Palavras Domesticadas

Palavras Domesticadas

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ligações On'Pidididíri


Nos anos 90, aconteceu o fenômeno dos fanzines. Essas publicações eram produzidas de várias formas, das mais rudimentares e artesanais, até algumas com melhores tecnologias. Fui um consumidor desse tipo de manifestação, e ainda tenho vários deles, aliás, quase todos que recebia. Um dia resolvi também produzir um fanzine próprio, e criei Ligações On'Pidididíri. Produzi poucas edições - somente três, e não tenho guardado nenhum exemplar. Há pouco procurei alguns originais que ainda tinha, mas por não encontrar, achei que tinha perdido. Agora, recentemente, acabei encontrando esses originais.


O nº 1 trazia uma matéria sobre os Novos Baianos. O texto escrito à maquina e com as fotos recortadas e coladas, era xerocado, com a capa e as páginas grampeadas.
Como não tinha o recurso do computador, eu usei na matéria sobre os Novos Baianos aquelas letras que se fixam na folha após raspadas por trás, como um decalque. Eu tinha poucas letras disponíveis. Só tinha duas letras "o", e o nome Novos Baianos tem três. Então tive que pegar uma letra 'q" e tirei a parte de baixo, para virar um "o". Não é preciso observar muito, que as letras ficaram tortas. As ilustrações que usava eram de um arquivo próprio de fotos que há anos recortava de jornais e revistas, que aliás ainda tenho.

O nome Ligações On'Pidididíri (que é paroxítono, ou seja, rima com "adquire") eu compus da seguinte forma: usei a palavra ligações, e para reforçar usei a palavra on, que em aparelhos eletrônicos especifica que ele está ligado. O uso da apóstrofe é apenas por razões estéticas. Pidididíri é uma onomatopeia para especificar algumas improvisações vocais muito usadas por cantores de jazz e também de Bossa Nova, especificando o caráter de improviso que a publicação representava .
Normalmente eu usava o Ligações como moeda de troca, por outros fanzines.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Jazz e a Indiferença Literária


A revista Música nº 70, de 1983, trazia uma interessante matéria sobre o pouco uso do jazz em importantes obras da literatura. Assinada pelo crítico Hélio Helman, o texto dizia em sua chamada que "apesar de um passado rico, com mitos marginalizados e histórias dramáticas, o jazz acabou desprezado pela ficção". Abaixo, trechos da matéria:
"Embora em termos de influência o jazz tenha atingido como uma metralhadora giratória todas as manifestações artísticas do século, é de causar pasmo que um dos alvos mais visíveis aqui, a literatura, tenha sido pouco afetado. Numa comparação rápida, o jazz guarda estreito parentesco com o futebol brasileiro que, inegável mola propulsora cultural, não rendeu até hoje obras-primas em prosa e verso, descontando-se a excessão (que só confirma a regra) da peça Chatuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho.
O fato é que a literatura tem se servido desse filão riquíssimo que é o jazz, praticamente só como música incidental, composição de ambiente. Uma atitude imperdoável para com a uma área superpopulada de personagens incompreendidos, marginalizados - campo fértil para qualquer autor. Citar a vida de Charlie Parker, o mito supremo, chega a ser covardia. Mas que dizer da derrocada de Billie Holliday; da luta de Miles Davis contra os demônios das drogas; dos internamentos de Lester Young e Bud Powell; da festa que foi a vida e época daquele que já foi chamado de um dos maiores poetas em língua inglesa, Cole Porter? E não é só isso: algumas escolas do jazz têm um passado coloridíssimo. Vejam só o be bop ou o hardbop, frutos de estudos incessantes dos negros, que em seus guetos buscaram rechaçar o comercialóide jazz branco. A relação de temas não caberia numa lista telefônica só.
O reconhecimento dos beatnicks
Todo esse efervescente caldo de cultura não tem passado de pasto para traças da literatura. Desde o começo do século, quando irrompeu nos EUA, o jazz foi mero pano de fundo literário. Um aparecimento mais consistente na literatura americana (fico nela por ser a mais importante da atualidade e pelo seu acesso natural ao jazz, ocorreu no livro Seis Contos da Era do Jazz, onde no ensaio introdutório e na atmosfera fabricante dos contos, Scott Fitzgerald se refere à loucura dos anos 20 nos EUA, utilizando entre as referências da época as bandas do estilo Chicago e swing que animavam já as festas da alta sociedade branca. Daí para a frente, todas as tentativas de pôr no papel o american way of life esnobaram solenemente o jazz. No máximo, ele comparecia num conjunto de fundo numa barcaça que descia o Mississipi ou num cabaré qualquer de Nova Iorque.
O jazz ganhou espaço significativo nos círculos literários a partir dos anos 50, com a geração beatnick, que comandada por jazzófilos fanáticos como Jack Kerouac, colocou algo do espírito e bastidores do jazz em seus textos. Mais que vanguarda literária, o movimento beatnick, hoje se sabe, impôs um estilo de vida em muito precursor dos hippies, yippies, seitas orientais e tutti quanti. E o jazz, através de músicos como Bird, Lester, Miles, Sonny Rollins e Bud Powell, tornou-se umas das referências imediatas para a identificação desta geração. Mas o movimento beat, além de comprador fiel de LPs e ouvinte capaz de prestigiar músicos na noite, também serviu-se do jazz por sua postura avessa às concessões comerciais e pela liberdade de criação. Kerouac, por exemplo, põe seus personagens volta e meia escutando jazz na obra prima beat, On The Road, e, para não nos alongarmos, recitava seus textos em meio a trechos de jazz em shows nos cafés do Village (NY)"

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Clara Brito - Sesc Campos


O Sesc continua a representar uma ótima opção cultural para aqueles que procuram novas alternativas na cidade, que hoje oferece tão poucos espaços para os artistas da terra. O projeto Urbanidades, que teve início na noite de ontem, trouxe em sua abertura um show de uma nova cantora: Clara Brito. Conhecia pouco o trabalho de Clara, apenas algumas participações na banda Avyadores do Brazyl, sendo que o vocal na gravação de Indi/Gesta (talvez a última gravação feita pelo grande Luiz Ribeiro) foi a mais significativa. Luiz, por sinal, foi citado por ela como um grande mestre, e quem lhe apresentou o blues, de uma forma mais contundente. Também a havia assistido em uma pequena participação em shows da banda 401, formada por ex-membros da banda de Luiz, além de outra participação, cantando Mercedez Benz, do repertório de Janis Joplin, num show do guitarrista Big Joe Manfra. Sua bela voz e interpretação me chamaram a atenção.
Ontem pude assistir pela primeira vez a um show solo de Clara, no Sesc. Acompanhando-se ao violão, além de trazer a participação de Sérgio Máximo na guitarra e André Aguiar na harmônica, Clara pôde trazer ao público um show próprio, com seu trabalho vocal e autoral, além de covers nacionais e internacionais. Seu trabalho autoral é de boa qualidade, já deixando claro uma maturidade musical e um bom ouvido para construir melodias. "Ateu, Graças a Deus", por exemplo, fala de suas mal sucedidas experiências religiosas, de uma forma um tanto iconoclasta, mas sincera. Aliás, segundo ela, suas primeiras experiências no canto foram através de músicas gospel, que até pode ter lhe valido como experiência, mas seria uma pena ver sua bela e potente voz ser desperdiçada com aquelas músicas chatinhas. Outras composições próprias, como um samba que fala da rua Gil de Góis, mais especificamente de seu aspecto boêmio, bares, etc. Aliás, a palavra "estranho" aparece na letra sem fazer uma referência direta ao famoso e finado bar que fez história naquela conhecida esquina, mas com certeza é uma citação. "Morfeu" é outra composição autoral, que por sinal foi cantada duas vezes- a segunda, a pedidos.

Clara sabe se acompanhar bem ao violão, o que lhe dá uma autonomia no palco. Por sinal, algumas das músicas são executadas somente com voz e violão. É o caso, por exemplo, do clássico "As Rosas Não Falam", de Cartola. Clara nessa música, deu uma levada diferente ao violão, em uma interpretação bem pessoal. A troca de um trecho da letra - "Bate outra vez a esperança em meu coração" ao invés de "Bate outra vez com esperanças o meu coração" não comprometeu a poesia de Cartola, como muitas vezes acontece com a mudança de uma simples palavra. Canudinho, de Renata Arruda e Pagu, de Rita Lee, foram outros covers nacionais interpretados por ela. Dentre as internacionais, boas interpretações para Hoochie Coochie Man, de Muddy Waters (que ela transformou em Hoochie Coochie Girl), Wish You Where Here, do Pink Floyd e Sweet Home Alabama, do Lynyrd Skynyrd. Não poderiam faltar músicas dos Avyadores do Brazyl, sua grande escola: Indi/Gesta, O Amor é Cruel e 401, em um arranjo que começa com uma versão instrumental de "Baião", de Luiz Gonzaga, executada por André, Clara e Sérgio.
Foi um show intimista, onde todas as possibilidades de acompanhamento foram executadas - voz e violão; voz, violão e gaita; voz, violão e guitarra. Só faltou cantar à capela. Pelo potencial que Clara demonstrou, ela merece se apresentar em um show com banda: outra guitarra, um baixo e uma bateria, por exemplo, lhe dariam a oportunidade de mostrar sua presença de palco, pois lhe traria uma maior mobilidade, por não precisar se acompanhar em todas as músicas.
Valeu a pena conhecer essa nova cantora. Que venham outros shows.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Pérolas de Aldir Blanc


Aldir Blanc sempre foi pra mim uma referência como letrista, e depois como cronista. Aliás, muitas de suas letras já eram crônicas, que traziam pequenas histórias e personagens. Passei a prestar maior atenção no letrista a partir de sua parceria com João Bosco, que eu descobri maravilhado ainda adolescente. Depois vim saber que aquele Aldir que eu pensava estar descobrindo naquele período, eu já conhecia e nem sabia. "Amigo É Pra Essas Coisas", "Nada Sei de Eterno", "De Esquina Em Esquina", músicas que eu conhecia dos antigos festivais universitários da TV Tupi, eram letras suas, sem que eu soubesse. Depois, anos mais tarde, conheci o Aldir cronista, através de sua coluna no jornal O Pasquim, crônicas que depois foram reunidas em dois livros ("Rua dos Artistas e Arredores" e "Porta de Tinturaria"). Abaixo selecionei algumas frases curtas, verdadeiras pérolas de uma prosa poética, carregada de sensibilidade e um refinado humor:
"O amor tanto se mete a edredon que acaba virando colcha de retalhos"
"Às vezes, eu me provo tão velho quanto esses biscoitinhos que a gente serve pra visita inesperada. E ainda mais falso que o sorriso de 'que surpresa!'"
"Todo escândalo de adultério deve comportar uma trégua pro cafezinho"
"Na inauguração do novo Distrito Policial coube ao Secretário de Segurança dar o pontapé inicial"
"A casa era exatamente o que eu esperava. Um jardim, aquelas garrafinhas pra beija-flor, o maior sossego. Respirei fundo e fiquei repetindo pra mim mesmo: 'Puxa! É impossível que alguém se sinta infeliz num lugar assim'. Eu tava me sentindo muito infeliz"
" Nos jogos do amor eu sempre perco porque sou amador"
"... na varanda de uma casa em Paquetá, a moça sorri:
- Mas nós nos conhecemos tão pouco, amor!
E dentro da casa, a mãe da moça resmunga:
- Eu conheço bem esse filho-da-puta"
"... em Vila Isabel, meu avô Aguiar me explica:
- Nos fins de domingo sempre se pensa na morte. Chato é que às vezes a gente morre mesmo."
"...passa aos gritos o Carro de Bombeiros, girando a pupila vermelha na grande órbita da noite, insano como os olhos verdadeiros solitários, solidário como os verdadeiros insanos. Um homem fala sozinho:
- Em algum lugar há fogo, Zelda. Meu coração inveja."
"... penso nos teus cabelos e naquelas frases todas, não sei porque estou dizendo tudo isso. Por favor, não ria. Eu poderia escrever um livro sobre nós dois, enquanto, com o piano de Teddy Wilson, Billie Holiday me ensina que depois de tudo isso:
- I'll never be the same"

domingo, 3 de julho de 2011

Greve dos Bombeiros - Há 50 anos


Muito se falou, e ainda se fala, no movimento dos bombeiros do RJ. A manifestação ganhou as manchetes dos jornais e apoio de boa parte da população, que se mostrou solidária aos os bombeiros que foram presos, e agora anistiados, etc. Mas há 50 anos, em 1961, uma paralisação e manifestação semelhante aconteceu em São Paulo. A revista O Cruzeiro fez uma ampla reportagem sobre o assunto em fevereiro daquele ano:
"Sexta-feira, dia 13, 8:30 da manhã, uma bandeira negra foi hasteada no alto de uma escada Magirus, em frente ao Quartel-General do Corpo de Bombeiros de São Paulo. O ato marcava o início de um movimento de indisciplina (o Corpo de Bombeiros pertence à Força Pública do Estado) que chegaria a provocar uma 'marcha sobre o Palácio do Governo', na manhã do dia seguinte. Ao substituirem o tradicional pavilhão vermelho da Corporação por uma bandeira negra, os soldados do fogo deflagavam o primeiro movimento de insubordinação em toda a existência (129 anos) do Corpo de Bombeiros.
- 'Estamos passando fome, estamos em greve!'
A partir desse instante, todos os chamados para o QG eram respondidos com estas palavras: - 'Por motivos alheios à nossa vontade não estamos atendendo ao público. Queira dirigir-se ao Palácio do Governo, pelo telefone 51-2191'. A ordem era não atender a nenhum chamado, exceto quando houvesse vidas em perigo.
O principal foco do movimento - QG dos bombeiros, na praça Clóvis Bevilacqua - passou a ser o centro de todas as atenções. Os soldados do fogo (todos integrantes da Corporação) permaneciam em sua sede, e uma imensa multidão se aglomerava na praça, na expectativa dos acontecimentos. Os oficiais rebeldes esperavam, a qualquer instante, a chegada de uma tropa de choque da Força Pública, com ordem para pôr fim à situação."

A matéria, que trazia um bom material fotográfico, mostrava uma foto do General do Exército Costa e Silva, que mais tarde seria nomeado Presidente da República, todo nervosinho, pagando geral para os bombeiros insubordinados, como na foto acima, à esquerda. A matéria continua:
"O drama que se arrastara durante um dia e uma noite chegou ao seu climax, no Quartel dos Bombeiros, ao alvorecer do diam 14. Exatamente às 5 horas, os Generais Costa e Silva e Franco Ferreira, comandando cerca de 300 homens, sitiaram a Praça Clóvis Bevilacqua. Carros de assaltos, armados com canhões, tanques, metralhadoras. Os soldados do Exército tomaram posição, com suas armas apontadas para o Quartel do Corpo de Bombeiros, onde a ordem da oficialidade era para que todos mantivessem a disciplina."
Hoje, 50 anos depois, a história se repete, com outros personagens, outros tempos. Mas a verdade é que não mudou muita coisa além disso.

sábado, 2 de julho de 2011

Sonhando Louis - Luis Fernando Verissimo


Encontrei entre meus guardados uma crônica de Luis Fernando Verissimo falando de seu amor pelo jazz, e o desejo concretizado, de tocar sax. Já vi Verissimo tocando ao vivo. Nada de excepicional como músico (aliás seria demais querer comparar o músico com o cronista)mas estava fazendo uma coisa que gosta, sem fazer feio, e isso é o que importa. Abaixo sua crônica, publicada no tabloide de cultura Nicolau, de Curitiba, intitulada Sonhando Louis:
"Quem se lembra do Tesourinha? Era ponta-direita do Internacional e da seleção, chegou a jogar no Vasco, e não tem nada a ver com jazz. Mas, na infância, eu queria ser o Tesourinha, depois, na adolescência, queria ser o Louis Armstrong. O que só me levou a concluir que tinha nascido na raça errada. Nunca cheguei perto de ser o Tesourinha, mas quando fui morar nos Estadois Unidos, com 16 anos, tomei providências para ser o Louis Armstrong.
Fui procurar um curso de música em Washington D.C. para aprender piston. Eles emprestavam o instrumento. Não tinham um piston no momento. Tinham um sax alto. Servia? Serviu. O meu projeto de vida seguinte - ser o Miles Davis - já começou prejudicado. Além de a raça ser errada, o instrumento também era.
Aprendi o bastante para manejar as chaves e ler uma partitura, mas nunca cheguei a dominar o instrumento, e esqueci o que sabia. Eu só queria mesmo fingir que era jazzista, sozinho. No máximo me olhando no espelho. Mas, em 60, já de volta a Porto Alegre, fui convidado a participar de um 'conjunto melódico' que se iniciava, o Renato e seu Sexteto (que mais tarde, com nove figuras, chegou a ser o maior sexteto do mundo). Tocávamos em bailes de estudantes, e era tempo da Bossa Nova, da música italiana, do 'fox', e, às vezes, quando a harmonia era propícia, eu improvisava, e era um passável Paul Desmond. Toquei só um ano com o conjunto do Renato (que depois se tornou um dos melhores do estado, ficou famoso sem mim, e debandou na década de 70), e passei 17 anos sem pegar o sax. Até que o grupo resolveu se reunir para relembrar os velhos tempos, e descobriu que muita gente tinha a mesma saudade. Resultado: voltamos a tocar em bailes, para o mesmo público da nossa juventude. Os que ainda podem andar, claro.
E hoje, quando o fôlego permite e os dedos obedecem, ainda ensaio umas corridas pela borda do tema. É um pouco como o Tesourinha quando acabou, melancolicamente, no Grêmio, confiando na benevolência do público. Mas é a realização de um sonho, mesmo assim."

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Rick Wakeman no Brasil - 1975


Nos anos 70 não era muito comum a apresentação de grupos e astros do rock internacional no Brasil, pelo menos aqueles que viviam seu auge artístico e de popularidade. Apesar de o público brasileiro sempre ter sido um grande consumidor de música pop, vários fatores faziam com que as grandes bandas não extendessem suas excursões mundiais por aqui. Uma excessão foi Rick Wakeman, ex-tecladista do Yes, que naquele período, quando o rock progressivo estava em alta, era um dos artistas mais populares na época, e tocou no Brasil em 1975. A revista Pop fez uma matéria com fotos dos shows e bastidores:
"E a lenda do anjo sinfônico dos teclados virou ralidade. Rick Wakeman esteve no Brasil por mais de duas semanas, transando shows que foram curtidos por mais de 80 mil pessoas em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. A moçada foi em massa reverenciar o mago que sabe misturar o rock com a música clássica num som único e apoteótico, muito bom de curtir.
E o que se viu foi quase como um londrino acordo entre cavalheiros: se, por um lado, o público saudou seu ídolo com comoventes ovações que ecoavam dentro dos ginásios superlotados, por outro lado, Rick Wakeman entregou-se inteiro à tarefa de arrancar sons sublimes dos teclados de seus instrumentos. Ele deu tudo o que pôde, fez tudo o que sabe, chegou a extremos de consagração que nem esperava.

Na verdade, nem os organizadores da temporada (e muito menos os empresários) esperavam que a consagração do ídolo seria tão grande. Todos ficaram de boca aberta quando perceberam que a moçada conhecia a fundo o repertório de Rick - reagindo ruidosamente aos primeiros acordes de suas músicas preferidas. E os aplausos iam crescendo, até o fim dos concertos, quando eram dirigidos também ao maestro Isaac Karabitchevsky, aos músicos da sinfônica e aos competentes carinhas do English Rock Ensemble - o grupo de Rick. Em todos os shows, Rick precisou voltar ao palco para bisar uma ou duas músicas.
Rick é um carinha legal, sem pose de superstar, mas consciente de suas virtudes como instrumentista e criador de música. E é um cara aberto a todas as curtições. Logo que chegou ao Rio, soube que há toda uma transa de discos voadores e visitas de fenícios ligada à Pedra da Gávea - e imediatamente compôs uma música inspirada na pedra (que ele via da janela de sua suíte). Mais tarde jogou uma partida de futebol (com os carinhas do conjunto) contra um time de artistas brasileiros. Perdeu esportivamente por 5 a 2. Em São Paulo, durante uma recepção na casa de um dos diretores da gravadora Odeon, lá pelas tantas da madrugada, Rick e todos os do seu grupo tiraram a roupa (ficaram só de cuecas), mergulharam na piscina e começaram a puxar todos os convidados para dentro d'água - de roupa e tudo.

Mas, é claro, toda essa temporada de festas, trabalho, curtições, muita música e apoteose, teve seu preço. Para garantir todo o luxo, a pompa e a impecável perfeição técnica (tanto de som como de iluminação) dos espetáculos, havia uma equipe de 70 pessoas nos bastidores. O total da aparelhagem pesa 18 toneladas, e só a mesa de som trabalha com 285 canais. O transporte dessa aparelhagem saiu por volta de 800 mil cruzeiros. E a Rede Globo e o Projeto Aquarius, responsáveis pela excursão, investiram no total cerca de 6 milhões de cruzeiros. Rick, que levou 50% da renda bruta, deve ter faturado uns 2 milhões!"