Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um Guia para o Clube da Esquina - Jonal do Disco (1980) - 1ª Parte

Em fevereiro de 1980 o Jornal do Disco, que vinha encartado na revista SomTrês, trazia uma matéria sobre os discos lançados até então pelos artistas mineiros que formavam o movimento que ficou conhecido como Clube da Esquina. A resenha, assinada pela jornalista Ana Maria Bahiana, comentava discos do Som Imaginário, Beto Guedes, Tavinho Moura, Wagner Tiso e Toninho Horta. Ela preferiu deixar de fora os discos do grande mentor do movimento, Milton Nascimento, que é um caso à parte. Antes do resumo dos álbuns, a matéria traz um texto introdutório:
"No princípio não havia nem Milton - havia Minas, só, esse celeiro misterioso de minério e músicos, todos ali enrustidos nas montanhas como gemas raras, temendo e querendo o tal eixo Sul, devorador e ditador de de modas. O primeiro a pegar o trem, contam, foi Wagner Tiso, esse sagitariano errante. Veio a reboque de outro mineiro ilustre, mas já perdido na memória, Pacífico Mascarenhas ('era o Milton daquela época'). E ficou no Rio. Escreveu ao amigo Milton, ainda embrenhado nos bares de Belo Horizonte: 'Pode vir'. Milton respondeu: 'Volte, rapaz. Teu lugar é aqui'.
Mas aí foi a 'Travessia', e o trem desatou nos trilhos. Os músicos, os compositores, os poetas -  e é importantíssimo lembrar a atuação dessa fala mineira no linguajar musical brasileiro, Fernando Brant e Márcio Borges primeiro, Murilo Antunes muito depois - vieram em ondas sucessivas e seguras, incrustando-se nas dobras da ampla voz de Milton. Em 72, um nome foi cristalizado: Clube da Esquina. Eram eles.
Aqui, um guia do que eles - fora Milton, é claro - fizeram, nestes dez anos de pacífica e amorável invasão mineira de nossas praias e planaltos. Estão catalogados aqui, em ordem cronológica - a contribuição deste elenco de tímidas estrelas às obras de sua voz maior, e aos esforços uns dos outros, não caberia sequer neste jornal."
Abaixo, a resenha dos álbuns:
"Som Imaginário/ Som Imaginário (EMI/Odeon, 1970) - Foi a primeira grande audácia, o primeiro passo de autonomia. Wagner tinha juntado alguns amigos de antigas batalhas pela noite do Rio - Luiz Alves, baixo; Robertinho, bateria - e estes tinham trazido mais alguns - Zé Rodrix, órgão; Frederiko, o Fredera, guitarra; Tavito, guitarra base; Naná, percussão - para acompanhar  Milton no famoso show 'de peito nu', no Opinião do Rio. Foi o começo da virada heavy, o 'Para Lennon e McCartney' e o grupo, improvisadamente batizado Som Imaginário, foi fundamental - Wagner com a cabeça feita de Beatles, Fredera alucinado nas ondas de Jethro Tull e Hendrix, Zé Rodrix treinando o bom gosto pop. Findo o show, o grupo tomou corpo próprio e ousou o primeiro LP, puxado por um sucesso do FIC de 69, 'Feira Moderna' (de Beto Guedes e Fernando Brant). É uma das melhores faixas deste primeiro Som Imaginário, onde Rodrix dá o tom, e onde está a deliciosa 'Sábado' e a hilariante 'Nepal' ('Tudo é um barato/ no Nepal tudo é muito barato'), ambas de Fredera, mini hits do primeiro verão desbundado do Rio.
Som Imaginário/Som Imaginário (EMI/Odeon, 1971) - Na segunda encarnação do Som - Wagner, Luiz, Robertinho, Tavito, Frederyko - é Fredera quem predomina, com sua guitarra agudíssima, lancinante e psicótica. Álbum de delírios ingênuos e hilariantes - 'Salvação pela Macrobiótica' (de Fredera), 'Gogó/ O alívio Rococó' (Wagner e Fredera), 'Cenouras' (Fredera) - retrato exato daquele momento impreciso, onde a salvação era o salto fora, macrobiótica, guerrilha ou estrada. Uma faixa anuncia o Wagner que haveria de vir: 'A Nova Estrela' (uma parceria com Fredera), ambiciosa e intrincada - pobre se ouvida hoje, gravada em quatro canais - mas repleta de bons presságios.
 Lô Borges/Lô Borges (EMI- Odeon, 1972) - O maldito 'disco do tênis). Contam que vendeu uma ninharia de cópias, mas era assim que as coisas aconteciam em 1972 - quem gostava não tinha grana ou não estava nem aí. Salomão Borges, o Lô, era vizinho de Milton no famoso edifício Levy, de Belzonte, irmão do poeta Márcio, já parceiro de Bituca. Um rasgo de sorte e profunda amizade colocou precocemente Lô no circuito das estrelas - recém-saído do ginásio, capitaneando um grupinho semi-amador, o Fio da Navalha, ele se via co-autor de um disco, Clube da Esquina, ao lado de, se não um astro, pelo menos um nome respeitado - Milton. E, para culminar, vinha, aquela cara zangada e arredia com que Lô enfrenta o público e o trânsito do Rio na contracapa, o sumiço de sete anos que se seguiu e o clima punk avant-la-lettre do álbum, todo cambaio, com Toninho Horta tocando uma guitarra insuportável. Bonito? Estranho. Lô e Beto Guedes são irmãos de sangue, e se a voz de Beto oscila como a de um anjo, a de Lô sugere um diabo em férias, mais escura que luminosa. Há uma canção inesquecível - 'Canção Postal', com Ronaldo Bastos - e polaroides do delírio, exatas: 'Faça Seu Jogo' ('jogue sua vida na estrada/ como quem não quer nada') e 'Não se Apague Esta Noite' ('eu preciso dormir em paz/ como o touro e a rosa'), ambas com Márcio Borges."
(continua)


domingo, 14 de junho de 2015

Nelson Sargento, o Intelectual do Samba - O Pasquim (1978)

Em setembro de 1978, o jornal semanal O Pasquim trazia uma matéria falando em Nelson Sargento e na Mangueira, sua escola. A matéria, escrita por Marília T. Barboza, se intitulava "Nelson Sargento, o Intelectual do Samba", e trazia a ilustração acima, feita por Chico Caruso, aliás, a estreia de Chico como colaborador d'O Pasquim:
"O ano de 1948 não estava fácil para o pessoal de escola de samba. Imaginem só! Se hoje em dia o 'tri' da Beija-flor já incomoda tanta gente, naquele ano os sambistas estavam matando cachorro a grito - a Portela há sete anos seguidos jantava o título de campeã. Repito: sete anos. Não dava pra mais ninguém.
Em todos os morros da cidade a palavra de ordem era - acabar com a Portela! Assim já era demais!
Há trinta anos atrás julgamento de escola era um troço muito menos complicado. Havia só cinco quesitos: enredo, harmonia, bateria, samba e bandeira. Os jurados, apenas três, normalmente dois jornalistas e um milico. Por dedução, se os quesitos eram poucos, cada um valia mais.
A velha Mangueira, onde pontificava Cartola, tratou logo de reforçar suas trincheiras, colocando gente para dividir com o 'divino mestre' a responsabilidade de fazer seu samba.
Foi aí que apareceu aquele crioulo, magrinho, de vinte e poucos anos, músico das letras de seu padrasto lusitano, enfaticamente chamado de Alfredo Português, que, àquela altura, já era parceiro de outro Nelson muito falado, o do Cavaquinho. Cavaquinho morou três anos na casa de Sargento. Já viram que estágio?
A dupla Nelson Sargento - Alfredo Português disputou com a dupla Cartola-Carlos Cachaça o samba para o enredo daquele ano, 'O Vale do São Francisco'.
Além disso, a Mangueira inaugurou seu sistema de som (foi a primeira escola a sair com 'som' na avenida, antes o negócio era mesmo no gogó) e Cartola jamais se esqueceu do impacto de ouvir a própria voz pelas ruas da cidade.
Sargento em 2012
Apesar de todos os esforços da Mangueira, quem acabou com a pose da Portela foi a Império Serrano, que aparecia pela primeira vez com pinta de Beija-Flor, disposta a deixar suas irmãs mais velhas sorrindo amarelo - foi a campeã de 1948, interrompendo a série dos '7 anos de glória' portelense.
Houve briga, desmaios, tiros e até dois desfiles nos três dias seguintes, um oficial, na Avenida Rio Branco, onde sempre ganhava a Império, e outro, extra-oficial, na Praça Onze, o do povão, onde os troféus se dividiam entre a Estação Primeira e a Portela.
Mas em 49 e 50, a campeã do carnaval carioca foi mesmo a Mangueira, as duas vezes cantando sambas do soldado Nelson Sargento.
Em 1951 a Portela voltou a vencer, mas o samba vitorioso dentro da Mangueira era também do Nelson.
Logo, vocês já viram que o nosso amigo faz samba pra ninguém botar defeito.
Quando secretário da ala de compositores da Mangueira, Sargento para lá levou Hélio Cabral, Darci,, Cícero, Pelado, Comprido, todos nomes de grande peso para nossa cultura popular.
Seu carro-chefe é o samba 'Cântico à Natureza' também chamado de 'As Quatro Estações do Ano' ou simplesmente, 'Primavera', samba-enredo da Estação Primeira em 1955.
Fora do cenário das escolas de samba, sua grande oportunidade surgiu  em 1964/65, quando foi convidado por Hermínio Bello de Carvalho para integrar o nunca suficientemente louvado musical 'Rosa de Ouro', que revelou Clementina de Jesus, redescobriu Aracy Cortes e iniciou a carreira dos 'Cinco Crioulos', cuja formação era, modéstia à parte: Paulinho da Viola, Anescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Zé Keti e Nelson Sargento.
Paulinho, Anescar, Elton e Zé Keti, juntamente com Zé Cruz e Oscar Bigode (ritmo) e Jair (cavaquinho, da Portela), haviam integrado, antes, o conjunto 'A Voz do Morro', cujo LP, 'A Voz do Morro nº II', 'contém duas belezas de Nelson Sargento, que na verdade jamais foi sargento,  mas ganhou o apelido no tempo em que servia no 1º BCC, na Derby Club, além de compositor e cantor, toca um bom violão, é um excelente papo, cozinha bem (talento herdado do pai, seu Olimpio, cozinheiro de profissão!), é pintor de quadros e de paredes. Assim sobrevive. É um cara lúcido, inteligente, fino. Não fosse crioulo e pobre, poderia ser chamado de intelectual, com todas as marcas do título, inclusive a dificuldade de encontrar mercado de trabalho.
Tem músicas maravilhosas, novíssimas, que vimos há poucos meses num show que fez em Niterói com 'Os Carioquinhas' e que, ao tentar trazer para o Rio não encontrou teatro nem patrocinador. Nós é que perdemos!
Com humor e arte, faz 'blague' das próprias dificuldades.
Nelson sabe o que andam fazendo com o samba. Mas não 'chia'. Lamenta em música.
Sua última composição, a sair no próximo disco de Beth Carvalho, mostra-nos a lucidez do autor, atualmente afastado da Mangueira, que vê assim o samba, hoje:
'Samba, agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro.
Samba, negro forte, destemido,
Foi duramente perseguido
Na esquina, no botequim, no terreiro.
Samba, inocente, pé no chão,
A fidalguia do salão
Te abraçou, te envolveu,
Mudaram toda tua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você nem percebeu' "

sábado, 13 de junho de 2015

Falando de Rock, Jazz e Drogas - Revista Ele Ela (3ª Parte)

'Janis enchia esse vazio com a bebida. Seus admiradores, como nas oferendas que os povos primitivos faziam aos seus deuses zangados, depositavam sobre o palco onde ela se apresentava dezenas de garrafas - e ela nunca consumia menos de um litro por apresentação. Costumava cantar equilibrando entre os seios uma garrafinha do seu bourbon preferido, Southern Comfort. No Brasil, Janis nunca bebeu menos de duas garrafas por dia, uma de  Creme de Ovos, outra de Fogo Paulista, tudo pelo gargalo. Ela mesma explicava essa fúria de autodestruição: 'Bicho, prefiro viver dez anos no maior barato do que setenta sentadinha na cadeira da vovó. Prefiro me gastar toda em um ano, dois, enquanto durar. Que me importa o futuro? Os jovens que vêm me ouvir querem que eu me entregue toda a eles, de uma só vez, não de gota em gota. Muita gente se choca com o meu estilo emotivo, mas há milhares de jovens felizes de ver uma mulher que não tem medo de ser mulher em público, feminina, de deixar cair os véus, de se oferecer. Eu canto com minha voz, com o corpo, com o sexo. Eu canto toda.' Janis Joplin morreu sozinha num motel de Los Angeles, de uma dose excessiva de heroína. Poucos dias antes, o guitarrista e cantor Jimi Hendrix morria num hotel de Londres sufocado no seu próprio vômito após tomar nove pílulas barbitúricas. Hendrix, que confessara tomar 'de tudo um pouco, maconha, haxixe, LSD, cocaína - menos heroína', descrevera na música Purple Haze o misto de 'céu e inferno' que é a experiência do LSD: 'Névoa púrpura no meu cérebro/ ultimamente as coisas não parecem mais as mesmas/ Eu ando meio esquisito, mas não sei porque/ Dá licença, me deixa beijar o céu?/ Névoa púrpura por toda parte/ Não sei se estou subindo ou descendo/ Se estou feliz ou na miséria// Seja o que for, aquela garota (a droga) me enfeitiçou/ Preciso de ajuda/ Me socorra, baby, me socorra, baby.'
Hendrix
Além de instrumento para escapar a uma realidade hostil, a drogas serviam para Jimi Hendrix também como um meio de percepção. Como muitos outros gênios criadores que se consumiram nas chamas do seu próprio talento, ele jogava sua última cartada na música: 'A música é como as ondas do oceano. Ninguém pode apanhar com a mão uma onda perfeita e levar para casa. A música está em movimento o tempo todo. É a maior força eletrificando toda a Terra. Música e movimento são parte da raça humana.'
Hendrix faz eco às palavras de outro desesperado da canção, Ray Charles: 'Soul é o modo de entrar numa canção e fazer a canção entrar na gente. Fazer dela uma parte de nós mesmos, mas uma parte real, concreta, quase tangível. É uma força, uma força elétrica ou coisa parecida.'
Essa mesma maldição metafísica perseguia o lendário cornetista Bix Beiderbecke, artista alcoólatra típico da Era do Jazz cantada por Scott Fitzgerald. Bix morreu em 1931 aos 28 anos e, segundo seu colega de orquestra Jimmy McPartland, 'uma das razões por que bebia tanto é que era um perfeccionista. Queria fazer mais com a música do que qualquer homem seria capaz, e por isso sofria uma frustração imensa.'
Essa forma de frustração já foi catalogada por um psicólogo, o inglês  Murray Kornfeld, como complexo de Orfeu.
O mais famoso músico da mitologia grega, Orfeu ganhou uma lira de presente de Apolo e aprendeu a tocar com as musas. Tirava do seu instrumento sons tão geniais que os animais selvagens caíam sob encanto e as pedras e as árvores mudavam de lugar, acompanhando a sua música. Segundo o Dr. Kornfeld, os que sofrem do complexo de Orfeu acreditam que a música é tudo, que ela possui o poder mágico da comunicação total e é capaz de mudar o mundo, (re) conduzindo o homem a uma condição paradisíaca.
Já o Dr. Arthur Janov, da Califórnia, psicanalista do beatle John Lennon, vê o problema sob um ângulo  diferente: 'Não me consolo com a racionalização de que vivemos numa era de neurose (ou ansiedade) e por isso é de se esperar que todo mundo seja neurótico.' O Dr. Janov pratica a Terapia Primordial, que, como a terapia básica freudiana, procura levar o paciente a revivenciar experiências profundas (primordiais), ou seja, a revivenciar aqueles momentos em que ele considerou a realidade dolorosa demais e, em vez de enfrentá-la refugiou-se no limbo da neurose. A essa condição neurótica o Dr. Janov contrapõe 'um estado de vida bem diferente daquilo que concebemos: uma vida sem tensões, sem defesas, em que cada um de nós atinge a personalidade total e experimenta sensações profundas e unidade interna.' No curso da sua terapia, uma das indicações mais dramáticas de que o Cenário Primordial foi atingido é simbolizada pelo que - inspirado na reação de um paciente - o Dr. Janov chamou o Grito Primordial, lançado quando, antes de começar a cura, o paciente chegou ao fundo do poço. Segundo essa teoria, a geração de Woodstock já vislumbrou, ainda que de relance, essa condição paradisíaca, a Utopia Primordial descrita pelo Dr. Janov. Milhares mesmo, ainda que sob circunstâncias artificiais e de pequena duração, já viveram fisicamente 'dias de paz e amor' nos festivais e nas comunas hippies. Mas na vida prática, na rotina de sobrevivência, são muitos os que se impacientam diante das imensas barreiras econômicas e sociais que os ainda separam da Terra Prometida. Jimi Hendrix foi um desses rebeldes impacientes. Ele quis resgatar 'todas essas pessoas que vivem em colmeias de cimento, sem nenhuma cor, escravizando-se pelo último dólar, apostando e fazendo jogos de guerra'. Na sua concepção do mundo entorpecido, narcotizado, é o homem unidimensional da sociedade repressiva (plastic-man na gíria do rock), e é preciso abrir as portas da percepção, ainda que seja preciso arrombá-las. É preciso libertar os canais sensoriais embotados da raça humana e Hendrix tentou penetrá-los furiosamente com o seu som lírico, frenético, obsessivo. Esse som desesperado e envolvente do rock - não confundir com as trombetas do Apocalipse - se fez ouvir hoje como o Grito Primal de toda uma geração. Nas palavras de Eric Clapton: 'Apelamos para as drogas a fim de libertar nossas mentes e nossa imaginação dos modismos e preconceitos que foram injetados em nós. Nosso problema é universal: como encontrar a paz numa sociedade hostil. Queremos exprimir essa busca através de nossa música, pois ela é a nossa voz mais eloquente' "

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Falando de Rock, Jazz e Drogas - Revista Ele Ela (2ª Parte)

"Décadas antes de surgir a geração pop, os músicos de jazz também curtiram a sua experiências com álcool e drogas. Na década de 1940, quando os pioneiros do bebop revolucionavam a linguagem do jazz, e por isso sofriam hostilidade e  o boicote da velha guarda e do público conservador, muitos músicos foram procurar uma saída na droga. Um conselho de Mary Ann McCall, que caiu em pouco tempo de 'melhor cantora do ano' ao desemprego e à miséria: 'Se você está viciado em H (heroína), o melhor é comprar um 45 em vez da seringa. Estoure os miolos - é a melhor saída.' E Billie Holyday, a maior cantora de jazz de todos os tempos, presa pela primeira vez pelo uso de drogas em 1947: 'A droga nunca ajudou ninguém a cantar melhor. É Lady Day que garante isso a vocês. Ela tomou o suficiente para conhecer a fundo a questão'. O saxofonista Charlie Parker, um dos maiores gênios musicais deste século, descreveu a experiência: 'O músico que diz que toca melhor maconhado, sob efeito de injeções, ou de pileque, não passa de um mentiroso. Quando bebo demais não posso nem dedilhar corretamente o saxofone, que dirá tocar ideias decentes. E nos dias em que me drogava eu podia pensar que tocava melhor, mas ouvindo alguns discos daquela época cheguei à certeza de que isso não acontecia (...) Não sei como atravessei todos aqueles anos. Tornei-me amargo, frio. Estava sempre em pânico - era incapaz de comprar roupas ou uma boa casa para morar. Fui obrigado até a viver numa garagem. A tensão mental piorava cada vez mais.' O pianista Billy Taylor arrisca um prognóstico: 'Eles se viciam porque muitos músicos são imaturos em sua atitude com relação a tudo que não se refira à música. Para se tornar um bom músico é preciso passar muito tempo com o instrumento... por isso o músico geralmente não dedica tempo a outras coisas que possam ampliar sua visão do mundo.'
Billie Holyday
Visão distorcida da realidade, problemas profissionais, dramas pessoais, dores da criação artística - os motivos que levam o músico às drogas são muitos. Para Ray Charles, cantor que é uma ponte entre o jazz e o rock, eles seriam de ordem pessoal - Ray é cego desde os 7 anos de idade - mas também de natureza social: 'Sou do Sul, e o Sul, quase no mesmo ano em que me deixou ficar cego, deixou morrer de hemorragia Bessie Smith, a maior cantora de blues de todos os tempos. No hospital de cegos, onde os pacientes não distinguiam cor de espécie alguma, os times de futebol se dividiam em cegos brancos e cegos negros.' Esse problema social também viria repercutir, anos depois, em plena sociedade de consumo, entre os filhos das famílias brancas mais prósperas. Janis Joplin, cujo pai era dono de uma  refinaria de petróleo em Port Arthur, Texas, passou a adolescência trancada em seu quarto ouvindo 'discos negros' de Bessie Smith e Billie Holyday. Abandonou a família aos 17 anos e começou a cantar nos bares de beira de estrada a troco de cerveja. Viajando pelos Estados Unidos, repetia a vida errante dos velhos cantores negros de rhythm & blues. Famosa da noite para o dia a partir de sua apresentação no Festival de Monterey, em 1967, foi saudada pelo rei do r&b, B.B. King: 'Janis Joplin canta os blues com tanto sentimento como se fosse uma negra'. Janis respondeu: 'Canto música negra para tirar dinheiro dos brancos.' Complexo de culpa social, por ter nascido branca? Sua cantora preferida era Bassie Smith, que se alcoolizava porque não entendiam nem davam valor a sua música, e que morreu em 1937 em consequência de um acidente de automóvel porque o hospital sulista não quis receber uma paciente de cor. Uma das últimas ideias de Janis Joplin era erguer um monumento a Bessie Smith, 'algo que reparasse o mal feito pela gente branca'.
Janis Joplin
Para muitos, Janis Joplin morreu do câncer do estrelismo, o mesmo que vitimou Edith Piaf e Judy Garland. 'Quanto mais famoso o cantor, maiores as pressões, maior a solidão, maior o medo', diz Eric Clapton, considerado o guitarrista de rock nº 1, fundador dos conjuntos Cream e Blind Faith. 'Jovem ainda, a gente tem de repente à mão todos os carros, casas e garotas com que sonhava, mas não consegue assimilar tudo isso. Foi um dos motivos que me levaram às drogas. O comércio do rock me deixou paranoico, tenso, insone. Eu não podia ter uma relação estável, por mais que tentasse.' Janis Joplin queixava-se: 'Com a fama, perdemos os velhos amigos, as viagens nos distanciam e é difícil fazer novos amigos. Quando não estou em cena, estou ensaiando, vendo a TV, entrando e saindo de hotéis. Vivo para o momento das apresentações, cheia de emoção e excitação, como esperando por alguém a vida toda. Um dia vou escrever uma canção que descreva o que é fazer amor com 25 mil pessoas num concerto e depois voltar sozinha para casa.' "
(continua)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Falando de Rock, Jazz e Drogas - Revista Ele Ela (1ª Parte)

Uma das primeiras matérias que eu destaquei e guardei foi uma publicada na revista Ele Ela, escrita por Roberto Muggiati, falando de astros do rock e do jazz que morreram ou estiveram próximos à morte pelo uso de drogas. Não encontrei nenhuma referência quanto à data de publicação, mas creio que seja início dos anos 70. A ilustração que coloquei acima é a que veio na matéria. Abaixo, a reprodução do texto:
"Em 1967, a grande safra da cultura hippie - muitos acreditavam ainda num 'poder da flor' - os Beatles lançavam o que viria a ser o primeiro militar desligado da tropa por uso de tóxicos, 'explicava com humor John Lennon ao informar que o famoso LP devia sua criação aos poderes mágicos de LSD. O alucinógeno era homenageado no título de uma das canções, Lucy in the Sky With Diamonds, assim como no espírito e na letra de quase todas. A Day in the Life foi cortada da programação da BBC porque fazia alusões claras ao LSD (I'd love to turn on = eu adoraria deixar você ligado). She's Leaving Home era uma convocação aos jovens; abandonem a casa dos pais e saiam pelo mundo. (I get high) With a Little Help from my Friends falava de maconha; ' Eu me ligo, com uma pequena ajuda dos amigos.'
Foi com uma pequena ajuda do amigo Bob Dylan que os Beatles se iniciaram na maconha, alguns anos antes: 'Dylan', conta John Lennon, 'tinha ouvido uma canção nossa que dizia I can't hide (não posso me esconder) e entendera I get high (eu fico ligado). Correu para nós e disse: 'Vamos, pessoal, estou com um fumo genial.' Pensava que fôssemos veteranos da erva. Fumamos e rimos a noite inteira.' John Lennon confessou também em entrevista recente que, momentos antes de receber a Ordem do Império Britânico, os quatro Beatles se trancaram no banheiro do Palácio de Buckingham e fumaram um cigarro de maconha: ' Sorrimos como idiotas diante da rainha porque tínhamos acabado de de queimar um fumo.' Outro templo do poder estabelecido, a Casa Branca, foi também ameaçado de invasão pela droga. A cantora Grace Slick, do grupo Jefferson Airplane, filha de um banqueiro da Califórnia, convidada para um chá de ex-alunas do Finch College, onde foi colega da filha de Nixon, Tricia, dirigiu-se à Casa Branca munida de LSD em pó, que ela planejava colocar sorrateiramente  na taça de chá da filha do presidente dos EUA, ou do próprio presidente, 'se o velhote desse as caras'.
Bob Dylan
Mas o choque de duas mortes - Jimi Hendrix e Janis Joplin - veio finalmente sacudir os jovens da música pop, mostrando que nem tudo eram flores e que as brincadeiras no playground peicodélico não eram tão inocentes como pareciam. A viagem no submarino amarelo (yellow submarine é um tipo de bolinha) podia ser muito colorida, mas também podia ser a última. Desde 1968, ano dramatizado por uma série de conflitos políticos - os acontecimentos de maio, Praga, Chicago, Luther King, Bob Kennedy - alguns dos principais ideólogos do rock começaram a rever o seu pensamento com relação às drogas.
Paul McCartney, sobre a morte do empresário dos Beatles, Brian Epstein: 'Não recomendo o LSD. Pode abrir algumas portas, mas não traz nenhuma resposta. Vocês devem procurar a resposta dentro de vocês mesmos.'
John Lennon, depois do seu casamento com Yoko Ono: 'LSD? É preciso ser prudente. Serviu-nos para fazer o LP Sargent Pepper's. A mim, serviu como espelho. Mas a maioria das pessoas não aguenta encarar-se num espelho.'
E Bob Dylan, depois do acidente de moto que o prendeu à cama durante um ano: 'Tomei drogas e fiz uma porção de coisas, mas não quero mais viver dessa maneira. Agora estou à espera de melhores tempos - estão me entendendo?'
Pete Townshend, do conjunto The Who, compôs uma ópera-rock, Tommy, contando a história de um garoto que nasce cego-surdo-mudo e passa pelas mãos de dezenas de médicos, curandeiros e milagreiros, sem nenhum resultado, até o dia em que toma LSD e começa de repente a ver-ouvir-falar-sentir. Hoje Pete Townshend faz a sua autocrítica: 'A droga interrompeu a minha vida, destruiu minha adolescência. É a pior coisa neste planeta. Músicos como Hendrix, tentando encontrar-se espiritualmente, vivem num mundo de cidades e multidões. Com as drogas a gente pode estar no meio da ação e também a centenas de quilômteros de distância. Mas o verdadeiro afeito da droga é neutralizar a vida. ' "
(continua)



quarta-feira, 10 de junho de 2015

George Clinton, O Profeta do Funk

A música negra americana trouxe balanço, swing e uma batida contagiante para o mundo da música. O funk, como ritmo e vertente da black music produziu vários astros que trouxeram uma energia contagiante, e fez surgir uma nova forma de dançar e se ligar numa nova batida. Muitos nomes se destacaram nessa vertente, como James Brown, Sly & The Family Stone, The Commodores, Herbie Hankock (um músico de jazz que também produziu funk), Tower of Power, Eart, Wind & Fire, etc. Mas não se pode esquecer de citar em qualquer lista de grandes nomes do funk as bandas Funkadelic e Parliament, ambas lideradas por George Clinton, que influenciaram uma série de outros músicos mais jovens.
O livro "As Feras do Rock", que saia em fascículos em bancas de jornais no final dos anos 90, dedica um capítulo a Clinton. Na introdução do texto é destacado:
"No princípio existia o Funk, e George Clinton era o mais sábio e atrevido dos seus profetas. Clinton e os seus sucessivos clones: Parliament, Funkadelic, etc, foi o mais radical e iconoclasta dos filhos da nação funk, como também o mais criativo e persistente. O seu trabalho sobrevive atualmente na obra de Prince e das últimas gerações do rap."
Abaixo o texto falando de George Clinton:
"Filho mais velho de uma família de nove irmãos que vivia no limite da miséria, George Clinton passou a sua infância perambulando por várias cidades, até a sua família se estabelecer em Netwark, Nova Jersey. Nessa cidade, formou a sua primeira banda de doo-woop em 1956, a The Parliaments, ao mesmo tempo que trabalhava como cabeleireiro e traficava com drogas em pequena escala. Depois de gravar algumas músicas que passaram desapercebidas, Clinton e o The Parliaments tentaram entrar para a Motown, onde foram rejeitados por Berry Gordy porque se pareciam muito com o The Temptations. Apesar disso, George compôs durante um certo tempo para a editora de Gordy, a Jobete Music, e algumas das suas músicas chegaram até a ser gravadas pelo The Jackson Five e Diana Ross & The Supremes.
Em 1967, o The Parliaments foi contratado pelo selo Revilot, de Ed Wingate, onde estreou com o compacto ' I Wanna/ Testify', entrando para as paradas de rhythm & blues. Mas, certos problemas contratuais com a Revilot e a Motown no final da década, impossibilitaram o grupo de continuar usando o seu nome. Clinton então decidiu diversificar as suas propostas musicais e continuar trabalhando com  a mesma banda em duas gravadoras, mas usando nomes diferentes. Em 1970, foi contratado pela Westbound como Funkadelic e pela Invictus, de Holland, Dozier & Holland, como Parliament, gravando respectivamente os álbuns Funkadelic e Osmium, os primeiros trabalhos de nova religião P-Funk.
De 1970 a 1975, Clinton e Funkadelic produziram um grande número de discos debochados, delirantes, cujos títulos justificam seus próprios conteúdos - Free Your Mind...And Your Ass Will Follow, Maggot Brain, Cosmic Slop, Let's Take It To The Stage, etc. Logo depois, teve certos problemas legais com o chefão da Westbound e foi contratado pela Warner, onde gravou umas das grandes obras-primas do rock negro de todos os tempos, o LP One Nation Under A Groove (1978). Ao mesmo tempo, ressuscitou o The Parliaments, que estava às moscas desde a sua estreia pela Invictus, gravando para o selo Casablanca uma impressionante série de discos que ainda hoje estão entre os melhores do funk psicodélico: The Mothership Connection (1976), The Clones Of Dr. Funkstein (1976), Funkentechy Vc. The Placebo Syndrome (1977) e Motor Booty Affair (1978). Esses discos tão brilhantes quanto demolidores, com  a presença de grandes talentos como o guitarrista Eddie Hazell e o tecladista Bernie Worrell, deram forma ao movimento P-Funk e a toda uma nova maneira de entender a música, as relações artísticas e os shows ao vivo. Mas, no final dos anos 70, as coisas começaram a tomar um rumo completamente diferente. Clinton estava cada vez mais dependente da cocaína e do crack, alguns dos seus músicos o abandonaram e a Polygram, que tinha comprado o selo Casablanca, e a Warner decidiram acabar com o seu contrato. Parecia o fim da sua carreira, mas em 1982 ressurgiu das cinzas com  o álbum solo Computer Games e a música 'Atomic Dog'. Desde então, não tem parado de trabalhar e se converteu em uma das referências básicas da cultura hip hop e no protegido mais ilustre de Prince, com discos tão famosos como R&B Skeletons In The Cinderella Theory (1989) e Hey, Man, Smell My Finger (1993)."

terça-feira, 9 de junho de 2015

Kaya, de Bob Marley É Relançado - 1988

Kaya é um dos melhores discos de Bob Marley em minha opinião. Lançado originalmente em 1978, quando Marley começava a ficar famoso no mundo, o álbum teve alguns problemas com relação à arte gráfica, devido a alusões à maconha, como é o caso da ilustração que aparece na contracapa, com um enorme e frondoso pé de maconha, que chegou a ser censurada por aqui. Dez anos depois, não mais sob o jugo da censura imposta pela ditadura militar, o álbum foi relançado, com a arte gráfica original. Na ocasião, o jornalista e fotógrafo Carlos Albuquerque falou sobre o relançamento na seção "Rio Fanzine", de O Globo, no dia 07/02/88, num texto que tinha como título "À beira da eternidade":
"Se ainda estivesse vivo, Robert Nesta Marley teria completado 43 anos ontem. Suas células contudo, foram lenta e dolorosamente destruídas pelo câncer. Felizmente outras sobreviveram, no caso as  células do vinil, onde sua obra está registrada para a posteridade, a cada dia que passa provando ser absolutamente atemporal. Uma bela oportunidade de comprovar essa suprema resistência ao passar dos anos é ouvir 'Kaya', de 1978, relançado agora pela WEA.
Aquariano, místico com os pés no chão, Marley foi a ponta do iceberg que aportou nas praias de todo o mundo a partir da segunda metade da década passada: o reggae. Híbrido hipnótico entre ritmos caribenhos - como o calipso e a salsa - e sonoridades vindas da América - como a soul-music e o rhytmn'blues - o reggae influenciou decisivamente boa parte do panorama pop internacional e criou seus próprios ícones. Marley é o maior deles.
O reggae vinha embalado num insólito sentimento religioso. Insólito porque misturava confusas interpretações bíblicas, um intenso sentimento de orgulho racial e uma visão crítica de aparentemente todos os sistemas sociais estabelecidos, generalizados como 'A Grande Babilônia'.
Tais críticas eram um dos baluartes das canções de Marley, observador dos problemas de seu país, a Jamaica ex-colônia inglesa, com uma dura realidade; sendo os 'trenchtowns' (os miseráveis bairros de lata dos arredores de Kingston) um triste exemplo dessa situação.
Um pouco antes do lançamento desse 'Kaya', Marley já consagrado e respeitado no cenário jamaicano, havia participado de um concerto em favor do candidato social-democrata às eleições locais, Michael Manley. Esse envolvimento político direto trouxe alguns problemas para ele. O principal foi o atentado sofrido um pouco  depois, quando cinco pistoleiros tentaram, sem sucesso, matá-lo, e que inspirou uma de suas canções: 'Ambush In The Night' (Emboscada na Noite), do elepê 'Survival'.
'Kaya' nasceu assim: uma resposta quase budista, monástica, à agressividade que o cercava. No lugar de pedras, uma flor. Melhor, uma planta, a cannabis sativa, que não apenas dá título ao elepê, como também aparece frondosa na contra-capa (a primeira edição nacional suprimiu esta ilustração). Preciosos arquitetos do som de Marley, os Wailers mostram-se então em plena forma, principalmente o baixão de Aston Barret e os vocais das I Threes, inconfundíveis.
O texto é deliciosamente 'cool'. 'Easy Skanking' discorre sobre o uso da referida planta, enquanto a canção-título descreve os seus efeitos. Lá também está o mega-hit,  'Is This Love', uma das mais belas canções de todos os tempos. 'Sun Is Shining', por sua vez, é longa e hipnótica, a guitarra de Junior Marvin conduzindo o transe.
O elepê sofreu algumas críticas na época, pois setores mais radicais não admitiam ver Marley fazendo música aparentemente não engajada. Aparentemente, já que uma revisão mostra as sutilezas implícitas da algumas canções. Como por exemplo, 'Crisis' ('Dizem que o sol nasce para todos/ Mas em alguns lugares ele nem aparece'), ou em 'Running Away' ('Você vive correndo/ Mas você não pode fugir de si mesmo'). A profética 'Time Will Tell' encerra o elepê, seguida do lembrete; 'to be continued', escrita num canto. Que poderia muito bem ser substituído por um 'isso é eterno'. Nada mais justo, afinal."