Palavras Domesticadas

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Caetano X Lobão: A Briga Continua


Caetano Veloso e Lobão há muito vivem se debatendo através da imprensa. Lobão, por seu estilo mais provocador, normalmente é sempre quem alimenta essa polêmica, com críticas mordazes ao músico baiano. Caetano costuma respondê-lo, quando responde, com bom humor, dando a entender que não o leva muito a sério. Isso já vem de longa data. Dizem que tudo começou com duas palavras, “lobo bolo”, trecho da música de Caetano “Rock n' Raul”. Lobão ao ouvir a música, no Programa do Jô, sentiu que era com ele, e respondeu de imediato com a música “Para o Mano Caetano”. Em seguida, o que se viu foram seguidas farpas que os dois andaram trocando pela imprensa, como uma crônica escrita por Lobão em O Globo, intitulada “Quero a MPB de 4, Quarteto Fora de Si”, onde cita Caetano no seguinte trecho:
'Caetano com seu jeito santoamárico-provinciano, apadrinha a bossa nova e diz que ela é superior, que João Gilberto é seu ídolo, aquelas coisas dele, né?'
Caetano em seguida responde:
'Quanto a Lobão, vi no GLOBO o que ele escreveu. Um texto péssimo, confuso, querendo usar coisas que seriam bombásticas, mas não resultando bombásticas.”
Às vezes há uma trégua, mas volta e meia uma questão vem à tona, e os dois acabam se debatendo, mas sempre havendo um respeito mútuo, apesar das inúmeras discordâncias, sejam estéticas ou de opiniões.

Uma vez, inclusive, a revista Trip, em sua edição de julho de 2001 reuniu os dois em uma entrevista em um quarto de hotel, quando demonstraram o respeito mútuo que citei acima, e muito bom humor em relação às críticas e bate-bocas que os dois andavam trocando bastante naquele período. Na chamada de capa a revista destacava um trecho da entrevista:
Caetano: “Tenho recebido muitas farpas suas”
Lobão: “Eu queria mesmo sacanear você”
A entrevista não se prende a esse conflito de opiniões. Abrange assuntos gerais, sejam de ordem artística ou política, onde os dois por vezes divergem, porém nem sempre com um tom provocativo. Também se elogiam e reconhecem qualidades no trabalho de ambos. O bom humor é a tônica no encontro dos dois, como nos trechos abaixo:
Caetano: “Pô, Lobão é foda. Aparentemente agressivo comigo, mas tão engraçado!”
Lobão: “Tenho um respeito geriátrico pelo Caetano”

A polêmica entre os dois, que havia dado uma trégua, reascendeu agora com o comentado caso envolvendo um projeto de poesia envolvendo Maria Bethânia, que recitaria um poema por dia durante um ano, usando a internet como veículo, projeto esse que teria recebido do Ministério da Cultura uma verba de R$ 1,3 milhão. Inúmeros protestos quanto à liberação da elevada quantia, em detrimento a outros projetos culturais, foram feitos, inclusive por parte de Lobão. Em sua última coluna dominical em O Globo, Caetano veio em defesa da irmã. Em um trecho de seu texto afirma:
“Toda a grita veio com o corinho que repete o epíteto 'máfia do dendê', expressão cunhada por um tal Tognolli, que escreveu o livro de Lobão, pois este é incapaz de redigir (não é todo cantor de rádio que escreve um 'Verdade Tropical').
Pelo que se vê a polêmica Caetano X Lobão ainda não terminou.

terça-feira, 29 de março de 2011

Ana Cristina César


Ana Cristina César era um dos nomes mais representativos de uma nova poesia que se estava produzindo no Brasil a partir dos anos 70, e se afirmando na década seguinte. Foi, segundo Eucanaã Ferraz, “personagem fundamental no ambiente artístico e cultural do Rio de Janeiro nos anos 1970.” Segundo Heloisa Buarque de Hollanda, doutora em Letras pela UFRJ, “no meio dos poetas marginais era e se comportava como musa, um pouco distante como devem ser a musas.” Por uma dessas coisas que não têm explicações – e para que buscá-las?, - Cristina resolveu antecipar sua partida desse mundo em 1983, aos 30 anos.

Em 1987, ao ser lançado seu livro póstumo A Seus Pés, o poeta e amigo Armando Freitas Filho escreveu esse texto, sobre a obra e a autora e amiga:
“Olhos azuis, a flor da pele. A Teus Pés (Ana Cristina César) foi escrito na rua e pelo telefone. Num caderno preto, pautado, de capa dura, desses que antigamente, eram usados por pequenas firmas para registro, sempre caligráfico, de suas atividades, do seu 'dever & haver'. Foi escrito com canetas de vários tipos e cores, como se, inconscientemente se desejasse sublinhar e fixar as muitas intenções e nuances, a pegada mais forte ou mais suave de cada texto.
Seu primeiro nome foi “Meios de Transporte”, logo abandonado por ter um segundo sentido demasiadamente explícito. A escolha definitiva me foi comunicada num telefonema extra, de tarde, pois nos falávamos diariamente pela manhã, quando Ana me disse que tinha achado o título, afinal, num poema meu, no último verso.
À princípio achei meio bolero, mas depois fui me acostumando, na medida em que acompanhava literalmente, passo a passo, a feitura do livro. Na época escrevia também o meu, que se chamava “3X4”. Esses 'telefonemas de consulta' eram discussões pormenorizadas sobre os escritos de cada um, quando tudo era visto sem nenhum rigor fetichizado, de colarinho branco, mas sim meio na contramão, a la diable.

Hoje, quando me lembro desse tempo, não poderia dizer, com exatidão, quem telefonava pra quem. Ora um, ora outro. Ou o telefone tocava sozinho numa ligação telepática?
A Teus Pés, também, foi escrito andando, ao meu lado, pelas ruas do Rio, viajando em 'frescões' ou sentado em mesas de chá transitórias. Foi, aliás, na Confeitaria Colombo que ela me levou a versão final, impecavelmente datilografada em máquina elétrica, às vésperas de enviar os originais para a Brasiliense. Sugeri cortes, supressões de alguns textos. Foram aceitos depressa. Fiquei arrependido, liguei à noite e disse que era melhor considerar com mais calma a eliminação deles. Ela disse não. Os originais já tinham sido remetidos. Dois anos depois penitenciei-me incluindo muitos desses poemas em 'Inéditos e Dispersos' (Ana Cristina César).
Agora estou aqui recordando esses pequenos acontecimentos, publicando intimidades delicadas, O telefone telepático, na ponta do trampolim, não bate mais. É uma caixa-preta, for ever. Nunca pensei que na minha vida acontecesse uma coisa tão forte, tão brusca e selvagem, e que uma ausência pudesse ser tão viva.”

segunda-feira, 28 de março de 2011

Treze - Uma Aventura Literária de Pete Towshend


Muitos astros do rock também já se aventuraram pela literatura. A lista seria extensa: John Lennon, Bob Dylan, Jim Morrison, só para citar alguns. Outro roqueiro que também deixou um pouco sua guitarra de lado para exercitar seus dedos na máquina de escrever (na época ainda se usava essas hoje peças de museu) foi Pete Towshend, líder da banda inglesa The Who. Em 1987 seu livro Horse's Neck seria lançado no Brasil, com o título de Treze. Na ocasião, o designer gráfico, e autor da capa da edição brasileira, Wilton Azevedo, escreveu a seguinte resenha:
"Todo mundo sabe: Pete Towshend, o líder do grupo The Who, foi o roqueiro que, além de introduzir a performance do ruído em seus shows, quebrando e incendiando instrumentos, inaugurou a linguagem do que se intitulou Ópera Rock. Quem conhece as letras de suas músicas sabe que Pete está sempre questionando o comportamento adolescente, principalmente vivendo na Inglaterra, um país onde se encontram pelas ruas adolescentes de até 50 anos.
Horse's Neck é seu livro agora lançado no Brasil com o nome de Treze. É um livro curioso, dividido em pequenos contos que se parecem muito com aquele desejo da gente de um dia cruzar o Pete no meio da rua, pedir um autógrafo e ouvi-lo contar algumas de suas aventuras.

Pete mistura ficção com fatos reais que não passam de situações banais. Acontece que é dele, e, se tratando de Pete, as coisas banais nunca são banais. Além do mais, Pete é bem charmoso ao tirar de si toda a culpa de ter escrito o que escreveu. Já no prefácio, atribui à sua mãe toda a responsabilidade por tê-lo influenciado a ponto de produzir este Horse's Neck, que, na gíria inglesa significa algo próximo a "Tolices".
Em "A Peixaria" ele conta como conheceu o dono, um espanhol que tinha sido violonista famoso em seu país e que mais tarde fugiu para a Inglaterra motivado por um caso amoroso. Pete ia todas as noites à peixaria para tocar junto com o amigo, onde executavam durante horas seguidas solos estilo flamenco. E não é tudo. Ele conta como as pessoas o julgavam homossexual por ficar horas com o amigo espanhol.
Sua imagem controvertida diante do público parece que o acompanha como uma espécie de carma desde a adolescência. O melhor retrato desta imagem é seu pulo voador com a guitarra em um solo estridente.
Foi baseado neste aspecto que desenvolvi o design gráfico da capa, extraindo do grafisno da xerox uma espécie de fôlego suspenso, assim como um vídeo clip das histórias de Pete."

sábado, 26 de março de 2011

Arnaldo Antunes no Sesi Campos


Na noite de ontem (25/03) Arnaldo Antunes se apresentou no Sesi Campos. Apesar de seus últimos trabalhos serem o cd Iê-Iê-Iê e o cd e dvd Ao Vivo Lá em Casa, Arnaldo optou por um outro repertório, já que em vez de sua banda trouxe apenas dois de seus músicos: Chico Salém e Betão Aguiar, ambos no violão ou eventualmente com Betão na guitarra. Como a sonoridade de seus últimos trabalhos pede a presença de sua banda completa, o show acabou sendo um apanhado de sua carreira, o que em certo ponto até funciona melhor, já que pôde assim cantar músicas mais conhecidas do público. Essa opção pelo formato semi-acústico, segundo Arnaldo, foi em função das dimensões do teatro do Sesi.
Arnaldo, desde a época dos Titãs já se revelava um artista multi-mídia. Além de letrista publicava livros de poesia (com influências concretistas) e participava da arte gráfica dos álbuns da banda - um exemplo é o belo trabalho de capa de O-Blesq-Blom. Ao deixar a banda, em 92, Arnaldo lançaria seu primeiro cd e vinil (na época esse formato ainda era lançado) Nome. O projeto ainda incluia um livro e uma fita vhs. Era um trabalho bem experimental e pouco comercial, mas foi a realização de um projeto pessoal que seria impossível de ser concretizado enquanto membro da banda. Seus trabalhos posteriores passaram a tender para um tipo de música mais audível para os ouvidos menos habituados para suas experimentações, sem que isso viesse a significar qualquer tipo de concessão ao mercado.
Voltando ao show, Arnaldo escolheu um repertório que se encaixasse melhor no formato reduzido de voz/violões/guitarra, dando destaque para aquelas músicas mais conhecidas, mas não deixando de interpretar algumas de sua nova safra. Assim, ele trouxe ao palco músicas como O Silêncio, Alegria, Socorro, Não Vou Me Adaptar (remetendo aos Titãs), o Sol entre outras, além de algumas de seu disco atual, como Invejoso, Consumado e Longe (parceria com seu tecladista Marcelo Jeneci). Apresentou ainda uma música inédita ainda sem título, que compôs em parceria com seu baixista Betão Aguiar, Davi Moraes e Pedro Baby.

Sua performance no palco e sua comunicação com o público revelam um artista com ótimo domínio de palco, coisa que já demonstrava desde os tempos dos Titãs. Chegou a descer do palco e cantar próximo à plateia e dançar com desenvoltura de um jeito bem pessoal. O show funcionou bem, não só por Arnaldo, como também pelos dois excelentes músicos que o acompanharam.
Após deixar o palco sob calorosos aplausos, retorna ao palco para o bis trazendo três músicas, para encerrar sua apresentação: Engrenagem, do disco Um Som, Essa Mulher e Judiaria, de Lupiscínio Rodrigues, num arranjo bem eletrificado.
Foi mais um bom show trazido pelo Sesi.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Titãs - Revista HV 1988


Os Titãs eram a minha banda favorita nos anos 80. Eu acompanhava atentamente todo aquele movimento que vinha acontecendo ainda no início daquela década, o surgimento de bandas que traziam um trabalho novo, revelando novos músicos, compositores e letristas de talento. É certo que como todo movimento que ganha a mídia, muita coisa ruim surgia na carona da onda do sucesso - as próprias gravadoras na busca de novos e rentáveis produtos para o mercado inventavam fórmulas, e apostavam em artistas fabricados. Mas o certo é que naquela década muita gente boa surgiu.
À princípio não me liguei muito no som dos Titãs. Seus dois primeiros discos passaram meio batido por meus ouvidos, mas em 1986, quando lançaram o histórico disco Cabeça Dinossauro, o som da banda deu uma guinada de qualidade. Aquele é um disco fantástico, e que merece entrar em qualquer lista dos melhores discos lançados no Brasil, e por sinal, entrou mesmo em várias que já li. Os discos que vieram a seguir mantiveram o nível de qualidade: Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, Go Back (ao vivo) e O-Blesq-Blom. O disco seguinte, Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, já não manteve o mesmo patamar, mas mesmo assim traz bons momentos. Em seguida, já sem Arnaldo Antunes, a banda lançaria Titanomaquia, um disco radicalmente pesado, com produção de Jack Endino, conhecido produtor de bandas pesadas americanas.
Mas voltando a falar de sua fase áurea, em 1988 uma revista alternativa chamada HV (Humor/Verdade) trazia uma matéria de capa com a banda. Falando em capa, a revista trazia uma capa dupla, que aberta, como na foto que abre essa postagem, mostrava uma foto com todos os até então, oito integrantes do grupo.

A matéria trazia 20 depoimentos sobre a banda, como algumas dessas abaixo:
"Os Titãs são o melhor grupo de rock deste país. Eles compreendem o que é essencial para que um rock seja a alquimia da mistura da imensa tristeza que nos envolve com um pouquinho de alegria. Alguns críticos e gravadoras pensam que os grupos de rock como os Titãs, Inocentes, Legião Urbana, Lobão, etc. são descartáveis. Eles são anarquistas de um novo anarquismo. No sentido do pacifismo, da descentralização, onde a extrema hostilidade da disputa pela existência seja substituída não pela concordância e pela uniformidade do tédio, mas sim pela instalação de um suspense maior, em que cada segundo seja supercarregado de emoção, tesão, ardor e... beleza." Jorge Mautner
"Eu acho os Titãs o máximo. O Sérgio Brito é atualmente um dos melhores cantores do Brasil. Além disso, não tenho mais nada pra falar, pois a música deles já diz tudo." Renato Russo
"A partir dos dois últimos trabalhos dos Titãs é que eu passei a tê-los como a minha number one. Principalmente pelas letras, pois a música me lembra bastante o punk dos anos 70, mas isso não deprecia de forma alguma o trabalho musical do grupo. Explico: bandas como Gang of Four ou Buzzcoks hoje são praticamente a bíblia de quem quer fazer rock'n roll. É como se você tivesse de ouvir James Brown e Aretha Franklin pra falar de música negra."
Kid Vinyl
"Eu adoro. É uma banda de afinidades culturais especiais. E é por causa dessas afinidades que a banda se formou. Eles não tocam rock simplesmente por tocar."
Ivald Granato, artista plástico
"Eu gosto tanto dos Titãs que já comprei o disco e um dia pretendo ler o livro e ver o filme."
Washington olivetto, publicitário

quinta-feira, 24 de março de 2011

Gal Costa - Ensaio Fotográfico Revista Status 1985


Em fevereiro de 1985 a revista Status publicou um ensaio fotográfico de Gal Costa nua. Status era na época uma publicação masculina, que competia com a Playboy, e costumava fazer ensaios com modelos famosas e atrizes. Gal, que sempre foi considerada um sexy simbol, e sabia explorar bem sua sensualidade, sem nunca parecer vulgar ou exibicionista, nos anos 80 ainda apresentava belas formas, e esse ensaio foi muito aguardado. Como era de se esperar, as fotos, clicadas por Marisa Alvarez Lima, que por sinal, fotografou muito os tropicalistas, ficaram bem discretas, mais sugerindo do que propriamente mostrando detalhes de seu corpo. Não há fotos de nu frontal nem de sua bunda, mas as fotos ficaram belas, e podem se encaixar no conceito de "nu artístico".
A revista, além das fotos, traz uma boa matéria a seu respeito, e um texto de Caetano Veloso, que transcrevo abaixo alguns trechos, para não tornar a postagem muito longa:

"Gal só me surpreendeu uma vez: quando a conheci e a ouvi cantar. Foi uma surpresa tão grande e tão profunda que ainda hoje vivo sob o seu impacto. Na hora eu pensei: 'A maior cantora do Brasil.' Daí em diante foi só acompanhar os modos com que essa constatação procurou se confirmar (...)

Lembro do festival de rock da ilha de Wight, milhares de pessoas nuas na praia: eu ficava excitado, mas não envergonhado ou escandalizado. Gal estava lá. Eu nem me lembro se ela tirou a roupa. Eu nunca namorei com ela. Uma vez tive uma pequena discussão com o jornalista Ruy Castro (terá mesmo sido esse?) por causa dessa mania atual de se perguntar aos entrevistados se já treparam, se já brocharam, etc... Foi na casa de Eduardo Mascarenhas e por causa da entrevista deste (ele tinha se atrapalhado na resposta à pergunta sobre brochada). Acho uma tolice que as pessoas se sintam na obrigação de narrar suas intimidades. Pois bem, eu e Gal sempre brochamos todas as vezes que tentamos brincar de namorar.

No início de da nossa carreira, dividíamos a cama de casal de Guilherme Araújo (empresário dos dois) em Sampa. Todas as noites eu tentava seduzi-la com um disco de Bob Dylan e papo-furado. Ela sempre resistiu e terminávamos às gargalhadas.
Acho que na época dos Doces Bárbaros, na Bahia, nós tentamos fingir que íamos namorar no hotel onde ela estava hospedada. Foi legal porque eu a vi nua como agora ela aparece em algumas dessas fotos bonitas que a Marisa fez. Tomando banho. Gal é linda."

terça-feira, 22 de março de 2011

Show do Kiss no Maracanã - Junho de 83


Em 18 de junho de 1983, a banda Kiss deu um show histórico no Maracanã. A banda estava completando 10 anos de estrada, e para comemorar realizou uma turnê mundial, que incluiu o Brasil, para delírio de seus fãs brasileiros. A revista Mixtura Moderna fez uma ampla matéria sobre esse show. Se não estou enganado, esse foi o primeiro show de rock acontecido no estádio do Maracanã. Que eu me lembre, antes só Frank Sinatra havia cantado antes no mesmo local.
A revista, dava destaque ao show, e trazia na capa o guitarrista Paul Stanley. Acompanhava a edição um encarte em formato tablóide trazendo fotos e comentários do show.

A jornalista Ana Maria Bahiana comentava:
"O som estava muito baixo,tímido e embolado para um show de rock, ainda mais de heavy metal. O Kiss entrou em cena uma hora atrasado, os canas não deixaram ninguém no gramado em paz, a cusparada de sangue de Gene Simmons em 'God of Thunder' foi vista só por meia dúzia nas primeiras filas e depois, bem tipo nada-a-ver, ele deu de gritar 'Mengô! Mengô!' com o linguão de fora, todo ensanguentado. Para culminar, um bando de crentes enchia o saco da galera, distribuindo folhetos, fazendo pregações aos berros e agarrando as pessoas pelo braço para impedi-las de entrar naquele 'antro de perdição', onde se iria celebrar um 'culto a Satanás', dos 'Kids in Service of Satan', aliás Kiss.
Mas para quem gosta, que noite a de 18 de junho!

O som vem rugindo baixo, mas dá pra sacar que é 'Criatures of the Night' a música de abertura. As luzes estão belíssimas sobre a fumaça e os quatro, assim de longe e com as roupas em full regalia, nem parecem tão gordos quanto na vida real. Tocam, numa enfiada só, 'Creatures', 'Detroit Rock City' e 'Cold Gin', com brevíssimos intervalos para as adulações de praxe 'Helo Rio de Janeiro, we love you', etc, etc. Paul Stanley balança um rabinho de pele preso ao seu macacão de lycra e provoca o público: 'Precisamos do Doutor...(ninguém responde, a princípio), do Doutor... (Love!,a galera urra). DOCTOR LOVE!' - pronto, mais uma música.

O que se passa no palco agora? Ah, sim, começaram os solos, esse ritual imprenscindível ao heavy metal. Vinnie Vincent na guitarra é o primeiro. Bom. O melhor de todos. Acordes rápidos, à maneira de Eddie Van Hallen. Limpo, pouca distorção. Paul Stanley é o seguinte. Faz charme à beça, as meninas deliram, mas é fraquinho demais. Quase o mesmo solo de Vinnie, só que executado canhestramente.
Apoteose final: fogos de artifício por todos os lados, luzes, fumaça e um bis para arrasar com os maiores sucessos da banda, 'I Was Made For Loving You' e 'Rock And Roll All Nite'. Poder, poder! Arquibancadas em pé, dançando" Muita luz, delírio!
Fim de festa, a galera suada apesar do frio, eu me lembro de uma reportagem de Charles M. Young sobre o Kiss não prometerem esclarecer a origem do universo nem o sentido da vida, mas funcionam. Como funcionam."