Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Cat Stevens - Revista Rock Espetacular Vol. 3 (1977)


 A revista Rock Espetacular foi um projeto para contar a história do rock em três fascículos, que circularam de dezembro de 76 a fevereiro de 77. Os principais astros e bandas de rock eram destacados em textos biográficos. O terceiro volume, entre outros é destacado Cat Stevens, que anos depois se converteria para o islamismo, e praticamente abandonaria a carreira, lançando trabalhos esporádicos, mas fora do estilo que o consagrou. Segue abaixo o texto sobre Stevens:

"Em outubro de 1966, um avulso fez um sucesso razoável nas paradas inglesas: a música I Love My Dog, e o cantor e compositor se chamava Cat Stevens e tinha apenas 17 anos. O avulso seguinte, Matthew And Son, foi um sucesso de verdade e, mais que isso, chamou a atenção de todos, crítica e público, para o talento de seu autor, a firmeza e delicadeza de sua melodia e a sensibilidade de sua letra, coisas raras nos frequentadores habituais das paradas.

Cat gravou um álbum, foi eleito por um jornal como 'Revelação de 1968' e, quando parecia prestes a se tornar uma estrela, caiu doente com tuberculose. Dois anos se passaram até que ele tivesse condições de voltar a trabalhar. E a cena musical que ele encontrou ao voltar, em 1970, era bastante diferente daquela do início de sua carreira, intensamente impregnada de psicodelismo. Agora havia rock pauleira e rock clássico, mas existia também a corrente doce-amarga liderada por James Taylor, a geração dos cantores-compositores. E isso, num certo sentido, ajudava o retorno de Cat, mas dificultava também: ele podia passar a ser apenas um entre muitos.

Mas, mais uma vez, o seu talento brilhou acima do esperado. Cat voltou com força total no LP Mona Bone Jakon - que muitos acham, por seu despojamento, o melhor de sua carreira - e estabeleceu seu lugar como artista único, de voz inconfundível e estilo pessoal de compor.

Esse estilo seria desenvolvido e firmado nos três discos seguintes: Tea For The Tillerman, Teaser And The Firecat e Catch Bull At Four. Desses três, talvez Teaser seja o mais representativo do estilo - Cat Stevens, com as guitarras acústicas bem presentes procurando e tecendo ritmos novos e a voz marcante de Cat ondulando ao sabor das emoções.

O álbum seguinte, Foreigner, marcou uma nova etapa na vida de Cat. O disco foi muito mal recebido pela crítica, que achou o desempenho de Cat 'forçado' e 'pouco autêntico'. Os fãs também estranharam a substituição do violão e da guitarra pelo piano. Alguns anos depois, Cat também manifestaria seu desagrado por esse disco, não pelas ideias em si, mas pela pressa e desleixo em sua execução. Mas foi exatamente esse descontentamento geral que fez nascer um novo Cat, não mais acomodado ao seu ambiente de cantores-compositores, mas inquieto, eternamente em busca de novas formas.

Foi essa inquietação que o trouxe, entre outras coisas, ao Brasil, onde suas temporadas de férias se tornaram cada vez maiores e mais frequentes. Curioso e bastante informado sobre música brasileira, Cat acabou contratando o percussionista Chico Batera para integrar sua banda de apoio, e deixou que seu trabalho se impregnasse de ritmos e vibrações brasileiras.

Uma atmosfera mais relaxada aparece no LP de 74, Buddah And The Chocolate Box, mas o ambiente brasileiro só aparecerá por completo no álbum seguinte, Numbers, inteiramente composto no Brasil. É um disco conceitual, quase uma suíte, contando a história de um planeta que fabrica números e vive em torno deles, e das modificações que ocorrem quando aparece um forasteiro: o zero.
Simples até a ingenuidade - como ele mesmo tinha previsto ao dizer 'quero começar complexo e acabar simples' - mas vigoroso e imaginativo em seu talento, Cat Stevens ultrapassa as fronteiras do rock doce-amargo como uma das carreiras mais duráveis da cena musical inglesa."


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Mestre Cartola Vira Documentário (O Globo - 2004)


 Em sua edição de 25/04/2004 o jornal O Globo trazia uma matéria sobre um documentário que estava sendo finalizado sobre o compositor Cartola. Dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, o filme traça a trajetória de um dos mais importantes personagens do samba. A matéria é assinada por Jaime Biaggio:

"Há um filme sobre a vida de Cartola sendo filmado na casa noturna Rio Scenarium, na Lapa. Beth Carvalho está cantando "As Rosas Não Falam' ao violão e a produção pena para conseguir silêncio. O tempo todo, algum funcionário da casa faz o piso de madeira ranger e ameaça estragar um take. E isso sem falar nos carros na rua em frente. Os diretores Lírio Ferreira (co-diretor de 'Baile Perfumado') e Hilton Lacerda (roteirista de 'Amarelo Manga') demoram a conseguir fechar o depoimento/canja da sambista.

Mas dá para entender que seja assim: não há segurança na porta nem gente da produção de walkie-talkie para garantir silêncio. 'Cartola' não é 'Cazuza', não tem Columbia, Globo Filmes, orçamento confortável, atores conhecidos. À exceção do garoto Marcos Paulo, de 11 anos, aliás, nem tem atores: será um documentário sui-generis, em que a realidade a ser buscada será realçada com cenas de filmes, manipulação de áudio e vídeo ou inserts ficcionais. Daí as cenas em que Marcos Paulo faz as vezes do Cartola jovem nunca capturado por uma câmera de cinema (mas não é bem um docudrama; Ferreira arrisca um 'atualidade reconstituída' inventado na hora da entrevista).

- É a montagem que vai amarrar tudo - diz Ferreira, que tem dificuldade em achar definições para o filme, iniciado na quarta-feira. - O filme tem um lado... não tão louco, mas que também não é assim tão mastigado.

- Ao mesmo tempo, não queremos partir para o hermetismo total - acrescenta Lacerda.

Esse papo foi antes da chegada de Beth Carvalho, última personalidade a gravar um depoimento. O término das filmagens foi no dia seguinte, com um ato de 'atualidade reconstituída': a recriação na quadra da Mangueira, de um típico ensaio da escola nos anos 40.

Lacerda e Ferreira não parecem muito dispostos a revelar coisa demais sobre o filme. Mas dizem quais foram os entrevistados que deram depoimentos. É uma lista longa que inclui Jards Macalé, Nelson Motta, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral, Cacá Diegues, Nelson Sargento e nomes menos reconhecíveis de cara, como Pelão, que produziu o primeiro disco de Cartola (isso não aconteceu há tanto tempo assim, lembre-se que Cartola, nascido em 1908, só foi gravar aos 66 anos).

Sobre as histórias de Cartola que serão contadas, Ferreira e Lacerda são mais econômicos. Mas adiantam que não serão contadas pelos entrevistados, e sim pelo próprio Cartola, em imagens ou falas  de arquivo.

- As informações básicas de Cartola virão dos offs de Cartola. E os depoimentos comentarão as informações que ele trouxer.

Beth Carvalho conta histórias pré-selecionadas pela produção, presumivelmente mencionadas pelo próprio Cartola em algumas centenas de gravações de arquivo pesquisadas. Ou fornece mais evidências sobre o jeito de ser do compositor, também a partir de causos como o rompimento dele com Nelson Cavaquinho (Nelson vendeu a uma editora musical a sua parte num samba composto pelos dois em parceria, e Cartola ficou furioso). Ou o orgulho (e proteção) que ele tinha de 'O Mundo É Um Moinho', que Beth queria gravar e Cartola desaconselhou.

- 'Isso não vai dar certo' - disse ele, segundo Beth, a cantora que mais gravou músicas do sambista. - ele falou 'Essa música não é pra você. 'As Rosas Não Falam' você grava, aí vai dar certo, mas esse não'. Um ano depois, eu gravei 'O Mundo É Um Moinho', e estourou também.

As fontes dos registros da imagem e da voz de Cartola que aparecerão no filme são as mais variadas possíveis, do Museu da Imagem e do Som à proverbial fita-cassete-achada-num-canto. Porém, as 'atualidades reconstituídas' darão conta do início da vida de Cartola, já que há pouco material dessa época.

- A imagem mais antiga que temos é do filme 'Orfeu do Carnaval' (1959), de Marcel Camus - diz Lacerda. - De gravações em áudio temos uma de 1940: ele com o maestro Leopold Stokowski.

Há registros de gravações de Cartola desde 1929. A primeira parte de sua carreira termina, segundo os diretores, em 1949, quando ele deixa a esposa, dona Zica.

O sumiço vai até 1956, quando Cartola volta à Mangueira, pelas mãos de Zica e de Carlos Cachaça. Sobre esse período, sabe-se pouco (ele teria ido morar no Caju).

O sumiço de Cartola pode não ter sido exatamente um sumiço, e sim, descaso: ele estaria ao alcance de todos, apenas não teria sido procurado por ninguém.

É tanta história que todas as fontes de informação são bem-vindas. Por exemplo, um dos dois curtas-metragens existentes sobre Cartola, 'A morte de um poeta', composto exclusivamente de imagens de seu enterro, foi rodado por Aloysio Raulino (o outro, 'Chega de demanda', é de Roberto Moura). No Rio Scenarium, lá estava comandando a câmera da gravação com Beth Carvalho.

- Conheço Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, eles me falaram do filme deles, eu cedi as imagens do meu - disse Raulino.

O filme está mudando sempre. Mas há elementos já pensados e fechados, como revela Ferreira:

- Estamos estabelecendo a relação entre Cartola e Machado de Assis. Cartola nasceu no ano em que Machado morreu. O filme começará com a morte de Cartola (1980). Um elemento machadiano."




sábado, 20 de fevereiro de 2021

Naná Vasconcelos (Jornal Canja - 1980)


 Naná Vasconcelos, um dos grandes nomes da percussão mundial, viveu boa parte de sua vida em terras estrangeiras, para desenvolver seu trabalho da forma que sempre quis e idealizou, já que no Brasil viveria com uma série de limitações, fato que ocorre com vários músico no país. Mas ele sempre que podia passava longas temporadas no Brasil, ou mesmo pequenas e ligeiras visitas, quando seus compromissos davam uma trégua, ou mesmo quando vinha tocar no país. Assim foi quando Naná foi convidado a tocar num grande festival de jazz em São Paulo, chamado Monterey Jazz Festival, em 1980. O jornal musical Canja fez uma boa matéria com o percussionista pernambucano na ocasião, assinada por Bell Kranz, e intitulada "Coalhada, pamonha, tutu de feijão e mé. Naná quase pira". Abaixo, a matéria:

"Depois do Festival, Naná fez de novo as malas e se mandou para Recife, sua terra. Não quis que fossem buscá-lo no aeroporto. Ia ser um tal de 'ele vai no meu carro', 'não, ele vai no meu', que ele saltou fora. Foi sozinho. Foi, mas quando chegou, até escola de samba tinha à sua espera. Teve festa na família e convite do clube do bairro para dar uma canjinha. Passou dias na casa da mãe, bajulado como nunca, tipo comidinha na boca. Até um gol o irmão dedicou a ele. Num sábado, Naná foi pro campo e não entendeu direito. Era um tal de gritar Coalhada pra cá, Coalhada pra lá, o que era aquilo? Só depois entendeu, quando explicaram a razão do apelido. Mas o gol saiu. O irmão chutou para as redes e saiu correndo em direção a ele. 'Não falei, não falei, mano?'

Saudade matada, Naná veio para São Paulo. E, quinta-feira, dia 4, passou um dia incrível em Tatuí, cidade-música.

- 'Que maravilha, que maravilha', o dia inteiro ele não falava outra coisa.

Foi tratado como príncipe. No almoço, atenderam seu pedido: peixinho frito. De quebra, vejam só, tutu de feijão, arroz soltinho, salada farta, cerveja e, para abrir os trabalhos, o mé de Tatuí, cana pura, outro orgulho da cidade.

- 'Pra quem comeu tanta lata na América, nossa mãe! Isso aqui é demais'.

Fim do almoço, o diretor do conservatório não deixou por menos. Levou Naná para sua casa pra comer pamonha. Naná comeu duas e não saiu antes de bater um papinho rápido (e bem baixinho) com 'as meninas', ou seja, as plantas da casa.

No Conservatório, 60 meninos estavam lá pra assistir sua palestra. O prédio pomposo contrasta com o visual da cidade, cheia de casinhas pequenas e muitas árvores. Naná lembrou das mangueiras de Recife. Apresentou o berimbau a todos, passando de mão em mão. Tocou um chorinho no pandeiro com os alunos e distribuiu autógrafos e ideias. 'Os de cá batem palma nesse ritmo, os de lá nesse daqui, depois batem todos juntos'. Vibração geral. Os olhos brilhavam na plateia e todos deram muita risada com os exercícios. Na hora do berimbau, total silêncio.

Menos de uma hora depois, Naná sai pingando de suor, satisfeito. Alegria geral.

O respeito da plateia, as palmas que recebeu no festival de Monterey o surpreenderam. Mas mesmo assim ele não está de todo seguro:

- 'O receio continua. Eu quero que o berimbau saia do folclore assim como outros instrumentos afro-brasileiros. Despertar o desenvolvimento da percussão no Brasil.'

O que mexeu mesmo com a cabeça de Naná nesse tempo todo em que esteve fora do Brasil foi o trabalho de musicoterapia que fez com crianças francesas.

- 'O cuidado em tratar com as crianças exigiu muito da minha criação. De repente, um deslize podia fundir a cuca delas. As crianças tinham problemas de coordenação, traumas psicológicos que impediam, às vezes, até de falar. Na maioria, filhos de imigrantes que tinha de falar na rua o francês e, em casa, o árabe. O pai vai para a casa comer e engolir televisão. Uma barra. A nossa criança tem rua, a piração dela é outra. De repente ela pode pegar um copinho de iogurte e tirar um ritmo. Tem senso de improvisação imediata. Lá eu era músico e amigo. Colocava música em tudo.'

Acende um cigarro, com a voz mansa e baixa, continua:

- 'O segredo do swing é a simplicidade. É preciso ter uma fórmula e técnica para executar as propostas. Depois disso é que o músico pode incrementar. Eu sabia que aqui não tinha uma coisa definida no geral, mas estou surpreso porque tá melhor do que eu esperava. Agora tá tudo voltando. Zé Ramalho, a produção independente, a vocalização moderna e de fórmula simples do Boca Livre, que lembra o Waldick Soriano, é excelente...'

Por essas e outras ele não gostou nada do piche que George Duke deu na Baby e no Pepeu. e manda até um recadinho pro moço americano:

- 'Olha, meu, tenha calma pra não confundir. Você gravou música brasileira, mas não quer dizer que você manja de música brasileira.'

E o que é música brasileira?

- 'É samba, é bossa nova, é carnaval?, me perguntavam os gringos. A dificuldade de impor a música brasileira lá fora é muito maior do que aqui. Tem música mineira, música nordestina... então pode-se falar que existe o som de Naná. Eu sou muito sozinho no meu trabalho, mas ele não é isolado.'

Para simbolizar a chegada desse seu som ao Brasil, Naná vai fazer o disco Chegada, junto com seu grupo Assum, formado pelo irmão Erasto Vasconcelos e Afbye Djeng, do Senegal. Depois se apresenta com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, regida pelo maestro Diogo Pacheco. Antes porém, como diretor do Criative Music School, em Woodstock, Naná dirige nos EUA um curso de férias para músicos de todo o mundo.

Mas para o pessoal de Tatuí, ele não deixou barato. Prometeu voltar em dezembro. Podem ir fritando o peixe, servindo o mé, que ele vem mesmo."
 


 






sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

B.B. King - Revista Rock Stars (1983)


 B. B. King foi um mestre do blues, que influenciou uma infinidade de guitarristas que surgiram ao longo de décadas, e continua influenciando até hoje. Falar de rock sem falar de blues, uma de suas raízes, é contar a história pela metade. E para se falar em blues e seus principais nomes, não se pode deixar de mencionar B.B. King. A revista Rock Stars, em seu nº 3 (1983) trazia uma matéria sobre esse mestre, intitulada "B.B. King: Do 'Bar Blues' aos Blues de Luxo":

"Falando em nome dos negros norte-americanos, o guitarrista e cantor B.B. King salientou certa vez que 'para nós os blues são quase sagrados, pois eles são uma parte de nossa cultura e uma parte de nós'. Isso não o impediu de vestir os blues com uma roupagem modernosa, seção de sopros incluída, que contribuiu para propagar o ritmo entre plateias mais amplas ao mesmo tempo que recebia fortes críticas dos puristas. A isso ele responde com certa dose de humor: 'Algumas pessoas acham que se você é um cantor de blues, você deve aparecer como um cara que fica sentado em um banquinho olhando para o norte, com um boné na cabeça apontando para o sul, um cigarro na boca pendurado à leste e ainda uma garrafa de whisky ao seu lado, indicando o oeste. Sua guitarra, de preferência, velha e surrada. Mas isso não funciona mais. Se os blues tivessem parado por aí, já teriam morrido.'

Riley King nasceu em setembro de 1925, numa plantação de algodão situada entre Indianola e Itta Bena, no Mississipi. Trabalhou na fazenda de uma família branca, ordenhando vacas, plantando e colhendo algodão, pela bagatela de 22 dólares semanais. Interessou-se pela música ao escutar seu tio Archie Fair, que era ministro da igreja local e animava os serviços dominicais tocando guitarra. 'Eu aprendi simplesmente olhando e ouvindo meu tio tocar.' Depois foi recebendo outras influências: Blind Lemon Jefferson, Loonie Johnson, Robert Johnson, Django Reinhardt, Charlie Christian, T-Boone Walker, Oscar Moore e Bukka White (seu primo).
Mudando-se para Memphis, Teneesee, caiu nas graças do grande gaiteiro Sonny Boy Willisanson, que lhe concedeu um espaço de 10 minutos no programa de rádio que comandava, numa emissora para pretos. Ali Riley ganhou o apelido de 'Blues Boy', que abreviou para B.B.
Foi abrindo seu caminho, através de apresentações com diversos artistas de blues e jazz até chegar ao primeiro avulso: 'Miss Martha King', em 1949. No  ano seguinte lançou 'Three O'Clock Blues', que permaneceria durante 18 semanas encabeçando as paradas de rhythm' blues. Se estilo então era o do 'bar blues', amadurecido em grandes cidades do Leste, como Chicago, onde os artistas se exibiam em estabelecimentos ruidosos. Para se sobreporem à algazarra ambiente, os bluesmen contavam com o volume e impacto de suas guitarras elétricas, da bateria jazzística e de um canto energético e inflamado. B.B. King sobressai nessa corrente, com performances magníficas que fizeram de 'Woke Up This Morning', 'Sweet Little Angel', 'Eyesight To The Blind' e 'Caldonia' verdadeiros clássicos do gênero.
O revival do blues em fins dos '60 valeu para B.B. King homenagens e gravações com vários roqueiros brancos. Indianola Mississipi Speeds (1970, ora relançado pela Ariola) tem a participação de Joe Wash, Leon Russel e Carole King, enquanto o antológico B.B. King In London reúne Peter Green, Alexis Korner, Steve Marriott e Ringo Star. Tem corrido mundo cm sua versão sofisticada de blues, que lhe valeu aclamações desde no Brasil até na União Soviética. Gosta de pilotar, de dirigir seu Cadillac rosa pelo deserto de Nevada, de colecionar casos amorosos e de auxiliar na reabilitação de presos."


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Jards Macalé Lança "O Q Faço É Música" (Revista Bizz - 1998)


 Em 1998 Jards Macalé lançava mais um disco, "Jards Macalé - O Q Faço É Música", em que ele faz releituras  de antigas gravações suas, faz versões próprias e pessoais de músicas gravadas por outros intérpretes, além de apresentar músicas com letras inéditas deixadas por seu parceiro das antigas, Torquato Neto. A revista Bizz de setembro de 1998 trazia uma matéria, assinada por Danilo Monteiro, com o compositor carioca:

"Trinta anos depois de composta, a canção 'Vapor Barato', de Jards Macalé e Waly Salomão, está cada vez mais viva. Recuperada pelo filme Terra Estrangeira em 1995, depois revisitada pelo grupo O Rappa, e pela própria Gal Costa (sua intérprete original), em dueto com Zeca Baleiro, no Acústico MTV, ela ganha agora mais duas regravações. Uma, seguindo tendência inglesa moderna, o trip hop, foi feita por um grupo carioca iniciante, Vulgue Tolstoi (com clipe indicado entre os melhores demos do VMB da MTV). A outra, mais importante, é do próprio Macalé e faz parte do álbum Jards Macalé - O Q Faço É Música, que rompe um silêncio fonográfico de seis anos do compositor, cantor e violonista. Além de canções inéditas com letras de Torquato Neto e do cineasta Glauber Rocha, o disco também traz novas interpretações de algumas pérolas do seu pouco conhecido repertório, como 'Movimento dos Barcos' e 'Poema da Rosa'.

Macalé é um criador constante que registra bissextamente sua obra. Sua música não é  considerada das mais 'comerciais'. Para Arnaldo Antunes, que acha Aprender a Nadar (o segundo disco de Jards, de 1974) 'antológico', 'a integração do violão com o canto que ele tem é muito original'. Seria original demais? Outra fonte de dificuldade pode ser a fama de 'maldito', expressão usada para definir os artistas alternativos na década de 70. Macalé confessa que usou conscientemente esse rótulo, até perceber que ele tinha adquirido uma conotação pejorativa. 'Na ditadura militar, ser maldito era ser promovido a general. Claro, a gente era da resistência. Depois, acabou virando uma pecha.'
Fazendo poucos shows - 'bem menos do que eu gostaria' - e poucos discos, ele garante: 'Quer me ver contente, me põe pra trabalhar'. Leva uma vida modesta. Mora em apartamento alugado no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e não tem carro. 'Minha única propriedade privada é meu violão', declara. 'Só não aconteceu uma coisa mais grave até hoje porque minha mãe recebe uma pensão da Marinha -  meu pai foi reformado como contra-almirante -, e ela de vez em quando pergunta se eu estou precisando de alguma coisa.'

Lidar com limitações faz parte do trabalho deste carioca de 56 anos. Ele conta que compôs a música-tema para o filme Tenda dos Milagres, dirigido por Nelson Pereira dos Santos em 1977, em uma viagem de carro do Rio para a Bahia. 'As cordas do cavaquinho foram estourando, no fim da viagem só restava uma, mas terminei o choro.'

As regravações de 'Vapor Barato' aumentaram seus ganhos com direitos autorais, mas  nada que lhe permita luxos. 'Quando toca muito, recebo 2 mil reais por trimestre. Mas como a própria letra diz, 'Não preciso de muito dinheiro'.'

A versão de 'Vapor Barato' que toca no filme de Walter Salles Jr. não é exatamente igual à original, gravada por Gal Costa no disco A Todo Vapor, de 1971. 'O Wisnik (José Miguel, autor da trilha sonora) colocou umas cordas, ficou mais bonito', opina Macalé.

Ele sempre trabalhou com música. 'Nunca pensei em desistir, as dificuldades me fortaleceram. 'Mesmo quando contou com o apoio de amigos, esbarrou em dificuldades. Em 1982, o empresário Cláudio Cohen bancou a gravação de uma jam session de Macalé com Naná Vasconcelos, percussionista de renome internacional. A sessão resultou num álbum que hoje é 'cult', Let's Play That, mas que teve de esperar até 1993 para ser lançado.

Macalé e Naná Vasconcelos no estúdio

Seu primeiro emprego foi como copista da Orquestra Tabajara, aos 14 anos, com o qual aprendeu a ler música. 'Escrevia, levava as partituras na rádio Mayrink Veiga, colocava para cada músico, e então sentava para assistir a apresentação e entender o que eu tinha copiado.' Aos 16, frequentava a churrascaria Pirajá, que ficava ao lado de seu apartamento, em Ipanema, e deve ter sido uma boa escola. Lá, sentava com Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Grande Otelo. 'Ficava bisolhando o Baden tocar aquele violão'.

Foi o envolvimento com o grupo tropicalista que lhe deu a primeira projeção. destacou-se como arranjador e diretor musical de Maria Bathânia e Caetano Veloso. Chegou a se mudar para Londres no começo dos anos 70, onde Caetano estava exilado, para trabalhar com ele nos arranjos do disco Transa, outro cult, no qual Macalé toca violão e guitarra. 'A gente vivia na mesma casa, aí as diferenças ficavam bem patentes, mas levamos o trabalho até o final', afirma sem querer se estender sobre o assunto.

Hoje, ele e Caetano não se falam mais.* No entanto, Macalé diz que a divergência foi com o grupo do qual faziam parte Bethânia, Gilberto Gil, Caetano e Gal, não com alguns deles especificamente. 'Fizemos grandes trabalhos, eu colaborei no que podia, e talvez até no que não podia. Eles moraram na minha casa em Ipanema, onde Guilherme Araújo (empresário que lançou o grupo) os conheceu. Foi um problema de caráter, teve um momento em que não atinávamos mais.'

Uma amizade mais peculiar Macalé desenvolveu com João Gilberto. 'Chegamos a ficar doze horas conversando no telefone, aí uma hora ele falou: 'Espera um pouco que eu vou fazer um cafezinho', e voltou depois.' Em sua homenagem, Macalé  compôs 'Um Abraço No Oliveira' (título que se refere a um dos sobrenomes menos conhecidos do pai da bossa nova), registrada agora em seu novo trabalho.

A recente volta de Jards ao estúdio permitiu que se refizessem algumas antigas parcerias. O guitarrista Lanny Gordin, que causou furor no início dos anos 70 por suas  participações em músicas de Caetano e Gal, gravou violões para 'Movimento dos Barcos', refazendo a colaboração que já tinha acontecido na primeira gravação dessa música, no primeiro álbum de Macalé.

O outro reencontro não foi tão 'físico'. Ele musicou dois poemas que Torquato Neto (um deles, o belíssimo 'Destino', prevê: 'o destino do poeta é grande'), um dos principais letristas do Tropicalismo, deixou antes de se suicidar, em 1972. 'Fiquei muito tempo sem mexer nisso, pela dor de perder um amigo', conta, com olhar distante. O momento da retomada pode ser um pouco melancólico, mas a música brasileira  agradece."
 

* Tempos depois, os dois voltaram a se entender




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A Volta do Deep Purple (Jornal Rock Press - 1984)


 O Deep Purple é uma banda clássica do rock dos anos 70. Lançou discos antológicos que nem cabe aqui enumerá-los para não alongar demais essa introdução. Porém, como é comum acontecer em grupos musicais, ao longo de sua trajetória ocorreram desentendimentos que originaram substituições de membros e dissolução. Assim foi com o Purple, principalmente em virtude do temperamento difícil do temperamental guitarrista Ritchie Blackmore. Mas o Deep Purple, que já teve muitas formações diferentes ao longo dos anos, voltou aos palcos e estúdios de gravação em várias oportunidades. Em outubro de 1994 o nº 1 do jornal musical Rock Press, em uma coluna chamada Caverna do Metal, assinada por Paulo Sisino, anuncia uma das voltas da banda:

"1984 será um ano sempre lembrado pelos roqueiros do mundo inteiro como O Ano da Volta do Deep Purple. Pois é, o campeão do Heavy Metal na década de sessenta acaba de se reagrupar, debaixo de total espanto dos até agora incrédulos fãs, voltando com a sua 2ª formação, ou seja: Ian Gillan - vocais; Ritchie Blackmore - guitarra; Roger Glover - baixo; Jon Lord - teclados; Ian Paice - bateria.

Depois do susto inicial a gente começa a pensar: Que será agora dos filhotes do Purple: Whitesnake, Rainbow e Gillan? Bem; o próprio Gillan, que como o próprio nome indica é a banda formada pelo vocalista soberbo Ian Gillan, vai acabar, sem dúvida. Seus integrantes partem para trabalhos novos com outras bandas. O primeiro de que temos notícias é o baixista John McCoy, que estaria formando um novo grupo com o guitarrista Paul Samson, da também extinta banda Samsom. Aguardem notícias sobre Bernie Torme, guitarra; Mick Underwood, bateria e Colin Towns, tecladista.

Outra banda que fatalmente está condenada é o Rainbow, de Ritchie Blackmore. Com a saída de Blackmore o grupo simplesmente evaporou. Muito estimado pelos fãs brasileiros, será sempre lembrado por discos como Long Live Rock'n Roll, On Stage e Rising. Vai ser pranteado também pelo mérito do grupo revelador de ótimos músicos, tais como Ronnie James Dio, Jimmy Bain, Cozy Powell. Joe Linn Turner e muitos outros.

Por fim, o Whitsnake. Este é o de final mais incerto e futuro deveras nebuloso. David Coverdale, fundador do grupo e também um ex-Deep Puple, deve estar furibundo nas calças. Em primeiro lugar ele perde a 'boquinha' no novo Purple em detrimento de Ian Gillan. Em segundo lugar, com a volta do Deep Purple o Whitesnake também ficou em pedaços. O magistral tecladista Jon Lord, um dos fundadores do Purple e também um dos principais responsáveis pelo som do grupo, era uma peça-chave na estrutura do Whitesnake. Sem ele Coverdale fica num dilema: ou termina o grupo, reconhecendo que seu som tradicional nunca mais será o mesmo, ou o leva adiante seguindo numa linha mais arrojada*. Com isso, ele aproveitaria o renome do Whitesnake para se lançar num terreno que o grupo ainda não tinha explorado devidamente: o som mais cru e áspero dos grupos da Nova Onda do Heavy Metal Inglês. As condições para isso ele tem na pessoa de John Sykes, seu novo guitarrista: Sykes, que já foi do Tygers of Pan Tang e Thin Lizzy, agora tem a faca e o queijo na mão para convencer Coverdale a 'empaulerar' o som do Whitesnake. Fiquem ligados para novas notícias.

Quanto ao Purple propriamente dito, o que sabemos é que estão trancados a sete chaves numa aprazível estância no campo, mas trabalhando duro, com sua inspiração divina, para não desapontar os fãs e, em último caso, os chefões das gravadoras. Aguenta, coração!"

* A verdade é que três meses depois da publicação da matéria o Whitesnake se apresentou na primeira edição do Rock In Rio, fazendo shows muito elogiados


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O Demiurgo - Um Filme dos Tropicalistas


 O exílio de Caetano e Gil em Londres proporcionou a ambos a aproximação com Jorge Mautner, também exilado e buscando novas formas de expressão artística. Além de poeta e compositor, Mautner também resolveu se aventurar no cinema, e lá em Londres roteirizou, dirigiu e atuou em um filme experimental chamado O Demiurgo, com a  participação de entre outros, Caetano, Gil e Jards Macalé. O filme hoje é um importante documento do período do exílio dos dois baianos, e da contracultura brasileira. Em sua edição nº 68 o jornal musical International Magazine trazia uma matéria sobre o filme, assinada por Toninho Buda em sua seção "Contracultura":

"Demiurgo é o nome dado pelos platônicos ao deus que teria criado o mundo, mas significa também operador de milagres. E hoje (25 de agosto de 2000) é uma data muito oportuna para falarmos deste filme, porque estamos comemorando no mundo todo o centenário da morte de Frederico Nietzsche. A influência deste filósofo é tão vasta, que eu chego a ficar emocionado quando leio o caderno Ideias, do Jornal do Brasil desta semana, especial sobre ele. Curiosamente, encontrei por acaso e reli hoje mesmo as anotações que fiz há exatos dois anos, assistindo a um fantástico filme dos tropicalistas. Naquela noite mágica, o Marcos - que tem com a Tropicália uma ligação semelhante à que eu tenho com a Sociedade Alternativa - me mostrou esta relíquia da Kaos Filmes, que pouca gente conhece. Diga-se de passagem, Kaos sempre foi o nome da proposta político-filosófica de Jorge Mautner, que é um outro verdadeiro apaixonado por Nietzsche. É o próprio Mautner que inicia o filme, no papel de Satã. Gilberto Gil logo aparece - fantástico - no papel de Pan e em seguida vem Caetano Veloso, no papel do Demiurgo. E este demiurgo é um discípulo de Sócrates... Da trama ainda participam Jards Macalé e Dedé Veloso, a primeira mulher de Caetano.

Ora, é importante salientar nesta abertura, a representação da violência contra a natureza humana que foi causada pela maniqueísta divisão entre o corpo e a mente, ou entre physis e logos, desde os tempos dos gregos. Os gregos são os autores da máxima mens sana in corpore sano (mente sadia em corpo são), que pressupõe essa integridade entre corpo e mente. Mas foi exatamente com um grego - Sócrates - que nós passamos a assistir à decapitação do ser humano, num processo em que a cultura socrático-cristã veio - durante os séculos posteriores - desprezar a  terra e valorizar somente o céu. Bem como desprezar o corpo e valorizar somente a alma. E ainda dizer que o corpo tem parte com o diabo e a alma deve buscar se livrar dele e buscar a Deus. Assim, o filme O Demiurgo se inicia com Caetano fazendo o papel de representante de Deus e Mautner e Gil representando os lados demoníaco e dionisíaco da natureza: Satã e Pan, Luta & Prazer (aproveito aqui pra relembrar o nome desta fantástica e infelizmente desaparecida publicação alternativa da contracultura brasileira: Luta & Prazer)

Satã é o mesmo Satanás, chefe dos anjos rebeldes contra Deus, segundo a Bíblia. É ainda o demônio da ira, do ódio, da guerra, do repúdio e do revide. Seus colegas são Lúcifer (orgulho), Mammon (avareza), Asmodeu (luxúria), Belzebú (gula), Leviatã (inveja) e Belphegor (preguiça). Mas voltemos ao filme: os diálogos são fantásticos e as cenas, cheias  de símbolos. Mautner usa o pentagrama invertido (símbolo do mal) e o anjo o utiliza na forma positiva. A cena de Gil (Pan) com as lésbicas é antológica! O demiurgo dá consultas às mulheres, castiga-as, lê suas mãos e, de repente, grita 'viva a lógica!' Logo em seguida, Sócrates quer ler suas mãos... É evidente aqui uma grande gozação com o logos grego, pois a leitura de mãos não tem a ver com a lógica (que é a parte da filosofia que estuda as leis do raciocínio). Em dado momento, sete amazonas matam o demiurgo e bebem o seu sangue (a amazona parece representar o domínio da delicada beleza sobre a besta - o cavalo. Ou seja, a besta selvagem subjugada à vontade da mãe, gerado da vida). Mas o demiurgo ressuscita e discursa sobre a divina comédia humana, com saudades da Bahia, Porto Seguro e do sol dos trópicos (Na Divina Comédia, Dante colocou no inferno grande parte dos políticos do seu tempo...O filme, que assistimos em vídeo mas parece ter sido feito em super/8, parece ter sido rodado durante o exílio deles na Europa e época da Ditadura Militar no Brasil. Seria interessante se o International Magazine buscasse uma entrevista sobre o assunto)...

Caetano e Gil
A presença de citações de Nietzsche então se torna muito forte no filme. Na cena do equilibrista, em que Caetano cita o grande poeta Rimbaud (o primeiro grande hippie), o filósofo alemão é muito evidente num texto que é do Zaratustra e diz mais ou menos o seguinte: 'o homem é uma corda esticada entre o animal e o além do homem; uma corda sobre o abismo'. Além disso, Caetano faz uma outra citação do Zaratustra, que o próprio Mautner sempre usou em seu trabalho: 'Aquele que não trouxer dentro de si o caos, não poderá dar à luz a grande estrela bailarina' (na verdade, o texto original está na parte do item V do Zaratustra, e diz: 'e Zaratustra falava assim ao povo: é tempo que o homem cultive o germe da mais elevada esperança. Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si, para dar à luz uma estrela bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós outros'). Mas tem outra nota importante a esse respeito: Ordem da Estrela Bailarina era o nome de uma ordem iniciática criada por Edenilton Lampião (editor da revista Planeta no início dos anos 80), onde ele tentava aglutinar o que restava dos movimentos alternativos no Brasil, esta ordem era de clara inspiração nietzschiana e crowleyana... Não é a primeira vez que falamos entre a Jovem Guarda, o Tropicalismo e a Sociedade Alternativa... mas voltemos ao filme.

Jorge Mautner

A cena da lata de Coca-Cola é digna de Salvador Dali! Quem mais poderia criar uma analogia entre a beleza externa de uma lata de Coca com Apolo (o deus da beleza na mitologia grega) e o seu conteúdo com Dionísio (o deus do vinho entre os gregos ou mesmo Baco entre os romanos)? E quem mais poderia ter a genialidade de pintar um pacto entre o Demiurgo, o diabo e Sócrates, para daí resultar a morte de Pan, senão os tropicalistas?! Gilberto Gil interpreta de forma brilhante a morte de Pan. E não estaria aqui também a morte de Deus, que é uma das essências da grande obra de Nietzsche? O Grande Deus Pan morreu... Em resumo: ao tentar separar-se do corpo (physis), a própria cabeça (logos) morre imediatamente de fome! Aí reside a essência da morte de Deus: a ninguém é possível ir para o céu assassinando dentro de si o Grande Deus Pan!"