Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

João Bosco e o Disco Linha de Passe (O Pasquim - 1979)


 Em 1979 João Bosco lançava seu quinto disco, Linha de Passe. João e sua parceria antológica com Aldir Blanc (no disco também aparece Paulo Emílio na parceria) se solidificava cada vez mais. Na ocasião, o crítico Roberto Moura em sua coluna no Pasquim fazia uma ótima resenha do disco:

"Mal saído o elepê Tiro de Misericórdia, o noticiário do show biz se viu sacudido pela notícia da separação de João Bosco e Aldir Blanc. Um ano depois, reforçados pela presença triúnvera de Paulo Emílio, voltam o músico e o letrista a público com um elepê e um show intitulados Linha de Passe, com o apoio plástico de um outro artista ligado ao grupo, o festeiro e festejado Mello Menezes.

No espetáculo em cartaz no Teatro Claro Nunes, dada a saída na bola para Linha de Passe, é Mello Menezes quem bate o 'valeu'. Pipas, balões, bonecos - a atmosfera que recria no palco os arquétipos mais fundos dos meninos de tempos atrás, ainda desobrigados do confinamento nas áreas de serviço. Neste ambiente (afinal, tão íntimo) trabalham Aldir e Paulo Emílio, dirigindo, roteirizando, sugerindo por exemplo a colocação daquela faixa onde se lê 'Anistia' à esquerda de João Bosco.

Bem, aí chegamos à música e a bola, bem controlada, vai aos pés controlada, vai aos pés de João Bosco. Não fora a inclusão de três ou quatro músicas com andamentos mais difíceis de rotular, eu me atreveria a dizer que se trata de um espetáculo de sambas & boleros, como aqueles que anunciavam antigamente as grandes orquestras. E não digo isso com qualquer intenção restritiva: João Bosco enfatiza nele que faz sambas e boleros com uma espantosa facilidade e que são estas espantosa facilidades e que são estas composições a marca maior de seu estilo (coloquemos aqui também Cabaré, nem samba nem bolero, mas fruto colhido no mesmo contexto em que João sedimentou sua formação).

Estruturalmente, a diferença entre o show anterior Tiro de Misericórdia e este Linha de Passe consiste no violão de sete cordas de Rafael substituindo o percussionista Moura, que atuava no ano passado. Nesta diferença, creio, está o grande trunfo de João Bosco no caminho de criação de uma massa sonora que identifique o seu trabalho (especialmente porque o sete cordas não tem bom trânsito nem entre a maioria dos maestros - poucos sabem escrever pra ele - nem entre os compositores da camada dita universitária da nossa música popular). Algumas músicas são apresentadas apenas pelos dois. Em outras, os outros músicos só entram quando os violões de João e Rafael já fixaram o andamento e a cadência do samba. Nestas, é bem verdade, Rafael é obrigado a um super-esforço para não ver o seu acústico instrumento abafado pela tecnologia dos teclados e do baixo elétrico.

O repertório do show é um apanhado geral. De 'Caçador de Esmeraldas', a música ainda do primeiro e quase desconhecido disco do compositor, até Corsário, que João jamais cantou e fora confiada apenas a uma gravação de Ney Matogrosso. Naturalmente, os destaques são as novidades contidas no novo álbum, leitmotiv do show, mas será mais pertinente vê-las no disco (a produção de um show implica em muito mais dificuldade do que supõe o humor dos críticos).

São onze faixas que no fundo são dez. Numa, Patrulhando, Aldir e Paulo Emílio colocaram duas letras e foram feitas duas gravações. Duas metáforas odara. Das outras nove, quatro são sambas e duas boleros (notem a marca do compositor novamente em maioria). Os sambas funcionam como pontas de lança voltados para a chamada realidade brasileira. É através deste estoque em 2 por 4 que Aldir, João e Paulo vão espetando as coisas. Em Linha de Passe, faixa-título, que é uma espécie de Aquarela do Brasil com muito mais sentido de auto-crítica. Ou em O Bêbado e a Equilibrista, um samba-enredo para quando o carnaval da anistia chegar.

Parati é um partido alto cuja sutileza está na melodia da parte 'improvisada', onde a mineirice de João garantiu uma solução melódica absolutamente original. Boca de Sapo já foi gravada também por Zezé Motta e é uma coisa tão João e Aldir que lembra outra da dupla - Incompatibilidade de Gênios, que Clementina gravou.

Os boleros fazem a deliciosa nostalgia dos que ainda viveram os bailes sem conjunto pop e sem discoteca e, entre os modernos, ninguém captou melhor aquele momento brasileiro que João e Aldir. Neste Linha de Passe, mais duas ótimas contribuições ao gênero: Conto de Fadas e Ai, Aydée. Neles, desde as velhas e demodées gargantilhas até a indispensável bênção da avó. As três outras faixas, por coincidência todas em parceria com Paulo Emílio remetem e um João Bosco mineiro (Como em Cobra Criada) ou mais barroco (como em Natureza Viva, ótima). Das músicas com o novo parceiro, contudo, será difícil chegar a outra conclusão: o destaque é Sudoeste, onde a agilidade da melodia é perseguida pela agilidade de versos de ventos uivantes."




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Shows de Alice Cooper no Brasil em 1974


 Nos anos 70 não era muito comum acontecer no Brasil shows internacionais de grandes bandas ou artistas que estivessem no auge de suas carreiras. Por isso a presença por aqui do grande astro Alice Cooper, que fazia um grande sucesso, foi cercada de grande expectativa. Os shows provocaram muito tumulto por onde passaram, e uma matéria especial da revista Bizz em fevereiro de 2001 intitulada "O dia em que o Brasil perdeu a inocência", e assinada por Celso Pucci, discorre sobre aquela turnê:

"Pode parecer incrível para uma geração de roqueiros que se formou com a MTV, acabou de assistir à maratona do Rock In Rio e continua avançando via internet. Que está acostumada - ao menos nas grandes capitais - a ter à disposição shows internacionais quase semanais, discos importados que acabaram de sair do forno, fartura de publicações nacionais e gringas, informações mil por mídias ao quadrado. Mas houve um tempo em que os horizontes do rock'n roll eram extremamente estreitos e limitados no Brasil, cada parco empreendimento no setor era tratado - e com razão - como a salvação da lavoura.

Assim eram programas de rádio e TV apresentados pelo saudoso DJ Big Boy, o Caleidoscópio, espaço alternativo que Jacques conduzia nas madrugadas da América AM (SP), o Sábado Som - comandado por Nelson Motta na Globo, que na estreia apresentou o Pink Floyd tocando 'Echoes', nas ruínas de Pompeia - e revistas como a Rolling Stone brasileira, Bondinho, Pop e Rock: A História e a Glória. Raras moscas brancas sobrevoando o pântano da desinformação roqueira no início dos anos 70.

A situação era ainda pior em relação a shows: desde aquela época, a cada mês eram anunciadas vindas como os Rolling Stones (que só apareceram na década de de 90) e a do já citado Floyd. porém nada se concretizava. Quem diria que Alice Cooper - equivalente naqueles tempos anticristo ao que Marilyn Mason representa para a garotada atual - iria quebrar esse tabu?

O artista iria aportar aqui na turnê do recém-lançado Billion Dolar Babies (1973) com toda a parafernália visual, que ia desde tubos gigantes de pasta de dentes e bonecas decapitadas em cena até os os seus notórios malabarismos com uma cobra e a fama de bebum incorrigível. Não era bafo: no início de 1974, o circo de horrores do rock'n roll desembarcou em São Paulo para se apresentar no enorme pavilhão de exposições do Anhembi, com som deplorável e superlotação. O resultado era previsível: tumulto na entrada, repressão policial e, pior, o pessoal da turma do 'gargarejo' sendo esmagado contra as grades de proteção diante do palco em um fatídico episódio qui culminou em dezenas  de feridos.

Uma mãozinha amiga acudindo

Claro que tinha que ir nessa fuzarca, mas acabei presenciando um massacre. Um monte de gente prensada contra o alambrado e um corre-corre que gerou um pânico em um local originalmente planejado para a farra. O próprio Cooper deu sua versão para o que aconteceu naquela noite, em uma entrevista para a Pop, de maio de 1974: 'Vi todo mundo se esmagando e fiquei sem saber o que fazer. Parei de cantar para acalmar o pessoal. Afinal, tudo o que faço no palco não passa de encenação. O sangue é de katchup e nunca sacrifiquei animais em cena...'

Foi trágico, mas ficou como um espetáculo marcante. Mesmo abruptamente interrompido pelos incidentes na plateia, este foi o primeiro grande show de um rockstar em território brasileiro. Antes de Alice, apenas Santana - em proporções bem menores - havia se apresentado por aqui em 1971 e 1972. Depois, começaram a vir nomes como Rick Wakeman, Genesis, Joe Cocker, mas sem provocar o mesmo frisson.

Os anos 80 trariam muito mais atrações de peso, a começar por Kiss e Queen, passando por The Police (que tocou em 1982 no Maracanãzinho, no Rio, quando ainda era pouco conhecido no Brasil) e expoentes da new wave como PIL, Siouxsie & The Banshees, Echo & The Bunnymen, The Cure, Nick Cave & The Bad Seeds. Tudo isso somado ao primeiro Rock In Rio, em 1985, que se tornaria o primeiro megaevento brasileiro do gênero, impulsionando a emergente cena local - não à toa, foi nessa onda que Bizz chegou às bancas pela primeira vez.

Pois a primazia em todo esse processo deve ser dada à tia Alice, por inaugurar há quase 27 anos o conceito de megashow por aqui, mesmo com as consequências desastrosas do evento. É bom lembrar que bandas nacionais como Legião Urbana, Sepultura e Raimundos já passaram por situações semelhantes em suas apresentações, sem nenhuma culpa. Mas esse registro da passagem de Cooper por aqui é importante por dar a dimensão exata de um tempo em que no Brasil, 'rock era coisa de bandido', nas sábias palavras de Rita Lee. Que, por sinal, aproveitou a ocasião para roubar de tia Alice os canhões de luz e o técnico de som, Andy Mills, para seus shows com o Tutti Frutti. "



domingo, 31 de janeiro de 2021

Cazuza, a Ovelha Negra do Rock (Revista Roll - 1986)


 Em 1986 Cazuza iniciava sua carreira-solo, após deixar o Barão Vermelho. Já tendo um trabalho de compositor reconhecido por vários medalhões da MPB, Cazuza lançava seu primeiro disco individual, cuja faixa-título Exagerado, foi um de seus maiores sucessos. A revista especializada em rock, Roll,  em seu nº 28 trazia uma matéria com Cazuza, assinada por Luiz Carlos Mansur:

"Cazuza chega atrasadíssimo de um dia na praia, mas disposto a abrir o verbo. Diante da magnífica visão do Jóquei Clube e da Lagoa, em seu novo apartamento, iniciamos nosso papo e lhe pergunto sobre o súbito estouro de sua carreira-solo - que decolou direto para os píncaros da glória, imediatamente depois do lançamento do primeiro LP.

'Eu cheguei a achar que iam me vuduzar bastante, depois da minha saída do Barão. Mas eu já tinha uma imagem favorável, por parte da imprensa, desde a época do meu trabalho com o grupo. E quando saiu o disco, as críticas foram todas favoráveis, a reação foi muito boa. Acho que comecei com o pé direito'.

Quanto ao relacionamento com o Barão, não há queixas, muito pelo contrário, 'Tá genial, ótimo. Tenho ido aos shows deles, tenho composto com o Dé (baixista)... É uma coisa que eu não fazia quando estava no Barão, e agora estamos compondo... E eu acho genial o Frejat cantando, sempre dei força pra ele cantar. Inclusive nos shows era ele quem puxava a voz, a sua emissão é parecida com a minha...'

Uma  característica do Barão, e também de Cazuza, sempre foi a fidelidade ao blues, veio básico do rock. Acrescente-se a isso uma temática fortemente marcada pela influência de grandes nomes da nossa música (geralmente marginalizados pelos roqueiros) como Lupiscínio Rodrigues, por exemplo, e temos um trabalho original na nova safra de rock in Brazil. Na verdade, Cazuza (e o Barão) estão muito mais próximos de uma suposta 'linha evolutiva' do rock brasileiro do que outras bandas de sucesso atualmente.

'Eu sempre ouvi muito Lupiscínio, Angela Maria, as grandes damas do blues, como Billie Holiday. E confesso que realmente não estou por dentro do rock contemporâneo. Se você me pedir pra identificar uma dessas bandas inglesas novas, não vou conseguir'. Sem dúvida, sua cabeça já foi feita há bastante tempo. Tanto que, entre as inúmeras participações especiais que ele tem feito em discos alheios, destacam-se as do LP de Elza Soares e do novíssimo de Celso Blues Boy (na faixa 'Marginal')

Essa história de 'exagerado' é mesmo autobiográfica? 'Olha, essa música é mais uma leitura sobre essa coisa do derramamento, da paixão, e é quase como uma brincadeira em cima disso. Essa letra tem muito a ver com o lance da relação passional, que você vê muito retratado no blues, no samba-canção. E eu brinco um pouco com essa coisa toda'...

Já 'Medieval', com sua letra brilhante ('será que eu sou medieval?/ baby, eu me acho um cara tão atual/ na onda da nova idade média/ na mídia da novidade média') tem despertado muitas polêmicas por aí... Você é medieval, Caza? 'Eu sou de uma geração que pegou as consequências daquela agitação toda dos anos 60, revolução sexual, etc. E o que eu tenho visto hoje em dia é que as pessoas estão voltando a se colocar em posições muito rígidas, demarcadas, quando antes havia um jogo de cintura maior. É nesse retorno que eu vejo pintado a tal da 'Nova Idade Média'.

Uma coisa que chama a atenção no primeiro LP solo de Cazuza é o flagrante descompasso entre algumas letras (fortíssimas) e o arranjo das músicas 'leves' demais). Saudades do Barão? 'Não, isso é proposital mesmo. Eu quis experimentar colocar letras bem fortes em cima de músicas não tão pesadas. Mas não é uma coisa presente no disco inteiro. Em 'Só  As Mães São Felizes' (mais uma vítima da 'extinta' censura neorepublicana) já é aquela coisa bem arrastada, pesada mesmo...'

Os shows superproduzidos (ou pelo menos produzidos) devem ser, a partir de agora, a tônica do trabalho da maioria dos rock'n rollers nativos. Principalmente depois do pontapé inicial dado pelo RPM. Mas não é esse o caminho de nosso amigo. 'Não faz muito meu gênero esse tipo de coisa. Eu não conseguiria fazer um show todo dirigido, prefiro ir cantando e o canhão de luz me seguindo, se for o caso. Mas acho ótimo isso do RPM, sou muito amigo do Paulo Ricardo, adoro as coisas que ele escreve. Isso desde o tempo em que ele era crítico' (pra quem não sabe, ele atendia pelo nome de Paulo Ricardo Medeiros).

Cazuza consegue se relacionar otimamente tanto com os maiores expoentes da nova linguagem rock brasileira como os bastiões da MPB. E é de Gilberto Gil, patrono do rock in Brazil, a melhor definição que Caza encontra para suas letras. 'Ele disse que o que eu escrevo revela que tenho uma grande piedade pelo ser humano. Isso me deixou emocionado, foi o melhor elogio que poderiam me fazer'.

Para os shows que correrão o Brasil este ano, Cazuza e sua banda ensaiaram exaustivamente. 'É ideal você ter uma banda fixa, o seu trabalho rende muito mais. Cazuza vai deixar de ser uma marca pessoal para passar a designar o trabalho da banda como um todo'. A banda é praticamente a mesma do disco, à exceção do tecladista Nico Resende. Como o show do Parque Lage acabou sendo cancelado (por imposição da 'lei'), ficamos restritos à aparição no 'Mixto Quente'* e ao show no Canecão.

No mais, já com a agradável presença do Ezequiel Neves, mito do rock nacional e uma espécie de mentor espiritual de Cazuza (e do Barão), deixamos a tarde se esvair enquanto nosso herói preparava-se para o ensaio noturno. Na saída, o rádio do carro, naturalmente, tocava 'Exagerado'. A toda."
 

* Programa dominical da Globo, gravado em shows montados na praia


 


sábado, 30 de janeiro de 2021

Hermeto Pascoal - Revista Pop (1978)


 Hermeto Pascoal sempre foi um músico que despertou curiosidade e atenção, pela forma livre e espontânea como costuma conduzir e elaborar sua música. Em sua edição nº 69, de julho de 1978, a revista Pop trazia uma matéria com Hermeto, assinada por José Emílio Rondeau:

"Para os índios Yawalapiti, do Alto Xingu, a música é um espírito que mora numa pequena oca, do 'dono da música'. O espírito vira guardião do músico, no momento em que ele toca é escolhido por ele. No Rio de Janeiro, o espírito da música mora num quarto de 10 metros quadrados de cimento frio, que dá para um banheiro ladrilhado e uma saleta menor, com janelas. É a sala de ensaios onde Hermeto Pascoal inventa seus sons loucos e, sem camisa, de short azul, chinelas, cabelos recém-presos pela mulher Ilza, avisa a  quem interessar possa:

'As pessoas vivem dizendo; 'Esse Hermeto Pascoal é um doido, se esconde naquele buraco no subúrbio, deve ter porcos e galinhas em casa, uma horta, um troço assim'. Não é nada disso: de louco só tenho o amor pela música, meus instrumentos, um viveiro de pássaros e um cachorro que faz cocô na entrada da casa e me mata de vergonha.'

Escondido em sua casinha em Senador Camará, no modesto bairro Jabour, Hermeto prepara suas alquimias sonoras, transformando em música ruídos de rua, de animais. As suas pesquisas muitas vezes nascem de um simples passeio pela rua: 'Eu estava em São Paulo para fazer uns shows, e resolvi dar um passeio pelas ruas, para ver como andava aquela cidade grande. Andei, andei, até que parei numa esquina muito movimentada, daquelas bem barulhentas, com bastante motor, buzina, sirene, apito de guarda, gente gritando, xingando, correndo de um lado pro outro. Aí descobri música naquela zorra toda. Assim: eu estava de cabelo preso e parado na esquina. Peguei e tapei os ouvidos com as mãos e fiquei assim algum tempo, com aquela zoeira toda meio abafada, mas zunindo lá fora, até que tirei as mãos dos ouvidos e levei aquele bruto choque com a cidade, com a agressão de todos os barulhos ao mesmo tempo. Aquilo ficou muito forte dentro de mim, e a partir desse contraste compus Do Feto à Vida, que seria exatamente o relato da gestante, do nascimento, do crescimento e morte. Mas ainda não terminei a música, só fiz até a hora em que o cara já é um executivo dono de uma empresa, cheio de neuroses. Parei aí'.

Louco de hospício? Ou, quem sabe, segundo a terminologia de Raul Seixas, um autêntico maluco-beleza que curte verdadeiros transes musicais com o barulho de uma simples máquina de costura: 'Tenho duas, cada uma com um tipo percussivo diferente'. Bruxo dos sons, mago de instrumentos inventados por ele mesmo, Hermeto garante que sua cabeça anda ótima: 'Às vezes eu até tenho que freá-la, porque é música saindo a toda hora, no mínimo uma por dia. Assim, nem a banda aguenta, logo eles que são todos uns caras bem mais novos do que eu...'

Quarentão assumido, canceriano convicto, Hermeto já tocou com três quartos dos melhores músicos do planeta - como Chick Corea, Alphonso Johnson, Joe Zawinul, Chester Thompson, Milton Nascimento, Miles Davis, Airto Moreira e muita gente mais. Às vezes com algumas confusões, como na gravação do álbum Charade, do cantor africano Bobby Makay: 'Isso aconteceu na Era de Cristo, é antigo mesmo. Era uma faixa pra ser tocada por catorze percussionistas ao mesmo tempo, numa região pobre, sem recursos, e os instrumentos usados foram enxadas, foices, ancinhos, essas coisas. Eram agricultores, gente da roça: imagine os catorze batucando ao mesmo tempo" Só tive um probleminha com o dono do estúdio, que não deixou que eu pendurasse o Bobby de cabeça pra baixo. Você sabia que o timbre da voz muda quando você canta de cabeça pra baixo? Pois é, mas o cara lá não deixou!'.

Dentro das muitas histórias que Hermeto tem pra contar, cabem também algumas tristezas. O caso de Miles Davis, por exemplo: 'Eu não digo que ele tenha roubado a minha música, porque ele gosta dela como se fosse um presente. Mas não mencionar meu nome como autor é uma injustiça! Só depois de três anos é que retificaram a autoria de Igrejinha (Little Church, nos Estados Unidos) para Davis e Pascoal, e isso só depois de eu ter movimentado meus advogados na América, porque senão, não sei não...' E não foi essa a única vez. Brincando, ele ameaça: 'Esperem mais um pouco e dou o nome de todos aqueles que me roubaram aqui e nos Estados Unidos'.

Eu te benzo/ eu te curo/amanhã você amanhece duro - o serra-velho (um pedaço de pau amarrado numa corda, que zumbe quando é girado no ar) acompanha a musiquinha que traz a Hermeto lembranças do tempo das Alagoas: 'Quando eu era pequeno, a criançada toda fazia assim: na quinta-feira santa, a gente escolhia uns velhinhos bem velhinhos, cavava um buraco fundo na frente da casa deles e  começava a chamar o sujeito pra que ele caísse no buraco. A gente começava a girar o serra-velho e  cantar aqueles versinhos. Não que fosse maldade, a gente não desejava a morte de ninguém. Era só uma brincadeira com música no meio'.

Criando sem parar, desde criança, Hermeto já inventou instrumentos como a gangorrafa - uma mesa de percussão com treze garrafas - e passou por alguns 'escândalos musicais'. Como em 1975, no festival Abertura, com a música Mavum Vevum Pefôco*, ou no Festival Internacional da Canção, quando foi proibido de apresentar A Matança do Porco** porque queria colocar porcos e  galinhas no palco. O que pouca gente entendeu é que era uma atitude musical, e não política; 'Mesmo quando toco instrumentos que já existem, toco de um jeito que ninguém ainda tocou, e espero o mesmo de todos os que me procuram para tocar comigo'.

Ele tem sete filhos, seis deles com o nome começando em F - 'É só dizer Fá que vem todo mundo correndo' - e prefere ficar longe da cidade para criar música. 'Se precisar, vou para mais longe ainda', ele diz, na salinha que gosta de chamar de 'escritório'. Um albino doido - para quem não entende seu trabalho - ou o melhor arranjador do mundo, segundo Gil Evans, às vezes Hermeto precisa guardar seu trabalho na gaveta durante algum tempo, até que se criem condições de mostrá-lo: 'Só agora estou mostrando músicas feitas há uns cinco ou dez anos, que até hoje meus campeões de banda acham difíceis de tocar. Só que não são difíceis. É a cabeça deles que tem que estar limpa, bonita - como eu sinto que a minha está agora. Nem sei se algum dia serei alcançado, mas isso nem vem ao caso'.
Do sertão de Pernambuco aos metrôs de Nova Iorque, gravando músicas suas ou até de seu pai (um velhinho de mais de 70 anos, Paschoal José da Costa, autor de O Galho da Roseira), o papa da música free brasileira  tem suas queixas: 'Eu fiquei calado por muito tempo, esperando que acontecesse alguma coisa, que tudo fosse aos poucos sendo descoberto pelo mundo ou que as pessoas que me fizeram mal se retratassem e vissem que não havia necessidade de nada daquilo'.

Gênio com cara de cientista louco, Hermeto conta que muitas vezes a execução de suas músicas tem uma história tão ou mais complicada do que a própria composição.: 'Foi o caso de Do Feto à Vida. A primeira e única vez que vi essa música ser apresentada foi por um coral paulista de não sei quantas pessoas, e para escrever aqueles sons todos, UNFSS...ARHHHN...TCHINN... botar tudo isso numa pauta não é moleza não, viu? E praquela gentarada ler  aquilo e se acostumar com o som... Ihhhh, bota tempo nisso...'

Quem entra na casinha do bairro Jabour logo sente que o espírito da música anda mesmo por ali, pousado nos cabelos cor de palha de Hermeto Pascoal: 'Louco, eu? Olha, minha cabeça está linda, campeão!' "



* Na verdade a música de Hermeto que participou do festival Abertura foi Porco na Festa

** A música que Hermeto concorreu no Festival Internacional da Canção se chamava Sereiarei. A Matança do Porco é título de um disco do Som Imaginário




sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Gonzaguinha - A Busca do Equilíbrio nos Caminhos do Coração (1982)


 Em 1982 Gnzaguinha já era um compositor e cantor consagrado na MPB.  Suas músicas eram gravadas por diferentes intérpretes e seus discos eram aguardados com expectativa. Assim foi com Caminhos do Coração, álbum que estava sendo lançado na época, e que ganhou uma matéria com entrevista na revista Música nº 63, em texto assinado por Tetê Ribeiro:

"Quando Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior - o Gonzaguinha, apareceu como compositor, em 1968, no I Festival Universitário da Música Popular com 'Pobreza por Pobreza', e no ano seguinte classificava-se em primeiro lugar com a música 'O Trem', as pessoas não poderiam imaginar que um dia aquele jovem franzino e introvertido seria uma das figuras mais respeitadas e que já começava a solidificar seu espaço na história da MPB.

A cada disco, a cada show, Gonzaguinha - além do seu crescimento como pessoa e intérprete - confirma a coerência e o conteúdo de sua obra, construída com muito chão-pó-poeira. Ao longo desses anos, Gonzaguinha, filho de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que nasceu no bairro do Estácio, na barra pesada do Rio de Janeiro -, sempre foi uma figura polêmica e controvertida, amada por uns, contestada por outros.

Hoje, quando acaba de lançar - Caminhos do Coração - o décimo elepê de uma carreira de 15 anos, Luiz Gonzaga Jr., afirma que muita coisa mudou. - 'Eu tenho consciência de que não sou o mesmo. Talvez eu não esteja sendo tão severo quanto eu era anos atrás, a ponto de Gilberto Gil me colocar que eu não deveria ser tão severo com as pessoas. Estou me mostrando mais, me questionando, conversando com as pessoas, estou num momento de auto-crítica, de muita calma. Porém, continuo sendo uma pessoa de muito trabalho, uma pessoa que quer aprender sempre porque não sou, nem quero ser verdade absoluta, ninguém é verdade absoluta. Faço o que faço com a consciência que tenho. Sou uma pessoa preocupada em aprender constantemente, nunca estacionar como pessoa.'
Música: Muitas cantoras estão gravando músicas suas, como você vê isso?
Gonzaguinha: 'Não sei explicar o porquê, acredito que seja consequência de um trabalho sério.'
M: Você fez 'Uma Canção de Amor' e "Quarto de Hotel' especialmente para Joana, e 'Redescobrir', para Elis. Você faz música por encomenda?
G: 'Eu trabalho por encomenda; uma pessoa cantar uma música minha é uma relação de amor. Eu só faço música para uma pessoa quando eu a conheço bem.'
M: A lacuna deixada por Elis Regina pode ser ocupada por outra intérprete?
G: 'Como Elis Regina só ela mesma; e não existe sucessora para esta ou aquela cantora.Existem pessoas que têm grandes trabalhos como Maria Bethânia e Gal Costa; outras com um caminhar muito longo como Simone, Joana, e Clara Nunes; cada uma será acontecendo dentro do seu tempo, porque cada uma tem seu trabalho. Não se  pode dizer que uma determinada intérprete será sucessora de Angela Maria ou de Elizete Cardoso; a história de ambas, o trabalho delas é completamente diferente. É como querer que apareça um novo Chico Buarque, um novo Milton Nascimento ou um Gilberto Gil. O novo é justamente porque porque não é. Então isso não existe, é uma colocação limitada.'
M: Compor muito num curto espaço de tempo pode levar a uma repetição?
G: 'Às vezes eu me repito um pouco; se se repete num aspecto de memória é perigoso, porque pode levar a uma acomodação.'
M: Você declarou algumas vezes que todos os trabalhos são uma vida. Caminhos do Coração é mais um momento seu?

G: Minha relação é trabalho-vida, eu não separo um do outro, porque se eu faço um trabalho e o exponho aos mais variados entendimentos, é minha vida que está ali.'

M: Em 15 anos de carreira e 10 discos, o que você modificaria  no seu trabalho?

G: 'Cada vez que se trabalha ou que se realiza um trabalho, está se vivendo todos os trabalhos, os quais são uma vida. Não existiram momentos ou trabalhos mais fortes. Ou mais forte será. Quanto à modificação, eu gostaria de gravar novamente os meus primeiros discos; justamente para ver a prática do hoje ou do ontem. Acho que não teria muito sentido colocar músicas daquela época hoje, tudo é espaço-tempo.' 

M: A objetividade é algo muito mais forte nas suas músicas, porém muitas pessoas a questionam. Como você encara isso?

G: 'A clareza e a objetividade são uma necessidade; acho que de repente as pessoas acham que objetividade incomoda. A música 'Quarto de Hotel' fala da solidão de uma pessoa, porém nem sempre quando você está só significa que a pessoa esteja se sentindo só, ou vice-versa. Eu acho ótimo esse tipo de questionamento porque de repente eu percebo que meu trabalho está passando uma mensagem pras pessoas, está tocando as pessoas.'

M: Você não tem muitas parcerias, por quê?

G: 'Acho que é uma questão de oportunidade, porém já fiz algumas músicas com meu pai e Miltinho; e compor sozinho é uma prática que pra mim não é difícil.'

M: Como você vê o reconhecimento tardio do trabalho de pessoas como João do Vale, seu pai e o falecido Jackson do Pandeiro?

G: Toda vez que uma pessoa morre - no caso Jackson do Pandeiro - prestamos grandes homenagens, se bem que o trabalho do Jackson já é reconhecido. Meu pai é uma pessoa que está sempre atuante, mesmo sendo marginalizado. Infelizmente, esses coisas ainda acontecem.'

M: As crianças estão sempre presentes nas suas músicas. Qual sua relação com elas?

G: 'Minha relação com as crianças é ótima, principalmente porque eu sou meio moleque, meio criança. Tenho um filho - Daniel, 10 anos -  somos muito amigos e eu aprendo muitas coisas com ele. Devido a essa relação forte com as crianças, estou pensando em fazer um trabalho em teatro; um musical provavelmente.'

M: O que é 'Caminhos do Coração'?

G: 'É vida, é sentimento, é meu momento de calma, é mais vida. 'Caminhos o Coração' é uma espécie de sucedâneo do 'Coisa Mais Maior de Grande, Pessoa'. 'Caminhos do Coração' foi um disco que eu não estava a fim de fazer, a minha situação emocional no momento - acabei de me separar da minha mulher. Depois achei que eu não deveria esconder esse momento que estou vivendo; então, entrei no estúdio e fiz o disco, que não tem muita ordem como nos anteriores; não foi proposital, aconteceu de sair assim. 'Caminhos do Coração' é vida mesmo, 'Maravida' tem vida, 'Felicidade' tem vida, 'Ser, Fazer, Acontecer' tem vida. A música que dá nome ao disco é muito importante pra mim. É muito do que eu vivi e viverei; é uma coisa de muito que andar por aí e cada vez com maior profundidade.' "







quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Jefferson Airplane - O Acid Rock de San Francisco


 A revista Internacional Extra era uma das várias revistas sobre rock que circulavam pelas bancas nos anos 80. Em seu nº 26 (1983), a publicação traz uma matéria sobre o "acid rock" ou rock psicodélico, que era muito difundido na cidade de São Francisco, na Califórnia, por bandas que se estabeleceram na cidade. A matéria dá destaque à banda Jefferson Airplane :

"San Francisco era uma festa permanente, com a descoberta do corpo marchando ao lado da libertação de todas as fantasias. Os Fillmores de Bill Graham eram palcos de concertos delirantes, em que luzes estreboscópicas, filmes e slides forneciam o componente visual de viagens inesquecíveis. A trilha sonora era provida pelo Jefferson Airplane, Grateful Dead, Country Joe and The Fish, Charlatans, Quicksilver Messenger Service e Big Brother and The Holding Company. Os dois primeiros foram expoentes destacados do rock progressivo.

Agrupado por Marty Balin e Paul Kantner, músicos folk dos coffee-houses do Haight Ashbury - bairro dos intelectuais e pirados de San Francisco -, o Jefferson Airplane misturava jazz, folk, blues, música experimental, efeitos especiais. Seu LP de estreia, Takes Off (1966), ainda trazia influências dos Beatles e Byrds, mas a seguir veio uma obra-prima, talvez o disco mais característico do acid rock: Surrealistic Pillow. Foi quando ingressou no grupo a excepcional Grace Slick, intérprete carismática e de voz poderosa. O aeroplano teria então como tripulantes os guitarristas/vocalistas Kantner e Balyn, o baterista Spencer Dryden, o guitarrista líder Jorma Kaukonen, o baixista Jack Cassady e a cantora Grace Slick, mantendo essa formação durante seu apogeu, no período 1967/69.

Disco-síntese das curtições e crenças da geração das flores, Surrealistic Pillow brinca com a percepção lisérgica em 'Embryonic Journey' dá uma versão atualizada das peripécias de Alice no País das Maravilhas ('White Rabbit') e proclama a esperança de que todos os problemas da humanidade se resolveriam na cama ('Somebody To Love'). Meio deslocadas nesse contexto, há duas canções melancólicas, pungentes, de cristalina beleza; 'Today' e 'Coming' Back To Me'.
Depois, acompanhando o movimento de consciência da coletividade que expressava, o aeroplano foi baixando à terra e se defrontando com suas mazelas políticas e sociais. After Bathing At Baxter's (1967), em que seu som ganha toques jazzísticos, ataca a Guerra do Vietnã, a repressão policial e a sociedade de consumo. O apocalíptico Crown Of Creation (1968) fustiga os executivos do sistema ('Logo vocês conseguirão a estabilidade que tanto buscam/ Da única forma que é concedida/ Num lugar entre os fósseis do nosso mundo') e aproveita uma adulta canção sobre triângulo amoroso, 'Triad' - composição de David Crosby, cujo conjunto, o Byrds, havia rejeitado como imprópria.
Bless Its Pointed Little Head (1969), mostrando por que o conjunto se tornou a atração maior dos Filmore Lest e Oeste. E foram fulgurantes suas aparições nos festivais de Woodstock (em Altamont subiu ao palco antes dos Stones e sofreu as primeiras consequências da tensão ambiente, com um membro sendo agredido ao apartar uma briga nas primeiras filas).
Volunteers (1969), com sua faixa-título que era um incitamento à ação revolucionária, coroou a fase política do Airplane, além de servir como um canto-do-cisne do conjunto. Sua decadência refletiu o desânimo que se abatia sobre as crianças do flower power, cujos projetos ousados e generosos se chocaram contra o conformismo da maioria silenciosa. As saídas de Marty Balin (por divergências), Jack Cassidy e Jorma Kaukonen (foram formar o Hot Tuna) valeram como golpe de misericórdia. No ano seguinte, 1972, o aeroplano despencou de vez. Kantner e Slick permaneceram na ativa, realizando trabalhos-solo que acabam propiciando um reagrupamento em 1973, como Jefferson Starship.
A proposta agora, era de 'uma música popular calcada em todos os tipos de música feitos por americanos na sociedade contemporânea', sem acid rock ou contestação. Melodias concentradas, intensas, valorizadas por interpretações sutis - além do excelente trabalho vocal, marca registrada dos Jefferson, havia também o violino mágico do Papa John Creach, no entanto, após os auspiciosos Dragon Fly (1974) e Red Octopus (1975), a astronave entra em pane; o Papa vai rezar em outros altares e o grupo opta por um rock pesado que conviria melhor a principiantes."


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Brian Jones - O que mudou depois de sua morte?


 Nos anos 80 circulava uma boa revista sobre rock, chamada Rock Stars. Era uma revista de formato pequeno, que falava de rock, lançamentos, resenhas de discos, notícias e seções fixas, dentre elas, uma especializada em Rolling Stones, chamada Satisfaction. Em sua edição nº 8, de 1984, a revista traz uma matéria com o controverso ex-membro do Stones, Brian Jones. Discordo de alguns trechos da matéria, principalmente quando há insinuações infelizes que Mick Jagger pode ter dado graças a Deus pelo desaparecimento de Jones, por ser também de temperamento forte e se sentir incomodado por uma espécie de disputa pela liderança da banda. Primeiro, que Brian Jones antes de morrer já não fazia parte dos Stones, portanto, não fazia mais sombra a Mick no quesito liderança. Segundo, mesmo se houve divergências pessoais, sentir alívio pela morte do ex-companheiro seria um grande exagero. Segue a matéria:

"Brian Jones deixou o planeta Terra há 15 anos, no dia 3 de julho de 1969. Ele foi encontrado numa piscina, em circunstâncias que até hoje não foram muito bem esclarecidas. Houve até alguns magazines estrangeiros que questionaram a possibilidade de ele ter sido assassinado. Ora, que motivos teriam para assassiná-lo, por exemplo, seus colegas de conjunto?

Os motivos são poucos, mas não são muito fortes. Um deles é que o Brian Jones era um osso duro de doer. Em outras palavras, um sujeito genioso que insistia muito sobre aquilo que queria e acreditava. E uma das coisas que muito queria e acreditava era a boa música. Pouco antes  de morrer, andava dedicando-se ao aprendizado de outros instrumentos (ele foi o único Stone que apareceu tocando uma cítara, coisa que nunca atraiu seus colegas). Notem que o Mick Jagger demorou vinte anos para aparecer em público co uma guitarra. Se ele tivesse feito isso há quinze anos, teria poupado uma série de manobras ao conjunto.

O fato prático é que, válida a correlação, ou não, depois do desaparecimento de Brian Jones, os Rolling Stones tomaram um rumo mais pop. Até a imagem mudou. De repente, o visual psicodélico cafajestoso, que muitos advogam ter sido anterior ao que os Beatles usavam, foi substituído por terninhos glitter, colants coloridos e (pelo menos em certa época) batons. O único membro que parece ter resistido foi Keith Richards, mas é como diz o provérbio, uma andorinha não faz o que todos verão.

Analisando friamente, quem deve ter dado graças a Deus pelo desaparecimento de Jones foi o Mick Jagger. Ele também é dotado de uma personalidade muito forte e não estava a fim de ser incomodado por ninguém. Por outro lado, Jagger é um dos maiores responsáveis pelo desbunde dos Rolling Stones. Podemos ter uma ideia do que ele acha atualmente do rock, se levarmos em conta o que ele disse no ano passado numa entrevista que foi ao ar pela rede Manchete brasileira. Foram palavras suas: - 'Acredito que o rock está para a música, assim como as ilustrações em literatura estão para a pintura em geral.'

Pense bem; qual o papel das ilustrações que aparecem numa literatura? Se você quiser optar por uma resposta trivialmente óbvia, basta apenas dizer: - 'São ilustrações.' Caso queira ser um pouco mais eufemístico, poderá mencionar que têm o papel secundário de ampliar a compreensão, ocupa um lugar bem próximo no contexto geral do século XX. Terceiro lugar, é graças ao rock que Mick Jagger é Mick Jagger.

Antes de encerrarmos nossa apreciação sobre a era pós-jonesiana dos Stones, precisamos dar uma esticada d'olhos sobre o LP Undercover, em particular sobre as letras. À primeira vista, sensacional. Sensibilidade com os menos favorecidos (parece até coisa de religioso), denúncias da violência e da miséria do mundo, posicionamento em favor da América Latina. Tudo bem, mas quem vai acreditar nisso? Nessas horas é difícil deixar de lembrar daquela paródia que o Frank Zappa fez sobre os Beatles com um disco chamado We Are Only It For The Money ('estamos nessa somente pela grana').

Sinceramente, os Stones podem continuar sendo a maior banda de rock do mundo, mas se o Brian estivesse vivo, hoje, provavelmente estaria esclerosado, ou então acabaria por morrer de desgosto."