Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

quarta-feira, 28 de março de 2018

Djavan: "Minha Música É Minha Cabeça" - Revista Pop (1979)

Djavan se lançou na música nos anos 70, primeiramente participando de trilhas de novelas, e também se destacando no Festival Abertura, da Globo, em 1975, ao se classificar em segundo lugar com "Fato Consumado". Em 1976 lançou seu primeiro LP pela Som Livre, já mostrando uma musicalidade diferente, com muito balanço e suingue, além de escrever letras bem criativas. Mesmo assim, só viria a gravar seu segundo disco, "Cara de Índio", em 1978. Na edição de março do ano seguinte, a revista Pop trazia uma matéria com o músico, que começava a chamar a atenção e fazer sucesso. A matéria é assinada por Leo Correa, e traz o título "Djavan: 'Minha Música É Minha Cabeça' ":
Cara de Índio está fazendo sucesso. A música, tema da novela Aritana, da TV Tupi de São Paulo, é também o carro-chefe do disco que marca a estreia de Djavan Caetano Viana na gravadora EMI-Odeon.
Para Djavan, o sucesso de Cara de Índio é consequência de um pensamento que ele sempre defendeu: Não há distinção entre índios e nós, o povo em geral. 'Do meu ponto de vista', diz ele, 'estamos todos diante da mesma situação, isto é, cercados.' Na letra da música, ele procura deixar claro esta identidade comum: 'Nessa terra tudo dá, terra de índio/ Nessa terra tudo dá, não para o índio/ Apesar da minha roupa, também sou índio'. Mas, quando a gente pergunta se ele se inspirou nas discussões sobre a emancipação do índio, tão em moda ultimamente, Djavan nega: 'Fiz essa música há mais de dois anos, porque é um lance que sinto desde garoto. Para mim, isso que está acontecendo é apenas uma gota d'água diante do problema real, muito mais amplo'.
Alagoano de Maceió, Djavan foi considerado um sambista na época em que gravava na Som Livre. Este seu segundo trabalho revela o lado nordestino de sua música, em faixas como Alagoas e Estória de Cantador, esta última baseada na tradição e na linguagem do cordel. Ele demonstra ser também um bom cantor e compositor romântico da música na bela e sensual Álibi, que Maria Bethânia gravou com honras de faixa-título. Na área do samba, suas harmonias e divisões situam-no no samba numa linha progressiva, ao lado de Gilberto Gil, Jorge Ben, Paulinho da Viola e outros renovadores do gênero.
Participando do Festival Abertura, em 1975
Aos 29 anos de idade (e dez de batalha artística), Djavan acha que existem muitos outros caminhos a explorar. 'Tenho um som essencialmente nordestino, com todas as influências que recebi na região. Coisas que vão de Luiz Gonzaga a Lupiscínio Rodrigues, Angela Maria, e por aí afora. Mas também tive meu grupo de rock, lá pelos 18 anos. Chamava-se LSD (explica, rindo, que o nome se referia a luz, som e dimensão). Quem não cantava música dos Beatles naquela época? O jazz veio depois, junto com a Bossa Nova. E comecei a compor em cima de tudo isso, meio de brincadeira, até que resolvi ganhar o mundo.'
No tempo da Som Livre, Djavan gravou trilhas de novelas, sempre cantando músicas de outros compositores. Em seguida veio o festival Abertura, onde ele se classificou em segundo lugar, com Fato Consumado, e gravou um compacto duplo, bastante executado. Seu primeiro LP mostrava sua preocupação com o lado instrumental. 'Explorei muito o violão, e o pessoal achou interessante. Mas aí fiquei sentindo, sem querer admitir, que isso não era o que eu queria, não era só aquilo que eu tinha pra mostrar. Sou uma pessoa mais inconstante, mais circunstancial.'
Grandes mudanças de lá para cá, consequência de seu amadurecimento pessoal e artístico, mostram hoje um compositor preocupado com músicas que mostrem também o cantor, não apenas o instrumentista. Hoje, Djavan mora em Vila Isabel, tranquilo bairro carioca da Zona Norte. Lá ele encontra o clima das peladas de rua e das conversas de botequim às quais se habituou durante sua infância, em Maceió. 'Hoje em dia as pessoas conversam muito pouco.', ele se queixa. 'Acabou aquele negócio de chegar na esquina, trocar ideias, saber o que as pessoas estão pensando. E eu preciso saber disso, minha música é isso. As coisas estão aí, pelo ar. Quem chegar primeiro pega.'


domingo, 25 de março de 2018

Gilberto Gil Fala de Refavela

Lançado em 1977, o disco Refavela, de Gilberto Gil, é um dos melhores trabalhos de sua carreira.  Trata-se de um álbum em que Gil revela toda uma influência não só da música africana, a raiz da música negra mundial, como também da black music e do movimento Black Rio, que vivia seu auge naquele período. Em 2012, ano em que completou 70 anos, Gil foi homenageado com uma série de fascículos, denominada Coleção Gilberto Gil 70 Anos. Sob pesquisa editorial e textos do pesquisador Marcelo Fróes, a série traz depoimentos do músico sobre seus principais álbuns, e o volume 8 da série destacava o disco Refavela. Abaixo segue o texto do citado fascículo:
" 'Quando eu fiz 'Refazenda' com essa densidade da revisita e da retomada, eu quis levar o 're' adiante e aí o segundo estágio foi o 'Refavela' - com a coisa da revisita ao mundo negro', lembra Gilberto Gil, 35 anos depois. 'Eu queria aprofundar a questão da revisita... e aí a oportunidade foi com a África e o festival na Nigéria, que foi uma coisa enorme! Na volta concluí que, depois da fazenda haveria a favela - ambos territórios importantes, periféricos ao centro da civilização brasileira. A fazenda era um canto, a favela era outro. O conceito já estava praticamente estabelecido, mas a coisa na África foi fundamental - porque a vila olímpica que se construiu para abrigar os 50 mil representantes que vieram do mundo todo era como os blocos do BNH aqui. Havia essa ligação direta. Havia em mim um gosto por esse trabalho conceitual, unindo elementos da sociologia, da política e da antropologia, tudo isso num nível popular... num nível pop', define.
Gil foi convidado a participar do 2º FESTAC - Festival Mundial de Arte e Cultura Negra - que aconteceria por cerca de um mês a partir do final de janeiro de 1977 em Lagos, na Nigéria.
Ainda no final de 1976, quando foi convidado, Gil não só aceitou como também montou uma banda especialmente para apresentar-se ao vivo no evento ´com Perinho Santana (guitarra), Cidinho (teclados), Rubão Sabino (baixo), Djalma Correa (percussão) e Robertinho Silva (bateria). 'Quando Robertinho Silva soube que eu ia pra África, ele bateu lá em casa: 'Quem vai sou eu! Não quero nem saber!' Aí eu respondi: 'Mas rapaz, você tem seu trabalho com Milton (Nascimento)...' Ele já havia falado e disse 'eu vou pra África com você!', lembra Gil. 'A ideia de fazer um novo disco surgiu na Nigéria', lembra Gil.
'Quando voltamos, Robertinho reintegrou-se à banda de Milton e chamamos Paulinho Braga para gravar conosco, mas mesmo assim Robertinho ainda voltou pra que gravássemos um compacto daquela banda que fora à Nigéria', historia o autor, que participou como co-autor e músico das duas faixas registradas pela Brazil Very Happy Band para a Polydor em maio de 1977. Antes, porém, Gil e sua banda - com Robertinho substituído por Paulinho na maioria das faixas - entraria no novo estúdio de 16 canais da Phonogram para registrar o álbum 'Refavela'.
Era época do movimento Black Rio, com o funk começando por aqui e Gil quis aproveitar a maré - começando por uma controvertida versão do Samba do Avião de Jobim. 'O disco era pra isso, para registrar os 'aforismos' que havia na época - como era juju music de 'Balafon' e os blocos afro-baianos de 'Ilê Ayê', lembra.
'Era Nova' já existia no repertório de Gil, quando fora feita para Roberto Carlos - que não a gravou -, enquanto que 'Sandra' tivera origem na prisão de Gil por porte de maconha durante a passagem dos Doces Bárbaros por Florianópolis em julho de 1976. Embora Sandra fosse o nome de sua mulher à época, e que a mesma tenha sido um discreto personagem na letra da música, como foram as enfermeiras do sanatório em que Gil foi internado por ordem da Justiça, Sandra e Andréa eram duas amigas tietes de Caetano e Gil. 'Refavela', 'Aqui e Agora' e várias outras foram compostas durante a viagem  à Nigéria. 'Eu trouxe um balafon típico da região do Golfo da Guiné e fiz 'Balafon' ', lembra-se Gil, que ficou feliz de ter o amigo Roberto Santana - dos velhos tempos de Salvador - na produção do novo álbum. 'Refavela' foi gravado entre o final de março e o final de abril de 1977, quando também foram registradas as novas músicas 'Sala do Som' e 'É', além de 'Músico Simples' (de 1974). Todas as três acabaram ficando de fora do LP, mas foram finalmente lançadas pela Universal Music no CD 'Satisfação' de 1999.
'Quando eu fiz 'Refavela', já sabia que era a segunda parte de uma trilogia que eu iniciara', comenta Gil. 'Mas eu tinha consciência de que a terceira parte não seria 'Refestança', complementa. Gil refere-se à turnê relâmpago que realizou com Rita Lee e seu grupo Tutti Frutti em outubro de 1977, e que rendeu o disco ao vivo 'Refestança' naquele Natal. É que a turnê 'Refavela', iniciada pouco após o lançamento do LP de Gil em maio de 1977, acabou sendo interrompida por falta de apoio logístico. Para alcançar o interior do país com um pouco menos de desconforto, Gil desejava adquirir um ônibus monobloco usado e solicitou que este custo fizesse parte do tour support pago pela gravadora, mas não foi atendido. Gil resolveu bancar o ônibus do próprio bolso e pediu rescisão contratual à Phonogram.
Gil não sabe se teria ido para a Warner caso a Phonogram lhe tivesse apoiado na aquisição do ônibus, então é óbvio que a saída do amigo André Midani da presidência da gravadora na mesma época acabou pesando. Midani deixara a Phonogram para ser o primeiro presidente da Warner no Brasil, quando a mesma aqui se instalou em 1977. O convite para integrar o cast da nova gravadora incluía nas luvas o reembolso do valor dispendido particularmente por Gil no ônibus da turnê de 'Refavela'. Lendas da MPB. "

sexta-feira, 23 de março de 2018

Aldir Blanc e os Deveres de Poeta e Cidadão - O Pasquim (1979)

Em sua edição de 30/03 a 05/04/79 o jornal O Pasquim em sua coluna "Todo Ouvidos", assinada pelo crítico Roberto Moura, falava do grande letrista e cronista Aldir Blanc, também colaborador do jornal, onde assinava ótimas crônicas. É uma bela análise sobre o grande mestre das palavras e seus parceiros na época, João Bosco e Paulo Emílio:
"Não, não foi uma grande entrevista e valeu exclusivamente pelo talento dos entrevistados. Pela própria posição vanguardista do suplemento Folhetim, da Folha de São Paulo, no contexto da imprensa brasileira, seria previsível que extraísse mais - pelo menos polemizando temas óbvios - da linha de passe formada hoje na MPB por João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio. Este último, aliás, mais tímido e menos conhecido, teve o seu grande talento e imenso potencial praticamente desprezados e, em consequência, Aldir comandou a linha de passe e deixou mofando os goleiros-entrevistadores como um centeralfe do passado. Foi o dono da bola e algumas de suas observações parecem iluminar todo este período dito das trevas na música brasileira, o que o letrista e contista veementemente repele e no que apoio.
Não, não, Folhetim. Esses meninos não vão 'ainda dar o que falar'. Vêm dando há anos (e, no caso de Aldir, seria conveniente lembrar sua participação no MAU, seus intermináveis festivais e seu definitivo Amigo É Pra Essas Coisas) e nem tão meninos são. Eu diria até que, do alto de seus trinta e poucos (somando os três deve dar um século de inspiração), estamos diante de três artistas absolutamente maduros, dos quais se sabe o que esperar e com os quais tudo é lícito discutir, sem recair no ramerrão da ingenuidade de artistas em formação.
É possível que eu e Aldir desafinemos em muitas coisas mas será sempre muito maior o números de coisas em que estamos permanentemente acordes - e sem trocadilho. Por exemplo, quando ele cita o semi-anonimato das coisas de Caymmi e a despreocupação absoluta do compositor em relação a isso como um ideal a ser perseguido. Recordo que, há uns dois anos, em entrevista às páginas amarelas da revista Veja, Caymmi declarava pretender compor 'uma música que se perdesse no ouvido do povo, que se tornasse uma coisa tão dele que ninguém mais se lembrasse de quem a fez'.
Aldir Blanc e João Bosco
De lá pra cá, citei esta frase algumas vezes (na verdade, me parece mesmo um padrão, assim como Carlitos está acima de Charlie Chaplin ou a Gioconda ultrapassou Leonardo da Vinci) e fico feliz de ver Aldir chegar à mesma conclusão por força de um raciocínio indiscutivelmente pessoal, pessoalíssimo: 'Bonito é ele, Caymmi, que fica lá, com aquela camiseta, aquele mar, aquele cabelo todo, enquanto numa gafieira qualquer você dança atraído pela música dele, mesmo sem saber que a música é dele. Esse é popular.'
A sutileza do pensamento de Aldir é que, ao mesmo tempo, ele não prega para o compositor, enquanto indivíduo, um comportamento passivo diante da sociedade e estabelece uma distinção que é simples (aliás, estas foram as declarações principais da entrevista e deveriam ter saltado para o título ou, no mínimo, para a abertura, que resultou um desastre). Quer dizer: 'a gente tem que compor paca, porque enquanto esta força estiver na rua, nós somos os compositores populares. Eu morro e o repertório continua, não tem jeito. Então, eu não tenho que reivindicar nada. A não ser como pessoa, mas aí já não é dever do compositor, e sim de qualquer sujeito que saiba que é uma pessoa política, né? Como tal, quero Anistia ampla e irrestrita, quero o meu dinheiro que é roubado paca, ainda hoje, pelas arrecadadoras, que não me pagam, por exemplo, teatro há dois anos. Agora, o que sou como compositor vai passar por cima disso tudo. E é claro que morrer de fome não é a glória, não. Chega desse tempo.'
Uma posição inatacável, tanto do ponto de vista estético (que não se escuda em ideologias para desculpar uma possível escorregadela) como do ponto de vista político (que não se furta a ter uma visão-de-mundo e externá-la sem receio, grupismo, oportunismo ou interesses menos nobres). No letrista e no cidadão, a mesma coerência que se verifica no contista, depois do lançamento, pela Editora Codecri, do original Rua dos Artistas e Arredores e seus personagens quase míticos a se moverem como doces fantasmas num habitat que - outro ponto de encontro entre o poeta e o crítico - nos é comum.
Outro reparo fundamental a uma espécie de consenso da inteligentzia nacional que Aldir Blanc faz dentro da maior lógica: 'na época do JK eu não faia música, eu era um garoto'. Esta frase conclui um argumento irrespondível sobre a discussão teórica imposta pela existência da Censura e por atividade artística desenvolvida apenas em eras mais amenas e favoráveis. Aldir explica que 'o outro lado que é tão falado, que poderia revelar talentos, eu desconheço. A situação tem uma hora que serve de capa para ocultar os falsos talentos. Então, discute-se como se nós conhecêssemos os dois lados da equação e eu não conheço.'
Baseado nisso, o que Aldir prega é o óbvio: que não se pode escolher a realidade em cima da qual se gostaria de trabalhar. O que é preciso é realizar alguma coisa, o possível, independente disso ser até, em determinadas circunstâncias, praticamente impossível. Este óbvio, porém, tem sido dificílimo de ser enxergado."

quinta-feira, 22 de março de 2018

Novos Baianos - Jornal Rolling Stone (1972)

Em sua edição de 15 de fevereiro de 1972, o jornal Rolling Stone, um marco na cultura alternativa brasileira, trazia uma matéria sobre um show dos Novos Baianos, acontecido no verão daquela ano no Rio . Na época, o histórico disco "Acabou Chorare" ainda não havia sido lançado, mas já estava sendo elaborado, e os músicos ainda moravam no apartamento em Botafogo, antes de se transferirem para o famoso sítio em Jacarepaguá. A matéria, intitulada "Novos Baianos: outra transação" é assinada por Joel Macedo:
"O que aconteceu na madrugada do último dia 16 no Teatro da Siqueira Campos foi de arrepiar. Os Novos Baianos e a Cor do Som transportaram a sua comunidade de Botafogo para o palco do teatro e fizeram o maior show que eu já vi no Brasil desde que eu me entendo por gente.
Apesar de D. Tereza Raquel com o apoio do empresário Paulo Lima cobrar 20 contos a entrada (10 para estudante, o que não é nada legal), à meia-noite, hora de início do show, as galerias do teatro já estavam lotadas. Grande parte do público de Gal resolve emendar e nem saiu do teatro em protesto contra o preço absurdo dos ingressos. Transações. Expectativa. Pepeu e Dadi entram no palco em penumbra e começam a acertar os ponteiros de suas guitarras. Moraes chega de manso e toma posição num banquinho. Baby e Paulinho Boca vão pra perto do microfone de voz. Quando Baixinho entra com seu bumbo verde-amarelo amarrado pelo pescoço, as luzes se acendem, e as guitarras, junto com o cavaquinho cheio de molho de Jorginho, começam a introduzir Brasil Pandeiro, a obra-prima exaltação de Assis Valente. Paulinho e Baby arrastam o vocal e a plateia desbunda.
Pepeu tinha seu amplificador a todo som e sambava com  a guitarra. Eu me lembro que a primeira vez que vi ele tocar, não entendi nada. Fiz crítica ao seu fraseado, achando grosso demais para o meu gosto, condicionado a anos por Clapton e Jeff Beck. O fraseado. Mas que touca é essa de fraseado. Com Pepeu é a malandragem em cima de uma guitarra. O Pepeu usa uma boina igual às toucas de meia dos moleques do morro. O Pepeu ri quando toca, se esbalda, solta tudo. O Pepeu balança, é o único cara no mundo que eu já vi sambar com uma guitarra na mão. E eu preocupado com o fraseado do Pepeu.
Quando um bando de desbundados entra num palco e toca Brasil Pandeiro, de Assis Valente, é sinal que uma coisa muito séria tá pra acontecer nos famosos 'rumos' da música popular brasileira. E que os Novos Baianos e a Cor do Som acabam de mostrar pra todo mundo, o caminho de casa.
O samba corria e Paulinho machucava seu pandeiro ao lado de Baby que bamboleava dengosa, merecedora dos maiores fiu-fius. Queiram ou não queiram, Baby Consuelo é a Rainha da Juventude Brasileira e não tem conversa. Baby arrebentando com a imagem da superestrela e curtindo tudo no maior relax. A plateia reagia como se estivesse em casa e aquilo parecia mais uma festinha íntima, que um concerto de entrada paga. Paulinho cantou 'eu estou apaixonado por você...' e arrancou suspiros da plateia feminina presente. E daí em diante tudo foi ficando cada vez mais bonito, e eu via bandeirolas por todo o palco, foguetes espocando e muitos cuscus e cocadinhas pretas. Teve uma hora que Moraes entrou de acordeom, Paulinho de maraca, e o encontro deles com as guitarras foi incrivelmente lindo como já estava sendo o encontro das guitarras com o alegre cavaquinho. Era um suingue alucinante e o som do rock nacional estava finalmente achado. E eu só não direi que se tratava de um samba-rock, porque os Novos Baianos também fazem dele um maxixe-rock ou um bolero-rock, música, enfim. O que aconteceu na histórica madrugada de 16 de janeiro  foi o encontro de várias culturas, a unificação de várias estreias e linguagens musicais, naquilo que daquele dia em diante passou a ser o som brasileiro do desbunde universal. Uma mistura de ponto de macumba com hard-rock, xaxado, baladas de Roberto Carlos, samba-enredo e muita queimação, da parte das tumbas, baterias, maracas, agogôs e pandeiros.
Paulinho Boca de Cantor
Paulinho Boca é a cara do novo ritmo, saltando com seu pandeiro como um jaburu elétrico. Paulinho é a mágica, a energia e o perfume do novo som brasileiro que pra dizer a verdade, não é novo, é sim, muito vivo e portador de grande antiguidade. E Herivelto Martins trazido à cena e o Bando da Lua com participação especial de Moraes e Galvão. A abelhinha zzummm... acabou chorare... eu sou amor... da cabeça aos pés... e depois foi Preta Pretinha enquanto corria a barca, um frevo rasgado que embarcou todo mundo nas águas do carnaval. Aí todo mundo brincou e pulou pelo palco e pelas arquibancadas do teatro. Era sugesta geral, Live, em pessoa. Gal Costa comandava um trenzinho na galeria e Waly Salomão não quis nem saber de se sentir recompensado por aquilo tudo - caiu firme na folia. Até o carnaval foi diferente. Dadi no seu baixo, contido e imóvel dava um leve toque de psicodelismo californiano na transação. Pepeu já não sabia mais se tocava ou entrava na dança e cada vez mais fazia os dois. O som todo foi uma brincadeira mas foi sério pra burro. E Brasil com suas loucuras e sua beleza não era mais uma crítica. Nem um simples folclore. Era uma verdade assumida com coragem e com muito orgulho. A voz da geral. A umbanda revolution que como linguagem não exige mais que CAIR NA PÂNDEGA!

terça-feira, 13 de março de 2018

Alceu Valença e Zé Ramalho - O Globo (1975)

Em sua coluna no jornal O Globo, de 28/08/75, o crítico Nelson Motta falava de Alceu Valença, um talento em ascensão na época. Projetado no Festival Abertura, da Globo, acontecido naquele mesmo ano, Alceu já era uma promessa de nossa música, fato que se concretizou ao longo de sua carreira. A matéria fala também de Zé Ramalho, que na época ainda era conhecido como Zé Ramalho da Paraíba. A matéria é intitulada "Alceu Valença: a descoberta (tardia) do danado de Catende", referindo-se a música "Vou Danado pra Catende", que Alceu defendeu no citado festival. Segue a matéria:
"Há muitos anos que Alceu Valença vem amadurecendo seu talento nos gostos amargos dos desinteresses, acomodações, fraudes e incompreensões. Agora o seu fruto começa a amadurecer, a ser notado pelo que Tárik de Souza chama com propriedade 'valor alimentício'. Também começa a tornar-se dourado, o que de certa forma também está atraindo os, digamos, 'fruticultores'. E até os vendedores de frutas. E está começando a chegar com seus sabores doces e amargos ao paladar das pessoas. No Teatro Tereza Raquel, ao lado de uma banda notável.
O primeiro impacto que me provocou Alceu Valença foi seu disco, lançado praticamente em segredo em novembro de 74. Depois, mesmo algumas opiniões respeitáveis que não viram importância em 'Abertura', reconheceram em Alceu uma personalidade original e poderosa. Seu 'Vou Danado pra Catende' representou o maior e mais instigante impacto numa mostra que contou com trabalhos expressivos de criadores da qualidade de Jards Macalé, Walter Franco, Ednardo e Jorge Mautner.
Por misteriosas caridades, Alceu foi (como ele diz) 'agraciado' com um 'Prêmio Especial do Júri', graças ao entusiasmo que despertou em um homem de agudo senso popular como J.B. de Oliveira Sobrinho.
Algumas vezes, depois de 'Abertura', alguns artistas me falaram com muito entusiasmo em relação ao trabalho de Alceu: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, o próprio supracitado e ex-concorrente Jards Macalé.
Alceu conseguiu a loucura de unir os mais vivos e sanguinios sons dos cantadores de feira, dos cantos mouros e dos ritmos nordestinos às explosivas estruturas tecnológicas do rock. Em sua forma de se apresentar estão as posturas dos stars do rock, da mesma forma que as sonoridades e comportamentos musicais de sua banda.
A banda de Alceu Valença é um capítulo à parte. Mas dentro desse capítulo à parte, existe um dado muito especial: o violeiro Zé Ramalho da Paraíba - uma figura impressionante, um músico extraordinário.
Os que veem em Alceu as forças vitais que impulsionam loucuras em gente como Mick Jagger, certamente ouvirão o trabalho de Zé Ramalho com a devoção que Dylan inspira.
Calma. Não estou comparando Alceu e Zé Ramalho a Dylan e Jagger - o que horrorizaria os memorialistas da colônia. Alceu e Zé ainda estão no levantar do voo e a aproximação com os stars é para mostrar uma personalidade artística sanguínea e instintiva ao lado de reflexiva e emocionada. Então usa-se modelos conhecidos, reconhecidos e autenticados...
N.R.: Mas comparar a poesia de Caetano Veloso com a de Bob Dylan faria  Dylan igualmente feliz. Dylan escreveu numa contracapa sua que seu sonho era um dia cantar como João Gilberto. Daí... as pessoas aqui ainda se escandalizam... Mick Jagger acha Gilberto Gil um barato. E diz. E adoraria cantar com ele...
Numa época em que se discute frequentemente a mistura de rock feita no Brasil por um lado e opondo a isto o compromisso incondicional com o brasileiro, o que vem de fontes autenticamente populares, Alceu Valença começou a ser notado: o que vinha tentando em desespero desde 1968.
Passada a maldição dos sete anos (provavelmente um espelho quebrado...) Alceu volta ao Rio para uma temporada regular no Teatro Tereza Raquel. Por desinteresse e falta de informação (o que não é culpa só das pessoas), a primeira semana de Alceu foi desastrosa. Por duas vezes teve que suspender o espetáculo por falta de público.
Mas os poucos que assistiram se encarregaram de espalhar o poderoso e novo som que veio de Recife. E por sorte de Alceu, alguns dos poucos eram algumas das pessoas que mais influem na formação de uma opinião musical na cidade.
Contra a expectativa inquietante de pouco mais de mil cópias vendidas de seu LP, o diretor artístico da Sigla, Guto Graça Mello, investiu ainda mais na incerteza do talvez demorado mas inevitável sucesso de Alceu Valença.
Já na segunda semana o teatro recebeu bom público: tão bom que o empresário Benil Santos decidiu esticar a temporada por mais duas semanas. Ao mesmo tempo, a melhor imprensa musical - os de elogios mais econômicos - revelou ao público que finalmente, depois de uma espera relativamente longa,  um som poderosamente novo se oferecia aos ouvidos e cabeças gerais. E há sempre um grande entusiasmo na plateia de Alceu Valença e seu grupo. Já tem até groupies o cabra...
Zé Ramalho
O trabalho de Zé Ramalho da Paraíba  é um inacreditável blending dos blues arrastados de Dylan com as linguagens de  cordel dos cantadores de feira, dos contadores de estórias sem nome e sem lugar, dos observadores da vida e das pessoas. Tudo envolvido por uma contida inquietação.
(Walter Franco diz que há certos artistas que são como o cisne: quem vê nadando parece a paz flutuante, mas se a gente olha por baixo da água vê os pezinhos a mil...)
Zé Ramalho é meio isto. Intimista, intenso, um músico que está entre a fala e o canto, que no entanto corre em volta, entre as pausas e espantos.
O flautista de Alceu, por exemplo, chama-se Zé da Flauta. E tira do seu instrumento uma sonoridade agressiva e raramente ouvida em palcos cariocas. A não ser quando Yom Muniz está na banda, é claro. São os sons maravilhosamente mal acabados dos flautistas de ruas, mesclados aos sons novos e 'sujos' de Ian Anderson, por exemplo. Zé da Flauta não toca aquela flauta comportada de fundinho. Toca uma flauta ativa, nervosa, mal comportada, vigorosamente popular. Apesar de ser uma banda realmente de exceção (que leva ainda mais longe a proposta dos instrumentistas  dos Novos Baianos) há dois buracos importantes a serem referidos: a ausência de Lula Côrtes e seu tricórdio, instrumento de loucura que nas mãos de Lula grita os fraseados poderosamente originais. E outra é o volume do som, que dentro das possibilidades técnicas do equipamento, deve ser levado à confundência dos sons do rock, tornando assim, ainda mais forte a proposta de Alceu and Band.
Como dizia Emersom Fittipaldo na televisão...'eu recomendo.'... "



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Peter Gabriel no Brasil - 1993


Peter Gabriel, quando deixou o Genesis, resolveu seguir uma bela carreira-solo, lançando grandes discos. Gabriel era o front-man do Genesis, e mesmo com o grande sucesso que a banda fazia na época, decidiu seguir carreira-solo, arriscando trocar um sucesso garantido por uma sempre arriscada empreitada individual. Em seu trabalho solo Peter Gabriel não se prendeu ao progressivo, gênero que o consagrou como vocalista de uma das  bandas mais representativas do estilo. Resolveu arriscar, e abrir o leque de estilos, sendo inclusive identificado por parte da crítica musical como um artista de world music, um rótulo criado para identificar músicas normalmente criadas por artistas de países que tem uma sonoridade própria, e que não se encaixam em referências musicais mais conhecidas, como países africanos, latinos, e a música brasileira, entre outros. Em 1993 Gabriel tocou Brasil, numa turnê intitulada Secret World Tour. O show que ele fez na casa de shows Imperator no dia 7 de outubro daquele ano, foi comentado no jornal A Clava do Som, em matéria assinada por Mario Marques Neto:
" 'Finalmente vim tocar no Brasil'. Mais apoteótica que as primeiras palavras dirigidas ao público por Peter Gabriel só mesmo sua entrada no palco. Singelo, misterioso e fascinante, o vocalista lança seus olhos azuis na plateia que retribui com os olhos fixos em todos os seus movimentos. O que parecia ser uma loteria - já que a poucas horas do show houve modificações no repertório - se transformou no melhor espetáculo do ano.
Com o Imperator lotado, Gabriel despreza o infeliz, fabricado 'world music' e mistura Música Progressiva, ritmos africanos e pop refinado, aliados à tecnologia de ponta. Não aquela coisa de 'chaka chaka' e derivados. Música trabalhada, característica rara num mercado onde a música fácil vende mais. E não poderia ser diferente. A banda infernal que o acompanha não desmente isso: Davis Rhodes (guitarra), Tony Levin (baixo), Manu Katché (bateria), Jean Claude Naimro (teclados) e L. Shankar (violino).
A Secret World Tour, que percorre a América Latina divulga seu mais recente trabalho, 'Us' (aliás, segundo disco com  título resumido em apenas duas letras. Superstição?), que contaria com a participação da polêmica Sinéad O'Connor. O desespero tomou contas dos fãs quando foi anunciado o possível 'backing' de Gal Costa em pelo menos três músicas, substituindo Sinéad já que a irlandesa teve que voltar mais cedo por motivos não divulgados. Graças a Deus não aconteceu.
Ao contrário do que a maioria esperava, o show de Gabriel foi mais progressivo que pop. Utilizando elementos básicos nas mudanças de clima outorgados pelo eficiente Naimro e sustentados por heroicas viradas de batera do africano Katché, Gabriel surpreendeu quando colocou à prova seus dotes vocais, íntegros e sem ruídos cômicos. 'Solsbury Hill', uma de suas composições mais inspiradas, foi distinta da apresentação em 'Plays Live', que foi amparada por Mr. Synergy, Larry Fast. 'Red Rain' também foi fundo na galáxia progressiva, esticando os módulos até o ritmo concreto. 'In Your Eyes', algo meio 'brasileiro', tipo 'forró-melodia', saltou do disco com mais alguns pontos, devido à presença do mestre Milton Nascimento, que deu uma 'palhinha' entremeando a canção com um refrão da clássica 'Carpet Crawl' (Genesis), e pelo jeito era uma das poucas coisas que ele conhecia do trabalho de Gabriel, face ao constrangimento a que foi submetido. Isso porque nas três músicas em que permaneceu no palco ficou mudo. Em 'Biko', balada progressiva com sangue africano, sua voz praticamente não apareceu. Ao final da  música, foi deixado de lado por Gabriel que abandonou o palco sem nem olhar para Milton. E ele foi atrás um tanto decepcionado. O grupo de meninos do Olodum foi um show à parte. Um pouco fora de compasso, valeu mais pela animação, o clímax.
Pra solidificar ainda mais essa praia progressiva, Gabriel teve o apoio do violino de Shankar como solo para sua voz e, hora ou outra, duelavam as vozes. Shankar fazia o agudo aportando o tom de Gabriel.
Peter Gabriel nos tempos do Genesis
Se o conceito de Peter Gabriel junto à crítica subiu nos últimos três anos, se deve à música 'Mercy Street', do disco 'So", que fez o nome do ex-Genesis frequentar as FMs brasileiras onde se encontra consignado. A projeção da música pop no Brasil é tão forte que entre a belíssima 'Come Talk To Me' e a fraquinha 'Sledgehammer' adivinha qual deu mais ibope? É. A segunda foi o pico de empolgação do show enquanto a primeira, que foi a abertura, ficou a ver navios.
As músicas de 'Us' ao vivo tiveram um tratamento instrumental que valorizou as performances dos músicos, explorando seu lado teatral. E nessa arte, Gabriel era melhor com o progressivo. É que o teor das novas músicas impõe ao cantor coreografias que nada tem a ver com sua personalidade. Pulinhos, rebolados, corridas ao redor do palco, caras e bocas, mão pro lado, braço pro outro. Estranho. Mas Gabriel se esforça para parecer natural. Quem já o prestigia há algum tempo, sabe que ele é sóbrio e às vezes, muito tímido. É o lado pop da coisa. "

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Gal Costa - Jornal Hit-Pop (1977)

Em 1976 Gal Costa lançou o álbum Gal Canta Caymmi, que foi muito bem recebido por  público e crítica. Nesse disco Gal homenageava o grande mestre que influenciou tanta gente em nossa música, em especial os baianos. Após ouvir inúmeras composições de Caymmi e selecionar o repertório, o disco foi lançado tendo que se deixar muitas boas composições de fora. Em janeiro de 1977, o jornal Hit-Pop, suplemento da revista Pop, traz uma entrevista com Gal, que ensaiava o show que seria realizado com o repertório do disco. Na entrevista Gal fala de seu trabalho, do disco, do show, e de uma polêmica que acontecia na  época, entre os baianos e os demais artistas nordestinos, em especial os cearenses. A matéria intitulada "Depois dos trinta, Gal quer voltar a acontecer" é assinada por Eduardo Athayde:
"Era a terceira vez que Vatapá era ensaiada. Naquele calor infernal, Gal Costa se empenhava ao máximo, movimentando-se na saleta de ensaios da gravadora Phonogram. Seus músicos é que demonstravam cansaço. Gal sentou-se ao lado do guitarrista Perinho e reclamou:
- Tá faltando molho. Aumenta o pique, Perinho.
A uma ordem do líder, Rubão (baixo), Antonio Adolfo (piano) e Pedrinho (bateria) empreenderam um pique que deu a devida retaguarda rítmica à pulsante voz de Gal. Assim alegre, ela retomou a alegria, os vestidos floridos, o riso aberto.
- O pique nunca deixou de existir, mas está tudo mais forte agora. Estou louca para pisar num palco e rasgar o peito.
Quando isso acontecer, o público verá uma cantora cheia de garra e de explosões, voltando ao gênero que abandonara nos tempos de 'Cantar' e 'Encontro com Caymmi'. Gal tem sido muito bem comportada, na voz e no palco. Ela analisa a mudança:
- Esses dois últimos anos de minha carreira foram super-gratificantes. O Caymmi, eu sempre admirei, mas não o conhecia pessoalmente. O show que fizemos juntos foi uma grande homenagem a ele, e só isso já tornava o espetáculo uma coisa difícil, corajosa. Ali, eu tinha que ter muita vitalidade, para compensar a quietude do Caymmi, e tentar equilibrar a coisa. Mas foi um show realmente genial.
São quase dez horas da noite. Gal está ensaiando desde as cinco, repassando músicas para conseguir aquele pique falado. Vestida de calça jeans, blusa vermelha amarrada na cintura, descalça, ela rodopia num minúsculo tablado de madeira, enquanto canta Baby. Gal está contente, e mais alegre fica ao lembrar dos 'Doces Bárbaros':
- Foi um momento maravilhoso. Reencontrei Gil, Cae, Bethânia. Somos pessoas que se conhecem há muito tempo, e que nunca se encontravam, à vontade, para discutir, curtir. Na Bahia, iniciando a carreira, éramos jovens e idealistas, sonhadores que queriam tomar o Rio de assalto. Com os 'Doces Bárbaros', tivemos a chance de de nos expormos, brigarmos da forma mais despojada possível. Isso tudo nos enriqueceu muito. Bethânia, que sempre foi a mais desligada do grupo, entrosou-se no show de verdade. Éramos como irmãos, e havia muita tensão no ar. Ou você pensa que irmão não briga? Ninguém podia mentir, e tivemos que rasgar o coração, para conseguir nosso intento. Tudo era encarado como uma forma de criação, e resultou num despojamento total das individualidades, e extrema boa vontade de todos.
Às onze, Gal resolve parar. E, da Barra, seguimos para seu apartamento em Ipanema., 'onde me seguro, enquanto as obras de minha casa na Barra não terminam'. Mal se abre a porta do sétimo andar, três cachorros, enormes filas, intimidam o visitante. Em poucos minutos, Gal está se servindo de vatapá e algas marinhas, mistura que garante ser ótima. Na tevê, um tape de futebol. Gal, sorvendo uma cervejinha na lata, quer saber: 'Rivelino joga bem, né, nego? Pelo menos, tem um chute arretado. Não entendo muito de futebol, mas me amarro no chute do Rivelino'.
Ao lado da amiga Vilma, Gal fica curtindo o jogo do escrete brasileiro, sem se esquecer de repartir atenções entre os três cachorros. Que continuam intimidando o visitante desavisado. Com os pés sobre o sofá - findo o tape, desligada a tevê - Gal Costa fala sobre sua vida, sua carreira:
- Agora, estou sentindo uma vitalidade muito grande nas pessoas, com relação à música. Uma vontade de criar coisas bonitas e fortes. Estou totalmente apaixonada pelo meu trabalho. Quero retomar as  coisas que fiz em Fa-Tal e Le-Gal, mas de uma forma nova e madura. Muito ritmo. Não sei se é o verão, mas parece que estou renascendo. Aliás, dizem que depois dos 30, a gente cria alma nova. Acho que isso é o tal de amadurecimento. Isso não quer dizer absolutamente, que Gal Costa se acomodou. Pelo contrário. Estou de olho, preparando o bote certo.
Resumindo. Em poucos dias, a brejeira Maria da Graça volta a dar lugar num palco, à exuberante Gal, misto de mulher e pantera, disposta a rasgar o peito e conquistar o público. E  é essa mesma Gal Costa que se mostra enfezada, ao comentar as  declarações de Fagner. O compositor cearense, tempos atrás, acusou o 'grupo baiano' de se fechar em igrejinha, impedindo a ascensão de novos valores. Gal está furiosa: 'Mas isso é uma ingenuidade das mais tremendas. Nunca tive, ou tivemos intenção de prejudicar alguém. Se Fagner não acontece é por incompetência. Belchior é novo e já estourou muito na praça. Ele é sacador, é brilhante, coisa que não acontece com Fagner. Isso é coisa de criança. Pior ainda. É uma forma para explicar incompetência. Aliás, quem é esse tal de Fagner?' Gal desculpa-se: quer dormir. "