o seu primeiro parceiro de composições: Márcio Borges. A amizade iria modificar novamente os rumos da carreira de Milton. Uma das primeiras músicas da dupla, Canção do Sal, foi gravada por Elis Regina.

Nessa época, Milton conheceu Fernando Brant e, juntos compuseram as duas músicas que iriam projetá-los nacionalmente, de maneira definitiva: Travessia e Morro Velho. No mesmo Festival da Canção em que as músicas foram apresentadas, Milton recebeu o convite de um produtor da gravadora A&M americana, para gravar um LP nos Estados Unidos.

Após o lançamento de Courage - que passou praticamente desapercebido nos EUA - Milton voltou ao Brasil e continuou batalhando sua carreira com muita calma, fazendo shows pelo país, sempre acompanhado do extinto grupo Som Imaginário.

Na época - conta o folclore - Milton entrava em pânico no instante de entrar em cena.

Com o LP Clube da Esquina, lançado em 1972, Milton começa a se firmar como artista verdadeiramente importante na MPB. Variado e instigante, criativo e eclético, o disco é considerado um dos grandes marcos de nossa música contemporânea. No LP seguinte - Milagre dos Peixes (1974) - Milton enfrentou um problema até então inédito para ele: o crivo da censura, que cortou as letras de praticamente todas as faixas do disco, obrigando-o a gravar apenas as partes instrumentais. Naquele mesmo ano, num histórico concerto no Teatro Municipal de São Paulo, foi gravado Milagre dos Peixes Ao Vivo, primeiro LP de Milton a ultrapassar a faixa das 50 mil cópias vendidas. Depois, com Native Dancer (gravado nos EUA com o saxofonista Wayne Shorter), Minas e Geraes, Milton completou o ciclo da maturidade. Lotando ginásios, vendendo centenas de milhares de LPs, ele pode ser considerado, seguramente, o primeiro superstar brasileiro. Por direito de conquista."





sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Tim Maia:"Aqui no Brasil Ninguém Sabe Cantar" (Revista Bizz - 1985)


 A revista Bizz nº 3, de outubro de 1985 trazia uma matéria com Tim Maia. A matéria, assinada por Antonio Carlos Miguel, dá uma panorâmica na carreira de Tim, e traz depoimentos do mesmo. Segue abaixo a transcrição:

"Qualquer que seja a onda, Tim Maia está aí, sempre nas paradas. Agora é a vez de 'Leva', uma das faixas de seu novo álbum editado pela RCA.

Aos 42 anos, Sebastião Rodrigues Maia está na estrada desde 1957, quando formou o grupo The Sputiniks, que contava com também com ilustres desconhecidos, Erasmo e Roberto Carlos. É Tim Maia quem lembra: 'Só que eu nunca fui da Jovem Guarda e quando eu chegava perto diziam: 'Ih, lá vem o Tião Maconheiro'. E saía todo mundo fora. Mas, graças a Deus, esta caretice está terminando. O Erasmo, eu ensinei a tocar violão e o Jorge Ben era meu fã. O Roberto Carlos também passou pela minha escolinha quando veio lá de Cachoeiro do Itapemirim. Ele cantava como Tito Madi e o João Gilberto.

Quando a Jovem Guarda estourou, Tim Maia estava longe. Ele passou cinco anos nos Estados Unidos, na década de 60. E, se já curtia o rock'n roll básico, voltou impregnado de soul music. Em 1970, veio o primeiro sucesso - através de Elis Regina que gravou a música 'These Are the Songs'. Na sequência, irresistíveis 'soul-sambas-canções' como 'Primavera', 'Azul da Cor do Mar', 'Gostava Tanto de Você' e o forró 'Coroné Antônio Bento' conquistaram o Brasil.

Tim ficou parado dois anos, de 74 a 76, ligado à religião Universo em Desencanto. E voltou livre de qualquer crença ou ideologia. Desde então, tem entrado e saído de gravadoras, mas seu público o acompanha. Ele tem curtido e dá força ao rock que invadiu a MPB: 'os bossanoveiros estão grilados agora, e vão grilar ainda mais com essa rapaziada nova, este pessoal doidão aí... RPM, Ultraje, Cinema a Dois... Esses sim é que vão arrepiar. Nós, eu, Erasmo, Roberto, Gil, Caetano, só começamos, mas agora é que é pra valer...'

Elogiado por sua visceral participação em 'Chega de Mágoa', Tim não vê muita vantagem nisso: 'Aqui ninguém sabe cantar. Tem que chamar um negrão americano e levar às gravadoras para ensinar toda essa gente. Mas o lance do Nordeste foi legal, pela ajuda e ter unido todos nós. O artista brasileiro tá muito pomposo, tem que ter mais coleguismo, união e  mais inteligência'.

Tim vem tocando com a banda Vitória Régia (também o nome de  sua gravadora) nas periferias do Rio e São Paulo: 'Minha banda é como a minha família, uma família danada, de pretos, mulatos, sararás, miolos, nego-aço... Meus shows são para black aqui, black ali, em clubes humildes, pro povo mesmo. Nunca ataquei em Canecão, Palace, mas gostaria de fazer um Parque Lage (no Rio), por exemplo. Nunca fui convidado, o pessoal tem o maior medo de me contratar. Fica essa fama de irresponsável, mas eu sou tão irresponsável que tenho uma gravadora e uma editora'."


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Bob Dylan Lança Real Live (Revista Roll - 1985)


 Em 1985 Bob Dylan lançava seu 26º disco, e o quarto ao vivo, "Real Live". Em destaque no cenário do rock desde os anos 60, Dylan anos 80 continuava firme e forte, com vigor e força, lançando um disco ao vivo. A revista Roll nº 18 trazia uma matéria sobre o lançamento em texto assinado por Marcos Pedrosa. Ele faz críticas quanto ao resultado final do disco, e as versões ao vivo, sempre bastante modificadas por Dylan, fato comum em seus shows. O jornalista, mesmo assim destaca bons momentos do disco, mas não cita aquela que é para mim, a melhor faixa do disco, 'Tombstone Blues', que conta com a participação de Carlos Santana na guitarra, cuja banda atuou na abertura dos shows de Dylan na turnê. A gravação traz um Santana fora de seus estilo habitual, numa levada bem rock'nroll, no ótimo arranjo da música que originalmente traz uma batida country. Segue abaixo a matéria:

"Sumido dos palcos desde 81, Bob Dylan resolveu armar no meio do ano passado um show que cobrisse o continente. Formou então uma banda com o ex-Stone Mick Taylor, com o ex-Faces Ian MacLagen, e mais o baixista Greg Sutton e o baterista Colin Allen. Convidou ainda Carlos Santana e sua banda para abrirem as apresentações e partiu em excursão. Durante a série de concertos, algumas figuras conhecidas acabaram subindo ao palco para tocarem com Dylan - o que transformou a tour em verdadeiro acontecimento. Uma delas foi Bono Vox, vocalista do grupo irlandês U2 e uma das figuras de maior destaque dentro do cenário musical hoje, e a outra foi ninguém menos que Chrissie Hynde, dos Pretenders. Muito falada em toda a imprensa, a excursão teve grande repercussão e as últimas apresentações da tour em New Castle, Londres e Dublin acabaram sendo devidamente registradas. O resultado chega agora, com a edição do LP 'Real Live', que traz uma seleção das músicas tocadas por Dylan nesses shows.

Dylan, como já é costume seu em discos ao vivo, revisita suas  músicas. Mudam os andamentos, modificam-se alguns trechos das letras para revigorar e dar sangue novo ao conhecido, e as músicas continuam com sua beleza original. Além disso, como Dylan, em suas letras, procurou sempre explorar a ambiguidade de seus sentimentos e as contradições de suas experiências, seus versos sobrevivem intactos e insensíveis ao tempo. Só nas músicas dos discos 'Slow Train Coming' e 'Saved', que foram completamente esquecidas nos shows dessa excursão europeia, foi que se viu um Dylan preso a questões de ortodoxia religiosa, que ele mesmo acabaria descartando posteriormente. Mas apesar da beleza das músicas de Dylan, 'Real Live' não é um grande disco, e a bem da verdade são raríssimas as ocasiões em que se consegue um resultado interessante em gravações de shows. Tudo soa mais como uma jogada comercial do que como uma tentativa de se fazer algo de realmente importante. O disco ao vivo, no geral só tem valor quando fruto de uma ideia integrada, que apresente um show totalmente bolado para esse fim. Porque, do contrário, dificilmente consegue impressionar o ouvinte. Assim 'Tangles Up In Blue', 'It aint't Me Baby' ou ainda 'Highway 61 Revisited' podem até interessar ao aficcionado, que vai delirar com as pequenas mudanças que Dylan fez nas  músicas. Mas para o público em geral as músicas vão passar completamente desapercebidas, mesmo que em 'It ain't Me Baby', por exemplo, a plateia crie um clima de frisson ao cantar com Dylan alguns trechos da música. O que se conclui disso tudo é que o grande momento mesmo foi aquele que aparece na contracapa do disco, num lugar que pode ter sido Itália ou Espanha. O que valeu foi o show."


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Nara Canta a Palavra Nova - JB (1981)


 Em 1981 Nara Leão lançava mais um disco, Romance Popular. Na ocasião o Jornal do Brasil em sua edição de 15 de junho daquele ano trazia uma matéria sobre o lançamento e a carreira de Nara, em matéria assinada por Tárik de Souza:

"Entra moda, sai moda, persiste o carisma de Nara Leão. Qual é o segredo dessa permanência num mercado tão instável quanto antropofágico? Decerto não é a voz pequena, aos poucos melhor acondicionada, mas ainda assim insuficiente e um tanto linear. Perguntar pelo efeito magnético dos célebres joelhos seria vulgar e inexato - suspensa a voga da minissaia, eles andaram escondidos por longo tempo. E a própria cantora, afinal, casada, foi cuidar dos filhos e mais tarde resolveu voltar a estudar, desaparecida dos palcos.

Para outras cantoras - até mais bem-dotadas - poderia ser o suicídio artístico. Nara, porém, conseguiu manter-se na invejável posição de artista de catálogo, procurada por uma plateia não muito numerosa, mas sempre fiel, caso semelhante ao de raros outros artistas de pouca publicidade e consumo cativo, como o sambista Roberto Silva. Recentemente, Nara Leão ainda se deu ao luxo de gravar um LP inteiro com o repertório de Roberto e Erasmo Carlos ('para exorcizar o lugar-comum sentimental') e outro com Chico Buarque - trabalhos que considera tão dignos quanto o desafio dos repertórios e autores inéditos.

Mas Nara trem um segredo. Seu nome deve ser colocado ao lado das pioneiras cantoras/autoras da MPB, bem antes da geração Malu-Mulher do final de 70. A tardia estreia oficial de sua assinatura neste Romance Popular, em parceria com Fagner e Fausto Nilo (Cli-Cle-Clô, brincando com os nomes da trinca de irmãos compositores piauienses, Climério, Clésio e Clodo) não passa de mero detalhe. Na verdade, Nara Leão é uma das raras cantoras pensantes do país. Pensante, sobretudo, pela própria cabeça e intuição musical forjada em aulas de violão com o mestre Patrício Teixeira. Cada novo disco de Nara significa um compromisso com o repertório quase tão profundo quanto a própria ligação autoral. De Romance Popular, por exemplo, foi defenestrado um letrista que afirmava a versos tantos, 'O amor é...' 'Ora, se eu tivesse tanta certeza, não estaria cantando', observa Nara, uma pessoa que serve-se de constantes doses equilibradas de cético pragmatismo.
Adolescente ainda, frequentava o meio da bossa-nova fervilhante. No famoso apartamento da Avenida Atlântica, onde  morava, nasceram muitas dissonâncias, mas  quando a musa do movimento pôs-se a cantar, na gravadora Elenco do ex-Bando da Lua e praticante bossa-novista Aloysio de Oliveira (Dindi, Inútil Paisagem, Demais), saiu um inesperado repertório de sambas tradicionais. Nara espantou a Zona Sul não versada nos botecos, gafieiras e morros, ao colocar em circulação os desconhecidos talentos de Nelson Cavaquinho (Luz Negra), Cartola, Elton Medeiros (O Sol Nascerá), Zé Kéti (Diz que Fui por Aí) e muitos outros. Estrela do Opinião, projetou para esse mesmo público o maranhense João do Vale (Carcará), assim como em discos seguintes revelaria Paulinho da Viola (Recado), Sidney Miller (Pede Passagem) e Chico Buarque (Olê Olá). Rara autora das próprias contracapas, Nara expunha na do LP Opinião: 'A canção popular pode dar às pessoas algo mais que a distração e o deleite'. A esse respeito, acrescentaria o poeta Ferreira Gullar no disco seguinte: 'Nara é também uma intérprete não a maneira própria de cantar, mas uma posição interpretativa, indagativa e seletiva em face da nossa música popular'.

Quando tudo fazia crer na aparição de uma sólida Joan Baez cabocla, Nara viraria mais uma vez a mesa. No histórico disco Tropicália, de 68, Caetano Veloso portava a moldura de sua foto como integrante do dissidente cisma de guitarras Vicente Celestino e longos cabelos, ao lado de Gil, Rogério Duprat, Gal, Mutantes (Rita Lee incluída), Tom Zé e Capinan. Cabia à cantora a estranha Lindonéia, parceria de Gil e Caetano. Com mais essa virada Nara deixava na poeira as turmas da bossa-nova e da canção de protesto, esta, inimiga das guitarras do tropicalismo. Mas, tampouco seria tropicalista de última hora. Dois anos depois, no fechado ano de 1970, de Paris, encapotada na capa, em plena nevasca, ela mandava um álbum duplo, Dez Anos Depois: vinte e quatro faixas da mais ortodoxa bossa-nova (dezenove assinadas por Tom Jobim); da que ela se recusa a cantar no momento óbvio. 'Esse disco foi uma espécie de pazes comigo mesma', voltaria a contracapista já em outro lançamento. Meu Primeiro Amor (75), vinha repleto de canções de infância (Atirei o Pau no Gato, Upa! Upa! Meu Trolinho, Prenda Minha, Andorinha Preta). Seu título procedia da abominável guarânia Lejania, em versão de José Fortuna e Pinheirinho Júnior. Abominável é claro, para a ortodoxia da bossa, que também, não aprovaria o casamento da voz da cantora com a do Jovem Guardião Erasmo Carlos, na faixa mais tocada do LP seguinte, Meus Amigos São um Barato. Outros ecléticos convivas desta festa de arromba: Dominguinhos, João Donato, Caetano, Gil, Jobim; em pleno 1977, início da distensão política.

Nara e Dominguinhos
Agora, em Romance Popular, uma análise apressada poderia colocar Nara Leão, pela primeira vez, a reboque dos acontecimentos. Afinal, o contingente nordestino que domina o disco (Fagner, Fausto Nilo, Moraes Moreira, Robertinho do Recife, Geraldo Azevedo) já está mais que descoberto e consolidado. Nem se poderia chamá-los de regionalistas ou, na maioria, sequer de inovadores musicais contumazes. Na verdade, Romance Popular subverte mais pelo lado poético, traz a palavra nova, atomizada, fora dos discursos, mas pós-concretista. Um relance de imagens que às vezes remete para o nonsense aparente de Luiz Melodia. Menos afirmações que dúvidas:

O céu coro nordestino/onde eu e Buñuel/ procuro o fogo de Prometeu (Seja o meu Céu)

Mais contrastes que sintonias:

Laranja da Terra/Coca-Cola da China (Laranja da China)

Menos desespero que ironia:

Vai que toca fogo na cadeia/ e solta o passarinho pra cantar/ no peito da pomba e lua cheia/ no coração da bomba o que será? (Romance Popular)"