Palavras Domesticadas

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Mistério do Samba - Hermano Vianna


Uma excelente obra retratando as origens do samba, visto sob a ótica da antropologia é o livro "O Mistério do Samba", de Hermano Vianna. O livro fraz um relato sobre as origens, a popularização, os preconceitos sofridos, e a identificação do samba como um marco da cultura de raiz do Brasil. Na orelha do livro, é citado um encontro histórico entre duas das figuras mais marcantes da cultura brasileira: Pixinguinha e Gilberto Freyre. A música e as ciências sociais se encontram numa mesa de bar. O texto diz: "Um encontro de bar ocorrido em meados dos anos 20, tendo Pixinguinha e Gilberto Freyre como principais protagonistas, é o ponto de partida e o mote deste livro, que busca elucidar um mistério: como o samba - música de morro discriminada pelo resto da população e reprimida pela polícia - transformou-se em símbolo da identidade nacional brasileira?
Os estudos anteriores sobre o tema passavam ao largo do 'mistério', limitando-se a constatá-lo; como se, de súbito e num passe de mágica, o recalcado passasse a ser louvado, tornando-se quase sinônimo de uma nação. Em terras brasileiras, 'quem não gosta de samba é ruim da cabeça ou doente do pé(...)"
Em um capítulo específico sobre Gilberto Freyre e sua mais importante obra, Hermano inicia declarando:
"A publicação de Casa Grande e Senzala foi recebida de imediato como um grande acontecimento no mundo intelectual dos anos 30. Jorge Amado, o escritor que praticamente inventou o romance 'mestiço' brasileiro, assim recorda o evento: 'Foi uma expolosão, um fato novo, alguma coisa como ainda não possuíamos e houve de imediato uma consciência de que crescêramos e estávamos mais capazes. Quem não viveu aquele tempo não pode realmente imaginar sua beleza." E acrescenta: "O livro de Gilberto deslumbrava o país, falava-se dele como nunca se falara antes de outros livros". Monteiro Lobato consegue ser ainda mais bombástico: 'Qual o cometa de Halley, irrompeu nos céus de nossa literatura o Casa Grande e Senzala(...)'
O Mistério do Samba, que faz parte de uma coleção intitulada Antropologia Social, publicada pela Jorge Zahar Editora, é uma importante obra para quem busca conhecimentos sobre as origens de nosso samba, visto sob a ótica social, utilizando uma linguagem acessível, apesar do caráter acadêmico que a obra carrega. Em seu prefácio, o jornalista e historiador Sérgio Cabral destaca:
"Sou grato a Hermano Vianna por ter elaborado um trabalho acadêmico perfeitamente inteligível para qualquer um de nós, simples mortais. Mas, apaixonado pela música popular brasileira de todas as épocas, sou mais grato ainda pelas portas que abriu para que os apaixonados e estudiosos penetrássemos na história de nossa música."

sábado, 28 de janeiro de 2012

Até a ONU Tentou Reunir Os Beatles


Durante muitos anos a grande utopia musical do show bizz internacional era reunir os quatro integrantes dos Beatles, nem que fosse para fazer um único show. Aqui mesmo, nesse espaço já publiquei um dos muitos rumores daquela tão desejada volta, quando em 1976 um rico empresário ofereceu uma fortuna para reuní-los, mas nada aconteceu. Aliás, grana não seria um motivo relevante para trazer de volta o quarteto. Cada um cuidava de sua carreira e seus projetos pessoais, John Lennon, por exemplo, havia abandonado temporariamente o mundo artístico para cuidar da família, além do mais ainda havia alguns problemas pessoais entre membros da banda, que ainda não haviam sido resolvidos devidamente, portanto a tão esperada reunião era algo bem improvável.
Lembro que o empresário Roberto Medina, após trazer Frank Sinatra ao Brasil, para cantar no Maracanã, declarou que sua próxima empreitada seria reunir os Beatles para fazerem um mega-show no mesmo local. Logicamente foi um grande delírio do futuro idealizador do Rock In Rio.
Até a ONU tentou realizar esse sonho. Já que o fator financeiro parecia mesmo não ser um motivo para reagrupar o quarteto, talvez um caráter beneficente proposto pelo órgão os sensibilizasse. A revista Veja, de 26 de setembro de 1979 trazia uma nota sobre mais essa tentativa, intitulada "Help! A ONU pede socorro aos Beatles". Talvez tenha sido uma das últimas tentativas de trazer os Beatles de volta, já que menos de um ano e três meses depois, esse sonho foi sepultado após o assassinato de John Lennon. Abaixo a matéria da revista:
"Na impossibilidade de aproximar outros desafetos empedernidos, como árabes e judeus, chineses e russos ou curdos e iranianos, a ONU está prestes a marcar um tento de menor envergadura, mas nem por isso inexpressivo - reunir os Beatles, pela primeira vez em treze anos, para três exibições em Nova York.

O mais bem sucedido grupo de música popular em todos os tempos, os Beatles, embora tenha se separado em 1970, exibiram-se em público pela última vez em 1966 - nove anos antes do fim da guerra do Vietnã e doze antes que milhares de refugiados escapassem para os países do Sudeste Asiático fora do controle comunista.
Milionários e irreconciliáveis, os Beatles resistiram ao longo de todo esse tempo a todas as tentativas de reaproximação. A ONU parce estar conseguindo o milagre. Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr já concordaram com as três apresentações. John Lennon ficou de dar a resposta. Com a renda dos shows, a ONU espera cobrir as despesas de assistência aos refugiados indochineses. Somadas as receitas de bilheteria, direitos para transmissão por televisão e discos, calcula-se que os três espetáculos renderiam 500 milhões de dólares. Prova de que os Beatles continuam insuperáveis - no ano passado, um concerto do conjunto Bee Gees, talvez o mais popular grupo musical de hoje, rendeu à ONU, para o Ano Internacional da Criança, apenas 3 milhões de dólares."

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vinte Anos do Programa Jovem Guarda - Set/85


Em sua edição de 15 de setembro de 1985, a revista Domingo do Jornal do Brasil, trazia uma matéria de capa sobre os 20 anos da estreia do programa Jovem Guarda, na TV Record. Naquele mesmo mês de setembro ia ao ar pela primeira vez, em 1965, um programa de tv que faria história, não só por ser o porta-voz de um movimento musical que ganhava cada vez mais força no cenário musical brasileiro - apesar dos inúmeros detratores - como por lançar ao estrelato o líder do movimento, Roberto Carlos, que ao lado de seu parceiro Erasmo Carlos e de Wanderléia, definiria as bases do que se tornaria o rock brasileiro.
Na época em que a matéria foi publicada vivia-se o auge de sucesso do rock brasileiro dos anos 80, quando várias bandas e cantores faziam grande sucesso, como Legião, Paralamas, Titâs, Lulu Santos, Barão Vermelho, Lobão, Ultraje, etc. Por isso mesmo a matéria, de 5 páginas, traz vários depoimentos do pessoal daquela época, além de quem participou da Jovem Guarda. Segue abaixo um trecho da matéria, assinada por Antônio José Mendes, intitulada "Os Reis do Iê-Iê-Iê":

"A coisa começou às 16h30min de um domingo de setembro de 1965. Em poucos meses, todo o país falava nos 'amigos' para quem Roberto Carlos apontava no palco do auditório da TV Record, na Rua da Consolação: Martinha, Prini Lorez, Waldirene, Leno e Lilian, Renato e Seus Blue Caps, Os Vips, Eduardo Araújo, Demétrius, Rosemary, Cleide Alves, Meire Pavão, Golden Boys, Vanusa, Os Brasões, The Pops e dezenas de outros artistas. O rock que eles cantavam era extremamente ingênuo, com base na fase pré-psicodélica dos Beatles (um gênero que se convencionou chamar de iê-iê-iê), em sucessos da canção italiana e até em boleros. Suas roupas eram terninhos sem gola, botas, minissaias e todos usavam cabelos desafiadoramente compridos para a época.
O ápice veio na comemoração do aniversário de Roberto Carlos em abril de 1966. Em vez de fazer o programa no Teatro Paramount como de costume (o da Rua da Consolação, onde o programa começou, já ficara pequeno), a Record arrendou o Cinema Universo. Ali, cerca de 15 mil pessoas bloquearam ruas, quebraram, vidros de carros, perseguiram ídolos e dançaram aos gritos de 'ei, ei, ei, Roberto é nosso rei' e 'asa,asa,asa, Roberto é uma brasa'. No palco, os roqueiros olhavam perplexos para o que viam, ou choravam como Ronaldo, da dupla Os Vips. Nessa época, o programa era transmitido ao vivo em São Paulo e retransmitido por VT para Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife (só em São Paulo tinha três milhões de espectadores).Os produtos (roupas, bonecos, joias) associados à Jovem Guarda - em marcas como Calhambeque, Brasa, Tremendão e Ternurinha - vendiam à beça. Um sucesso de Roberto na Jovem Guarda, O Calhambeque,vendia bem na França, Angola, Argentina e México.

Houve oposição, é claro: no início muitos patrocinadores se recusaram a associar seus produtos 'a um bando de cabeludos delinquentes'. A elite desprezava os cabeludos, seus costumes e sons, considerando-os cafonas, e setores de esquerda viam as guitarras elétricas que eles usavam como o supra-sumo do imperialismo ianque. Mas nada conteve a avalanche: em 1966, um rígido crítico de música popular, José Ramos Tinhorão, registrava: 'O iê-iê-iê é o ritmo de maior comunicação com a massa, desde a utilização do baião rural de Humberto Teixeira, na década de 40'."

domingo, 22 de janeiro de 2012

Nova História da MPB - 1976


De tempos em tempos a editora Abril costumava lançar séries de fascículos sobre a MPB, que vinham acompanhados de um disco. A primeira dessas séries foi lançada em 1970, indo até 1972; a segunda em 1976 até 1978, a terceira, a partir de 1982. Os discos que acompanhavam as duas primeiras séries eram vinis de 18 polegadas, de formato menor que os LPS convencionais, com oito músicas. A edição de 1982 era acompanhada por um LP, de formato normal.
O primeiro volume da segunda série, publicada a partir de 1976 trazia um encarte especial, falando sobre o projeto, fartamente ilustrado, e contando resumidamente a história da música brasileira, desde os seus primórdios, até o que de mais moderno e atual se produzia até então. Vinha em formato de poster, que após aberto, trazia a ilustração abaixo, criada pelo artista gráfico Elifas Andreato, que por sinal, ilustrava todas as edições publicadas, dando um bonito visual aos fascículos.

Num texto de apresentação que vinha nesse encarte, em forma de Carta do Editor, o então presidente da editora dizia:
"Caro Leitor,
Em 1970-1972, a Abril Cultural produziu um antológico documento: a História da Música Popular Brasileira, narrada ao longo de 48 fascículos enriquecidos com discos que continham o principal da obra dos compositores biografados. A criteriosa seleção desses nomes permitiu a formação de um elenco de autores, que sempre representará uma síntese fiel - editorial e fonográfica - das origens e do desenvolvimento da nossa música popular(...)"
Os discos, dedicados às obras dos compositores em destaque trazia gravações variadas, com vários intérpretes, e vinha acompanhado das letras. Às vezes eram destacados mais de um compositor, que faziam um trabalho na mesma linha, algumas vezes as edições falavam não de compositores especificamente, mas sim de algum gênero musical. Uma curiosidade, por exemplo, que nunca consegui decifrar é uma gravação que saiu numa edição da segunda série (1976-78), dedicada a Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Marcus Vinícius. No disco que acompanha o fascículo existe uma gravação de Vou Danado Pra Catende, de Alceu Valença, que segundo informações que acompanham o fascículo foi extraída do LP do Festival Abertura, disco que também possuo. Porém a gravação que consta do disco do festival está incompleta, e o do fascículo aparece inteira. Quando baixei o disco do festival em mp3 é a mesma gravação incompleta. Porém o fascículo traz inclusive o número de série do LP onde a gravação foi extráda, sendo o mesmo do disco que possuo. Até hoje não sei como eles conseguiram a gravação com a música completa.

Como na época eu não tinha muita grana para comprar discos, esses fascículos representavam uma ótima alternativa para conseguir gravações que eu não possuia.
Ainda guardo vários daqueles fascículos, um ótimo material de pesquisa, fartamente ilustrado, e trazendo um bom material sonoro, às vezes inédito, como é o caso da gravação de Alceu Valença que citei. A primeira edição, publicada a partir de 1970 trazia inclusive, gravações inéditas, feitas especialmente para as edições, o que se constitui em raridade hoje em dia. Anos mais tarde, já na era do cd, outras edições semelhantes foram lançadas também. Mas tudo começou naquela primeira série, em 1970.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A Morte de Etta James


Ontem o blues e o jazz perderam uma de suas grandes estrelas, morreu Etta James, dona de uma voz poderosa e grande intérprete, que deu vida a grandes clássicos desse segmento. A primeira vez que ouvi falar em Etta, foi quando ela veio ao Brasail para participar do Festival de Jazz de São Paulo, em 1978. Etta foi uma das grandes sensações do evento, dando um verdadeiro show de interpretação em sua apresentação. Em janeiro de 1979, a revista Pop fez uma matéria com ela, por conta de sua participação no festival. As fotos que ilustram essa postagem são de sua apresentação aqui. Abaixo, trancrição da matéria:
"Quando Etta James cantou A Piece of My Heart no primeiro Festival de Jazz de São Paulo, um enorme ponto de interrogação tomou conta dos ouvidos da plateia que superlotava o Palácio das Convenções do Anhembi: 'Ela está imitando Janis Joplin', reclamavam os fãs de Janis, no meio da multidão, indignados com a audácia daquela gorda meio desajeitada.
Etta se acostumou a esse tipo de confusão. Para ela, era apenas a confirmação, mais uma vez, de que os garotos brancos que compram discos nunca tinham ouvido falar de seu nome. Pouca gente sabe que foi Etta James quem influenciou Janis Joplin, e não o contrário. E Janis sempre fez questão de dizer isso.
De qualquer forma, todos os que foram ao Anhembi sentiram logo que estavam diante de uma incrível cantora de rhythm and blues. Etta James é considerada, por toda a crítica americana, como uma das mais competentes vocalistas de blues, ao lado de Aretha Franklin. A música que sai de seus poderosos pulmões, em meio a seus 140 kg de peso, pode ser comparada apenas à de miss Franklin ou a alguma daquelas fantásticas negras que cantam nas igrejas batistas dos Estados Unidos. John Morthland, crítico da revista Rolling Stonevai mais longe: 'Toda vez que vejo uma mulher tentando recriar sucessos de Janis Joplin', ele diz, 'fico espantado com a overdose de paixão mórbida de que elas necessitam para conseguir apenas uma migalha do que Janis conseguia. Depois que ouvi Etta James cantando A Piece of My Heart , tive que mudar de ideia. Etta pode cantar os sucessos de Janis até melhor que a própria...'

O sucesso de Etta James no Festival de Jazz de São Paulo já teve resultados positivos: ela volta ao Brasil em abril para uma excursão por várias cidades ainda a confirmar. Em entrevista exclusiva a POP, Etta mostrou o outro lado de uma mulher sofrida que persegue o sucesso há 25 anos, numa carreira cheia de altos e baixos: 'Quem quiser saber alguma coisa sobre minha vida sexual, que pergunte a Mick Jagger...' Etta acaba de fazer uma excursão com os Rolling Stones pelos Estados Unidos e diz que 'trabalhar dez dias com Mick Jagger é viver cem anos de vida bem vividos'. E não há mágoa quando ela fala de sua tumultuada carreira, cheia de injustiças:
'Minha história é igual à de milhares de delinquentes juvenis que povoam os EUA, parados nas esquinas, tentando chamar a atenção do primeiro que que passar.' Foi numa dessas esquinas, em Los Angeles, que Johnny Otis descobriu Etta James e quase conseguiu levá-la ao sucesso. Mas vieram as drogas, a heroína, o internamento numa clínica. E a inevitável interrupção da carreira:'Toda a indústria do disco sabia que eu era viciada. Ninguém queria se envolver com uma junkie. Cinco anos depois de deixar a clínica, Etta está de volta, reabilitada pela gravadora WEA e pelo produtor Jerry Wexler. 'Uma voz privilegiada, a versão feminina de Otis Redding', dizem os críticos sobre seu mais recente LP, Deep in the Night, já lançado no Brasil. Finalmente livre das drogas, com um ótimo LP nas paradas e viajando pelo mundo, Etta parece mais perto que nunca do sucesso que quer e merece. O que, para nós, o público, só pode ser ótimo..."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

30 Anos Sem Elis


Há trinta anos morria Elis Regina. Naquela manhã, como de costume, liguei a tv, e recebi a notícia, que como a todos, me surpreendeu. Fiquei tão transtornado, que liguei para minha irmã, que é fã de Elis, para dar-lhe a notícia, e disquei um número errado. Ela já sabia. Eu não queria acreditar no noticiário. Na época, costumava assistir ao TV Mulher, um programa matinal da Globo, apresentado por Marília Gabriela, e que trazia vários quadros, conduzidos por diferentes apresentadores: Marta Suplicy, que na época ainda não tinha entrado na política, falava de sexo, Clodovil falava de moda, Henfil tinha um quadro de humor, etc. Naquele dia só se falou em Elis, e a choradeira foi geral. Lembro que Marília Gabriela na ocasião estava brigada com Clodovil, mas naquela manhã os dois choraram juntos a morte de Elis. Foi uma grande comoção nacional. O que me surpreendeu, e a muitos, foi o fato de Elis, apesar da sua popularidade, era uma cantora considerada de elite, mas o que se viu foi uma verdadeira multidão a acompanhar seu velório, com pessoas de todas as classes sociais.
Como sempre acontece nesses casos, muitas revistas especiais são lançadas para lembrar a vida e a carreira de um artista que se foi. Na ocasião a revista Amiga, que era especializada em tv e no mundo artístico em geral, lançou uma edição especial sobre a vida e a carreira de Elis. A revista trazia uma matéria sobre o velório, enterro, e principalmente sobre a carreira e a vida de Elis, além de muitos depoimentos e fotos. Aliás, todas as ilustrações dessa postagem foram extraídas dessa revista.
Como destaque, transcrevo algumas frases de Elis, reunidas numa matéria chamada "Os pensamentos de Elis - sempre em busca da verdade". Ali está um pouco de sua personalidade e de sua visão do mundo e da vida:

"As pessoas ditas corretas têm todas as frustrações de não ser o que é a marginália. E a marginália tem a frustração de não ter essa correção."
"A única mulher com coragem de dizer que sente prazer é a Rita Lee. Ela fala o que a mulher fala, sem pudor. E a mulherada fica querendo se emancipar sem saber para onde vai, que nem om país."
"No Brasil, a inspiração é americana, mas a organização é macunaímica."
"As pessoas que me chamavam de mau-caráter estavam se auto-criticando."
"Eu sou guerreira e pego a metralhadora para sair atrás de quem me enche o saco. Agora, se um amigo precisa de mim eu faço tudo e não cobro gratidão para o resto da vida, somente exijo um mínimo de fidelidade e decência."
"Para quem está vivo, viver é um risco."

"Aprendi também que não se pode ser vulnerável diante das pessoas que nos rodeiam. Eu perdi a noção do que querem de mim as pessoas que me cercam, perdi a confiança em mim e no resto. Só acredito numa meia dúzia de pessoas no mundo que são meus amigos sinceros."

"Ninguém vai fazer da minha vida uma novela, nem vou sair da minha estrada por causa de fofocas, até porque quem paga as minhas contas sou eu."
"Por que exigem de mim tanta coisa? Sou boa cantora e ainda tenho que ser educada?"
"Se eu seguisse o rumo natural da minha vida, eu seria uma operária têxtil, de qualquer indústria do país, porque meu pai é operário, e minha mãe dona-de-casa. Então, se eu tive tantas portas abertas, foi porque eu tenho a anomalia de ser uma boa cantora, num país que poucas pessoas cantam bem, e expus isso publicamente."

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

João Bosco - Do Rock Aos Cabarés (1975)


Em 1975, João Bosco era um jovem e promissor músico e compositor, que começava a se destacar no cenário musical brasileiro. Seu segundo disco, Caça À Raposa, trazia várias composições de sucesso, algumas delas gravadas por Elis Regina, que foi uma de suas melhores intérpretes. Ao lado do letrista Aldir Blanc, João formava uma das mais perfeitas parcerias da MPB, e naquele ano foi a grande revelação de compositor.
Em agosto de 75, a revista Pop trazia uma matéria sobre ele, com o título de João Bosco: Do Rock Aos Cabarés:
"Em 1972, o crítico Sérgio Cabral escreveu que apostava sua reputação e seus dez anos de experiência em música ´popular brasileira: 'Nada, rigorosamente, nada é mais importante atualmente na MPB, em matéria de coisa nova, do que a dupla João Bosco-Aldir Blanc'.
Pra muita gente, Sérgio ganhou de longe a aposta. Hoje, três anos depois, suas músicas tão tocando adoidado, fazendo muita gente se ligar na sua força. E João Bosco entrou definitamente nos ouvidos de todas as pessoas, depois de ter-se mantido como uma espécie de vinho raro, saboreado quase que só pelos conhecedores. Elis Regina, por exemplo, que descobriu Agnus Sei, faz questão de botar músicas suas em todos os seus discos, e que é que ainda não curtiu a nostálgica 'Dois pra lá, dois pra cá'? E alguns já o comparam a Milton Nascimento, um páreo mais suficiente para mostrar o peso de sua barra.
No começo de sua história, no entanto, não havia nada indicando que seria essa a sua estrada. Natural de Ponte Nova, cidadezinha do interior mineiro com uma forte dose de religiosidade, João Bosco cresceu ouvindo violino e piano, que sua mãe e sua irmã mais velha tocavam. E quando não eram os clássicos, ao vivo, eram Dalva de Oliveira, Ângela Maria e Cauby Peixoto, pelo rádio - até então, única fonte de música na sua cidade.. 'Até hoje me lembro, uma das coisas que mais marcou minha infância foi um show de Ângela Maria lá em Ponte Nova. Minha primeira visão de uma estrela, sabe? Aquele vestido todo de lantejoulas, desfile pela cidade em carro aberto, uma loucura'.
Depois pintaram Elvis Presley e Litlle Richard - e João se ligou no rock. Tantop que, pouco tempo depois, montou um conjunto: o nome era Charm Boys, e tinha dois violões (não eram guitarras eleétricas, não: violões mesmo), bateria e, inacreditavelmente, um afoché.

'Tinha também um casal que fazia a coreografia. Coitada, a menina vivia esfolada de tanto tombo que levava no palco'. O som que eles tiravam com esse 'equipamento' não devia mersmo ser dos melhores, por isso não se perdeu nada quando ele terminou o ginásio e foi estudar em Ouro Preto.
'Lá fiquei uns dois anos sem pegar no violão'. Mas era a época do estouro da bossa nova, e não demorou para que ele voltasse à estrada e começasse também a compor. Já dava pra sentir o seu talento, quando Vinícius de Moraes pintou por lá, em 68. 'Aí eu pensei: preciso mostrar meu trabalho para esse cara, pô. Então na maior sem-cerimônia, enfiei minhas duas músicas embaixo do braço, e fui bater na porta do hotel. A cara de pau valeu, e dois uísques depois eu estava tocando pra ele. O Vinícius ouviu, virou-se e falou: 'Essas duas nós vamos botar letra agora mesmo. Me mostra o resto'. E eu tive que disfarçar, porque só tinha mesmo aquelas: e eu que tinha ido lá pensando que ele não ia nem querr me ouvir.' Até hoje essas duas músicas estão inéditas, guardadas com carinho como sua porta de entrada.
Tocando (há quem diga que, quando toca, um dos dois parece ter três braços: o violão ou ele), cantando e compondo, João foi amadurecendo, arrumando parceiros e escolhendo seu caminho, até cruzar com Aldir Blanc. Na época, João estudava engenharia e Aldir, psiquiatria. Na música dos dois, o que resulta de científico é uma união das melhores que já pintou na música brasileira., melodia e letra se juntando como se tivessem saído da mesma cabeça. 'Nós fotografamos as coisas da mesma maneira, sabe?' Nos preocupamos com os mesmos problemas, a sensibilidade da gente é muito parecida.'
Ao mesmo tempo em que confessa a influência que recebeu de Gilberto Gil, João recusa-se a delimitar seu caminho a esta ou àquela trilha. 'No fundo, eu sei muito bem o que estou fazendo, onde estou pisando', diz ele, sem nenhum medo de passar da crítica religiosa de Agnus Seipara os cabarés que serviram de cenário de Dois pra lá, dois pra cá."