Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

George Harrison no Brasil - 1979


Pouca gente sabe, ou se lembra, mas George Harrison já esteve no Brasil. Em janeiro de 1979 ele veio ao nosso país, não para se apresentar, infelizmente, mas para acompanhar o Grande Prêmio Brasil de Fórmula Um, uma de suas paixões. Na ocasião a revista Música conseguiu uma entrevista exclusica com o ex-Beatle, e ainda um autógrafo em nome da revista, que é um tesouro (não acredito que alguém possa deixar perder um autógrafo de um astro como Harrison). Além de exibir o autógrafo, a matéria traz fotos dele no autódromo, que não me lembro se era o de Jacarepaguá, no Rio ou o de Interlagos em São Paulo. Sobre a paixão de Harrison pela Fórmula Um, lembro que há alguns anos assisti a um programa no SBT em homenagem a Emerson Fittipaldi, com vários depoimentos de amigos do piloto, quando aparece a imagem de George cantando uma versão especial de Here Comes The Sun, com uma letra falando em Fittipaldi. Acho que se pode encontrar essas imagens no Youtube. Abaixo a matéria/entrevista:

George Harrisom é um ex-Beatle, e por isso não encontra paz em lugar algum do mundo. Mesmo já tendo passado 10 anos da dissolução do 'quarteto de Liverpool', todos cobram dele posições com relação a uma possível nova formação do grupo, à política praticada pelo conjunto, ao relacionamento entre eles, etc. E, durante 10 anos, em todos os cantos deste planeta, onde vai passear, descansar, gravar, tem que responder às mesmas perguntas. Naturalmente no Brasil não seria diferente.
Vindo para ver a corrida de Fórmula 1, devidamente acompanhado por Jackie Stewart - um dos melhores pilotos da categoria - e Emerson Fittipaldi - de quem tornou-se amigo graças ao gosto pelo esporte - George foi alvo de ataques sistemáticos por parte da imprensa e de fãs, que não o deixaram à vontade.
Por Música ele começou a ser contatado em São Paulo e terminou no Rio de Janeiro, onde participou de entrevista coletiva.
Música - Por que você nunca se interessou em visitar a América do Sul antes, especialmente o Brasil?
George - Bem, nós estamos muito ligados à Europa e aos Estados Unidos, por contratos, shows, gravações, enfim, é um mundo que está muito mais ligado a nós, músicos. E, apesar de todo mundo pensar que temos muito tempo de folga, nós somos muito atados a compromissos. Mas devo reconhecer que é uma falha de nossa parte, temos muito a aprender por aqui.
Música - É difícil aguentar a barra de ser ex-Beatle? Todo mundo dá mais valor a seu trabalho naquele tempo, esquecendo o atual?
George- Realmente, depois de passado tanto tempo a gente chega até a duvidar de que os Beatles tenham tido tanta influência na juventude. Quando nos juntamos e fizemos os Beatles, nada disso passava pela nossa cabeça, sabíamos que tínhamos um tipo de música que poderia vir a fazer sucesso, mas nunca imaginávamos tudo isso. Inclusive, nunca fomos um grande conjunto, éramos um conjunto razoável, assim como os Stones. Tudo isto a gente tem que explicar em qualquer lugar onde esteja. Mas, na Europa e Estados Unidos, por estarmos mais frequentemente, eles já esqueceram um pouco este lado e passaram a observar nosso trabalho individualmente.
Música - Como você está hoje, depois de tanto tempo na luta?
George - Bem, já estou completando 36 anos (25 de fevereiro), mas não tenho intenção de alguma de parar. É claro que a gente vai diminuindo o ritmo, mas parar não. Já faz parte do quotidiano, inclusive não estou mais atrás de dinheiro, mas de satisfação pessoal. O dinheiro deixou totalmente de ser importante, aprendi isso com a filosofia hindu. Eu o uso para viajar, comprar, divertir, nunca como um fim. Sei que há muitos músicos que mudaram sua linha apenas para se tornarem mais comerciais e ganhar mais dinheiro. Até os Beatles fizeram isso por algum tempo, mas quando você atinge alguns bens materiais necessários, pra que mais?

Música - Como anda o relacionamento entre você, Paul, Ringo e John?
George - A gente não se vê periodicamente por falta de tempo. Quando um está livre, o outro não, quando um está na Europa, outro está fora. Mas não existe qualquer tipo de rivalidade, as que existiam foram superadas há muito tempo, o resto é por conta da imprensa. John acalmou-se e está curtindo a família, talvez tenha-se cansado de ser muleta para a fraqueza alheia. Ringo é um bon-vivant, gravando quando quer e badalando muito, sempre foi o mais alegre de nós, o que dava mais importância à alegria e ao descompromisso, e Paul é o mais trabalhador, o que mais gosta de promoção em torno de seu nome. Claro que hoje é o que mais faz sucesso, o que mais vende disco, mais por uma necessidade pessoal que propriamente por dinheiro.
Música - Qual seu real interesse por filosofia hindu?
George - Ela me ajudou muito a me conhecer por dentro. Não dou mais valor a roupas, carros, viagens, garotas, badalações, tudo isso porque acredito que seja uma maneira de cobrir a solidão da qual todos têm medo. Quando você se encontra, descobre o enorme potencial que há dentro de você, todo o resto passa a ser futilidade. Mas isto também vem com o tempo. Quando era jovem, também queria ser badalado. Foi a India que me modificou completamente."

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Peréio, Eu Te Odeio


Além de um grande ator, Paulo Cesar Peréio é uma figura das mais interesantes do mundo artístico brasileiro. Sempre transitando na contra-mão, um marginal por excelência, Peréio carrega a fama de difícil, maldito, porralouca, etc.
Em 1981 o filme Eu Te Amo, de Arnaldo Jabor, que ele contracenou ao lado de Sonia Braga, lhe deu grande projeção, e na época a revista Careta fez uma longa entrevista com ele, intitulada "Peréio, Nem Feminista Nem Viadista", onde ele falou de variados assuntos, como cinema, política, etc. Para a matéria ele posou para fotos com o vestido usado por Sonia Braga no filme (ou um similar), e na chamada de capa vinha estampada a frase "Peréio Eu Te Odeio", fazendo um contraponto com o título do filme. Essa frase, aliás, vai virar título de um documentário sobre ele, que a produtora do desenhista gaúcho Alan Sieber está finalizando. Ao ser procurado, Peréio disse que só autorizaria a feitura da obra, se só se falasse mal dele o tempo todo, daí o título.

Na matéria para a revista, publicada em junho de 1981, Arnaldo Jabor dá o seguinte depoimento sobre Peréio:
"Como não tenho forças para chegar até a máquina de escrever declaro pelo telefone que Peréio é uma mistura de urso de pelúcia com Judas de Sábado de Aleluia. Durante as filmagens, eu não sabia se o acariciava ou o enchia de porrada cruelmente. Na dúvida, fazia as duas coisas - que não davam em nada, do mesmo jeito. Ele só faz o que quer, geralmente bem, quando você menos espera. Peréio é incontestável na sua aparente liberdade: possui contudo uma mãe fina e ardilosa que o mantém preso a uma corrente de paetês e cristaleiras sulinas e o controla, lá do Rio Grande, entre sibilos e suaves ordens telepáticas. Seu pai, lindo como Tyrone Power, joga pôquer num retrato em branco e preto por toda a eternidade.

Peréio me dá sempre a sensação de que vai ficar louco; esta é a sua grande maldição: nunca terá esta chance. Vagará pelas noites do Brasil arrastando sua depressão didática, sua figura educativa. É um contrafóbico, ou seja, só faz o que tem medo.
Peréio é o retrato de uma época. Ele é a realidade brasileira. Às vezes, é a clase média, rosnando suas dúvidas e desmazelos. Em noites em que o uísque é mais cintilante contra as estrelas do Leblon, avulta fino e limpo como um diplomata. Então ele é a burguesia nacional. Nestas horas, circula à sua volta - dentes brancos, olhos neon, patins niquelados, roller-skate a mil por hora - Cissa(*), mulher foguete, espicaçando um touro preguiçoso. O mais das vezes, contudo, ele é proletariado - esculhambado, emblema do subdesenvolvido. Em suma, Peréio é as classes sociais brasileiras. Um retrato do Brasil - desnecessário, esperançoso e deprimido. E o único ator que se parece com o noticiário dos jornais.
Naturalmente, ele me inveja. E eu invejo a ele. Ambos somos dois mendigos, dois miseráveis parecidíssimos andando por aí. Só que ele é a fome. E eu a vontade de comer."
(*) Na época Peréio era casado copm a atriz Cissa Guimarães

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Crumb- A Heroica Luta de Um Artista Para Se Manter Longe do Sucesso


O desenhista de quadrinhos Robert Crumb é um personagem dos mais interessantes. Além de artista genial, sua irreverência e aversão à fama fazem dele uma figura ímpar. Sua vida daria um ótimo documentário, com realmente deu. Para se conseguir produzir um documentário com imagens e entrevistas exclusivas só mesmo alguém muito ligado ao personagem, o que é o caso do diretor Terry Zwigoff, amigo de Crumb.
A revista General, especializada em cultura geral, que circulou nos anos 90, em seu nº 12 traz uma matéria sobre o filme, que estava sendo lançado. A matéria é assinada pelo também desenhista Fábio Cobiaco, com colaboração de Paulo Góes. Abaixo, transcrição da matéria.
"O sucesso persegue Robert Crumb. O mais underground dos artistas underground, o heroi dos quadrinhos marginais que recusou todos os insistentes convites milionários para trabalhar na grande imprensa, consegue sem querer o que muito artista esforçado tenta a vida inteira: ser sucesso. Crumb, nascido para ser mártir da cultura alernativa, está virando moda.
Tem até CD Rom baseado em suas histórias em quadrinhos. E um after dark para tela de computador estrelado pela Engelfood McSpade.
Para 'piorar' a situação de Crumb, um documentário sobre sua vida acaba de receber o prêmio de melhor filme não ficção no Festival de Sundance, um dos principais eventos do cinema norte-americano. Justo Crumb que, depois do sucesso do desenho animado Fritz The Cat , havia prometido nunca mais se meter com cinema. Pobre vítima do sistema!
Crumb - o singelo nome do filme - é dirigido por Terry Zwigoff, amigo do desenhista. Zwigoff é também um dos companheiros de Crumb na banda Sheep Swit Serenaders, especializada em música folclórica norte-americana.
Enquanto os amigos fazem esse tipo de traição contra ele, Crumb continua se esforçando para manter a popularidade à distância. Seu último feito nesse sentido foram as HQs Quando Os Negros Tomarem A América e Quando Os Malditos Judeus Tomarem A América. Uma imagina a realização de todos os ridículos pesadelos de racistas norte-americanos: negros no poder invadindo casas para roubar as mulheres e estrupar a comida. A outra coloca batalhões de rabinos, com kippás, tranças e tudo mais, marchando vitoriosos sobre as ruas dos EUA. Dois típicos exemplos do humor absurdo de Crumb, que desde os anos 60 não deixou ninguém escapar - nem hippies, nem nazistas, nem yuppies, nem feministas, nem policiais, nem hare krishnas, nem sua esposa, nem ele próprio.

Desta vez ele ganhou a chance de ser chamado de racista e nazista. Muita gente não entendeu a piada e está fazendo escândalo. A alfândega canadense, por exemplo, proibiu a entrada do gibi no país. Mais ridículo: uma publicação neo-nazi, Race And Reality, levou as HQs a sério e as publicou sem autorização (Crumb entrou com um processo contra a publicação). São os problemas de tornar-se popular.
Crumb, o filme, será exibido no Brasil na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo."

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Regendo o Avesso - Luiz Tatit


A música de Luiz Tatit sempre chamou minha atenção. Nos anos 80, o Grupo Rumo era um dos meus grupos preferidos, e as letras de Tatit era um dos fatores que me fazia gostar tanto daquele grupo da Vanguarda Paulistana nos anos 80. Apesar de só ali, naquele período, eu tomar conhecimento da obra de Tatit, eu já o conhecia de nome, de uma matéria publicada no início de 76, no Jornal de Música, que vinha encartado na revista "Rock, A História e a Glória". Havia nessa publicação uma sessão chamada Ilustre Desconhecido, que falava sempre de um músico ou banda que não era conhecido do grande público, ou por estar ainda no início de carreira, ou por trazer um trabalho pouco comercial. Luiz Tatit, que na época só trazia o sobrenome como nome artístico, foi destacado naquela edição, numa matéria assinada por Maurício Kubrusly, que mais tarde ficaria famoso por apresentar quadros no Fantástico. Eis a matéria:
"Mais ou menos ilustre, Tatit provavelmente terá de se conformar em permanecer para sempre desconhecido. Pelo menos, no que depender de discos. Ou será que alguma gravadora se arriscaria a lançar um compositor intéprete entoando uma letra como esta?
Han-han
Ahn
Xiiiiiiii!
Hein? Tá!
Nossa! É isso!
Hei! Oh! Para!
Este é um trecho dos versos da canção 'Ah!', na qual Tatit brinca com interjeições, empregando-as de maneira não convencional - por exemplo: um 'Oba!', exclamação que usualmente aparece na forma ascendente, surge de maneira inversa, numa frase melódica descendente, revelando inconfundível desânimo. Questionar os lugares comuns da música popular é uma das intenções do trabalho desse paulista, hoje estudante da música dita clássica.
- Nosso trabalho pode ser definido como um estudo das unidades melódicas naturais que acompanham a fala, e a utilização delas no processo de composição. A fala revela-se como elemento essencial na música chamada popular. O resultado do nosso trabalho não é muito 'bonito'; é antes, interessante. Não mostramos 'música para o deleite', mas elementos para discussão. E eles surgem através de perguntas como: o que adianta a música sem comunicação fácil? seria popular também?
Por enquanto, no caso de Tatit e seu grupo (todos estudantes da Universidade de São Paulo), as respostas têm sido sempre negativas. Nos poucos recitais que conseguiram apresentar, as plateias, obviamente surpreendidas, permaneceram quase estáticas, não aderindo ao debate proposto. A surpresa torna-se, portanto, a presença dominadora, talvez até incômoda, na relação entre Tatit e o público. Porque não se trata, por exemplo, de uma espécie de 'novo Walter Franco'. Não, Tatit ultrapasa todos esses limites usuais da vanguarda da música popular, com ou sem aspas, para oferecer propostas como: uma canção montada a partir dos refrões de uma feira. Mostra então, a fita que gravou numa feira de rua, onde se ouve o pregão do vendedor de peixe, o grito do garoto que vende limão, a malícia de um feirante que mexe com uma empregada ao mesmo tempo que anuncia o preço do tomate, etc. Trocando algumas palavras. Tatit e seu grupo recriam esse universo e conseguem montar uma peça magnífica, madrigal urbano, e contemporâneo, com várias vozes.

Outro exemplo: 'Tema de Amélia', uma colagem de partículas de sambas de Ataufo Alves, denunciando os comportamentos mais comuns das composições de Ataulfo - ou, dos sambistas em geral. (E Tatit interpreta a 'canção' quase à capela, praticamente sem acompanhamento, num recitativo distante de tonalidades e andamentos, ritmos e harmonias comuns. E, este inusitado o distancia ainda mais do universo acomodado da música de mercado). Mais um exemplo: 'Vou Contar', de autoria de Paulo, músico do grupo de Tatit: trata-se de um rock pândego, construído somente com aquelas partes menos valorizadas pelos músicos e público, ou seja: os ruídos iniciais ou finais das faixas, a afinação dos instrumentos, os gritos de estímulo à plateia ('Are you ready?) ou de consulta ao técnico de som ('OK, man?')(...)
No começo Tatit quase arriscou uma escorregada até o hit parade, criando o que chama de 'música de inspiração', com redundâncias agradáveis de ouvir, simplezinhas. Mas logo preferiu não repetir, se propondo investigar os maneirismos e mesmices dessa música. A partir daí, suas apresentações se tornaram mais raras; as plateias, mais vazias; e a distância dos estúdios, das gravadoras, muito, maior."

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Geração Beat Abriu A Porta Sem Bater


Em 1993 foi lançado um excelente jornal especializado em música, chamado Mixer. Foi mais uma daquelas ótimas, porém efêmeras publicações - creio que só durou duas edições (pelo menos foram as duas únicas que conheci). O jornal trazia um bom time de redatores, como Pedro Só, Camilo Rocha, Gastão, Claudio Willer, Sonia Abreu e Fernando Naporano, dentre outros. De seu conselho editorial fazia parte o prestigiado maestro Julio Medalha. Em seu primeiro número, o jornal trazia um bom texto sobre a geração beat e sua influência no rock e na cultura em geral, assinado por Claudio Willer. Abaixo transcrevo trechos da matéria, que se intitula "A Geração Beat Abriu a Porta Sem Bater":
"Ao que consta, as bandas de Seattle são influenciadas pela Geração Beat. Mas, para não acabar escrevendo a história da música pelo método confuso, é preciso verificar quais manifestações importantes na área do rock, pop e jazz não tiveram influência da beat nas últimas três ou quatro décadas. Talvez seja mais fácil fazer o levantamento dos refratários ao impacto provocado por Allen Ginsberg, Jack Kerouac e seus companheiros de viagens e literatura. Uma influência plural, exercida sobre grupos, intérpretes e tendências. Discuti-la em detalhes obrigaria a comentar as homenagens prestadas por Laurie Anderson a William Burroughs, como em seu filme-performance "Home of the Brave". E o modo como grupos punk também homenagearam o autor de 'Naked Lunch" (Almoço Nu, na tradução brasileira). Ou então, registrar os encontros e trocas de figurinhas de Allen Ginsberg com Bob Dylan e outros expoentes da música de protesto. Tomemos, por exemplo, a fase do rock lisérgico. Alucinógenos tornaram-se moeda corrente da contracultura dos anos 60, depois de serem tema de Ginsberg (nos poemas sobre mescalina, LSD e aiauasca de 'Kaddish and other poems').
Então, quando um grupo como o Jefferson Airplaine rodava pelos Estados Unidos, por volta de 1967, distribuindo LSD para quem quisesse experimentar, no ônibus psicodélico capitaneado por Ken Kesey, o autor de 'Um Estranho no Ninho', eles haviam assimilado toda essa literatura e a estavam pondo em prática.

A lista de conexões entre literatura beat e música vai mais longe. Basta lembrar os rapazes de Liverpool que, há mais de três décadas (na época da publicação), batizaram seu conjunto de The Beatles, depois de uma visita de Allen Ginsberg à Inglaterra, conforme revela Bruce Cook, em seu livro 'Beat Generation'. Isso, como uma das consequências da explosão beat na segunda metade dos anos 50, com a publicação e a venda de milhões de exemplares de 'How and other poems', de Ginsberg e 'On the Road', de Kerouac.
Outras influências são menos acidentais. É o caso de um dos personagens mais complexos da história da música contemporânea, Jim Morrison. Também poeta, Morrison revestiu-se de rebelião e hiper-romantismo. No entanto é como se ele tivesse lido Artaud, Rimbaud, William Blake e outros poetas da rebeldia e transgressão através do olhar de Allen Ginsberg ou de William Burroughs. O nome de seu conjunto, The Doors, remete a isso. A ideia de transpor uma porta está presente em Ginsberg, por exemplo, na epígrafe de abertura de 'Howl and other poems': 'Soltem a fechadura das portas! Soltem também as portas de seus batentes!'. A mesma porta está em várias passagens de William Blake, autor referencial de ambos, Ginsberg e Morrison (...)"

domingo, 1 de janeiro de 2012

Gente de Sucesso - A Vida de Tom Jobim


Tom Jobim é um patrimônio nacional, um músico excepcional, um compositor dos mais inspirados que esse país já teve. Sua obra representa o que de mais rico e universal a arte brasileira já produziu. Muitos trabalhos sobre sua vida e obra foram lançados, principalmente após sua morte, em dezembro de 94. No momento, inclusive está sendo feito um documentário sobre sua vida, com direção do premiado diretor Nelson Pereira dos Santos. Dentre os ítens que possuo sobre o maestro, há um interessante livro publicado por uma editora que acredito que não mais exista, chamada Editora Rio Cultura. Trata-se de uma série de livros intitulada Gente de Sucesso, que também destaca em outras edições Fernanda Montenegro, Walter Clark, Florinda Bolkan, Marlene e Orlando Villas Boas. Esses livros foram publicados através de um convênio com as Faculdades Integradas Estácio de Sá, o que evidencia o caráter educativo e cultural. Comprei o livro em um sebo, provavelmente no início dos anos 90, quando Tom ainda era vivo. Aliás, falando em data, no livro não há nenhuma menção a seu ano de publicação, mas consultando a discografia do músico que acompanha a obra, o último lançamento de Tom até então, é o disco que gravou com Edu Lobo em 1981, portanto a publicação é dos anos 80.
O livro de 103 páginas, traz uma biografia do compositor, além de depoimentos, discografia, relação de prêmios concedidos e fotos variadas. Tom fala de assuntos diversos, como parceiros, Bossa Nova, sucesso no exterior, encontro com Frank Sinatra, festivais, trilhas sonoras que produziu, influências, etc.
Nada melhor do que trazer um pouco do pensamento de Jobim nessa primeira postagem do ano. Abaixo algumas frases tiradas do livro:

"Algumas vezes dormi nos bancos da Praça Nossa Senhora da Paz, de tarde, com aquela preguiça que o calor dá."
"Bastava sentar e escrever a música, o resto vinha por si."
"Toda vez que há qualquer coisa criativa na América Latina, ela vai acabar na América do Norte."
"Dolores Duran fez 'Por Causa de Você' com um lápis de sobrancelha, o instrumento que tinha na mão para não perder aquele ótimo momento de inspiração." (sobre suas parcerias)
"Acho o Sinatra ótimo. Pena que ele não fale mais com a imprensa... Pessoalmente, é uma criatura excelente."

"Você faz uma música toda trabalhada, põe nela o que você tem de melhor, leva com carinho para ser ouvida, e é vaiado." (sobre os festivais da canção, e a vaia que levou com Sabiá)
"...é tráfego engarrafado, é assalto em elevador, é neraustenia. O homem foi feito para casar com uma mulher, morar numa casa, passear na calçada."
"Digo que minha música vem da natureza, agora mais do que nunca. Amo as árvores, as pedras, os passarinhos. Acho medonho que a gente esteja contribuindo para destruir as coisas."
"A criação é um ato de amor, alguma coisa que se comunica a toda a humanidade."

sábado, 31 de dezembro de 2011

Revistas Legais - História do Rock (4 Volumes)




Nos anos 80 a antiga Editora Três era responsável por algumas publicações musicais, como a revista Somtrês, especializada em equipamentos e matérias musicais, uma série de revistas-poster, falando de várias bandas e artistas, e de vez em quando publicava alguma edição especial, sempre na área musical. Uma dessas edições foi uma série com quatro revistas contando a história do rock, de seu início nos anos 50, até a época em que as revistas foram publicadas.
O responsável pelo texto foi o jornalista e pesquisador musical Roberto Muggiati, de quem aliás, já falei aqui neste espaço, quando comentei sobre dois livros de sua autoria. Os quatro volumes foram assim divididos: 1º Volume - Os Anos Heroicos (1954-1959); 2º Volume - Os Anos de Ouro (1962-1966); 3º Volume - Os Anos da Utopia (1967-1970) e 4º Volume - Os Anos da Incerteza (1970-1980). Fartamente ilustrado, e com um ótimo texto, onde o rock é contextualizado dentro dos períodos em que foram divididos na obra, onde as transformações sociais, políticas e culturais são destacadas, os quatro volumes da História do Rock oferecem um amplo panorama do que o rock representou no período destacado.
No primeiro volume, dedicado aos primórdios do rock'n roll (anos 50), Muggiati inicia seu texto dizendo: "No começo da década de 50, uma estranha e imprevista combinação iria desencadear a grande revolução. Um caipira do Mississipi, um americano típico de Detroit, um branco meio maluco da Luisiana, o filho de um lavrador do Tennessee, um ex-trombadinha de St. Louis, um crioulo de Nova Orleans filho de violonista, um mulato da Georgia gênero bicha louca, dois irmãos do Kentucky, filhos de cantores de rádio, um colegial do Texas. Nenhum deles parecia destinado a pouco mais do que uma existência anônima, sem a maior importância. Um time de perdedores. Mas, com a força da sua música, eles abriram caminho para o explosivo fenômeno do rock'n roll e se tornaram os heróis culturais de toda uma geração. Seus nomes: Elvis Presley, Bill Haley, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Chuck Berry, Fats Domino, Little Richard, os Everly Brothers e Buddy Holly".
Cada um deses personagens tem suas vidas contadas, juntamente com a história do gênero, além de outros personagens não ligados à música, e sim ao cinema, mas que se interligam com a história do rock, como James Dean e Marlon Brando, e a figura emblemática do "rebelde sem causa", muito ligada aos anos 50.

O Volume 2 destaca os anos 60, de 62 a 66, e traz na capa, como não poderia deixar de ser, os Beatles. Na introdução do segundo volume, Muggiati destaca:
"Com o final da década de 50, o rock já tinha se transformado numa assinatura reconhecida em todo o mundo. E quando a maioria imaginava que o gênero poderia ser vítima de uma decadência precoce - como dezenas de outras modas que vieram e passaram, o rock sacudiu a década de 60 com uma força que ninguém poderia prever."
Nesse segundo volume é destacada primeiramente a música de protesto e engajada em movimentos políticos, destacando-se Joan Baez e Bob Dylan. A folk music é apresentada como uma música que fala dos direitos civis, na luta ao lado das classes desfavorecidas. Mostra ilustrações com fotos de Joan Baez em concertos de fundo político e uma foto em que ela aparece numa marcha ao lado de Martin Luther King.
Bob Dylan (que por sua importância também poderia ser destacado na capa da edição) é amplamente citado numa matéria de várias páginas, onde é destacado não só seu lado de músico, que revolucionou e influenciou toda uma geração (inclusive os próprios Beatles, e mais tarde Hendrix, dentre outros) como também seu engajamento político, destacado em suas músicas de protesto.

Uma longa matéria com os Beatles vem em seguida, destacando seu início em Liverpool, até sua afirmação e ascenção - os anos da beatlemania e toda a influência que a banda representou. Como o segundo volume fala até o ano de 1966, a história dos Beatles continua a ser contada na terceira edição. Esse volume também destaca o fenômeno conhecido como Britsh Invasion, a invasão das bandas inglesas no mercado do rock: Rolling Stones, The Animals, The Yardbyrds, The Who, Cream e The Kinks.
Também é destacado o surgimento de novas bandas americanas. Num tópico intitulado "Reação Americana", o texto diz: "O boom britânico acabaria por despertar o rock americano, que entrara em hibernação em fins de 50/início de 60." É destacado principalmente o novo som vindo do estado da Califórnia, que iria dar no rock psicodélico dos anos 60: The Byrds, Country Joe The Fish, Jefferson Airplaine, The Mammas and The Papas, The Mothers of Invention, Canned Heat, The Grateful Dead, etc.
O volume 3 destaca o período 1967-1970. Fala dos grandes festivais, como Monterey e Woodstock, e o surgimento de figuras marcantes como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison dentre outros. É destacado também o movimento hippie, o "Verão do Amor", e vários pensadores que influenciaram aquela geração, como os autores beats e Herbert Marcuse. Como curiosidade a revista traz uma matéria de várias páginas contando detalhes sobre a gravação do álbum Sgt Peppers, dos Beatles.
O quarto e último volume, intitulado Os Anos da Incerteza, destaca o período de dez anos, entre 1970 e 1980. A introdução do volume diz: "A década de 70 parecia bem distante da petulância dos anos heroicos do rock. Muitos dos grandes nomes do passado já não revelavam sequer uma parte da força original, se acomodando e produzindo música sem interesse. Ao mesmo tempo, grupos novos não conseguiam ocupar um vácuo tão grande."
o último volume da série destaca o rock progressivo (Yes, Emerson, Lake and Palmer, King Crimson, Pink Floyd), fala dos supergrupos, como Led Zeppelin, o surgimento do movimento punk (em várias páginas), a ascenção do reggae, a disco music, o estilo fusion, soul, etc. Esses quatro volumes da História do Rock é um excelente material de pesquisa sobre as três primeiras décadas do rock, escritas por quem entende do do assunto.