Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 22 de junho de 2021

Balanço Musical de 1977 - Soul e Disco Music Tomam Impulso (Jornal de Música)


 Em sua edição nº 37, de janeiro de 1978, o Jornal de Música fazia um balanço do que foi o ano de 1977 na área musical. Várias vertentes da música foram analisadas, sendo feitas previsões para o ano de 1978, que se iniciava. Destacarei aqui a vertente do soul e da black music no plano nacional e internacional. A disco music já ganhava força, e previa-se que o ritmo iria prevalecer nos próximos anos, o que ocorreu. Em termos de Brasil, o movimento Black Rio viveu seu apogeu em 77, além do crescimento da música negra brasileira, sendo destacados nomes como Banda Black Rio, Carlos Da Fé, Cassiano (foto), Gerson King Combo, e outros nomes. A matéria é assinada por Gabriel O'Meara:

"Em matéria de soul, o ano de 1977 foi repleto e farto. Tantos foram os lançamentos que um bom soul-maníaco precisaria de uma grande conta bancária para comprar tudo, e ainda, necessitaria de um 'banco-de-memória', comparável aos dos computadores mais sofisticados para guardar os nomes de grupos novos como High Energy, The Controllers, Keele Patterson, Brick, Rose Royce, Cameo, The Originals e dezenas de outros mais que passearam pelos primeiros lugares das paradas de soul durante o mês de dezembro.

Misturados aos novatos, Earth, Wind and Fire, Barry White, Emotions, The Jacksons, Telma Houston e Memphis Horns também marcaram presença. É interessante notar que pelo menos a metade desses artistas trabalha dentro da linha discotèque, às vezes disfarçadamente (vide Jacksons e Rose Royce) ou assumindo completamente o gênero. As revelações do ano também se dividiram entre as duas categorias. Do lado do soul puro, Commodores, EWEF, Tower of Power, Natalie Cole, Emotions, Average White Band, Candi Staton, Al Green e War, saíram ótimos LPs, todos editados no Brasil. Falando do EWEF, que lançou um excelente álbum duplo ao vivo, o Gratitude, o grupo acaba de lançar um tremendo disco nos Estados Unidos com um pout-pourri de duas músicas de Milton Nascimento, resultado da visita do guitarrista Johnny Grahan ao Brasil há seis meses atrás. Eumir Deodato também está presente nesse novo disco.

Al Green

No terreno da discotèque, o melhor lançamento foi da Top-Tape - 'The Originals', um conjunto norte-americano de estúdio. Completamente desconhecido na 'terrinha', esse grupo gravou verdadeiras joias-discos. Os outros artistas do gênero que merecem atenção são G.C. Cameron, T. Connection, Trammps (é claro), Johnny Taylor, Harold Melvin e Boz Scaggs. Depois dos Originals. Seus discos preferidos foram lançados pelo  Trammps e pelo T. Connection.

No Brasil as coisas iam bem no começo do ano, mas pelo fim de 77 parece que houve uma desaceleração do embalo. Em janeiro, Cassiano lançou o LP 'Cuban Soul' que, na minha opinião, é longe o melhor soul já feito no Brasil. Teve também o lançamento quase simultâneo de Gerson King Combo e o último álbum de Tim Maia pela Philips. Gerson é aquilo mesmo, quase uma paródia do que ele próprio diz ser - O Rei dos Blacks! Houve também lançamentos 'soulizados' da WEA (eu acho que o deslumbramento de André Midani com um possível mercado black se estabilizou pois Dom Charles, que seria o maestro soul residente e o Dom Filó, da Equipe Soul Gran Prix são, no mais, acionistas da casa).

A Banda Black Rio lançou seu 'Brasoul' e, apesar de não obter muito sucesso dentro do chamado Black Rio (que prefere James Brown) provou ser a mistura perfeita de raízes brasileiras e soul. Viva eles! O Luís Carlos Dafé fez um trabalho paralelo ao da Banda Black Rio, tanto que a usou na gravadora do seu LP. Outro dia mesmo ouvi um disc-jockey da Rádio Globo falar que 'Cassiano morreu e Dafé assumiu'. Não é bem assim. Cassiano não faz shows e devido a seu estranho comportamento esquizofrênico, pouco se vê de meu camarada Dom Cassio. Por sua vez, Dafé se apresenta ao vivo com frequência e cuida de sua carreira, emplacando várias músicas nas paradas no decorrer do ano. Dafé é mais calcado em suas raízes do que Cassiano, mas é notável a influência da voz desse último em sua voz. Outros dizem que a semelhança é com Fagner (prestem atenção em 'Era Lindo').

Tim Maia gravou outro disco, só que dessa vez na Som Livre, bem superior ao lançado no começo do ano pela Phonogram. Como diz o meu amigo Nelson Motta, 'precisamos urgentemente tomar consciência de que estamos diante de um dos maiores cantores de nossa música'. Right On! Ainda precisamos de tempo para ver no que dá o último passo do disco da Phonogram, a recentíssima Lady Zu. A CBS também cuidou de aprontar artistas soul, como Robson Jorge, que lançou um bom álbum que só foi prejudicado pela linearidade de arranjos.

Tony Bizarro também foi prejudicado em seu disco pela falta de imaginação, salvo a linda faixa 'Nesse Inverno'. Tony faz o gênero Tim Maia, sendo semelhante ao veterano tanto artística como fisicamente. Cláudia Telles também sapecou seu 'soul-pop' pela CBS, emplacando 'Preciso Te Esquecer' em primeiro lugar. O Mita gravou um bom disco, perdido no grande abismo da má divulgação da Continental (sorry, Coutinho).

É isso aí. Se faltou coisa tentarei me lembrar. Até o fim de 78, que deve ser um tremendo 'soul year' para todos nós."



segunda-feira, 21 de junho de 2021

John Lee Hooker - Um Bluesman de Muita Sorte (O Globo -1991)


 John Lee Hooker foi um grande bluesman, e reverenciado por vários nomes de peso do rock e do blues. Essa admiração ficou registrada em um álbum que o mestre lançou em 1991, chamado Mr. Lucky, em que um time estelar de convidados de peso fazem significativas participações. A coluna Rio Fanzine de O Globo em sua edição de 10/11/91 traz uma matéria assinada por Carlos Albuquerque sobre o lançamento:

"Sujeito de sorte, o John Lee Hooker. Poderia estar numa casa de repouso, em um asilo de luxo ou mesmo encostado numa cama por causa de uma enfermidade qualquer, cantando o blues para enfermeiras e médicos. Vários artistas do gênero acabaram nestas situações: alguns em outras ainda piores. Mas não ele. É que, além de talento, Hooker tem bons amigos. E tem sorte. Quem duvidar disso que ouça seu novo trabalho, com participações especiais de Albert Collins, Robert Cray, Ry Cooder, Van Morrison, Keith Richards, Carlos Santana e Johnny Winter, entre outros. O nome do disco, claro, não poderia ser outro: 'Mr. Luchy'.

Lançado recentemente no exterior pela Silvertone e breve no Brasil via EMI-Odeon, 'Mr. Lucky' é um digno sucessor de 'The Healer', disco que deu a Hooker um Grammy e que contava também com um time de craques: Bonnie Raitt, George Thorogood, Los Lobos e o 'repetente' Carlos Santana. Empurrado por essa turma - todos fãs de caderninho do seu trabalho -, Hooker mostrou o quanto é jovem aos 73 anos e rejuvenesceu o para lá de ancestral som do Delta Mississipi.

E o que era intenção em 'The Healer' - analisar as várias possibilidades do blues, e seus desdobramentos -, é fato em 'Mr. Lucky'. Sem histerias, sem muito alarde. John Lee Hooker faz quase brincando o que meio mundo tenta fazer sofrendo: mostrar que o blues é o fio condutor de várias correntes musicais e que pode, ainda hoje, soar moderno e atual. Chocante isso, mas apenas para quem acha que blues é 'sempre a mesma coisa'.

'I Want To Hug', que abre os trabalhos, simboliza bem isso, colocando a voz gutural de Hooker à frente de um furioso boogie-woogie, cortesia do piano do convidado Johnnie Johnson. 'Mr. Lucky', faixa-título, pula etapas e traz ao disco o som sofisticado e elegante de Robert Cray e toda sua banda, num discurso rhythm and blues de dar gosto. No final, o agradecimento do mestre: 'Thank you, Robert'.

Produzido por Roy Rogers (que esteve tocando no Brasil recentemente) e dedicado à memória de Stevie Ray Vaughan, 'Mr. Lucky' tem a felicidade de extrair o melhor de cada convidado, sem nunca comprometer o conjunto. Para quem andava com saudades dele, o albino Johnyy  Winter reaparece solando furiosamente em 'Susie'. Albert Collins é outro que aparece no disco em plena forma, nervosíssimo com sua Fender Telecaster no blues 'Backstabbers'. Carlos Santana e banda surgem em 'Stripped Me Naked' e dão toques latinos e jazzísticos ao disco, repetindo a performance do disco anterior, no qual interpretavam a faixa-título.

Ry Cooder, o herói da trilha sonora de 'Paris Texas', traz de presente para Hooker não apenas sua magistral guitarra mas também seu inseparável trio vocal (Willie Greene, Bobby King e Terry Evans), o que faz de 'This Is Rip' uma evocativa viagem às esquinas de Nova Orleans. Com John Hammond (outro que tocou este ano no Brasil), Hooker faz um duelo assombroso em 'Highway 13'; algo quase tão sombrio quanto o de um outro embate, com o voodoo-man Keith Richards e o superbaixista Larry Taylor, na faixa 'Crawlin'Kingsnake'.

E há por fim o solene encontro de Hooker com o supremo Van Morrison, 'I Cover The Waterfront' é uma dessas obras-primas que só uma conjunção especial dos astros pode tornar possível. A Caledônia unindo-se ao Mississipi, a Irlanda passeando pelo sul dos Estados Unidos, numa canção celestial, um diálogo de vozes sublime, valorizado pelo órgão de ninguém menos do que Booker T. Jones. Seis minutos e trinta e oito segundos de pura emoção. 'Mr. Lucky' é assim: um por todos e todos por john Lee Hooker. Que Sortudo!"


sexta-feira, 18 de junho de 2021

Os Dez Anos da Morte de Peter Tosh (1997)


 O dia 11 de setembro é marcado por fatos negativos. O mais lembrado é o ataque terrorista das Torres Gêmeas nos Estados Unidos em 2001. Também houve o golpe de estado que atingiu a democracia chilena em 73, culminando com a morte do presidente Salvador Allende, e o que muita gente não sabe, é que foi num 11 de setembro de 1987 que aconteceu outra tragédia, o assassinato de Peter Tosh, um dos nomes mais representativos do reggae. Para quebrar um pouco a negatividade da data, é bom lembrar que foi num 11 de setembro de 1962 que os Beatles entraram pela primeira vez em um estúdio como contratados de uma gravadora, iniciando uma história de sucesso. Mas voltando a Peter Tosh, pode-se dizer que ele é uma espécie de vice-rei do reggae, já que a figura, a liderança e a importância de Bob Marley na difusão do reggae são incontestáveis. Em setembro de 1997 o fanzine Dread Times, especializado em reggae, lembrou da data, e publicou uma matéria sobre Tosh, assinada por Mauro França, e adaptada do livro Catch a Fire - The Life of Bob Marley, de Timothy White:

"Há exatos dez anos o reggae perdia uma de suas maiores expressões. Na noite de 11  de setembro de 1987, Peter Tosh foi brutalmente assassinado na sua própria casa em Kingston. Por isso abrimos esta edição com um relato sobre os acontecimentos desta fatídica data, uma história pouco conhecida dos regueiros brasileiros.

Depois de um longo período de estagnação criativa e disputas judiciais, Peter Tosh tentava em meados de 1987 retomar  o pique da sua carreira. Em julho ele lançou o álbum No Nuclear War, depois de um hiato de quatro anos desde Mamma Africa, e planejava fazer uma turnê para promovê-lo. O objetivo também era melhorar sua situação financeira, que era precária, em boa parte devido aos custos dos vários processos em que havia se metido. As negociações  com a gravadora visando obter um adiantamento para o projeto fracassaram, e Peter e seu empresário decidiram levantar alguns empréstimos. Quando pegou o avião de volta para a Jamaica, com a esposa Marlene Brown, no dia 06 de setembro, Peter dizia aos amigos mais próximos que a principal razão para a turnê era que ele estava quebrado.

Ele também estava isolado. Seu último show na Jamaica havia sido em 83, suas músicas raramente tocavam nas rádios e os amigos músicos mantinham uma certa distância. Muitos não gostavam de sua mulher, que não gozava de uma boa reputação. Peter havia cortado relações até com Bunny Wailer, a quem acusou de depreciar os valores morais do reggae com suas músicas para dancehall. E denunciava todos os deejays, novos e veteranos, chamando-os de  corvos. No último ano, ele ainda perdera uma longa batalha pela posse do mais jovem dos seus oito filhos com várias mulheres e ainda teve sua casa incendiada.

Peter e Marlene moravam na época numa grande casa de dois andares num bairro de classe média alta. Poucos amigos frequentavam o casal, sua minguada comitiva sendo formada pelo artesão Michael Robinson, o especialista em ervas Doc 'Bush Doctor' Brown, o radialista Jeff 'Free-I' Dixon e sua esposa Joy e o baterista Santa Davis. Mas sua casa também era frequentada por tipos comuns nos guetos, misto de mendigos e pequenos criminosos que perseguiam todas as personalidades do Reggae que haviam escapado, mas não se distanciado, dos bairros de lata de Kingston. Logo na manhã seguinte à volta, eles foram visitados por uma dessas figuras, o vendedor ambulante Denis 'Leppo' Lobban, que tinha na sua ficha várias passagens pela prisão. A relação entre eles vinha desde o início dos anos 70, na qual Leppo buscava sempre suporte e dinheiro. Nos últimos dois anos Peter havia lhe dado dinheiro para manter um abrigo no gueto e criar um filho. Naquele dia Lobban veio se queixar que o irmão de Marlene não havia cumprido alguns compromissos, o que a deixou irritada. Possessa, ela disse que não queria que Peter, ela ou qualquer outra pessoa terminassem mortos, em referência à morte de um comparsa dele pela polícia, devido às suas atividades criminosas. Aparentemente, a coisa ficou nisso. 
Quatro dias depois, na noite de 11 de setembro, Dennis Lobban retornou à casa de Peter. Além do casal, estavam lá Michael Robinson, Doc Brown e Santa Davis, e todos esperavam o casal Dixon. Ao atender a porta, Michael ficou surpreso ao ver Leppo mas logo ficou ansioso quando notou a presença de dois homens com ele. Um dos estranhos, o mais alto, sacou uma pistola automática e ele foi empurrado escada acima, advertido para não fazer nenhum barulho. Na sala, Leppo mandou todos se ajoelharem, parando em frente à tv. Por segundos todos ficaram boquiabertos até ele repetir a ordem com um grito histérico. Os homens obedeceram mas Marlene ficou como estava. 'Onde está o dinheiro?', perguntou Leppo, dirigindo-se a Peter, mas foi ela que respondeu dizendo que não havia dinheiro na casa lembrando que seu irmão os havia procurado naquele dia e eles pediram que voltasse depois do fim de semana, quando uma ida ao banco resolveria o problema. Furioso, ele disse que sua feitiçaria havia causado aquela situação - feitiço que forçara Peter a parar com suas costumeiras contribuições. 'Você morrerá por isto esta noite', ameaçou. O mais alto dos estranhos, impaciente, começou a recolher os pertences pessoais de todos. Ao aproximar-se de Peter, tomou-lhe uma corrente de ouro, atingindo-o com a arma. Treinado em karatê, automaticamente Peter respondeu o golpe, a rápida luta derrubando com estrondo um ventilador. Nesse momento, Free-I e sua esposa Joy bateram a porta. Enquanto os outros dois mandaram Peter se ajoelhar, o mais alto afirmou que ele estava 'morto por aquele movimento'. Indo à cozinha, pegou um facão e ameaçou cortar a sua cabeça se não dissesse onde estava o dinheiro. Marlene interveio pedindo que os pistoleiros não respondessem às batidas.
Lá fora, o casal já estava ficando confuso com a falta de resposta e ainda mais com o barulho vindo do interior da casa. O estranho mais alto escoltou-os para dentro e já foi logo tomando uma corrente e  a carteira de Free-I. Leppo começou a entrar e sair dos quartos gritando 'Onde está o dinheiro?', certo de que Peter não poderia ter voltado da América sem nada. Peter e Marlene tentavam argumentar com ele, propondo várias possibilidades para quando o banco abrisse. Ouvindo aquilo o pistoleiro alto vociferou para Leppo, 'Faça o que você veio fazer!' Com isto, Leppo atirou ao acaso em Marlene, que estava próxima a Joy. A bala atingiu-a de raspão na cabeça e entrou pela boca de Joy Dixon, deslocando seus dentes e saindo pela bochecha. As duas caíram em meio ao choque e horror, parecendo mortas. Agitado, os olhos de Leppo rapidamente passaram das mulheres para a cabeça de Peter e ele colocou a pistola na sua testa e atirou  duas vezes, as balas atravessando o crânio. O corpo de Peter tremeu com a força dos tiros e então caiu flacidamente.

Aquilo pareceu levar os pistoleiros à loucura e eles começaram a atirar em uníssono enquanto iam saindo, oito ou nove tiros cruzando a sala. Uma bala atingiu o fêmur de Michael Robinson, fazendo-o cair debaixo de uma mesa. Houve uma pausa e então o tiroteio recomeçou. Doc Brown recebeu uma bala na cabeça, morrendo instantaneamente. Free-I recebeu dois tiros atrás de sua orelha. Outro tiro foi dirigido a Michael, atravessando seu chapéu e atingindo sua testa; ele estava caído pensando quanto tempo um homem leva para morrer quando sentiu outra bala penetrando nas costas. Houve uma última rajada do caótico tiroteio, seis ou sete balas cruzando todas as direções. Santa Davis recuou quando uma bala atingiu seu ombro. Joy tremeu quando uma outra furou sua perna direita. Então veio um silêncio terrível, só quebrado pelo pelo barulho de pés se afastando, o abafado ruído de um motor e de pneus cantando. Quando tudo voltou ao silêncio, dentro e fora da casa, Marlene saiu à rua com dificuldade, gritando por socorro. Alguns vizinhos, alertados pelo tiroteio, estavam aturdidos e mudos. Ninguém se moveu em direção à casa até que um procurador que morava no lado oposto tomou a iniciativa e rapidamente atravessou a rua. Ele subiu as escadas correndo e parou no topo atingido pela visão da carnificina, o cheiro de pólvora confundindo seus sentidos. Voltando apressadamente, o advogado gritou para Marlene que ia buscar o carro para levar os feridos para o hospital. Joy e Marlene entraram e voltaram com Peter, semi-consciente. Free-I também foi amparado e Michael Robinson e Santa Davis cambalearam até o carro.

No hospital foi possível fazer um balanço do massacre. Marlene Brown e Joy Dixon foram medicadas e liberadas. Santa Davis deu entrada com seu ferimento no ombro mas estava bem. O estado de Michael Robinson era estável, mesmo com seus três ferimentos. Free-I estava em coma e os médicos consideraram seu estado frágil para uma cirurgia para retirada das balas do seu crânio. Três dias depois ele acabou falecendo. Peter foi oficialmente declarado morto naquela mesma noite.

Nos dias seguintes ao massacre seguiu-se uma disputa entre Marlene Brown e Alvera Coke, a mãe que Peter não via há mais de vinte anos, pelo direito de enterrar o corpo. A briga só foi resolvida com a intervenção do escritório do primeiro-ministro, que garantiu à Sra. Coke a guarda do corpo do filho. O funeral de Peter Tosh começou no dia 25 de setembro, no Estádio Nacional de Kingston, com a presença de mais de doze mil pessoas na fila de despedida. No dia seguinte aconteceu uma cerimônia com a presença de milhares de pessoas, parentes e o público em geral, presidida por um reverendo da Igreja Etíope Ortodoxa de Jamaica. Horace McIntosh, o filho mais velho de Peter, então com vinte anos, fez uma leitura e seu irmão Andrew, de dezenove anos, cantou algumas músicas do pai. O caixão foi conduzido até o o carro funerário por três filhos de Tosh, Horace, Andrew e Steve e pelos músicos Sly Dunbar, Robbie Lyn e Carlton Smith. Depois viajou para Belmont, no estado de Westmoreland, onde repousa num túmulo de frente para o mar do Caribe.

Dennis 'Lepo' Lobban foi preso no dia 17 de setembro, alegando inocência. Seu julgamento começou em junho de 88, junto com o do motorista que conduziu o carro que levou os pistoleiros à casa de Peter. Este alegou não saber do que se tratava e que depois do massacre deu fuga aos homens sob a mira de armas, sendo considerado inocente e solto. Leppo negou ter matado Tosh e chegou a apresentar uma testemunha que deu suporte ao seu álibi, mas não convenceu o júri de oito mulheres e quatro homens, que levou seis minutos para chegar ao veredito, sentenciando-o à morte por triplo assassinato. Leppo ainda está na cadeia, aguardando a execução. Seus dois cúmplices nunca foram identificados e muito menos presos."






sexta-feira, 11 de junho de 2021

Secos & Molhados - Revista Bizz (1993)


 O fenômeno Secos & Molhados nunca foi esquecido. Volta e meia o grupo é lembrado, não só em matérias de jornais e revistas como em livros, que até hoje são publicados, e tentam explicar o que eles significaram não só em termos musicais, como em análises sobre o fenômeno de massas que o grupo significou. Muito se fala ainda sobre a possível cópia de seu visual de rostos pintados, por parte da banda Kiss, levantando diversas teorias, embora nada tenha sido comprovado. Enfim, os Secos & Molhados sempre será referência musical dos anos 70 no Brasil, embora só tenha lançado dois discos em sua curta, mas altamente significativa carreira. Em 1993, vinte anos após o seu surgimento, a revista Bizz, em sua edição nº 94 trazia uma análise sobre os S&M, em matéria assinada por Rogério de Campos:

"Era 73 e a imprensa anunciava: o rei foi deposto. Roberto Carlos tinha sido superado em vendas pelos Secos & Molhados.

Bastava ligar o rádio para confirmar. O público, principalmente as crianças, adorou aqueles esquisitões vestidos de vespas marcianas rebolando feito uns alucinados e cantando músicas estranhas a respeito de sacis e fadas.

A febre Secos & Molhados durou pouco mais de um ano. Durante esse período eles lançaram seu primeiro disco, causaram escândalo, lotaram todos os lugares onde tocaram, gravaram o segundo álbum e acabaram com o grupo.

Foi a trajetória mais surpreendente da história do rock no Brasil. RPM perde de longe.

A banda surgiu do nada, lançou seu disco com uma tiragem inicial de mil e quinhentas cópias e depois de seis meses chegaram à marca das quinhentas mil. Falava-se até em venda de oitocentos mil discos. Segundo a gravadora Continental, quando o segundo disco foi lançado, trezentas mil cópias foram vendidas antecipadamente. A banda era responsável por  90% das vendas da Continental, que colocou 21 das 24 prensas de sua fábrica trabalhando exclusivamente para eles.

E a banda sonhava com o sucesso internacional. 'Eu visualizei que eles poderiam ser tão famosos, ou mais, do que os Beatles', viajava o empresário da banda Moracy do Val na revista Veja. Pelas suas contas, os Secos & Molhados seriam 'um dos dez grupos de música pop mais importantes do mundo em 74'.

O líder da banda, João Ricardo, tinha sua teoria: 'Houve um grande estouro nos EUA, com Elvis Presley. Depois, outro na Europa, com os Beatles. O próximo teria que vir daqui, porque lá fora ninguém tem mais nada a dar'. Ainda que uma legião de imitadores tenha aparecido na sequência, a banda tinha pouca ligação com o que se fazia no Brasil na época.

Estavam sincronizados com o glitter rock do Roxy Music, do T. Rex e outros. Mas nem eles próprios pareciam se dar conta disso (também ignoravam que ao mesmo tempo estava surgindo nos EUA uma banda com o mesmo conceito de maquiagem: o Kiss). Aparentemente ninguém do grupo conhecia muito mais coisas, além dos Beatles.
Para o baixista Willie Verdaguer (autor do arranjo de 'Alegria, Alegria'), da banda de apoio, o que eles faziam era 'rock progressivo'. Mesmo assim, Willie acha que o som não era o mais importante: 'O lance era o Ney Matogrosso'. Perto dele, os outros integrantes da banda eram apenas parte do cenário. João Ricardo e Gerson Conrad podiam parecer andróginos, Ney Matogrosso era outra coisa, um bicho esquisito sem sexo ou origem definida. Seus gestos exagerados - herança talvez de sua experiência como ator de teatro infantil - lembravam feiticeiros africanos de filmes holywoodianos, ou um pássaro assustado defendendo seu território.
A banda acabou quando o segundo disco chegou nas lojas, em agosto de 74. Brigas por causa de dinheiro e  ciúmes. Ney Matogrosso se lançou como cantor de MPB.
Gerson Conrad tentou uma carreira ao lado de Zezé Motta e depois abandonou a música. As últimas notícias são que teria se tornado industrial e estaria fabricando latas decorativas. João Ricardo, dono da 'marca' Secos & Molhados, tentou três vezes (em 78, 87 e 91) a volta da banda com outras formações, mas sempre quebrou a cara. Tem um disco inédito pronto para ser lançado. E vinte anos depois, o Brasil ainda continua esperando alguém tentar ultrapassar o fenômeno Secos & Molhados."
 




sexta-feira, 4 de junho de 2021

Kleiton e Kledir: As Raízes do Sul Numa Linguagem Nova


 A dupla gaúcha Kleiton e Kledir se destacou no mercado musical brasileiro, realizando um belo trabalho, que trazia um misto de rock e MPB, sempre destacando suas raízes gaúchas, presentes em seu trabalho. O lado rock já vinha sendo trabalhado desde os tempos da banda Almôndegas, que conseguiu um certo destaque fora do eixo sulista ainda nos anos 70. Após formar uma dupla, os irmãos gaúchos alcançaram o sucesso nacional com várias de suas músicas tocando em rádios e novelas de TV, em gravações próprias ou com outros intérpretes. Em 1983 a revista Música nº 69 trazia uma boa matéria com a dupla, assinada por Marina Teixeira de Mello. Numa introdução a matéria dizia: "Há cerca de três anos uma leva de músicos gaúchos deixou o Sul, em busca de um mercado de trabalho mais promissor no Rio e em São Paulo. Alguns lançaram discos, outros tiveram suas composições gravadas por cantores renomados - mas quase todos permaneceram relativamente desconhecidos do grande público. Uma dupla entretanto destacou-se: os irmãos Kleiton e Kledir Ramil, com sua folclórica 'Maria Fumaça'. Apoiados com força total pela gravadora Ariola, conquistaram imediatamente um espaço que vêm desenvolvendo e ampliando através de excelentes trabalhos." Segue abaixo a matéria:

"Kleiton - extrovertido, falante, gestos largos - geralmente faz a música. Kledir - mais reservado, sorriso tranquilo - escreve as letras. Entre os dois uma afinidade que se torna tangível, e que talvez seja a chave de seu sucesso. Amizade de toda uma vida, que Kledir colocou poeticamente numa das faixas do novo disco, que lhes leva o nome. Trata-se de sua versão para a bela canção de Simon & Garfunkel, 'Bridge Over Troubeled Water': "Sei que a vida vai aprontar/ e o que vier, azar. /A dois é fácil segurar/ Se Deus deixar, viu, meu amigo/ vou estar sempre aqui/ junto a ti, feito corpo e alma/ meu irmão, meu par.'

Kleiton toma a palavra para falar do LP que acabam de lançar: o terceiro como dupla e o sétimo contando os que gravaram com o grupo Almôndegas, do qual fizeram parte. 'Já estamos desenvolvendo este trabalho há quase dois anos, e a consistência do repertório vem desse tempo de preparo. Nada é gratuito: cada música foi pensada para ter a mesma importância, e procuramos fazer, em todos os detalhes, um disco de alta qualidade.'

Na realidade, o maior empenho de Kleiton e Kledir tem sido em aprimorar e refinar o seu trabalho musical. Isso fica patente no novo LP, onde se nota um especial cuidado - desde a capa (feita por Naum Alves de Souza) até os excelentes arranjos, com a inclusão de solistas e instrumentistas. Na faixa Saiçú (composta por Kledir em homenagem a Gal) há a participação de Egberto Gismonti e sua sanfona. E eles brincam: 'Em Tão Bonito, temos o coral mais caro do Brasil. Lá estão os artistas que representaram o Brasil no Festival de Cuba: Nara Leão, MPB4, Miúcha, Marieta Severo...'

Dizem-se 'contestadores em alto astral'. E realmente a alegria e o lado positivo estão presentes em todo o disco, onde homenageiam Caetano em Viva e Jobim em Águas de Dezembro. Há ainda a faixa que a censura proibiu nas rádios: O Analista de Bagé, baseada no famoso e divertido personagem de Luís Fernando Veríssimo. 

Nos tempos do Almôndegas

Se os dois irmãos pesquisam em sua música todos os recursos eletrônicos, isso não significa que tenham abandonado o regionalismo. 'Aliamos as duas coisas - explicam. 'Conservamos as raízes e, como dizem por aí, o sotaque se sente até nos dedos... Se fôssemos fazer um rock, ele sairia de bombachas. Mas falamos numa linguagem musical da atualidade, neste disco, a faixa realmente regional é justamente O Analista de Bagé - que retrata todo o linguajar característico do Sul.'

Entre os muitos planos da dupla está a gravação de um disco em espanhol. 'Estamos 'namorando' essa ideia há tempos. A língua espanhola garante um bom mercado internacional e, além disso, nos é muito familiar. Nosso pai nasceu no Uruguai, e crescemos ouvindo Astor Piazolla.'

Falando sobre o show que estão preparando a partir do disco, e com o qual virão a São Paulo em agosto, Kleiton se entusiasma: 'Desta vez estamos pensando em termos de Anhembi. Com um renomado paulista - Naum Alves de Souza - cuidando da cenografia, pretendemos atingir um espaço cada vez maior.' Kledir acrescenta, no seu jeito calmo: 'A viagem que fizemos com o MPB4 nos plantou um bom público por todo o Brasil. Mas o importante agora é lançar o disco, penetrar com ele no mercado - e então partir com tudo para o show.' E com um sorriso, resume tudo numa tirada muito gaúcha: 'Não é bom colocar a carreta antes dos  bois...' "





quarta-feira, 2 de junho de 2021

Analisando a Estreia do Led Zeppelin (Revista Rock Stars - 1984)


 Em 1969 o Led Zeppelin lançava seu álbum de estreia. Um disco pesado, já dando pistas que a banda, que a princípio levava o nome de New Yardbirds, tinha vindo pra ficar e deixar sua marca na história do rock. Considerado um dos melhores álbuns de  estreia de uma banda de rock, aquele início de carreira foi relembrado em uma matéria da revista Rock Stars, publicado em 1984. Abaixo a transcrição da matéria;

"Quando a década de sessenta chegava ao fim, o rock já tinha uma identidade própria. Tinha até um nome: rock (e não rock and roll). Essa mudança de conceito se devia ao fato de o movimento se ter emancipado daquela forma primitiva, e de certa forma modista, galgada sobre o rhythm and blues mais popular (entenda-se isso como referência a gente como Elvis Presley, Paul Anka, Neil Sedaka, Tony Fabian, e mesmo os Beatles no início de carreira).

O amadurecimento do rock foi uma etapa que contribuiu o suficiente para uma afirmação dialética, a mesma que gostaríamos que todos os roqueiros passassem. É alguma coisa como uma criança que nasce, cresce sadiamente, soberana em sua irresponsabilidade, faz suas artes, e, de repente, toma consciência que a vida é uma coisa muito séria, embora muitos homens ainda não tenham aprendido isso.

O marco referencial para essa mudança fica por volta de 1966 (para o público é 1967, quando começaram a vir à tona os trabalhos desenvolvidos durante o ano anterior). Essa data é mais um esforço para a analogia com o desenvolvimento da criança, feita no segundo parágrafo. Se tomarmos o Bill Haley como o limiar, acontecido no final dos anos quarenta, veremos que em 1966/67 o rock estava com aproximadamente dezoito anos de idade.  

Em  1966/67 os Beatles fizeram Sargent Pepper's, o Cream foi criado, os Moody Blues e o Procol Harum plantaram as primeiras  sementes do rock progressivo, e o Jefferson Airplane instituía o acid-rock, o primeiro atalho americano para a descoberta de Woodstock. Aliás, essa época me faz lembrar a origem dos nomes dos meses do ano, versão atual. Acerca de 2.600 anos atrás, um rei chamado Numa decidiu que o ano deveria ser dividido em doze meses, ao invés de dez, como estava em vigor na época. Assim, o primeiro mês do ano passou a se chamar janeiro, em homenagem ao deus Janus. Esse estranho deus romano tinha duas faces - uma olhando pra trás (o passado) e outra olhando para frente (o futuro). Os romanos o tinham como o deus do começo, e Numa provavelmente o homenageou como uma tentativa de estabelecer bons prenúncios para o ano novo.

Era exatamente assim que o rock crescia, com uma face voltada para o passado (o jazz como um todo, a música clássica e os ritmos tribais africanos) e outra face voltada para o futuro (a eletrônica, a evolução da linguagem e os novos costumes). Em particular, nesta página estamos interessados em o crescimento do Led Zeppelin, um dos pioneiros dos blues elétricos ingleses, bem como do heavy metal, seu filho legítimo.

Antecedentes remotos: Graham Bond Organization, Alexis Korner (e banda), John Mayall (e banda) e Yardbirds. Antecedente próximo: Truth, de Jeff Beck. Quando o Led se constituiu, sob a denominação de New Yardbirds, tinha em mente realizar algo bem parecido com o que Beck conseguiu. Nunca tive oportunidade de  ouvir algo que o quarteto tenha feito antes do primeiro LP, e é por isso que tomo o mesmo como base de pesquisa. Ele tem, basicamente, os mesmos elementos do LP de Beck, isto é, antigos blues recriados (caso de 'You Shock Me', que também está em Truth). Novos blues (caso de 'Dazed and Confused') e muita pauleira. O que veio depois, você já está cansado de saber. Para que tomar mais seu tempo?"

    

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terça-feira, 1 de junho de 2021

O Poeta Augusto de Campos Fala de Caetano Veloso


 Os tropicalistas sempre tiveram uma estreita ligação com os movimentos da vanguarda cultural brasileira, incluindo os concretistas. A recíproca era verdadeira, pois os criadores da poesia concreta viam nos trabalhos de Gil e Caetano uma renovação estética do texto de músicas produzidas no Brasil. Augusto de Campos, por exemplo, logo manifestou sua admiração pelo Tropicalismo, através de ensaios escritos ainda nos anos 60. Por isso foi convidado a escrever um texto de introdução ao fascículo dedicado a Caetano na Nova História da Música Popular Brasileira, publicada em 1976, a que ele deu o título de Qualquer Jóia, que abaixo reproduzo:

"O que ele fez, faz, está fazendo para ou pela música popular não há mais quem ignore. Ele explodiu a canção,levando-a a caminhos jamais palmilhados entre nós. Revolução. Depois da bossa-nova (um movimento 'jóia') tropicália (um movimento 'qualquer coisa'). Proibido proibir: sons em liberdade. Navegar é preciso: e desconhecido. Tudo comer: antropofagia. Metapoesia e metamúsica: nos discos e nos shows a melhor crítica-em-ação da música popular feita e por fazer.

Mas é impossível pensar Caetano apenas como 'músico popular' por mais que a isso deva  induzir uma história da música popular brasileira.

A imprópria ou insuficientemente chamada 'música popular' - que não é só música e nem é tão popular quanto as conotações do adjetivo fazem supor - é quase sempre uma poesia musicada. Queiram ou não, uma modalidade de poesia. Poesia-música. Ou música-poesia. Paradoxalmente, o texto poético, aqui, ganha o nome de 'letra'.

Em outros tempos esse gênero de poesia teve seus praticantes na área tradicionalmente batizada de 'erudita'. A poesia dos trovadores provençais dos séculos XVII-XVIII, toda ela feita para ser cantada e muitas vezes e, muitas vezes executadas pelos próprios autores. As canções inglesas da época elisabetana, onde há notáveis poetas-músicos como Thomas Campion, e músicos-poetas, como o alaudista John Dowland.

Dentro do âmbito popular, é um gênero que tem larga tradição e se manifesta mais instintiva e intuitivamente sem a cerrada elaboração dos artefatos eruditos.

Nos últimos anos, porém, essa poesia-música, antes confinada ao seu comportamento convencional, armou-se de recursos muito mais sofisticados, cruzou as linhas e invadiu as áreas cultas. Um fato novo, como ocorrência generalizada.

Depois da grande fase da poesia para ser vista, enfaticamente vista - a dos anos 50 e 60 -, houve um giro, uma mudança de veículo, privilegiando a audição. A poesia para ser ouvida, dos fins dos anos 60. Feita por poetas para serem vistos. Quase todos pré-para ou ex-universitários. O fato é que a partir desse momento, toda uma geração de poetas das camadas cultas urbanas partiu, decididamente para o som.

Em tal contexto, a atuação de Caetano, foi tremendamente significativa. Situando-se desde logo no grupo dos inventores, isto é, dos artistas vocacionados para a descoberta de territórios inexplorados. Caetano não se limitou a impelir a música popular, até então contida numa dinâmica cultural acanhada, a participar ativamente da renovação da linguagem artística. Baiano e estrangeiro, ele foi o nosso grande sincretista, Um novo antropófago, bárbaro e doce, capaz de ligar, em sua música aberta, em sua poesia-qualquer-coisa, as pontas das mais diversas poéticas potencialmente vivas, de Gregório a Pastinha, de Gil a Sousândrade, do rock a Smetack, do concreto ao Xingu.

Puxada por Caetano, a poesia-música rompeu as barreiras entre o popular e o erudito. E se expôs, radicalmente, com todos os riscos às largas e despreparadas plateias do consumo, levando a um extremo limite e tensão comunicativa entre a informação nova e o repertório coletivo de redundâncias. Vivas e vaias.

Mas é engano pensar que os seus produtos sejam meros intermediários entre a poesia culta e o público. Os críticos que assim pretendem minimizar a sua importância, aplicam-lhe padrões exclusivamente literários, de forma simplista e linear. Não percebem que se trata de uma arte com parâmetros próprios - ainda que porosa às demais - de uma poesia-ação, que não se faz só com palavras, mas com sons, voz, corpo. Poesia mais próxima da conversa que do verso.

Não. Se quiserem compreender esse período extremamente criativo de nossa vida artística, os compêndios literários terão que se entender com o mundo discográfico. No novo capítulo da poesia brasileira que se abriu a partir de 1967, tudo, ou quase tudo existe para acabar em disco.

'Nem todos sabem cantar, Não é dado a todos ser maçã para cair aos pés dos outros.' Nos discos de Caetano, o poeta-cantor, até o vento canta-se, compacto no tempo. Quem vai dizer onde termina a música e começa a poesia?"