Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 7 de março de 2016

Alceu Valença O Leque Moleque de Pernambuco - Revista Manchete (1987) - 2ª Parte

"Além das influências literárias que você já apontou, algum artista te influenciou diretamente? Você seguiu alguma linha musical? 'Eu não sou filho da bossa nova nem do tropicalismo. Sou outra coisa. A minha música, segundo a definição de um amigo, que concordo, é o Nordeste moderno. Claro, tenho raízes reais na região. O meu trabalho é fruto direto da minha vivência. Eu absorvi coisas de maneira muito natural.
Eu não fiz pesquisas nem vivo defendendo raízes com unhas e dentes, não é essa a história. Mas adquiri naturalmente essas coisas. Fui absorvendo as coisas que ouvia no meio da rua, cantadores, violeiros, aboiadores. Sei como me equilibrar em cima de uma burrinha de cavalo-marinho. Aprendi a aboiar. Cantar naturalmente um coco-de-roda. Se treinasse, eu poderia criar alguma coisa para o coco-de-roda. Eu podia ter sido um violeiro se tivesse ficado em São Bento do Una. As coisas foram somando e fui somando informações. E por sorte, ou azar, não sei, eu poderia ter sido uma pessoa feliz se tivesse ficado por lá. Podia ter sido um advogado ou promotor em São Bento. Mas o destino foi me levando. Então, bebi muitas influências, mas as mais fortes foram de São Bento do Una. Lá foi minha infância e eu continuo vivendo minha infância porque eu não quero crescer.'
Como é o processo de carpintaria de tua música? 'Eu tenho uma verdadeira obsessão pelo som que que podemos retirar das palavras. Aí a música vem junto sem ser algo muito elaborado. Som em palavra é isso que me cativa.'
Fiz uma música que tá nesse disco que é uma brincadeira com a palavra. Diz assim: 'Iris, olhando as penas coloridas dos concrises, dos sabiás e dos rouxinóis e das perdizes/lembrei de ti ó linda Iris./Será que somos dois eternos aprendizes?/O amor se planta e ganha força das raízes./Ó Iris, quando vieres caçaremos arco-íris e borboletas só pra tu te distraíres/e só me importa que eu delire e tu delires.' Tá entendendo? Então, quando eu escuto a música sem sonoridade, rimas em ão, que é muito pobre, então isso me dá agonia. Eu gosto muito da sonoridade de Caetano. Chico brinca legal com as palavras. Gil manuseia bem. Um que é bom, é ótimo, é Luiz Melodia. Quando estou botando uma letra numa música, quase sempre elas saem juntas. Num verdadeiro delírio. Quando não, velho, eu fico numa agonia danada procurando a palavra, aquela. E muitas vezes eu não procuro o sentido da palavra, e quando dou conta ela encaixa perfeita. Vou caçando as palavras no ar, figurativamente, claro, mas depois aquilo tudo vai encaixando e brotando energia, força, luz. A música popular brasileira está passando por uma transformação. É o sinal dos tempos. O mundo tá ficando pequeno. Você recebe uma carga de informação muito grande de fora, e de repente, se tenta fazer uma linguagem que seria universal, para abranger o mundo. Mas acho que infelizmente essa essa energia toda vem de um ponto, por exemplo, vem de Nova Iorque. As pessoas, sem que isso posa ser tomado como xenofobismo de minha parte, estão ouvindo mais os sons de fora do que as coisas da terra. Perderam a intimidade com as coisas da terra. Perderam intimidade com a sua cultura. E acho que a própria transmissão de cultura não é feita de uma forma natural. Em casa, hoje, através da família, você já não recebe mais a carga de tradição, de informações, como acontecia antes. Como, por exemplo, aconteceu comigo. A música tá vindo de fora o tempo todo. Eu bato um baião danado, um maracatu que você precisa ouvir. Com quem assimilei isso? Talvez tenha sido meu avô, lá em São Bento do Una.' "

(continua)



domingo, 6 de março de 2016

Alceu Valença O Leque Moleque de Pernambuco - Revista Manchete (1987) - 1ª Parte

Envolvido atualmente com o lançamento de seu primeiro longa-metragem, A Luneta do Tempo, Alceu Valença prova mais uma vez que é um artista multimídia e inquieto, sempre disposto a se envolver em diferentes manifestações de arte. Cada disco que Alceu lançou ao longo de sua carreira carrega a marca de sua poesia e musicalidade, circulando entre a música regional, o rock e a MPB tradicional com maestria e talento. Assim foi com o disco Leque Moleque, que Alceu lançou em 1987, que ele havia acabado de lançar, e foi matéria da revista Manchete, em uma série chamada "Um cantor e seu canto". Escrita pelo jornalista Paulo Fradique, segue abaixo a primeira parte da matéria:
" 'Em São Bento do Una eu nasci. Olinda é o delírio, onde tenho meus amores. Em Recife bebi a negritude, aprendi a vida de obrigações'. Com palavras de poeta, Alceu Valença abre os braços, solta a voz, conta seus segredos, 'coisas de cantadores, violeiros, aboiadores'. Tudo muito natural: Rita Lee é São Paulo, Caetano Veloso é Bahia, Tom Jobim é Rio, Alceu é Pernambuco. Só que cantando o Nordeste inteiro, com voz de mundo. Aos 13 anos de careira - iniciada em 74 -, com passagens pelo Rio e Europa, 11 LPs gravados, Alceu se diz todo nesta segunda reportagem de Manchete sobre os cantores e seu canto. 'Eu estou inteiro no meu novo LP, Leque Moleque', avisa. Leia - e abóie com ele pelas ruas de Olinda.
Como Alceu Valença definiria Alceu Valença? 'Eu sou uma pessoa que tem um estilo e esse estilo é múltiplo. São várias caras de um mesmo personagem. Agora estou lançando o disco Leque Moleque, que é muito aberto e mostra diversos caminhos meus. O artista está dentro de mim. Eu não me divido em público. A minha arte atinge cada vez mais gente, cada vez um número maior de pessoas. Eu sei diferenciar muito bem o artista Alceu Valença daquele mito que as pessoas construíram à minha revelia. Aí eu sei, naturlmente, que não tenho essas forças todas que pensam que eu tenho. O mito é um super-homem. Mas eu sei muito bem delinear o limite até onde sou eu e a partir de onde começa o Alceu criação popular. O grande perigo é você viver a fantasia que as pessoas costuraram pra você. Minha carreira demorou muito para acontecer. Eu comecei a fazer música muito naturalmente. Nunca pensei em ser artista. Ser cantor, gravar disco... eu pensava que ia seguir uma carreira como outra qualquer, de advogado, como cheguei a me formar. O início da minha carreira foi muito espontâneo. Quando fui ao Rio, depois de formado, eu estava em busca de emprego.' 
O que se passou em tua vinda entre São Bento do Una e Recife, Olinda? 'Eu nasci em são Bento do Una. Lá eu tenho uma base sertaneja. Os cocos, emboladas, aboios, dessas coisas todas. Em Recife eu cheguei com nove anos de idade. Aqui eu bebi  a negritude da cultura pernambucana, coisa que no agreste não tem muito. Aqui é bem mais negro. Os maracatus, os blocos de frevo, os caboclinhos que passavam em frente de minha casa, na Rua dos Palmares. Eu me deparei com esse outro aspecto da cultura do mesmo estado. É o meu tripé de sustentação: São Bento do Una, Recife e  Olinda. Em cada uma dessas cidades eu vivi uma fase de formação. Em Recife eu ouvi muito rádio, calipsos, rock, Elvis. Olinda é o delírio poético. É  fantasia. É em Olinda que eu tenho os meus amores. Ainda em Recife eu aprendi a vida de obrigações, colégio, faculdade, oportunidade em que tomei gosto por literatura. Antes teve o curso clássico no Colégio Nóbrega, quando comecei a me interessar por teatro, artes plásticas. Eu teria sido pintor não fosse a falta de habilidade. Fui atraído pela política estudantil, pela boemia e pelos bares. Tudo isto me deu um lastro humanista. Uma abertura para muita coisa. Um leque aberto de informações. E essas coisas todas entraram em minha formação de artista. Eu poderia citar também como influências dessa fase a poesia de Ascenço Ferreira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond, Fernando Pessoa, Joaquim Cardozo. Disso tudo eu tirei um produto meu, original. Há em mim uma musicalidade natural. Em música popular, a letra quase sempre não resiste sem a música, o conjunto é uma coisa muito bonita, aí você tira a música e não tem mais nada. A minha letra eu tenho certeza que resiste. Por exemplo; 'Quando eu olho para o mar/dentro do mar vejo o rio/quando olho para o rio/dentro do rio vejo a chuva/quando olho para a chuva é como se olhasse as nuvens/quando eu olho para as nuvens é como se olhasse o mar/quando eu olho para mim, dentro de mim tem você/quando olho pra você por dentro sinto saudade/quando eu olho pra saudade meus olhos vão desaguando e é como um rio passando que não corresse pro mar.' É o ciclo das águas, né? Pelo fato de eu ter sido muito antes poeta, influenciado pela literatura. Aliás, eu não falei ainda que escrevi poemas e remetia para os jornais locais. Eu escrevia e  publicava no Jornal do Commercio. Então, o que aconteceu? Antes de eu fazer uma música, que dei pra Bethânia (não sei se ela vai gravar...), que acho muito bonita. É uma música mas que é também poesia. Ela diz assim: 'Haverá sempre entre nós esse digo não digo/esse 't' de tensão, esse ar de amor ressentido/um recado falado, um bilhete guardado, um segredo/um carinho no lábio, um desejo guardado, um azedo./Qualquer coisa no ar/esse desassossego/no metrô da saudade seremos fiéis passageiros/um agosto molhado/um dezembro passado/um janeiro/cessará finalmente entre nós esse minto não minto/esse 'i' de ilusão, 't' de tensão infinito.' Eu tenho certeza de que isso é poesia. É um traço das coisas que eu li e me influenciaram.'

(continua)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"Jimi Hendrix Está na Dele' - Luiz Carlos Maciel (O Pasquim - 1969)

Eu possuo muito material sobre Jimi Hendrix, entre recortes, livros, revistas, etc, mas de todo esse material impresso, somente um é do tempo em que ele ainda vivia.Trata-se de uma matéria publicada no jornal O Pasquim, em 1969, na coluna Underground, escrita pelo jornalista Luiz Carlos Maciel. Em sua coluna Maciel falava de contracultura, rock, comportamento e coisas ligadas aos movimentos ligados a uma nova corrente de pensamento, ligada ao movimento hippie, flower power, etc. E Hendrix era um importante personagem de toda essa corrente musical e comportamental que era destacada na coluna Underground, que hoje faz parte da história da contracultura no Brasil. A matéria tem por título "Jimi Hendrix está na dele':
"Para quem quiser saber como vai ser a música do futuro, da próxima década dos setenta, não conheço dica melhor do que os discos de Jimi Hendrix. Três deles já foram editados no Brasil: Smash Hits, Eletric Ladyland e Axis: Bold as Love. E outros certamente virão. Os quadrados torcem o nariz diante deles. Mas a garotada prafentex identifica neles o som  da nova Idade Elétrica na qual, segundo Marshall McLuhan, estamos inexoravelmente ingressando.
Hendrix é um crioulo americano de cara esquisita, cuja formação musical é claramente feita pelo rythm and blues que floresce no Harlem e em outros guetos negros dos Estados Unidos. Sem a sofisticação do jazz, que sempre foi uma manifestação musical superior, o R&B tem, porém, as suas inflexões negroides e força primitiva. Como o jazz, o R&B conheceu a sua variante branca, diluída e dirigida por interesses comerciais mais amplos. Chama-se rock and roll e, como se sabe, foi a origem da música dos Beatles e o canal adequado para que as guitarras elétricas manifestassem sua inédita sonoridade. Hendrix tocou guitarra com alguns conjuntos de R&B, viajou para a Inglaterra, sofreu a influência do trabalho dos Beatles e dos Rolling Stones e voltou aos Estados Unidos para formar o seu próprio conjunto: o hoje célebre Jimi Hendrix Experience.
O lendário Jimi Hendrix Experience
Hendrix não usa muitos instrumentos: o Experience é um trio que conta, além de sua guitarra elétrica, com um baixo e uma bateria. Ao contrário do esquema tradicional da base rítmica (feita pelo baixo e pela bateria, por exemplo), Hendrix cria uma rica polifonia de três linhas melódicas, usando cada instrumento como solista e harmonizando-os como muita inventiva. Ele retomou a orientação experimentalista dos Beatles e tenta levá-la ao seu limite. Recolheu também a contribuição de música oriental, o que veio a ser um dos elementos característicos de seu novo som.
Em que reside, porém, a originalidade desse novo som? Ao contrário da maioria de seus companheiros de viagem, Hendrix concentra suas experiências sobre o aparato elétrico de seus instrumentos. Excelente instrumentista, na verdade um músico de qualidade superior por qualquer critério, ele explora todos os sons conhecidos e alguns desconhecidos da guitarra elétrica. Até mesmo a distorção deliberada do registro elétrico de suas gravações, é amplamente utilizada. Basta escutar Eletric Ladyland, principalmente na edição original, que consta de dois LPs, para verificar que Hendrix já transformou, hoje, a eletricidade no seu verdadeiro veículo de expressão musical. O que a música eletrônica aspirou a fazer, Hendrix realiza a nível da música popular.
A diferença está no fato de que a música eletrônica, apesar da audácia, continua ligada à tradição racionalista, letrada - como diria McLuhan - da arte ocidental, enquanto a de Hendrix corresponde ao que o mesmo McLuhan chama de tendência à retribalização da juventude contemporânea. Ela envolve para ser devidamente apreciada, uma nova sensibilidade musical que os Beatles apenas insinuaram nos seus ouvintes. Hendrix a assume, na sua integridade, e a exige em seus próprios ouvintes. É por isso que digo que a guitarra elétrica, em Jimi Hendrix, não é apenas um novo som; é uma nova experiência existencial que exige, para que se estabeleça uma comunicação efetiva, uma alteração profunda na própria maneira de viver do ouvinte, nos próprios valores que norteiam seu comportamento e no seu próprio sistema nervoso. Sim: a música de Jimi Hendrix  exige uma readaptação certamente mais fácil aos jovens da nova sensibilidade. Esse é o segredo da sua força e de sua originalidade."

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Raul Seixas e os Malditos - Revista Vizoo - 2005 (2ª Parte)

" A marca registrada dos chamados malditos sempre foi a rebeldia. Para Sílvio, Raul Seixas, era um ser à parte, único. Tom Zé, nunca se encaixou. 'Deu apenas uma amansada quando o inglês (o escocês David Byrne - ex-líder dos Talking Heads e proprietário do selo de world music Luaka Bop) o descobriu.
De uma forma geral, eram malditos aqueles que não se encaixavam no esquema mídia-gravadoras-mercado. 'A turma toda que foi caçada pela censura teve um retorno muito bom na mídia. Chico, Caetano, Gil... Depois, quando ela acabou, venderam muitos discos. O Jards e o Jorge Mautner até hoje não conseguem vender, entrar na mídia. Nem sei também se eles querem participar dela. 'Parece haver uma diferenciação entre os que compunham o que realmente sentiam e os que faziam isso objetivando outros fins, numa espécie de farsa. 'Talvez seja por isso que sejam malditos, por serem verdadeiros. Agora, o Chico é um cara verdadeiro...'
A prova disso é que eles continuam sendo as mesmas pessoas. O mundo mudou, e ainda são os malditos-benditos, coerentes com o que está dentro deles.
Lanny Gordin
Até hoje, sempre que possível, Pinhati procura estar presente fotografando quando algum dos seus malditos se apresenta em São Paulo. 'É difícil hoje a gente ver um show do Jards Macalé, do Jorge Mautner. O Luiz Melodia até se apresenta no Rio, mas aí fica difícil'. Emenda citando a efervescência musical do início dos nos 80, de gente que começou no teatro Lira Paulistana. Instalado em um porão da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, foi polo do movimento conhecido como Vanguarda Paulistana, que revelou nomes como o Ultraje a Rigor e os Titãs do Iê-Iê (depois conhecido como Titãs). Além das apresentações dos novos talentos da época, rolavam também shows de Macalé, Jorge Mautner, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque e Itamar Assumpção.
Mesmo após tanto tempo, Sílvio acha que ainda tem o que fotografar, que a história de seus malditos não acabou. 'Na época eu fiz muitas fotos. E hoje em dia ainda é muito gostoso, porque é prazer. Acho que só vai acabar quando a gente morrer'. E finaliza; 'Como o Jorge (Mautner) fala, 'é tudo coração'. Esse mundo é muito bacana, muito bonito e espero que apareçam novos que tenham essa coragem para viver esse caminho'.

Breve Registro
Filho de músico, mas segundo ele mesmo com dificuldades nos tons e semitons, Sílvio Pinhati viu na fotografia, outra paixão da família, a chance de estar perto da música. 'Desde criança eu e meus primos fazíamos concursos. Cada um pegava uma máquina e ía fotografar alguma estória. Depois revelávamos os filmes em casa mesmo. Costumo dizer que não procurei a fotografia, ela me encontrou. Hoje não sei fazer nada que não esteja relacionada a ela.'
Passada essa época, Sílvio foi morar em São Paulo, onde a fotografia voltou com força total. Enquanto estava na escola de fotografia da irmã, dividia a casa que morava com um uruguaio, segundo ele, um mestre chamado Americo. Americo havia morado em Paris, era amigo de Dali e da turma do surrealismo. Para  Pinhati, ali a coisa realmente aconteceu. 'Juntei as artes plásticas à minha fotografia, que melhorou muito. Americo falava das cores em graus. Três graus do verde, dois graus do vermelho.' Segundo ele, o pintor ficava às vezes no Masp das oito da manhã às cinco da tarde em frente a um Van Gogh, só fazendo esquemas. 'Esse era um cara maluco, bem maluco. E tinha esse lance muito doido que o despertou: ele falava que tinha que haver uma troca, que o momento certo do clique é quando as coisas olham pra você, e não apenas você olha pra elas. Tem que estar com a mente aberta para captar essas coisas. ' "

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Raul Seixas e os Malditos - Revista Vizoo - 2005 (1ª Parte)

Em 2005 a revista Vizoo trazia uma matéria de capa em que destacava Raul Seixas e os "malditos da MPB". Apesar de não ser considerado um "maldito", por seu trabalho ter feito sucesso e ter sido reconhecido pelo grande público, Raul Seixas é colocado entre esses artistas marginalizados pelo mercado musical por sua postura sempre contestatória. A matéria é assinada por Gustavo Frank, e destaca o trabalho de um fotógrafo, Silvio Pinhati, que costumava fotografar vários desses artistas. Todas as fotos que ilustram as duas partes dessa postagem são de sua autoria. A primeira parte da matéria é transcrita abaixo:
" 'Verdadeiros. Eles falam o que acham, sentimentos, coração, amor'.
Com essas palavras, o paulista Sílvio Pinhati, que entre o final da década de 70 e meados dos anos 80 fotografou de forma contumaz as apresentações de um grupo especial de compositores da música brasileira, define os nomes que até hoje fazem a sua cabeça, e que carinhosamente chama de malditos. A alcunha de maldito, no caso, é um verdadeiro elogio ao talento contestatório de Jards Macalé, Jorge Mautner, Tom Zé, Luiz Melodia, Lanny Gordin e Raul Seixas.
Enquanto fotógrafo, Sílvio não conseguia encontrar alguém que ampliasse suas cópias com os resultados desejados. Por conta disso, passou a revelar seus filmes e preparar as próprias ampliações. Hoje, seu laboratório fotográfico é considerado um dos melhores de São Paulo, tendo como clientes cativos nomes do quilate de Mario Cravo Neto e J. R. Duran, além de ser o único do país autorizado a manipular os originais do etnólogo e fotógrafo francês Pierre Verger.
Logo que chegou a São Paulo, em 79, Silvio passou a frequentar os lugares onde rolavam apresentações musicais. A insistência em registrá-los todos os dias fez com que passasse a ser reconhecido pelos artistas, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. Aí surgiu o conceito dos malditos. Músicos com os quais se identificava muito, e que obviamente, sempre considerou acima de tudo benditos. O termo foi cunhado por achá-los verdadeiros e por não se encaixarem no esquema comercial. 'Não sei nem se eles gostam desse termo', observa.
Raul Seixas e o guitarrista Lanny Gordin moravam em São Paulo. Já Jards Macalé e Jorge Mautner vinham da cidade do Rio de Janeiro para se apresentar. Luiz Melodia (um dos caras mais cariocas que conheceu) também, mas com menor frequência. Assim, foi normal que a convivência com alguns ultrapassasse a fronteira fotógrafo-fotografado. Considera Jorge Mautner e Jards Macalé como amigos. Lanny é um cara que vê até os dias de hoje. Com Raul, teve uma relação, em suas palavras, muito bacana. 'O Lanny é um maluco, o Jorge é um maluco, o Jards até talvez seja uma pessoa mais centrada hoje, mas não deixa de ser maluco'. Para Silvio essa convivência lhe transmitia uma coisa muito boa.
Capa de revista
Nessa época, Raul Seixas já era um mito. Apaixonado por sua música, Pinhati logo concluiu que a primeira pessoa que deveria fotografar era ele. E assim foi, ano após ano, show após show, até que um caso inusitado o aproximou do ídolo. Ao ir a uma passagem de som com o intuito de conseguir se credenciar para poder fotografar determinado show, Silvio, que estava meio duro na época, deixou para comprar os filmes em cima da hora, antes de chegar no local do evento. Acabou se atrasando e partiu sem filme mesmo, só com a câmera. Lá, durante uma pausa, Raul Seixas saiu do palco para atender a imprensa causando grande alvoroço, com todos fotografando ao mesmo tempo. Sem filme, Sílvio ficou parado, só observando, com a máquina pendurada no pescoço. 'Não é que acabei atraindo a atenção do cara? Foi o máximo, ele me chamou e disse que queria ser meu amigo. Ele nunca soube que naquele dia não o fotografei simplesmente porque estava sem filme. Mas o Raul é uma pessoa... O que dizer dele? Basta ouvir sua música.'
Nessa fase, o corpo de Raul Seixas já dava sinais de que os arroubos cometidos nos anos anteriores estavam cobrando a conta. Em alguns shows, as pessoas achavam que não se tratava dele, que era algum sósia em seu lugar. Quase foi linchado numa apresentação no interior de São Paulo. 'O que eu saquei na época era que o Raul fazia um teatro ali. Ele não tava tão doido, tão doente quanto parecia. Acho que no fundo era uma pessoa sempre muito consciente de tudo. Nessa loucura toda, não sei se ele estava tomando remédio, não sei que porra que estava acontecendo que fazia com que ele não conseguisse tocar, cantar as músicas. Não lembrava da letra, não conseguia fazer os acordes.' Havia uma pressão das pessoas mais próximas, provavelmente da mulher (Kika Seixas) e dos demais integrantes da banda para tentar domá-lo, acalmá-lo, tentando curar algo que não tinha cura, para qual não existia remédio. 'Afinal, o cara era o maluco beleza', diz Sílvio, encerrando o assunto.
Das histórias do convívio com os malditos, Jorge Mautner é um dos campeões. A mistura de excentricidade com bagagem cultural tornava-o capaz de fazer coisas como pegar o violino e tocar de ouvido os hinos nacionais de pelo menos 30 países. Em certa ocasião, ficou hospedado na casa do fotógrafo na mesma época em que escrevia um de seus livros. No meio da noite, bateu na porta do quarto de Pinhati dizendo que queria fazer umas fotos, e para montar o cenário revirou a casa toda.
Itamar Assumpção
Outro que deixa saudades é Itamar Assumpção, falecido em 2003. 'Foi uma pessoa que infelizmente só fotografei uma vez', lamenta Silvio. Aconteceu durante uma apresentação num colégio em São Paulo, quando eu estava começando a fotografar. Ao chegar no local da apresentação, Sívio perguntou ao produtor se poderia fotografar, pois tinha a ideia de fazer um livro um dia. Foi devidamente autorizado. Mas havia uma combinação na qual, durante o show, Itamar iria brigar com um fotógrafo. 'Como eu apareci lá na hora eles pá, me pegaram de gaiato. 'Chegou o otário, aí, vai ser esse mesmo!' Começa a apresentação e  Pinhati inicia seus cliques. Logo Itamar passou a interromper as músicas e falar para o fotógrafo que iria descer e dar umas porradas nele. Voltava a cantar e Sílvio recomeçava a fotografar. E dá-lhe esporro. 'Foi assim umas três, quatro vezes, até que mandei ele ele se foder, peguei minha máquina e fui saindo.' Nesse momento Itamar Assumpção  revelou que tudo estava combinado, que era uma brincadeira e que poderia fotografar à vontade. Ainda muito nervoso, Sívio não conseguiu fotografar mais nada."

(continua)



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Nara Leão - Eterna Musa (2ª Parte)

" Ao contrário do que pregava a letra da canção, o lobo Bôscoli não estava assim tão amarrado, apesar do noivado com Nara depois de quatro anos de namoro. Nessa época, 1961, Bôscoli fora excursionar pela Argentina, Chile e Uruguai na condição de diretor dos shows que a cantora Maysa  faria nesses países. Bôscoli e Maysa tiveram um caso durante a turnê e, na volta ao Brasil, ainda no aeroporto, Maysa anunciou à imprensa que iria se casar com Bôscoli - para inteira surpresa deste.
Nara soube da notícia pelos jornais e ficou esperando o desmentido que nunca veio. Bôscoli sumiu alguns dias na esperança que a história morresse. Depois procurou a ex-noiva, que se recusava a atendê-lo. Amigos comuns intercederam, mas ela permaneceu irredutível. Até que Bôscoli ligou para o apartamento do Champs-Elysées e conseguiu falar com Nara, ou melhor, tentou:
- Nara, aqui quem fala é Ronaldo Bôscoli.
- Quem é Ronaldo Bôscoli?, ela devolveu, desligando o aparelho, deixando o ex-namorado pendurado na linha completamente desconcertado.
Só a própria Nara poderia dizer o quanto doloroso foi o rompimento. Coincidência ou não, a partir daí sua carreira começou a deslanchar. Ela se reaproximou de Carlinhos Lyra, que havia rachado com a turma do apartamento. Lyra ajudara a criar o Centro Popular de Cultura (CPC), na praia do Flamengo, e vinha compondo músicas que falavam de pobreza, injustiça social e que batiam de frente com a temática sol, mar e barquinho dos ex-companheiros. Nara estrelou a comédia Pobre Menina Rica, de Vinícius e Carlinhos Lyra, e começou a namorar o cineasta Ruy Guerra, também ligado ao CPC. A surpresa veio com o lançamento do seu primeiro LP, em 1963. Nara, gravado pela Elenco, trazia compositores do morro como Cartola e Nelson Cavaquinho, os primeiros afro-sambas de Baden Powell e Vinicius e nada do que era considerado tipicamente Bossa-Nova - logo ela, musa do movimento.
No ano seguinte, ela gravaria o disco Opinião de Nara, que daria origem ao show Opinião. O país já estava sob o tacão dos militares. Eles não gostaram nada de ver pregação esquerdista do musical, em que Nara dividia a cena com os cantores João do Vale e Zé Kéti. Gostaram menos ainda quando Nara começou a expressar suas opiniões em uma série de entrevistas. Na mais famosa delas, ao Diário de Notícias, pedia o fim das Forças Armadas 'que não servem pra nada mesmo, como foi constatado na última revolução'.
Nara e João do Vale no espetáculo Opinião
A repercussão foi tamanha, que o assunto nacional passou a ser o provável processo que Nara sofreria dos militares. Muitos saíram na defesa preventiva da cantora. Entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade, que publicou no Correio da Manhã um poema-carta de 17 estrofes - com rima e tudo - endereçado ao general-presidente Castelo Branco. Começava assim:
Meu honrado marechal,/ Dirigente da nação, / Venho fazer-lhe um apelo: Não prenda Nara Leão (...) 
Nara não foi presa nem sofreu processo. Não seria preciso. Nos anos que se seguiram o ar ficaria irrespirável por aqui. A ponto de, numa entrevista em 1969, ao semanário Pasquim, dar por encerrada a carreira artística. Ela tinha 27 anos. 'No momento não há condições de trabalho, não há estímulo, não dá vontade de cantar.' Pouco depois, ela e o marido, o cineasta Cacá Diegues, se auto-exilaram em Paris. Foi na capital francesa, que nasceu a filha, Isabel, e que ela retomou o prazer de tocar e cantar. Ali gravou as bases do disco que celebrou sua volta à Bossa Nova e ao convívio do grande amigo Roberto Menescal. No Brasil, como diretor artístico da gravadora Philips, Menescal comandou a produção do LP duplo Dez Anos Depois, que trazia 24 clássicos da Bossa Nova.
Na metade de 1979, Nara estava tomando banho quando sentiu uma forte tontura e apagou. Parecia que havia sofrido um derrame, mas não era certeza. Recuperou-se, mas passou a conviver com dores de cabeça fortíssimas, tonturas, desmaios e períodos em que não enxergava. Os médicos não conseguiam descobrir a origem do problema. Eram os primeiros sinais de um tumor benigno no cérebro, que levaria tempo até ser diagnosticado. Mais uma vez, Nara mostrou a grande mulher que era. Continuou trabalhando, gravando discos, fazendo shows, enfrentando a doença. Foi uma batalha de 10 anos. Ela dava os retoques num disco só com standards da música americana - My Foolish Hart, lançado postumamente -, quando o tumor saiu de controle. Foi internada na clínica São José, no Rio, no dia 19 de maio, entrou em coma no dia 24 e morreu em 7 de junho de 1989, ao meio-dia. "

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Nara Leão - Eterna Musa (1ª Parte)

Nara Leão foi uma figura ímpar dentro da MPB. Um dos principais nomes da Bossa Nova - dizem que o movimento surgiu em reuniões musicais no apartamento de seus pais em Copacabana - Nara não se limitou a participar somente daquele movimento musical que ganharia o mundo. Ainda no auge da Bossa Nova, Nara já buscava novas formas de se expressar musicalmente, e seu primeiro disco trazia composições de nomes mais identificados com as raízes do samba e da música de protesto. Ao longo de sua carreira Nara flertou com diversas outras manifestações musicais, sem contudo abandonar a Bossa Nova.
Em 2008, quando se comemorava os 50 anos do surgimento da Bossa Nova, a revista Contigo lançou uma caprichada edição especial sobre o movimento, com ótimos textos, mais de 70 fotos e um CD trazendo uma coletânea das principais gravações da Bossa Nova. Entre os artistas que ganharam uma resenha nesse volume especial, Nara não podia ficar de fora, e a ela foi dedicado um ensaio intitulado "Um leão chamado Nara", cuja primeira parte reproduzo abaixo:
"Seria uma tremenda injustiça Nara Leão ser lembrada somente como a dona dos joelhos mais cobiçados da Bossa Nova. O que lhe garantiu o título de musa do movimento. Natural que naqueles tempos pré-minissaia, a exibição de seu roliço par de atributos mexesse com a libido da rapaziada reunida no famoso apartamento da família Leão para fazer música. Eram, afinal, rapazes no vigor dos 18, 20 anos. Nara foi musa do movimento, sim, mas foi muito além. Inspirou a Bossa Nova e depois pareceu dinamitá-la, peitou os os militares numa época em que isso significava suicídio e, quando parecia que a Bossa Nova tinha se transformado numa lembrança na parede, retomou suas canções e brindou os ouvintes com gravações antológicas. Em resumo, Nara foi uma grande mulher.
Quem desse uma espiada na adolescente, porém, jamais imaginaria tamanha transformação. Aos 14 anos, em vez do sobrenome, a personalidade de Nara inspirava outros bichos, traduzidos nos apelidos pelos quais era tratada em casa: 'Jacarezinho do Pântano' e 'Caramujo'. A seu favor, diga-se: não era fácil viver à sombra da esfuziante irmã mais velha, Danuza Leão, em quase todo o seu avesso. Danuza era linda, chique, famosa e só namorava homens idem. A timidez de Nara beirava o patológico. O violão lhe salvava duplamente. Podia se esconder atrás dele e o instrumento lhe abria novos horizontes. O primeiro foi  presente do pai. Começou a ter aula aos 12 anos com Patrício Teixeira, cantor, instrumentista e compositor de Pixinguinha em diversos conjuntos.
A música entraria em sua vida graças a um vizinho de Copacabana, Roberto Menescal, com quem chegou a namorar. Menescal tinha uma academia de violão e uma turma que adorava tocar. Logo estavam todos espalhados pelo chão da sala do apartamento de Nara, o número 303 do edifício Champs-Elysées, bem em frente ao Posto 4. Os 90 metros quadrados da sala pareciam um latifúndio comparado ao palco das boates que muitos ali iriam enfrentar logo mais. Os garotos eram bem-vindos e bem tratados pelos pais liberais da anfitriã, a professora Tinoka e o advogado Jairo Leão. Numa entrevista, a cantora lembrou do clima reinante: 'Todo mundo ia à minha casa. O João (Gilberto), o Tom, o Vinícius, o Carlinhos Lyra, a Silvinha Telles, o Menescal. Era um apartamento amplo, na Avenida Atlântica, entre Santa Clara e Constante Ramos. Meu pai ficava jogando pôquer com o Millôr Fernandes, o Leon Eliachar e outros, enquanto a gente ficava cantando e tocando violão. De manhã, ele saía pra trabalhar, dava um oi pra todo mundo e a reunião continuava. De vez em quando, eu fazia uma macarronada para o pessoal comer'.
Na lista dos frequentadores ela omite uma das figuras centrais daquelas reuniões e de toda Bossa Nova: Ronaldo Bôscoli. É compreensível. Trazido por Menescal ao famoso apartamento da Avenida Atlântica, Bôscoli se encantou com Nara e a conquistou. ele tinha 28 anos, ela 15. Algumas canções da Bossa Nova com letra de Bôscoli foram inspiradas em seu romance com Nara. A mais explícita delas, Lobo Bobo, dizia: 'O lobo mau se derreteu/Pra você ver que lobo/Também faz papel de bobo/Só posso lhe dizer/Chapeuzinho agora traz/Um lobo na coleira'.

(continua)