Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sábado, 7 de abril de 2012

Secos & Molhados - O Avesso da Máscara




O grupo Secos & Molhados representou um fenômeno na música brasileira. Em 73 lançaram um álbum que pode ser considerado um clássico, pelas músicas, arranjos, performances, etc, e além disso, foi campeão de vendagens absoluto naquele ano. Algo totalmente impensado nos dias de hoje: um disco da melhor qualidade com uma vendagem além do esperado, desbancando, inclusive, Roberto Carlos, que era na época imbatível em termos de vendagem. Após o segundo disco, no ano seguinte, o grupo se dissolveu no auge do sucesso, devido a problemas internos.
Em meados dos anos 80, o jornalista e crítico Júlio Hungria escreveu um texto sobre os Secos &  Molhados, intitulado "Vira Vira: O Avesso da Máscara", para uma série de fascículos denominados "Rock, A Música do Século XX". Só para esclarecer, o Tinhorão ao qual ele se refere no início da matéria é o crítico José Ramos Tinhorão, um purista radical, que abomina o rock.
"Tenho a impressão de que todo crítico de música é um frustrado e que existe um Tinhorão instalado em cada um de nós - público de música popular; quando negamos uma realidade para valorizar a outra, quando negamos um progressismo, como se uma coisa não fosse sequência da outra.
O Tinhorão do comportamento destruiu em pedaços a porcelana fina que compusera por um momento, na história da música popular, um trio significativo: os Secos & Molhados. Secos, de um lado, Molhados do outro, questionaram na porrada a reflexão da realidade da humanidade sobre o machismo e a desigualdade secularmente estabelecida entre os sexos que hoje referenda e avaliza a mal-chamada fatia humana dos gays.

A voz de contratenor de Ney Matogrosso e o gosto aritmeticamente radicalizado dos Molhados pelas fantasias de Alice Cooper transformaram-se em elementos incômodos para os Secos e acabaram por levar a importância do grupo a um funil do qual espirrou pros dias de hoje, um ídolo individual: Matogrosso.
Esse foi um dado; o outro terá sido a tentativa de centralização do poder do grupo na mãos de João Ricardo/Apolinário, filho e pai alargando a divergência que já surgira bem antes do rompimento, em entrevistas dadas entre o primeiro e o segundo LPs: 'Tudo pinta naturalmente, nada é dirigido' - sugeria Ney Matogrosso. 'Estou lançando o produto nas grandes capitais. Depois disso eu posso me alastrar, mas eu tenho que dirigir as pessoas' - explicava João Ricardo, no caso referindo-se ao público e a métodos de marketing.
Secos & Molhados é um nome que pode determinar 'tudo e nada ao mesmo tempo' - segundo um depoimento de João Ricardo em 1973. 'Tudo e nada' era um jogo muito fácil para quem pretendesse conquistar fatias no mercado da música popular nos primeiros anos 70: a Censura tinha fechado a boca de Chico Buarque, deportado Caetano & Gil, e, até por coincidência, ao pisar nas raízes com as botas ideológicas, só tinha deixado brotar a arte importada. Os baianos, mesmo na volta, em 72, limitados em sua capacidade de expressão, eram obrigados a formular de modo complicado as ideias que desejassem passar ao público. Os Secos & Molhados vieram com máscaras. Como as crianças que escondem o rosto com as mãos e acham que estão protegidas.

A explosão foi imediata: vendiam mais discos que Roberto Carlos e encantavam as plateias mais amplas. Surpreendentemente, seu sucesso não ficou restrito aos limites do público entendedor como seus antecessores Equipe Mercado, que tinham conseguido - com mais radicalismo, é verdade, em alguns anos antes - acabar na cadeia de Cataguazes, MG, onde foram protegidos pela polícia da cidade que queria linchá-los.
Mas, naquele momento, o mercado permitia: o público precisava ser satisfeito e engolia a novidade mais pelo circo que pelo pão. Como observou na época, Geraldo Mayrink, em Veja, as músicas eram ritmadas. 'Fáceis pelo menos de acompanhar batendo com os pés'. E a extensão da voz de Ney Matogrosso soava como um ruído fora da massificação.
A música dos Secos & Molhados no começo era simples: 'Ela vai se enriquecer à medida que o grupo trabalha, pesquisa e evolui', justificava João Ricardo, a inicial mola propulsora do grupo, autor e músico, filho de poeta e crítico de arte português João Apolinário. Só mais adiante do primeiro LP, foi possível reconhecer na obra do conjunto uma espécie de 'rock progressivo', talvez muito mais aparente e pelas graças dos músicos do conjunto, de Gerson Conrad e de Matogrosso, que por esforço de Ricardo, este sempre compulsivamente preocupado com a qualidade poética que, filho de peixe, buscava em Vinícius, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Cortázar e até em Fernando Pessoa e Oswald de Andrade.
O conjunto morreu em 1974, com mais ou menos um ano de idade, e deixou suspensas na música popular brasileira talvez as primeiras estacas de uma ponte que vai de Caetano e Gil ao futuro, e que ainda não foi liberada ao tráfego por falta de asfalto.
Saíram de cena como entraram: numa explosão em que o único foguete a subir a uma altura onde era possível ser visto foi justamente o que levou Matogrosso ao estrelato individual. 'Bicha! - diziam os mesmos que não ouviram a voz 'pequena' de João Gilberto em 1960; 'gay' - como o quer o hoje ruidosamente adepto Caetano Veloso, ou um humano vivendo intensamente aquele momento mais crítico do questionamento da desigualdade entre os sexos.
Matogrosso, hoje é o 'nariz' dos Secos & Molhados - como gostaria Woody Allen. Cheira o perfume das rosas que dez anos antes não tinham cor."

sexta-feira, 6 de abril de 2012

John Mayall - Tem Branco no Blues


É comum, quando se forma uma roda de samba que não se acerta, o batuque é sem ritmo, a batida não traz aquele molejo típico de uma batucada bem executada, dizer que "tem branco no samba". É uma piada em torno de uma hipotética falta de jeito de alguém que não traga o DNA da negritude para executar um ritmo que nasceu dos negros, se desenvolveu e se difundiu através dos negros. Logicamente, como falei, é só uma piada, já que muitos brancos executam o samba melhor que muitos negros. Está no sangue, independente de raça.
Fazendo uma analogia, o mesmo se poderia dizer a respeito do blues, uma música que nasceu dos negros americanos, que traz toda uma história de dor, sofrimento e lamento dos negros explorados e segregados, que se expressavam através da música que criavam. Pois um branquelo inglês, John Mayall, que não traz em seu sangue a herança racial dos velhos bluesmen americanos, pioneiros do blues, se tornou um grande mestre e um dos nomes mais respeitados do blues, a partir dos anos 60.

John Mayall é também um pioneiro, pois foi um dos primeiros artistas ingleses a se enveredar pelo blues, e revelar muitos músicos. Embora, modestamente, tenha uma vez afirmado: "Não me considero 'o pai do blues britânico'. Houve outros, como Alexis Korner, que tinham a missão de abrir as portas para as pessoas', a verdade é que Mayall revitalizou o blues, e fez muitos roqueiros conhecerem as raízes do rock.
Nos nos anos 60, a segunda geração do rock surgia com toda a força, vários grupos se formavam, aconteceu o fenômeno da britsh invasion, quando vários grupos ingleses passaram a ganhar destaque no meio musical (Beatles, Stones, The Who, The Kinks, Animals, etc), mas os velhos bluesmen americanos estavam esquecidos, e alguns até passavam por sérias dificuldades. Foi necessário que músicos brancos e ingleses, como Mayall, trouxessem um novo e reformulado blues para as novas gerações, para que nomes fundamentais do blues, como B.B. King, Muddy Waters, John Lee Hooker, Howllin'Wolf, dentre outros, voltassem a ser lembrados.
John Mayall herdou sua inclinação musical de seu pai, que tinha uma coleção de discos de jazz, e daí descobriu o blues. Segundo li, Mayall aprendeu a tocar de forma autodidata violão, gaita e piano, e com 22 anos formou seu primeiro grupo, The Powerhouse Four. Mais tarde formaria o lendário The Bluesbrackers, que teve tantas formações, passou por tantas mudanças, que só uma grande e detalhada pesquisa para enumerá-las. Mas para resumir, posso apenas citar alguns músicos que passaram pelos Bluesbrackers: John McVie, Mick Fleetwood, Mick Taylor, Roger Dean, Davey Grahan, Eric Clapton, Tony Reeves, Chris Mercer, John Riseman, Collin Allen, John Mark, Johnny Almond, Harvey Mandel, Larry Taylor e Don Sugarcane Harris.

A alta rotatividade dos músicos de sua banda pode ser explicada pelo rigor com que ele conduzia os músicos, com leis internas com relação a drogas e o álcool (coisa difícil de se controlar no meio musical). Eric Clapton, por exemplo, foi um que buscou a liberdade de tocar da maneira que queria, abandonando a banda de Mayall, para formar o Cream. Para seu posto foi recrutado Peter Green.
Mayall uma vez disse: "Levamos o blues a sério, ele foi absorvido por nós profundamente e agora faz parte da gente também, é uma linguagem universal". Talvez essa declaração explique sua devoção e rigor em seu trabalho. Seria difícil destacar algum disco em especial da ampla discografia do Jonh Mayall's Bluesbrackers, mas aqueles primeiros trazem o que há de melhor no blues britânico, como Bluesbrackers - John Mayall With Eric Clapton (66), Hard Road( 67), Crusade (67), Blues Alone (67) e Bare Wires (68). Aliás, Bare Wires, é considerado por muitos críticos, como seu melhor disco na década de 60. Representou uma virada em sua carreira, pois a partir dali só passou a gravar material próprio, com uma concepção mais moderna e arranjos mais elaborados. Outro disco, já dos anos 70, que eu gosto muito, e possuo em vinil, é Moving On (73), um álbum ao vivo, em que Mayall faz com perfeição uma fusão do jazz com o blues.
Hoje, aos 78 anos, John Mayall continua na ativa, e tive a alegria de assisti-lo ao vivo em 2008, no festival de jazz e blues de Rio das Ostras, quando também pude fazer um contato pessoal com ele, um verdadeiro mestre.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Hermeto Pascoal - Um Músico Simples


Em 78 a jornalista Ana Maria Bahiana escreveu um belo texto sobre Hermeto Pascoal. Com o título de "Um Músico Simples", a jornalista expressa sua admiração por um de nossos melhores músicos:
"(A Mauro Senise, Itiberê e Jovino, os campeões do campeão)
A lembrança mais remota que tenho de Hermeto Pascoal é o Quarteto Novo. Não pode ter sido da TV, tocando 'Disparada' no Festival de Record, porque ele não estava lá. De onde seria? De disco? De alguma apresentação fugaz? Uma foto? Não sei, mas certamente é dessa época. Há uma outra lembrança, também, mais próxima: ouvindo 'Andei' no rádio, com Airto e Hermeto aprontando, um som muito seco e muito corante, indo procurar o disco, só importado 'Seeds On The Ground'. E também um momento Costa assustada, microfones mudos. Uma brincadeira no 'Abertura', em 75 -'esta é uma história de um porco que deixou todo mundo louco', - e finalmente, lá estava eu diante do crazy albino (apelido que Miles Davis lhe deu), encantada por histórias fluentes e pensamentos exatos que brilhavam tão absurdos e fecundos e luminosos como sua música.
A lembrança mais remota que Hermeto Pascoal tem dele mesmo é a luz que vinha das árvores enfeitadas nas noites de forró em Lagoa da Canoa, Arapiraca, Alagoas, onde o vendeiro Pascoal José, seu pai esperava a madrugada com cocos e emboladas, a mulher na zabumba, o filho arriscando um triângulo encantado. É essa a raiz que explica a maravilha de Hermeto Pascoal, o encanto que não cessa de me aturdir e me encher de esperança: Hermeto Pascoal de Lagoa da Canoa, com Pascoal José é o mesmo Hermeto Pascoal do Filmore East de Nova York, com Miles Davis. O Hermeto Pascoal da casinha marrom e amarela de Senador Camará é o mesmo Hermeto Pascoal dos estúdios atapetados de Los Angeles. Só há um Hermeto Pascoal. Mesmo porque, dois, o mundo não comportaria.

Tenho a petulância de me considerar, não uma amiga, mas, digamos assim, uma fã muito próxima de Hermeto. Tomei o café de D. Ilza, em Senador Camará, e viajei a caravana para vê-lo reencontrar sua velha amiga, a feira; estou sempre lá, na plateia, para ficar tonta e feliz e espantada com sua música perpétua. Só não mestive (ainda!!) na estrada com ele, mas da estrada seus músicos me contam sempre com uma gargalhada amorosa no canto da boca.
Porta aberta, cabeça aberta, coração aberto: esse é o Hermeto Pascoal uno e insubstituível que tenho seguido nos últimos anos, por profissão e paixão. Esse é o Hermeto Pascoal que nos salva a todos de nossa triste condição de colonizados, eternamente condenados a discutir a salavaguarda (êpa!) de nossas raízes, a digestão do que vem de fora, tão ocupados às vezes nesse exercício de resistir e procurar o inimigo e cercar pelos sete lados que nos esquecemos de ser, de criar, de pensar sem tramelas. Porque ele é realmente o único e verdadeiro Hermeto de Arapiraca, Nova York, Senador Camará e Los Angeles, sem a menor sobra de conflito entre seus componentes, porque de seus dedos coruscantes só sai pura música de acento brasileiro, porque de sua cabeça desimpedida só flui a criação mais espontânea e mais complexa, porque ali, na sala de ensaio cor de rosa, ao lado da cozinha onde D. Ilza faz uma peixada e Seu José pica um rolo de fumo, ele faz sem resistir e sem pensar, como respira, a música mais avançada e simultaneamente mais brasileira.

Hermeto Pascoal está voltando à estrada, seu segundo habitat natural depois de Senador Camará/Arapiraca, territórios já no domínio do mítico. Mas diz que está com dificuldades de gravar como quer, ele que só tem dois Lps lançados o Brasil, um em 72pela Phonogram e o 'Slave Mass' da WEA, no ano passado (e mesmo assim esse foi gravado nos Estados Unidos). Seremos mesmo assim, meu Deus? Mereceremos viver na tão chorada condição de colônia para sempre? Estaremos aqui sossegadamente jogando fora o que temos de ouro? Aos bandidos, mais uma vez? Será que não merecemos Hermeto Pascoal? Tememos tanto assim o alegre risco da invenção?
Campeão, se não der, não deu. Vamos à luta."

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Gil Solta o Verbo


No verão de 1979 Gilberto Gil deu uma entrevista de duas páginas para o jornal Correio da Bahia, onde discorreu sobre vários assuntos. Foi uma entrevista das mais interessantes, concedida ao jornalista Luis Claudio Garrido, em que de forma franca, expressou sua opinião e teceu considerações sobre política, música, censura, etc. Eis alguns trechos de suas declarações:
Sobre uma censura não-oficial à sua parceria com Chico Buarque, Cálice, que havia sido liberada e recentemente gravada por Chico Buarque, e que estaria sendo alvo por parte de alguns bispos da Igreja Católica de censura junto aos fiéis. Segundo os religiosos, Cálice seria desrespeitosa a Cristo e portadora de sentimentos anticristãos:
"Cada um é o que é. Se o bispo está tomando para si as dores do Cristo, achando que pode exercer a capacidade discriminatória do Cristo sabendo o que é ruim ou bom, é um problema, digamos, de foro íntimo, problema pessoal. Agora, é uma música que reflete a minha maneira de ver um determinado momento. Eu até nem gosto dela especialmente. Acho ela comprometida com o espaço do desespero, da exiguidade. É uma música não significativa dentro do meu trabalho. Eu não gosto de ficar falando daquela carência daquele tempo, quando eu pretendi refletir um problema em relação ao qual muitos estão completamente enganados, inclusive os bispos que a chamaram de 'anticristã': ela reflete uma carência da comunidade, muito mais do que minha, pessoal. Inclusive ela é anterior a mim, no meu processo pessoal, individual. E acho que é anterior a Chico também. Ele é uma pessoa que está mais a frente que essa coisa toda. Tudo isso levando-se em conta que ela foi feita cinco, seis anos atrás, eu sou contra ela. Acho uma coisa meio revanchista. Quer dizer, gosto dela, mas a considero uma coisa antiga, desgastada, excessivamente queixosa.

Quanto a sentimentos anticristãos, acho que há um equívoco total, já que não vejo nenhum absurdo em alguém, mesmo o Cristo, um dia perder a cabeça. Como quando pegou o chicote e meteu bronca no pessoal. Cristo era um homem. Ele veio para redimir o homem. Com força e fraqueza, com paz e violência. Esse arcebispo do Pará não está sendo inteligente agora, embora até possa ser uma pessoa inteligente. Mas da mesma meneira que ele condena a minha música eu condeno as declarações dele."
Sobre um assunto que gerou polêmica, uma suposta "panelinha" entre os artistas baianos (Gil, Gal, Caetano, etc), que Fagner levantou em uma entrevista, que segundo ele, o grupo baiano não dava espaço para os artistas que não faziam parte de seu grupo seleto, Gil declarou:
"Gozado... vem o Fagner e se queixa de que o Caetano não fala dele nas entrevistas.... Se ainda ele fosse um gênio (coisa que não é), sendo ele um artista legal e tal a gente faz força, muita força, mas... eu, por exemplo, iniciei minha entrevista para a 'Veja' dizendo 'eu quero é mel', que é uma frase de Luiz Melodia. Quer dizer, eu estou dando uma força para ele, me indentificando com a forma dele pensar, com a poesia dele, eu me identifico com tudo.
Chico Buarque, por exemplo, um não-baiano, vi o 'Especial' dele na televisão e não havia coisa melhor, porque ele é um grande criador, é um gênio, canso de falar. Agora, Chico é um cara da pesada, é legal, é sensível, é genial. E aí você não pode dizer menos do que ele é.
Não é qualquer um boboca que vai chegar aí com duas ou três músicas e acha que a gente tem que sair dizendo que ele é genial, seja ele baiano ou não. Aliás, Jorge Amado, Glauber Rocha e outros estão sofrendo o mesmo tipo de pressão. No fundo a gente acaba tendo que admitir que existe um componente racista nessa história. Um coisa antibaiana. Pode parecer até absurdo, mas tem, é uma coisa inconsciente."

terça-feira, 3 de abril de 2012

Emoções Baratas - The Who


O The Who é uma banda que desperta paixões. Já li e ouvi vários depoimentos apaixonados de fãs da banda inglesa. E, sem dúvida, os elogios são mais do que merecidos, pois o The Who pode ser considerado um capítulo à parte na história do rock. Um desses depoimentos eu reproduzo abaixo, de uma seção chamada Emoções Baratas, publicado no Rio Fanzine, do jornal O Globo, de 23/11/86. A declaração apaixonada é do repórter e fotógrafo Carlos Albuquerque:
" Emoções Baratas, você sabe, é aquela escolha aleatória, feita por pura emoção, sem compromisso com lançamentos, novidades e modas sasonais. Uma dica louca para temperar o domingo, acelerar o coração, Carlos Albuquerque é quem dá a bandeira hoje.
O Who forma com os Beatles e os Stones a Santíssima Trindade do rock and roll. Eu não me conformo com o fato de as pessoas sempre mencionarem os outros dois e se esquecerem do Who. Paciência. No início dos anos 60 na avalonesca Inglaterra, as tribos se faziam presente e, para variar um pouco, se engalfinhavam: os Beatles eram teddy-boys, os Stones eram rockers e o Who eram mod. Os três, numa questão de segundos, romperam esse frágil enquadramento e rumaram em direção à galáxia dos (reais) megagrupos.
O que era o o que é o The Who? Simplesmente a genialidade de um D'Artagnan (Pete Townshend) e seus três magníficos mosqueteiros (o vozeirão de Roger Daltrey, os dedos de trovão do virtuoso John Entwistle e a indomável bateria de Keith Moon). Isso é história, queridos. Pode-se esquecer, mas mudar, jamais.

Em 1965, ao lançar seu elepê de estreia, o Who era como um diamante bruto que o tempo se encarregaria de lapidar. Originalmete em mono e com um delicioso clima de garage-sound 'My Generation' se mostrava interessantíssimo. Desde a sonoridade beatle ('The Kids Are Allright') ao bluezaço ('I'm a Man'), das covers de James Brown ('I Don't Mind' e 'Please Please') a uma infernal jam-session instrumental ('The Ox'). No meio disso tudo 'My Generation', a canção-título, que se tornou um clássico do Who e por tabela do rock an roll, com os versos que atormentaram Townshend a vida inteira: 'I hope I die I get old'.
A profecia felizmente não se concretizou. O tempo passou e com ele vieram as rugas, o Who acabou. Moon morreu.
Uma linda história. Sem fim."

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Falando de João Gilberto


João Gilberto provocou uma revolução musical no Brasil, e depois ganhou o mundo. Há pouco, li uma antiga parada de sucessos americana, de 1958, e lá estava Chega de Saudade com João Gilberto entre os grandes hits do daquele ano. Uma matéria assinada por Nelson Motta, em fins de 79 ou início de 80 (pois fala de uma vinda próxima de Frank Sinatra ao Brasil, que aconteceu no início de 80) se refere a João como "ídolo dos ídolos dos brasileiros". Lendo assim, fora do contexto, pode parecer um endeusamento exagerado de fã, que o jornalista confessadamente é, mas é apenas a constatação de um fato: vários cantores e compositores citados na matéria tiveram em João um primeiro ídolo musical e influenciador, daí dizer que João Gilberto foi o grande ídolo daqueles que viriam a ser ídolos de brasileriros de vários segmentos e gostos musicais, como os citados no texto Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano, Gal, etc, é apenas uma verdade.
O texto tem por título "João, o revolucionário permanente, herói dos heróis de nossa gente":
"João Gilberto é, no Brasil, o ídolo dos ídolos dos brasileiros. Ou seja: idolatram-no e fazem profissão de fé dessa devoção, quando cantam, gente tão diferente - e por tanta gente diversa idolatrada - como Chico Buarque, Roberto Carlos, Gal Costa, Caetano Veloso, Novos Baianos, Vinícius de Moraes e... Antonio Carlos Jobim. Esclarecendo mais: todos os acima referidos (e mais Bob Dylan, em depoimento na contracapa de um de seus próprios discos), no mínimo, dizem que gostariam de cantar como João Gilberto. E mais: quase todos os do listão acima começaram a cantar por pura imitação e admiração do talento original de João Gilberto. Depois dele o melhor Brasil-cantor passou a cantar diferente, como diferentes são Chico Buarque e Roberto Carlos, e no canto dos dois habita, com a mesma admiração adolescente e consciência madura, o som de João. As personalidades originais e raras de Chico, Roberto e Caetano levaram seus cantos a formas próprias: mas antes de tudo e sempre com tudo a presença de João Gilberto. E isso é dito de própria voz por eles, principalmente quando cantam. Um tributo que oferecem àquele som que os iluminou.

A grande revolução na maneira de cantar que Roberto deflagrou com a Jovem Guarda, em essência, era partir do intimismo perfeito e inimitável do melhor cantor para o maior número - nasceu toda uma nova estética musical, rigorosa, poderosa, revolucionária. Cantar bem.
João, como João Cabral, canta o exato e o preciso. É preciso cantar bem. O gozado é que João Cabral e João Gilberto, que provocaram mudanças parelhas nas formas de expressão artística brasileira, têm entre eles uma barreira insuperável: o poeta João Cabral é uma das raras pessoas do mundo que diz - talvez só por atrevimento poético - que não gosta de música, nenhuma música, a coisa musical. Mas não pode deixar de palrar a suspeita de que, nos intervalos de suas enxaquecas e sua escrita poética, ouça João baixinho na vitrola.

'... eu, você, João girando na vitrola sem parar e eu fico comovido de lembrar um tempo e um som. Eu, você, nós dois, já temos um passado, meu amor, um violão guardado, aquela flor...'
Isso é de Caetano no meio da explosão tropicalista, de 68, e se chama 'Saudosismo', sendo certamente um dos mais emocionantes tributos de um jovem criador a seu mestre e às suas próprias ideias em seu tempo. A consciência de que já havia um passado na vida daqueles jovens de 20 e poucos anos, que havia um Grande Mestre e uma vontade de abrir todas portas e janelas para dentro de si e para o mundo afora: 'João, que nos ensinou pra sempre a ser desafinados', dizia Caeano. E Torquato Neto, depois: 'Desafinar o coro dos contentes'.
Antonio Carlos Jobim, que é o gênio maior e absoluto da criação musical brasileira, sabe e diz o que significa ouvir uma música sua cantada por João, que ninguém mais poderia mais que ele, tanto quanto talvez. Mais antoniano-jobiniano que o canto de João é difícil, talvez até para o próprio Tom.
Aí vem o Sinatra, o good ol' blue eyes,e diz que seu ídolo e herói - e deu repetidas provas, cantadas e faladas - simplesmente... Antonio Carlos Jobim. E o Sinatra vem aí. Mas acontece que talvez o mais imporante a saudar seja que o João não só está aqui como pode ficar por aqui, de onde sua arte revolucionária, permanentemente revolucionária, nunca saiu.
Ou então Chico drummondiando em Frank que amava Antonio que amava João que amava Caetano que ama Roberto que ama João... que ama alguém cantando longe... alguém cantando bem."

domingo, 1 de abril de 2012

Patti Smith Impedida de Cantar na Itália - 1980


Em uma postagem anterior eu lembrei de um episódio vergonhoso protagonizado pela ditadura militar no Brasil, quando a cantora Joan Baez, ícone da folk music, foi impedida de cantar no Brasil, por ser reconhecidamente uma defensora dos direitos civis e da democracia, e principalmente por sua vinda ao país ter na época recebido o apoio da oposição, representada pelo recém-fundado PT. Pois na Itália, no mesmo ano, algo semelhante aconteceu com a cantora Patti Smith, pelo fato de sua apresentação ser patrocinada pelo Partido Comunista Italiano.
Patti, que se envolveu com a poesia antes de virar compositora, tinha uma vinculação estreita com a contracultura de Nova York, onde costumava recitar seus versos em happenings que eram promovidos por um pessoal ligado ao artista plástico, cineasta underground e agitador cultural Andy Warhol. Passou a se envolver com a música mais tarde, quando manteve uma ligação com o polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe, que produziu seu primeiro compacto, que trazia as músicas "Hey Joe" e "Piss Factory". A relação de Patty e Mapplethorpe está muito bem relatada pela própria cantora em seu livro "Apenas Garotos", que aliás, foi comentado aqui nesse espaço.
Mas a consagração de Patti como cantora aconteceria em 1975, quando gravou o álbum Horses, um verdadeiro petardo, com composições próprias, além de um cover arrasador de "Gloria", clássico dos anos sessenta do grupo Them, liderado pelo irlandês Van Morrison. A receptividade de Horses por parte da crítica foi a melhor possível, tendo sido bastante elogiado por seu caráter inovador, e Patti Smith foi considerada uma das grandes revelações daquele ano.

Mas voltando ao episódio da proibição de sua apresentação na Itália em 80, a revista Manchete publicou uma nota, onde fala de Patti e do fato ocorrido:
"Quando ela foi lançada, tentaram vendê-la como um 'Rimbaud da música pop', explorando um visual agressivo na base do andrógino. Era a contrapartida feminina de Lou Reed, Iggy Pop, David Bowie e outros menos cotados. Anos antes da explosão punk, Patti Smith já fazia o gênero e foi sua grande precursora. Agora, depois de ter batalhado por seu lugar ao sol nos Estados Unidos, ela empreende, aos 33 anos, a conquista de Europa. Sem contar uma pequena incursão realmente underground - quando cantou anonimamente nos corredores do metrô em sua primeira visita a Paris. Patty estreou nos palcos europeus em 1976, e desde então formou uma legião de adeptos, em todos os países por onde passou. Neste último verão, foi um dos grandes acontecimentos musicais em Paris, no sul da França, na Alemanha, Suíça e Itália. No mês passado, mereceu uma capa da revista L'Espresso, respeitável semanário político-cultural que a chamou de Il diavolo. E diabólica foi mesmo sua passagem por terras peninsulares, onde aprontou uma confusão terrível. Levando em conta sua força junto à juventude italiana, O Partido Comunista quis usá-la como atração do seu Festival de I'Unità, em Milão. Os entendimentos se complicaram, houve muita discussão partidário-ideológica, e o festival acabou cancelado, mas Patti cantou em dois outros concertos promovidos pelo PCI, em Florença e Bolonha, cidades com prefeitos comunistas. Em ritmo de abertura, é bem possível que o Brasil também ouça Patti Smith. Ao vivo."