Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Os 50 Melhores Discos de Rock de Todos os Tempos

Nos anos 90, a  Nova Sampa Diretriz Editora lançava vários títulos ligados ao rock, dentre eles a revista Rock In. Um desses títulos foi uma edição especial da revista, intitulada Os 50 Melhores Discos de Rock de Todos os Tempos. Logicamente, esse tipo de publicação é algo muito pessoal, sempre gerando controvérsias. Quando a escolha é feita por um time de críticos e jornalistas especializados tem-se uma visão mais abrangente, mas no caso da revista, a escolha é feita por uma única pessoa: o jornalista René Ferri. Como um bom conhecedor do assunto, a escolha dos 50 melhores discos de rock segue uma série de critérios, mas o pessoal logicamente prevalece. No texto de apresentação, o editor diz: "A primeira dificuldade do autor foi constatar imediatamente, que a lista dos 50 Melhores Álbuns De Rock tem mais de 50 álbuns. Assim adotamos alguns critérios:
1) Cortamos os álbuns do tipo 'Best of'', senão acabaria sendo uma monótona seleção de 'discos de sucessos' - as poucas compilações constantes desta lista tiveram sua inclusão justificada.
2) O autor brigou o máximo que pôde contra critérios de seleção subjetivos. Mesmo os álbuns festejados unanimemente pela crítica especializada, tiveram um 'julgamento' imparcial para esta seleção. Assim, a lista reflete uma opinião pessoal e não deve ser vista como uma camisa-de-força. Todos os álbuns relacionados ou citados no texto, foram ouvidos pelo autor em época e ocasiões diferentes.
3) Tentamos descobrir e listar os melhores álbuns de cada gênero representativo no grande universo do rock (pop, folk rock, beat, etc) e descartamos discos de grande relevância, e mesmo essenciais para a compreensão do rock, por não serem catalogados como 'discos de rock'. Daí a ausência de Little Willie John, James Brown, Big Joe Turner e outros, muitos dos quais estão entre os artistas preferidos pelo autor."
Abaixo destaco alguns dos álbuns escolhidos:
Capa de Surf's Up
The Beach Boys - Pet Sounds - maio/'66
Surf's Up - junho/'71
Os BB não inventaram a surf music, mas foram os responsáveis pela sua modernização e popularidade. O épico álbum Pet Sounds foi a obra máxima dos BB, onde Brian Wilson aplicou suas ideias mais intensamente. Pet Souns foi inteiramente concebido e produzido por Brian em mono, por causa da sua progressiva surdez em um dos ouvidos.
Os problemas com drogas alucinógenas, agravados pelas crises psicóticas que Brian vinha tendo desde 1964, afetaram seriamente a música dos BB, que depois de Pet Sounds entrou em declínio.
A crise começou a ser contornada na virada dos anos 60. Em 1971, Brian, que estava afastado, se reintegrou à banda para produzir outra obra-prima, Surf's Up, o reverso do sonho dourado que eles ajudaram a construir. Em Surf's Up, a temática é a morte dos rios e dos mares, a poluição do ar, o envenenamento das plantas. Sintonizados com a luta pela preservação da vida, naquele que foi o ano da conscientização da preservação ambiental, os BB fizeram o melhor álbum abordando a temática ecológica.

Cream - Disraeli Gears - dezembro/'67

O Cream viabilizou um novo formato em bandas de rock, que fez escola, o power trio. Formado por três músicos excepcionais, Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce, o Cream teve um início claudicante, com o sofrível Fresh Cream, um LP pouco inspirado, mas acertaram a mão em Disraeli Gears, o 2º álbum. Foi este 1ºLP de rock de grande vendagem, onde se ouvia improvisações jazzísticas,um truque abusivamente empregado pelo próprio Cream em produções futuras. Também marcou a estreia do mitológico Eric Clapton, cantando em algumas faixas. A produção de Felix Papallardi está perfeita, assim como o compositor lyricist Peter Brown. Pena que depois de Disraeli Gears, o Cream tenha perdido o toque e o ritmo.

The Jeff Beck Group - Truth - agosto/'68
Depois de uma excelente fase com os Yardbyrds, onde se revelou um talento magnífico como guitarrista, criativo e inovador, principalmente no uso do feedback, o inquieto Jeff Beck formou sua própria banda, The Jeff Beck Group.
O 1º álbum, Truth, é um espetacular disco de rock pesado, um dos primeiros do gênero, que teve a distinção de revelar o vocalista Rod Stewart, até então um obscuro cantor de blues, e Ron Wood.
Depois, Stewart e Wood iriam fazer sucesso nos Faces e o Jeff Beck Group ainda gravaria mais três bons álbuns, com formações modificadas.




The Jimi Hendrix Experience - Eletric Ladyland - agosto/'68
Jimi Hendrix é o grande ídolo da 'geração Woodstock' e por ironia foi quem esgotou a guitarra, o símbolo máximo do rock . Seu melhor álbum, Eletric Ladyland, duplo, tem todos os  elementos que fizeram do Experience um dos mais poderosos e coloridos grupos que já existiram. Nesse álbum, o Experience vai o mais longe que pode na área da experimentação, deglutindo os vários estilos, ritmos e gêneros musicais e quebrando todas as barreiras: este foi o último álbum feito pelo power-trio, Jimi Hendrix, Noel Redding e Mitch Mitchell.




John Mayall Bluebreakers With Eric Clapton - julho/´66 (Inglaterra)
Bare Wires - junho/'68 (Inglaterra)
Memories - novembro/'71
Depois de uma série de discos memoráveis, 'o pai do blues inglês', John Mayall, chegou ao autobiográfico Memories, uma tocante coleção de recordações, feito à base de instrumentação semi-acústica e letras nostálgicas. Antes, Mayall já tinha concebido duas obras-primas dentro do seu estilo habitual, Bluebreakers With Eric Clapton e Bare Wires, blues elétrico pesado, com os ases do blues- rock inglês. A banda de Mayall, que raramente repete o line-up, sempre foi uma escola para os músicos mais jovens, descobertos pelo faro certeiro do mestre, e um núcleo de revitalização para os mais veteranos. Amen Saint John, amen.

The Who - My Generation - dezembro/'65 (Inglaterra)
Who's Next - agosto/'71
A melhor das bandas mod e com uma performance única no show-bizz costumavam quebrar a aparelhagem durante as apresentações. O 1º álbum My Generation é uma reunião brilhante de tudo o que fez do Who uma das bandas mais importantes do rock inglês, os riffs poderosos de Pete Townshend, os vocais esgarçados de Roger Daltrey, a bateria maníaca de Keith Moon e o baixo pesado de John Entwistle - além de originais, covers de James Brown, uma obsessão mod.
Vários bons álbuns se seguiram a My Generation, incluindo o superestimado Tommy e o The Who comparecia com outra obra-prima, Who's Next, onde pela primeira vez ouvia-se um sintetizador predominar num álbum de rock."
Outros álbuns escolhidos: Rubber Soul , Revolver e Abbey Road (The Beatles), Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited (Bob Dylan), Tapestry (Carole King), The Rise And Fall Of Ziggy Stardust e Low (David Bowie), If I Could Only Remember My Name (David Crosby), The Doors (67), My Aim Is True (Elvis Costello), Surrealist Pillow (Jefferson Airplane), Closer (Joy Division), Led Zeppelin (71), Road To Run (Ramones), Beggar's Banquet e Stick Fingers (Rolling Stones).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Antimaldito Jorge Mautner

Em 1985 Jorge Mautner lançava mais um disco, que ganhava o curioso título de Antimaldito, como uma negação do rótulo que sempre carregou de artista de difícil assimilação pelo grande público. A carreira musical e literária de Mautner traz uma marca pessoal, faz refletir e encanta aqueles que sabem seguir pelos atalhos da arte que propõe novas possibilidades. Em agosto daquele ano o jornal O Pasquim trazia uma matéria sobre o disco, assinada pelo letrista, poeta e agitador cultural Tavinho Paes. Eis o texto:
"É nesta semana que Jorge Mautner, líder espiritual do Partido do Kaos, vem lançar seu novo LP: Antimaldito, produzido por uma nova marca da MPB (o selo Nova República, iniciativa brilhante de Zé Vicente Brizola e Roberto Santana), tendo na direção artística Caetano Veloso e os teclados de Mozart Ricardo Cristaldi. Um disco nada descartável. Um anti-chiclete. Um manifesto político em nome do discurso da Nova Era. Histórico, humanista, democrático... Um alvo acima do fígado de Prometeu exigindo o presente da águia.
No LP, Tânatos e Eros se digladiam. Se estourar a bomba H, mantenham-se aos beijos com seus adorados amantes! É o tema da canção Cinco Bombas Atômicas. Jesus e Marx tomam chá das 5 na Inglaterra enquanto Teilhard de Chardin celebra uma missa, com música de Brahms nas estepes desérticas de da Ásia. É a canção Corações. O Lobisomem traz a magia e o Trhiller do Michael Jackson entra em transe. O Cachorro Louco uiva na 3ª faixa. Os Índios Tupi Guarani saúdam a deusa da Guanabara... e na Zona Fantasma, onde Super-Homem exila seus inimigos, um resgate dos verdadeiros revolucionários da MPB: Macalé, Melodia, Arrigo... O lado A é assim.
No lado B a sequência é mais poderosa ainda. Napalm na pele de cordeiro dos lobos cinzentos! Resgatada de 1958, A Bandeira do Meu Partido é o hino do socialismo moreno, do comunismo utópico do 3º mundo. Iluminação é prima do Vampiro, gravada por Caetano, e vem de leituras dos Sermões do Padre Antonio Vieira, enquanto iam sendo escritas as páginas beatiniks do Prêmio Jabuti de 62: Deus da Chuva e do Sol. Demais! No Fado do Gatinho, uma safadeza paira nos telhados de Portugal. O Tataraneto do Inseto é o discurso além-Nietzsche. Um mergulho na Science-Fiction russa. Canalhas, arrependei-vos! é o risco do gênio na cara dos criminosos da Capemi, do Inamps, dos torturadores... Um antídoto sob a fórmula de um veneno.
Tudo baila à guisa do prazer. Uma sociedade que tanto idolatra o trabalho deve estar pronta para homenagear o prazer. Trotski visto pela Tragédia Grega. Machiavelli na era dos computadores. Mautner. A espiral e o cogumelo atômico. O oriente visto pelos gramáticos ocidentais. A cultura original dos aztecas, maias e incas, trazidas aos índios brasileiros, em suas plumagens e rituais. Tudo isso no movimento do Kaos. A formação do guerreiro. A Babilônia e a Atlântida sendo submetidas aos satélites. O cometa Halley que se aproxima. A Democracia. A Utopia e a Fé. O perdão contínuo. A faca frágil do bisturi. Flauta, tambor, chuva e a dança. Mautner. Amadores do mundo, domesticai vosso orgulho.! Warhol e Oswald, Tarsila; os Ideogramas do Tao. A bomba H e o estalinho de São João. A vida. A diferença entre os dragões de Dom Quixote e de São Jorge. Num, o circo católico viu o pecado e matou o fogo pondo sua lança naquelas mucosas em chamas. Noutro, seu amor tornava-se ventos que movem moinhos, e onde há vento é necessário inventar o furacão. Mautner esta aí. Somos muitos Brasis, somos o único Brasil! Axé, kolofé, Agô!"

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Falando de Leminski

Em sua edição nº 13, de agosto de 2012, o excelente jornal cultural Cândido, publicado pela Biblioteca Pública do Paraná, traz uma entrevista com o escritor de Londrina, Domingos Pellegrini. O escritor, dentre muitas coisas, fala de sua relação com o poeta Paulo Leminski, um dos mais brilhantes representantes da poesia brasileira de sua geração. Sobre Leminski ele falou:
"Inicialmente, a minha relação com Paulo Leminski foi conflituosa. Ele defendia a gratuidade da arte, e eu defendia uma arte comprometida. Estivemos em lados opostos, inclusive em polêmicas veiculadas em Curitiba. O Hamilton Faria, o Reinoldo Atem, o Raimundo Caruso e eu defendíamos uma posição, e o Leminski, o oposto. Depois, fui me aproximando dele. O que nos uniu, por incrível que pareça, foi a arte militar. Durante muito tempo, fui fascinado por histórias de guerra, tática de guerrilha e estratégias. Eu não podia imaginar que o Leminski conhecia o Von Clausewitz, um teórico alemão de guerras. Começamos a dialogar assim. Passei a frequentar a casa dele, e ele também esteve em várias vezes na minha, quando eu morava em São Paulo.
Leminski era a pessoa mais inteligente com quem eu me encontrava para conversar. Tínhamos uma euforia para trocar conhecimetos, devido a nossas posturas e visões de mundo. Fui o primeiro do meu grupo a romper com o marxismo-leninismo, e a perceber que a ditadura do proletariado seria apenas mais uma ditadura. Iríamos simplesmente, trocar uma ditadura de direita por uma de esquerda. Quando falei isso para os meus colegas comunistas da época, todos me olharam como se eu tivesse uma espécie de lepra ideológica. Mas o Leminski entendia. Uma vez, eu estava na casa dele, e chegou um cidadão que o convidou para ir a um encontro de um novo partido de esquerda. No ano anterior, o Leminski havia participado de uma convenção partidária cantando umas músicas, o que agradou os convidados. Mas o Leminski se recusou a participar do novo encontro, e disse: 'desse brinquedo eu já brinquei'. Ele tratava a ideologia como brinquedo, como uma brincadeira.
Domingos Pellegrini
O Leminski e eu tínhamos essa capacidade de enxergar além e fora das ideologias, e isso nos unia, embora discordássemos a respeito de muitas questões. Mas, como a gente concordava que a variedade é a maior riqueza humana, discordávamos com prazer. Era gostoso ouvir ele defender seus pontos de vista. E ele gostava de escutar o que eu tinha a dizer. Um grande encontro que tivemos foi quando eu descobri Jesus, mas não o Cristo cultuado pelas igrejas, cuja vida é tão deformada na Bíblia, e sim o Jesus Cristo que transparece nas parábolas. Um dia cheguei na casa do Leminski, no bairro do Pilarzinho, em Curitiba, e ele perguntou o que eu estava lendo. Contei que estava 'lendo' Jesus. Ele se espantou, perguntando: 'você também?'. É que Leminski, naquele momento, estava escrevendo aquela biografia de Jesus Cristo, posteriormente compilado no livro Vida, com outras biografias que ele produziu. Tínhamos, enfim, esses encontros fulminantes, reveladores, e os desgastes contínuos, que eram absorvidos como gozação. Ele viajava com alguma frequência para a finalidade de encontrar os irmãos Augusto e Haroldo de Campos. Eu perguntava: 'vai pastar nos campos?'. Assim era a nossa relação."

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Infidels (1983) - Dylan Volta a Ser Dylan


No fim dos anos 70 e até início dos 80 Bob Dylan se converteu ao Cristianismo, e isso se refletiu em sua música. Os discos que lançou nesse período representaram uma fase muito fraca em sua carreira. Aquele Dylan contestador, de letras inspiradas e aquela postura que marcou sua personalidade pessoal e musical desaparecia, para tristeza de seus velhos fãs. Porém, em 1983, aquele velho Bob Dylan voltava à cena, ao romper com sua conversão religiosa, e Dylan voltava a ser Dylan, com o ótimo Infidels, que representou um renascimento em sua carreira. A revista Roll nº 3 fazia uma resenha, assinada por Alexandre M.C. Aguiar:
"Bob Dylan, o maior intérprete da geração beatnik, está de volta. Infidels, seu último elepê, que tem a participação de Mark Knopfler do Dire Straits, apresenta um Dylan em total sintonia com seu tempo, livre dos lamentos cristãos que marcaram Saved e Shot of Love, seus últimos trabalhos. Dylan retorna revigorado à cena do rock, com seu mais brilhante disco desde o antológico Blood on the Tracks. Nos loucos tempos que correm, nada melhor do que a voz do poeta Dylan falando daquilo que sentimos, mas  nem sempre somos capazes de dizer.
Desde Blood on the Tracks (1975), Dylan não fazia um disco tão empolgante. Infidels, seu 25º disco LP oficial, mostra um Dylan reencontrado consigo mesmo e, portanto, capaz de aliar letra e música como só os poetas sabem. Com a colaboração de Mark Knopfler, guitarrista do Dire Straits, Dylan produziu oito canções poderosas, introspectivas e perspicazes, livre dos jargões que pesavam sobre seus últimos trabalhos. As canções de Infidels falam de religião e política e têm raízes numa profunda tristeza:  a tristeza dos corações partidos e dos sonhos desfeitos, a tristeza da meia-idade, a tristeza que tem sido a fonte do rock'nroll, de Chuck Berry e Every Breath You Take.
Quem poderia esperar essa reviravolta, principalmente depois dos mórbidos Lps Saved e Shot of Love, onde o misticista Dylan tecia suas apologias à má consciência cristã? Esses álbuns eram clímax de um processo iniciado com Desire (75), quando ele resolveu se auto-expurgar das metáforas e personas que haviam lhe transformado no profeta dos anos 60. À sua fama Dylan retribuía com simples narrativas sobre sua vida pessoal. Ouvir o artista de mil posturas lastimando 'Sara, oh Sara/ Don't ever go' (Sara, oh Sara/ Nuna me abandone/Nunca se vá) - dava pra se imaginar quanta dor Dylan sentia para estar se despindo dessa maneira.
Além de pessoal, íntima, aquilo também representava uma morte artística. Sob esse ângulo, a conversão de Dylan ao Cristianismo - e os discos que disso resultaram - não era surpreendente. Era como se ele tivesse que adotar uma outra visão de mundo, para poder recuperar a torrencial linguagem figurativa que um dia lhe habitara. Mas o público não viu com bons olhos o seu herói entoando crenças que ele (público) já rejeitara há muito tempo.
Infidels é o fim de todos esses problemas. No lugar deles, um homem de 42 anos, de olhar aguçado, que relata o seu mundo enfadonho e sua frustração, como seu homônimo - o poeta Dylan Thomas - está cantando suave como o mar. Isso teria sido impossível sem a banda arregimentada por Mark Knopfler: Sly Dunbar na bateria, Robbie Shakespeare no baixo, Alan Clark, do Dire Straits no órgão e o ex-Stone Mick Taylor e o próprio Knopfler nas guitarras. Knopfler e seus colegas conseguiram trabalhar com o notório tímido que é Dylan num estúdio, sem sacrificarem a espontaneidade que sempre marcou seus discos.
Dylan, o poeta que ergueu as pontes culturais por onde muitos passaram, sabe que já não é mais a voz de uma geração, e, sabe também que nunca mais escreverá uma canção como Like a Rolling Stone. Tudo que ele parece querer saber, é se o público também entende isso. Depois de anos e anos de discos indiferentes, Dylan está de volta às portas da percepção artística - poeta, antena da raça. Infidels é também um alerta para os homens que selaram com o terror o destino do Homem. Não se trata de humanismo, é a visão crítica de quem disse uma vez, 'the times they're changin', porque mudava com o momento. É ótimo ter Dylan novamente em sintonia com seu tempo. A poesia é irmã da vida, desde que seja viva."

domingo, 16 de dezembro de 2012

100 Anos de Gonzagão - O Rei do Baião

Na última quinta-feira, 13/12, o Brasil todo comemorou o centenário de nascimento de um de seus artistas mais populares e representativos: Luiz Gonzaga. Considerado porta-voz do povo nordestino, Luiz Gonzaga se tornou um dos cantores e compositores que melhor representaram a alma, não só do nordestino, mas do povo brasileiro em geral. Sua influência para vários músicos, principalmente os nordestinos, é cantada e decantada há décadas, atestando sua importância para a música brasileira. Mesmo um roqueiro como Raul Seixas, cuja escola musical passa longe da música brasileira - desde criança só ouvia música americana, abria uma excessão para Luiz Gonzaga, como uma influência, a ponto de ser pioneiro na fusão rock e baião, com "Let Me Sing, Let Me Sing", música que o lançou no VII Festival Internacional da Canção, em 72. Antes dele os tropicalistas Gil, Caetano e Gal trouxeram para a nova geração a música de Luiz Gonzaga, que a partir de metade da década de 50, principalmente após o surgimento da Bossa Nova, passou a ser considerado um música matuto e ultrapassado. Eu mesmo, só vim a dar maior atenção a Luiz Gonzaga quando já estava chegando à fase adulta. Não me afinava muito com o ritmo do baião, embora soubesse dos elogios que recebia de alguns dos meus ídolos musicais. Gostava mais de Jackson do Pandeiro e seu ritmo. Hoje os considero os dois maiores representantes da música nordestina, cada um seguindo seu estilo.
Creio que foi lá pelo final dos anos 70, com o surgimento de uma geração de músicos nordestinos, como Alceu Valença, Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Ednardo e outros, que passei a me ligar mais em Gonzagão e sua música.
Para lembrar do Rei do Baião, vou reproduzir um trecho de uma esntrevista que ele deu à revista Música em 1980:
"- Quem foi que lhe deu o nome de Rei do Baião?
- Isso começou no tempo da Rádio Nacional. Quando eu comecei a cantar, meu prefixo na rádio era o Baião. Mas, pensando que o Baião pudesse acabar logo, providenciei uma canção que pudesse abranger o Brasil inteiro, então escolhi Boiadeiro ('Vai boiadeiro que a noite já vem'). Boiadeiro existe tanto no norte, no Sul, como na Argentina - o tema é sempre o mesmo. Aí o Baião começou a estourar. Naquele tempo, os artistas recebiam muitas cartas. Tinha semana que eu recebia 50, 100 cartas. Hoje o fã não sabe nem pra onde escrever, porque o artista não tem mais um prefixo. Então os fãs começaram a me pedir a letra do Baião e a me chamar de Rei do Baião. Nessa época o animador número um da Rádio Nacional era o Paulo Gracindo, que me chamava de 'Luiz Gonzaga, sua sanfona e sua simpatia'. Eu achei que, para o futuro, isso era pouco: preferi mesmo Rei do Baião.

-Como o senhor reagiu quando surgiu aquele boato que os Beatles iam gravar Asa Branca?*
- Tirei partido (ri). Dei entrevista como o diabo e ganhei dinheiro. E só ia dizendo: não sei se eles vão gravar; se vier em libra é melhor (ri). Depois as pessoas perguntavam assim: 'Gonzaga, porque os Beatles não gravaram Asa Branca?' Eu dizia:´'Porque eu não quis' Eles começaram a discutir entre si e aí eu lhes escrevi uma carta dizendo que acabassem com essa porcaria senão eu acabava com o conjunto deles. Eles acabaram o conjunto (ri).
- O senhor anda dizendo que vai largar a carreira. É verdade?
- Não, eu vou descansar, vou deixar de viajar. Essa minha vida é muito dura, viajo muito. Agora vou tomar conta das minhas coisas. Como eu tenho um contrato de cinco anos com a RCA, fico fazendo, enquanto tiver forças, um disco por ano. Quando precisarem do velho Lua para grandes festivais ou grandes festas, é só mandarem a passagem para Exu. Nesses casos eu não vou fazer nem questão de dinheiro, porque já estou na minha, estou vivendo minha vida, mas quero mais respeito com meu nome.
- O senhor não vai sentir saudade do palco?
- É claro que vou sentir, mas se continuar aceitando tudo o que estão me oferecendo - vem cá, vai pra ali, pra acolá - não vou desfrutar nunca o que ganhei. Nós não estamos em época de guardar dinheiro, estamos em época de investir. Estou investindo lá na minha terra, tem umas coisas lá pra eu cuidar. Quando completar quarenta anos de disco, aí eu fecho o balaio. O que quero é deixar de correr."

* O boato sobre o interesse dos Beatles em gravar Asa Branca foi inventado pelo produtor Carlos Imperial, talvez para trazer o nome de Luiz Gonzaga de volta à mídia, já que naquele período (anos 60) ele andava meio esquecido. Porém, em 78 o cantor grego Demmis Roussos gravou Asa Branca em ritmo de discoteque.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Leila Pinheiro, Ivan Lins e Nana Caymmi Falam de Aldir Blanc

Em 1996, quando completou 50 anos, Aldir Blanc lançou um cd em comemoração à data, reunindo vários artistas amigos e admiradores de sua poesia, dentre eles Paulinho da Viola, Ivan Lins, Fátima Guedes, Edu Lobo, Walter Alfaiate, Carol Saboya, Nana Caymmi, MPB-4, Ed Motta, entre outros. O cd "Aldir Blanc 50 Anos" foi uma bela homenagem ao grande letrista. Além do cd normal, distribuído para as lojas, também foi lançado um tempo depois em bancas de jornais, encartado em uma revista, com um preço mais em conta. Essa era uma prática comum na época, quando a indústria fonográfica dava os primeiros sinais de uma crise que viria a se agravar anos mais tarde. É essa edição do cd que possuo. A revista trazia bons textos de amigos como Hermínio Bello de Carvalho, Luis Nassif (músico, pesquisador e jornalista econômico), Marcos Veras (jornalista, escritor e diretor de programas de tv), além do próprio Aldir e fotos dos bastidores da gravação do cd, servindo como um encarte da obra. Há também três depoimentos sobre o primeiro contato com a poesia de Aldir, dados por Leila Pinheiro, Ivan Lins e Nana Caymmi:
Leila Pinheiro: "A primeira vez que ouvi uma poesia de Aldir foi na voz da baixinha, Elis Regina. Eu tinha uns quatorze anos. É lógico que eu não tinha ainda chão para assimilar toda aquela beleza, mas me impressionou muito. Depois, veio a fase com o João Bosco, aquelas composições todas. Mas até pouco tempo ele era uma pessoa muito distante da minha vida, completamente inacessível. Sabe, aquela vida de poeta, inteiramente dedicado ao seu ofício. Eu, que vou morrer escrevendo e não cantando - sou louca com poesia! - sei o que isso significa, esse encerramento em si mesmo. Também fui assim. Achava que para cantar bem não podia tomar sol, mergulhar no mar. Bem, foi quando surgiu a parceria dele com o Guinga, meu amigo de mais de quinze anos. Meu Deus, eu vou conhecer ele, pensei. O mais engraçado é que pelo telefone ou por fax, a gente se fala horas. Mas ao vivo, pinta uma reverência, pois ele é um ser humano muito especial. Só fui duas vezes à casa dele. O resto foi sempre por telefone. O que eu sinto quando estou ao lado dele é que ficamos os dois de salto alto. No dia em que ele foi ver me show Catavento & Girassol, chorou no camarim. E eu fiquei a meio metro do chão, flutuando..."
Ivan Lins: "A primeira poesia de Aldir que me marcou se chamava 'Olhos Verdes'. Éramos garotos, ele tocava bateria. O romantismo e a fossa estavam sempre presentes na nossa turma. A gente se encontrava no bar, derrubava várias garrafas e alguém pedia: minha namorada me chutou... declama Olhos Verdes! Aldir declamava e a gente chorava... Depois nos reencontramos nos festivais universitários, e o que mais me impressionava nele era a versatilidade literária, até hoje imutável, mantendo a mesma intensidade. Não tenho dúvidas de que ele é um dos maiores poetas desse país. É um homem inteiramente dedicado a sua arte, poeta 24 horas por dia, unindo na mesma medida talento e suor. Por isso ele é esta pedra preciosa que todos nós admiramos. Entre as minhas composições favoritas, incluo 'Dois pra lá, Dois pra cá', 'O Mestre Sala dos Mares', 'O Bêbado e a Equilibrista' e 'Cinquenta Anos'. Tenho por ele uma admiração infinita, pelo caráter e pela bonita postura diante da vida."
Nana Caymmi: "A primeira letra que ouvi de Aldir foi 'Agnus Sei', parceria com João Bosco. Eu ainda não o conhecia, só ao João, naquela época Aldir estava com filhos pequenos, muito solicitado, cheio de obrigações. Apesar da nossa ligação ser puramente musical, eu sempre achei o Aldir uma pessoa normal, com as dores e alegrias que todos nós temos. Mas eu sempre achei que havia um Aldir romântico escondido por trás daquela figura política. Para mim, música e política não se misturam. Por isso, sempre preferi gravar as canções mais românticas. E se não gravei mais, foi por falta de oportunidade. Destaco entre as que gravei 'Denúncia Vazia', que é uma verdadeira porrada! Eu fico muito feliz ao saber que Aldir está compondo com outras pessoas, ampliando seu universo. Um ótimo exemplo é '50 Anos', com Cristóvão Bastos."

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Show de Sting no Maracanã (1987)

Em 1987, Sting, que após o fim do Police formaria uma superbanda  e partiria em carreira solo, passaria pelo Brasil, e faria um mega-show no Maracanã, para um público de cerca de 150 mil pessoas. O músico já tinha uma ligação com o nosso país, através da música brasileira, que ele apreciava - era fã de Tom Jobim, e tinha planos de fazer parcerias com Milton Nascimento ("Conheço Milton há muito tempo e tenho vontade de trabalhar com ele há muito tempo também", disse em entrevista na época). Além disso, ele até havia composto uma música com letra em português (Fragile).
Aquela não tinha sido a primeira vinda de Sting ao Brasil. Em 1982 o Police, ainda uma banda não muito conhecida, havia vindo ao Brasil e tocado no Maracanâzinho, no Rio (não me lembro se tocou em outras cidades), e nem seria a última, Sting inclusive, anos depois iria abraçar a causa das populações indígenas brasileiras, ficando amigo do cacique Raoni. Ele também voltaria a tocar por aqui em uma nova reunião do Police anos mais tarde.
A vinda de Sting ao Brasil foi cercada de grande expectativa, já que seu primeiro disco solo, Bring Of The Night, fazia um grande sucesso mundial. Lembro que a Globo chegou a passar uma reprise do show em horário nobre, numa segunda-feira. Na ocasião do show a revista Roll, que ao lado da Bizz era especializada em rock, fez uma resenha, assinada pelo jornalista Manolo Gutierrez. Eis a matéria:
" Foi o maior acontecimento musical do ano. Desta vez, os cariocas tiveram o privilégio de assistir ao kick-off da excursão de Sting. Privilégio este que os parisienses tiveram por ocasião do debut de Bring On The Night, no final de 86. Mas Rio de Janeiro não é Paris, e o evento veio precedido dos problemas habituais da cidade maravilhosa. O ônibus que levava Sting  quebrou a caminho do estádio, obrigando o músico inglês e sua troupe a pegar uma carona na kombi de uma equipe da TV francesa. Com a grande afluência do público e o ônibus quebrado num lugar crítico do caminho para o Maracanã, o trânsito do centro da cidade tornou-se um verdadeiro caos, dificultando a chegada do público ao estádio. Mais de 150 mil pessoas aguardavam o esperado show de Sting com ansiedade quando, exatamente às 21:50, vestindo terno branco, Sting subiu ao palco e atacou 'Lazarus Song', levando a galera ao delírio total.
Apesar das boas vibrações no palco e fora dele, dava pra sentir que a banda ainda está esquentando, especialmente na parte percussiva, onde Delmar Brown e Mino Cinelu atravessaram por várias vezes. O show prossegue e Sting confirma seu carisma. Apesar de ser um inegável 'boa pinta', Mr. Gordon em momento algum abusa de seus dotes físicos para cativar a audiência. Seu estilo é simpático mas contido; em momento algum ele se entrega totalmente. Na banda, destaque absoluto para as teclas de Kenny Kirkland, ponto de equilíbrio dessa Sting Band. Mas nem tudo foram flores. Se é certo que o alto astral da massa dançando em todo o estádio foi um espetáculo à parte, não se pode deixar de dizer que esse não era um show para Maracanã. À certa altura do espetáculo, as pessoas começaram a se cansar e com razão. A música de Sting prima pela elaboração e preciosismo. Submetida ao desconforto natural do local, muita gente, que foi esperando se balançar ao som do Police, quebrou a cara e não entendeu nada. A nível  técnico, somente um porém em relação ao som: bem equalizado, mas muito baixo. A organização esteve bastante bem e o Maracanã cantou com Sting antigos sucessos do Police, como 'Spirits in The Material World', 'Roxane', 'Don't Stand So Close To Me' e 'Message In A Botlle' (no encore). De sua fase solo, 'They Dance Alone' e 'Little Wing' emocionaram os cariocas, que confirmaram que não há nada como Sting... Volte quando quiser."