Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

domingo, 19 de junho de 2016

Astrud Gilberto - Jornal O Globo (2000) - Parte I

Astrud Gilberto é uma cantora que se destacou no cenário da Bossa Nova. A ex-esposa de João Gilberto fez carreira nos Estados Unidos e lá permaneceu, fazendo shows e gravando seus discos. Dona de uma voz suave e afinada, que se encaixava bem ao estilo intimista da Bossa Nova, Astrid participou de importantes gravações e fez uma bela carreira nos EUA. Na verdade, ela é mais conhecida lá do que aqui. Apesar do sucesso e do reconhecimento, a cantora sempre preferiu levar uma vida discreta e um tanto reclusa, longe dos palcos e dos holofotes. Em sua edição de 27/02/2000, quando estava prestes a completar 60 anos, o jornal O Globo fez uma matéria com Astrud, assinada por João Ximenes Braga, correspondente do jornal em Nova York. A matéria é intitulada "Mistérios da original senhora de Ipanema":
"Helô Pinheiro que nos perdoe, mas nos EUA 'a garota de Ipanema' é um aposto para o nome da baiana Astrud Gilberto. Ou melhor; como em 29 de março a cantora estará completando 60 anos de idade e a canção já ganhou uma infinidade de versões desde que a sua, ao lado do saxofonista Stan Getz, chegou ao quinto lugar da parada americana em 1964, Astrud agora é apresentada como 'the original girl from Ipanema'. Sim, o verbo está no presente porque, apesar dos boatos que circularam recentemente no Brasil, o filho e empresário da cantora, Gregory La Sorsa, afirma que ela não abandonou a carreira, lembrando que nos últimos anos ela lançou dois discos e gravou duetos com astros internacionais como George Michael e Etienne Daho.
De fato, os anos 90 viram Astrid em maior atividade que nas duas décadas anteriores. A cantora lançara 12 álbuns entre 1963 e 1971, e depois deu um longo sumiço do mercado fonográfico, durante o qual apenas 'Astrud Gilberto plus the James Last Orchestra', de 1987, teve distribuição internacional, pela Verve. Mas em 1999 o mercado americano ganhou um álbum ao vivo inédito, 'Astrud Gilberto live in New York', pelo selo MVP Japan, e três coletâneas lançadas por diferentes selos. Exclusivamente na Ásia, saiu 'So and so, Mukai meets Gilberto', em que ela canta músicas brasileiras com produção do japonês Shigeham Mukai. Para este ano antigas gravações de Astrud estarão presentes em pelo menos sete discos nos Estados Unidos, de homenagens a Stan Getz e Antonio Carlos Jobim a coletâneas de sucessos do jazz.
O que Astrud não faz é dar entrevistas. Em conversas com alguns de seus amigos - muitos dos quais se recusaram a colaborar com esta reportagem mesmo sob a promessa de anonimato por medo de aborrecê-la - ouve-se descrições como 'uma mulher muito difícil'. Aparentemente, nada que se equipare às folclóricas excentricidades de seu primeiro marido, João Gilberto, com quem tem um filho, João Marcelo Oliveira, que é músico e técnico de som e também vive nos EUA.
Com Stan Getz
Astrud também é descrita como sociável e generosa. Mas muito tímida. O editor do jornal 'The Brasilians' (com 's' mesmo), Edilberto Mendes, lembra que foi necessário um certo esforço para que ela aparecesse para ser homenageada na festa anual da Little Brazil em 1998:
- Nunca vi uma pessoa tão tímida. Ela ficou o tempo todo no camarim, só saiu quando foi chamada ao palco para receber a homenagem, e logo foi embora - lembra, - Mas é muito gentil, depois escreveu uma carta dizendo que havíamos tocado seu coração.
O pedido da entrevista deixado na secretária eletrônica de seu apartamento na Filadélfia - no final do ano passado, ela vendeu o de Nova York e  voltou à cidade onde morou como o segundo marido, o americano Nick La Sorsa, também seu empresário nos anos 70 e 80 - é respondido via e-mail por Gregory. A negativa é gentil, mas firme. Mesmo quando se aponta a necessidade de se escrever sobre Astrud: afinal, ela é uma das maiores embaixadoras da música brasileira no exterior, mas que continua praticamente desconhecida em seu país natal.
A história do surgimento de Astrud segue a tradição de lendas hollywoodianas da garota da porta ao lado que vira estrela por acaso. Ela acompanhava João Gilberto nas gravações do lendário álbum com Tom Jobim e o saxofonista americano Stan Getz, quando o produtor Creed Taylor descobriu que ninguém ali dominava o inglês. Astrud falava a língua, ainda que com sotaque, e foi convidada a cantar as versões mesmo sem ter experiência profissional. Lançado pelo selo Verve em 1964, o álbum 'Getz/Gilberto, featuring Antonio Carlos Jobim', sem Astrud nos créditos, não causou muito impacto. Mas no ano seguinte, Taylor tirou os versos em português cantados por João em 'The girl from Ipanema' e lançou o single só com a voz feminina e uma incorreção gramatical: Astrud mudou o verso 'She looks straight ahead, not at me' ('ela olha para frente, não para mim') para 'not at he (não pra ele), em vez de 'not a him'. O álbum virou o maior recordista de vendas no jazz até então. E mais, disputou palmo a palmo as paradas de sucesso com os então imbatíveis Beatles.
- Eu fiz arranjos pra uma turnê dela em 1974 pela África - conta o músico Dom Salvador, nascido em São Paulo mas radicado nos Estados Unidos desde o fim dos anos 60. - Ela estava no auge, seus shows eram sempre sold-out em qualquer lugar. E seus seguidores são fiéis até hoje. "

(continua)

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Roberto Carlos - Entrevista Revista Pop (1975) - 2ª Parte

" Pop- Essas mudanças do pessoal da Jovem Guarda não te deram vontade de partir também pra outra?
Roberto - Bicho, eu sempre procurei ser coerente comigo mesmo. Estou em paz há 34 anos, cara! Não houve nenhuma mudança em Erasmo e Wanderléa. O que eles fizeram foi botar pra fora um porção de coisas que tinha reprimidas. Isto é uma libertação interior. Eu não sinto necessidade disso. Tudo que fiz e faço não tem censura prévia, e não guardei nenhuma carta na manga para mostrar num dado momento. O que quero é tentar inovar tudo que venho fazendo de forma coerente há pelo menos dez anos, o que não implica em mudanças radicais. Gosto de dizer as coisas de uma maneira direta e objetiva. Eu sou assim. E me sinto muito feliz, mas muito feliz mesmo, quando ouço as coisas que fiz e disse, porque é assim que penso e é desta forma que sei me expressar.
Pop - Você, que foi um líder da juventude, ditando, inclusive normas de comportamento, como vê a música jovem atual? E que público você quer atingir agora?
Roberto - Sem dúvida, o rock tem um público ávido e bastante definido, mas eu não faço mais música dirigida para a juventude, basicamente. No tempo da Jovem Guarda, sim, eu fazia. E é bom lembrar que eu também era um jovem. Por outro lado, minha música é romântica e o amor não tem limites de idade. Ou você acha que os jovens não curtem o amor? Mudou a linguagem, mas 'eu te amo, querida', não vai morrer nunca! Veja o fenômeno da nostalgia(*), sem deter-se em análises mais profundas de mercado etc... Ocorre que 90% do que voltou a pintar  por aí foi tudo na base do romântico. Mas no meu trabalho, mesmo dentro do romantismo, procuro abordar tudo sem pieguice, e falo de problemas reais, como em Detalhes, Quando as Cranças Saírem de Férias e tantas outras. Eventualmente, posso cantar rocks nos meus shows, mas só para dar um colorido e não como posição assumida, em absoluto. Também não pretendo gravar rock. Foi uma fase, cara!
Pop - E agora, depois de dez anos de vendagens extraordinárias , parece que o samba de Martinho da Vila, Clara Nunes, Benito di Paula, já está ameaçando seus recordes. Qual é?
Roberto - Acho ótimo, pois toda concorrência tem aspectos superpositivos. Em primeiro lugar, obriga o artista a não descuidar de seu trabalho e procurar sempre melhorar. E isto é o que eu estou fazendo há dez anos. Em segundo lugar, proporciona maiores aberturas para o mercado de disco no Brasil e, é evidente, chances para novos músicos e compositores. O único grilo é o aspecto competitivo, que muitos querem fomentar e que acho bastante provinciano. Realmente não me preocupo em ser recordista e sim em vender muito, pois este é o prêmio a um trabalho coerente e bem feito. Nos Estados Unidos, por exemplo, há mil caras que vendem adoidado, como Elton John, Elvis Presley, Paul McCartney, Lennon e tantos outros, que não estão numa de 'eu sou o recordista', sacou? No Brasil, não. Quando um artista começa a vender bem, pinta um tremendo oba-oba na base do 'vai vender mais que Roberto Carlos'. Isto é uma grande bobagem e típico de subdesenvolvimento. Em vez de se pensar em recordes todo mundo deveria procurar expandir o mercado.
Pop- E como anda a nossa juventude?
Roberto - Muito bonita, sadia, livre, sem preconceitos e corajosa para assumir sua posição dentro da sociedade. Se posso dar um conselho, sem querer ser paternalista, é que o jovem não perca sua autenticidade, em hipótese nenhuma.
Pop- Aproveitando a maré: o conselho ao iniciante na carreira?
Roberto - Equilíbrio, malandro; coerência olhar as coisas com serenidade, cuca fria e muita humildade, principalmente se tiver a sorte de estourar.
Pop - E seus planos para 76?
Roberto - No carnaval faço shows na Itália, e a partir de junho, Espanha, México e Argentina. No fim do ano vou aos Estados Unidos. Aliás, em primeira mão, te informo que vou gravar um LP em inglês com versões de Hal David, parceiro de muitos sucessos de Burt Bacharach, como Alfie, Do You Know The Way To San José, Raindrops Keep Fallin' On My Head, Close To You etc... É um velho sonho, e nós dois estamos entusiasmados. A produção será do próprio Hal que também se encarregará de escolher as músicas. 
Pop - Até agora seu compromisso com a latinidade, caminho básico para Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Sá e Guarabyra, por exemplo, resumiu-se à escolha criteriosa de músicas em espanhol de muita beleza, mas sem mensagens sociais. Por que você escolheu América, América?
Roberto - Quando eu era garotinho, era bom paca em geografia e desenho. Riscar as Américas de cor era um dos meus brinquedos, e ali minha imaginação criava batalhas de chumbo e plástico. Cordilheira, aprendi que era uma porção de montanhas altas e juntas, e que os Andes eram gelados. Em minhas batalhas de soldadinhos de chumbo, na base de bola de gude, eu defendia o Brasil com unhas e dentes. Hoje em dia, com uma visão de homem, as cicatrizes de meus irmãos das Américas me entristecem muito. Antes eu não tinha medo, pois resolvia com um gesto de braço todas as crises. Mas agora, que nada posso, tenho medo. O problema chileno, a zorra equatoriana, a Argentina triste... O Brasil cada vez mais verde e maduro. Está certo. Mas o que foi feito de seus tristes irmãos das Américas? Do Chile que eu coloria de roxo, da Argentina, cor de laranja, do México como um sol esplendoroso, da Colômbia vermelha? Era menino e imaginava tantas coisas! Não haverá mais a festa latina? Que longo silêncio é esse? Você pode me responder? "

* O "fenômeno da nostalgia" a que se refere Roberto, era uma tendência da época. Naquele período, meados dos anos 70, voltou-se a tocar muita coisa dos anos 50, alguns artistas e grupos da época voltaram a fazer shows, músicas antigas voltaram a tocar nas rádios e entrar em trilhas de novela, etc. Não é à toa que no ano dessa entrevista Raul Seixas compôs e gravou a música "Verdade Sobre A Nostalgia", no disco Novo Aeon, que explica mais ou menos esse fenômeno.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Roberto Carlos - Entrevista Revista Pop (1975) - 1ª Parte

"Antigamente, todo final de ano significava que iria sair um novo disco de inéditas de Roberto Carlos. Em dezembro as lojas de discos se preparavam para receber mais um disco que seria um campeão de vendas. Essa rotina já há algum tempo não tem se repetido. Ao contrário de seu parceiro Erasmo Carlos, que tem lançado discos, não só de inéditas, como de releituras de seus 'lado B", como fez recentemente, Roberto tem concentrado sua carreira ultimamente em shows, e os especiais de fim de ano para a Globo, que para manter os níveis de audiência da emissora, costuma receber convidados bem abaixo de seu nível de história na música, além de não trazer muitas novidades em seu repertório. Mas, voltando ao passado, em dezembro de 1975, enquanto era aguardado o seu lançamento de final de ano, Roberto concedeu a entrevista abaixo ao jornalista Eduardo Athayde, para a revista Pop:
"Todo fim de ano é a mesma coisa: Roberto Carlos lança um LP que fatalmente vai para as paradas de sucesso, onde fica até o fim do ano seguinte. É uma posição cômoda, que ele aceita sem grandes preocupações. Aos críticos, responde com a inabalável popularidade. E aos que cobram aquela liderança que já teve, diante de todos os jovens do Brasil na época da Jovem Guarda, Roberto Carlos explica que sempre se manteve fiel ao romantismo, que é a maior característica de seu trabalho. E completa: 'O amor não tem limites de idade.'  A única diferença, diz, é que ele não é mais um jovem ingênuo, e trata os temas de amor de forma mais direta, sem pieguice. Este ano, porém, a expectativa foi maior do que sempre. Diziam que Roberto Carlos estava mudando radicalmente seu trabalho, selecionando com mais rigor suas músicas e dando nova direção aos arranjos. Ao receber Pop para esta entrevista, confessou com humildade: 'Não sei porque toda essa zoeira. Sou sempre o mesmo, só que estou mostrando coisas novas.' E nessas 'coisas novas' teve lugar até um velho sucesso, Quero que Vá Tudo pro Inferno, com roupagem diferente. No papo, deixou claro que não faz questão de ser o 'maior vendedor de discos do Brasil', falou sobre seus amigos Erasmo e Wanderléa, e deixou a pergunta amarga no ar; 'Que longo silêncio é esse?'
Não é nada, não é nada, mas há dez anos Roberto Carlos lidera as paradas de sucesso do Brasil (e de alguns países da América Latina) e é recordista de vendas. Agora, mais uma vez de volta ao Canecão (Rio), num show com produção impecável de Miéli e Boscoli, cenografia arrojada de Mário Monteiro, orquestra sob a regência de Leonardo Bruno e a base coesa do RC-8, Roberto Carlos escolheu um repertório de primeiríssima qualidade para, aos poucos, dar uma mexida nas coisas - embora não pretenda se afastar da linha romântica. Assim lança Mucuripe, de Fagner, Mac Arthur Park, obra-prima de Jimmy Web, Rubby, um dos clássicos de Ray Charles e América, América, de César e Roldão Vieira, onde a letra e a melodia se fundem num clima tenso.
Avesso a entrevistas, Roberto Carlos recebeu Pop com um papo manso. Cachimbando, rindo muito, de longe observa o trabalho de Erasmo e Wanderléa, com os quais formou a Jovem Guarda. Não se assusta com as ameaças de perder o recorde de vendas: 'Isto é muito provinciano.' Idolatrado nos países latino-americanos, Roberto agora se prepara para a conquista do mercado americano. Junto com Hal David, o bem-sucedido parceiro de Burt Bacharach, está fazendo as versões de um LP que gravará em inglês para os EUA. Tranquilo, sem pressa, coerente, humilde, como sempre.
Pop - Todo ano, quando você lança seu LP, um enorme segredo encobre tudo, inclusive o repertório. Neste fim de ano, no entanto, fala-se de mudanças, busca de novos compositores, arranjos mais incrementados. Vai pintar um novo Roberto Carlos?
Roberto - Eu tento melhorar meu trabalho cada vez mais, todo ano faço modificações, e isto está cada vez mais acentuado em meu novo LP. Mas não há mudanças radicais ou um novo Roberto Carlos e sim o mesmo Roberto Carlos com várias coisas novas. Quanto aos arranjos, botei mais molho, peso, swing em algumas músicas como Desenhos na Parede, de Beto Rushel. Realmente ficou um clima bastante diferente do que sempre fiz.
Pop - Além dos novos lançamentos, você regravou quantas músicas?
Roberto - Ao todo quatro: Quero que Vá Tudo pro Inferno, num embalo brabo mesmo; Mucuripe, do Fagner, mas numa bem romântica, como a própria música pede; um bolero, lindo, chamado Inolvidable, com uma harmonia da pesada, melodia de primeira e uma letra sensacional; e por fim um carnavalito argentino, bem folclórico, El Magacueño. Esta última, inclusive, foi gravada na Argentina com instrumentistas de folclore mesmo. Também tentei compor com Tom Jobim e Milton Nascimento, mas os desencontros tornaram impossível realizar este velho sonho. E desta vez só gravei quatro músicas que fiz de parceira com Erasmo Carlos. Para tanto, passamos um tempão escondidos no mato para trabalhar em paz. Gosto muito das novas músicas: Além do Horizonte, Seu CorpoO Quintal do Vizinho e Olha.
Pop - E como reagiu às guinadas de Erasmo Carlos e Wanderléa, que fizeram tanto sucesso com um novo trabalho, principalmente o Erasmo, que entrou numa de rockão mesmo e se deu muito bem?
Roberto - Bicho, pra ser sincero, tomei o maior susto da minha vida quando vi o show do Erasmo! Que coragem, cara! O Erasmo é o rei da timidez e de repente estava no palco de uma maneira sensacional... O mais bacana é que eu sabia que ele estava fazendo um  negócio que já curtia há muito tempo. O rock corre nas veias dele muito mais que nas minhas. O que faltava era o bicho se soltar. Seu trabalho foi muito bem cuidado, a banda de primeiríssima qualidade e até a expressão corporal estava irretocável. Eu e Narinha sempre demos muita força para que ele entrasse nessa, mas eu não acreditava que ele fosse tão corajoso. De Wanderléa, só ouvi falar até agora. Infelizmente ainda não pude ver seu show, mas pelo que dizem, parece que ela também endoidou de vez, né? "

(continua)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Gonzaguinha - Jornal Opinião (1973)

Em 1973 Gonzaguinha era ainda um promissor cantor e compositor, buscando seu espaço na MPB. Sob o nome artístico de Luiz Gonzaga Jr. - o Gonzaguinha era apenas uma forma carinhosa pelo qual era tratado pelo mais íntimos - ele ainda era mais conhecido como filho do Rei do Baião como propriamente por um novo talento da música brasileira. Naquele ano Gonzaguinha lançaria seu primeiro disco, e a crítica especializada passava a prestar uma maior atenção ao seu trabalho. Na época, o jovem compositor carregava a fama de mal-humorado, e alguns temas de suas músicas, de letras às vezes rebuscadas e difíceis, ajudavam a lhe darem o epíteto de "cantor-rancor", que o acompanhou durante os anos iniciais de sua carreira. Em abril daquele ano, o crítico e jornalista Tárik de Souza escreveria uma matéria sobre Gonzaguinha no jornal semanal Opinião:
"Duas semanas atrás, Luiz Gonzaga Jr. gastou sete dias percorrendo as rádios de São Paulo. Foi desfazer o boato de que seu compacto Comportamento Geral havia sido proibido. Por causa dele, algumas rádios, usando uma espécie de autocensura, excluíram-no de suas programações e o compositor, cantor e violonista foi obrigado a cumprir este roteiro estranho.
Para Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha, foi uma boa experiência, porque ficou conhecendo 'as pessoas que tocam minhas músicas e sabendo o que pensam de mim'. Na verdade, como compositor de sucesso popular (modesto, ele acredita que seu disco, nas paradas, tenha vendido só uns 15 mil exemplares) foi seu primeiro contato com qualquer tipo de público. Antes ele era o autor 'maldito', 'hermético', 'antipático', 'mascarado', de letras longas e músicas de harmonia trabalhada, respeitado, mas quase ignorado. Participou de três festivais universitários enquanto se formava em Economia. Foi finalista (Pobreza por Pobreza), quarto colocado (Parada Obrigatória para Pensar) e vencedor (O Trem). Sempre distante, afinando sua magreza com um comportamento ríspido, ele chegou mesmo ao suntuoso Festival Internacional da Canção, sem nunca, no entanto, ter-se integrado nele. Igualmente à margem permanecia Gonzaguinha nas aparições da TV ou excursões de teatro, com seu pai. Qualquer semelhança entre Luiz Gonzaga, rei do baião, sorridente, cara de lua e Gonzaga Jr., agressivo, equilibrando o cigarro entre os dedos enquanto tocava, só podia ser coincidência. Tanto que se espalhou outro boato que de certa forma o constrange: o de que seria filho adotivo. 'É uma longa história', diz Gonzaguinha, entre inquieto e encabulado. E conta que não é filho da atual mulher de Luiz (Helena) Gonzaga. Foi criado no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, no Rio, por pais adotivos. 'A Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e o Baiano (Henrique Xavier), com quem aprendi a tocar violão.'
Isso talvez explique a pouca interferência de Luiz Gonzaga na linha musical principal de influências do filho. E no seu comportamento geral. 'Fui moleque de morro, quebrei vidro, joguei bola, roubei fruta mas principalmente do quintal das pessoas que eu não gostava.' Gonzaguinha, 27 anos, define-se dentro desta atmosfera construída na infância. 'Sou um moleque. Mas um moleque bem alegre, um marginal que sabe que é e será marginal.'
Suas bruscas mudanças de tom - às vezes sorri franco e simpático, outros momentos parece desconfiado das perguntas - correspondem, de certa forma, aos altos e baixos de sua carreira de inescondível indecisão poética ('vai carregado de esperança, amor, verdade e outros ades', O Trem) e outros, de inabalável objetividade ('Mas sonha que passa/ ou toma cachaça/ aguenta firme irmão, na oração/ Deus tudo vê e Deus dará, Um Sorriso nos Lábios). Desde 68, quando começou a tentar a carreira (sua primeira música, Primavera, foi gravada pelo pai em 1959), manteve-se apenas fiel a um tipo de resultado sonoro que lembra (inclusive quanto ao registro de voz) Milton Nascimento. Gonzaguinha diz que não é influência: 'Começamos praticamente na mesma época. O que há é que ele é alegre e moleque como eu'.
Depois de Comportamento Geral ('Você merece/ tudo vai bem/ tudo legal/ cerveja, samba, e amanhã, seu Zé, se acabarem com seu carnaval?'), um samba envolvente, quase arrastado. Gonzaguinha marcou sua presença, até então fluída, na música brasileira. Não sabe exatamente como se situar, porque 'pertenço a esta geração meio espremida que pegou a barra pesada logo', mas admira de Milton Nascimento a Edu Lobo. 'Influência é como gripe' e a única preocupação dele é filtrar os principais vírus, 'compor consciente, como um exercício: venho aqui pra casa e fico horas mexendo com música'. Quando não está compondo, constrói móveis. As cadeiras, de barril e couro - 'parece que custaram uma fortuna' - foram feitas por ele. Orgulha-se de estar em dia com o aluguel do apartamento modesto na Tijuca, onde mora, vista para uma pedreira cinco metros à frente das janelas. Tem pago tudo sem ajuda, 'só com minha carreira de compositor hermético, brinca ele.
Sem  ser uma nova candidatura ao trono desocupado por Geraldo Vandré, Gonzaguinha tem recebido um tipo de aplauso parecido, depois de ter ouvido muitas vaias sem se abalar. No caso, para ele, é apenas uma questão de imagem preconcebida do público, da qual não tem culpa. 'Qualquer pessoa pode ser chata, antipática, antes que você se aproxime dela', justifica-se. Entre Gonzaguinha e Vandré, porém, parece guardar-se uma distância. Comportamento Geral e Sorriso nos Lábios não apresentam necessariamente uma guinada na minha carreira nem são a única coisa que sei fazer'. De seu próximo elepê, que já começou a ser pré-gravado para apresentação à Censura, há músicas completamente diferentes 'daquelas que o público vaiava. É uma carreira de equilíbrio difícil, mas meu pé é da largura do arame'. "

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 5ª Parte

"Hermeto tem razão. O povo é sensível, sabe o que é bom. Afinal, os estrangeiros também não estão bebendo nossa água?
'Sempre beberam. Mas no começo vinham escondidos. Agora não. O músico brasileiro, que é convidado para gravar com qualquer cara de fora, acredita que está tendo uma oportunidade. Como os gringos sabem disso, se aproveitam: chegam aqui e convidam um cara que toque bem frevo, marcha ou samba. Eles gravam aquilo tudo e levam a fita para fora. Lá, eles colocam uma música em cima e só botam o nome do cara brasileiro como participante. Dizem que a música e os arranjos são deles mesmo e o essencial, que é justamente a criação e a parte rítmica, eles tomam conta. Mas o culpado é o músico que aceita isso, cavando sua própria cova. Depois ficam reclamando da discoteque... Quem grava são as gravadoras,mas quem toca para elas, hein? São os músicos. Eu não faço isto. Prefiro tocar numa boate, onde você vai ganhar um pouco menos do que num estúdio (sabe-se que Hermeto ganha limpo, para dividir com o grupo, um milhão de cruzeiros pra pisar num estúdio, uma vez aceitas suas condições pra gravar) do que aceitar uma situação dessas.'
Hermeto concorda que, agora, já há todas as condições para fazer um bom trabalho de gravação aqui, o Zabumbê-bum-á é uma prova. E espera colocar a familiarada toda participando do próximo disco.
À pergunta: 'Hermeto, você fatura?' Ele é taxativo.
'Faturo. Somos muito modestos. Quando dá para comer carne, tudo bem. Senão saímos pro ovo mesmo. Agora vamos criar umas galinhas, não é Ilza?'
Nessas alturas, Dona Ilza havia trocado o vestido estampado de ir à  feira por um vermelhinho decotado e mais chique. A hora sagrada do almoço estava se aproximando. O cheiro bom de carne assada começava a invadir a sala. Zabelê, a vocalista, também chega da feira e vem encontrar com o marido Nenem, que está lá em cima estudando. Toda satisfeita, numa bermuda vermelha e camiseta idem, conta que comprou um peixe deste tamanho. E toda família Pascoal rejubila-se com o fato. Um barato!
Para não ter que olhar para o relógio e de forma delicada, Hermeto falou:
'Para terminar, queria mandar um recado para os instrumentistas: que vocês não toquem música nenhuma com arranjo malfeito, desses engavetados, principalmente em programas da Globo. Vocês têm que se impor. Se tocarem bem, merecem um arranjo bem feito. Não procurem arranjadores comerciais, quadrados. Há nomes como Dori Caymmi, Wagner Tiso e Radamés Gnatalli, todos bons. E que estes também não façam concessões comerciais. Vamos tomar conta disso aí, vamos pegar no pé do pessoal. Se não tiver arranjo, não faz mal. Vão lá e toquem seus instrumentos sozinhos, que é muito bonito.'
Pausa. Princípio de fim de papo. Hermeto argumenta ainda que pode tocar em qualquer teatro do mundo da mesma categoria que o Municipal do Rio e a Sala Cecília Meireles. 'Se o Glenn Miller toca lá, por que não eu?' Mas diz que precisa ser procurado, que gostaria de dar um concerto na Cecília Meireles.
Em seguida foi lá dentro do seu quarto e trouxe um aparelho altamente sofisticado: um transmissor de fita gravada em 16 canais. Colocou o fone no meu ouvido e brincou: 'Então, suíço é frio?' Era a gravação original de sua apresentação em Montreux. A ovação é impressionante. De repente, silêncio. 'Olhaí a música que eu fiz lá no hotel'. Aos primeiros acordes, tão belos, tão liricamente puros e elaborados ao mesmo tempo, senti-me privilegiada.
Privilegiada por ouvir uma melodia certamente antológica, ao lado de Hermeto e de Dona Ilza, naquela casa encantada. E quando vi, já era tarde. As lágrimas corriam do olho para a ponta do meu nariz. Que fazer? "

domingo, 12 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 4ª Parte

" Quando Hermeto tinha 13 anos, a família foi para Recife; em seguida ele foi para Caruaru (e o irmão, Zé Neto, para Garanhuns). Dois fatos marcaram sua vida durante este tempo em que ele rolou pelo Nordeste: a formação de um trio em Recife composto de Sivuca (na época já um acordeonista conhecido), Zé Neto e Hermeto. Como os três eram (e são) albinos, o nome O Mundo Pegando Fogo foi o que acharam de melhor. De Sivuca, com quem voltou a se apresentar 28 anos depois, em julho de 78, em Salvador, o Bruxo de Arapiraca diz: 'Ele não é meu amigo, é irmão do coração.'
E foi em Recife que ele conheceu Ilza, sobrinha de Luperce Miranda. E é ela quem vai contar sobre o encontro dos dois. Dona Ilza acaba de chegar da feira e vem sentar perto de nós, com um vestido florido, cheia de corpo e de graça, jovem ainda, com duas covinhas no rosto liso. É uma morena cor de jambo daquelas. Os  seis filhos parecem-se com ela, sendo que Flávia, a de 15 anos, chega a ser papel-carbono, inclusive nos dotes culinários.
'Ele chegou com o acordeão lá em casa, olhei assim para ele e pedi: toque alguma coisa. Ele, com vergonha, só fazia olhar para baixo. Então perguntei pra minha mãe: 'será que ele não abre os olhos não?'
E Hermeto completa o relato do romance:
'Naquela época, eu ainda não usava óculos. E a Ilza olhava pra mim e ficava rindo. Eu fiquei até chateado. Comecei a ir lá assim mesmo e ferrei o namoro. Tocava na rádio com o pai dela. Ela me fez abrir o olho. Foi maravilhoso porque foi um negócio muito rápido. Casamos logo. A Ilza tinha 14 para 15 anos e eu era de menor. Tive que mentir a idade para puder casar. Desde que nos conhecemos fui dizendo o Padre Nosso para ela.
Sem essa de que mulher tem que ficar em casa. Ela passeia, vai para onde quer. Só não dá para viajar comigo por causa dos meninos. Ela fica por aqui, toma conta das coisas.'
'Sou eu quem cuida de tudo, né, meu velho? - diz Ilza passando amorosamente a mão pelos cabelos de Hermeto.
Os meninos passavam de cá para lá. Ocorreu-me perguntar como ele organizava a mesada pra a criançada. Ele riu muito.
'Mesada? Aqui, mesada só a mesa da hora do almoço e olhe lá. Todos trabalham. Os três mais velhos estudam à noite. E todos são parados em discoteque, só vendo...'
Quando Hermeto saiu de Recife, já casado, veio direto para o Rio, com o irmão, Zé Neto. Tocou em boates para sobreviver e em 60 foi para São Paulo, onde marcou época no Stardust, Jogral e João Sebastião Bar. Era a época dos grandes festivais. Surgiu então o Quarteto Novo, marco definitivo e trampolim para a fama, na carreira de Hermeto. Data daí a sua enorme amizade com o baterista Airto Moreira.
'O Quarteto Novo era um trio que  acompanhava o Geraldo Vandré, você sabe: o Airto, o Téo e o Heraldo. Virou quarteto quando eu cheguei. Quando foi isso? Nossa, na era de Cristo, nem me lembro mais. Foi um embalo muito grande para essas coisas que faço hoje. Se o quarteto tivesse continuado estaria fazendo coisas do nível das que eu faço agora.'
O quarteto desfez-se com a ida de Airto para os Estados Unidos. Em 71, o percussionista mandou chamar Hermeto pra que fizesse uns arranjos por lá. Começa então a fase de reconhecimento internacional do seu talento. Em 72, Hermeto faz um show antológico no Teatro Fonte da Saudade (Rio), assistido, entre outros, por Astor Piazzolla, Egberto Gismonti, Milton Nascimento e Sérgio Ricardo. Desta fase são os sucessos Gaio da Roseira, composição de seus pais e O Trem e Flecha. Em 76, como estava há muito sem gravar, pediu ao público que foi assisti-lo na Sala Corpo e Som do MAM para que levasse seus próprios gravadores. Em 1977, inaugurava sob um chuvaréu danado a Concha Verde do Morro da Urca, com um concerto assistido por mais de 1.600 pessoas. E a superconsagração junto aos brasileiros chegou no ano passado, no Festival de Jazz de São Paulo, onde abafou o guitarrista John McLaughlin e tocou olho no olho com Chick Correa, a quem chama de Francisco Correa .
Hermeto no Festival de Jazz de SP (1978)
'Tem uma coisa que eu gostaria muito de esclarecer, principalmente às pessoas que veem o Hermeto fazendo num festival de jazz: não me considero músico de nada, considero-me músico. Não quero que me tratem como músico de jazz. Achei legal que o festival do Japão não teve rótulo de festival de jazz. Teve um nome lindo: Festival Sob o Céu (Festival Under Sky). Sem essa de festival de jazz ou de música folclórica. Isso deixa as pessoas que tocam muito inibidas. O Brasil é o chão mais rico do mundo; é o universo que tem tudo quanto existe de ritmo.'
Essa é uma característica de Hermeto: fala dele na terceira pessoa. Uma pergunta sobre como via os musicais em nossa televisão, desencadeou uma série de denúncias e uma especial sobre o que ele chama de racismo musical.
'Vou falar construtivamente; fizeram um negócio comigo na tevê que eu não gostei. Foi no programa Esses Músicos Notáveis e Seus Instrumentos Maravilhosos, na Globo. Eles alegam que este tipo de programa é para ajudar o músico, mas desse jeito acho que atrapalha. Muito músico fora de forma, quadrado, tocando mal, com aqueles arranjos antigos, participou do programa. Arranjos que estavam engavetados, uma vergonha. O nível da música foi uma vergonha, com exceção - e essas pessoas sabem que estou falando deles - do Sivuca, do Maurício da gaita e do Radamés Gnatalli. O resto tem que juntar tudo dentro de um saco e jogar no mato. Músico não tem essa de idade e saudosismo, não'.
E continua contando o lance que o desencantou:
'Para eu participar de um programa de televisão agora eles vão ter que fazer um contrato para mim. Gravei lá na Globo, e como sei do perigo de corte - e eu não gosto disso - pedi, por favor, pra medir o tempo. O cara falou que tava tudo bem. Quando cheguei de viagem, a tempo de assistir ao programa no ar, vi com surpresa que haviam cortado um número inteiro. Isso é um desrespeito muito grande para o músico. É como um sujeito pintar um quadro e vir outro e cortar o quadro pela metade. Uma música tinha ligação com a outra.'
E então Hermeto contido, mas veemente, fez uma observação bastante válida:
'Quando se trata de música clássica eles não cortam, respeitam mais. Eu acho que não existe música clássica nem popular, o que existe é nível, qualidade da música que você faz. Enquanto não souberem respeitar isto aí, vão trabalhar contra a música e contra os músicos. Existe um preconceito, um racismo musical que precisa acabar. Eles levam ao ar uma peça de Stravinsky sem cortes, não é?
'E quem poderia acabar com isso?' - perguntamos. Ele responde na bucha:
'O governo. Tem que haver uma lei para proteger a música. Um exemplo, o Projeto Pixinguinha. É uma boa. O que estraga são as pessoas que eles botam lá dentro para organizar. Quiseram que eu tocasse sem meu grupo alegando que não há verbas. Como é que pode?'
Mas será que os arranjos avançados, o som de Hermeto, seus instrumentos diferentes têm poder de se comunicar com o chamado povão?
'É claro que tem. Já toquei na Feira de Caruaru e parou a feira toda. Toquei na rua, em Santo André. Fiz um teipe para a TV alemã em pleno Viaduto do Chá, em São Paulo. Eu lá só com a flauta e aquele montão de gente lá em cima, tudo parado para escuta. Eu até disse para o repórter; 'Eles pensam que eu sou o Roberto Carlos. A prova é clara. Todas as classes sociais foram ao Festival de Jazz de São Paulo. Vai ver quem encerrou o Festival do Japão levando 10 mil pessoas para assistir! Cinco anos sem gravar um disco e carregando mais público do que as pessoas que gravam de seis em seis meses.' "

(continua)

sábado, 11 de junho de 2016

Hermeto Pascoal - Revista Ele Ela (1979) - 3ª Parte

"Desde que a família de Hermeto se mudou para o Bairro Jabour, há três anos, que o grupo está junto; e juntos eles gravaram o último LP de Hermeto, Zabumbê-bum-á, lançado em abril último. Por imposição do líder, eles só se apresentam completos. Não tem nada de cada um por si, não.
O telefone toca. É Jovino que quer saber do harmônio. Hermeto fala da nova aquisição com a maior ternura ('passei um óleo de máquina nele, só vendo'). Entra Nenen, bigodudo, de camiseta turquesa, e avisa para o chefe:
'Vou dar uma estudadinha lá em cima, tá?'
O assunto agora gira em torno do novo disco e a transa de Hermeto com as  gravadoras.
'Aliás é importante você caprichar neste pedaço, porque agora vou cobrar da WEA um lançamento para a imprensa, depois de uma tournée pelas capitais divulgando o disco. Quem ouve Zabumbê sente uma consciência profissional grande da equipe toda, mas sente também um clima de certo informalismo. É como se estivesse lá também durante as gravações. O disco foi feito, por incrível que pareça, em 17 dias. Muita gente levaria até seis meses gravando um trabalho desses. Quero um lançamento com a participação de meu pai, minha mãe, falando como fizeram nas faixas São Jorge e Santo Antônio. Só vale assim.
Alguns setores da crítica especializada consideram o Zabumbê-bum-á o melhor disco de Pascoal. Em 77, no entanto, ele gravou nos Estados Unidos o Slave Mass, com produção de Airto Moreira, Flora Purim e Mazolla, onde, na faixa-título, inclui o som de um porco ao vivo. Assim viu este disco o controvertido J.R. Tinhorão: 'Posto o disco para tocar o ouvinte reconhece não estar diante de um músico comum - Hermeto não cai uma única vez em banalidades ou redundância, mas também não chega a uma conclusão.' Na mesma crítica ele se refere a Hermeto como talentosíssimo. Este disco tem ainda Chorinho pra Ele, música feita em homenagem ao irmão morto, Enésio. Waltz e Just Listen, um solo de piano de 11 minutos, belíssimo. Mas como o nosso bruxo encara estes dois trabalhos é o que importa.
'Acho que não é obrigação, é normal evoluir cada vez mais quando se faz um trabalho. Ao todo gravei cinco discos, como compositor e instrumentista e nunca fiz a menor concessão comercial. (Em 72 Hermeto gravou pela A & R um disco que contou com a participação dos cobras Herbie Hancock, Joe Farrel e Hubert Laws, entre outros; e todos sopraram garrafas...), Agora a história do porco no Missa - este o nome inicial do disco - foi o seguinte: eu imaginei uma missa sendo celebrada no mato mesmo, imaginei que no tempo dos escravos eles também rezavam, se comunicavam com Deus pedindo pras coisas melhorarem. Imaginei porcos andando livremente no mato. Hora da missa e os porcos passando. As pessoas lá acharam que eu devia botar o nome de Missa dos Escravos. Fiquei até meio cabreiro. Será que não vão pensar outras coisas? Mas, pensando bem, até que ficou bonito, ficou mais forte.'
Sobre este conjunto de trabalhos, apenas cinco realmente meus, em 30 anos de carreira, ele diz ainda, sem a menor afetação:
'A partir do disco que gravei em 72, os arranjadores lá foram criando coragem para escrever mais livre para as orquestras.
Surgiram coisas com muita percussão. Graças a Deus eu influenciei o mundo como arranjador. Tanto assim que até dois anos atrás eu era mais conhecido nos Estados Unidos e no resto do mundo como arranjador.
A partir da Missa (Slave Mass) é que fiquei conhecido como instrumentista. Nessas viagens aí é que vejo como seu conhecido. Vou às casas de discos e tem meu nome lá. Sou reconhecido como se fosse do lugar e penso: ô xente, será que nasci aqui?'
Nas reflexões acima, que na boca de outro poderiam ser puro cabotinismo, estão contidas muitas verdades, como quando ele afirma que influenciou o mundo como arranjador e é um instrumentista respeitadíssimo nos quatro cantos da Terra. O crioulão Miles Davis incluiu duas composições de Hermeto (Nem um Talvez e Igrejinha) em um dos seus discos, esquecendo-se de mencionar a autoria. Mas quando diz 'ô xente, será que nasci aqui', está brincando.
Ele nasceu em Lagoa da Canoa, Arapiraca, Alagoas, em 22 de junho de 1936. Filho de Pascoal José e de Dona Divina, por  lá ficou 13 anos, sendo que desde os nove dedilhava uma sanfona de oito baixos. Ele e o irmão, Zé Neto, muitas vezes eram convidados para aparecer e tocar em festas e casamentos 'só porque éramos bonitinhos, parecíamos dois pombinhos ou bonecos de louça'. Família de cinco homens ('menina não se criava. Mamãe não quis ter  muito trabalho porque vocês muiés são da daná'), todos albinos (ou aços ou sararás, cf Aurélio): Enésio, já falecido, bandolinista; Zé Neto, com quem Hermeto formava dupla e seu grande amigo de sempre; Hermeto; Manoel e Elísio, 23 anos e estudante de violão em São Paulo. Desta época, Hermeto conta uma história gozada:
'Meu pai tinha um armazém e eu, novinho ainda, de calças curtas, tocava sanfona em cima do balcão, com o Zé Neto. Uma vez passou o dono de uma boiada pela frente do armazém e viu a gente tocando bem lá por aquele mato - era mato mesmo, agora virou cidade -, e falou pro meu pai: 'Seu Pascoal, o senhor não quer me vender esses meninos, não? Eu dou um dinheiro grande para o senhor, mas não vou ficar com eles não. Vou educá-los porque aqui não tem meios. Quando eles tiverem de maior, se quiserem, voltam.'
Eu fui correndo, chorando, encontrar minha mãe. Porque papai vendia tudo mesmo. Até hoje é negociante. Se dava uma máquina de costura pra mamãe e parecia comprador, ele vendia. Fiquei com medo danado que nos vendesse também. Mas mamãe tranquilizou-me e cá estamos nós todos juntos até hoje.'
Hermeto, instrumentista avançado, arranjador dos maiores, compositor fora de série, sensível demais, revolucionário de todo tipo de som ('toco de tudo'), tem uma explicação onírica para o seu aprendizado teórico:
'Tenho escola não. Sou autodidata. Como minha religião é a música - nem teria tempo de fazer outra coisa -, acho que a teoria, essas coisas, me foram dadas de presente. Sabe quando você sonha? Quando acontece alguma coisa com você e você não sabe como? Quando você consegue uma coisa e não sabe como? Eu sei tudo de música, escrevo música até para orquestra sinfônica, conheço tudo de teoria (e baixando o tom da voz, até um pouco contrito), mas como aprendi tudo isto, eu não sei.'
Aos que dizem, nas muitas vezes que ele confirma esta versão, que Hermeto está fazendo gênero, ele corta pela raiz: 'Então você acha que se eu tivesse tido um professor ele já não teria aparecido com aluno assim famoso?' Mas o presenteado, por via das dúvidas, exige que seus meninos do grupo estudem música profundamente, que nem todo mundo nasce com este dom. "

(continua)