Em 1996, quando completou 50 anos, Aldir Blanc lançou um cd em comemoração à data, reunindo vários artistas amigos e admiradores de sua poesia, dentre eles Paulinho da Viola, Ivan Lins, Fátima Guedes, Edu Lobo, Walter Alfaiate, Carol Saboya, Nana Caymmi, MPB-4, Ed Motta, entre outros. O cd "Aldir Blanc 50 Anos" foi uma bela homenagem ao grande letrista. Além do cd normal, distribuído para as lojas, também foi lançado um tempo depois em bancas de jornais, encartado em uma revista, com um preço mais em conta. Essa era uma prática comum na época, quando a indústria fonográfica dava os primeiros sinais de uma crise que viria a se agravar anos mais tarde. É essa edição do cd que possuo. A revista trazia bons textos de amigos como Hermínio Bello de Carvalho, Luis Nassif (músico, pesquisador e jornalista econômico), Marcos Veras (jornalista, escritor e diretor de programas de tv), além do próprio Aldir e fotos dos bastidores da gravação do cd, servindo como um encarte da obra. Há também três depoimentos sobre o primeiro contato com a poesia de Aldir, dados por Leila Pinheiro, Ivan Lins e Nana Caymmi:
Leila Pinheiro: "A primeira vez que ouvi uma poesia de Aldir foi na voz da baixinha, Elis Regina. Eu tinha uns quatorze anos. É lógico que eu não tinha ainda chão para assimilar toda aquela beleza, mas me impressionou muito. Depois, veio a fase com o João Bosco, aquelas composições todas. Mas até pouco tempo ele era uma pessoa muito distante da minha vida, completamente inacessível. Sabe, aquela vida de poeta, inteiramente dedicado ao seu ofício. Eu, que vou morrer escrevendo e não cantando - sou louca com poesia! - sei o que isso significa, esse encerramento em si mesmo. Também fui assim. Achava que para cantar bem não podia tomar sol, mergulhar no mar. Bem, foi quando surgiu a parceria dele com o Guinga, meu amigo de mais de quinze anos. Meu Deus, eu vou conhecer ele, pensei. O mais engraçado é que pelo telefone ou por fax, a gente se fala horas. Mas ao vivo, pinta uma reverência, pois ele é um ser humano muito especial. Só fui duas vezes à casa dele. O resto foi sempre por telefone. O que eu sinto quando estou ao lado dele é que ficamos os dois de salto alto. No dia em que ele foi ver me show Catavento & Girassol, chorou no camarim. E eu fiquei a meio metro do chão, flutuando..."
Ivan Lins: "A primeira poesia de Aldir que me marcou se chamava 'Olhos Verdes'. Éramos garotos, ele tocava bateria. O romantismo e a fossa estavam sempre presentes na nossa turma. A gente se encontrava no bar, derrubava várias garrafas e alguém pedia: minha namorada me chutou... declama Olhos Verdes! Aldir declamava e a gente chorava... Depois nos reencontramos nos festivais universitários, e o que mais me impressionava nele era a versatilidade literária, até hoje imutável, mantendo a mesma intensidade. Não tenho dúvidas de que ele é um dos maiores poetas desse país. É um homem inteiramente dedicado a sua arte, poeta 24 horas por dia, unindo na mesma medida talento e suor. Por isso ele é esta pedra preciosa que todos nós admiramos. Entre as minhas composições favoritas, incluo 'Dois pra lá, Dois pra cá', 'O Mestre Sala dos Mares', 'O Bêbado e a Equilibrista' e 'Cinquenta Anos'. Tenho por ele uma admiração infinita, pelo caráter e pela bonita postura diante da vida."
Nana Caymmi: "A primeira letra que ouvi de Aldir foi 'Agnus Sei', parceria com João Bosco. Eu ainda não o conhecia, só ao João, naquela época Aldir estava com filhos pequenos, muito solicitado, cheio de obrigações. Apesar da nossa ligação ser puramente musical, eu sempre achei o Aldir uma pessoa normal, com as dores e alegrias que todos nós temos. Mas eu sempre achei que havia um Aldir romântico escondido por trás daquela figura política. Para mim, música e política não se misturam. Por isso, sempre preferi gravar as canções mais românticas. E se não gravei mais, foi por falta de oportunidade. Destaco entre as que gravei 'Denúncia Vazia', que é uma verdadeira porrada! Eu fico muito feliz ao saber que Aldir está compondo com outras pessoas, ampliando seu universo. Um ótimo exemplo é '50 Anos', com Cristóvão Bastos."
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Show de Sting no Maracanã (1987)
Em 1987, Sting, que após o fim do Police formaria uma superbanda e partiria em carreira solo, passaria pelo Brasil, e faria um mega-show no Maracanã, para um público de cerca de 150 mil pessoas. O músico já tinha uma ligação com o nosso país, através da música brasileira, que ele apreciava - era fã de Tom Jobim, e tinha planos de fazer parcerias com Milton Nascimento ("Conheço Milton há muito tempo e tenho vontade de trabalhar com ele há muito tempo também", disse em entrevista na época). Além disso, ele até havia composto uma música com letra em português (Fragile).
Aquela não tinha sido a primeira vinda de Sting ao Brasil. Em 1982 o Police, ainda uma banda não muito conhecida, havia vindo ao Brasil e tocado no Maracanâzinho, no Rio (não me lembro se tocou em outras cidades), e nem seria a última, Sting inclusive, anos depois iria abraçar a causa das populações indígenas brasileiras, ficando amigo do cacique Raoni. Ele também voltaria a tocar por aqui em uma nova reunião do Police anos mais tarde.
A vinda de Sting ao Brasil foi cercada de grande expectativa, já que seu primeiro disco solo, Bring Of The Night, fazia um grande sucesso mundial. Lembro que a Globo chegou a passar uma reprise do show em horário nobre, numa segunda-feira. Na ocasião do show a revista Roll, que ao lado da Bizz era especializada em rock, fez uma resenha, assinada pelo jornalista Manolo Gutierrez. Eis a matéria:
" Foi o maior acontecimento musical do ano. Desta vez, os cariocas tiveram o privilégio de assistir ao kick-off da excursão de Sting. Privilégio este que os parisienses tiveram por ocasião do debut de Bring On The Night, no final de 86. Mas Rio de Janeiro não é Paris, e o evento veio precedido dos problemas habituais da cidade maravilhosa. O ônibus que levava Sting quebrou a caminho do estádio, obrigando o músico inglês e sua troupe a pegar uma carona na kombi de uma equipe da TV francesa. Com a grande afluência do público e o ônibus quebrado num lugar crítico do caminho para o Maracanã, o trânsito do centro da cidade tornou-se um verdadeiro caos, dificultando a chegada do público ao estádio. Mais de 150 mil pessoas aguardavam o esperado show de Sting com ansiedade quando, exatamente às 21:50, vestindo terno branco, Sting subiu ao palco e atacou 'Lazarus Song', levando a galera ao delírio total.
Apesar das boas vibrações no palco e fora dele, dava pra sentir que a banda ainda está esquentando, especialmente na parte percussiva, onde Delmar Brown e Mino Cinelu atravessaram por várias vezes. O show prossegue e Sting confirma seu carisma. Apesar de ser um inegável 'boa pinta', Mr. Gordon em momento algum abusa de seus dotes físicos para cativar a audiência. Seu estilo é simpático mas contido; em momento algum ele se entrega totalmente. Na banda, destaque absoluto para as teclas de Kenny Kirkland, ponto de equilíbrio dessa Sting Band. Mas nem tudo foram flores. Se é certo que o alto astral da massa dançando em todo o estádio foi um espetáculo à parte, não se pode deixar de dizer que esse não era um show para Maracanã. À certa altura do espetáculo, as pessoas começaram a se cansar e com razão. A música de Sting prima pela elaboração e preciosismo. Submetida ao desconforto natural do local, muita gente, que foi esperando se balançar ao som do Police, quebrou a cara e não entendeu nada. A nível técnico, somente um porém em relação ao som: bem equalizado, mas muito baixo. A organização esteve bastante bem e o Maracanã cantou com Sting antigos sucessos do Police, como 'Spirits in The Material World', 'Roxane', 'Don't Stand So Close To Me' e 'Message In A Botlle' (no encore). De sua fase solo, 'They Dance Alone' e 'Little Wing' emocionaram os cariocas, que confirmaram que não há nada como Sting... Volte quando quiser."
Aquela não tinha sido a primeira vinda de Sting ao Brasil. Em 1982 o Police, ainda uma banda não muito conhecida, havia vindo ao Brasil e tocado no Maracanâzinho, no Rio (não me lembro se tocou em outras cidades), e nem seria a última, Sting inclusive, anos depois iria abraçar a causa das populações indígenas brasileiras, ficando amigo do cacique Raoni. Ele também voltaria a tocar por aqui em uma nova reunião do Police anos mais tarde.
A vinda de Sting ao Brasil foi cercada de grande expectativa, já que seu primeiro disco solo, Bring Of The Night, fazia um grande sucesso mundial. Lembro que a Globo chegou a passar uma reprise do show em horário nobre, numa segunda-feira. Na ocasião do show a revista Roll, que ao lado da Bizz era especializada em rock, fez uma resenha, assinada pelo jornalista Manolo Gutierrez. Eis a matéria:
" Foi o maior acontecimento musical do ano. Desta vez, os cariocas tiveram o privilégio de assistir ao kick-off da excursão de Sting. Privilégio este que os parisienses tiveram por ocasião do debut de Bring On The Night, no final de 86. Mas Rio de Janeiro não é Paris, e o evento veio precedido dos problemas habituais da cidade maravilhosa. O ônibus que levava Sting quebrou a caminho do estádio, obrigando o músico inglês e sua troupe a pegar uma carona na kombi de uma equipe da TV francesa. Com a grande afluência do público e o ônibus quebrado num lugar crítico do caminho para o Maracanã, o trânsito do centro da cidade tornou-se um verdadeiro caos, dificultando a chegada do público ao estádio. Mais de 150 mil pessoas aguardavam o esperado show de Sting com ansiedade quando, exatamente às 21:50, vestindo terno branco, Sting subiu ao palco e atacou 'Lazarus Song', levando a galera ao delírio total.
Apesar das boas vibrações no palco e fora dele, dava pra sentir que a banda ainda está esquentando, especialmente na parte percussiva, onde Delmar Brown e Mino Cinelu atravessaram por várias vezes. O show prossegue e Sting confirma seu carisma. Apesar de ser um inegável 'boa pinta', Mr. Gordon em momento algum abusa de seus dotes físicos para cativar a audiência. Seu estilo é simpático mas contido; em momento algum ele se entrega totalmente. Na banda, destaque absoluto para as teclas de Kenny Kirkland, ponto de equilíbrio dessa Sting Band. Mas nem tudo foram flores. Se é certo que o alto astral da massa dançando em todo o estádio foi um espetáculo à parte, não se pode deixar de dizer que esse não era um show para Maracanã. À certa altura do espetáculo, as pessoas começaram a se cansar e com razão. A música de Sting prima pela elaboração e preciosismo. Submetida ao desconforto natural do local, muita gente, que foi esperando se balançar ao som do Police, quebrou a cara e não entendeu nada. A nível técnico, somente um porém em relação ao som: bem equalizado, mas muito baixo. A organização esteve bastante bem e o Maracanã cantou com Sting antigos sucessos do Police, como 'Spirits in The Material World', 'Roxane', 'Don't Stand So Close To Me' e 'Message In A Botlle' (no encore). De sua fase solo, 'They Dance Alone' e 'Little Wing' emocionaram os cariocas, que confirmaram que não há nada como Sting... Volte quando quiser."
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Pepeu - Novos Baianos (1975)
Em 1975 Pepeu Gomes era o guitarrista dos Novos Baianos, aliás, na épóca seu nome artístico era só Pepeu, o sobrenome Gomes só seria incorporado anos depois, em sua careira solo. Pepeu sempre foi considerado um dos melhores guitarristas do Brasil, e sem dúvida, sua guitarra ajudou a moldar o som dos Novos Baianos, uma das bandas mais criativas surgidas no Brasil. Em sua edição de setembro daquele ano, a revista POP trazia uma matéria com Pepeu, intitulada "Pepeu, O Feiticeiro dos Novos Baianos":
"Olhar Pepeu num palco, antes que ele comece a tocar, é como estar diante de um fusquinha com motor de avião. Não dá mesmo para adivinhar o que vai sair daquela guitarrinha mirrada, rústica, sem nenhuma sofisticação. A própria figura de Pepeu, meio selvagem, é insufuciente pra dar qualquer pista do que vai acontecer quando ele entrar dentro da velha guitarra, transformando seus dedos em cordas e voando entre rocks, frevos, blues, sambas e marchas de carnaval, alucinando todo mundo com sua fantástica massa de som, firme e louca. Que ele é um dos melhores guitarristas do Brasil, nem há dúvida. E é também um dos que têm mais personalidade, que melhor se entende com o instrumento, a ponto de criar um estilo puro e único.
As transas de Pepeu com o som começaram muito cedo. Os pais eram músicos, e seus dez irmãos são músicos hoje também: 'Com 12 anos, eu já conhecia uma pá de instrumentos de cordas: bandolim, violão, guitarra. Curtia Jacob do Bandolim, aprendi a usar a palheta com Luperce Miranda (obs: na matéria está escrito Lupércio), depois olhava Jimi Hendrix. Fui para São Paulo com 15 anos, toquei na Jovem Guarda. E em gafieiras, em troca de comida.' Depois voltou pra Bahia e viveu no meio do folclore, entre violeiros e cantadores das feiras. 'Música, pra mim é vida. É isso que eu faço o tempo todo, tocando e procurando me descobrir. É só isso que eu quero: tocar o dia todo, o dia todo mesmo.' Esse amor, Pepeu sabe que não pode ser ensinado. Mas, um de seus segredos, ele acha importante contar à moçada: 'O pessoal precisa saber ouvir e depois saber se desligar do que ouviu. Não se pode continuar copiando, tentando repetir os sons lá de fora. O samba me fez sacar muitos acordes, e as maiores músicas que eu fiz foram no bandolim. Os caras tentam fazer um som que não é nosso, e o que acontece? Vira mentira dentro da cabeça da gente e vira mentira no som.'
Outra coisa importante: ficar limitado à guitarra é um erro. 'Do jeito que vai, a guitarra vai saturar a cabeça de todo mundo. Ela está agonizando, e é preciso redescobri-la de outras formas, mais vivas, mais simples. O bandolim pode muito bem vir a ser essa nova guitarra, por que não? Ele existe há tanto tempo mas quase ninguém conhece nem mesmo metade de seus recursos...'
Até hoje, Pepeu não se deu bem com nenhuma guitarra americana. Continua usando seu velho instrumento, fazendo tudo o que faz com os poucos recursos que ela permite. E tem um projeto estranho: construir uma guitarra de três braços, capaz, talvez de traduzir os sons que ele tem na cabeça, durante os sonhos. E tudo sem pressa. Humilde, Pepeu acha que tem muita gente melhor por aí, e que vai demorar ainda uns dez anos pra mostrar as coisas do jeito que gostaria. 'Sabe o que eu curto muito? Duas coisas: ouvir minhas próprias músicas, descobrir coisas novas nelas cada vez que as ouço de novo, de acordo com as emoções do momento, porque uma música nunca sai igual duas vezes. Outra coisa é tocar no Trio Elétrico da Bahia , ao lado do Dodô e do Osmar, seus fundadores.'
Tocar nesse trio elétrico, Pepeu explica, 'é uma barra, uma responsabilidade imensa, um privilégio. Sabe, é a fina flor da velha guarda baiana, um pessoal monstro com seus instrumentos'. Mestre reconhecido do cavaquinho, Pepeu sobe no caminhão e se desliga de tudo: 'A gente manobra aquela loucura de carnaval, se bate consigo mesmo. É como num palco: a gente pode botar um algodão nos ouvidos e tocar olhando a expressão das pessoas, e, como se a gente fosse surdo, sentir a música dentro da cabeça, sentir as pessoas dançando, curtir...' "
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Oscar Niemeyer - 70 Anos (O Pasquim - 1977)
O Brasil perdeu ontem uma de suas figuras mais representativas, um verdadeiro patrimônio nacional e exemplo de vida: o arquiteto Oscar Niemeyer. Há 35 anos, em 1977, Oscar completava 70 anos, idade em que no Brasil o cidadão tem direito à aposentadoria compulsória, mas Oscar estava bem longe disso, e ninguém poderia imaginar que mais de trinta anos depois ele continuaria produzindo e envolvido com projetos. Aliás, é até difícil imaginar que ele estivesse entre nós tantos anos depois. Certamente o que o mantinha vivo e entusiasmado era o seu trabalho, que ele amava.
Em sua edição da semana de 16 a 22/12/77 o jornal O Pasquim faria uma longa entrevista de 11 páginas com nosso arquiteto-mor, para celebrar seus 70 anos. Era a segunda entrevista de Niemeyer para o jornal. A primeira havia sido em 1970. Ainda vivíamos o período de ditadura militar, e o comunista Niemeyer expôs em vários trechos da entrevista sua visão política. Selecionei abaixo alguns trechos dessa ótima entrevista como uma homenagem a esse grande brasileiro:
"- É a segunda vez que reentrevistamos alguém no Pasquim. O primeiro foi o Dr. Alceu e agora o segundo é você. E se há sete anos você nos disse que estava chateado com Brasíla. Agora então...
- Não, Brasília pra mim foi um momento formidável. Ver a coisa surgir do nada, a cidade começando, os prédios se acomodando, as pessoas...Como arquiteto vivi uma experiência muito boa. Agora, realmente, depois de 64 esse entusiasmo todo passou, veio aquele período que vocês conhecem. Pra mim, piorou mesmo no governo do Médici, principalmente porque o Coronel Prates era governador de Brasília, um energúmeno completo. Quando escrevi meu livro botei que ele era um energúmeno mas meu tradutor italiano me disse: 'Olha Niemeyer, em italiano energúmeno é uma palavra muito dura'. Respondi: 'Puxa, eu queria botar uma muito pior. Esse homem criou um clima tal que tive que viajar. Mas se queriam me paralisar obtiveram o contrário: me abri para um período melhor. Fui bem acolhido e encontrei uma receptividade generosa em todas as partes da Europa."
"- Como foi seu primeiro contato com o comunismo?
- Sentindo que a vida é injusta, que há opressão e discriminação do mais pobre. Isso sempre me trouxe revolta. Depois, já rapaz e informado das coisas, contribuia pro Socorro Vermelho, assinava manifestos... Um dia telefonaram dizendo que os comunistas haviam saído da prisão.
- Quando foi?
- Em 45. Aí foram lá pro escritório e se instalaram. Eu dise pro Prestes: 'Fique com o meu escritório que seu trabalho é mais importante.' Por isso é que digo: o arquiteto que reclama, fala numa arquitetutra mais ligada ao povo, fica com essa conversa, deve estar preparado pra fazer o que eu fiz quando houver um caso assim.
- Ficaram dormindo no seu escritório?
- Até fecharem o partido e a polícia me tomar a casa. Depois me devolveram. Esta casa está fechada até hoje."
"- Você faz sua arquitetura voltada para o seu tempo?
- Procuro fazer uma coisa que exprima o material e o progresso técnico (dentro de um certo limite, é claro). Se for fazer um conjunto de casas populares uso pré-fabricados, embutidos, modulados. Se me dão um prédio importante pra fazer vou fazê-lo o mais bonito possível. Se a coisa não é bonita, diferente, se é voltada pra trás lembrando outras coisas não tenho interese maior em fazê-lo."
"- O que você está lendo agora?
- Estou lendo um livro bom com entrevistas de Marcel Duchamp. Gosto muito de correspondências, me lembrei agora daquele livro do Henry Miller, correspondendo com Lawrence Durell. Mas achei o Miller muito mais inteligente. Gostei muito também da correspondência de Gorki com Lenin e de Gorki com Tchekov."
"- Você faria Brasília hoje?
- Ah, se pudesse me meter no meio do mato pro mesmo tipo de trabalho faria sim. Só de ficar lnge de tudo... Fiquei num canto trabalhando, afastado da competição..."
"- O que é que você diria pros arquitetos que estão se formando hoje, qual é a palavra de ordem pra meninada que vem aí?
- A situação do arquiteto jovem é difícil: termina o curso e vai trabalhar pra uma imobliária, ou então monta um escritório que não tem condições de manter. A ideia antiga de um atelier onde o sujeito começava a se organizar aos poucos dentro do seu trabalho acabou. Só se consegue isso brigando. Os arquitetos mais jovens, os diretamente implicados no problema, é que devem reagir e protestar. Mais importante ainda é o arquiteto tomar contato e não ficar preso aqui dentro. Deve se interessar por outros assuntos, tomar contato com o mundo em que vive, pra poder se comportar e não se omitir. E pra quando for necessário ele largue a prancheta pra ajudar os que necessitam de ajuda."
Em sua edição da semana de 16 a 22/12/77 o jornal O Pasquim faria uma longa entrevista de 11 páginas com nosso arquiteto-mor, para celebrar seus 70 anos. Era a segunda entrevista de Niemeyer para o jornal. A primeira havia sido em 1970. Ainda vivíamos o período de ditadura militar, e o comunista Niemeyer expôs em vários trechos da entrevista sua visão política. Selecionei abaixo alguns trechos dessa ótima entrevista como uma homenagem a esse grande brasileiro:
"- É a segunda vez que reentrevistamos alguém no Pasquim. O primeiro foi o Dr. Alceu e agora o segundo é você. E se há sete anos você nos disse que estava chateado com Brasíla. Agora então...
- Não, Brasília pra mim foi um momento formidável. Ver a coisa surgir do nada, a cidade começando, os prédios se acomodando, as pessoas...Como arquiteto vivi uma experiência muito boa. Agora, realmente, depois de 64 esse entusiasmo todo passou, veio aquele período que vocês conhecem. Pra mim, piorou mesmo no governo do Médici, principalmente porque o Coronel Prates era governador de Brasília, um energúmeno completo. Quando escrevi meu livro botei que ele era um energúmeno mas meu tradutor italiano me disse: 'Olha Niemeyer, em italiano energúmeno é uma palavra muito dura'. Respondi: 'Puxa, eu queria botar uma muito pior. Esse homem criou um clima tal que tive que viajar. Mas se queriam me paralisar obtiveram o contrário: me abri para um período melhor. Fui bem acolhido e encontrei uma receptividade generosa em todas as partes da Europa."
"- Como foi seu primeiro contato com o comunismo?
- Sentindo que a vida é injusta, que há opressão e discriminação do mais pobre. Isso sempre me trouxe revolta. Depois, já rapaz e informado das coisas, contribuia pro Socorro Vermelho, assinava manifestos... Um dia telefonaram dizendo que os comunistas haviam saído da prisão.
- Quando foi?
- Em 45. Aí foram lá pro escritório e se instalaram. Eu dise pro Prestes: 'Fique com o meu escritório que seu trabalho é mais importante.' Por isso é que digo: o arquiteto que reclama, fala numa arquitetutra mais ligada ao povo, fica com essa conversa, deve estar preparado pra fazer o que eu fiz quando houver um caso assim.
- Ficaram dormindo no seu escritório?
- Até fecharem o partido e a polícia me tomar a casa. Depois me devolveram. Esta casa está fechada até hoje."
"- Você faz sua arquitetura voltada para o seu tempo?
- Procuro fazer uma coisa que exprima o material e o progresso técnico (dentro de um certo limite, é claro). Se for fazer um conjunto de casas populares uso pré-fabricados, embutidos, modulados. Se me dão um prédio importante pra fazer vou fazê-lo o mais bonito possível. Se a coisa não é bonita, diferente, se é voltada pra trás lembrando outras coisas não tenho interese maior em fazê-lo."
"- O que você está lendo agora?
- Estou lendo um livro bom com entrevistas de Marcel Duchamp. Gosto muito de correspondências, me lembrei agora daquele livro do Henry Miller, correspondendo com Lawrence Durell. Mas achei o Miller muito mais inteligente. Gostei muito também da correspondência de Gorki com Lenin e de Gorki com Tchekov."
"- Você faria Brasília hoje?
- Ah, se pudesse me meter no meio do mato pro mesmo tipo de trabalho faria sim. Só de ficar lnge de tudo... Fiquei num canto trabalhando, afastado da competição..."
"- O que é que você diria pros arquitetos que estão se formando hoje, qual é a palavra de ordem pra meninada que vem aí?
- A situação do arquiteto jovem é difícil: termina o curso e vai trabalhar pra uma imobliária, ou então monta um escritório que não tem condições de manter. A ideia antiga de um atelier onde o sujeito começava a se organizar aos poucos dentro do seu trabalho acabou. Só se consegue isso brigando. Os arquitetos mais jovens, os diretamente implicados no problema, é que devem reagir e protestar. Mais importante ainda é o arquiteto tomar contato e não ficar preso aqui dentro. Deve se interessar por outros assuntos, tomar contato com o mundo em que vive, pra poder se comportar e não se omitir. E pra quando for necessário ele largue a prancheta pra ajudar os que necessitam de ajuda."
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
1967 - Um Ano Marcante Para a Contracultura
Muito se fala sobre 1968, como sendo um ano de transformações em vários níveis: político, social, comportamental, artístico, mas já em 1967 essa revolução começava e se desenhar. O mundo vivia no clima bélico da Guerra do Vietnã, e daí nasceria o movimento hippie, que pregava um modo de vida alternativo, onde a liberdade era a principal bandeira.
San Francisco, na Califórnia, era a meca do movimento hippie, e era lá principalmente que se propagava a ideologia que pregava a liberdade extrema, em que os tradicionais valores sociais eram postos de lado em nome da liberdade sexual pregada pelo amor livre, as experiências com drogas sintéticas, como o LSD, e uma música que buscava a expansão da mente em busca de uma Nova Consciência. Logo essa ideologia se espalharia pelo mundo e influenciaria toda uma geração em seu modo de se vestir e se comportar, e a música psicodélica, representada por um novo rock e blues elétrico faria a cabeça de jovens de todo o mundo.
Começavam a surgir líderes, gurus de uma nova era, que buscavam trazer aos jovens do mundo uma nova forma de encarar a sociedade estabelecida, e desembocaria na política. O ativista político e revolucionário Abbie Hoffman (1936-1989) seria um desses líderes, criador do Partido Internacional da Juventude (YIP). Dessa sigla surgiria o termo yippie, para designar o hippie mais politizado, em contraponto com o hippie alienado de questões políticas. O Manifesto do Partido Internacional da Juventude, escrito por Hoffman (foto abaixo) dizia:
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"Estamos aqui para fazer um mundo melhor. Nenhuma censura ou racionalização pode impedir as opções que cada um de nós traz para nossa situação no planeta. A grande lição dos anos 60 é que pessoas que se importam o suficiente para fazer a coisa certa podem mudar a história. Não acabamos com o racismo, mas acabamos com as leis da segregação. Acabamos com a ideia de que você poderia mandar meio milhão de soldados ao outro lado do mundo para lutar numa guerra que o povo não apoia. Acabamos com a ideia de que mulheres são cidadãos de segunda categoria. Tornamos o meio ambiente um assunto que não pode ser evitado. As grandes batalhas que vencemos são irreversíveis. Éramos jovens, justos, honrados, descuidados, hipócritas, valentes, ingênuos, teimosos, loucos e meio apavorados demais. E estamos certos."
A música também sofria transformações, e a geração mais talentosa e marcante da história do rock trazia um novo conceito musical, com guitarras cada vez mais distorcidas e longas improvisações, enquanto boa parte da plateia "viajava" com as drogas lisérgicas que rolavam livremente nos shows. Guitarristas como Jeff Beck, Eric Clapton e Jimi Hendrix se revelaram e tornaram a guitarra o instrumento mais representativo do novo rock. Hendrix principalmente, com sua banda Experience, um power trio que ainda trazia o baixista Noel Reding e o baterista Mitch Mitchel, encarnou o rock psicodélico e abriu caminho para outras bandas como Grateful Dead, Jefferson Airplaine, Big Brother And The Holding Company (que revelaria a texana Janis Joplin), Country Joe and The Fish, etc.
Em San Francisco começam também a surgir eventos que reuniam milhares de jovens para celebrar a filosofia e os ideais hippies, com muita música e dança, com as drogas da moda correndo livremente. O primeiro desses eventos, que ganhou o nome de Human Be-In reuniu cercas de 20.000 jovens. O poeta beat Allen Ginsberg, o ativista Abbie Hoffman, o professor, psiquiatra e divulgador do LSD Thimothy Leary, além do escritor William Burroughs aderiram ao evento e se juntaram à massa jovem, e pregaram seus ideais libertários.
Logo a Califórnia seria o destino de uma multidão de hippies, que escolheram se concentrar no bairro de Haigh-Ashbury, que se tornou a grande capital mundial dos hippies, onde se ouvia rock, se praticava o amor livre e o uso de drogas lisérgicas. Naquele ano de 1967 manifestações artísticas, ligadas a uma cultura underground surgiam naquele clima libertário. Artistas gráficos, como Robert Crumb, se uniam às bandas e produziriam capas de discos e flyers de shows. Crumb lançaria a revista independente de quadrinhos Zap Comix, que faria um enorme sucesso entre os hippies, por transgredir os valores sociais e propagando seu ideal.
Naquele ano aconteceria também o primeiro grande festival de rock, o Monterey Pop Festival, que durou três dias, para celebrar música, paz, flower power e amor. O festival revelaria futuros astros como Janis Joplin e Jimi Hendriz, que, apesar de americano, era mais conhecido na Inglaterra, para onde se mudou e iniciou sua carreira, do que nos EUA. Outro fato marcante no mundo do rock naquele ano seria o lançamento do revolucionário disco Sgt. Peppers and The Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.
Esses seriam apenas alguns dos fatos acontecidos naquele ano revolucionário de 1967, enquanto o mundo se preparava para outras revoluções mais radicais para o ano seguinte, que também entraria para a história mundial.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Palestra e Show de Gilberto Gil - Bienal do Livro de Campos
Na noite do ontem se encerrou a 7ª Bienal do Livro de Campos com uma palestra e depois um show de Gilberto Gil. Sem dúvida, Gil foi a atração mais aguardada do evento, que durou 10 dias, trazendo grandes nomes da literatura, cinema, poesia, crítica, etc. Embora Gil não seja tão associado à literatura, o texto de suas músicas tem valor literário, e os livros também fazem parte de sua vida. O debate em que participou, numa arena denominada Espaço Jovem, que estava tomada de gente, tinha como tema "Das canções da Tropicália a projetos de incentivo à leitura". O debate começou com um grande atraso, e apesar de preocupado com o show que faria mais tarde e em poupar a voz, que parecia um pouco rouca, Gil como sempre se extendia nas respostas com seu jeito pausado de falar.
Como se tratava de um evento literário, o tema literatura se fez presente, e Gil citou suas primeiras leituras, a descoberta da poesia anos mais tarde, citando João Cabral como seu poeta preferido, além de outras considerações. Porém os mediadores ignoraram a principal função do entrevistado como artista e ativista cultural, que é sua música, principalmente o movimento da Tropicália, que fazia parte da pauta do debate. Como as respostas de Gil são normalmente prolongadas, com sua fala mansa, o tempo do debate avançava e pouco se falou em música. Um assunto como projetos de incentivo à leitura e temas ligados à área cultural, referentes à sua atuação no Ministério da Cultura, apesar de relevantes, estavam tornando o debate um tanto cansativo, a ponto de algumas pessoas da plateia, levantarem cartazes improvisados pedindo para se falar na Tropicália, um assunto bem mais interessante. Enquanto isso, os debatedores continuaram ignorando um tema que interessava bem mais a todos, sua música, já que ouvir um grande mestre da MPB falando de leis federais de incentivo à cultura, quando poderia estar falando do Tropicalismo, seu exílio em Londres, seus discos (como Expresso 2222, que está fazendo 40 anos), e tantos aspectos interessante de sua carreira. Melhor seria se colocassem como debatedor algum crítico ou jornalista ligado à música.
Só com a insistência de algumas pessoas da plateia, que de forma mais ostensiva, que levantavam cartazes com a palavra Tropicália, é que os debatedores se atentaram para o assunto que deveria ser predominante no debate. Mas aí já era tarde, pois Gil, preocupado com seu show, e também com sua voz, já pedia para que o bate-papo não se alongasse. Ao ser aberta a participação do público para perguntas, que pelo tempo, só couberam duas, a primeira foi uma pergunta clichê, e ainda fora do tema música: quais seus atuais livros de cabeceira. Só então na segunda e última pergunta do público é que o tema Tropicalismo foi levantado, mas foi insuficiente para tornar o debate realmente interessante, principalmente em se tratando do que se podia extrair do convidado. Faltou habilidade dos mediadores, como se houvessem chutado um penalti pra fora. O debate anterior com o músico e compositor Pedro Luís e Toni Garrido foi bem mais interessante.
Porém, no palco, Gil deu seu recado, num ótimo show. Não tinha como dar errado, com sua ótima banda, sua presença de palco sempre trazendo muita energia, mesmo em seus 70 anos, e um repertório em que apresentou vários de seus grandes sucessos, Gil encerrou de forma brilhante o evento de dez dias.
Abrindo o show com Realce, Gil logo de cara ganhou a plateia com suas músicas que todos cantavam junto. Depois vieram uma série de músicas que marcaram sua carreira, como Tempo Rei, Esperando na Janela, Não Chore Mais, uma cover de Is This Love de Bob Marley, Vamos Fugir (uma sequência reggae que não deixou ninguém parado), Palco, Andar Com Fé, Punk da Periferia, Drão, A Novidade, A Paz (uma de suas parcerias com João Donato). Para um artista como Gil é fácil dominar uma plateia como a que lotou a o CEPOP. A cada música, o público vibrava e participava pulando e cantando junto. A boa música ainda tem vez numa época de música tão descartável, e isso é sempre bom de se constatar, como no show de ontem. Voltando para o bis, Gil trouxe um de seus grandes clássicos, Aquele Abraço e terminou seu grande show com Toda Menina Baiana. Pelo menos no palco, Gil pôde mostrar o seu melhor, sua arte, sua música, e toda uma história construída ao longo de todos esses anos. No fim das contas, o saldo foi positivo.
Como se tratava de um evento literário, o tema literatura se fez presente, e Gil citou suas primeiras leituras, a descoberta da poesia anos mais tarde, citando João Cabral como seu poeta preferido, além de outras considerações. Porém os mediadores ignoraram a principal função do entrevistado como artista e ativista cultural, que é sua música, principalmente o movimento da Tropicália, que fazia parte da pauta do debate. Como as respostas de Gil são normalmente prolongadas, com sua fala mansa, o tempo do debate avançava e pouco se falou em música. Um assunto como projetos de incentivo à leitura e temas ligados à área cultural, referentes à sua atuação no Ministério da Cultura, apesar de relevantes, estavam tornando o debate um tanto cansativo, a ponto de algumas pessoas da plateia, levantarem cartazes improvisados pedindo para se falar na Tropicália, um assunto bem mais interessante. Enquanto isso, os debatedores continuaram ignorando um tema que interessava bem mais a todos, sua música, já que ouvir um grande mestre da MPB falando de leis federais de incentivo à cultura, quando poderia estar falando do Tropicalismo, seu exílio em Londres, seus discos (como Expresso 2222, que está fazendo 40 anos), e tantos aspectos interessante de sua carreira. Melhor seria se colocassem como debatedor algum crítico ou jornalista ligado à música.
Só com a insistência de algumas pessoas da plateia, que de forma mais ostensiva, que levantavam cartazes com a palavra Tropicália, é que os debatedores se atentaram para o assunto que deveria ser predominante no debate. Mas aí já era tarde, pois Gil, preocupado com seu show, e também com sua voz, já pedia para que o bate-papo não se alongasse. Ao ser aberta a participação do público para perguntas, que pelo tempo, só couberam duas, a primeira foi uma pergunta clichê, e ainda fora do tema música: quais seus atuais livros de cabeceira. Só então na segunda e última pergunta do público é que o tema Tropicalismo foi levantado, mas foi insuficiente para tornar o debate realmente interessante, principalmente em se tratando do que se podia extrair do convidado. Faltou habilidade dos mediadores, como se houvessem chutado um penalti pra fora. O debate anterior com o músico e compositor Pedro Luís e Toni Garrido foi bem mais interessante.
Porém, no palco, Gil deu seu recado, num ótimo show. Não tinha como dar errado, com sua ótima banda, sua presença de palco sempre trazendo muita energia, mesmo em seus 70 anos, e um repertório em que apresentou vários de seus grandes sucessos, Gil encerrou de forma brilhante o evento de dez dias.
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| Gil dominando a plateia com sua música |
domingo, 2 de dezembro de 2012
O Compacto Give Me Love, de George Harrison
Meu amor pela música se aflorou quando eu era adolescente, embora desde criança eu já gostasse muito de música. Lembro que aos nove anos eu já percebia que tinha um conhecimento sobre nomes de músicos e compositores maior que muitos de meus colegas. Na verdade, eu prestava muita atenção em nomes que eu ouvia, em personagens contemporâneos e em alguns fatos que eram noticiados. Eu nunca me esqueci de uma vez, na escola em que eu estudava, numa festa, uma professora nos anunciou uma música que ia tocar, que era de autoria de Tom e Jobim. Achei aquilo que ouvi superestranho, pois sempre soube, por ouvir falar, que nosso grande maestro não era uma dupla. Ainda hoje fico pensando se eu não ouvi errado, mas acho que ela falou aquilo mesmo.
Mas foi na adolescência que certas músicas passaram a bater nos meus ouvidos e me encantar. Ouvia muita rádio AM - na época a frequência FM nem existia em minha cidade. E uma das músicas que mais me tocavam era Give Me Love, com George Harrison. Quando a música tocava no rádio, eu parava com tudo que estava fazendo para apreciá-la, para desfrutar cada nota, cada acorde, e a voz de George, que tinha um timbre bem especial e que sempre gostei. A introdução da música, com uma sonoridade de guitarra típica de George, e que ele usou em várias de suas músicas, era algo à parte. Enfim, Give Me Love era uma de minhas músicas preferidas na época. Aliás, ainda considero essa, uma de minhas músicas preferidas em todos os tempos.
Naquela época eu era um ouvinte assíduo de rádio, e acabei tornando-me campeão numa modalidade que me era muito útil: acertar perguntas e ganhar discos em programas de rádio. Normalmente o locutor tocava uma música pouco conhecida e perguntava quem estava cantando, e eu acertava todas. Os prêmios normalmente eram compactos que a rádio ofertava.
A primeira vez que eu acertei esse tipo de pergunta, eu me lembro até hoje, e há alguns anos eu publiquei em uma comunidade do Orkut a história daquela manhã de domingo em que ganhei um compacto que iria pegar na rádio na semana seguinte. Segue abaixo o relato:
Na época do vinil havia os compactos, também conhecidos por singles. Às vezes meus compactos saíam de graça, pois eu era campeão em acertar perguntas premiadas em programas de rádio, que ofereciam compactos como prêmio. Lembro da primeira vez em que participei de uma pergunta premiada. O locutor tocou a música How Could I Know, de Raul Seixas, para o ouvinte responder quem estava cantando. Eu fui o único a acertar, e levei o prêmio. Eu pegaria o compacto no domingo seguinte, já que o programa era semanal. Passei aquela semana imaginando qual seria o compacto que eu ganharia. Minha música preferida na época era Give Me Love, de George Harrison. Ficava imaginando que bom seria se o compacto que eu ganharia fosse esse, mas aí já seria sonhar demais. No dia em que fui pegar o prêmio, o locutor me ofereceu uns 3 ou 4 compactos, para que dentre eles eu escolhesse um. Para minha alegria, dentre eles estava Give Me Love. Quase não acreditei.
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