Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Aonde o Swing Vai (Revista Música - 1978)

A revista Música era um ótimo veículo de crítica e análise musical. Trazia bons colaboradores, e matérias e entrevistas que davam uma visão do panorama musical brasileiro e mundial. Dentre os colaboradores posso citar Júlio Barroso, um grande conhecedor de música. Além de jornalista, foi também discotecário (ou DJ), e mais tarde, artista de palco quando criou e fez parte da Gang 90 & Absurdetes, um das bandas mais criativas do rock nacional dos anos 80. Nessa matéria da edição nº 21 da revista (1978), Júlio fala sobre a black music brasileira e o som swingado que se fazia por aqui. Aborda artistas como Carlos Dafé (foto acima), Lady Zu, Cassiano, Banda Black Rio, Gérson King Combo, além de alguns nomes menos conhecidos. Segue abaixo a transcrição da matéria:

"Durante 1977 com a explosão definitiva do Black-Rio, os jovens negros do subúrbio ascenderam para um pouco mais perto do sol, expressando através da música, dança e costumes as características internacionais da cultura negra.

Assim, pioneiros como Cassiano, o genial compositor paraibano, Tim Maia, o fabuloso performer, Carlos Dafé, Gérson Combo e tantos outros vieram pela primeira vez ao centro de gravitação opiniosa da MPB, recebendo por parte da crítica especializada uma atenção mais considerada.

Cassiano
Neste exato momento, por exemplo, Tim Maia acaba de assinar contrato com a WEA, e já está refazendo sua banda de apoio para futuras apresentações ao vivo, que são o forte de Dom Tim. Sua antiga banda 'Vitória Régia', composta por instrumentistas de alto nível, se dissolveu. Tim prepara nos estúdios seu próximo elepê, sendo acompanhado por Renato Piau e Ari, nas guitarras: Robson Jorge (compositor e produtor de sucesso, de antigas bandas de Tim), teclados; Jamil Joanes, baixo; Paulinho Braga e o próprio Tim, nas percussões. Já estão gravadas duas músicas que deverão estourar geral, 'Pais e Filhos', de Piau e Arnaud, e, 'Murmúrios', composição de Cassiano. Para excursões ao vivo, Tim Maia talvez ataque de contrabaixo, Piau de guitarra, Paulo Bagunça, percussão, Darci, Geraldo, Tião, metais, completando-se, ainda, com Reginaldo, tecladista do 'Vitória Régia'. Uma nova época de produções se inicia para Tim, que do alto de seus estúdios particulares da Seroma, no alto de uma montanha com vista para a Lagoa, já está acionando preciosas criações.
Cassiano, após o elepê 'Cuban Soul 18 Quilates', gravado em 76, teve sucesso absoluto com quatro hits fulminantes, 'A Lua e Eu', 'Coleção', 'Onda' e 'Ana'. Ele, porém, vem enfrentando várias dificuldades nas companhias onde tem gravado. Reclamam sempre do gênio do compositor e multiinstrumentista, que é extremamente perfeccionista. Cassiano chegou a me reclamar magoado com a falta de apoio e verba para a formação de sua banda. O fato é que ele renovou seu contrato com a Companhia Brasileira de Discos, e começa a gravar um compacto, ou quem sabe um elepê. Cassiano é um dos maiores estilistas vocais, além de ter grande conhecimento de estúdio e produção. Todas as suas criações devem ser acompanhadas numa boa.
Lady Zu

Dom Charles, regente, arranjador e tecladista, que já trabalhou com Cassiano, Roberto Carlos, e Jorge Ben, agora se lança em parceria com Nelson Motta por uma trilha de hits iniciados com a canção 'Com sabor' que será gravada por Lady Zu, a jovem paulista consagrada por sua interpretação em 'A Noite Vai Chegar'. Dom Charles é ainda o autor de alguns dos mais incrementados arranjos no elepê superlindo das 'Frenéticas'. Seu projeto é a formação de uma big banda dançante atuando de montão e com força no circuito de bailes do Rio.

Carlos Dafé, morador do Quitungo, conjunto refavelal da Penha, tem atuado no circuito noturno como cantor, tocando guitarra, baixo e teclados há 10 anos. Dafé possui um trabalho de composição muito bonito, que agora chegou ao alcance do grande público com seu excelente disco de estreia. Sua voz de profundo feeling natural detona canções altamente swingadas. Sua mais recente parceria é com Nelson Motta, já tendo duas belas canções produzidas, levando jeito de autênticos hits, 'Escorpião' e 'Criança Maravilha'. as duas melodias já estão em mãos de Gal Costa que irá gravá-las. Carlos Dafé começa a preparar seu segundo elepê em breve e tem se apresentado constantemente no circuito da zona norte do Rio.

A Banda Black Rio, após a maravilhosa estreia em disco, e o injustamente malogrado Baile Bicho Show, sofreu alterações na formação de  seu pessoal. O tecladista Cristóvão Bastos retornou às suas origens, o grupo de Paulinho da Viola, sendo substituído por Jorjão. O baixista Jamil Joanes partiu para um trabalho solo e como instrumentista dos grupos de Wagner Tiso e Nivaldo Ornelas, cedendo o passe na Black Rio para Valtencir, baixista funk por excelência. O resto da rapaziada prepara o retorno da orquestra maravilha para breve.

Hyldon

Gérson Combo separou-se da Banda União Black, e grava o seu segundo elepê, com seus novos  músicos. Em apresentação ao vivo, Gérson continua sendo assessorado por suas maravilhosas bailarinas negras de cabelo platinado. A União Black, um dos mais integrados grupos de swing, continua na estrada, fazendo a cabeça da rapaziada no circuito black da ZN do Rio.

Os discípulos de Tim Maia, Hyldon e Robson Jorge, estão contratados pela CBS, onde juntamente com Cláudia Telles e Lincoln Olivetti, fazem o grupo de swing da Casa.

Novos valores, como Célio José, do Estácio; Tureko, da Rocinha; Toninho Café, Mineiro: Bida Nascimento, excelente contrabaixista, criador da Banda Funk do Dr. Beltrão; (que atua com o pessoal da Nuvem Cigana, em bailes-shows), Arnaldo Brandão e Vinicius Cantuária, que definitivamente preparam o supergrupo 'Asfalto', formam um grupo bastante diversificado de músicos, compositores e cantores, ligados ao balanço negro, alguns de influências regionais como Toninho Café, outros ligados ao swing eletrônico urbano, como Vinicius e Arnaldo ou o afro-jazz de Bida. Todos, embora em áreas diferentes, são representantes desta maravilha herdada da Mãe África, a civilização dos tambores.

É gente nova prometendo um 78 cheio de surpresas. E, é claro, 78 será o ano de Luiz Melodia, ou, como se diria, viva o Rio de Janeiro, sol, praia, montanha, a terra do  balanço afro-tupi que veio das estrelas."












sábado, 6 de fevereiro de 2021

O Exílio de Chico Buarque na Itália


 Embora seja menos lembrado e comentado que o exílio de Caetano e Gil em Londres, Chico Buarque também viveu na mesma época, um período de exílio, só que em Roma. No caso de Chico, não houve prisão e confinamento, como no caso dos baianos, e seu exílio foi voluntário, porém não deixou de ser também uma consequência das perseguições que alguns artistas estavam sofrendo pelo governo militar. Chico preferiu se antecipar e deixar o país, antes que algo pudesse acontecer com ele. Uma revista especial sobre sua vida, publicada em 1979, conta sobre aquele período:

"Em agosto de 68, Chico Buarque vai a Nova Iorque, Londres e Roma, onde grava um compacto duplo e um especial para a televisão italiana. Na volta, trabalha num curta metragem de Flávio da Costa, que mostra algumas cenas de Roda Viva e quatro novas composições suas: 'Carolina', 'Januária', 'Até Pensei' e 'Até Segunda-Feira'.

Em dezembro, apresentando 'Sabiá', em parceria com Tom Jobim, ele venceria o III Festival Internacional da Canção, promovido pela Globo. A música foi defendida por Cynara e Cybele.

Apesar de ter ido à famosa 'passeata dos 100 mil', mais por pressão do que por convicção, sabia que o clima não estava mesmo muito para ele. Por isso aceitou o convite para apresentar-se em Cannes no Midem, antevendo a possibilidade de dar uma esticada à Itália, onde pretendia permanecer por uns três meses, até passar o efeito dos acontecimentos - como ter sido chamado para depor no Exército -, além de ser uma ótima oportunidade de repensar sua carreira, rever tudo.

As coisas, no entanto, foram tomando dimensões maiores que as esperadas, e sua permanência na Itália foi se prolongando. embora já tivesse estado por lá quando criança, não faltaram alguns problemas de adaptação, principalmente para quem, como ele, estava acostumado a um bom papo com os amigos, às peladas na praia, a um chopinho no fim de tarde, coisas fundamentais para um compositor de música brasileira.

Por isso mesmo, este foi um dos períodos mais críticos em termos de criação. Longe de suas fontes de inspiração, e principalmente do contato com o povo, suas emoções e problemas, ele passou a compor bem menos e mesmo as músicas dessa época ele confessa 'meio perdidas, sem representar muita coisa em meu trabalho'.

Essa situação toda pode ser melhor avaliada ouvindo-se o disco gravado metade lá, metade cá, um disco não muito espontâneo. Ele havia saído da RGE, e assinado com a Phillips, que agora lhe cobrava o disco. Então foi meio naquela do tem que fazer, e fez. As partes instrumentais foram gravadas aqui, enquanto em Roma ele só tinha o trabalho de colocar os vocais por cima. Assim, estava pronto o Chico Buarque nº 4 onde apareciam algumas parcerias: uma com Tom Jobim chamada 'Pois É', outra com Garoto e Vinícius de Morais - 'Gente Humilde', além de ter musicado um texto extraído do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles.

No entanto, a música mais importante do disco pode ser considerada 'Agora, Falando Sério', onde ele faz uma quebra com o seu passado recente e revela uma certa  amargura:

'Agora falando sério/ Eu queria não cantar/ A cantiga bonita/ Que se acredita/ Que o mal espanta/ Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá/ Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro/ Pra não ver a banda passar/ Eu quero fazer silêncio/ Um silêncio tão doente/Do vizinho reclamar/ E chamar polícia e médico/ E o síndico do meu prédio/ Pedindo para eu cantar'.

Chico e o MPB-4

Uma das principais companhias de Chico, durante sua estada na Itália, foi a do violonista Toquinho, que andava meio perdido por lá. Juntos, fizeram vários shows abrindo espetáculos para Josephine Baker. Os jornais aqui falavam em sucesso estrondoso, mas segundo Chico as coisas não eram bem assim:

'Não existe essa história de chegar e vencer. Minha última turnê com Josephine Baker, por exemplo, começou com um show às duas da manhã, em Turim. Saímos de lá correndo, com vários ônibus levando a companhia, e viajamos até o sul da Itália, onde fizemos um novo show às oito horas da noite, do dia seguinte. No início, eu cantava com músicos italianos e ficava muito nervoso. Tinha medo de errar e também não gosto mesmo de me apresentar em shows. Se fosse possível ficava só com os discos. Quando o Toquinho chegou à Itália e começou a me acompanhar, fiquei muito mais tranquilo, e olhe que os músicos italianos são muito bons. O problema é que faltava bossa.

Eu não sou sucesso na Itália. É claro que existe quem me conheça. Eu fiz uns cinco programas - todos nos sábados à noite. Dei alguns autógrafos na rua. Mas isto é comum, acontece com todo mundo. E mais: no outro dia somos logo esquecidos'.

Segundo Marieta, eles já estavam mesmo pensando em voltar para o Brasil, quando surgiu o convite do Ricardo Amaral para que Chico fizesse algumas apresentações na Boate Sucata, o que foi a gota d'água. A família, agora com uma filha, Sílvia, nascida na Itália, retorna ao Brasil no dia 20 de março de 70, e sua chegada foi como ele, no fundo, gostaria que fosse, com as pessoas e os amigos se lembrando dele. No final de um dia exaustivo, pois todo mundo resolveu revê-lo no mesmo dia, ele confessa:

'Bem que eu estava precisando de tudo isto'."



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Superfly - Curtis Mayfield, Obra-Prima Black


 Superfly é uma trilha sonora composta e interpretada por um mestre da soul music e da música black em geral, chamado Curtis Mayfield. O disco tornou-se um verdadeiro clássico da música black mundial, e é constantemente lembrado em resenhas sobre os grandes discos lançados em todos os tempos. Assim foi na revista alternativa Mosh nº (agosto 2004), inaugurando uma coluna chamada Classic, que destacava discos que fizeram história. Um pequeno texto introdutório dizia "Antológica trilha sonora do mestre da soul music deu um novo sentido à palavra 'genialidade' ". O texto é assinado por Regis Tadeu:

"Curtis Mayfield foi um dos raríssimos artistas a expressar com perfeição a dualidade de se viver em uma época marcada por uma encruzilhada cultural. Oriundo do meio gospel, ele logo adquiriu fama e respeitabilidade ao integrar o The Impressions, com quem cometeu, em 65, uma de suas obras-primas, 'People Get Ready'.

Quando largou o grupo e enveredou por uma brilhante carreira-solo, Mayfield estabeleceu o terceiro vértice do triângulo formado pela doçura da Motown e pela crueza lapidada da Stax, além de ter sido um dos primeiros a cantar a necessidade do engajamento na luta pelos direitos civis da comunidade negra, sempre pela ótica da valorização do orgulho racial.

Desde sua estreia em 1970 com o ótimo Curtis, ele já preconizava que o otimismo hippie havia dado lugar às incertezas e à militância política, mais contundente que o 'peace & love' preconizado por gente que não era muito chegado a tomar banho. Mas foi por intermédio da trilha sonora da trilha sonora de um dos mais significativos da chamada blaxploitation (corrente cinematográfica em que diretores negros glorificavam a bandidagem e a malandragem sacana de quem vivia nos becos e sarjetas de Nova Iorque e Los Angeles, cujo ápice foi o filme Shaft, com trilha imortalizada pelo genial Isaac Hayes) que Mayfield traçou um retrato inequívoco de uma sociedade.

Embora muitos acusem Superfly de ser um péssimo filme que glorificava as drogas, a obra era um tapa com luvas de boxe na pretensa sensibilidade social americana, antepassada distante da nefasta tese do 'politicamente correto'. Mas o incrível é que sua trilha sonora  era embalada com um incrível requinte melódico, com grooves monstruosos e plácidas canções que serviam de perfeita moldura para a aparente apologia ao excesso. Mais do que ilustrar musicalmente as cenas do filme e longe de qualquer tipo de julgamento moralista, Mayfield e sua voz adocicada contavam histórias por meio de letras em que não dava para separar os personagens da película das figuras reais - e não torpes quanto - que perambulavam pelas grandes cidades americanas no período pós-Vietnan. Tal qual um poeta/menestrel atento, ele teceu incisivos comentários sociais sobre como uma poderosa América começava a se esfacelar a partir de suas entranhas, não se esquivando de questionar nem mesmo a complacência da própria comunidade negra.
Entendendo o termo 'disco conceitual' - que havia sido criado pelos Beatles em Sgt Pepper's... - para o terreno da black music (coisas que Marvin Gaye também havia feito com o espetacular What's Going On?). Meyfield criou um verdadeiro maremoto de lavadas sacolejantes, com sua guitarra plugada em pedais wah wah tão insanos quanto geniais. Sua voz em falsete, urgente, angelical e demoníaca ao mesmo tempo, era um outro instrumento, com o qual Mayfield explicitou suas  convicções sociais ao contar a trajetória de um traficante prestes a se aposentar, funcionando como um microscópio da sociedade americana que a mídia hipócrita prefere ignorar.
Na abertura com 'Little Child Runnin' Wild' (única das músicas não compostas especialmente para o filme), a união perfeita entre a percussão latina e a base contundente do órgão Hammond serviu para Mayfield exalar a  dor sentida por uma infância vivida nas ruas. Se 'Freddie's Dead' mostrava a descida ao inferno de um neguinho boa-praça, tudo sob olhar indiferente de quem via a desgraça acontecer, a inacreditável 'Pusherman' (e sua mitológica linha de baixo) estabelecia um interessantíssimo paralelo entre o traficante e a maneira como respeitáveis homens de negócio exerciam suas atividades. A sensualíssima 'Give Me Your Love (Love Song)' e o balanço de 'Eddie You Should Know Better' eram um perfeito contraponto atmosférico à eloquente moral da história tristemente celebrada na definitiva 'No Thing on Me' e na explosão suingada da faixa-título, uma continuação de 'Pusherman', com Mayfield tentando entender a natureza do traficante.
Dois temas instrumentais formavam um caso à parte. 'Junkie Chase' tinha uma relação musical muito próxima a 'Shaft', ao passo que a pungente 'Think', estrategicamente posicionada após a conclusão da história, fazia uso de instrumentos pouco convencionais ao estilo - como um oboé - para sedimentar a  ideia que não era preciso usar drogas para se alcançar a felicidade.
A influência do 'Brian Wilson' do soul em todos os cantores de soul, funk, r&b e o raio que o parta após Superfly foi tão intensa, que até mesmo as trilhas sonoras de filmes de TV sofreram os efeitos devastadoramente geniais causados por ele, abrindo caminho para outras experiências do gênero (a trilha de Across 110th Street foi composta por Bob Womack, enquanto as músicas de Trouble Man vieram de Marvin Gaye) e ditando as regras da black music elaborada por todas as gerações que o sucederam - vide os Beastie Boys sampleando o baixo de 'Superfly' em 'Eggman', no disco Paul's Boutique.
Vítima de um acidente inacreditável - a queda de uma torre de iluminação em sua cabeça durante um show em 1990 deixou-o tetraplégico, o que o levou à depressão e a um câncer de próstata, que acabou matando-o em 1999, Mayfield era tão genial que, mesmo passados 25 anos de seu lançamento, Superfly ainda é um bálsamo para nossos ouvidos cansados e claudicantes."
 



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Nelson Motta: Notas Para um Brazilianist Musical (O Globo - 1977)


 Desde adolescente eu já gostava de ler sobre música, e recortar e guardar matérias que achava interessantes. Uma coluna de jornal que eu gostava muito de ler era a que Nelson Motta escrevia em O Globo. Entre meus guardados existe essa resenha escrita em 1977, chamada "Notas Para um Brazilianist Musical", onde o colunista critica músicas de fácil apelo comercial, como o estilo musical chamado de "Pilantragem", que tinha como principal referência Wilson Simonal, e o chamado na época "sambão-jóia", um estililo de  samba de apelo fácil. Ao mesmo tempo, exalta compositores que produziam uma música de qualidade, e que elevava a boa música que era criada no Brasil. Segue o texto:

"Depois de tempos breves e efervescentes, com o movimento triunfando e modificando definitivamente os caminhos da arte brasileira, pelos idos de 67/68, o Tropicalismo foi bruscamente esvaziado em sua continuidade com a ida de Caetano e Gil para Londres. A outra corrente musical forte, que tinha seus trabalhos mais representativos e suas tendências mais nítidas através do gênio de Chico Buarque, também caiu num incômodo vazio. Em Roma, Chico e sua música estavam muito mais que geograficamente distantes da música do Brasil.

Nesse período sombrio e sem qualquer perspectiva de criação deu-se o fenômeno-Simonal. O tempo mostra que não há qualquer necessidade de aspas em fenômeno já que se torna cada vez mais claro que a explosão popular, propaganda e clima geral do país foram fatores fundamentais para o extraordinário sucesso de Wilson Simonal, sua música, sua maneira de ser e sua postura artística. No vazio criativo do Tropicalismo e da MPB que tinha sua maior expressão em Chico, estourou a Pilantragem. Com 'P' maiúsculo mesmo, como nome de uma tendência - não destinada a modificar o rumo da música brasileira, mas reflexo direto dos tempos por que passavam o país, sua música e  seus criadores, tempos confusos, estranhamente 'eufóricos', multidões dóceis à batuta vocal do 'Simona', cantando um monte de bobagens pela simples necessidade de alguém - mesmo que fosse Simonal - para lhe dar as ordens e dizer o que deveria ser cantado e como.

Wilson Simonal

Foram os tempos de maior crise criativa da música brasileira nas últimas décadas. Há esperanças desses tempos na sólida posição do atual 'sambão jóia': um desdobramento natural da pilantragem de Simonal. As mudanças formais foram no sentido de substituir uma americanização de arranjos e estilo de Simonal por doses maiores de 'nacionalismo' musical, com o samba deixando de ser o gênero popular mais característico do povo brasileiro para assumir uma discutível e perigosa postura de música oficial do país. Quase obrigatória. Na maioria das músicas do gênero, não há qualquer contribuição para o renovar ou, pelo menos, para fixar os traços mais fortes da música nacional do Brasil. Melancólicas diluições da força e energia que regem o samba como expressão musical.

É um pouco como bebidas fortes: muitos preferem misturar com água. Há os que tomam vinho e os que bebem sangria. Samba, como cachaça, é melhor puro, límpido, cristalino, ígneo. Mas também é bom com o limão de Chico Buarque, o caju de Gilberto Gil, o maracujá de Caetano Veloso ou o côco de Raul Seixas. Sambão jóia é como um refresco de cachaça industrializada, daquelas que provocam terremóticas ressacas. Muita água, muito açúcar, e uns traços de cachaça...

Está aí o Benito di Paula que não deixa mentir.

Estão aí mesmo as multidões que se deliciam com esse tipo de música que, apesar de utilizar-se da mesma estrutura rítmica, não tem nenhum parentesco com o gênero musical onde navegam criadores como Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Cartola ou Ismael Silva. É outro departamento, mesmo. Enfim, cada um tem a música que merece ou que pode suportar.

O sambão-jóia é, ao mesmo tempo, uma clara e nítida projeção de um tempo brasileiro. De uma face de um tempo brasileiro. Há outras projeções e testemunhos de outras faces, das muitas faces que tem a ampla música que fazem os brasileiros.

No mesmo vazio onde se alastrou a pilantragem de Simonal, brotou pouco depois uma inviável - e por isso mesmo heróica - geração de criadores. Surgidos no vazio, mal saídos ou mal saindo das universidades, sem nenhuma perspectiva profissional mais ampla e sem uma proposta artística coletiva ou individual capaz de um movimento de transformação musical. Luiz Gonzaga Junior, Ivan Lins, Aldir Blanc e César Costa Filho são sobreviventes desses tempos semi-mortos. Brilhantes sobreviventes que, mesmo maltratados e castigados por equívocos e pelos mecanismos do sucesso, conseguiram amadurecer na dor e na indiferença para encontrarem suas próprias linguagens, para imporem suas músicas e postura diante do público.

Ivan Lins

Ivan é a mais bonita fênix dos últimos anos. Encontrou um parceiro - Vítor Martins - capaz de dar a suas músicas o peso, a densidade e a intensidade que merecem. Ivan está produzindo uma música vigorosa, direta, pessoal. Basta ouvir seu LP 'Somos Todos Iguais Nesta Noite' para entender tudo.

Mesmo César Costa Filho, que tem objetivos bem mais modestos que seus contemporâneos, ao encontrar um igualmente bom parceiro em Heitor Valente, está mostrando que possui grandes qualidades de melodista.

Aldir Blanc
Aldir é outra enfermaria, é caso à parte, raridade. Um dos maiores talentos de letrista que a música brasileira abriga. Letrista de briga, carioca, malandro, de inacreditável habilidade com as palavras, de verdadeiro virtuosismo na criação da poesia popular. Com humor, com ironia, com raiva - sempre original, consequente, de significados intensos. Aldir também veio na barriga dessa espremida geração pós-Tropicalismo que se agrupava sob o nome de MAU (Movimento Artístico Universitário). Sobreviveu ao negror dos tempos e brilha com luz cada vez mais própria e intensa, ao lado de João Bosco.
É verdade que depois do Tropicalismo, não surgiu outro movimento musical com características próprias de linguagem e objetivos. Mas em compensação, o tempo e as feridas amadureceram e adensaram os criadores de outras gerações, atualmente explodindo em maturidade criativa, com vários compositores trabalhando em tão íntegros e pessoais estilos que cada um deles poderia ser a base de uma escola ou movimento de rumos próprios e muitos integrantes.
Aí estão Chico Buarque, Caetano Veloso, Jorge Ben, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, a eternidade de Tom, Vinícius e João Gilberto, os roqueiros antropófagos como Rita e Raul, a grande música de músicos como Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Dory Caymmi, Francis Hime, uma geração amadurecida e sofrida, invencível, e indomável pois abençoada com um raro dom de talento e originalidade, uma geração ferida, renascida, ouvida cada vez mais e com mais atenção por mais gente. Como as  boas safras de vinho, essa geração da música brasileira é inacreditavelmente rara, lendária, como um cometa que só passa de tantos em tantos anos.

Caetano Veloso

Caetano Veloso, recentemente: 'Eu ainda sou um líder!'

Como líderes são os outros todos, mesmo que não queiram, mesmo que não possam, mesmo que não devam: a música que eles produzem modifica profundamente os rumos da música que as novas gerações vão produzir, modificando uma maneira de criar e pensar a vida, as pessoas, o país e os tempos."




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Crossroads - Uma Biografia de Eric Clapton (1995)


 Considerado por muitos como o melhor guitarrista vivo, e com uma história mais do que consolidada no mundo do rock e do blues, Eric Clapton tem uma vida pessoal e profissional com altos e baixos, principalmente por seu envolvimento com as drogas e tragédias pessoais. Mas o sucesso, a fortuna e a consagração artística também pontuaram sua vida. E tudo isso é relatado na biografia Crossroads, lançada em 1995. Na ocasião o lançamento foi noticiado pelo Jornal do Brasil, em matéria assinada por Nayse López;

"Ele já foi God, agora é Lord. O título de Sir, recebido na semana passada das mãos do Príncipe Charles da Inglaterra talvez mude o vocativo do súdito Eric Clapton. Mas, para muitos em todo o mundo, o filho de mãe solteira criado pelos avós e responsável por uma das mais conturbadas vidas da história da música é apenas o maior guitarrista vivo. É essa vida ao som de blues que o jornalista americano Michael Schumacher conta na biografia Crossroads - a vida e a música de Eric Clapton, que a Record lança na terça-feira com um show do Blues Etílicos, no Mistura Fina. Em tradução de Jamari França, crítico de música do JB, o livro se baseia numa minuciosa pesquisa e em entrevistas dadas por Clapton ao longo da carreira. A biografia não apaga as velas para o ídolo, apenas fala francamente de seus períodos de escuridão.

O livro - dividido em capítulos que têm como título canções de Clapton ou de outros autores de grande importância para sua carreira - detalha desde a infância e os primeiros contatos com a música, passando pelo auge do grupo Cream. A carreira de Clapton vai se delineando tendo como pano de fundo seus relacionamentos amorosos e amizades musicais. Como o encontro com Jimi Hendrix, quando Clapton já era um Deus - apelido dado pelos fãs e pichado nos muros de Londres à época - e Hendrix um iniciante. A amizade entre eles floresceu e, quando Hendrix morreu, Clapton se perguntaria porque ele tinha sobrevivido.

Sobreviver é, segundo o livro, a segunda melhor qualidade de Clapton. Depois de uma primeira passagem por uma clínica de desintoxicação de heroína - ele voltaria a se reinternar por causa do álcool - Clapton sempre foi homem de muitas mulheres mas estava em busca de uma só, o amor de sua vida, a estonteante Pattie Boyd Harrison. Ela era perfeita, não fosse o inconveniente de ser mulher do melhor amigo, o beatle George Harrison. Desesperado e não correspondido, Clapton apelou e compôs a magnífica Layla, que o ajudou na longa e gradual conquista do coração de sua amada.

O Cream: Jack Bruce, Ginger Baker e Clapton

Mas as tragédias não chegaram ao fim. Um baque seria a morte do amigo Steve Ray Vaughan em um acidente aéreo, junto com outros músicos. Outro, a decadência da carreira, produto quase natural de uma longa permanência no mundo musical. E a maior de todas as perdas: a morte do filho Conor, ao cair de uma altura de 49 andares por descuido da faxineira. Este fato, visto imediatamente como razão suficiente para a destruição da conturbada vida do guitarrista.

Como de costume, ele mergulhou nas composições para purgar seu sofrimento e o resultado foi a balada Tears in Heaven. 'Eu devia isso a ele. Precisava apresentar meus respeitos àquele garoto, à minha moda, e mostrar ao mundo o que penso dele', disse Clapton na época do lançamento da música. Resultado: a balada explodiu nas paradas, a gravação do Unplugged da MTV levou seis Grammy e o consolidou como um dos maiores nomes da música.

Escrito por um claptonmaníaco, Crossroads - a vida e a música de Eric Clapton consegue passar a limpo a vida do ídolo sem estereótipos, revelando-o como um cara como outro qualquer, dono de um talento raro, vivendo surpresas a cada encruzilhada que a vida lhe põe à frente.

Trechos:

Hendrix: 'Clapton ficou intrigado com Hendrix, que usava roupas espalhafatosas e ficou ajeitando os cabelos no espelho do camarim. Apesar de tudo isso, parecia tímido (...) 'Aquilo abriu minha cabeça para ouvir um monte de coisas e tocar muitas outras. '

Layla: 'As declarações de amor de Clapton a Pattie, embora lisongeiras, a deixaram extremamente desconfortável. Havia apenas uma saída para estas emoções profundas e, com a nova banda, um colega compositor por perto e o amor não correspondido como pedra de toque da criatividade, Clapton começou a construir um álbum que colocaria os seus sentimentos à mostra'.

Drogas: 'Clapton estava chegando ao fim da linha. Estava ingerindo dois gramas de heroína ao dia - às vezes mais. Sua situação financeira estava ficando assustadora e percebeu que teria de voltar ao trabalho ou vender as suas coisas para financiar seu estilo de vida. Continuava não dando a mínima para sua própria saúde. Resistiu, mas acabou concordando com um tratamento.'

Conor - 'O telefone tocou e Lory estava do outro lado, histérica. Ela disse que Conor estava morto. E eu pensei 'Ora, iisso é ridículo. Não seja boba'. E perguntei: 'Você tem certeza?' Mas então saí do ar completamente por algum tempo. Corri até lá e vi aqueles equipamentos dos paramédicos por toda a parte, ambulâncias, carros de polícia. Então pensei: 'É verdade.' "


 

 


 




terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

João Bosco e o Disco Linha de Passe (O Pasquim - 1979)


 Em 1979 João Bosco lançava seu quinto disco, Linha de Passe. João e sua parceria antológica com Aldir Blanc (no disco também aparece Paulo Emílio na parceria) se solidificava cada vez mais. Na ocasião, o crítico Roberto Moura em sua coluna no Pasquim fazia uma ótima resenha do disco:

"Mal saído o elepê Tiro de Misericórdia, o noticiário do show biz se viu sacudido pela notícia da separação de João Bosco e Aldir Blanc. Um ano depois, reforçados pela presença triúnvera de Paulo Emílio, voltam o músico e o letrista a público com um elepê e um show intitulados Linha de Passe, com o apoio plástico de um outro artista ligado ao grupo, o festeiro e festejado Mello Menezes.

No espetáculo em cartaz no Teatro Claro Nunes, dada a saída na bola para Linha de Passe, é Mello Menezes quem bate o 'valeu'. Pipas, balões, bonecos - a atmosfera que recria no palco os arquétipos mais fundos dos meninos de tempos atrás, ainda desobrigados do confinamento nas áreas de serviço. Neste ambiente (afinal, tão íntimo) trabalham Aldir e Paulo Emílio, dirigindo, roteirizando, sugerindo por exemplo a colocação daquela faixa onde se lê 'Anistia' à esquerda de João Bosco.

Bem, aí chegamos à música e a bola, bem controlada, vai aos pés controlada, vai aos pés de João Bosco. Não fora a inclusão de três ou quatro músicas com andamentos mais difíceis de rotular, eu me atreveria a dizer que se trata de um espetáculo de sambas & boleros, como aqueles que anunciavam antigamente as grandes orquestras. E não digo isso com qualquer intenção restritiva: João Bosco enfatiza nele que faz sambas e boleros com uma espantosa facilidade e que são estas espantosa facilidades e que são estas composições a marca maior de seu estilo (coloquemos aqui também Cabaré, nem samba nem bolero, mas fruto colhido no mesmo contexto em que João sedimentou sua formação).

Estruturalmente, a diferença entre o show anterior Tiro de Misericórdia e este Linha de Passe consiste no violão de sete cordas de Rafael substituindo o percussionista Moura, que atuava no ano passado. Nesta diferença, creio, está o grande trunfo de João Bosco no caminho de criação de uma massa sonora que identifique o seu trabalho (especialmente porque o sete cordas não tem bom trânsito nem entre a maioria dos maestros - poucos sabem escrever pra ele - nem entre os compositores da camada dita universitária da nossa música popular). Algumas músicas são apresentadas apenas pelos dois. Em outras, os outros músicos só entram quando os violões de João e Rafael já fixaram o andamento e a cadência do samba. Nestas, é bem verdade, Rafael é obrigado a um super-esforço para não ver o seu acústico instrumento abafado pela tecnologia dos teclados e do baixo elétrico.

O repertório do show é um apanhado geral. De 'Caçador de Esmeraldas', a música ainda do primeiro e quase desconhecido disco do compositor, até Corsário, que João jamais cantou e fora confiada apenas a uma gravação de Ney Matogrosso. Naturalmente, os destaques são as novidades contidas no novo álbum, leitmotiv do show, mas será mais pertinente vê-las no disco (a produção de um show implica em muito mais dificuldade do que supõe o humor dos críticos).

São onze faixas que no fundo são dez. Numa, Patrulhando, Aldir e Paulo Emílio colocaram duas letras e foram feitas duas gravações. Duas metáforas odara. Das outras nove, quatro são sambas e duas boleros (notem a marca do compositor novamente em maioria). Os sambas funcionam como pontas de lança voltados para a chamada realidade brasileira. É através deste estoque em 2 por 4 que Aldir, João e Paulo vão espetando as coisas. Em Linha de Passe, faixa-título, que é uma espécie de Aquarela do Brasil com muito mais sentido de auto-crítica. Ou em O Bêbado e a Equilibrista, um samba-enredo para quando o carnaval da anistia chegar.

Parati é um partido alto cuja sutileza está na melodia da parte 'improvisada', onde a mineirice de João garantiu uma solução melódica absolutamente original. Boca de Sapo já foi gravada também por Zezé Motta e é uma coisa tão João e Aldir que lembra outra da dupla - Incompatibilidade de Gênios, que Clementina gravou.

Os boleros fazem a deliciosa nostalgia dos que ainda viveram os bailes sem conjunto pop e sem discoteca e, entre os modernos, ninguém captou melhor aquele momento brasileiro que João e Aldir. Neste Linha de Passe, mais duas ótimas contribuições ao gênero: Conto de Fadas e Ai, Aydée. Neles, desde as velhas e demodées gargantilhas até a indispensável bênção da avó. As três outras faixas, por coincidência todas em parceria com Paulo Emílio remetem e um João Bosco mineiro (Como em Cobra Criada) ou mais barroco (como em Natureza Viva, ótima). Das músicas com o novo parceiro, contudo, será difícil chegar a outra conclusão: o destaque é Sudoeste, onde a agilidade da melodia é perseguida pela agilidade de versos de ventos uivantes."




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Shows de Alice Cooper no Brasil em 1974


 Nos anos 70 não era muito comum acontecer no Brasil shows internacionais de grandes bandas ou artistas que estivessem no auge de suas carreiras. Por isso a presença por aqui do grande astro Alice Cooper, que fazia um grande sucesso, foi cercada de grande expectativa. Os shows provocaram muito tumulto por onde passaram, e uma matéria especial da revista Bizz em fevereiro de 2001 intitulada "O dia em que o Brasil perdeu a inocência", e assinada por Celso Pucci, discorre sobre aquela turnê:

"Pode parecer incrível para uma geração de roqueiros que se formou com a MTV, acabou de assistir à maratona do Rock In Rio e continua avançando via internet. Que está acostumada - ao menos nas grandes capitais - a ter à disposição shows internacionais quase semanais, discos importados que acabaram de sair do forno, fartura de publicações nacionais e gringas, informações mil por mídias ao quadrado. Mas houve um tempo em que os horizontes do rock'n roll eram extremamente estreitos e limitados no Brasil, cada parco empreendimento no setor era tratado - e com razão - como a salvação da lavoura.

Assim eram programas de rádio e TV apresentados pelo saudoso DJ Big Boy, o Caleidoscópio, espaço alternativo que Jacques conduzia nas madrugadas da América AM (SP), o Sábado Som - comandado por Nelson Motta na Globo, que na estreia apresentou o Pink Floyd tocando 'Echoes', nas ruínas de Pompeia - e revistas como a Rolling Stone brasileira, Bondinho, Pop e Rock: A História e a Glória. Raras moscas brancas sobrevoando o pântano da desinformação roqueira no início dos anos 70.

A situação era ainda pior em relação a shows: desde aquela época, a cada mês eram anunciadas vindas como os Rolling Stones (que só apareceram na década de de 90) e a do já citado Floyd. porém nada se concretizava. Quem diria que Alice Cooper - equivalente naqueles tempos anticristo ao que Marilyn Mason representa para a garotada atual - iria quebrar esse tabu?

O artista iria aportar aqui na turnê do recém-lançado Billion Dolar Babies (1973) com toda a parafernália visual, que ia desde tubos gigantes de pasta de dentes e bonecas decapitadas em cena até os os seus notórios malabarismos com uma cobra e a fama de bebum incorrigível. Não era bafo: no início de 1974, o circo de horrores do rock'n roll desembarcou em São Paulo para se apresentar no enorme pavilhão de exposições do Anhembi, com som deplorável e superlotação. O resultado era previsível: tumulto na entrada, repressão policial e, pior, o pessoal da turma do 'gargarejo' sendo esmagado contra as grades de proteção diante do palco em um fatídico episódio qui culminou em dezenas  de feridos.

Uma mãozinha amiga acudindo

Claro que tinha que ir nessa fuzarca, mas acabei presenciando um massacre. Um monte de gente prensada contra o alambrado e um corre-corre que gerou um pânico em um local originalmente planejado para a farra. O próprio Cooper deu sua versão para o que aconteceu naquela noite, em uma entrevista para a Pop, de maio de 1974: 'Vi todo mundo se esmagando e fiquei sem saber o que fazer. Parei de cantar para acalmar o pessoal. Afinal, tudo o que faço no palco não passa de encenação. O sangue é de katchup e nunca sacrifiquei animais em cena...'

Foi trágico, mas ficou como um espetáculo marcante. Mesmo abruptamente interrompido pelos incidentes na plateia, este foi o primeiro grande show de um rockstar em território brasileiro. Antes de Alice, apenas Santana - em proporções bem menores - havia se apresentado por aqui em 1971 e 1972. Depois, começaram a vir nomes como Rick Wakeman, Genesis, Joe Cocker, mas sem provocar o mesmo frisson.

Os anos 80 trariam muito mais atrações de peso, a começar por Kiss e Queen, passando por The Police (que tocou em 1982 no Maracanãzinho, no Rio, quando ainda era pouco conhecido no Brasil) e expoentes da new wave como PIL, Siouxsie & The Banshees, Echo & The Bunnymen, The Cure, Nick Cave & The Bad Seeds. Tudo isso somado ao primeiro Rock In Rio, em 1985, que se tornaria o primeiro megaevento brasileiro do gênero, impulsionando a emergente cena local - não à toa, foi nessa onda que Bizz chegou às bancas pela primeira vez.

Pois a primazia em todo esse processo deve ser dada à tia Alice, por inaugurar há quase 27 anos o conceito de megashow por aqui, mesmo com as consequências desastrosas do evento. É bom lembrar que bandas nacionais como Legião Urbana, Sepultura e Raimundos já passaram por situações semelhantes em suas apresentações, sem nenhuma culpa. Mas esse registro da passagem de Cooper por aqui é importante por dar a dimensão exata de um tempo em que no Brasil, 'rock era coisa de bandido', nas sábias palavras de Rita Lee. Que, por sinal, aproveitou a ocasião para roubar de tia Alice os canhões de luz e o técnico de som, Andy Mills, para seus shows com o Tutti Frutti. "