Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 2ª Parte

"Hermeto conta que levou um montão de instrumentos para Montreux e para o Japão. Na Suíça tocou poucos ('mas só de olhar pra os outros, de saber que eles eles estavam ali já era bom. Cada instrumento é um amigo'). Ele toca conforme o clima. Panelas comuns, recheadas de fichas de ônibus, e cobertas por tela de náilon verde convivem lado a lado com a caixa das flautas doces e de bambu. Ele abre uma caixa e retira uma flauta bem miudinha que ganhou durante a viagem. Tira um som e conta que a batizou de Cheiroso em homenagem ao famoso bode de Recife. Uma outra, grande e toda diferente, é a Cabra. Ele conversa com seus instrumentos num tom que gente sensível usa para falar com as plantas. E me diz:
'Chegue pra cá que agora vou te dar um furo. Tá vendo isso? (um móvel antigo, empoeirado). É um harmônio. Chegou aqui anteontem, não foi nem estreado. Tem um som assim meio de igreja. Eu estava andando por um dos corredores do hotel lá em Montreux e vi um móvel estranho. Falei para aquele menino da Warner, o Midani: isso é um órgão. Chamamos um empregado do hotel que afirmou que não era. Eu teimei. E era. Igual a esse aí que deve ter uns 80 anos. Comprei através de uma daquelas lojas de instrumentos da Rua Marechal Floriano. Quer ouvir?
E eu lá queria outra coisa no mundo?
Hermeto abriu a tampa e um teclado, com três escalas, idêntico ao do piano, apareceu. Com os pés pressionando dois grandes pedais em madeira ligados ao fole, ele ia passando o ar necessário para fazer o som. Começou ensaiando um xote lento num tom sacro e grandioso. De repente, sapecou um Tico-Tico no Fubá com uma técnica verdadeiramente enlouquecedora. A emoção começou a subir, a esquentar as cabeças e, para disfarçar, demos mais um rápido giro no início das escaletas, teclados elétricos, baixos, baterias, caixotes, latas de tinta, trave de percussão. Conheci ainda a famosa mesa azul de fórmica, ela também um instrumento.
Por fim, o Mago das Alagoas abriu uma porta e entramos num quarto pequeno, anexo ao estúdio, onde brevemente será colocada a mesa de som (corte, mixagem etc) e que vai ganhar também um painel envidraçado. Como nos estúdios completos de gravação. No momento este é o quarto dos entulhos. Mas, perto de um piano desmantelado em fase de restauração ('tirei uns oito ratos aí dentro' - brinca Hermeto), travei conhecimento com a Bacia. Um tanto ou quanto avariada pelas viagens e constantes problemas alfandegários. ('Já pensou os home vendo uma coisa dessas vão acreditar que é um instrumento musical?') Este instrumento, bolado por Hermeto e executado pelo mano e amigo Manoel, é feito de uma bacia de alumínio comum, com cerca de um metro de diâmetro, cortada por dois travessões de madeira tosca. Num deles, estão estiradas oito cordas que transpassam a bacia através de furinhos e acabam nas cravelhas de afinação semelhantes às do violão. Eu arrisco um som; Hermeto morre de rir e explica que  a Bacia fica presa a um suporte, e que dentro da  bichinha vão ainda bolas de gude e água. Para tocar, ele usa um espremedor de limão. Naquele quarto minúsculo o ambiente é mágico. A luz da manhã se firma. Mas há perguntas a fazer sobre este homem iluminado e que acende tantas outras pessoas que vivem ao seu redor.
Voltamos à sala do primeiro andar e eu me instalo no chão. ('Fátima, Fabíola, tragam almofadas.') Hermeto senta-se na poltrona ao meu lado. Enquanto ligo o gravador, dou uma olhada pela sala.
As paredes são forradas de papel com motivos cashmere em dourado (ou será prateado?). As portas são laqueadas de azul-celeste; o grupo de estofados compõem-se de um sofá e duas poltronas, em tons marrom e bege. Há uma mesinha hexagonal no centro, com um jarro cheio de flores artificiais, em tecidos; a televisão em cores fica num canto e posters e fotos de Hermeto enfeitam as paredes entre uns arranjos de flores de plástico. É só.
Para começar, foi assim que Hermeto viu o sucesso fora de qualquer gibi, obtido em julho passado, no Festival de Jazz de Montreux:
'É o seguinte: quando a pessoa está com frio tem que dar um lençol conforme. O lençol fomos nós. Nós esquentamos a rapaziada com o som. Eu acho que não tem diferença de público, sabe. O público é sempre a mesma coisa, depende do trabalho que a gente apresenta. Ele quer ouvir coisas novas. E acho que foi isso que aconteceu. Aconteceu na Suíça, aconteceu no Japão também. Eram 10 mil japoneses vibrando. Os negros até pularam lá. A japonesada pulou. Eles pularam muito foi com a cabeça primeiro, pensando. Isto é que é importante: ouvir música.'
Hermeto costuma repetir em suas entrevistas que a música que faz não é para dançar. Mas argumentei que mesmo entendo o trabalho que ele e o seu grupo apresentam, com a máxima concentração, é impossível, a partir de dado momento, não se sacudir o esqueleto.
'Mas antes, tenho certeza de que as pessoas pensam muito. Não é aquele negócio que a pessoa ouve e já começa a dançar. É um remelexo que vem de dentro pra fora. a música que fazemos não deixa realmente ficar parado. Mas bole mentalmente, em primeiro lugar. Olha, na Suíça eu improvisei umas coisas com a voz, como sempre faço. Conversei com o público em português, fiz uma música para Montreux. No fim da reportagem, vou botar a fita para você. Me inspirou demais o lugar, o lago. Poucos lugares são lindos como Montreux. Me inspirou tanta plantação. Plantação até em cima dos morros! Aí fiz a música para flauta, piano e baixo. Tocamos eu, Jovino e Itiberê.'
Hermeto no palco em Montreux
 Aproveito a deixa pra perguntar pela formação deste grupo atual, que muitos sabem ser sua segunda família. Como vivem e trabalham estes meninos ainda na faixa dos 20 anos? Sei que formam uma espécie de comunidade também. Mas vamos lá;
'Menina, o grupo é uma s-a-l-a-d-a (e saboreia mesmo esta palavra). A Zabelê é mineira, toca violão, percussão e faz o vocal também. Ela é casada com Nenem, gaúcho que transa bateria, piano e percussão. Os dois moram na segunda rua à direita daqui; o Itiberê toca contra-baixo, acústico e elétrico, é paulista e mora defronte de meus pais, Pascoal e Divina, alagoanos, que por sua vez moram a três esquinas daqui; o nome do Pernambuco já entrega  o ouro, ele é pernambucano ligítimo, toca percussão, declama e  mora em Madureira; já o Cacau transa flauta e sax e é  o carioca do grupo, sendo o único que mora na Zona Sul, na Avenida Atlântica; o Jovino transa teclados e mora em Realengo. Tem ainda meu mano Manoel, que mora com nossos pais e é quem faz os instrumentos. Dexovê, será que esqueci alguém? Se esqueci, paciência. E eu, Nossa Senhora! Falta eu. Eu sou  o pastor. (E ri). "

(continua)

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 1ª Parte

Em 1979, a revista Ele Ela trazia uma longa matéria com o genial músico Hermeto Pascoal. Naquele ano Hermeto havia feito um antológico show no prestigiado Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, e estava lançando o álbum Zabumbê Bum Á. A matéria, assinada por Ana Lúcia Bizinover, tem por título uma frase que Hermeto falou durante a entrevista: "Existe um preconceito, um racismo  musical que precisa acabar." Segue abaixo, a primeira parte da reprodução da matéria:
"Só a partir de 1972, quando fez um show no Teatro Fonte da Saudade (Rio), a imprensa brasileira começou a abrir espaço para este ser iluminado, considerado pela revista especializada Dowbeat, dos Estados Unidos, como um dos quatro maiores arranjadores da atualidade. Mas àquelas alturas, o mago das Alagoas já havia colocado água na fervura de músicos como Joe  Farrell, Herbie Hancock, Hubert Laws e Miles Davis, desde que foi levado para os Estados Unidos por seu amigo, o percussionista Airto Moreira.
O que estamos precisando, agora, é ouvir mais Hermeto Pascoal e não ouvir falar dele. Precisamos ouvir sua música, enraizadamente nossa e ao mesmo tempo universal; conhecer suas posições firmes em relação aos profissionais que fazem concessões comerciais; ouvir seu coração de rapadura falando da mulher, das crianças e do modo simples de vida que levam; saber do seu enorme carinho e respeito pelos músicos do seu grupo - que vivem perto dele, numa espécie de comunidade. Hermeto diz: 'Eu sou o pastor.' Vamos segui-lo então em suas andanças.
Enquanto o carro da reportagem percorria algumas centenas de ruas e avenidas rumo ao Bairro Jabour, situado para lá de Senador Camará e além de Bangu, no Rio, uma referência ouvida sobre Hermeto Pascoal, poucos dias antes, não me saía da cabeça; 'Ele é de uma simplicidade e de uma genialidade que enlouquecem.' Essa tinha sido, justamente, minha impressão durante o nosso breve contato telefônico, quando concordou, sem maiores problemas, em receber-me ('Venha sim, precisa confirmar não, estarei esperando'). Estabeleceu-se logo, entre nós, uma ligação, para usar um termo bem hermetiano.
Afinal, ele tinha todo direito de fazer um pouco de doce. Outros, bastante menos cotados, fazem. Hermeto acabava de regressar do Japão, onde endoideceu um público de 10 mil pessoas, e da Suíça, onde roubou a festa dos gringos, sendo ovacionado delirantemente por quatro mil espectadores (sobretudo, jovens) do Festival Internacional de Jazz, em Montreux. No dia seguinte da exibição de Hermeto Pascoal na Noite do Brasil,  o jornal L'Est Vaudois deu na primeira página uma foto em cores de Hermeto e uma reportagem que trazia trechos como este, captados pelo enviado especial de Ele Ela e Manchete, Roberto Muggiati: 'Hermeto demonstrou, de saída, que a música é universal e é preciso, para ser um digno  embaixador dela, se alimentar do folclore das tradições, de suas próprias raízes culturais. Sua arte é de uma autenticidade que ninguém poderia contestar, não segue nenhuma moda, zomba dos gêneros e das etiquetas.'
Não foi fácil encontrar a casa verde e rosa no perdido Bairro Jabour. Cheguei a pensar que ela era a do lado, toda certinha, de tijolos aparentes. Mas conferindo o número, percebi que era mesmo aquela, com a pintura da fachada desbotada e descascando, embora a cerâmica vermelha da varanda, que entrevi pela grade, reluzisse de tão limpa. Descobri e apertei a campainha pintada de prateado, como a grade e o portão de ferro batido. Uma jovem morena, bonita, cabelos compridos e lisos veio abrir o portão, precedidos por dois vira-latas amarronzados. A jovem era Fátima, filha de 18 anos de Hermeto e que fazia as vezes de dona-de-casa. Dona Ilza , mulher do compositor há mais de 23 anos e figura da maior importância, estava na feira. Um moleque empinando uma pipa nas cores do Flamengo cortou minha frente no momento exato em que eu ia entrando na casa de um dos quatro maiores arranjadores da atualidade, segundo a revista norte-americana Downbeat. Era um bom sinal.
Hermeto Pascoal recebeu-me à porta, trajando uma camisa em tecido indiano, listrada de cinza, branco e rosa. Usava calças cinza-escuro e os cabelos louro-embranquiçados estavam presos num bem penteado rabo-de-cavalo. Os  olhos azuis (ele tem um forte desvio em um dos nervos óticos) estavam um pouco escondidos por óculos de aro escuro e hastes de metal. Uma bela figura ('um raio de sol', já teria dito alguém).
Foi falando, como se já me conhecesse há muito tempo, enquanto me mostrava a casa. Como todo nascido sob o signo de gêmeos, ele é ágil e tem extrema facilidade de locomoção ('remelexo cá/remelexo lá/ remelexo em qualquer lugá'). Entrei no seu ritmo e fizemos uma volta no quarto do casal, cuja porta dá para a única sala da casa. Sobre a colcha bem esticada, uma partitura parcialmente preenchida ('é, estava compondo umas coisinhas'). Quem tem a mínima noção de teoria musical saca logo que se trata de um intrincado arranjo para diversos instrumentos. Mais tarde eu perguntaria, como?
Agora a hora era de passeio pela casa. Atravessamos um diminuto corredor com três portas - duas dos quartos das crianças e uma do banheiro - para passarmos a uma peça primordial: a cozinha. Lá está a mesa de refeições, uma televisão grande a um canto, a máquina de costura encostada à parede, uma geladeira amarela, moderna, o fogão e a pia, no momento cheia ainda com a louça do café. Fábio, o filho de 17 anos, acabava de tomar o seu café da manhã. Hermeto, então, em tom muito divertido, contou:
'Menina, se chegar aqui na hora do almoço e estiver acontecendo alguma coisa na cozinha, antes de entrar você chama a polícia! Esse negócio de eu usar as panelas como instrumento, a inspiração veio justamente daqui. Quando a Ilza está com raiva, brigando com os meninos (Jorge, 22; Fátima, 18; Fábio, 17; Flávia, 15; Fabíola, 13 e Flávio, o Brasinha, 11 anos), joga tudo no chão. Daí veio a ideia. Quando o negócio está brabo eu venho correndo com o instrumento que estiver tocando na hora e acompanho aquela zoeira. Ela então fica ainda mais louca, mas não para com o quebra-quebra, chegam os meninos todos, vira zorra, fica um som bonito e acaba todo mundo rindo e ajudando a lavar a louça. Menos eu, que se lavar, quebro tudo. Só vendo!' (Risos gerais)
Ao nos dirigirmos para a sala de ensaios, passamos por uma salinha (mais uma passagem mesmo) onde fica o som dos meninos. Por curiosidade peguei o único disco à vista; era de Elton John ('os meninos já sabem, só podem ouvir esses troços com fones'). E, de fato, havia um head fone bem à mão.
Subimos uma escadinha de pedras miúdas e coloridas ('cuidado com a cabeça') e Hermeto então abriu a porta do que em breve será um estúdio completo de gravação. O salão por enquanto é só sala de ensaios. As paredes ainda estão no cimento, mas serão forradas com material acústico isolante.
Pelas duas janelonas, a mangueira do vizinho (carregadinha de fazer dó) torna-se a ouvinte mais privilegiada. ('Imagine, esta casa aqui nos fundos parece que vai ser um consultório médico. Vai ter nego morrendo do coração quando começarmos a zoeira dos ensaios'). Os instrumentos que estão chegando pouco a pouco das tournées, como bagagem desacompanhada, estão espalhados pelo chão dentro de suas caixas pretas, com a clássica etiqueta vermelha fragile ('num adianta nada, que quebram tudo'). "

(continua)


quarta-feira, 8 de junho de 2016

A Contracultura e o Movimento Hippie - Utopia dos Anos 60 (2ª Parte)

"Ken Kesey, escritor consagrado, autor de Um Estranho no Ninho, juntou-se ao grupo Grateful Dead, de Jerry Garcia, do qual era mentor espiritual e porta-voz, para realizar testes coletivos de expansão de consciência através de música e estímulos sensoriais e visuais. Eram viagens induzidas de LSD para plateias em shows, festas ao ar livre e para quem pintasse no caminho do velho ônibus lisérgico de Kesey.
Plateias dançavam em êxtase por horas, cabeça feita pela música do Dead e pelo Sunshine Califórnia, o mais puro ácido lisérgico da época. Isso quando LSD não era ilegal. Na ilegalidade, o que a polícia poderia fazer? Prender 10.000, 15.000 pessoas de uma vez?
De Los Angeles surgiam bandas como Buffalo Springfield, Love, The Byrds e The Doors, de Jim Morrison.
Uma onda de conflitos raciais estourava nas grandes metrópoles americanas. Incêndios, saques e mortes. Tropas de soldados tentam conter as revoltas.
Bem longe dali, uma outra tropa participava do Monterey Pop Festival, perto de Frisco. Cerca de 50.000 jovens celebram três dias de 'Música, Paz, Flower Power e Amor'. Sem incidentes. Matriz dos festivais de rock e dois anos antes de Woodstock, apresentou mais de 30 bandas, futuras estrelas que, com poucas exceções, tocaram de graça a troco de despesas e acomodação. Performances à parte, no mínimo três são antológicas: Janis arrasa, deixa de ser apenas a vocalista da banda, nasce uma estrela: Hendrix e Pete Townshend , líder e guitarrista do The Who, discordam da ordem de apresentação e fazem shows incendiários. Jimi concorda em tocar antes e rouba a cena, ateando fogo na guitarra enquanto simula sexo com o instrumento. Sem alternativa, o Who dá o sangue e destroi, literalmente, todos os instrumentos.
Musicalmente, no entanto, 1967 seria um ano Beatle por excelência. Enquanto finalizam o novo álbum, eles participaram de um programa de TV, na primeira transmissão via satélite da história.
 Nada menos que 200 milhões de pessoas assistem à première de All You Needs is Love. Bem ao estilo hippie, com namoradas e convidados ilustres sentados no chão, fazendo o coro final da canção. Entre eles Mick Jagger e Keith Richards. E, após quase um ano em estúdio (um recorde!), lançam a obra-prima, Sgt. Peppers and Lonely Hearts Club Band, a ponte entre a música pop e a arte contemporânea. Na capa do LP, 85 personagens do milênio. E Sgt. Peppers realizou a proeza: num ano de safra musical classe A: ofusca, sem piedade, a todos os outros.
Em Washington, um negro assume pela primeira vez a Suprema Corte. O mesmo assessor jurídico que acabara com a segregação legal nas escolas e nos ônibus. Vitória pequena perto das perdas que o movimento negro ainda sofreria.
A escalada contra a guerra não para. Em outubro 50.000 manifestantes cercam o Pentágono e avançam contra o cordão de policiais. Mais de 250 são presos, incluindo o escritor Norman Mailer. Em outubro, ao fechar um centro de alistamento militar, mais pessoas são detidas. Entre elas, o doutor Benjamin Spock, famoso pediatra e o poeta Allen Ginsberg.
O líder  vietnamita Ho Chi Min envia telegrama cínico aos manifestantes: 'Nós venceremos. E vocês também'. Mas o fim da guerra estava bem longe.
Nos últimos meses de 1967, o movimento começa a ser absorvido pelo sistema de consumo americano, os próprios hippies bloqueiam a intersecção das ruas Haight com Ashbury e decretam seu fim.
Queimados retratos de seus ícones máximos, jogam fora seus colares e debandam. Há um êxodo para as comunidades rurais que vivem da terra.
Mas muita coisa mudaria antes de Woodstock, em agosto de 1969. O homem conquistaria a Lua. A mesma Lua que brilhara nas noites quentes do Verão do Amor em São Francisco."


terça-feira, 7 de junho de 2016

A Contracultura e o Movimento Hippie - Utopia dos Anos 60 (1ª Parte)

Os anos 60 significaram uma série  de mudanças comportamentais, e o surgimento de uma nova consciência diante de uma série de valores impostos pela sociedade. Nos Estados Unidos, o movimento hippie ganhou projeção, e se espalhou pelo mundo. O ano de 1967 é considerado por muitos como o início do movimento, pois foi naquele ano que começaram a surgir uma série de novos conceitos, e aconteceu um fenômeno que ficou mundialmente conhecido como 'O Verão do Amor". O jovem buscava uma libertação do modelo de comportamento imposto pelo sistema, e a música que se produzia na época, e que era da melhor qualidade, pregava essas transformações. As drogas lisérgicas, assim como as palavras de ordem "paz, amor, liberdade e igualdade" se espalhavam. São Francisco, na Califórnia era a meca do movimento hippie, e o ano de 1967 prometia mudanças no comportamento da juventude.
Em janeiro de 2004 a Revista da MTV nº 33 trazia uma matéria sobre o assunto, em texto de Caio Nehring:
" 'Estamos aqui pra fazer um mundo melhor. Nenhuma censura ou racionalização pode impedir as opções que cada um de nós traz pra nossa situação no planeta. A grande lição dos anos 60 é que pessoas que se importam o suficiente para fazer a coisa certa podem mudar a história. Não acabamos com o racismo, mas acabamos com as leis da segregação. Acabamos com a ideia de que você poderia mandar meio milhão de soldados ao outro lado do mundo para lutar numa guerra que  o povo não apoia. Acabamos com a ideia de que mulheres são cidadãos de segunda categoria. Tornamos o meio ambiente um assunto que não pode ser evitado. As grandes batalhas que vencemos são irreversíveis. Éramos jovens, justos, honrados, descuidados, hipócritas, valentes, ingênuos, teimosos, loucos e meio apavorados demais. E estávamos certos." ( Manifesto do Partido Internacional da Juventude - YIP - escrito pelo ativista político Abbie Hoffman).
O espírito do Manifesto do Partido Internacional da Juventude (YIP), escrito pelo ativista político Abbie Hoffman, era o espírito, o sopro da mudança. De São Francisco, nos Estados Unidos, para todo o mundo. O jovem vivia um momento decisivo na busca de formas alternativas de vida. Era 1967, o ano da flor, o ano do Verão do Amor. A juventude queria libertar-se do modelo careta imposto pelo sistema. E o Verão do Amor foi um sonho dentro de um sonho dentro de uma década que reformulou o planeta sob todos os aspectos. Vivia-se uma tremenda guinada comportamental, social e artística, herança dos beatniks dos anos 50, inconformados com a hipocrisia social americana - 'Guera, poluição, moralismo, racismo? Sou contra!'
Na década ocupada pela Guerra do Vietnã de ponta a ponta, slogans de Paz, Amor, Liberdade e Igualdade estavam no peito de toda uma geração. Todos os caminhos levavam a uma São Francisco (Frisco) colorida, onde hippies, liberdade sexual, experiências psicodélicas com LSD, rock & blues elétricos se mesclavam à busca por uma Nova Consciência.
A palavra 'underground' ganhou então novo significado, para além dos subterrâneos do metrô. Underground é contracultura, o que não segue a corrente estabelecida pela experiência humana. Aplicada às artes, abrange o artista independente, que questiona os padrões estabelecidos. Nasce o alternativo, o independente, o feito em casa.
São Francisco e Los Angeles eram a contracultura ao ar livre, ao vivo e em cores. Embalados por uma nova sonoridade e experiências lisérgicas, ao mesmo tempo, queriam retornar às raízes. Um tempo de mochilas nas costas e pé na estrada. Sem destino. Em busca da verdadeira América.
O ideal hippie de volta à natureza, da vida comunitária e do amor livre coexistia com a astrologia, o tarô, a magia, os hare krishna... E vieram os Jesus Freaks, versão hippie dos ideais de Jesus. Surgiram as seitas e mesmo Charlie Manson. Calcula-se que milhões de jovens tinham 'conversado com Deus', por conta de 300 milhões de doses de LSD consumidas entre 1966 e 1975.
De um lado, a sociedade americana marchava contra a guerra e defendia direitos civis iguais. Surgiram os casamentos interraciais, negros e brancos passaram a usar o mesmo ônibus e Martin Luther King, que, como Ghandi, sonhava com o fim da segregação racial, foi misteriosamente assassinado.
De outro lado, fervia o caldeirão do verão em São Francisco e Los Angeles: um caleidoscópio de criatividade sem precedentes no meio de acontecimentos radicais por todo o país.
A linguagem musical, o eterno elo musical, se transformava. De simples coadjuvante rítmica, a guitarra elétrica passa ao centro do palco e revela seus primeiros heróis: Eric Clapton, Jeff Beck e, o maior de todos, Jimi Hendrix.
Jimi Hendrix
Em uma temporada londrina, Hendrix e banda, a Experience, levam plateias ao delírio. A aparição do guitarrista foi como um Big Bang no universo musical.
Ao pedir licença para beijar os céus, embarcava em viagens coletivas. Esse espírito de celebração ritualística, de improvisações e união entre plateia e palco foi a marca registrada daquela verão.
Tocando exaustivamente nas rádios mundiais, a canção de John Philips, The Mamas and The Papas, vira hino oficial da cidade - 'Se você for a São Francisco, use flores em seu cabelo'.
O primeiro evento grupal da nova tribo foi o Human Be-In em um parque de Frisco. De boca em boca, reuniu 20.000 jovens dançando, entoando mantras e cantando o poder do amor. Para o sistema, tratava-se apenas 'de um bando de gente maluca e pintada dançando pelada no parque'. Poderia até ser. Reunidos, os mestres de cerimônias Allen Ginsberg, o poeta beat, Thimothy Leary, psiquiatra e papa do LSD, o ativista político Abbie Hoffman e o escritor William Burroughs entraram em comunhão espiritual com a massa jovem.
Começava a invasão hippie da Califórnia, que esperava 100.000 até o fim do verão. Concentravam-se no pequeno bairro Haight-Ashbuy, esquina de duas ruas de um antigo reduto negro. Agora, imagine essa massa flutuante misturada a drogas, sexo e rock and roll e você terá ideia da bagunça na 'capital mundial dos hippies'. Acomodações e saúde pública precárias, drogas à vontade, bad trips, overdose, mortes. Havia gente saltando de telhado, achando que podia voar.
Verão é tempo de expansão e os músicos de São Francisco e Los Angeles, assim como os ativistas politicos engajaram-se na criação de novas trilhas musicais.
A música estava no ar, executada a todo volume por bandas como Jefferson Airplane, Grateful Dead, Country Joe and The Fish e Paul Butterfield Blues Band. Rock e blues de pura resistência psicodélica.
A criação artística em efeito dominó. Esse era o clima. Tudo estava conectado. Artistas gráficos uniram-se a bandas. Produziam capas de discos, desenhavam flyers e pôsteres que cobriam a Califórnia. É também de 1967 a criação da Zap Comix, uma revista de quadrinhos independente que transgride todo o código de censura da época e é feita em casa pelo gênio dos quadrinhos underground, Robert Crumb, esposa e amigos. "

(continua)

domingo, 5 de junho de 2016

Paulinho da Viola Lança Disco Para o Mercado Externo (1993)

Após 5 anos sem gravar, Paulinho da Viola glançaria um disco para o mercado externo, em 1993. Na ocasião, o jornal O Globo em sua edição de 10/10/93, fez uma matéria sobre esse disco, e os rumos que o samba vinha tomando na época. Paulinho faz críticas ao chamado samba 'suingue', distante das raízes, e que representava uma diluição comercial ao estilo que tem em Paulinho um de seus mais importantes representantes. A matéria, assinada por José Domingos Rafaelli e Mauro Ferreira, traz como título "A viola sai do fundo o baú", numa referência a um grande sucesso de 1972 do compositor . Abaixo a matéria:
"Paulinho da Viola foi profético quando, em 1975, escreveu versos como 'Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim'. No momento em que um samba deturpado domina as paradas, o autor de 'Argumento' voltou aos estúdios, depois de cinco anos de voluntária ausência, para regravar alguns de seus sucessos em um CD destinado ao mercado externo. Com a habitual elegância, ele critica o atual 'samba':
- O ritmo do samba ficou comprometido nessa coisa que se chama 'suingue'. Antes, todos tocavam em função de todos. Agora cada ritmista faz o seu solo. Isso compromete o verdadeiro ritmo do samba. No meu modo de ver, a coisa está empobrecida. Eu me surpreendo com  a multiplicação dos artistas populares, mas já não é possível falar no samba como uma música fechada no tempo. Até há pouco existia a comunidade do samba. Agora já não tem mais. Existe uma corrente jovem, que tenta fazer coisas diferentes. Os tempos já são outros - resigna-se.
Aos 50 anos, cabelos grisalhos, Paulinho mantém sempre a fala mansa e diplomática. Explica que, desta vez, ele ficou cinco anos sem gravar porque não estava satisfeito com o material que tinha em mãos. Cancelou duas vezes o estúdio marcado - em parte por causa de problemas enfrentados com as obras de seu novo apartamento - mas talvez comece a gravar ainda este ano o sucessor de 'Eu Canto Samba', seu último disco, gravado em 1988 e lançado em janeiro do ano seguinte. Já tem algumas músicas prontas.
- O disco é importante no meu trabalho, mas não é imprescindível - sentencia.
Esse trabalho, que conjuga as raízes do choro e do samba, completa três décadas no próximo ano.  Em 1964, Paulinho começou a atuar como músico profissional, cantando no lendário bar Zicartola. Ao olhar para trás, ele espanta-se ('Vou fazer 30 anos como profissional!') e esquiva-se de fazer um balanço da (rica) trajetória.
- O meu samba tem se modificado, mudou muito. Só que eu não sei falar sobre misso. As coisas mudam, a vida muda... Já se arrebentou várias vezes com a linguagem, mas e daí? É claro que existe uma mudança constante no homem. É curioso, mas percebi que nunca consegui realizar o que projetava. Idealizava uma coisa e saía outra. Agora me acostumei com a ideia de que eu não sei o que é. Não faço mais planos para a  minha carreira - revela.
O sambista que sempre valorizou o trabalho da Velha Guarda tem ouvidos abertos para o mundo. Amante de jazz (é colecionador de discos do gênero), Paulinho fez a defesa de Jorge Benjor, no júri que elegeu o autor de 'País Tropical' como vencedor do próximo Prêmio Shell para a Música Brasileira. Gosta do 'Zé Pretinho', mas se diz sem condições de avaliar o atual sucesso do colega. Espécie de unanimidade na MPB e no rock, Paulinho outro dia foi alvo do papo de Lobão, que lhe disse que estava estudando violão e pensava em largar o rock. O sambista também tem conversado com Marisa Monte, sem querer impor suas 'raízes'.
- Marisa ouve muita coisa de samba, mas quando grava alguma coisa, o faz com linguagem mais pop. É natural. Sei que a célula do samba está viva. Fui em 1986 ao Japão e vi que lá tinha escola de samba. Levei um susto - admite o sambista.
Susto levaram também os técnicos de gravação do estúdio Impressão Digital com a forma de Paulinho gravar esse novo CD, que será lançado na Europa, e posteriormente no Japão, pelo selo alemão Network. Ele fez o que não conseguia fazer desde 1968, ano em que as gravações de disco deixaram de ser realizadas em dois canais: reuniu os músicos com informalidade no estúdio e todos tocaram seus instrumentos ao mesmo tempo, como antigamente.
- Os técnicos ficaram desesperados - conta Paulinho.
Saudoso, Paulinho lembra que quando era contratado da EMI-Odeon, nos anos 70, tinha o estúdio livre para gravar à sua maneira. Ele levava algumas ideias para o estúdio, reunia os músicos e a criação do disco acontecia durante as gravações.
- Agora isso não é mais possível - conforma-se.
Foi possível devido a esse projeto singular. Paulinho reuniu no Impressão Digital o violonista César Faria (seu pai), o baixista Dininho, o tecladista Helvius Vilela, o baterista Hércules e os ritmistas portelenes Celsinho e Cabelinho. O samba elegante de Paulinho chegará ao exterior dia 27 de dezembro, data programada pra o lançamento do CD da  Network. A ideia de gravar com Paulinho foi de um dos produtores do disco, o jornalista e radialita Rainer Skibb, que conheceu o autor de 'Sinal Fechado' quando trabalhava em São Paulo para uma emissora alemã e entrevistou Paulinho sobre música negra.
- Gostei do seu lado humano e fiquei impressionado com o  seu conhecimento. Não encontrei outro artista que conhecesse tanto a comunidade negra. Paulinho simboliza o lado do Rio que é querido no exterior - elogia Skibb.
Diretor do selo Network, Christian Scholze conheceu a música de Paulinho da Viola ao ouvir discos da coleção de Rainer Skibb. Ao retornar à Alemanha, depois de longa temporada no Brasil, Skibb levou pilhas de discos de MPB.
- De todos, os que mais gostei foram os discos de  Paulinho. Ele tem soul. Sua música tem energia. Por isso o escolhemos - justifica Christian.
Paulinho da Viola, enfim, tirou sua viola do fundo do baú."

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Jorge Mautner Fala de Gilberto Gil - O Pasquim (1971) - 2ª Parte

"Nova York é a cidade expressionista onde a presença da morte é tão forte como a da vida. Gil está à vontade neste mundo de tão nítidas contradições. O Empire State que parece ter saído de um filme de Andy Wharol, merece um sorriso de reconhecimento da boca de Gil, mistura de ironia antiimperial e simpatia ante o velho e  o conhecido monumento. Guilherme Araújo, agente e amigo, falando para Ruth sobre a importância de Carmem Miranda  para o mundo hip contemporâneo.
Nova York pulula e fervilha como sempre em êxtases, um milhão de coisas acontecendo, as mais variadas de todas as nações, todas as tribos, desfiles, filmes, jazz, danças, soul, sons, parques cheios de gente, peças de teatro, happenings, gente fervilhando em cima e dentro de estruturas de ferro da grande Babilônia.
Nova York é a grande Babilônia do século XX, onde todos os êxtases são permitidos. Aqui é o lugar em que mais se permite ao homem curtir sua loucura. Sartre, Bretch, Pasolini, Garcia Lorca e milhões de outros freaks, apaixonados por este inferno de poluição, veneno e eletricidade contínua, onde a condição humana aparece sem disfarces, sem mediações, atenuantes, onde ele é obrigado a assumir-se brutalmente como ele é, o amor e o ódio diretos, cruéis, nítidos, agudos, assumidos até à  loucura total. A essência do radicalismo, tudo aqui é radical. E Gil sentiu-se à vontade, como uma eletricidade dentro da eletricidade, porque afinal de contas fazia muito tempo que ele não sentia nem vivia fervilhamento igual, há muito tempo sem ter pisado o chão da América.
E eu me lembro da frase que o diretor de teatro José Celso Martinez Correa exclamou quando fascinado ouvia um soul music no Lower East Side: -"Mas, Mautner, isto aqui é o terceiro mundo!'
Não apenas o terceiro mundo, mas também o quarto mundo, com muitas pessoas vivendo já uma outra dimensão. Gilberto Gil presta atenção em tudo com tranquilidade de quem não está prestando. Olha com curiosidade para o subway (metrô) que é tão mais barulhento que em Londres, e aposto como está observando o ruído do subway novaiorquino para transformar em música futura.
Gil no show canta uma música nova de incrível beleza e sugestão de viagem para o Oriente onde está a magia e o desconhecido. Num trecho ele diz: 'Considere, rapaz, a possibilidade de ir pro Japão, num cargueiro do Loyde lavando o porão...'
Gil e Mautner nos anos 90
E a impressão é a de que Gil já foi a este oriente, ou que está indo, num cargueiro do Loyde, lavando o porão, tocando violão, tirando um som, tanto faz, de qualquer maneira ele já foi, está indo e irá cada vez mais para o oriente, para este Oriente  do Oriente que Fernando Pessoa falava, e que é a moradia da imaginação, do delírio da grande noite cósmica daonde ele retorna com ciscos de estrelas, da fantasia soberana com a loucura, onde todos os êxtases são além das fronteiras, onde a beleza é sempre reencontrada sob forma diferente.
Eu entrei em delírio poético porque a música de Gil me arrastou para isto. Nova York me arrastou para isto, o lugar mágico que Hélio Oiticica criou me arrastou para isto. Acho que esta é a mensagem da música de Gil, a beleza do desconhecido, boa sorte, representante da  Bahia em tom universal.
Último take: Gil tocando e cantando num parque do Village, com crianças de cabelos compridos como anjos brincando ao redor, muitas folhas no chão de outono, um porto-riquenho e um preto do Harlem com cabelo afro dançando ao som de Gil, Nova York, 16 de outubro de 1971. "

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Jorge Mautner Fala de Gilberto Gil - O Pasquim (1971) - 1ª Parte

O jornal "O Pasquim", foi, sem dúvida, um importantíssimo órgão de imprensa no Brasil, principalmente por representar  um foco de resistência contra a ditadura que reinava no país. Lançado em 1969, durante o governo Médici, o período mais violento e sangrento do regime militar no Brasil, o jornal desafiava a censura e a repressão, sendo por isso mesmo perseguido e alvo de constantes ataques da censura oficial. Havia no jornal uma ala mais ligada nos movimentos contraculturais e uma nova consciência, encabeçada por Luiz Carlos Maciel, considerado o guru da contracultura no Brasil. Caetano Veloso enviava textos diretos de Londres, onde se encontrava exilado junto com Gilberto Gil, assim como também Jorge Mautner, que também colaborava com o jornal, a convite de Maciel. Mautner também enviava seus textos do exterior, primeiramente de Nova York, e depois de Londres, onde também residiu, e conheceu e se aproximou de Gil e Caetano. Nesse texto, publicado na edição nº 122 (2 a 8/11/71), Mautner fala de Gil, num texto intitulado "Gilberto Gil na Babilônia":
"Gilberto Gil andando no Harlem indo para o Apollo Theater assistir soul music, visões do Oriente em pleno Harlem, cabelos afros e cafonismo geral. Depois Gil cantando no Folk City, onde Bob Dylan foi descoberto, lá no Village. Gil tirando um som com Airto Moreira (que foi percussionista do Miles Davis e que tem dois LPs gravados e lançados aqui em Nova York com Flora, a sua mulher) num apartamento ao lado do Central Park. Mais uma vez no Village, Gil cantando como artista convidado no 'Village Vanguard', famoso lugar de jazz onde costumam tocar Charles Mingus, Thelonius Monk, João Gilberto. Gil cantando numa missa a 'Procissão', comungando domingo de manhã, sendo aplaudido em pé pelos fiéis da igreja na rua 46 West, e Gil emocionado chorando. Finalmente Gil cantando durante duas semanas a partir das nove horas da noite num lugar mágico criado por Hélio Oiticica que usou todo seu poder de feiticeiro para criar um ambiente infernal.
Gil apresenta seu show regular mergulhado num ambiente onde luzes vermelhas, amarelas e roxas se acendem e apagam como sóis e estrelas de Galáxias desconhecidas. Às vezes o lugar parece um sítio pré-histórico, outras quando a luz fica branca e brilha em cima do cascalho, parece que o lugar é uma praia baiana cintilando fosforescências, quando Gil canta uma canção de Jimi Hendrix o lugar fica eletrônico, quando Gil canta 'Aquele Abraço' o lugar irradia carnaval.
O público novaiorquino fica maravilhado, fascinado, porque de repente em Manhattan, onde a barra é pesada, pesadíssima e terrível, surge uma pessoa afirmando a alegria sem ilusões, uma serenidade com movimento, movimento de ginga, dança-agilidade, coisa de Cosme e Damião.
Jorge Mautner
Os  brasileiros que vão assistir ao show vão reencontrar o seu poético nacional, vão ver ali no palco daquela igreja tornada em teatro, refletida como num espelho brilhante, aquilo que a alma brasileira tem de melhor, a ilusão e o jogo, e agilidade e o amor dadivoso, generoso, os cantos transformados de obás e ogês, gritos-espasmos, carnavais e candomblés, e também uma consciência cósmica.
O que mais impressiona em Gil é sua consciência cósmica. Numa conversa de toda  noite num quarto do hotel Chelsea, eu, Ruth e Gil, conversamos sobre as coisas fundamentais. Do filme 2001 à descoberta do átomo do tempo, a visão aguda do Gil em relação à sua música, os novos horizontes a que sua linguagem anseia, o novo mundo em que ele mergulha e daonde ele traz o cisco das estrelas brilhantes que encontrou, porque trazer as estrelas não dá.
Por isto ele adorou Nova York, a eletricidade fermentando, a cidade que Ezra Pound descreveu como tendo obrigado a descer para a terra as estrelas do céu. Gil caminhando pela Bleker Street (rua citada numa canção de Bob Dylan) e comunicando-se através de vibrações sorridentes com todos os freaks, loucos, hips e hippies de todos os matizes. Caminhando como um príncipe africano, sem ressentimentos e com um orgulho simples, mostrando a fotografia de seu filho Pedrinho com um ano de idade, que fica pegando na guitarra do pai, que fica muitos momentos de sua joveníssima vida dançando e cantando porque vive cercado de som. 
O mundo de Gil é cercado de som por todos os lados como uma auréola azul. Gil caminha como um samurai, um iluminado, e entra no restaurante macrobiótico e me faz uma preleção sobre o muti, chá preparado com muitas ervas. Depois fala da missão dele aceitar a música como um trabalho, o ego chutado para longe, à procura do novo caminho, o novo som que tem que nascer de um trabalho em equipe, um conjunto, trabalho descentralizado. Afirmação constante da vida. "

(continua)