Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 7 de março de 2021

Emerson, Lake & Palmer (Jornal de Música - 1976)


 O Emerson, Lake  & Palmer foi um dos principais grupos do rock progressivo. Formado por três grandes músicos, virtuoses em seus instrumentos, o trio lançou discos antológicos na década de 70. Em 1976 o Jornal de Música nº 22 publicou uma matéria traduzida do jornal musical americano Melody Maker, assinada por Chris Welch. Na ocasião o ELP andava meio sumido de cena, se reciclando e desenvolvendo seu som, como a matéria revela:

"E o que houve com Emerson, Lake & Palmer? Há dois anos que se escondem atrás de uma barreira de silêncio tão impenetrável como a Grande Muralha da China. Seu último álbum (Welcome Back My Friends to the Show that Never  Ends) foi lançado em 74, e de lá para cá não houve mais discos, nem turnês, nem mesmo uma palavra sequer de Keith Emerson, Carl Palmer ou Greg Lake.

No Natal passado Greg Lake lançou uma versão-surpresa de Jerusalem, em compacto, e Keith colocou na praça sua gravação de Honky Tonk Train Blues, feita em 1972 com a New Jazz Orchestra como parte de um projeto individual.

A Manticore Records recusa-se a comentar sobre qualquer boato, e seus porta-vozes apenas repetem: 'Existem muitas coisas no ar... quando tudo estiver certo entraremos em contato.' É óbvio que o ELP instrui sua equipe para que nada revele, provavelmente com o objetivo de criar maior impacto para seu próximo lançamento.

Parece que estão ensaiando e gravando um álbum triplo na Suíça: cada membro do grupo comparece com um disco.

O ELP é uma banda muito criticada por suas tendências exibicionistas e por um certo exagero, que incomoda os apreciadores do rock primitivo. Mas seu público adora o clima excitante que o trio cria no palco, e suas qualidades musicais são indiscutíveis. Comparado com as bandas que surgiriam depois, o ELP, na sua série de turnês de 70 a 74, foi até discreto. Seu equipamento mais espetacular era o tanque Tarkus, que soltava nuvens inofensivas de fumaça. Foram os primeiros a usar um sistema de arcos de luz na iluminação do palco, mas muitas bandas passaram a imitá-los. Fora isso, o ELP ficava tão parado no palco quanto o Modern Jazz Quartet.

Havia muita publicidade em torno das toneladas de equipamento e do excesso de efeitos, mas o ELP buscava apenas extrair o máximo de seus instrumentos. Keith fez experiências com moogs polifônicos e Carl mandou fazer uma bateria de acordo com suas próprias  especificações. Mas não acho que  estivessem querendo aparecer mais do que certos artistas que usavam maquiagem de palhaço ou voavam sobre o palco pendurados por um fio. As bandas agora usam mais teclados no palco do que Emerson jamais sonhou.

Minha opinião pessoal sobre o sumiço do ELP é que eles simplesmente estavam pregados. Exaustos, precisando repensar e recarregar as baterias.

Keith aguentou a barra de vários anos de trabalho musical, começando com o T. Bones, depois com P.P. Arnold e, finalmente, com o Nice. Quando tinha vinte e poucos anos, sua vida consistia em tocar órgãos e pianos em clubes e bares, estúdios e auditórios. Foi um dos homens mais dedicados à música, uma dedicação até perigosa, chegando ao ponto de tomar uma garrafa de brandy por dia para conseguir manter o mesmo nível de intensidade musical. Já devia estar cansado de ter que falar sobre rock clássico ou explicar para o milésimo jornalista porque o ELP faz tanto sucesso.

Greg passou vários anos tocando em grupos pequenos e depois fez parte do King Crimson. Agora tem tempo para dedicar-se a afazeres humanos, como a pesca. Carl pode canalizar a energia inesgotável que despendeu em Chris Farlowe and the Thunderbirds, The Crazy World of Arthur Brown e Atomic Rooster para algo menos estafante assim como jogar golfe. Esse descanso deve ter sido um período de sanidade em meio à loucura.

O grupo começou com Keith e Greg, e não havia baterista. Carl havia sido convidado mas  sentia certa lealdade para com o Atomis Rooster. Pensaram em Jon Wiseman ou Mitch Mitchell. Quando Carl aceitou, reuniram-se nos estúdios da Island e ensaiaram todo o seu repertório: três músicas. Eram Rondo (do Nice), 21st Century Schizoid Man ( do King Crimson) e uma composição de Bela Bartok.

O nome sugerido para o conjunto foi Triton, depois viram que usar apenas seus sobrenomes seria menos pretensioso. A grande ironia é que seriam duramente criticados, entre outras coisas, por causa da pomposidade do nome do grupo.

Esse primeiro ensaio foi em março de 1970, e Carl dizia: 'Neste momento estamos sendo supercríticos a respeito da nossa música. Queremos estar à altura das expectativas.' Essa determinação quase acabou com o grupo. A comparação inevitável com o Blind Faith(*). Preocuparam-se tanto em corresponder às expectativas que chegaram a enlouquecer alguns críticos que há anos vinham perguntando: 'Por que o público não ouve os grupos mais técnicos ao invés dos incapazes e incompetentes da música comercial?' Hoje esses mesmos críticos reclamam: 'Chega desses músicos técnicos e monótonos! Tragam de volta as bandas analfabetas e incompetentes de punk rock!'.

O ELP estreou no extraordinário Festival da Ilha de Whigt, em 1970. Jimi Hendrix fazia sua última apresentação e o ELP lançava a nova era dos supergrupos. Seu primeiro disco, Emerson, Lake & Palmer, foi um grande sucesso de vendas. Duas músicas de Greg Lake se tornaram os maiores sucessos do grupo na época: Take a Peble e Lucky Man.

Em seguida gravaram Pictures at an Exibition ao vivo, no Newcasatle City Hall (março de 71), uma boa adaptação da peça de Moussorgsky. Em 71 ainda fizeram Tarkus, um álbum de estúdio incluindo, entre outras, The Sheriff e Hoedown (mais uma adaptação de compositores contemporâneos: dessa vez foi Aaron Copland).

Em 1973 gravaram Brain Salad  Surgery, um disco com interpretações dramáticas e neuróticas, como Kara Evil, contrastando com a solenidade de Jerusalem e o humor de Banny the Bouncer. Seus admiradores sempre concordaram que o melhor do grupo eram seus shows, quando um incentivava o outro e todos tocavam com energia e vontade. Por isso mesmo eles lançaram Welcome Back My Friends to the Show That Never Ends com material gravado ao vivo durante uma excursão mundial em 73 e 74, incluindo músicas de todos seus discos anteriores.

O centro do ELP sempre foi Keith Emerson, e as ideias do grupo talvez possam ser analisadas por um papo que levei com ele em 1972, numa discothéque de Tóquio.

- Sou extremamente autocrítico. Analiso tudo que toco, talvez até demais. Não me entusiasmo com o sucesso, porque só quero me comunicar com as pessoas num nível musical. Às vezes subo no palco e penso: 'é só mais uma apresentação'. Tenho que parar de pensar assim. Um músico, além de ser musical, tem que divertir as pessoas. Quando toco, ponho a música  em primeiro lugar, mas - como no jazz e na música clássica - a parte visual também é importante. Buddy Rich sabia disso. Paganini, quando punha velas pretas em cena, também sabia."



(*) Outro supergrupo formado pela reunião de grandes astros: Ginger Baker, Rick Grech, Eric Clapton e Stever Winwood. Não deu muito certo.



sábado, 6 de março de 2021

Sérgio Sampaio (Rock, a História e a Glória (1976)


 A revista Rock, a História e a Glória publicou em 1976 em sua edição nº 17 uma entrevista com Sérgio Sampaio, um dos mais brilhantes cantores e compositores de sua geração. A matéria é assinada por Tania Carvalho:

"Seu último elepê foi gravado há três anos. O que determinou esse período de entressafra?

Eu fiz um disco na Phillips na fase pós Bloco na Rua. Sabe como é que é, estourou uma música automaticamente a gravadora te pega pelo braço e te joga dentro de um estúdio. O disco não ficou comercial quanto a gravadora achava que deveria ser. Na verdade, não tinha outro Bloco. Depois desse disco eu fiz ainda um compacto e resolvemos de comum acordo que eu deveria dar um tempo. Naquela época as coisas estavam tomando rumos que eu não queria: muito sucesso, muita televisão, muito São Paulo. Eu estava sem tempo pra sentir e, obviamente, para compor. Fui embora para o Espírito Santo largando tudo. Fiquei lá por um tempo, me casei e um dia voltei a fim de reestruturar todas as coisas.

O fato de você não ter aproveitado o seu período de sucesso não representaria um grande perigo para a continuidade da sua carreira?

Sem dúvida eu poderia ter aproveitado muito mais a fase de loucura, do sucesso. Acontece que sou uma pessoa muito sensitiva. Não sou um racional, intelectual que faz as coisas cerebralmente. Naquela época eu era um compositor novo com relação à minha obra. Eu sabia que tinha muita coisa pra dar. Mas para isso eu precisava de tempo. Não adianta você ser uma pessoa que sabe o que quer porque de repente as coisas atingem determinados níveis que as pessoas começam a te pegar pelo braço. Eu não sou uma pessoa que se deixa carregar. Outra coisa: se eu não tivesse parado naquela época, até hoje eu seria o rapazinho do Bloco na Rua. E eu sempre quis ser Sérgio Sampaio. Hoje eu sou um artista. O importante na história sou eu e não minha obra. Essa vem depois porque nasce de mim.

E como você reagirá agora a um novo sucesso?

Agora eu seguro a barra. Sei o que é o sucesso, o que ele representa e pra onde ele vai e te leva. Tem um outro aspecto, eu sou um compositor popular, a minha origem é no povo, sou filho de maestro de banda de música que compunha dobrados. Essas são as minhas raízes mas naquela época eu não compreendia isso. Era também uma época de muita confusão, onde as coisas se modificavam com uma velocidade incrível. O que se fazia num dia já era velho no outro. Ou pelo menos tido como. Eu não conseguia me situar e nem tinha tempo para fazer uma análise da minha situação. Eu não estava preocupado se o que fazia era bom ou ruim mas sim se era real. Foi quando eu resolvi parar para ouvir.

Você não tem medo de se dizer um compositor popular? Pra muita gente popular é sinônimo de falta de qualidade.

Eu faço o que sinto. E os meus sentimentos são populares. Se é bom ou ruim... não sei não. Eu gosto muito. Acredito, também, que ninguém que faça música no Brasil possa negar as suas  raízes populares. Principalmente eu que nasci e me criei no interior ouvindo rádio. Minhas paixões sempre foram Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Nélson Gonçalves, Adelino Moreira. Eu toco violão sem saber música. Eu aprendi a cantar cantando. Rock? Só conheci aqui no Rio de Janeiro. O que é que podia sair disso tudo? Um compositor popular.

Na sua opinião qual o motivo que impelia as pessoas a cobrarem demasiado de cada novo compositor que apareceu após o Tropicalismo?

Na época que Caetano, Chico, Gil e mais uma porção de gente apareceu, todas as artes brasileiras estavam valorizadas. Existia o Cinema Novo, o Teatro Oficina e por aí vai. A atenção das pessoas não estava voltada para um só grupo ou para determinada manifestação artística. De repente deu-se um branco e  só sobrou a música, e os artistas mantinham-se os mesmos. Você pode ver que hoje estamos na fase dos dez anos depois. Um dia pensou-se: quem é que vai substituir esses caras? Fez-se a loucura. Aparecia um nome e todas as atenções convergiam para essa pessoa. Os novos compositores eram ansiosamente esperados e desesperadamente cobrados. Quando o cara fazia um disco já se questionava o que ele faria depois ou mesmo se aguentaria o sucesso. Era uma barra muito pesada porque a criação era deixada pra trás. Eu mesmo fui chamado de gênio. Ora, se eu fosse gênio eu voltava pra minha terra. A história da música popular brasileira depois do Tropicalismo é quase uma fábula: a galinha não tinha mais pintinhos. Fez-se uma reunião de cúpula e decidiu-se que a única maneira de fazer pintinhos era quebrando os ovos. E tome de quebra-quebra. Tiravam bichinhos lá de dentro ainda com os olhinhos fechados e obrigavam a andar.

Mas por que a galinha demorou tanto a ter pintinhos?

Ela não demorou não. As pessoas é que estavam com dificuldade de enxergar. E porque essa compulsão de querer gente nova? Os ditos velhos continuam fazendo até hoje um trabalho cada vez mais novo. O que não é possível é buscar em cada compositor que aparece a nova solução para os problemas do mundo. Assim ninguém se cria. Quer ver um exemplo? O Roberto Carlos teve uma carreira lenta, ficou batalhando sete anos pra conseguir alguma coisa. O próprio Caetano levou muito tempo apertando botão na televisão até se impor*. E isso deu tempo para que eles se aclimatassem com a sua  própria carreira. Quando eles chegavam diante de um microfone sabiam exatamente o que tinha de fazer. Eu, por exemplo, não fiz nenhum show porque não sabia o que iria fazer no palco. Eu não tive tempo de amadurecer a minha carreira.

E a Grã-Ordem Kavernista. O que era aquilo?

Foi o desespero. Na verdade o Raul Seixas sempre foi louco e com mania de fundar sociedades. Na época que a gente fez esse disco ele era produtor da CBS e vivia muito tolhido porque já era o grande artista que todo mundo hoje conhece. E nós éramos grandes amigos, nossas opiniões combinavam muito e a nossa vontade de fazer alguma coisa era muito  grande. Chamamos o Edy Star e a Miriam Batucada e fomos para o estúdio. O nome da sociedade saiu na hora. O kavernista pintou porque naquela época a gente falava muito em volta às origens, aquele papo que os homens iriam viver em cavernas depois da explosão da bomba atômica, essas maluquices. Agora, sem dúvida foi um disco delicioso de ser feito. Chamamos o porteiro pra cantar, pegávamos gente na rua pra entrar no coro. Uma grande confusão.

Raul Seixas e Sérgio Sampaio em 72
Como se explica o fato de você e Raul, apesar de serem amigos, começado juntos, estourado no mesmo Festival, terem um trabalho tão diferente e conseguirem gostar um do trabalho do outro?

A nossa fome era do mesmo quilate. A garra de fazer coisas era igual.  A gente se completava muito. Não tenha dúvidas que hoje sou compositor de música popular brasileira enquanto o Raulzito tem uma visão mais cósmica da arte. Agora nós nos entendemos musicalmente porque eu gosto principalmente das coisas que Raul diz através da música. E ele curte também demais a minha poesia. E assim a gente vai se entendendo. O nosso gosto é que não combina mesmo. Uma vez levei o disco do Paulinho da Viola pra ele escutar. No outro dia voltei e o disco estava no mesmo lugar. Ele me explicou: até que eu coloquei o disco na vitrola, mas quando chiou eu tirei. De Paulinho da Viola, Raulzito só conhece o chiado antes da música.

Voltando ao Bloco. Muitas pessoas encararam a música como uma mensagem de participação. Ela era realmente?

Minha música não era uma bandeira. Na verdade era um desabafo muito grande. E, no sentido geral, ela fala da marcação de touca, da bobeira. O engraçado é que depois do meu afastamento ela ganhou um novo sentido. Eu canto com uma inflexão o 'há quem diga que eu dormi de touca'. E para ser sincero eu ainda quero botar o meu bloco na rua.

Você estava em Cachoeiro quando explodiu o Tropicalismo. O que você achou de tudo aquilo?

Eu fazia parte de um grupo de intelectuais, é claro. Nós não tínhamos televisão mas fazíamos aglomeração em frente à loja de eletrodomésticos. Eu fiquei felicíssimo quando pintou o Tropicalismo.  Eu até disse no meu programa de rádio em Cachoeiro: 'Agora eu quero ver. Sempre se imitou o jeito de cantar e de compor. Quem é que vai conseguir imitar os versos de Caetano?' O Tropicalismo também aumentou a minha vontade de fazer coisas minhas. Agora, eu não fiquei de nenhum lado. Só quando cheguei ao Rio é que soube que havia uma polêmica desgraçada. Eu sempre estive onde tinha música. No meu programa tocava Roberto e Erasmo Carlos, Orlando Silva e Caetano Veloso. Até hoje é assim: só escuto o que gosto. E não ouço discos que tenham nomes complicados.

Quais são os maiores entraves para um artista que não está na crista do sucesso mostrar seu trabalho?

O primeiro entrave é a mistificação em torno do sistema empresarial. Para todo mundo artista sem empresário não trabalha. É preciso acabar com isso e acho que a minha geração artística está conseguindo terminar com esse mito pois estão criando uma nova filosofia e novos empresários adaptados a um novo tipo de trabalho. Com relação a disco parece que de um tempo pra cá as gravadoras resolveram que não tinham mais dinheiro pra fazer experiências. E resolveram só jogar no certo embora nem elas saibam o que é certo. Nas rádios, os artistas têm que pleitear um lugar no  famoso 'listão' que só comporta 60 músicas. E, por fim, para fazer um espetáculo em teatro é necessário que alguém assuma as despesas que uma atividade empresarial sempre acarreta. E é muito difícil que alguém tope fazer um show com um artista que não é garantia de bilheteria. Ninguém acredita num artista novo. E os empresários são todos os empresários no sentido estrito da palavra.

Pra terminar, fala um pouquinho do seu disco novo.

A gravadora é a Continental. O produtor é Roberto Moura e o diretor musical é o João de Aquino. Eu tinha muito material e resolvemos que cada um de nós iria fazer uma seleção. Feito isso tiramos as músicas unânimes e debatemos horas as restantes. O primeiro cuidado que o Roberto e o João tiveram foi na escolha do arranjador. Nós precisávamos de alguém que soubesse respeitar uma harmonia quadrada. Se eu faço uma música com dois acordes naturais quero que ela seja executada, em termos de arranjo, como eu criei, sem muito inventivismo. O arranjador é o Gaya. De resto é um trabalho bastante profissional encarado seriamente por pessoas que não estão a fim de brincadeira."



*Ele se refere ao programa Essa Noite se Improvisa, em que Caetano se apresentava no início da carreira. O apresentador dizia uma palavra e o concorrente apertava um botão para cantar uma música em que a palavra constava na letra


sexta-feira, 5 de março de 2021

O Rock Nordestino (História do Rock Brasileiro Vol. 2)


 A revista Super Interessante lançou há alguns anos uma ótima série de quatro revistas falando sobre o rock brasileiro, dividida por décadas. Na revista sobre os anos 70 há um capítulo sobre o rock que a partir daquela década passou  a ser criado por artistas nordestinos, que segundo a publicação "juntaram a viola e a rabeca de sua infância com a guitarra da adolescência". Essa tendência ganhou força com Alceu Valença, e foi ganhando forma ao longo do tempo com outros artistas como Zé Ramalho, Fagner, Belchior e outros. Segue abaixo o texto:

"O Mamulengo e a Cantriz. Cada um deles encarnou um personagem do povo em sua imagem de astro. Alceu Valença, pernambucano de São Bento do Una, levou a graça e os trejeitos de um tipo de teatro infantil festejado nas feiras livres do Nordeste, os bonecos de pano, vulgo mamulengos. No Recife, rumo dos meninos do interior que queriam estudar, cruzou o violonista Geraldo Azevedo e produziram o álbum Quadrifônico (1972).

Teatro também corre nas veias de Elba Ramalho, paraibana de Conceição do Piancó e criada na cidade mais cosmopolita do interior nordestino, Campina Grande. A mocinha chegou, enturmou-se e foi parar nos corais falados de Cecília Meireles e Manuel Bandeira. Até São Paulo, foi um salto. No desvario da Pauliceia, conheceu Luiz Marinho e participou, com ele e Tânia Alves, de um dos movimentos de teatro underground mais marcantes da história - no começo dos anos 70, estrelou Viva o Cordão Encarnado. Depois fez a Ópera do Malandro e ficou amiga de Chico Buarque. Foi quando a corifeia virou cantriz.

Geraldo Azevedo e Alceu Valença

É isso aí: cantora e atriz. Agora, uma pausa para refrescar o recreio. No começo dos anos 70, este escriba imodesto estava em João Pessoa e resolveu comparecer a um espetáculo estrelado por Elba Ramalho e Tadeu Matias no Teatro Santa Rosa. Tadeu substituía Geraldo Azevedo, à época marido e parceiro da menina do Vale do Piancó, no show Baião de Dois. Fui, vi, detestei e sapequei: 'Elba Ramalho jamais será uma estrela'. Este foi o título de meu comentário publicado no jornal A União, inspirado na antipatia que me causara a excelente atriz virar uma mera imitadora de Gal Costa. Não tive humildade nem paciência para perceber como Elba se tornaria uma estrela justamente por levar à classe média do Sudeste a tradição antes circunscrita aos forrós da periferia e defendida com competência pela campinense Marinês. Mas tive a pachorra de me confessar um mau profeta ao assisti-la brilhar como poucas no céu da canção.

Fagner
Como Elba Ramalho, Raimundo Fagner nasceu muito perto de onde nasci (eu no sertão seco de Uiraúna, Paraíba, ele às margens do açude de Orós, no Ceará). Do sertão, migrou para Fortaleza e de lá para o universo batizado de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde virou ídolo cult, daqueles compositores mais lidos que ouvidos, ao lançar 'Mucuripe', parceria com Belchior, pelo Pasquim, que tinha editora e selo. A canção seria gravada por Elis Regina e Roberto Carlos, e serviu de plataforma para lançar o astro de Orós num LP magistral, Manera Frufru Manera (1973). O disco contém regravações antológicas do clássico nordestino 'O Último Pau de Arara' e do totem pop 'Nasci Para Chorar (Born To Cry)'. Mas Fagner ficou conhecido mesmo por um plágio: uma fã lhe havia dado um poema que ele musicou: era Canteiros, de Cecília Meireles, e ele não sabia. Gravada a canção, os herdeiros da poeta entraram na Justiça e o disco se tornou uma raridade, até que as partes entrassem em acordo.
Fagner é um compositor que gosta de poesia erudita (é parceiro de Ferreira Gullar, Florbela Espanca, Francisco Carvalho) e popular (é o maior responsável por seu conterrâneo Patativa do Assaré ter virado moda urbana), mas sua maior importância na MPB é como intérprete. Ele é um almuadem, aqueles pregoeiros muçulmanos que cantam orações, que berra aboios. E traduz como ninguém um sentimento sertanejo por excelência, a urgência.
Ednardo

No  rastro de suas pegadas, no programa Mixturação, da TV Record, surgiram artistas de primeira grandeza, como Ney Matogrosso (Secos & Molhados), Simone, Raul Seixas, Pekim e o Pessoal do Ceará. Este bando, composto de Rodger Rogério, Teti e Ednardo, lançou Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, em 1973, mas logo se desfez. Ednardo faz sucesso até hoje com 'Pavão Misterioso', tema da novela global Saramandaia, escrita por Dias Gomes.

O sucesso de Fagner levou sua gravadora a apostar em seu talento de produtor. O cearense sabia que aquela patota estava mudando o rock ao injetar no gênero doses maciças de poesia sertaneja. E quem fez isso com mais talento, sucesso e precisão foi José Ramalho Neto. Na fazenda do avô, Zé ouvira violeiros pelejarem; e, em grupos de rock de João Pessoa, como Os Quatro Loucos, fizera cover dos Beatles e Stones. Após gravar Paêbiru: o Caminho do Sol, com Lula Côrtes, e de acompanhar Alceu Valença num festival da Globo (em 'Vou Danado pra Catende'), Zé teve gravada sua obra-prima 'Avohai', primeiro por Vanusa e depois por ele mesmo no LP de estreia em que era acompanhado por Bezerra da Silva no zabumba e Elba no backing vocal.

Zé Ramalho, o Chuck Berry de Brejo do Cruz, é um bicho bruto, um poeta intuitivo, puro, natural. Já Belchior, cearense de Sobral lançado em 1974 com 'A Palo Seco', conhece poesia erudita como poucos. Mas essa erudição toda empalidece se comparada com o fato de ter ele escrito dois ícones do cancioneiro brasileiro: 'Como Nossos Pais' e 'Velha Roupa Colorida', lançadas por Elis quando o autor era apenas um retirante."



quinta-feira, 4 de março de 2021

Carlinhos Vergueiro - Famoso, Mas Nem Tanto


 Carlinhos Vergueiro é um cantor e compositor paulista, que está na estrada musical há muitos anos. Seu primeiro álbum, Brecha, foi lançado em 1974, e no ano seguinte conseguiu uma projeção nacional ao sair vencedor do Festival Abertura, um dos mais importantes eventos musicais da década de 70, com a música Como Um Ladrão. Mas nunca chegou a ser um artista popular, tocar nas rádios e aparecer na mídia. Mesmo assim não deixa de ser um nome conhecido para quem acompanha a música brasileira a partir dos anos 70. Por isso, ao ganhar uma matéria na revista Shopping & DVD Music nº 7 (abril de 2004), a mesma trouxe no título "Carlinhos Vergueiro - Famoso, mas nem tanto". Na ocasião Carlinhos estava completando 30 anos de carreira, e lançava mais um disco:

"Carlinhos Vergueiro, cantor e compositor, é um exemplo bem peculiar dentro do universo da MPB em termos de projeção e sucesso. Apesar de possuir uma carreira que já dura trinta anos, ter lançado vários discos e ser um cara muito bem relacionado no meio musical, ainda não caiu no gosto das grandes plateias. É um daqueles artistas que há muito tempo permanece no meio do caminho entre a fama e o anonimato. E que, no entanto, não perde a esperança a cada nova investida. Como agora, quando mais um álbum autoral - Por Todos os Sonhos (distribuição Som Livre) está chegando às lojas do Brasil.

O paulistano de 52 anos estava sem editar um disco de inéditas desde 1999, quando apresentou o trabalho independente Contra-Ataque - Samba e Futebol. Agora, ele ressurge otimista. 'É uma batalha a vida da gente. Mas agora com a distribuição de uma grande gravadora isso aumenta a nossa visibilidade', comemora Vergueiro, que acumula em sua carreira composições com Chico Buarque, Toquinho, Vinícius de Moraes, Sueli Costa, Paulo César Pinheiro, J. Petrolino, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, João Nogueira e outras figuras conhecidas.

 Todas essas amizades e parcerias surgiram a partir de 1973, quando Vergueiro iniciou sua carreira fonográfica. A curiosidade é que, nessa época, ele trabalhava na Bolsa de Valores de São Paulo. Depois passou a lançar discos com boa frequência até os anos 80. Ao todo, ele lançou 2 compactos, 11 LPs e 2 CDs. Outro  dado biográfico relevante do artista é a conquista do Festival Abertura (exibido na Rede Globo), em 1975, com a música 'Como Um Ladrão'.

Seu novo CD tem 11 faixas (a maioria inéditas), todas autorais. E mais uma vez, surgem dobradinhas com compositores consagrados e participações luxuosas. O samba 'Lugar de Cobra É no Chão' (escrito por ele e Arlindo Cruz) aparece na voz de Chico Buarque. Já o  bolero 'Motivos Banais' e o xote 'Forró de Amor' (parcerias de Carlinhos com Carlos Colla e J. Petrolino, respectivamente), trazem as interpretações de Fagner e Alceu Valença, que completam o time de convidados ao lado do grupo de  samba Toque de Prima (que toca em 'Eu Quero Ver', samba de teor ecológico).

Ainda aparecem obras compostas com Paulo César Feital ('Sem Tribo'). Paulinho da Viola ('Pretensão'), Elton Medeiros ('Relaxa', uma das melhores do CD) e com Chico Buarque (a regravação de 'Leve'). Essa última canção foi escrita pelos dois há alguns anos, especialmente para a filha do compositor, Dora Vergueiro, que é cantora e apresentadora de TV, quando ela fez sua estreia em disco.

Um detalhe incomum do disco refere-se à sua produção, que traz créditos a Ronaldo Nazareno (sim, ele mesmo, o Ronaldinho 'Fenômeno' do futebol) e Rodrigo Paiva, seu assessor pessoal. 'O Ronaldo já ajudou vários artistas, ele tem essa preocupação. Ele bancou, juntamente com o Rodrigo, esse projeto', observa Vergueiro, que é torcedor do Fluminense e que já havia encontrado o craque em algumas peladas promovidas por amigos em comum.

Por Todos os Sonhos é um disco simples, mas muito bem feito pois só tem gente boa nele', comenta Vergueiro, que não se abate com a falta de reconhecimento após tantos anos de luta. 'Continuo acreditando nos meus sonhos e fazendo minha parte. O importante é não perder o espírito de aventura e nem a minha alegria. Espero que esse disco sirva para mostrar que eu sou um cara que está aí, na batalha, há 30 anos e que ainda não desisti', finaliza."


quarta-feira, 3 de março de 2021

The Song Remains The Same - O Filme


 A união do cinema com o rock já rendeu bons frutos, tanto na esfera dos documentários como na ficção. Por isso muitas bandas populares têm registros na área cinematográfica, principalmente por oferecer um bom retorno de público aos produtores. Assim foi com o Led Zeppelin, que em 76 foi retratado numa produção cinematográfica chamada The Song Remains The Same, que estrearia no Brasil no ano seguinte sob o título de Rock É Rock Mesmo. A revista Rock Stars nº 4, de 1984, lembraria desse filme, que despertou grande interesse e levou aos cinemas milhares de fãs do Led Zeppelin:

"Em 1973 o Led Zeppelin estava no auge do estrelato, após vender antecipadamente dois milhões de cópias do LP Houses of the Holly. Foi quando adquiriu seu próprio avião - um Boeing 720 de luxo - e saiu em excursão pelo mundo. Só nos EUA, o quarteto visitou 33 cidades. E, encerrando a temporada, houve alguns concertos no Madison Square Garden de Nova Iorque, filmados por Peter Cliffton e Joe Massot, especialistas em filmes  de rock. No último deles, uma ocorrência policial: o roubo de polpuda receita.

Iniciava-se aí a saga de The Song Remains the Same, o filme, que no Brasil recebeu o título de Rock É Rock Mesmo. De início, um projeto indefinido, conforme se nota nestas declarações de Robert Plant: 'Na verdade, o filme procura esclarecer quem nós somos, procura mostrar os componentes mais secretos de nossa música, as intenções, os baratos... Mostrar a personalidade de cada um de nós, e de Peter também, que é o quinto membro do Zeppelin.'

Depois, foi formando forma definitiva, misto de reportagem policial, registro do concerto americano e ficção, com as sequências de fantasias revelando os sonhos e íntimos desejos do ego de cada um. Segundo Page, o filme era para ter sido uma coisa totalmente diferente. 'Mas se nós incluíssemos diálogos demais, nós estaríamos deixando a música de fora, e nosso maior objetivo é sempre a música. Aí eliminamos a ideia de entrevistas com cada membro do grupo. Até a sequência sobre o assalto de Nova Iorque ia cair fora, mas acabou ficando como um documento, afinal, aquilo realmente aconteceu.'

'As sequências de fantasia - continua Page - foram incluídas porque sabíamos que havia falhas no filme do espetáculo, e nós não queríamos cortar a trilha sonora porque grande parte de nosso som é improvisado na hora, e seria uma pena desperdiçá-lo. Então pensamos em fazer assim e acabou se tornando como um disco do Led Zeppelin, que sempre toma forma no estúdio. As sequências de fantasia cresceram e se desenvolveram à medida que foram pensadas e executadas.

Nelas, o empresário Peter Grant aparece como um gangster que elimina os membros de uma quadrilha rival. Bonzo preferiu mostrar-se tal como realmente era em suas horas de lazer, curtindo a família, fazendo festa nos cavalos de sua fazenda, passeando de moto e testando um carro de corrida.
John Paul Jones atravessa uma floresta sombria, lá pelo séc. XVII, enfrentando soturnos ladrões de estrada; chega enfim a uma igreja, onde toca órgão. Page escala arduamente uma montanha para, no topo, encontrar um ancião que é ele mesmo (bebê, jovem, adulto e velho ao mesmo tempo). Finalmente Plant cavalga seu corcel branco por uma região desolada, encontra uma donzela prisioneira num castelo e resgata-a de seus ferozes guardiões.
The Song... estreou em outubro de 1976, com duas horas e meia de duração. Apesar das elevadas aspirações de Page ('... estávamos muito preocupados em fazer um trabalho que ficasse ao nível de outros filmes de rock. Woodstock, por exemplo, que considero o melhor de todos'), os críticos de cinema consideraram o filme pretensioso, híbrido e mal resolvido, enquanto os de música reclamaram que a trilha sonora não continha a melhor versão dos números apresentados. Mas a garotada do mundo inteiro deitou e rolou."


terça-feira, 2 de março de 2021

A Cor do Som (Jornal Hit Pop - 1977)


 Uma grande novidade acontecida no mercado musical brasileiro em 1977 foi o surgimento do quarteto basicamente instrumental A Cor do Som. Mais tarde a banda se tornaria um quinteto com a presença do percussionista Ary Dias. Na foto acima a banda ainda atuava como quarteto. O primeiro álbum da Cor do Som é praticamente todo instrumental, apenas com uma música com letra, mas a partir do segundo, já foram incluídas mais músicas com vocais. O jornal Hit Pop, que vinha encartado na revista Pop nº 63 traz uma matéria sobre a banda, que foi tratada como supergrupo, como diz o texto de apresentação: "Choro, baião, frevo, vale tudo. Desde que tenha uma boa 'leitura rock'. Assim é a Cor do Som, o mais novo supergrupo brasileiro". Abaixo a matéria:

"Um dos exemplos mais claros de que o Brasil é dos países mais ricos musicalmente, inclusive em condições de servir de fonte de renovação para o desgastado rock internacional, é o novo grupo A Cor do Som. Novo como grupo: seus integrantes todos (Armandinho, guitarra e bandolim elétrico; Dadi, baixo; Maurício 'Mu', teclados; e Gustavo, bateria e percussão), apesar de jovens, têm bastante experiência profissional. Mistura de baianos e cariocas, menos de um ano de idade, A Cor do Som faz um trabalho 'em cima de raízes nacionais, como choro, frevo e baião, com uma linguagem rock' - como eles explicam. Mais: 'Nosso trabalho é uma fusão natural de nosso sangue com a nossa maneira de tocar'. A união da moçada, de qualquer jeito, só foi pintar mesmo através de Moraes Moreira, pouco antes do início do seu show Cara e Coração.

Aliás, apesar de toda sua experiência (Armandinho tocou anos no trio elétrico de seu pai, Osmar; Dadi é ex-Novos Baianos; Mu é velho roqueiro; e Gustavo já foi da banda de Jorge Ben), eles dizem que foi especialmente de Moraes Moreira que receberam mais influência para sua fase atual: 'Porque foi ele que nos levou ao frevo, coisa que antes não tocávamos'. E foi baseado exatamente no frevo, e em muito choro que pintou A Cor do Som - o primeiro LP do grupo. Feito às pressas, o disco compensa, porém, qualquer descuido, pela alta qualidade do material escolhido. Tão bem se deram que já foram, inclusive, convidados para tocarem ao lado de Gilberto Gil no Festival de Montreux, na Suíça, em julho próximo. E devem participar também de mais dois festivais na Europa: um na Holanda. O disco, que desencadeou todo este sucesso aconteceu muito rapidamente. 'Nós levamos uma fita na Warner, eles gostaram de cara, e logo já assinamos os contratos. Em um mês fizemos toda a seleção de material e gravamos o disco. 'Entre as melhores faixas incluídas no LP estão os clássicos  Odeon e Brejeiro (de Ernesto Nazareth) e ainda Bodoque, Tigreza (com um arranjo instrumental) e o incrível Espírito Infantil, do próprio Mu, que recentemente conseguiu o 5º lugar no 1º Festival Nacional de Choro, promovido pela TV Bandeirantes, de São Paulo. Eles acham que o Festival serviu também para mostrar que ainda existe muito fechamento na hora de aceitar qualquer novidade: 'São poucos os que estão tentando inovar, no Brasil. Há exceções, como Hermeto Pascoal, mas são exceções mesmo. A coisa chegou a tal ponto que Ernesto Nazareth consegue ser mais novo que o pessoal de hoje. É incrível. Nesse festival mesmo, pintou um detalhe curioso: no início, na fase de ensaios, o pessoal deu a maior força, encarando a nossa como uma inovação. Mas, depois, no final, a maioria preferiu e optou pelos mais tradicionais. Eles precisam entender que não podemos mais fazer o que se fazia há 50, 100 anos atrás.' Por essa e por outras, dá pra sacar que A Cor do Som é um dos poucos, dentre os novos, capazes de fazer algo realmente novo."
 


segunda-feira, 1 de março de 2021

II Festival Internacional de Jazz de São Paulo- 1980


 A partir do final dos anos 70, com o Festival de Jazz de São Paulo, os festivais de jazz passaram a fazer parte do calendário cultural do Brasil, vide também as edições do Free Jazz e do Haineken Concerts, que aconteceram nos anos 80 e 90. Em 1980 aconteceria em São Paulo, a segunda edição do Festival Internacional de Jazz, que reuniu atrações de peso nacionais e internacionais, como Spyro Gyra, Trio Elétrico de Dodô e Osmar, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Dexter Gordon Mary Lou Williams, Toot Thielemans, Peter Tosh, B.B. King, Joe Pass, Champion Jack Duprée, Pepeu Gomes e muita gente mais, ou seja, um time de pesos-pesados do jazz, blues e outros segmentos. Em sua edição nº 41 a revista Música trouxe um belo material sobre o evento. Todas as fotos dessa publicação foram tiradas da matéria:

"A plateia pegou fogo de vez, com um blues cadenciado. Todo mundo de pé, dançando freneticamente o som do reggae e do jazz rock. A multidão batia palmas e urrava para a usina de sons, que a embalou durante os quatro dias de uma grande festa, da qual todo mundo participou, sem exceção.

Estamos falando do II Festival Internacional de Jazz de São Paulo, assistido, no Palácio das Convenções do Anhembi, por mais de 26 mil pessoas e centenas de milhares que acompanharam por rádio e televisão.

O II Festival Internacional de Jazz de São Paulo foi um sucesso absoluto. Um sucesso que, de certa forma, já se prenunciava em 1978, assim que acabou o I Festival, que os mais céticos não acreditavam que fosse vingar. Mas o primeiro Festival contradisse todas as expectativas e lançou definitivamente o Brasil como centro polarizador das mais diversas tendências do jazz atual. E este segundo Festival só veio reforçar as perspectivas do primeiro.

Em termos de público, pelo menos, a satisfação foi visível nos quatro dias do concerto. Tanto da parte do público mais jovem, que foi ao Anhembi, para curtir o som pauleira de Pepeu Gomes, Peter Tosh, A Cor do Som e Hermeto Pascoal, quanto daqueles de gosto mais refinado, interessados nas elaborações de Joe Pass, Woody Shaw, Betty Carter, Mary Lou  Williams e B.B. King. 'Há música para todos os gostos' - dizia, no último dia do festival, um jovem músico.

Pepeu Gomes
Presenças inesquecíveis e de real importância marcaram este II Festival Internacional de Jazz de São Paulo, como a da 'Primeira Dama do Piano', no jazz, a maravilhosa Mary Lou Williams, a da singular e extraordinária vocalista Betty Carter, e a do excelente 'Mingus Dynasty', que, a par de apresentar músicos de elevada categoria, impressionou pela homogeneidade e força de sua interpretação coletiva. Sem falar nos solistas de primeira linha do jazz atual, como o sax tenor, Dexter Gordon, com seu definitivo 'As Time Goes By'; o sax alto Phil Woods com seu belíssimo 'Body and Soul', o gaitista Toots Thielemans, muito bem secundado por seu discípulo Maurício Einhorn e pelo trio de Nelson Ayres; o pistonista Woody Shaw, com sua técnica impecável, extraordinário vigor e segurança interpretativa; o maravilhoso 'entertainer', pianista, cantor e compositor Champion Jack Duprée, com seus blues simples e humorísticos, mas  de alto teor musical; e o incrível B.B. King, que, além de expoente como cantor, toca uma guitarra que fala, canta, chora e cria clima, às vezes com maior lirismo outras da mais alta tensão.
Joe Pass

Do ponto de vista do espetáculo, os destaques maiores deste Festival foram os conjuntos de jazz-rock: Spyro Gyra, norte-americano; o Native Son, japonês; e o que poderia ser chamado de grupo de tango-rock, o sexteto do bandeonista Rodolfo Medeiros. Ente os brasileiros merece destaque nessa linha, o show do conjunto A Cor do Som, que do ponto de vista musical não se enquadrou no contexto do festival, enquanto o grupo de Pepeu Gomes decepcionou, embora movimentando a plateia. Mas a  participação brasileira mais forte ficou a cargo, outra vez, de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti.

Finalmente, como capítulo à parte, a grande badalação do festival foi o grupo de reggae de Peter Tosh (a grande jogada promocional do evento) e um encerramento marcado por uma linha nitidamente de final apoteótico, com um carnaval comandado pelo Trio Elétrico de Dodô e Osmar.

Paralelamente, foram realizados espetáculos em dois auditórios bem menores, que deram oportunidades a grupos novos de jazz, jazz-rock e outros gêneros experimentais: Tentáculo Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, Divina Increnca com Roberto Sion, Conjunto Azul, D'Alma, Bendegó, Ponte Aérea e Carlos Camargo (no auditório G) e Original Jazz Band, Quarteto Moderno, São Paulo Dixieland Band, Paulo Soledade, Mário e Alberto, Duo Ricardo e Vitinho, e Wilson Cúria Trio (no Auditório E)."