Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

terça-feira, 10 de abril de 2012

Joe Pass - Um Mestre da Guitarra Acústica


Um dos grandes nomes do jazz, quando se fala em guitarra acústica é sem dúvida, Joe Pass. Dono de um fraseado altamente técnico, Pass revestia com harmonias ricas e precisas as músicas que interpretava, o que lhe valeu o apelido de "O Virtuoso". Ouvir Joe Pass passa a impressão que é fácil tocar guitarra, uma coisa simples, sem segredos. Pass morreu em 94, aos 65 anos, deixando uma obra das mais respeitadas no jazz. Nos anos 80, quando aqui esteve, o crítico Mauro Dias escreveu uma matéria sobre um show que o mestre deu na antiga casa de shows Jazzmania:
"O jovem guitarrista Victor Biglione, talvez o mais criativo de sua geração, manifestava pra quem quisesse ouvir: 'Esse cara é o máximo. Tudo o que sei devo a ele, tudo que pretendo fazer é o que ele faz. É um momento de graça divina poder estar aqui assistindo ao show dele'. O ele , o esse cara era o jazzman Joe Pass, papa da guitarra moderna, em temporada de esfuziante criatividade no Jazzmania. Tocando para uma plateia atenta, conhecedora de jazz e de sua obra, Pass fez, na estreia, terça-feira, o que ele mesmo considerou um dos mais belos espetáculos de sua longa carreira.
Foam dois sets de uma hora de duração cada. Pass, virtuose que definiu a guitarra de jazz dos anos 50 em diante (os guitarristas que vieram depois dele, no campo, andaram pouco em relação ao que cristalizou), sozinho com sua guitarra, ar bonachão, descontraído apesar do terno sóbrio e da gravata (tirou o paletó na segunda intervenção), resgatou para o público o sentido básico do blues: a alegria de tocar, o prazer do improviso, o deslumbre pela própria arte, a satisfação de descobrir a cada interpretação uma nota nova, um acorde insuspeitado, uma variação ainda não explorada.

Passeando por clássicos de todos os tempos - de 'It's a Woderfull Word' a 'Wave', de Tom Jobim, de 'Blues In G' a uma preciosa recriação de 'Daquilo Que Eu Sei', de Ivan Lins ('essa música que toquei não sei direito o nome'), de Sattin'Doll', num medley em homenagem a Duke Ellington, a 'Nuage', de Django Reinhart, passando por 'Corcovado', 'Time To Time', 'Sophisticated Lady', 'Sumertime', 'It Aint Necessary So', 'Round Midnight' - mostrou toda a genialidade no domínio do instrumento que torna seu som inconfundível. E, na boa tradição dos músicos de jazz, usou os temas como pretexto para brincadeiras bem-humoradas desenvolvidas no improviso.
Pass conversou com a plateia durante todo o tempo, fez piadas, mexeu com os músicos de rock e com os guitarristas modernos que 'abusam da velocidade', citando a cidade de Boston sem falar na escola de Berklee - exatamente a que gera esses guitarristas adeptos da velocidade em pouca melodia - fez rir, fez chorar.
Nada de hermetismos. Vida musical e só isto. A 'graça divina' citada por Victor Biglione deve servir de orientação para jovens músicos, para o público amante da boa música e para os que desejam iniciar-se na compreensão do jazz: ouvir Joe Pass é essencial - como Joe Pass é fundamental para a história do jazz e de toda a guitarra moderna. Não há como citar melhores momentos, como se faz com os normais. Pass é gênio e cada momento seu é melhor. Não percam."

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sérgio Sampaio - Refletindo Sobre o Sucesso (1976)




Sérgio Sampaio foi um dos compositores mais talentosos daquela geração brilhante que surgiu nos anos 70. Capixaba, de Cachoeiro do Itamemirim, ele se destacou em 1972, ao participar do VII FIC (Festival Internacional da Canção), promovido pela Rede Globo. Sua composição Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua foi um dos maiores sucessos daquele ano, o que o levou a logo assinar um contrato com a gravadora Philips/Phonogram, e gravar a toque de caixa, seu primeiro disco, que trazia seu grande sucesso como título, para impulsionar as vendagens. O disco, apesar de ser um ótimo trabalho, não agradou muito a Sérgio, devido à pressa com que foi gravado, e também pela pressão que sofria da gravadora, para emplacar outro sucesso no mesmo nível do Bloco na Rua. Porém, Sérgio sempre nadou contra a corrente, nunca se deixando abalar pelas pressões do mercado, fazendo um trabalho bonito, de alto valor musical e poético, mas sem atender às exigências comerciais. Por isso levou quatro anos para gravar seu segundo disco, Tem Que Acontecer, em 1976, pela gravadora Continental. Seu terceiro e último álbum, Simplesmente, levaria mais seis anos para ser lançado, de forma independente, em 1982. Por um desses absurdos do mercado musical brasileiro, um cantor e compositor do nível de Sérgio Sampaio, com uma obra tão rica e brilhante só lançou três discos, até morrer em 1994, aos 47 anos.
Quando estava ainda gravando seu segundo disco, em 76, saiu no jornal O Globo, uma matéria com Sérgio, assinada por Ana Maria Bahiana, em que ele relata seu grande sucesso e as pressões que recebeu por conta dele:
"(...)No apartamento de Sérgio, no Leblon - pequeno, colorido e tranquilo como o seu anguloso dono - a conversa começa muito apropriadamente, por Luiz Melodia. Pelo tardio e estrondoso sucesso de Melodia com 'Juventude Transviada', na trilha da novela 'Pecado Capital'.

- É um perigo muito grande para Melô. Ele tem uma estrutura muito frágil... eu acho que ele não tem estrutura nenhuma... é um perigo. Eu fiz uma música pra ele, vou pôr nesse disco: Luiz Melodia/melhores dias virão/negão/sua imelodia/melhores dias virão.'
E daí, é claro, para uma meditação sobre o sucesso:
- Na hora do tal do sucesso é que a barra pesa. Enquanto um grupo, por exemplo, está lutando pra chegar lá, passando fome e o diabo, estão todos juntos, naquela mesma, lutando. Aí vem o sucesso, o dinheiro. Aí pinta aquele mal-estar... fulando está aparecendo mais que sicrano... você desconfia de todo mundo... será que fulano está ganhando mais dinheiro que eu?, e tal. Isso é que é duro de sustentar. Veja os Secos & Molhados. Na hora que estavam lá em cima estragaram tudo. Exatamente por isso, porque a barra é pesada demais.
- Vou lhe dizer o que aconteceu comigo. Ou melhor, o que aconteceu conosco, porque é uma coisa parecida com todos nós, com um determinado grupo que foi chamado de 'novos' (mas de novo ninguém tem mais nada, imagine novo com 4, 5 anos de carreira feito nós).
Aconteceu comigo, com o Fagner, até com o Raul numa certa medida, mas o Raul já tinha toda uma base maior por causa dos anos todos como produtor, na CBS.
Isso aconteceu com o Melodia, desde que Gal gravou 'Pérola Negra', aconteceu com o pessoal que apareceu naquele festival de 72. Aí foi aquela loucura. Quando eu olhei, naquela época do 'Bloco', já tinha gente dizendo como eu devia me vestir, como andar, o que comer, gente me dando banho, me dando roupa. Vinham me pegar aqui em casa, me achavam na casa dos amigos, e era um tal de hotel, avião, hotel, avião. E fãs, e gente querendo te pegar, e você não consegue entrar no quarto dos hotéis, e muita loucura, mil propostas mirabolantes. Eu tinha a sensação que era o centro de tudo, tudo que eu quisesse virava realidade. Dois meses depois do compacto do 'Bloco', eu já fiz um Lp, mesmo sem música nova para pôr no disco, tudo de qualquer jeito, naquela pressa doida. Pra depois me cobrarem: não tem um novo 'Bloco', está bom mas não tem um novo 'Bloco'.. E eu respondia: Mas 'Bloco' é um só, nunca vai ter outro.

- E aí a barra começa a pesar. Você vai ficando desconfiado... paranoico. Começa a pensar: o que essa pessoa quer comigo? O que ela vai ganhar comigo? Será que estão roubando o meu dinheiro? Você foi pego desprevinido, verde, sem estrutura nenhuma, você está soznho, não tem em quem confiar, tem de decidir tudo sozinho.
- Eu fiquei insuportável, intratável. Fiquei com fama de pessoa difícil, temperamental. Minha música ficou uma coisa violenta, eu xingava todo mundo nas letras. Eu não sabia, na época, mas eu estava era parando a engrenagem toda na marra, no grito.
- Aí larguei tudo, fechei o apartamento, rescindi o contrato com a Philips, fui para o Espírito Santo. Queria pôr minha vida em ordem, pôr a cabeça no lugar. Casei, voltei pra cá decidido a fazer as coisas direito. Primeiro organizar minha minha casa, minha vida de casado. Comecei a sair muito, a pasear, a descobrir de novo como era estar com as pessoas. Aí eu vi que já estava pronto pra pensar em música de novo. Porque eu queria que minha carreira fosse como a de Dorival Caymmi, uma coisa, estável, permanente, ampla, uma coisa que permanece, que progride lentamente e se estabiliza a cada etapa."

domingo, 8 de abril de 2012

O Rock Mágico de Leon Russel


Leon Russel é um desses artistas que são reconhecidos como grandes músicos, e que até conseguiram ter um destaque em algum momento da carreira, mas depois cairam no ostracismo, dando lugar na mídia e no show-bizz a pessoas que não chegam nem perto de seu talento. Russel viveu um bom momento em sua carreira no início dos anos 70, mas o mercado de música não o absorveu nas décadas posteriores, e sua careira andou em baixa. Lembro que nos anos 90 ele se juntou a Edgar Winter, e a dupla andou excursionando, chegando até a tocar no Brasil. No ano passado seu nome voltou a ser lembrado, quando Elton John, um fã confesso, o recrutou para gravarem juntos e fazerem shows. Essa união representou uma retomada na carreira de Russel, um grande músico, arranjador e compositor. Abaixo transcrevo uma matéria publicada na revista Pop, em março de 74, quando o músico vivia um bom momento em sua carreira:

"Um enorme chapéu na cabeça, os olhos semicerrados, um cigarro na boca. A camiseta está rasgada. Os cabelos longos e descuidados. As mãos dançam sobre as teclas do piano. A voz sai arrastada, mastigando e gemendo as palavras. Leon Russel parece um mágico, tem sempre uma surpresa para seu público. De repente, ele está de pé, no centro do palco, fazendo misérias com a guitarra. A cabeça gira de um lado para outro, os cabelos dançam com a música e os pés acompanham o ritmo frenético do rock. Minutos depois, ele já está tirando sons incríveis da bateria. Leon Russel é assim. Um músico completo, compositor e arranjador admirado e respeitado pelos grandes cobras do rock. Como todos os gênios, ele começou cedo. Com 3 anos, já brincava com as teclas do piano dos seus pais. Com 13, começou a tocar trombone na banda da escola. Aí formou sua própria banda e teve até que aumentar a idade para poder tocar numa boate de Tulsa. Ele havia deixado definitavamente sua cidade natal, Lawton, Oklahoma (EUA). Com 17 anos, se mandou para Los Angeles, Califórnia, onde trabalhou em várias boates até ser impedido de continuar pela polícia, por causa da idade. Apesar das dificuldades continuou se virando e, com 21 anos, já era considerado um dos mais atuantes e populares músicos de estúdio, em Hullywood. Em 1969 enturmou-se com Dellanie e Bonnie (uma dupla da pesada) e excursionou pelos EUA com o grupo. Depois, fez algumas aparições com Joe Cocker até estourar com o antológico Mad Dog and Englishmen (a excursão, álbum duplo e filme). Aí Leon chamou a atenção do produtor Denny Cordell e juntos fundaram a gravadora Shelter.

Em 1971, Leon brilhou no Concerto para Bangladesh , ao lado de George Harrison, Bob Dylan, Ringo Starr, Billy Preston e Eric Clapton. Foi a consagração. Daí pra frente, ele entrou para o clube dos astros do rock. Seu estilo - uma mistura de gospel (música religiosa), blues e rock - fez escola, e junto com composições como o rock Delta Lady (o grande sucesso de sua excursão pelo Japão, no fim do ano) e a balada A Song For You, criou sua marca registrada, o som de Leon Russel. Ele vive numa grande fazenda em Oklahoma, onde construiu um estúdio de gravações (metade do LP Carney foi gravado lá) e várias casas para receber seus músicos e amigos. Leon agora está lá, escrevendo as canções e fazendo os arranjos para o seu sexto LP, que será gravado ao vivo."

sábado, 7 de abril de 2012

Secos & Molhados - O Avesso da Máscara




O grupo Secos & Molhados representou um fenômeno na música brasileira. Em 73 lançaram um álbum que pode ser considerado um clássico, pelas músicas, arranjos, performances, etc, e além disso, foi campeão de vendagens absoluto naquele ano. Algo totalmente impensado nos dias de hoje: um disco da melhor qualidade com uma vendagem além do esperado, desbancando, inclusive, Roberto Carlos, que era na época imbatível em termos de vendagem. Após o segundo disco, no ano seguinte, o grupo se dissolveu no auge do sucesso, devido a problemas internos.
Em meados dos anos 80, o jornalista e crítico Júlio Hungria escreveu um texto sobre os Secos &  Molhados, intitulado "Vira Vira: O Avesso da Máscara", para uma série de fascículos denominados "Rock, A Música do Século XX". Só para esclarecer, o Tinhorão ao qual ele se refere no início da matéria é o crítico José Ramos Tinhorão, um purista radical, que abomina o rock.
"Tenho a impressão de que todo crítico de música é um frustrado e que existe um Tinhorão instalado em cada um de nós - público de música popular; quando negamos uma realidade para valorizar a outra, quando negamos um progressismo, como se uma coisa não fosse sequência da outra.
O Tinhorão do comportamento destruiu em pedaços a porcelana fina que compusera por um momento, na história da música popular, um trio significativo: os Secos & Molhados. Secos, de um lado, Molhados do outro, questionaram na porrada a reflexão da realidade da humanidade sobre o machismo e a desigualdade secularmente estabelecida entre os sexos que hoje referenda e avaliza a mal-chamada fatia humana dos gays.

A voz de contratenor de Ney Matogrosso e o gosto aritmeticamente radicalizado dos Molhados pelas fantasias de Alice Cooper transformaram-se em elementos incômodos para os Secos e acabaram por levar a importância do grupo a um funil do qual espirrou pros dias de hoje, um ídolo individual: Matogrosso.
Esse foi um dado; o outro terá sido a tentativa de centralização do poder do grupo na mãos de João Ricardo/Apolinário, filho e pai alargando a divergência que já surgira bem antes do rompimento, em entrevistas dadas entre o primeiro e o segundo LPs: 'Tudo pinta naturalmente, nada é dirigido' - sugeria Ney Matogrosso. 'Estou lançando o produto nas grandes capitais. Depois disso eu posso me alastrar, mas eu tenho que dirigir as pessoas' - explicava João Ricardo, no caso referindo-se ao público e a métodos de marketing.
Secos & Molhados é um nome que pode determinar 'tudo e nada ao mesmo tempo' - segundo um depoimento de João Ricardo em 1973. 'Tudo e nada' era um jogo muito fácil para quem pretendesse conquistar fatias no mercado da música popular nos primeiros anos 70: a Censura tinha fechado a boca de Chico Buarque, deportado Caetano & Gil, e, até por coincidência, ao pisar nas raízes com as botas ideológicas, só tinha deixado brotar a arte importada. Os baianos, mesmo na volta, em 72, limitados em sua capacidade de expressão, eram obrigados a formular de modo complicado as ideias que desejassem passar ao público. Os Secos & Molhados vieram com máscaras. Como as crianças que escondem o rosto com as mãos e acham que estão protegidas.

A explosão foi imediata: vendiam mais discos que Roberto Carlos e encantavam as plateias mais amplas. Surpreendentemente, seu sucesso não ficou restrito aos limites do público entendedor como seus antecessores Equipe Mercado, que tinham conseguido - com mais radicalismo, é verdade, em alguns anos antes - acabar na cadeia de Cataguazes, MG, onde foram protegidos pela polícia da cidade que queria linchá-los.
Mas, naquele momento, o mercado permitia: o público precisava ser satisfeito e engolia a novidade mais pelo circo que pelo pão. Como observou na época, Geraldo Mayrink, em Veja, as músicas eram ritmadas. 'Fáceis pelo menos de acompanhar batendo com os pés'. E a extensão da voz de Ney Matogrosso soava como um ruído fora da massificação.
A música dos Secos & Molhados no começo era simples: 'Ela vai se enriquecer à medida que o grupo trabalha, pesquisa e evolui', justificava João Ricardo, a inicial mola propulsora do grupo, autor e músico, filho de poeta e crítico de arte português João Apolinário. Só mais adiante do primeiro LP, foi possível reconhecer na obra do conjunto uma espécie de 'rock progressivo', talvez muito mais aparente e pelas graças dos músicos do conjunto, de Gerson Conrad e de Matogrosso, que por esforço de Ricardo, este sempre compulsivamente preocupado com a qualidade poética que, filho de peixe, buscava em Vinícius, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Cortázar e até em Fernando Pessoa e Oswald de Andrade.
O conjunto morreu em 1974, com mais ou menos um ano de idade, e deixou suspensas na música popular brasileira talvez as primeiras estacas de uma ponte que vai de Caetano e Gil ao futuro, e que ainda não foi liberada ao tráfego por falta de asfalto.
Saíram de cena como entraram: numa explosão em que o único foguete a subir a uma altura onde era possível ser visto foi justamente o que levou Matogrosso ao estrelato individual. 'Bicha! - diziam os mesmos que não ouviram a voz 'pequena' de João Gilberto em 1960; 'gay' - como o quer o hoje ruidosamente adepto Caetano Veloso, ou um humano vivendo intensamente aquele momento mais crítico do questionamento da desigualdade entre os sexos.
Matogrosso, hoje é o 'nariz' dos Secos & Molhados - como gostaria Woody Allen. Cheira o perfume das rosas que dez anos antes não tinham cor."

sexta-feira, 6 de abril de 2012

John Mayall - Tem Branco no Blues


É comum, quando se forma uma roda de samba que não se acerta, o batuque é sem ritmo, a batida não traz aquele molejo típico de uma batucada bem executada, dizer que "tem branco no samba". É uma piada em torno de uma hipotética falta de jeito de alguém que não traga o DNA da negritude para executar um ritmo que nasceu dos negros, se desenvolveu e se difundiu através dos negros. Logicamente, como falei, é só uma piada, já que muitos brancos executam o samba melhor que muitos negros. Está no sangue, independente de raça.
Fazendo uma analogia, o mesmo se poderia dizer a respeito do blues, uma música que nasceu dos negros americanos, que traz toda uma história de dor, sofrimento e lamento dos negros explorados e segregados, que se expressavam através da música que criavam. Pois um branquelo inglês, John Mayall, que não traz em seu sangue a herança racial dos velhos bluesmen americanos, pioneiros do blues, se tornou um grande mestre e um dos nomes mais respeitados do blues, a partir dos anos 60.

John Mayall é também um pioneiro, pois foi um dos primeiros artistas ingleses a se enveredar pelo blues, e revelar muitos músicos. Embora, modestamente, tenha uma vez afirmado: "Não me considero 'o pai do blues britânico'. Houve outros, como Alexis Korner, que tinham a missão de abrir as portas para as pessoas', a verdade é que Mayall revitalizou o blues, e fez muitos roqueiros conhecerem as raízes do rock.
Nos nos anos 60, a segunda geração do rock surgia com toda a força, vários grupos se formavam, aconteceu o fenômeno da britsh invasion, quando vários grupos ingleses passaram a ganhar destaque no meio musical (Beatles, Stones, The Who, The Kinks, Animals, etc), mas os velhos bluesmen americanos estavam esquecidos, e alguns até passavam por sérias dificuldades. Foi necessário que músicos brancos e ingleses, como Mayall, trouxessem um novo e reformulado blues para as novas gerações, para que nomes fundamentais do blues, como B.B. King, Muddy Waters, John Lee Hooker, Howllin'Wolf, dentre outros, voltassem a ser lembrados.
John Mayall herdou sua inclinação musical de seu pai, que tinha uma coleção de discos de jazz, e daí descobriu o blues. Segundo li, Mayall aprendeu a tocar de forma autodidata violão, gaita e piano, e com 22 anos formou seu primeiro grupo, The Powerhouse Four. Mais tarde formaria o lendário The Bluesbrackers, que teve tantas formações, passou por tantas mudanças, que só uma grande e detalhada pesquisa para enumerá-las. Mas para resumir, posso apenas citar alguns músicos que passaram pelos Bluesbrackers: John McVie, Mick Fleetwood, Mick Taylor, Roger Dean, Davey Grahan, Eric Clapton, Tony Reeves, Chris Mercer, John Riseman, Collin Allen, John Mark, Johnny Almond, Harvey Mandel, Larry Taylor e Don Sugarcane Harris.

A alta rotatividade dos músicos de sua banda pode ser explicada pelo rigor com que ele conduzia os músicos, com leis internas com relação a drogas e o álcool (coisa difícil de se controlar no meio musical). Eric Clapton, por exemplo, foi um que buscou a liberdade de tocar da maneira que queria, abandonando a banda de Mayall, para formar o Cream. Para seu posto foi recrutado Peter Green.
Mayall uma vez disse: "Levamos o blues a sério, ele foi absorvido por nós profundamente e agora faz parte da gente também, é uma linguagem universal". Talvez essa declaração explique sua devoção e rigor em seu trabalho. Seria difícil destacar algum disco em especial da ampla discografia do Jonh Mayall's Bluesbrackers, mas aqueles primeiros trazem o que há de melhor no blues britânico, como Bluesbrackers - John Mayall With Eric Clapton (66), Hard Road( 67), Crusade (67), Blues Alone (67) e Bare Wires (68). Aliás, Bare Wires, é considerado por muitos críticos, como seu melhor disco na década de 60. Representou uma virada em sua carreira, pois a partir dali só passou a gravar material próprio, com uma concepção mais moderna e arranjos mais elaborados. Outro disco, já dos anos 70, que eu gosto muito, e possuo em vinil, é Moving On (73), um álbum ao vivo, em que Mayall faz com perfeição uma fusão do jazz com o blues.
Hoje, aos 78 anos, John Mayall continua na ativa, e tive a alegria de assisti-lo ao vivo em 2008, no festival de jazz e blues de Rio das Ostras, quando também pude fazer um contato pessoal com ele, um verdadeiro mestre.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Hermeto Pascoal - Um Músico Simples


Em 78 a jornalista Ana Maria Bahiana escreveu um belo texto sobre Hermeto Pascoal. Com o título de "Um Músico Simples", a jornalista expressa sua admiração por um de nossos melhores músicos:
"(A Mauro Senise, Itiberê e Jovino, os campeões do campeão)
A lembrança mais remota que tenho de Hermeto Pascoal é o Quarteto Novo. Não pode ter sido da TV, tocando 'Disparada' no Festival de Record, porque ele não estava lá. De onde seria? De disco? De alguma apresentação fugaz? Uma foto? Não sei, mas certamente é dessa época. Há uma outra lembrança, também, mais próxima: ouvindo 'Andei' no rádio, com Airto e Hermeto aprontando, um som muito seco e muito corante, indo procurar o disco, só importado 'Seeds On The Ground'. E também um momento Costa assustada, microfones mudos. Uma brincadeira no 'Abertura', em 75 -'esta é uma história de um porco que deixou todo mundo louco', - e finalmente, lá estava eu diante do crazy albino (apelido que Miles Davis lhe deu), encantada por histórias fluentes e pensamentos exatos que brilhavam tão absurdos e fecundos e luminosos como sua música.
A lembrança mais remota que Hermeto Pascoal tem dele mesmo é a luz que vinha das árvores enfeitadas nas noites de forró em Lagoa da Canoa, Arapiraca, Alagoas, onde o vendeiro Pascoal José, seu pai esperava a madrugada com cocos e emboladas, a mulher na zabumba, o filho arriscando um triângulo encantado. É essa a raiz que explica a maravilha de Hermeto Pascoal, o encanto que não cessa de me aturdir e me encher de esperança: Hermeto Pascoal de Lagoa da Canoa, com Pascoal José é o mesmo Hermeto Pascoal do Filmore East de Nova York, com Miles Davis. O Hermeto Pascoal da casinha marrom e amarela de Senador Camará é o mesmo Hermeto Pascoal dos estúdios atapetados de Los Angeles. Só há um Hermeto Pascoal. Mesmo porque, dois, o mundo não comportaria.

Tenho a petulância de me considerar, não uma amiga, mas, digamos assim, uma fã muito próxima de Hermeto. Tomei o café de D. Ilza, em Senador Camará, e viajei a caravana para vê-lo reencontrar sua velha amiga, a feira; estou sempre lá, na plateia, para ficar tonta e feliz e espantada com sua música perpétua. Só não mestive (ainda!!) na estrada com ele, mas da estrada seus músicos me contam sempre com uma gargalhada amorosa no canto da boca.
Porta aberta, cabeça aberta, coração aberto: esse é o Hermeto Pascoal uno e insubstituível que tenho seguido nos últimos anos, por profissão e paixão. Esse é o Hermeto Pascoal que nos salva a todos de nossa triste condição de colonizados, eternamente condenados a discutir a salavaguarda (êpa!) de nossas raízes, a digestão do que vem de fora, tão ocupados às vezes nesse exercício de resistir e procurar o inimigo e cercar pelos sete lados que nos esquecemos de ser, de criar, de pensar sem tramelas. Porque ele é realmente o único e verdadeiro Hermeto de Arapiraca, Nova York, Senador Camará e Los Angeles, sem a menor sobra de conflito entre seus componentes, porque de seus dedos coruscantes só sai pura música de acento brasileiro, porque de sua cabeça desimpedida só flui a criação mais espontânea e mais complexa, porque ali, na sala de ensaio cor de rosa, ao lado da cozinha onde D. Ilza faz uma peixada e Seu José pica um rolo de fumo, ele faz sem resistir e sem pensar, como respira, a música mais avançada e simultaneamente mais brasileira.

Hermeto Pascoal está voltando à estrada, seu segundo habitat natural depois de Senador Camará/Arapiraca, territórios já no domínio do mítico. Mas diz que está com dificuldades de gravar como quer, ele que só tem dois Lps lançados o Brasil, um em 72pela Phonogram e o 'Slave Mass' da WEA, no ano passado (e mesmo assim esse foi gravado nos Estados Unidos). Seremos mesmo assim, meu Deus? Mereceremos viver na tão chorada condição de colônia para sempre? Estaremos aqui sossegadamente jogando fora o que temos de ouro? Aos bandidos, mais uma vez? Será que não merecemos Hermeto Pascoal? Tememos tanto assim o alegre risco da invenção?
Campeão, se não der, não deu. Vamos à luta."

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Gil Solta o Verbo


No verão de 1979 Gilberto Gil deu uma entrevista de duas páginas para o jornal Correio da Bahia, onde discorreu sobre vários assuntos. Foi uma entrevista das mais interessantes, concedida ao jornalista Luis Claudio Garrido, em que de forma franca, expressou sua opinião e teceu considerações sobre política, música, censura, etc. Eis alguns trechos de suas declarações:
Sobre uma censura não-oficial à sua parceria com Chico Buarque, Cálice, que havia sido liberada e recentemente gravada por Chico Buarque, e que estaria sendo alvo por parte de alguns bispos da Igreja Católica de censura junto aos fiéis. Segundo os religiosos, Cálice seria desrespeitosa a Cristo e portadora de sentimentos anticristãos:
"Cada um é o que é. Se o bispo está tomando para si as dores do Cristo, achando que pode exercer a capacidade discriminatória do Cristo sabendo o que é ruim ou bom, é um problema, digamos, de foro íntimo, problema pessoal. Agora, é uma música que reflete a minha maneira de ver um determinado momento. Eu até nem gosto dela especialmente. Acho ela comprometida com o espaço do desespero, da exiguidade. É uma música não significativa dentro do meu trabalho. Eu não gosto de ficar falando daquela carência daquele tempo, quando eu pretendi refletir um problema em relação ao qual muitos estão completamente enganados, inclusive os bispos que a chamaram de 'anticristã': ela reflete uma carência da comunidade, muito mais do que minha, pessoal. Inclusive ela é anterior a mim, no meu processo pessoal, individual. E acho que é anterior a Chico também. Ele é uma pessoa que está mais a frente que essa coisa toda. Tudo isso levando-se em conta que ela foi feita cinco, seis anos atrás, eu sou contra ela. Acho uma coisa meio revanchista. Quer dizer, gosto dela, mas a considero uma coisa antiga, desgastada, excessivamente queixosa.

Quanto a sentimentos anticristãos, acho que há um equívoco total, já que não vejo nenhum absurdo em alguém, mesmo o Cristo, um dia perder a cabeça. Como quando pegou o chicote e meteu bronca no pessoal. Cristo era um homem. Ele veio para redimir o homem. Com força e fraqueza, com paz e violência. Esse arcebispo do Pará não está sendo inteligente agora, embora até possa ser uma pessoa inteligente. Mas da mesma meneira que ele condena a minha música eu condeno as declarações dele."
Sobre um assunto que gerou polêmica, uma suposta "panelinha" entre os artistas baianos (Gil, Gal, Caetano, etc), que Fagner levantou em uma entrevista, que segundo ele, o grupo baiano não dava espaço para os artistas que não faziam parte de seu grupo seleto, Gil declarou:
"Gozado... vem o Fagner e se queixa de que o Caetano não fala dele nas entrevistas.... Se ainda ele fosse um gênio (coisa que não é), sendo ele um artista legal e tal a gente faz força, muita força, mas... eu, por exemplo, iniciei minha entrevista para a 'Veja' dizendo 'eu quero é mel', que é uma frase de Luiz Melodia. Quer dizer, eu estou dando uma força para ele, me indentificando com a forma dele pensar, com a poesia dele, eu me identifico com tudo.
Chico Buarque, por exemplo, um não-baiano, vi o 'Especial' dele na televisão e não havia coisa melhor, porque ele é um grande criador, é um gênio, canso de falar. Agora, Chico é um cara da pesada, é legal, é sensível, é genial. E aí você não pode dizer menos do que ele é.
Não é qualquer um boboca que vai chegar aí com duas ou três músicas e acha que a gente tem que sair dizendo que ele é genial, seja ele baiano ou não. Aliás, Jorge Amado, Glauber Rocha e outros estão sofrendo o mesmo tipo de pressão. No fundo a gente acaba tendo que admitir que existe um componente racista nessa história. Um coisa antibaiana. Pode parecer até absurdo, mas tem, é uma coisa inconsciente."