Palavras Domesticadas

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terça-feira, 13 de março de 2012

Luiz Carlos Maciel Explica a Contracultura


Luiz Carlos Maciel é considerado o grande arauto da contracultura no Brasil, por sempre ter difundido o assunto através principalmente da coluna "Underground", que mantinha no jornal O Pasquim, nos anos 60 e 70. Nasceu em 15 de março de 1938, em Porto Alegre. É escritor, jornalista, diretor de teatro, roteirista de cinema e televisão, professor e conferencista.
Em julho de 1981, Maciel escreveu para a revista Careta uma matéria intitulada O Que É a Contracultura, em que explica e define o que vem a ser essa palavra tão usada nos anos 60:
"O termo 'contracultura' foi inventado pela imprensa norte-americana, nos anos 60, para designar um conjunto de manifestações culturais novas que floresceram, não só nos Estados Unidos, como em vários países, especialmente na Europa e, embora com menos intensidade e repercussão, na América Latina. Na verdade, é um termo adequado porque uma das características básicas do fenômeno é o fato de se opor de diferentes maneiras à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições da sociedade do Ocidente.
Contracultura é a cultura marginal, independente do reconhecimento oficial. No sentido universitário do termo, é uma anti-cultura. Obedece a instintos desclassificados nos quadros acadêmicos.
Pode-se entender contracultura, a palavra, de duas maneiras:
a) como um fenômeno histórico concreto e particular, cuja origem pode ser localizada nos anos 60
b)como uma postura, ou até uma posição, em face da cultura convencional, de crítica radical.
No primeiro sentido, a contracultura não é, só foi; no segundo, foi, é e certamente será.
Acostumamos, através da educação, a ver na cultura que herdamos de nossos pais e antepassados, uma entidade intocável, definitiva, que se apresenta diante de nós como parte da própria essência da realidade - algo 'natural' como o sol ou a lua, ou o resultado de uma evolução que se diria 'biológica' porque inevitável.
É evidente, porém, que não é assim. Cultura é um produto histórico, isto é, contingente, mais acidental do que necessário, uma criação arbitrária da liberdade - cujo modelo supremo é a Arte.
Não há cultura, a rigor - como manifestação de uma inexistente 'natureza' humana, por exemplo - mas culturas no plural, criadas por diferentes homens em diferentes épocas, lugares e condições, tanto objetivas quanto subjetivas. Elas expressam, não a realidade em si, mas diferentes maneiras de ver essa realidade e de interpretá-la. São diferentes leituras do mundo e por nenhum critério pretensamente objetivo podemos afirmar que uma seja mais válida - ou mais 'objetiva', 'verdadeira', 'científica', etc - do que outra.
Criamos, inventamos culturas - e a todo momento, praticamente sem cessar. Trata-se, apenas, no fundo, de um jogo cuja graça maior há de ser, sempre, sua carga poética. O valor mais alto de uma cultura é sua visão poética.
Cultura, pois, é essencialmente Arte - um dos piores prejuízos causados pela visão científica que domina a nossa cultura foi a de distorcer, obscurecer e finalmente ignorar esse fato.
A contracultura surgiu do confronto entre a cultura, reconhecida como doença, e a visão juvenil, cujo instinto natural é para a saúde. A audácia dessa visão não pode ser considerada mera precipitação ingênua pois funda-se, antes, num desencanto radical - atingido por saturação, maturidade - com o mundo tal como o conhecemos.
As vertentes que confluíram para a formação da contracultura são várias, de naturezas aparentemente diversas, mas sublinhadas pelo denominador comum da intenção libertária. E a fonte instintiva dessa intenção é, sem dúvida, a visão juvenil."

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pepeu Gomes e Sérgio Dias Falam de Hendrix


Pepeu Gomes e Sérgio Dias são, sem dúvida, dois dos maiores guitarristas que já tocaram nesse país. Integrantes de duas bandas revolucionárias, Novos Baianos e Mutantes, Pepeu e Sérgio só por esse fato já merecem entrar para a história musical desse país. Ambos iniciaram na carreira ainda nos anos 60, quando os primeiros ecos da música de Jimi Hendrix chegavam por aqui, ainda timidamente, mas já mostrando que algo de novo estava acontecendo, e quem se aventurava a impunhar uma guitarra tinha que se ligar nos acordes inusitados de um negão americano que vinha incendiando o panorama do rock. E assim, Pepeu e Sérgio acabaram bebendo da fonte hendrixiana, e se tornaram os músicos que são.
Por ocasião do aniversário de trinta anos de morte de Hendrix, em 2000, Pepeu Gomes e Sérgio Dias deram seus depoimentos sobre a influência e a presença de Jimi Hendrix em sua música, para uma matéria do jornal O Globo, em 10/09/2000:

"Casado com o Instrumento
Pepeu Gomes
Se hoje toco guitarra é por causa dele. Aos 14 anos, já era baixista mas, no meu aniversário de 17 anos, ganhei um disco de Jimi Hendrix, chamado 'Smash Hits'. Naquela noite, fui dormir contrabaixista e acordei guitarrista. Isso aconteceu na época do disco 'Barra 69', quando eu tocava com os Leif's, grupo que acompanhou Caetano e Gil no show que fizeram em Salvador, antes do exílio em Londres.
Mas a influência não se restringiu à música, mudou a minha vida. Queria ser Hendrix, me vestir como ele, usando até uma peruca com cabelo de negão. Meus discos iniciais têm frases inspiradas nele. Então, a ascendência em meu trabalho não é parcial, e sim, total. Tive o presente divino de conhecer Hendrix aos 17 anos e, um ano depois, sua morte também mexeu comigo: eu me revoltei e fugi de casa.
Hendrix não sabia ler e escrever música, mas contribuiu decisivamente para a evolução do instrumento. Ele dizia: 'A minha namorada e a minha guitarra são a mesma coisa'. Hoje com as conquistas tecnológicas, poucos guitarristas mantêm essa troca. Acho que, como Hendrix, você tem que dormir com a guitarra.
Um dos elogios mais importantes na minha carreira foi em 1989, quando a revista 'Guitar World' me chamou de 'Jimi Hendrix brasileiro'. E, esta semana, recebi um convite maravilhoso da gravadora Trama: fazer um disco em homenagem a Hendrix. É um ciclo que se completa."
Obs: Que eu saiba, esse disco nunca foi lançado

"O Músico Que Botou Cor no Rock
Sérgio Dias
Lembro-me da primeira vez que ouvi Jimi Hendrix, na casa de um amigo: foi como se a cor tivesse sido ligada e o rock saído do branco e do preto. Pelo fato de eu ser guitarrista, aquilo mexeu demais comigo. Eu queria aprender o que aquele cara estava tocando. Tempos depois, assistindo ao filme de Woodstock, no momento daquele blues, vi Hendrix tão profundamente imerso na música, olhando para a câmera, e entendi tudo. Naquela hora, levantei, fui embora do cinema e fiquei andando na rua sem rumo, digerindo toda aquela informação. Pouca gente teve tanta influência sobre mim nesse nível.
No disco que estou terminando, 'Estação da Luz', tem uma música na qual cito 'Are You Experienced?'. E numa outra, 'Araras', faço longos solos hendrixianos. É uma pena que Hendrix tenha partido tão cedo, dá uma grande solidão."

domingo, 11 de março de 2012

Reinverso - Ednardo


Reinverso (Ednardo)
Estou aqui
O mar não se abriu
Uma nuvem não revelou o caminho
A pedra não verteu água
E aqui não choveu o maná
E estou aqui
Teus olhos vararam meu corpo
De tanto fingir não me ver
Teus ouvidos ensurdeceram com o meu grito
E disseste não me ouvir
Juraste não sentir minha presença
E eu estava colado à tua pele
Ofegante e pulsando como na primeira vez
Estou aqui
E não poderá dizer que não
Minhas mãos escavaram o chão onde pisaste
Meu suor e meu sangue umedeceram essa terra
E agora estás totalmente grávida
De minhas palavras entrecortadas, porém ditas
De minha canção explodindo em jorros de minha garganta
De meu olho sempre te procurando no olho
De meu amor sempre tão próximo do teu ódio
E não poderás negar o rebento desse tempo
Eu estou aqui

sábado, 10 de março de 2012

Funkadelic - O Funkão do Crioulo Doido



O Funkadelic é uma das bandas que melhor representam a black music americana. Liderada por George Clinton, e tendo o baixista Bootsy Collins como fiel escudeiro, a Funkadelic, que em uma formação posterior passou a se chamar Parliament, era uma verdadeira usina sonora de swing, balanço, e tudo mais que tornaria a música negra e as gravadoras Motown e Stax uma das maiores referências sonoras dos anos 60 e 70.
Por ocasião do lançamento de um cd duplo da banda, o crítico José Emílio Rondeau, que era correspondente internacional de O Globo, escreveu de Los Angeles sobre o lançamento e a banda:
"O que acontece quando um barbeiro de subúrbio cheio de ideias musicais, sociais, políticas, e sobretudo esotéricas, ouve muitos discos de Sly Stone, Bob Dylan e os Beatles? ele pira e vira Georger Clinton, o Chacrinha do funk, leme, cérebro e principal voz do império funk que dominou o planeta durante toda uma década, de 1970 a até meados dos anos 80, através de dois núcleos criativos principais, as bandas Funkadelic e Parliament.
Pai de muito do que se ouve de funk puro ou mesmo híbrido - de Fishbone a Living Colour, de Red Hot Chili Peppers a Public Enemy, de Prince a Arrested Development - Clinton caminhou bem adiante dos passos traçados por James Brown e Sly Stone ao criar não somente canções e discos geniais que dariam o tom da soul music de seu tempo e influenciaram sucessivas gerações de compositores e instrumentistas, mas também todo um conceito ecumênico baseado na ideia do funk como instrumento de reforma e sustentação da raça humana.
Nas letras de música e nos discos que costumava usar para unir uma canção a outra, George inventava um mundo de funk-astronautas e naves espaciais engraçadíssimo e absurdo, à primeira vista, mas decididamente profundo e sério, por outro lado.
Tudo era bem definido e claro: o Funkadelic se encarregava do funkão pesado, distorcido, sujo, punk-funk antes de existir um termo que o definisse. O Parliament, enquanto isso, ficava com as canções mais melodiosas, as produções mais polidas até uma 'babalada' ou outra. E desses dois pólos, outros rebentos se encarregavam de estilhaçar e variar mais ainda o evangelho de Clinton: Bootsy's Rubber Band - com o superbaixista Bootsy Collins (que aparece na foto abaixo), o homem que tocou com James Brown em 'Superbad' e 'Sex Machine', fiel escudeiro de Clinton - Brides of Funkeinstein, Parlet, Horny Horns. Todos grupos, vale dizer, prolíficos. Ao todo, esses inúmeros agregados musicais geraram uma discografia superior a 30 discos.

Parte desse riquíssimo legado está agora reunido num caixote de dois cds editados pela Casablanca Records nos Estados Unidos, com 25 faixas dedicadas exclusivamente ao Parliament, o lado, digamos, mais 'comportado' de George Clinton, o lado do que hoje se conhece por 'charme'.
Os fãs de funk hoje com seus trinta e poucos anos e que nos anos 70 se ligaram, nem que de leve, ao movimento Black Rio reconhecerão aqui muita da munição dos bailes de subúrbio de tempos menos beligerantes: 'P.Punk (wants to get funked up)' e 'Give up the funk' (tear the roof off the sucker)' resumem plenamente o evangelho funk de George, com um balanço hipnótico e uma retórica inteligente e bem articulada de dominação mundial através da música. Não é à toa que Greg Tate, jornalista que assina parte do libreto que acompanha o caixote, equipara Clinton a Malcon X, à Nação do Islam e aos Panteras Negras."

sexta-feira, 9 de março de 2012

Carlos Santana - Magias De Uma Guitarra


Carlos Santana é um dos guitarristas mais criativos da história do rock. Surgido ainda nos anos 60, trouxe a linguagem da latinidade para o rock, caracterizando assim seu trabalho. Também flertou com outros ritmos, inclusive o jazz, tendo lançado alguns discos nessa linha fusion. Em 1987 lançava o disco Blues For Salvador, e na ocasião o fotógrafo e jornalista Carlos Albuquerque publicou a seguinte resenha em O Globo:
"O concerto de Woodstock, no final da década de 60 - ao contrário do que rezam algumas apressadas cartilhas - foi o poente de um movimento chamado contracultura. Tirando-se, entretanto, o miolo ideológico da coisa toda, restou o substrato principal do referido evento: a música. Quem viu o filme saiu com algumas cenas na cabeça. As principais, e mais citadas, eram as performances do Ten Years After, do The Who, de Jimi Hendrix, e de Santana.
Quase duas décadas depois, é um curioso exercício arqueológico localizar tais artistas. O TYA praticamente se tornaram uma banda de uma canção só, já que em todos seus shows pós-Woodstock, as plateias exigiam que Alvin Lee e sua banda repetissem a pirotecnia de 'I'm Going Home'. Já Hendrix deu seu último rasgo de genialidade no concerto. Pouco depois faleceu, sufocado pelo próprio vômito. O The Who manteve-se brilhantemente na ativa. Desbandou-se, há alguns (poucos) anos atrás, com maturidade e sem escândalos. Da turma toda, restou Carlos Santana. Duas décadas depois, ele ainda exercita constantemente no vinil, sendo 'Blues for Salvador' o mais recente exemplo disso.

Em vinte e um anos de carreira, incontáveis fãs e alguns detratores. Convenhamos, é muito tempo para alguém conseguir manter uma unanimidade de crítica e público. A seu favor, contam momentos mágicos, uma fonte de calor e balanço nos momentos em que o rock mais teve problemas de cintura dura. Santana foi o fisioterapeuta ideal. Elepês como 'Abraxas' e 'Santana 3' davam a receita: doses perfeitas de rock básico, aliados a uma singular selva percussiva, capaz de levantar zumbis da tumba. O componente principal era a guitarra de Carlos, capaz de alternar longos solos, sustentados quase infinitamente, com notas rápidas e faiscantes. Para tomar quantas vezes fosse necessário.
Depois flertou com religiões orientais e com sonoridades jazzísticas. Seu melhor trabalho é dessa fase - quando começou a chamar-se Devadip Carlos Santana - o emocionante 'Caravanserai'. Desse período, restaram elogios da crítica e queda nas vendagens. O sinal vermelho veio da gravadora. Foi dada a partida na fase mais comercial de sua carreira. Vieram os desiguais 'Amigos', 'Festival' e 'Inner Secrets'. Vieram os tais detratores.
Hoje, ele parece ter conseguido a equação ideal entre o seu som e o que é 'pedido' pelo mercadão. Mesmo assim, ainda alterna belos momentos como 'Havana Moon', com outros menos inspirados, como 'Marathon'.

'Blues for Salvador' fica assim, num meio termo entre esses dois opostos. Se não chega a ser um dos seus melhores trabalhos, também não fica engasgado na garganta. Desce suavemente, como um sorvete numa tarde calorenta. Isso permite que 'Deeper, Dig Deeper' e 'Hannibal', já lançadas posteriormente, tenham outras versões lançadas. A primeira ficou só com a base intrumental, deixando de fora a voz de Buddy Miles. Já 'Hannibal' tem sutis diferenças da original, o clima latino é mantido, com uma falsa coda jazzística no final.
O melhor talvez esteja em 'Now That You Know', um longo improviso instrumental, com destaque para as passagens de Alphonso Johnson no baixo e Carlos na guitarra. Nada mal para quem corre há anos o louco grande prêmio do rock an roll. 'Blues for Salvador' não chega a ser uma pole-position. Mas é uma ótima volta."

quinta-feira, 8 de março de 2012

Elvis, O Rei Rebelde


No dia seguinte à morte de Elvis Presley, os jornais noticiavam o acontecido, e traziam longas matérias sobre a vida, a carreira, o sucesso, o declínio, e tudo que envolveu a carreira de um dos maiores astros surgidos no show-bizz. Na edição de 17/08/77, o jornal O Globo além de noticiar a morte de Elvis, trazia uma crônica de Nelson Motta, sobre o ídolo desaparecido, quando o mundo ainda vivia o impacto da notícia. A crônica se intitulava "Elvis, o rei rebelde", e segue abaixo:

"Em cada guitarra que tocou alto e forte nas duas últimas décadas está a semente de Elvis Presley. Em cada corpo jovem que dança, liberto, estão os movimentos livres que Elvis deu a seu corpo, ao sabor do nascente rock'n roll. Em cada voz rebelde que desafinou o coro dos contentes está a voz rara de Elvis, capaz ao mesmo tempo de criar uma nova linguagem romântica e de estraçalhar as normas de bom comportamento musical. Nas bandas de rock pesado, no heavy metal, no punk. Elvis está presente com sua música simples, direta e irresistível.
Os jovens dos tempos do início de Elvis já dobraram os 40. Depois de sua juventude, muitas gerações de jovens já invadiram todos os terrenos proibidos, a partir da festa que ele proporcionou, através das portas que ele arrombou.
Proibido e mal visto no início, perseguido e acusado de imoral por sua dança, Elvis Presley manteve-se ao longo de mais de vinte anos de carreira como ídolo absoluto dos jovens do mundo inteiro e dele nasceram todas as principais correntes musicais que transformaram o rock num dos maiores fenômenos do nosso tempo.

O que era visto no início como uma nova moda, hoje é com certeza a grande partida para uma radical mudança de comportamento na juventude do mundo inteiro.
A música de Elvis, suas roupas coloridas, sua dança energética e sensual se transformaram em pouco tempo na linguagem comum de todos os jovens rebeldes do início dos anos 50. Seu aparecimeto marca a definitiva ruptura com os padrões tradicionais e - pela primeira vez - um gênero musical consegue se transformar em agente e veículo de uma violenta transformação no modo de vestir, pensar e agir de milhões de jovens.
Antes de Elvis muitos cantores e gêneros musicais fizeram grande sucesso. Mas só com ele a música popular conseguiu mais que ser ouvida e dançada - se transformou num movimento permanente e deu origem a todas as extraordinárias manifestações musicais que surgiram a partir do rock simples, primitivo e direto criado por Elvis num longínquo 1954.
Com Elvis Presley tudo começou. Misturando a country music americana tradicional com o rhythm and blues, ele criou o que seria o grande estopim e raiz de toda a música que sacudiu o mundo nas duas últimas décadas: o rock.
Com Elvis surgiu mais que um novo gênero musical; nasceu uma nova forma de comportamento para a juventude, com os blusões de couro, as motos, os topetes, as camisas coloridas, os jeans: os jovens tinham encontrado através dele uma linguagem comum, irreverente, alegre, simples e direta.
Com Elvis tudo começou. Sem Elvis, as guitarras estão mudas, e sem voz estão várias gerações que ouviram sua música.
Na memória dos jovens de todos os tempos Elvis termina como começou: rei absoluto."

quarta-feira, 7 de março de 2012

Uivo - Allen Ginsberg


O poeta Allen Ginsberg (1926-1997) foi, ao lado do escritor e também poeta Jack Kerouac, o nome mais significativo da Literatura Beat. Seu mais famoso poema, Uivo, é uma boa mostra do que foi a beat generation:

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada, em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, 'hipsters' com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos, que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos de guerra, que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror através da parede, que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York, que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e baralhos e intermináveis orgias, incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário, solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de neon no tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco do crepúsculo de inverno no Brooklin, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente, que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico, que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford's, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi's escutando o matraquear de catástrofe na vitrola automática de hidrogênio, que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte do Brooklin, batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua, tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras, intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada na rua, que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City (...)