Palavras Domesticadas

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domingo, 28 de janeiro de 2018

Arnaldo Antunes - Entrevista ao Jornal Rock Press (1996)

Arnaldo Antunes é um poeta, letrista, cantor e performer dos mais destacados de sua geração, aquela que surgiu nos anos 80, quando o rock brasileiro ganhou grande projeção na mídia. Após deixar os Titãs, uma das melhores e mais criativas bandas daquele período, Arnaldo partiu para a carreira-solo. Em 1996 lançava mais um disco, denominado "O Silêncio", e concedeu essa entrevista a Tatiana Tavares, do jornal Rock Press:
"Ele é um dos principais poetas de sua geração. Juntamente com Júlio Barroso (Gang 90), Cazuza e Renato Russo, ajudou a construir um rock respeitável, com letras inteligentes, falando de temas pouco abordados na música pop dos 80. Arnaldo Antunes fez sua carreira nos Titãs mas há cerca de quatro anos partiu para um trabalho solo, em busca de novas experiências. Muitas vezes considerado maldito por seu envolvimento com drogas e por por nunca ter tido papas na língua, ele recomeçou a caminhar na estrada do showbizz, passando por todas as dificuldades e incompreensões por parte de público e mídia, pouco acostumados a ideias e padrões diferentes dos habituais.
Em 93, Arnaldo lançou o projeto 'Nome', composto por um CD, uma fita de vídeo e um livro de poesias. As três linguagens se complementavam e o jogo entre letras e palavras, característica forte em sua música até hoje, predominava. Dois anos depois, Ninguém, o segundo álbum, vinha um pouco mais pop, mas sem deixar para trás o experimentalismo e a estranheza do disco anterior.
Este ano, Arnaldo lançou O Silêncio, seu melhor trabalho, cheio de referências e misturas de estilos. As novas parcerias também estão presentes com Carlinhos Brown (na faixa-título e em 'Desce'), e Chico Science & Nação Zumbi, que participam de 'Inclassificáveis', que teve o grupo como uma espécie de inspiração.
Rock Press: Como você saiu dos Titãs, em 92, para o tipo de trabalho que faz hoje?
Arnaldo Antunes: É difícil definir isso. Sem dúvida, muitas coisas que eu faço hoje não poderiam ser feitas nos Titãs por falta de espaço, mas tem muitas outras coisas que se encaixariam perfeitamente. Meu trabalho atual continua tendo, por exemplo, o dado do rock'n roll fortemente presente, mas talvez mais contaminado por outras informações sonoras. Eu não sinto uma ruptura entre essas duas fases. Continuo sendo a mesma pessoa, então é normal que haja semelhanças e diferenças entre elas, já que hoje meu conhecimento musical se aprimora cada vez mais e apresenta um trabalho mais maduro.
Em comparação que as pessoas costumam fazer, dizendo que o que eu faço é mais experimental, também não é exatamente verdadeiro. Os Titãs também tinham o seu lado de experimentar, mas éramos oito, e hoje sou um só, e, é claro, as coisas ficam mais com a minha cara. Acho que todo trabalho artístico que se preze tem que fazer experiências de ritmos, de timbres, de letras... As pessoas costumam opor muito o pop e o experimentalismo, como se um único trabalho não tivesse lugar para as duas coisas. Não há demarcações rígidas. Estou interessado em misturar tudo isso e fazer um trabalho que, dentro do que chamamos de cultura pop, passa a ser assimilado por muita gente. Quero mais é poder ser visto e ouvido por um número cada vez maior de pessoas. Não concordo que exista nenhum tipo de dificuldade no acesso ao que eu faço. Acho que é um tipo de música que pode perfeitamente tocar no rádio e seguir todos os padrões normais e comerciais.
RP: Como você define seu último álbum, O Silêncio?
Arnaldo: A maioria dos críticos andou dizendo que é um trabalho mais pop, muito diferente dos anteriores. Não vejo dessa forma. Não me interessa repetir fórmulas já testadas, quero produzir um trabalho que tenha sua novidade. Acho que a principal característica é um maior amadurecimento com a banda, com a qual estou trabalhando há quase quatro anos, e isso dá uma maior unidade sonora ao disco. Todas essas referências que aparecem misturadas nos meus álbuns fazem parte da minha vida, de tudo que acumulei.
Sempre ouvi, com a mesma intensidade, Rolling Stones e Caetano Veloso, por exemplo. Nunca fui muito sectário quanto a gêneros e isso se reflete na minha música. Acho muito legal trabalhar com o atrito entre informações de universos musicais diferentes. Sempre agi assim como ouvinte e não vejo porquê não funcionar da mesma forma como criador.
RP: Na faixa  'Inclassificáveis', você fala da dificuldade de se classificar raças e crenças em um país enorme como o  Brasil. Essa dificuldade de separar em classes, rotular, também se estende à música?
Arnaldo: Sem dúvida está ligado à estética também. Esses rótulos não chegam a me irritar, mas acho que é muito redutor em relação ao que o trabalho realmente significa.
Principalmente a mídia tem muita necessidade de dar um nome para as coisas e, muitas vezes, esses nomes não comportam a totalidade do que está sendo proposto, é um nome artificial e que acaba soando esquisito.
RP: Por que o nome 'Silêncio' e que tipo de definição você daria para o seu trabalho?
Arnaldo:  Acho que posso definir da maneira mais ampla possível, dizendo que é um trabalho de música popular brasileira moderna. Na faixa-título, que é uma parceria minha e do Carlinhos Brown, significa o princípio de tudo. Vai retrocedendo no tempo com intervalos cada vez maiores e chega nesse silêncio, que é o vazio absoluto ('Antes de existir computador, existia tevê/ antes de existir tevê, existia luz elétrica/ antes de existir luz elétrica , existia bicicleta/ antes de existir bicicleta, existia enciclopédia/ antes de existir enciclopédia, existia alfabeto/ antes de existir alfabeto, existia a voz/ antes de existir a voz, existia o silêncio')
Agora, o silêncio, de maneira geral, serve muito como matéria-prima para quem trabalha com música, que não usa apenas o som, mas sim, os espaços entre os sons também. Acho que todos trabalham o tempo todo com ele. Quando a gente está falando, as pausas têm significados. E quantas vezes um silêncio fala muito mais do que dezenas de palavras? Ele está sempre permeando a matéria e interagindo com ela e as coisas que o cercam.
RP: Você já parou para se imaginar em um mundo de silêncio, sem televisão, luz elétrica, computador ou bicicleta?
Arnaldo: Eu só imagino o mundo com mais coisas do que ele tem hoje. Não quero tirar nada dele, quero colocar cada vez mais coisas. Imagino como poderá ser daqui a dez, 20, 50 anos. Quero teletransporte instantâneo, comunicação telepática, transmissão via satélite, sem precisar monitor, a imagem holográfica aqui. O que eu quero é viajar no tempo, quero mais, não menos.
RP: E o que você acha dessa geração criada na era da superinformação, da internet e da alta tecnologia?
Arnaldo: Acho que a tecnologia tem milhões de facetas que ainda estão sendo e virão a ser exploradas. Ela pode trabalhar em função da ecologia e da questão do meio ambiente, por exemplo, é através dela que poderemos tornar este planeta um lugar cada vez mais habitável e saudável para se viver.
Atualmente, é difícil se viver em um lugar superpopuloso, cheio de miséria, guerra e desigualdade para todos os lados. Sem dúvida, é preciso fazer alguma coisa por essas gerações que estão por vir.
Quanto à alienação, geralmente discutida pela mídia e pela grande maioria das pessoas, não acho que esteja ligada à superinformação ou excesso de tecnologia. Acho que a tendência é que os jovens fiquem cada vez mais inteligentes e preparados para resolver situações que antes não eram capazes. A gente não sabe no que isso vai dar, mas acredito que vá dar numa agilidade de pensamento e reflexo muito grande. Quando surgiu a televisão, muita gente dizia que era um veículo emburrecedor e é esse tipo de mentalidade que se vê de novo, em relação ao computador. Quando fiz 'Televisão' com os Titãs (incluída no segundo disco da banda), era sobre isto que estávamos falando.
RP: Seu primeiro álbum solo, Nome, de 93, vinha acompanhado por um livro e um vídeo, tinha toda esse linguagem da interatividade presente. Você se desinteressou por esse tipo de proposta?
Arnaldo: Não é questão de ter me desinteressado, mas realmente agora estou mais ligado à coisa musical mesmo. Tenho desejo de voltar a trabalhar com vídeo, continuo rabiscando meus poemas mas, neste momento, a prioridade é a parte musical.
RP: Como você analisa o mercado para quem está começando numa banda hoje, muito diferente de quando a geração de 80 começou?
Arnaldo: Começar sempre é difícil. Com os Titãs, por exemplo, nós ficamos dois anos só dando shows em todos os lugares onde uma banda iniciante poderia tocar. Trabalhamos muito antes de gravar o primeiro disco e mesmo depois de gravado batalhamos muito para conseguir espaço e chegar num estágio em que tivéssemos uma agenda de shows que fizesse com que pudéssemos sobreviver como banda. O que sinto é que neste momento, há um pouco menos de ousadia nas rádios, elas já arriscaram mais, as pessoas tinham mais coragem de tocar coisas diferentes. Há um certo marasmo, as coisas estão paradas, mas acho que isso é apenas uma fase, que pode mudar de repente.
RP: E o trabalho desta nova geração, você tem acompanhado?
Arnaldo: Acho que essa mistura de ritmos, que é o que a mídia evidencia como a principal característica desta geração, não é uma coisa nova, mas talvez tenha ficado mais clara agora com Raimundos, Chico Science, Mundo Livre e tantos outros. Na verdade, isso é uma característica da cultura brasileira. A gente convive com tudo isso, a Tropicália já falava nisso. Os próprios Titãs sempre tiveram a MPB, por exemplo, muito presente no trabalho, através de linhas melódicas e harmonias. Eu me sinto inteiramente à vontade em lidar com essas diferenças. Acho a cultura e a música brasileira coisas muito especiais. Essa miscigenação, essa falta de sectarismo não é vista em nenhuma outra parte do mundo. Acho essa promiscuidade muito saudável.
RP: Seu público de hoje é o mesmo que o acompanhava nos Titãs?
Arnaldo: Sinceramente, não sei responder a essa pergunta. Acho tão engraçado essas pessoas que saem definindo o público como o cara classe tal, com idade tal. Não tenho ideia de nada disso e nem me interessa. O que quero é ser ouvido por um número cada vez maior de pessoas, não vou perder tempo criando esses perfis. Desde que saí dos Titãs, sinto como se estivesse em início de carreira. Estou recomeçando e preciso reconquistar esse público que se interessa pelo meu trabalho. Na época em que lancei o Nome, foi difícil para algumas pessoas entenderem qual era a proposta, mas hoje já não vejo mais esse tipo de dificuldade.
RP: Em que você acredita e como encara a morte?
Arnaldo: Não sou uma pessoa religiosa, tenho religiosidade, o que é diferente. Não tenho uma crença ou defendo uma religião específica, acredito nas forças que regem as nossas vidas aqui. Quanto à morte, acho que cada hora, a vejo de um jeito. Tento conviver com a ideia da morte com cada vez mais serenidade. Acho que falo melhor sobre isso na música 'O Buraco', do que se eu falar qualquer coisa agora ('A terra sabe receber/ a caveira ri/ o céu ensina a tudo saber/ o corpo cabe/ a terra sabe receber/ o cadáver'). "

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