Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Entrevista com Luiz Carlos Maciel, o Guru da Contracultura (1997) - 1ª Parte

Luiz Carlos Maciel foi uma espécie de guru para quem se ligava em contracultura e arte alternativa nos anos 70. Sua coluna no jornal O Pasquim, chamada "Underground", falava nesses assuntos numa época em que a imprensa brasileira tinha poucos representantes nessa área de interesses. Recentemente soube-se que Maciel estava vivendo em dificuldades, e sem trabalho -  um grande absurdo, em se tratando de um profissional como ele. Essa postagem traz um entrevista que Maciel concedeu ao jornal universitário Enfoque, em fevereiro de 1997. Na época ele trabalhava na oficina de roteiristas da Globo e dava curso de roteiro para cinema e teatro, no Rio. Na entrevista abaixo Maciel fala sobre cultura, contracultura, cinema, música, etc:
"Enfoque - Você trabalhou com cinema, teatro, escreveu livros, etc. Mas como começou a sua carreira?
Maciel - Eu comecei a fazer teatro amador em Porto Alegre quando tinha 16 anos, ao mesmo tempo em que tinha que fazer vestibular. Eu entrei para Filosofia mas continuei com o teatro, fiz algumas coisas como ator. Mas, ao invés de seguir carreira acadêmica, eu, tomado por um estranho instinto de aventura, fui para a Bahia por insistência de Glauber Rocha, que na época não era conhecido, não tinha feito nenhum filme ainda. Eu tinha conhecido o Glauber quando passei por Salvador após um festival de teatro estudantil em Recife. Ele me convenceu a ir para a  Bahia porque achava que iriam acontecer coisas, que na Bahia ia surgir o novo cinema brasileiro, o novo teatro brasileiro, a nova música. Aí, fui pra lá. Na Bahia, eu ganhei, na escola de teatro, uma bolsa de estudos da Fundação Rockfeller para ir estudar teatro nos EUA. Fui pros EUA, estudei direção, estudei playwriting, técnicas dramatúrgicas que até hoje utilizo em meus cursos. Quando voltei, dei aula na Escola de Teatro da Bahia, já voltei como professor, vim para o Rio, fui professor do Conservatório Dramático Nacional, dei aula na Martins Pena, dei bastante aula de teatro. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia desenvolver uma sobrevivência muito satisfatória no teatro, eu já tinha casado, já era pai de dois filhos, então eu me dediquei também ao jornalismo. Comecei a arranjar emprego em jornal, em revista e, ao mesmo tempo, ia fazendo o que aparecia, minha vida foi assim. Foi assim que eu fiz cinema, televisão, jornalismo, participei do Pasquim, aí foi muita coisa durante muitos anos.
A sua coluna 'Underground' no Pasquim tinha como objetivo divulgar a contracultura. Qual era a importância e como era feita a divulgação da contracultura na época?
Olha, havia no Brasil, quando o Pasquim saiu, uma situação política muito particular. O Pasquim saiu em 1969 e 68 tinha sido aquele ano das manifestações estudantis e tudo o mais, que o Zuenir Ventura escreveu: 'o ano que não terminou'. Aquilo tudo foi reprimido, a ditadura militar estava muito forte, era um momento de repressão. As opções para superar esse estado foram várias. Foram ao extremo com a resistência armada, as guerrilhas, a clandestinidade e todas as coisas terríveis que aconteceram. E eu entrei no Pasquim porque o meu amigo Tarso de Castro, que era um dos fundadores, teve essa ideia com um grupo de amigos de fazer um jornal de humor. Durante a ditadura de Salazar em Portugal a única coisa que era livre era o teatro de revista, que podia criticar o governo, fazer gozação porque não era coisa séria, era brincadeira. Aí, eu fui na disposição de que a coisa a fazer era humor. E, realmente, os primeiros números do Pasquim têm matérias minhas pretenciosamente humorísticas. Mas começou a chegar notícias deste movimento contracultural, dessa revolução no comportamento que acontecia nos EUA e na Europa também, que aparecia como uma alternativa aos ideais políticos que tinham animado a minha geração. Ao invés de você mudar a sociedade que está aí, você passa a viver numa sociedade própria. É a ideia que depois passou a ser conhecida como 'sociedade alternativa'. Já que você não gosta dessa sociedade em que você vive, você inventa uma sociedade no interior dela, onde as pessoas possam viver de outra maneira. Essa ideia me encantou, eu achei que isso era um ovo de Colombo, anunciava uma imaginação criadora em face à realidade. Aí, eu passei a me informar sobre essas coisas. E o  Pasquim soube que eu estava me informando sobre isso e resolvemos fazer duas páginas sobre esse assunto. Foi aí que surgiu o 'Underground'. O Pasquim começou como um jornal de humor mas estava procurando outras formas de um comportamento independente. O Tarso era um editor muito talentoso, tinha um  instinto jornalístico muito acentuado, e aí ele viu que o Pasquim podia não ser só um jornal de humor mas podia ter características próprias, originais, podia ter uma personalidade diferente. Ele me estimulou e eu fiquei surpreendido com a repercussão porque comecei a receber muitas cartas mesmo, de pessoas que diziam que queriam mudar a maneira de viver. E, além dessas confissões pessoais, chegavam cartas dos EUA de brasileiros que estavam lá, de jovens que estudavam lá.  Tinha um menino que estudava em Berkley, na Califórnia, que vivia mandando revistas e livros, porque eram novidade e me mantinham informado. Aí, comecei a veicular essas informações na coluna, eu nem escrevia as duas páginas inteiras. Teve semana em que eu não escrevia nada porque publicava outros textos. Eu editava, na verdade, as duas páginas. Aquele assunto era novidade e não era comentado por mais ninguém, não havia nenhum outro jornal alternativo que falasse daquilo. Foi isso que chamou a atenção do Tarso, era um território virgem a ser explorado. Não que ele, Tarso, se interessasse por aquilo.
 Para ele, era interessante jornalisticamente falando, né?
É. Aí começaram a aparecer pessoas me procurando lá no Pasquim e os outros me gozavam dizendo que só vinha maluco atrás de mim (risos). Diziam que eu ia abrir um hospício (risos). Então eu fiquei, inicialmente, um pouco dono do assunto. Contracultura? Quem sabe disso é o Maciel. Não é que eu soubesse muito é porque ninguém sabia. Foi assim que escolheram esse epíteto de 'guru da contracultura' que me persegue até hoje (risos).
Mas você não gosta de ser chamado assim? 
Não, mas  eu nunca consegui me livrar. Apalavra 'guru' significa professor e eu nunca fui professor de ninguém."

(continua)                                         
                                                                                

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Anos 70 - Ame-os ou Deixe-os - Revista HV (1986) - 2ª parte

"1970 foi o ano em que os Beatles e os Crosby, Stills, Nash and Young produziram seu último álbum de estúdio e se dissolveram. Houve o aparecimento de novas gravadoras independentes (Island, Charisma, Vertigo, Chrysalis), o maravilhoso LP Moon Dance de Van Morrison, a realização do quarto e último álbum Loaded dos inesquecíveis Velvet Underground, e a criação da etiqueta Tuff Gong por Bob Marley.
Precisamente no Brasil, com toda a repreensão e ditadura (Brasil ame-o ou deixe-o!) eram distribuídos, por incrível que pareça, os lamentos mais significativos da Europa e América. Agora em 86, se formos estabelecer paralelos, vivemos numa época de total pasteurização, ninguém pesquisa a informação correta, só existe embuste. Ou melhor, graças ao pioneirismo de poucos (raríssimos) jornalistas e ousados DJs, estão sendo divulgadas bandas que os mandarins das gravadoras, depois de anos, 'descobriram' nos catálogos de suas etiquetas (e lá vem outro pacote de new-resto).
A Barca do Sol
Voltando ao passado, você se recorda dos bailes, domingueiras e mingaus dançantes nos clubes Pinheiros, Círculo Militar, Banespa, onde de três a quatro bandas distribuídas em palcos pelos salões se alternavam e onde os hits água com açúcar nos arrastavam de rostos colados até o fim da noite? Os principais conjuntos eram: Memphis, Porão 99, Dimensão 5, A Tuco e dezenas de outros.
Em rádio tínhamos o trabalho pioneiro do legendário Big Boy na Rádio Mundial com o programa Ritmos de Boate; o desarvorado freak Jacques Kaledoscópio na Antena 1 e Rádio Excelsior. Em TV o programa Som Livre Exportação apresentado por Ivan Lins e o Sábado Som no Canal 5.
Nesse turbilhão de agitações uma enxurrada de tendências e estilos se formou no cenário do pop nacional. O Terço era o máximo. A Barca do Sol e o Som Imaginário eram representantes do progressivo que despontava.
Made in Brazil
O sonho, ideal supremo de toda geração, se resume na dialética montanha-mar, ter uma casa em Mauá ou São Lourenço e  outra em Trancoso ou Litoral Norte de São Paulo. Quem não fez a peregrinação pela costa brasileira indo aos lugares já citados e, também, Canoa Quebrada, Saquarema, carnaval de Olinda e Salvador, praia do Francês, e todos os outros points?
Muitas bandas psicodélicas vieram à tona com os inesquecíveis  Mutantes e a louca comunidade dos Novos Baianos. Edy Star e Serguei, responsáveis pela glitermania, estabeleceram o desbunde com os protopunks Joelho de Porco.
De Pernanmbuco vieram Quinteto Violado, Alceu Valença, Banda de Pau e Corda; do Ceará, nas luzes de Ednardo, fomos invadidos por Belchior e a sigla CBS (cearenses bem sucedidos) - Fagner, Zé Ramalho, Elba Ramalho - formando a Geração Zabumba.
Compacto de Cavalo Ferro - Fagner
Através do sucesso dos Secos & Molhados vieram Achados e Perdidos, Ponto e Vírgula, Tom e Dito e outros mongolismos. De autêntica importância revolucionária, a figura de proa é o grand-father Raul Seixas com seu carro-chefe, Let Me Sing. Nicuri é o diabo. Juntamente com Jorge Mautner, Luiz Melodia, Sérgio Sampaio, Jards Macalé e uma infinidade de ídolos que para citar seria necessária uma matéria mais extensa.
Na mídia escrita tínhamos o revolucionário Bondinho (Rio de Janeiro), que com os jornais politizados (Versus, Opinião, Movimento) esclarecia o que era boicotado pela grande imprensa na área de música e de comportamento. A criatividade andou a vapor. Quem se lembra do Geração Pop, Rock a História e a Glória, Música do Planeta Terra, Rolling Stone e as revistas de quadrinhos O Bicho, Grilo, Gibi? Certo!"

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Anos 70 - Ame-os ou Deixe-os - Revista HV (1986) - 1ª parte

Em 1986, a revista cultural alternativa HV (H de humor, V de Verdade) trazia uma matéria sobre os anos 70, assinada pelo jornalista Arthur Veríssimo. Abaixo, a transcrição:
"Em memória ao verdadeiro e único Caito Camargo (a eminência parda do rock paulista). 'Os gritos de gooolll da corrente pra frente abafavam os gritos de dor dos torturados nas masmorras do sistema.'
Fazermos um gráfico dos fatos e acontecimentos do universo pop entre 1º de janeiro de 70 e 31 de dezembro de 79 é uma tarefa um tanto delicada como nostálgica. Sem nenhuma preocupação de sequência cronológica, ponho mãos à obra.
Aqui no Brasil, com  a vitória no México e a conquista da Copa do Mundo de 70, todas as gerações subsequentes têm bem guardada em sua memória a escalação oficial da seleção. Mas alguém se recorda de James Brown pondo em parafuso o público no Teatro Municipal em 73, Carlos Santana no Palmeiras também em 73, Alice Cooper no Anhembi em 74, Miles Davis em antológico show no mesmo Municipal de São Paulo em 71? Pois é, desses acontecimentos alguém se lembra???????
Dando um voo de rastreamento por sobre a década passada, não nos esqueçamos da ebulição política dos 60, com  a ressaca de maio de 68, a experiência negativista do Vietnã pela juventude americana, a eterna ditadura no Brasil. As pessoas se voltaram para preocupações puramente pessoais, grande parte das elites convenceu-se de que o mais importante era o autoconhecimento psíquico, pesquisas sobre a sabedoria oriental, experiências dos ocidentais com novas (milenares) técnicas de terapia, culinária, meditação, gestalt, ioga, zen-budismo, tai-chi, dança-clássica-jazz-ventre, mestres espirituais, rolfing, acumpuntura, Instituto Esalém, lutas marciais e muita droga.
O objetivo era conhecer a si mesmo, sendo a outra extremidade a famigerada ideia fixa da egotrip. Nesse pequeno esboço percebe-se a importância dos anos 70, durante o qual o rock se expandiu por quase toda música à procura de novos moldes e fusões, do jazz com a música sinfônica, do rock com o psicodelismo, do pop com a tecnologia junto às produções faraônicas - era o momento de rock progressivo.
David Gilmour (Pink Floyd)
Não se esquecendo de que a força (vinha de fora) mais influente desta década se refletindo por inteiro nos 80 são os Velvet Underground, sem sombra de dúvida a banda mais importante da história do rock, junto com Marc Bolan, Bob Dylan, Beatles, Iggy Pop, Doors, David Bowie, Led Zeppelin (banda fundamental e marca dos 70), Stones, Roxy Music, Pink Floyd, Elvis Presley, New York Dolls, coletivamente responsáveis pela revolução que sofreu a música popular, liricamente. Mas isso já é outra história.
Vejamos o Brasil e suas manifestações decorrentes durante este efervescente período. Expressões e gírias re (inventadas) nos 60 se tornaram mantras e cantochões nos 70 e 80; e aí, bicho, super, massa, boko-moko, loki, morô, só, é uma transa mais de cabeça, joia-paca, fissura, jererê, bicho-grilo, jazzco, pedra, podescrer, mui loco, e muitas tantas arquivadas na memória coletiva e utilizadas no dia-a-dia dos delírios e relações humanas. Quem não se recorda do black-market das primeiras camisetas Hang-ten e Lightming Bolt e dos tênis All-star cano-longo, nas peregrinações pelos corredores da mitológica galeria Pajé, onde as autênticas (após minunciosa perícia) Levi's 501 e Cone Japoneza eram disputadas a porradas, os casacos militares e macacões puídos encontráveis nos primeiros 'Lixões' que são equivalentes aos 'brechós' que pipocam atualmente pela cidade? Estas peças e outras do vestuário (medalhões, cinturões, bocas-de-sino, calças e camisas bordadas de cogumelos, símbolos religiosos, veludo berrante, malhas de pelo de lhama, bolsa boliviana e, naturalmente, o nojento gorrinho encebado) eram o denominador comum de identificação entre elementos da mesma tribo.
Eu pessoalmente adorava o meu autêntico mocassim apache e minhas calças bordadas de cogumelos e recheadas de miçangas. O cabelo era ao estilo 'ninho de rato', visualmente um trash-glitter contemporâneo. O local de encontro entre os 'meus' eram os pastos de cogs, em Parelheiros e Marsilac (zona sul de São Paulo) e o circuito onde as bandas (tupiniquins) se apresentavam: teatros, Igreja São Pedro, Bandeirantes, Tenda do Calvário, Banana Progressiva (GV), não podendo me esquecer também daquelas grandes noitadas na extinta Be Bop a Lula, onde a fauna mais variada coexistia com a cult band Made in Brazyl em noites do balacobaco e, também, as tardes de domingo, em concertos variados na lagoa do Morumbi... you remember?
Retornando à música, as gravadoras habilmente, com seus espertos executivos, cooptaram a energia e rebeldia (como sempre) da contracultura, adocicando e desenvolvendo-as como inofensivos e lucrativos  produtos de consumo. Muitos destes discos, que não precisavam mais ficar restritos e confinados a audições nas garagens em precárias vitrolas, foram aceitos e executados na própria sala de visita da família."

(continua)

domingo, 26 de julho de 2015

Frank Zappa: "Eu Sou um Benevolente Ditador" - Revista Música (1976)

Em 1976 a revista Música trazia uma matéria com Frank Zappa, um dos mais polêmicos e criativos músicos que o rock já produziu. Abaixo, a matéria:
"Frank Zappa e sua série de grupos de rock de avant-garde, The Mothers of Invention, não existem mais. Mas Zappa está mais vivo do que nunca, continuando a romper estruturas, atraindo milhares de pessoas aos palcos do rock - Felt Forum do Madison Square Garden e Palladium, em Nova York. Enquanto isso, avança nas paradas pop de sucesso com seu novo álbum pela WEA, Zoot Allures. E dividindo com Zappa esse renascimento de sua popularidade, seu novo grupo, chamado, simplesmente, Zappa.
Muitos fãs do Mothers, aborrecidos com o fim do grupo acusam Zappa de vendido, por tirar proveito de um som abertamente comercial. Zappa nega essa rotulação. 'Parece que ninguém pensa que os Mothers estavam com uma dívida de $10.000 quando se desfez', afirma durante uma entrevista em sua suíte no Mayfair House, em Manhattan. 'O que eu quero dizer é que eu continuava pagando aqueles salários não me importando com o que acontecesse e eu não podia continuar a pagá-los e fazer o tipo de música que eu queria.'
Esse tipo de música, a música do Zappa, é sério, música de influência classificadamente atonal, dissimulada em um rock repleto de ruídos das ruas e de dissonantes capazes de estourar os ouvidos. É o tipo de música que faz de Frank Zappa um compositor, produtor de filmes, vocalista, guitarrista líder e um músico inovador, com uma incrível aptidão para construir palavras e imagens visuais/musicais, atingindo a psyché dos adolescentes.
Nascido em Baltimore, Maryland, aos 21 de dezembro de 1940, criado na  Califórnia, auto-didata musical e prestes a tornar-se um milionário às suas próprias custas, Zappa fez várias trilhas sonoras para cinema, mais de 20 elepês, e também adaptações para o rock, indo desde a Sinfonia nº 40 de Mozart a The Planets, de Holst, e numerosos trabalhos do classicista moderno Edgard Varese. E também marca presença no mercado pop com hits de protesto, como Help I'm a Rock (Socorro, sou um rock) e The Return of the Son of Monster Magnet (A volta do filho do Monstro Magneto).
Mas Zappa, tendo resistido à ruptura de um casamento como à do Mothers of Invention, está mais sombrio, mais vivido e experiente do que quando começou em Los Angeles, há 12 anos. Mais tarde, seu sucesso Don't Eat the Yellow Snow (Não coma a neve amarela) torna-o popular.
Seu novo grupo está de malas prontas para uma turnê pelo mundo todo e já comprova sua popularidade através do comparecimento maciço às suas apresentações nos Eua.
Ele inspira confiança quando fala do novo Zappa, ele próprio e o grupo. 'Simplifiquei minha música em alguns pontos e a compliquei em outros. Mas nunca por motivos comerciais.' Insistindo, afirma que a música tem de ser simplificada devido ao tamanho dos locais onde está sendo apresentada. Ao mesmo tempo, o nível de seus músicos melhora cada vez mais, sendo que, dessa forma, eles podem trabalhar com arranjos mais elaborados. 'Mesmo tocando algumas músicas do repertório do antigo Mothers, qualquer semelhança entre meu novo grupo e o original Mothers é puramente conceitual. O novo Zappa pode fazer muito mais coisas que o antigo simplesmente não podia. Então, o destaque em nossas atuais apresentações deve ser dado mais ao futuro do que ao passado. Logo, com o devido respeito aos seus integrantes de agora - 50 ou 60 ao todo - penso que chegou a hora de colocá-los na sua perspectiva histórica, e dar mais atenção aos eventos apresentados a cada ano pelos grupos sucessivos.'
Suas performances ainda oscilam entre o surrealismo e a palhaçada, mas há uma emergente maturidade em Zappa, um músico sério que acha engraçado que seu maior sucesso popular, 'Don't Eat the Yellow Snow', aconteça apenas porque um disc-jóquei estava à procura de uma novidade.
'Amo o que faço e detesto o que eu tenho de fazer pelo simples motivo de ter de fazer alguma coisa.'
O que Zappa ama é fazer música que combine luzes e filmes, teatro e humor com uma mensagem mordaz. E o que detesta é tudo o que possa estar ligado ao mecanismo de levar sua música a uma audiência monumental, o que inclui as transações com fábricas de discos e entrevistas.
Isso porque ele não quer atender o gosto do público e não espera que seus músicos fiquem no seu grupo por muito tempo. 'Eles não entram a não ser que eu sinta algum desejo da parte deles em ajudar-me nas numerosas explorações musicais que faço, mas, mesmo assim, o nível de habilidade requerido para esse tipo de trabalho é tal, que a maioria dos músicos participantes do grupo estaria totalmente qualificada para um trabalho individual em qualquer parte e teriam muito sucesso. Eu sempre percebo, no momento em que um deles se junta a mim, que certo dia ele partirá e continuará fazendo outras coisas. Como um líder, há rumores que eu sou uma espécie de tirano. Tudo mentira. Eu sou um benevolente ditador, da mesma forma que um maestro é qualificado pra reger uma orquestra.
'O que venho fazendo pode ser rotulado de funk biônico. Há também um sem-número de seleções de excessiva beleza, de uma sensibilidade intoxicadora, de uma misteriosa divisão em zonas espaciais. E, ainda, há as palavras.
O senso de humor de Zappa sobrevém, entremeado por sua queda pelo absurdo e seu respeito pela música que faz. 'Eu gosto de minha música. Da mais simples à mais estranha. E sei que existem pessoas por aí que compartilham de minha esperança por tempos melhores. E pretendo continuar a dar-lhes a melhor música que eu sei que posso oferecer.' "

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Produtor Inglês que Ajudou Caetano e Gil no Exílio - 2ª Parte

"Graças à insistência de Mace, Caetano pela primeira vez tocou violão num disco:
- Era improvável que achássemos outro violonista que iria captar o estilo certo. E funcionou muito bem, tanto que desde então ele tem tocado violão em seus shows e gravações. Mas as sessões tiveram problemas. O primeiro disco foi uma mistura de um pouco de tudo. Duas das músicas fizeram muito sucesso no Brasil: 'Maria Bethânia', em que ele expressa a saudade de sua irmã, e 'London, London', que mostra os encantos que encontrou em muitos aspectos de sua nova cidade. As letras em inglês são meio estranhas em alguns pontos, mas expressam como ele se sentia.
Mace também trabalhou no segundo disco londrino de Caetano, 'Transa':
-É bastante profundo, e nos diz muito sobre o artista. Para mim, o ápice é 'Triste Bahia', um poema em tom épico de expressões musicais.
O trabalho com Gil teria apresentado mais problemas. Influenciado por Jimi Hendrix, ele queria comprar uma guitarra elétrica, mas o produtor fez questão de contar com o 'violonista de talento único'.
Mace também não via entre os músicos de estúdio de Londres gente que 'chegasse aos pés da virtuosidade exótica musical e técnica de Gil'.
- Precisávamos de músicos que pudessem improvisar e acompanhar a criatividade própria de Gil. Reservamos um estúdio, e, quando ele apareceu, havia um único banquinho e um microfone no centro da sala. Gil  ficou surpreso, mas eu lhe falei que em cada faixa, faríamos um take com ele cantando e tocando violão, depois poderia gravar um segundo violão por cima e assim continuaríamos acrescentando violões, vozes e muitos dos belos efeitos vocais de percussão que ele fazia. Gil respondeu bem, com desempenhos excelentes. No fim, usamos dois músicos para as gravações finais, o guitarrista Mick Ronson (cujo nome não consta nos créditos do disco) e um bom baixista, Chris Bonnet.
Recentemente, Mace leu a autobiografia de Caetano, na tradução para o inglês - É muito interessante e bem caetanesca!' - mas, após a volta dos baianos ao Brasil, teve poucos encontros com eles.
- Em 2000, vi Caetano no Vancouver Jazz Festival. Anos depois, estava em Londres, e ele tinha um show no Royal Festival Hall. Durante a apresentação, Caetano anunciou à plateia que, quando ele Gil estiveram em Londres, encontraram apenas uma pessoa que tentou ajudá-lo Seu nome era Ralph Mace, e estava na plateia naquela noite, a quem queria dedicar o show. Foi talvez o maior elogio que já recebi - conta Mace, que finaliza lembrando a letra de uma velha canção inglesa: 'Gostaria de ir ao Rio um dia, antes de envelhecer!'. "

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Produtor Inglês que Ajudou Caetano e Gil no Exílio - 1ª Parte

Ao se verem obrigados a se exilarem do Brasil em 1969, e escolherem Londres com destino, Gilberto Gil e Caetano Veloso à princípio encontraram dificuldades para lá seguirem sua carreira, e sobreviverem de seu trabalho musical. Em Londres foi fundamental a ajuda de um produtor musical que lhes arranjou trabalho, e produziu seus discos londrinos. Seu nome é Ralph Mace, que foi lembrado em uma matéria em O Globo, de 04/10/09. A matéria, que é assinada por Emílio Pacheco e Marcelo Fróes, tem por título "Lembranças do produtor que deu a mão a Caetano e Gil":
"Em seu livro 'Verdade Tropical', Caetano Veloso lembra com carinho Ralph Mace, o produtor inglês responsável por seus discos, e pelo de Gilberto Gil no exílio londrino, entre 1969 e 1971. Atualmente vivendo em Vancouver, no Canadá, Mace, de78 anos, afastou-se da produção, mas presta eventuais consultorias e pratica piano todos os dias.
- Tocar Bach é uma ótima forma de meditação e, como Bob Marley falou uma vez sobre música, quando ela bate, não machuca - diz ele, que também se dedica a uma biografia do pugilista inglês Jam Mace, o primeiro peso-pesado campeão do mundo.
Bach e boxe, no entanto, ficaram de fora dessa entrevista, na qual Ralph Mace dá a sua versão sobre o período londrino da dupla tropicalista. Entre as curiosidades, a quase parceria de Caetano com David Bowie e a participação do guitarrista deste, Mick Ronson, no disco de Gil.
- Ainda que cheias de pensamentos e imagens fascinantes, as letras em inglês de Caetano não eram fáceis para o mercado britânico. Sugeri que Bowie trabalhasse nas letras, mas ele não se animou. Como Caetano também não gostou da ideia, ela foi descartada - conta Mace, que pouco antes de produzir Caetano, tocou, quase por acaso, num disco de Bowie. 
- Fui ao Trident Studio, onde ele gravava 'The Man Sold The World'. Tony Visconti tinha composto algumas partes para sintetizador Moog. Eles tentavam, mas ninguém da banda de David tinha dedos de tecladista, e todos os takes estavam sendo rejeitados. Eu tocava bem piano, então sugeri que, se quisessem chegar em casa antes do café da manhã, deveriam deixar que eu tocasse. Foi assim que me tornei um Spider From Mars e um verbete na biografia de Bowie.
Ralph Mace
No entanto, o que mais entusiasma o veterano produtor, quatro décadas depois, é o período com os baianos.
- Conheci Caetano e Gil no fim  de 1969, pouco depois de entrar para a divisão pop da Philips no Brasil. Mas a música brasileira não se encaixava nas ideias de sucesso dos ingleses, e fiquei com a responsabilidade de ajeitar as coisas para Caetano e Gil.
Mace lembra que Guilherme Araújo alugou uma casa para eles em Chelsea, que logo virou a base para muitos jovens amigos do Brasil.
- Visitei Caetano e Gil, e eles concordaram em tocar algumas de suas novas músicas para mim. Seus talentos foram imediatamente visíveis, mas eles estavam a meio mundo de distância das canções pop da Swinging London. Caetano detestou o frio de Londres, e foi difícil para ele se aproximar das pessoas. Mas se esforçou para aprender o idioma e logo começou a compor em inglês, que tinham um toque de e.e. cummings. E ainda que Caetano fose ávido fã dos Beatles, a música que então mais o influenciou foi o reggae.
Cartaz de um show de Caetano em Londres
Segundo o produtor, Gil era de natureza bem mais sociável e logo se entrosou com músicos britânicos.
- As influências africanas e jazzísticas de sua música eram mais facilmente apreciadas pelos músicos ingleses mais sofisticados. Gil era um músico a ser admirado por seus pares, mas seu talento era sofisticado demais para conquistar o público comum inglês.
Com as portas da Philips inglesa fechadas, Mace levou os dois para o selo Famous Music, após convencer deu diretor executivo, Lesle Gould.
- Começamos com Caetano. As sugestões de repertório na maior parte, ficaram a cargo dele. Combinamos uma lista de velhas canções em português e parte do material que ele fez em Londres, em português, inglês e uma mistura dos dois idiomas."

(continua)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O Som Elétrico de Miles Davis - Revista Música do Planeta Terra (1975) - 3ª Parte

" Há ainda 'Honk Tonk', uma faixa da época de 'Live- Evil', que dá oportunidade de ser criado um paralelo com  a atual banda de Miles, a evolução dos grupos possui uma inter-relação infinita, é uma cadeia orgânica. Nos teclados de Keith Jarret estão traçadas as rotas para o som de Miles, e na guitarra de John McLaughlin estão previstas as atuais experiências de Pete Cosey e Reggie Lucas. A ideia original, Calypso, engendrou Calypso Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), que simplesmente é uma peça para ser digerida e assimilada nos próximos dez anos. Miles já havia revolucionado a harmonia, a tonalidade e a melodia, agora revolucionou o ritmo e todo seu conceito, dando em uma só peça toda história da percussão, numa miniatura, numa peça intrincada. Seu som é afro, o tribal cibernético, o caldeirão do diabo com ritmos em fogo, os metais em brasa, o grito dos blues espaciais sustentados pelo drive das percussões; é a direção além que ele nos aponta agora. 
O produtor de seus discos nos últimos vinte anos, Teo Macero, é formado em composição na Juliard School e atua no campo da música de vanguarda, já tendo trabalhado com John Cage e Donald Lybbert. O conceito dos discos de Miles é novas direções em música, e para eles dois produzirem esse trabalho, essa proposição Teo diz que tinha mesmo que de ser compositor e possuir um alto nível de conhecimento musical, pois assim ele pode sentir quando uma coisa é realmente nova em termos de música. Quando há realmente no trabalho de Miles uma nova direção, é aí que entra seu encorajamento. São novas mudanças, rumos, algo que nunca tenha ocorrido em música antes.
Este é o trabalho que Teo e Miles se propõem desde a primeira vez que resolveram imprimir na capa dos discos a máxima de seu trabalho, 'New Directions in Music'. Miles virou o jazz de cabeça pra baixo no mínimo quatro vezes; o Bop com Parker, o Cool Jazz, o Jazz modal iniciado no sexteto que incluía Coltrane e depois da virada total do século a abertura das fronteiras do jazz, para todas as linguagens musicais.
A colaboração de Miles e Teo é considerada pelo último como um casamento. Miles exige um trabalho total, desde a escolha dos músicos ao artista que fará a capa, pois para ele, cada capa é uma roupa mágica para um vinil atomatizado. Bitches Brew, Live-Evil e a trilogia de cartuns do On the Corner, In Concert e Bing Fun, todos possuem um significado próprio que Miles escolheu para guardar a sua linguagem, o seu disco, para ele um objeto total.
'Miles é a única super-estrela do jazz', disse Chico Hamilton. Mas ele não quer ser uma estrela. Ele quer o reconhecimento de seu povo, os negros, o criouleu da América. 'Eu gosto quando a rapaziada negra fala: Oh! homem, aquele é Miles Davis, como eles falaram de Joe Louis. Em Greensboro alguns gatos me falaram: 'homem, nós estamos agradecidos de você ter  pintado por aqui'. Isso foi uma das maiores emoções que tive'. Miles Davis é um homem que corre, ele não mede esforços para conseguir o amor do povo negro. Dinheiro, para ele não é o importante, ele quer a admiração de sua raça. Mas não é ligado à movimentos radicais. Miles é Miles, Selim Sivad. Uma figura especial, um cara admirado por gente finíssima.
 Para John McLaughlin, 'mais que um grande trompetista, Miles é um grande artista, minha dívida para com ele não cabe mencionar. Se não fosse ele eu poderia estar compondo e tocando por caminhos totalmente diferentes'. Chick Corea falou que Miles 'é um dos artistas que captam a consciência de sua época e através de sua estética alteram os valores de seus contemporâneos; a minha maior experiência foi ter tocado com ele, eu o amo totalmente'.
Miles também é pugilista, já foi heroínômano, tem paixão pela bateria e além do trumpete, ultimamente se aprofundou no órgão e piano elétrico. E ao ser perguntado sobre suas preferências musicais, certa vez,  ele respondeu que só ouvia Stockehausen; mas logo depois confessava que era fã número 1 de Al Green e Roberta Flack.
Suas declarações chocaram e revoltaram a vanguarda do free-jazz, quando ele malhou, numa entrevista publicada na Down Beat, Eric Dolphy e Cecil Taylor, dizendo que eles eram chatos e sem balanço. Já o pessoal da Mainstream não aguentou quando ele disse que Freddie Hubbard (que é considerado o maior trumpetista de Louis Armstrong) é um músico sem imaginação e talento.
Fala-se em carisma religioso. Os músicos tocam com Miles e depois explodem em todas as direções, como num conservatório mágico de onde todos saem mestres. Miles quando é perguntado sobre isso, sobre essa influência que exerce nos músicos que com ele tocam, apenas ri.
Miles até hoje está ligado ao trabalho dos músicos que tocam com ele. Toda vez que algum deles vai gravar um disco pede a opinião de M.D., ele próprio dá preferência aos discos de seus músicos, segundo ele, por uma questão de incentivo, para mostrar que eles fazem o melhor realmente.
Mas é sem dúvida uma das maiores figuras desse século. Revolucionário. Uma pessoa rara, como Ornete Colemam, John Coltrane ou Jimi Hendrix. Músicos que modificam, elevam a música para a frente, sem perder o calor, o sentimento, o balanço, essas coisas definitivamente negras, coisas que o branco passou a dar maior atenção a partir da década de 60, e que devemos assumir, Dionísios que gera toda a nossa musicalidade divinal, este Eros negro que habita cada um de nós.
E que homens como Miles Davis, com sua música, fazem despertar e ir dançar pelas ruas do mundo inteiro.
Eletrocutados, agradecidos.

Discografia da fase elétrica de Miles, das primeiras manifestações à suas últimas consequências:

1) Miles in the sky - (9/69)
2) Filles de Killimanjaro  - (3/69)
3) In a silent way - (10/69)
4) Bitches Brew - (6/69)
5) At Fillmore - (1/71)
6) Tribute to Jack Johnson - (72)
7) Live Evil - (1-72)
8) On the corner - (73)
9) In Concert - (73)
10) Big fun - (74)
11) Get up with it - (75) "