Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 14 de julho de 2020

Nelson Cavaquinho - Revista Música Brasileira (1998)

A revista Música Brasileira era uma revista independente, de circulação restrita, que circulou no fim dos anos 90. Falava sobre cantores e compositores brasileiros, ligados a uma tradição musical, principalmente gente ligada ao samba. Portanto, Nelson Cavaquinho não poderia deixar de ser lembrado. Em sua edição nº 13 ele ganhou uma matéria, assinada por Luís Pimentel, e intitulada "Como Soldado da PM, Foi Um Excelente Compositor":
"- Fui o pior soldado da história da Polícia Militar do Rio e Janeiro! - disse ele, certa vez. E não estava exagerando. Começou a vida como cavalariano no Batalhão da Cavalaria da PM, onde ficou sete anos. Metade em cima do cavalo, metade em cana. Foi o mais assíduo hóspede do xadrez do quartel da Rua Evaristo da Veiga. Mas como para ele tudo tinha uma explicação, dos porres exagerados às vendas de sambas aos 'comprousitores' de plantão, as prisões tinham lá suas vantagens:
- Era bom pegar cana. Se não fosse pro xadrez do batalhão, eu não teria feito muito samba de sucesso. Às vezes ficava um mês confinado. Então aproveitava a tranquilidade para compor.
Nelson da Silva nasceu no Rio de Janeiro, na Tijuca (Rua Mariz e Barros), no dia 28 de outubro de 1911. Entrou na Polícia Militar muito jovem e a contragosto, levado pelo pai, tocador de tuba da Banda da PM, Brás Antonio da Silva, com quem aprendeu a tocar cavaco. A determinação paterna também tinha uma explicação: Nelson engravidara uma namoradinha de adolescência e estava querendo fugir à responsabilidade, alegando que não tinha dinheiro para cuidar de mulher e filho. 'Não seja por isso', disse o velho Brás. 'Vai ser  polícia'. Ele não sabia com quem estava lidando.
Nelson sentou praça e recebeu as rédeas de um cavalo. Tinha que fazer a ronda montado, apesar de morrer de medo do animal. No meio do caminho desistia da ronda e deixava o cavalo amarrado em uma cerca do pé do Buraco Quente, no Morro da Mangueira. Ali varava as noites com os amigos e depois parceiros Cartola, Carlos Cachaça e Zé Com Fome. Voltava para o quartel dias depois, sem o cavalo - que geralmente se soltava e ficava vagando e pastando pelas ruas. Aí, tome xadrez, para aumentar a produção musical.
Pouco antes de morrer ele estimou sua produção em torno de 800 músicas, cerca de 400 gravadas, umas 100 inéditas e 'pelo menos 300 vendidas, totalmente ou só parceria'. Apesar dos números, quando partiu, no dia 18 de fevereiro de 1986, vítima de enfisema pulmonar, deixou apenas uma minguada pensão do antigo INPS e uma casinha da Cehab em Vila Esperança, lugarejo escondido no bairro carioca de Jardim América.
Nelson Cavaquinho teve vários parceiros, entre parcerias 'armadas' - com aqueles que pagavam para entrar nos créditos do samba - e as verdadeiras. Entre essas um nome desponta: o grande poeta Guilherme de Brito, com quem legou à história da MPB preciosidades como Quando Eu Me Chamar Saudade (Sei que amanhã quando eu morrer/Os meus amigos vão dizer/Que eu tinha bom coração), A Flor e o Espinho (Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor), que já mereceu inúmeras regravações, Folhas Secas (Quando eu piso em folhas secas/Caídas de uma mangueira/Penso na minha escola/E nos poetas da minha Estação Primeira), Cinzas, Pranto do Poeta, Degraus da Vida e tantas outras. Cantores como Clara Nunes, Chico Buarque, Beth Carvalho e Paulinho da Viola já gravaram e regravaram a dupla Nelson/Guilherme de Brito, uma eterna garantia de bom gosto.
Da fabulosa parceria com Guilherme vale o registro também de obra inédita, resgatada depois por pesquisadores, que se chama Arma de Covarde e que teria ficado inédita pelo fato de o presidente Getúlio Vargas ter se suicidado pouco tempo depois da construção da letra. Os autores ficaram constrangidos diante da tragédia nacional que foi a morte de Getúlio, porque os versos dizem o seguinte:
'A arma do covarde é o suicídio, eu bem sei.
É um erro que eu sempre condenei.
Existe sempre alguém que troca a vida pela morte.
Eu peço sempre a Deus para não me dar essa sorte.
Quisera viver eternamente
Servindo de exemplo a esta gente.
Eu vivo triste, sou um desgostoso,
Mas acho meu viver tão precioso.'
Mas, a bem da verdade, pela vida que levou, talvez ele não achasse o seu 'viver tão precioso' assim. A primeira gravação só aconteceu em 1943, o samba Não Faças Vontade a Ela, parceria com Henricão e Rubens Campos. Nelson compunha onde chegava, até porque onde chegava costumava ficar um bom tempo. Metade de sua obra foi feita em bar (seu primeiro lar), pois tinha amigos muito próximos e um fígado invejável. Abordou vários temas, mas jamais quis se envolver com o carnaval. Sobre isto, certa vez deu uma explicação:
- Música é ideia. Não faço música com livro de história do lado. Depois, esse negócio de samba-enredo dá uma confusão danada. 
Sabia das coisas."

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Jimi Hendrix Está na Dele - O Pasquim (1969)

Jimi Hendrix é inegavelmente um símbolo do rock, e uma das imagens mais difundidas para simbolizar o rock e os anos 60. Por isso, hoje, no Dia Internacional do Rock, resolvi publicar uma matéria sobre ele, de uma época em que ele ainda vivia. Foi publicada no jornal O Pasquim em 1969, escrita por Luiz Carlos Maciel. Segue abaixo:
"Para quem quiser saber como vai ser a música do futuro, da próxima década dos setenta, não conheço dica melhor do que os discos de Jimi Hendrix. Três deles já foram editados no Brasil - Smash Hits, Eletric Ladyland e Axis: Bold As Love. E outros certamente virão. Os quadrados torcem o nariz diante deles. Mas a garotada prafrentex identifica neles o som da nova Idade Elétrica na qual, segundo Marshall McLuhan, estamos inexoravelmente ingressando.
Hendrix é um crioulo americano de cara esquisita, cuja formação musical foi claramente feita pelo rhytm and blues que floresce no Harlem e em outros guetos negros dos Estados Unidos. Sem a sofisticação do jazz, que sempre foi uma manifestação musical superior, o R&B tem, porém, as suas inflexões negroides e força primitivas. Como o jazz, o R&B conheceu a sua variante branca, diluída e dirigida por interesses comerciais mais simples. Chama-se rock and roll e, como se sabe, foi a origem da música dos Beatles e o canal adequado para que as guitarras elétricas manifestassem a sua inédita sonoridade. Hendrix tocou a guitarra com alguns conjuntos de R&B, viajou para a Inglaterra, sofreu a influência do trabalho dos Beatles e dos Rolling Stones e voltou aos Estados Unidos para formar o seu próprio conjunto: o hoje célebre Jimi Hendrix Experience.
Hendrix não usa muitos instrumentos: o Experience é um trio que conta, além de sua guitarra elétrica, com um baixo e uma bateria. Ao contrário do esquema tradicional da base rítmica (feita pelo baixo e pela bateria, por exemplo), Hendrix cria uma rica polifonia de três linhas melódicas, usando cada instrumento como solista e harmonizando-os com muita inventiva. Ele retomou a orientação experimentalista dos Beatles e tenta levá-la ao seu limite. Recolheu também a contribuição da música oriental, o que veio a ser um dos elementos característicos de seu novo som.
Em que reside, porém, a originalidade desse novo som?  Ao contrário da maioria de seus companheiros de viagem, Hendrix concentra suas experiências sobre o aparato elétrico de seus instrumentos. Excelente instrumentista, na verdade um músico de qualidade superior por qualquer critério, ele explora todos os sons conhecidos e alguns desconhecidos da guitarra elétrica. Até mesmo a distorção deliberada do registro elétrico de suas gravações, é amplamente utilizada. Basta escutar Electric Ladyland, principalmente na edição original, que consta de dois LPs, para verificar que Hendrix já transformou hoje, a eletricidade no seu verdadeiro veículo de expressão musical. O que a música eletrônica aspirou a fazer, Hendrix realiza ao nível da música popular.
A diferença está no fato de que a música eletrônica, apesar da audácia, continua ligada à tradição racionalista, letrada - como diria McLuhan - da arte ocidental, enquanto a de Hendrix corresponde ao que o mesmo McLuhan chama de tendência à retribalização da juventude contemporânea. Ela envolve, para ser devidamente apreciada, uma nova sensibilidade musical que os Beatles apenas insinuaram nos seus ouvintes. Hendrix a assume, na sua integridade, e a exige em seus próprios ouvintes. É por isso que digo quer a guitarra elétrica, em Jimi Hendrix, não é apenas um novo som: é uma nova experiência existencial que exige, para que se estabeleça uma comunicação efetiva, uma alteração profunda na própria maneira de viver do ouvinte, nos próprios valores que norteiam seu comportamento e  no seu próprio sistema nervoso. Sim: a música de Jimi Hendrix exige uma realidade certamente mais fácil aos jovens e que é a condição indispensável da nova sensibilidade. Esse é o segredo da sua força e de sua originalidade.
O surgimento do jazz, na primeira metade do século, também exigiu uma nova sensibilidade e também implicava uma nova maneira de viver. Mas o jazz ainda mantinha laços firmes com os antigos padrões culturais. Havia sido criado por um negro intimamente rebelado, mas que sufocava a revolta em sua resignação: o jazz sofre a tensão desse esforço, é alegre quando bem sucedido, mas sempre dilacerado e pungente. No caso do rock elétrico de Jimi Hendrix, as pontes com os padrões culturais estabelecidos estão destruídas. Em vez de rebeldia e resignação, temos aqui uma marginalização deliberada. 'A cultura e a civilização' - diz Gilberto Gil, admirador confesso de Hendrix - 'elas que se danem ou não'.
Acredito que são os hippies, hoje o grupo humano que melhor introjetaram em seu sistema nervoso a nova sensibilidade. Eles assumiram, em sua plenitude, a nova tendência para a retribalização. Seus festivais de música revivem as antigas festas dionisíacas dos gregos através da química (drogas, LSD) e a eletrônica (guitarras elétricas, os sistemas de amplificação, os alto-falantes). Os hippies não sofrem passivamente o processo do avanço tecnológico: eles o utilizam para reformular o seu próprio sistema nervoso. Melhor do que qualquer conjunto moderno de rock, o Jimi Hendrix Experience expressa essa reformulação. Suas execuções criam um verdadeiro ritual elétrico, de orientação tribal e intenção dionisíaca. Através dos Beatles e dos Rolling Stones, o R&B percorreu um longo caminho até chegar  a Jimi Hendrix. Hoje, ele não tem mais nada a ver com a cultura ou a civilização. Está na dele."

domingo, 12 de julho de 2020

Roger Waters Fala do Cream

A revista Rolling Stone lançou um número especial intitulado Os 100 Maiores Artistas de Todos os Tempos. Nessa revista um artista consagrado escrevia um texto sobre um outro astro ou banda que ele admira ou influenciou em sua carreira. Dentre os artistas que deram seu depoimento, Roger Waters, do Pink Floyd escreveu um texto sobre o power-trio Cream, que marcou uma geração de músicos durante os dois anos (1966 a 1968) em que esteve em atividade. No texto ele fala de um show que ele assistiu do Cream, antes de formar o Pink Floyd, e como a banda marcou a sua vida, e aquele show específico ficou em sua memória. É um testemunho de fã, antes de tudo. Segue abaixo o texto de Waters:
"Eu estava no terceiro ano de estudo em um lugar de Londres chamado Regent Street Polytechnic School of Architecture, que foi onde conheci Nick Mason e Rick Wright. No final de cada período acontecia um show e naquela vez tivemos o Cream - em um pequeno hall onde eu havia certa vez interpretado Happy Loman em Morte de um Caixeiro Viajante, o que na verdade não vem ao caso. A cortina se abriu e os três começaram a tocar 'Crossroads'. Eu nunca tinha visto algo assim antes. Eu estava simplesmente atordoado pela quantidade de equipamento que eles tinham: pela bateria de bumbo duplo de Ginger Baker, pelos amplificadores Marshall 4 por 12 de Jack Bruce e por todas as coisas que Eric Clapton tinha. Era uma visão maravilhosa e um som explosivo.
Depois de dois terços do set, um deles disse: 'Gostaríamos de convidar um americano amigo nosso ao palco'. Era Jimi Hendrix, e esta foi a primeira noite em que tocou na Inglaterra. Ele veio e fez todas aquelas coisas hoje famosas, como tocar com os dentes. Aquele ingresso custou uma libra ou algo assim. Pode ter sido a melhor compra que fiz na vida. Depois disso, o Pink Floyd começou sua carreira profissional, e a gente encontrava o Cream na estrada. Eles afetaram tanta gente - Jimmy Page deve ter visto o Cream e pensado: 'Cacete, acho que vou fazer isso também', e assim montado o Led Zeppelin. Junto com os Beatles, eles deram a nós todos que estávamos começando no negócio naquela época algo em que aspirar e que não era exatamente pop, mas ainda era popular.
Lembro que Ginger Baker era insano naquele tempo e tenho certeza de que ainda é. Ele acertava a bateria mais forte do que qualquer um que tenha visto, com a possível exceção de Keith Moon. E Ginger batia em um estilo rítmico que era todo seu e extraordinário. De Eric Clapton não precisamos nem falar - é óbvio o quão incrível ele é. E então há Jack Bruce -  e provavelmente o baixista mais abençoado musicalmente que já existiu.
O Cream foi inovador dentro do contexto de toda aquela música vindo da costa oeste dos Estados Unidos na época, de bandas como Doors e Love. Além de ser uma grande banda de blues, o Cream mandava realmente bem em inúmeros outros estilos.
Há músicas em todos os álbuns do Cream que ainda me espantam até hoje, como 'Crossroads', 'Sunshine of Your Love', 'White Room' e 'I Feel Free'. Eles estavam tentando compor material que fosse verdadeiramente progressivo e original. E conseguiram."

sábado, 11 de julho de 2020

Caetano Veloso - Em Meio À Geleia Geral

A contribuição de Caetano Veloso para a música brasileira, e mais amplamente falando, para a cultura brasileira de uma forma geral é inegável. Por isso seu nome sempre é lembrado ao se falar da cena musical brasileira, a partir dos anos 60, quando ele surgiu, até os dias atuais. Assim, uma coleção voltada aos grandes mestres de nossa música, chamada Os Grandes da MPB, e que saía em fascículos em bancas de jornais nos anos 90, teve um número dedicado a Caetano. Dele extraí esse texto, assinado por Francisco Rodrigues:
"Uns dez anos depois do estouro da Bossa Nova, a estão chamada vanguardista música brasileira, que servia de trilha para filmes de sucesso, conhecidos e premiados no exterior, como Orfeu Negro, de Marcel Camus, e Um Homem... Uma Mulher, de Claude Lelouch, começava a invadir terras americanas e europeias e a música feita no Brasil - e para os brasileiros - não conhecia novos horizontes. Foi em meio a esse panorama, muito influenciado por João Gilberto e Tom Jobim, mas querendo ampliar as perspectivas e mesclar o gênero já estabelecido com motivos que vinham do Nordeste, sem com isso cair no regionalismo puro e simples, e as novas experimentações harmônicas e eletrônicas, que surgiram os baianos.
Caetano Veloso e Gilberto Gil eram como líderes dessa renovação, que contava ainda com o compositor Tom Zé, os poetas Torquato Neto e Capinam e as vozes ímpares de Gal Costa e Nara Leão (Maria Bethânia, irmã de Caetano e que viera para o Rio substituir Nara no musical Opinião, corria por fora, cantando na noite e se chegando mais perto do povão, que adorava os sambas de Noel Rosa, e as canções românticas, tipo dor-de-cotovelo, mais próprias de um público noturno), embalados pelas guitarras e irreverência do grupo Os Mutantes e as orquestrações de Rogério Duprat.
Alegria, Alegria, considerado o estopim do movimento baiano, conseguiu um quarto lugar no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record/São Paulo, enquanto o Ponteio de Edu Lobo, o Domingo no Parque de Gilberto Gil e a Roda Viva de Chico Buarque ganhavam os três primeiros lugares. Era ainda 1967. O grande estouro do Tropicalismo aconteceria no ano seguinte, a partir do álbum que levava, justamente, o nome de Tropicália.
Era, ao mesmo tempo que um trabalho de vanguarda, uma manifestação que procurava exorcizar, fazendo dele a base de sua manifestação, o mau gosto, o kitsch, a geleia geral (título de uma das músicas do disco, de Gil e Torquato) que o Brasil representava naquele momento.
'O poeta desfolha a bandeira
E a manhã tropical se inicia
Resplandente, cadente, fagueira
No calor, girassol com alegria
Na geleia geral brasileira
Que o Jornal do Brasil anuncia
Ê bumba iêiê boi
Ano que vem, mês que foi
Ê bumba iê iê iê
É a mesma dança, meu boi...'
Junto dos motivos de inspiração folclórica haviam também canções com temas-limite, como 'Coração Materno' de Vicente Celestino (nada mais trágico e mais cômico), o bolero 'Lindonéia', inspirado por uma pintura de Rubens Gerschman, a balada 'Baby', que viraria um grande sucesso popular nas paradas na voz de Gal Costa, e até uma revisitação atualizada a um chachacha antigo, 'Las Tres Carabelas'.
Foi um marco e um grande início de renovação para a nossa música popular, que desembocaria em dezenas de novos artistas e de novos gêneros e de novas sonoridades, e como deve ser, novas experimentações.
Como Caetano e Gil dizem em 'Cinema Novo', do álbum Tropicália 2, de 1993, que comemorava os 25 anos da Tropicália:
'Quer ser velho, de novo eterno,
Quero ser novo de novo'. " 

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Muddy Waters, O Maioral do Blues em Chicago

Muddy Waters é figura fundamental na história do blues. Foi o grande responsável pela eletrificação do blues, que até então era eminentemente acústico. Essa mudança aconteceu ainda nos anos 40, e a partir de então o gênero não seria mais o mesmo, ou melhor, expandiria seus horizontes, fazendo uma fusão com o nascente rock'n roll, que na verdade sofreu forte influência do blues em sua formação.
A figura de Waters exercia grande influência entre os novos músicos da segunda geração do rock, principalmente dos ingleses, que invadiram o cenário musical nos anos 60. Os Rolling Stones, por exemplo, nunca esconderam sua admiração e veneração por Waters, sempre o citando como referência no início de sua carreira.
A matéria abaixo, não assinada, foi publicada no nº 1 da revista Rock Stars, de 1983, ano de morte do grande bluesman.
" 'É o não é um homão?' - assim o integrante do conjunto The Band, fazendo as vezes de apresentador, reverenciou o mestre Muddy Waters, quando este deixava o palco após uma interpretação eletrizante de 'Manish Boy'. O concerto de despedida do grupo canadense, imortalizado no filme O Último Concerto de Rock, vivera seu momento culminante. Embora sexagenário, aquele crioulo corpulento ainda conseguia irradiar energia por todos os poros. Estava possuído pela força selvagem do rhythm' blues, o som enérgico e metálico americano.
Ao final, gotas de suor brotando na sua testa, o velho Muddy projetou seu corpo para o ar, no arrebatamento de uma música em que ecoava o protesto ancestral de sua gente. O salto meio desajeitado não teve nada de teatral, foi antes um imperativo, tal a tensão que crescia dentro dele - força a custo contida, necessitando se desencadear. Que instante mágico! Via-se ali a arte despojada, de todos os artificialismos, restituída à dimensão humana, corporal: emoção pura e transbordante de um artista que deixava aflorar os instintos, sensibilidade à flor da pele. Cena de arrepiar, guardar para sempre na lembrança como um troféu, tripudiando sobre os cultores do rock cibernético: 'Meninos, eu vi!'

Seu nome real era McKinley Morganfield, tendo nascido em abril de 1915 no Mississippi. Criança, recebeu o apelido de 'Muddy Water' (Água Lamacenta'), que o acompanhou pelo resto da vida. Perdeu a mãe aos três anos e foi criado pelos avós, numa plantação próxima a Clarksdale, delta do Missississippi - região em que o blues vicejava. Começou cedo a tocar harmônica em saloons, por cinquenta cents a noite. Aos treze anos, já estava tão popular que seu cachê aumentara para dezoito dólares, por doze horas de trabalho (das sete da noite às sete da manhã, com direito a sanduíches de peixe nos intervalos).
Aos quinze, ele já constituíra e liderava um quarteto, no qual aparecia como cantor. Dois anos mais tarde começou a tocar guitarra, tendo o lendário Son House como mentor. Segue-se um período obscuro, ao cabo do qual vamos encontrá-lo trabalhando numa plantação de algodão em 1941. Lá dois pesquisadores do folk foram procurá-lo, a fim de registrar sua versão rústica do blues rural (com óbvia influência de Robert Johnson) para a Biblioteca do Congresso.
Em 1943 foi tentar a sorte em Chicago, empregando-se numa fábrica de papel. Percebendo que sua música não era suficientemente ruidosa para se fazer ouvir em meio à algazarra dos bares locais, adquiriu no ano seguinte a sua primeira guitarra elétrica. Breve começaria a gravar na Chess Records, alcançando importante êxito no seu 78 rpm de estreia, "I Can Be Satisfied" - canção que atestou as possibilidades comerciais do blues elétrico, abrindo as portas das gravadoras (principalmente da própria Chess). Criaram-se assim  as condições para o sucesso de artistas como Howlin' Wolf, Lightnin' Hopkins, John Lee Hooker, Albert King, Freddie King e B.B. King. Mas o principal expoente da chamada 'Escola de Chicago' foi mesmo  Muddy Waters, que emplacou hits sucessivos: 'She Moves Me', 'Hoochie Coochie Man, 'I Just Wanna Make Love To You', 'Got My Mojo Working'.
Depois de influenciar poderosamente os primeiros roqueiros americanos, Muddy visitou a Inglaterra em 1958. O saldo de suas apresentações foi a constituição do conjunto Blues Incorporated, com que esse ritmo começou a fazer a cabeça dos novos músicos americanos - os Stones e os Yardbirds, por exemplo, beberam dessa fonte. Em reconhecimento, o pessoal do rock sempre prestigiou Muddy e gravou com ele - vide as extraordinárias London Sessions, em 1972, com Rory Gallagher, Rick Grech e Stevie Winwood, e mais recentemente, o empenho de Johnny Winter em tornar conhecida a obra e as performances desse gigante da música negra norte-americana, falecido este ano."

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Marianne Faithfull - Revista Bizz (1992)

Marianne Faithfull foi uma presença marcante na cena do rock dos anos 60, fazendo parte especificamente da história dos Rolling Stones, por sua proximidade com a banda, principalmente com Mick Jagger, com quem teve um conturbado relacionamento. Mas seria injusto atribuir somente a esse envolvimento sua passagem pelo mundo do rock, afinal teve uma boa, embora efêmera carreira como cantora e atriz. Por isso Marianne foi lembrada na revista Bizz nº 79, de fevereiro de 1992, na seção Jukebox, em texto escrito por René Ferri:
"Ela é um caso raro na música pop. Uma artista que, mesmo com uma produção bissexta, é o tempo todo fascinante - jamais caindo no esquecimento, nunca saindo do foco da atenção do público e da crítica.
Há muito, desde os anos 60, sua voz perdeu o frescor e o encantador vibrato, para ganhar um registro rouco, gutural, fantasmagórico, cada vez mais acentuado. Como cantora e personalidade, Marianne é uma das mais interessantes do seu tempo. E note-se, ela surgiu na fervilhante Londres dos anos 60, a das grandes revelações que transformaram a história da música popular ocidental.
Desde seu aparecimento, Marianne só fez chocar, começando por sua descendência nobre: seu tio-bisavô  foi o infame Leopold Von Sacher-Masoch. Sua mãe é baronesa do ex-império austro-húngaro.
Uma aristocrata decadente no meio da escumalha noveau riche do rock causou impacto: primeiro estupefação e deslumbramento, depois uma perseguição abjeta movida pela morbidez de certa imprensa rancorosa e cheia de preconceitos.
No auge do sucesso trocou a música pelo teatro sério. Autêntica liberal, facilitou a imagem de anjo caído e libertina impingida pela opinião conservadora.
Como intérprete, começou gravando originalmente o hit "As Tears Go By", dos Rolling Stones, e prosseguiu estabelecendo colaborações com Andrew Oldhan, Jackie DeShannon e Paul McCartney (fez a primeira cover de Yestarday).
Gravou "Scarborough Fair" e "Spanish Is A Loving Tongue" antes de, respectivamente Simon & Garfunkel e Bob Dylan. E ainda várias canções de Donovan, antes de ficarem famosas na voz do autor. Sua "Sister Morphine" antecedeu a dos Stones em três anos.
Uma série de crises - culminando em tentativa de suicídio - e o uso de drogas praticamente encerraram sua carreira no início dos anos 70. Depois fez várias tentativas frustradas de voltar, já recuperada do ciclo das drogas pesadas, mas acumulando um fascínio doentio pela morte. Só fomos assistir a seu verdadeiro ressurgimento em 79, com o incrível LP Broken English, um dos mais ousados e melhores discos já concebidos. A temática, passando por terrorismo, autodestruição, pornografia explícita e suicídio, pregou um susto em todo mundo e fez com que Marianne voltasse ao sucesso.
Doze anos e apenas quatro álbuns depois, espera-se que a qualquer momento ela reapareça e, de novo, nos encante. Lá fora, pelo menos, a espera pode ser atenuada com o vídeo Blazin' Away (de sua última turnê, em 89/90) e a recém-lançada biografia As Tears Go By.
Cada disco seu tem algo forte, chocante, novo ou surpreendente. Tem sido assim desde seu primeiro single, e lá se vão mais de 25 anos!
Definitivamente, Marianne Faithfull é única."

Milton Nascimento: "Só Eu Posso Mandar em Mim" (Revista Pop - 1975)

1975 foi um bom ano para Milton Nascimento. Naquele ano ele lançaria um de seus melhores e mais bem sucedidos discos, Minas, além de estar envolvido com outros projetos, inclusive a nível internacional. Quando esta matéria foi publicada na revista Pop, Milton não havia lançado ainda o citado disco, mais falava de alguns projetos paralelos, dentre eles, fazer o lançamento de seu amigo Beto Guedes, que na ocasião só havia participado de uma única gravação: um disco coletivo com Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta. Beto aliás, participaria de forma destacada no disco Minas, não só como instrumentista, como no dueto vocal em uma das músicas que mais se destacaram naquele álbum, Fé Cega, Faca Amolada.
Abaixo segue a transcrição da matéria:
"Cada show de Milton é um acontecimento em que crianças, velhos e jovens partilham emoções intensas geradas pela música. Aqui, ele fala de como descobriu que não há nada de errado em sua cuca, revela seu grande amor pelas crianças e conta que está escrevendo uma peça musical.
Gosto de fazer shows para estudantes e deixar a cargo deles a organização e divulgação dos espetáculos. Tenho viajado muito pelo Brasil e estou impressionado com a incrível renovação do público. Você pinta no palco e vê gente de 13, 14 anos superlotando o teatro e curtindo o mesmo som. Já o Circuito Universitário não me satisfaz. Esse negócio de chegar de manhã numa cidade, cantar à noite e viajar em seguida não dá pé. Dá a impressão de que a gente está tomando banho em água suja. Prefiro chegar uma semana antes, entrar em contato com o povo do lugar, curtir a cidade, receber e dar o máximo de informações.
Este ano, quero viajar por todo o Brasil cantando minhas músicas. Estou com várias composições novas e ando louco para mostrá-las. Também estou escrevendo uma peça musical junto com Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Fernando Brant para lançar Beto Guedes, um compositor e cantor da pesada. É capaz de virar um grande musical, uma coisa incrível mesmo.
Até bem pouco tempo atrás eu morria de medo das pessoas pensarem mal de mim. Fui criado em Três Pontas, interior de Minas, onde os grilos são inacreditáveis. Nunca gostei de gente que vive censurando o procedimento dos outros, pouco se importando com a verdade de cada um. Levei grande parte da minha vida fazendo autocensura, me policiando mesmo. Mas o artista, por sua própria natureza, não pode ficar tolhido por qualquer tipo de censura. Do medo nasce o pânico, e aí a autodestruição vem rápida: bebida, desinteresse, chateação. Então, num dia de extrema lucidez, bati um papo comigo mesmo e percebi que nada havia de errado no meu interior. Tudo o que me conflitava vinha de fora. Aí saquei que a única pessoa que tinha direito a mim era eu mesmo. Daí em diante, fiz só o que achava certo e entrei numa muito boa.
Meu sonho atualmente é comprar uma casa onde possa viver com gente legal, aberta, sem nenhum preconceito e cheia de verdade interior. Minha maior paixão é meu filho Pablo. Eu adoro crianças! Ela mora em São Paulo, com a mãe. Mas estou sempre em contato com ele. Quando me apresentei no Anhembi, em São Paulo, houve um negócio que me emocionou muito: tinha gente à beça e, quando cantei Pablo, os pais ergueram seus filhos nos braços e ficaram cantando e pulando. Uma loucura! Parecia que todos os bebês de São Paulo estavam lá. Menos meu Pablo. A mãe dele teve medo da multidão e preferiu não lavá-lo. Nesse dia, chorei de montão."