Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Preciosidades em Vinil - The World Is A Ghetto - War (1972)


The World Is A Ghetto, da banda War é um dos melhores discos de música negra que possuo. Lançado em 72, o disco traz toda a vibração, ritmo e balanço da black music dos anos 70. Conheci o War através da música The Cisco Kid, que abre o disco. Muitos anos depois o encontrei em um sebo, e mais por causa dessa música levei o álbum, e depois, o ouvindo todo, vi que havia adquirido um grande disco.
No livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, The World Is A Ghetto muito merecidamente é incluindo na lista, e recebeu do crítico Tim Sheridan o seguinte comentário:
"No início dos anos 70, viver numa cidade, nos Estados Unidos, era uma experiência dicotômica, especialmente em Los Angeles - onde os sonhos de Hollywood contrastavam de forma gritante com a realidade do cotidiano das crescentes comunidades latinas e afro-americanas. A divergência de culturas criou um estado de tensão (os distúrbios raciais em Watts, em 1965, ainda doíam na memória coletiva), mas também proporcionou um terreno fértil para a música, no qual surgiram bandas como Sly And The Family Stone e War.
O War, uma convergência de jazz, funk, rock e influências latinas, tinha feito sucesso com "Spill The Wine", um single que contava com Eric Burdon, ex-líder dos Animals. Os sete integrantes do War seguiram em frente e gravaram dois álbuns muito promissores. Mas foi em The World Is A Ghetto que a banda utilizou todo o seu pontecial. O título sugeria uma manifestação política pública, mas a capa de Howard Miller transmitia a vibração iluminada do álbum - a ilustração mostra um Rolls Royce com um pneu furado, preso no gueto. De fato, "The Cisco Kid", com seu sabor latino (uma homenagem irônica ao herói do cinema dos anos 50), e a funky "Were Was You At" são totalmnte apolíticas, num tom muito mais de celebração da vida do que de proselitismo. Mesmo as letras da faixa-título trazem a mensagem otimista de um amor nascido do smog da cidade.
A extraordinária reação positiva do álbum (foi o mais vendido de 1973) mostra que o War soube traduzir a experiência urbana. A banda continua a fazer sucesso ao longo da década, mas Ghetto ainda é seu trabalho mais coeso e satisfatório."

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Erasmo Carlos & A Bolha - Uma Parceria Arrasa Quarteirão (1977)


Em 1976/77 Erasmo Carlos vivia uma ótima fase em sua carreira. Havia lançado há pouco tempo seu excelente disco A Banda dos Contentes, e havia se juntado à banda A Bolha em uma parceria que resultou em uma memorável série de shows, como atesta o anúncio acima. Em sua edição de fevereiro de 77 o Jornal de Música em sua sessão Ao Vivo, em que se comentava os shows da época, o crítico Guerra escreveu sobre essa parceria sob o título “Erasmo Carlos, festa de arromba”:
“Pela primeira vez na história do showbizz carioca o inesperado aconteceu: um show de rock bem produzido, bem iluminado e com pique. “A Bolha e seu crooner Erasmo Carlos” (segundo o próprio Erasmo) botaram pra derreter na sala Corpo Som do MAM (Rio). Apesar de seus 35 anos (a mesma idade de John Lennon) Erasmo mostrou ser muito mais jovem que muitos roqueiros desta Guanabara poluída.

Seus velhos sucessos como Minha Fama de Mau, Festa de Arromba, e Vem Quente Que Eu Estou Fervendo foram apresentados com uma garra e um drive tão fortes que era impossível ficar parado pelos cantos. Eu dancei, pulei, gritei até quase cair de quatro. A Bolha demonstrou mais uma vez ser o melhor grupo de rock das quebradas. É só a rapaziada ter o que tocar que o som rola mesmo. Pedro Lima mostrou ser o nosso Keith Richards até na aparência. Sua guitarra-base foi da maior responsabilidade ao lado do piano de Rubinho, os dois formaram um wall-of-sound à la Phill Spector que segurou o baixo de Lincoln e a guitarra de Marcelo Orelha nas variações com a maior eficiência. Se o show fosse gravado em disco, Erasmo Carlos & A Bolha seriam o nosso Rock'n Roll Animal.”
Obs: Rock'n Roll Animal é um antológico disco ao vivo, gravado por Lou Reed em 1974. Se o crítico compara o show de Erasmo & A Bolha com o disco de Lou Reed, é porque foi mesmo arrasador.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Que É Pop?


Recentemente, ao assistir ao documentário “Uma Noite em 67”, que comenta e mostra cenas do festival de música da Tv Record daquele ano, vi uma cena de bastidores em que Caetano Veloso, que participou daquele festival com Alegria, Alegria, numa entrevista define sua música como uma composição pop. O entrevistador então pede para Caetano definir o termo “pop”, já que essa palavra ainda era nova em nosso vocabulário. Caetano então diz que pop era tudo ligado a fenômenos de massa, como era o caso em sua música da citação da coca-cola e personagens populares como as atrizes Brigitte Bardot e Claudia Cardinalli.

Com o tempo, o termo foi se popularizando, principalmente após a difusão da “pop-art” e da expressão “música pop”. Com relação à “pop-art”, lembrando a definição de Caetano, o que se fazia principalmente era transformar imagens de objetos e pessoas que se faziam presentes no cotidiano das pessoas (portanto, fenômenos de massa) em objetos de arte. Andy Warhol, por exemplo, transformou a embalagem de um produto que era largamente consumido em supermercados em um de seus quadros, caso da Sopa Campbell's. Algumas figuras públicas, cujos rostos eram constantemente mostrados pela mídia também eram retratados por Warhol, como Marlilyn Monroe, Elvis, Mao Tsé Tung, Beatles, Mick Jagger, Muhhamad Ali, Elizabeth Taylor, etc. A partir de fotos, as imagens eram reproduzidas, se usando técnicas de sombreamento e uso de cores, e viravam objetos de arte. Outro artista da escola pop, como Roy Lichtestein utilizava imagens de histórias em quadrinhos, também outro fenômeno de massa, para utilizar em sua obra. Mais tarde o termo passaria também a denominar outros segmentos de arte, como “cinema pop”, “literatura pop”, etc.

Com relação à música pop, é interessante notar que o termo, ao longo dos anos foi mudando de conotação. Nos anos 60 e 70, “música pop” era muito usado para definir um som mais experimental, algo como o som de Jimi Hendrix, Grateful Dead, grupos psicodélicos em geral, etc. Lembro que um amigo que tinha um conjunto de baile nos anos 70 uma vez comentou que no contrato para tocar em um clube da cidade havia uma cláusula que estabelecia ser “proibida a execução de música pop”. Ou seja, nada de música mais elaborada, e sim músicas mais populares, para se dançar.
À partir dos anos 80, a definição de música pop foi se modificando, e hoje quando se diz que determinado trabalho é pop, equivale dizer que é um som mais voltado para uma vertente mais popular e comercial, de melodia fácil e instrumental padronizado para se atingir uma ampla faixa de público. Às vezes quando nesse espaço reproduzo alguma matéria com uma banda dos anos 70, e seu trabalho é definido como pop, fico imaginando o estranhamento que deve causar a quem não é habituado com a antiga conotação. Com relação à origem da palavra, reproduzo uma matéria publicada em uma revista no fim dos anos 70:
“Há quem diga que o termo pop tem uma origem das mais simples, como convém, aliás, à sua rápida divulgação na linguagem: ele se origina do anúncio do 'popcorn', nossa pipoca, largamente consumida pelas massas americanas. O 'corn' foi engolido, e ficou apenas pop. A ser verdadeira essa hipótese, vemos que pop é a expressão diferente que todos esperavam estar à espera. Ela resulta do consumo em massa. A massa de alimentícios e de publicidade que nos entra pela boca e pelos olhos, num crescendo que muitos pensadores do nossos tempos acham vá tornar-se insuportável.”

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Paulinho da Viola Poeta


Muito já se analisou e se discutiu sobre a questão poesia/letra de música. Embora muitas letras sejam pura poesia, alguns teóricos consideram que tecnicamente são duas categorias distintas. Letra é letra, poema é poema. Muitos dos próprios autores endossam essa tese. Isso não significa que um texto que nasceu poema, ao ser musicado deixe de ser um poema para virar letra. A verdade é que poucas vezes vi casos em que músicos que também são letristas tenham mostrado um texto meramente poético, que não nasceu para ser musicado. Por exemplo, nunca vi um poema de Chico Buarque, Caetano ou Gil, por exemplo, embora até acredite que eles tenham feito alguns, que não nasceram para ser musicados. Uma das excessões que me lembro no momento é Cartola, que uma vez na tv recitou um belíssimo poema de sua autoria. No caso daqueles que são somente letristas, e só trabalham com o texto, conheço vários poemas de autores como Aldir Blanc, Cacaso, Abel Silva, Paulo César Pinheiro e outros.
A exemplo de Cartola, outro sambista que apresentou um belo poema, que nasceu como poema, e assim ficou, por não ter sido escrito para ser musicado, foi Paulinho da Viola. Em 1976 ele lançou simutaneamente dois discos: Memórias Cantando e Memórias Chorando - o segundo, um disco instrumental somente de chorinhos de sua autoria. No encarte de Memórias Cantando aparece um belo poema de Paulinho, chamado Memória:


De onde vem esta memória, revelando mundos/revirando tudo, como se fosse um tufão?/A varrer, cuspindo entulhos/num erguer e demolir de muros/Nas esquinas e despovoadas ruas de meu coração?/De onde vem essa memória/às vezes festa, às vezes fúria/num abrir e fechar de portas/louca procura de respostas, mistura de murmúrios/fonte de delícias e torturas?/Onde anda agora essa memória?/No mundo da lua, brincando de soltar subterfúgios/a ficar na rua, se fazendo de surda e me deixando assim/um dia, um ser perdido em lutas e outro/um pobre menino a flutuar sonhos absurdos/Onde anda essa memória?/a que horas chegará, como sempre, obscura/com suas preciosas falhas/que recolho agradecido/para traçar o rumo de minhas canções?/Velhas estórias, memórias futuras?/Sei de onde vem, já sei por onde andou/saiu para de trocar de roupa, não pode andar nua/Amo o oceano que retém no fundo/os mistérios de sua natureza

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Egberto Gismonti - Matéria Revista Ele Ela


Egberto Gismonti sempre foi para mim, um músico que me chama a atenção, não só por sua musicalidade, como também por suas ideias e pensamentos. Dentre tantas matérias antigas sobre ele que guardo até hoje, há uma da revista Ele Ela, que acredito ser do fim dos anos 70, e que traz muitas frases interessantes ditas por ele, ao longo de uma entrevista. Vou citar abaixo algumas dessas frases:
"Faço a música que quero com a técnica que consegui."
"Felizmente descobri a tempo que não deveria ser um intérprete. Não era mais o meu negócio depois de me conscientizar da possibilidade de compor. Aos trancos e barrancos terminei o curso, apesar das reações dos professores levados à loucura pelos meus acordes que os faziam lembrar o jazz ou o samba. Fui mudando de professor três vezes, mas isso não me inibia. Apesar de tocar de ouvido, eu deveria ser muito bom aluno. A diretora do Conservatório chegou a dispensar meu pagamento das mensalidades."
"Não estou preocupado com música. Estou preocupado com a história que se vai contar usando a música como como linguagem. Estou preocupado em motivar as pessoas a ouvir música e compor."

"Criatividade é a capacidade de trabalhar sobre águas nunca dantes navegadas. Coitado de quem se preocupa em trabalhar sobre o óbvio. Eu estou voltado para a energia das pessoas."
"O rock abrange todo tipo de gente. É uma música sem preconceitos como é sem preconceito o garoto que tem hoje 15 ou 20 anos. Eles gostam de mim e do Cartola. Será que há algum mal nisso?"
"O Brasil é um país colonizado, mas também é colonizador. A Bossa Nova tomou o mundo. O Tom Jobim está aí até hoje nos Kojaks e Barettas(séries de tv da época) da vida. Cheguei na Romênia e no saguão do hotel souberam que eu era brasileiro e imediatamente arriscaram um I Like Tom Jobim. A brasilidade está no Brasil e fora dele.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Cara de Cão


A revista Rock Stars era especializada em rock, e circulou nos anos 80. Trazia sempre informações sobre as bandas que se destacavam naquela década, e também apresentava sessões e matérias sobre bandas antigas. O número 18, de junho/julho de 1986 por exemplo, trazia dentre outras matérias, uma sobre os 15 anos da morte de Jim Morrison. Como todas as revistas, também havia uma sessão de cartas de leitores (naqueles tempos pré-internet eram cartas mesmo). O que me chamou a atenção nesse número da revista foi uma carta, que reproduzo abaixo, conforme foi publicada:
"Prezados amigos do rock. Eu queria que minha probidade fosse colocada na revista Rock Stars. Eu quero dizer que sou o cara de cão. Eu falei para minha família e irmão. Que eu sou o cara de cão ninguém acreditou. Eu quero falar pra vocês da ROCK STARS que eu sou o cara de cão podem acreditar.
Observ. - Escutem a música do cantor Roberto Gil. É esta música. Obser. - Pessoa me afasta. O cantor Roberto Gil canta sempre este sucesso aqui no Amapá. Faz muito sucesso. Eu ligo o rádio às vezes encima desta música - Pessoa me afasta. Eu fico confiadão, assustado então eu sou o cara de cão.
Sabe Diretor da Rock Stars eu sou esquisito, eu sou separado do meu lar. Observ. - segundo os Técnicos eu fui o único jovem que sofreu de tristeza em 1984. Neste ano, os demônios se enrolaram durante a noite na minha rede de dormir. Eu enxergava eles dançando. Eu sou também visionário de vez em quando eu enxergo fantasma à noite às vezes eu sou Excêntrico.
O cão é meu guia, a gente vê ele. Eu estou com o cão nas pernas não dá pra ver. Isto é meu e não sai de mim. Eu vou na igreja rezar para meu guia. Sabe Diretor da ROCK STARS eu vou sempre na umbanda. Eu vou rezar com mulher espírita na umbanda.
Quando eu dormia Diretor eu soltei um gemido de cachorro pela boca. Eu fui esticar as pernas e soltei um gemido de cão pela Boca. Os cachorros de minha comunidade de vez enquando latem sabem porquê? Porque o meu espírito penetra no deles. Eu sou um metaleiro cara de cão podem acreditar. Eu estou reinando aqui em Macapá. Eu tenho voz de cantor, um bom tom, eu tenho muitos fans. Se vocês quiserem telefonar para mim. Observ. Fone 632-6330. Se caso telefonarem, telefonem de manhã cedo às 9 às 10 horas da manhã eu só faço me levantar da rede."

A música de Gilberto Gil (e não Roberto) que ele chama de Pessoa Me Afasta é Pessoa Nefasta. Espero que ele já tenha melhorado.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Fica A Seu Critério


Esse poema concreto foi feito a partir dessa frase, que ouvi quando me apresentei em um trabalho, e no meu primeiro dia, por desconhecer certos procedimentos perguntei a um colega sobre uma porta, se eu devia deixá-la aberta ou fechá-la, e ele me respondeu: "Fica a seu critério". Depois fiquei reciocinando sobre essa frase, que pode ter um caráter dúbio. Pode ser uma coisa positiva, por denotar uma liberdade para agirmos da forma que achamos mais apropriada, sem precisarmos seguir uma norma pré-estabelecida, da qual até podemos discordar. Mas também a frase pode trazer um lado negativo, quando somos obrigados a tomar uma decisão, que pode não ser a melhor alternativa, por nossos critérios pessoais não serem os mais apropriados para a situação, e assim cometermos um erro de avaliação.
Pensando na frase, resolvi desmembrá-la, e formar todas as combinações possíveis usando as palavras que formam a frase, trocando a ordem das mesmas. Após ter em mãos todas as combinações, resolvi colocá-las em uma determinada ordem, para compor o poema concreto. Nesse processo, a mensagem implícita na frase original passou a fazer parte da composição do poema, pois "ficava a meu critério" estabelecer uma ordem nas frases que se originaram. O primeiro critério que adotei foi sortear as frases,e ir colocando-as na ordem do sorteio. Porém já na primeira tentativa não me agradou determinada sequência de frases, e achei que um sorteio não seria a melhor forma de agrupá-las em determinada ordem. Depois de pensar um pouco, adotei um critério e acabei o adotando. Se você ler somente a primeira palavra de cada frase verá qual foi o processo que adotei. Adotando esse processo, sobrou uma última frase, que acabou fugindo da ordem que determinei, porém curiosamente, essa última frase tem um sentido lógico, diferentemente das demais, cuja grande maioria não diz absolutamente nada. Dessa forma, sem querer, o poema passa uma mensagem, como algo que se inicia de forma clara, depois vai se deformando, perdendo o sentido, mas ao fim, recupera a mensagem inicial.