A palavra fácil, o verbo desprovido de vaidade vocabular não precisa trazer a sofisticação de frases de uso não-cotidiano a passear com seus trajes a rigor pelas avenidas movimentadas de nosso idioma. É como se deixar levar pela falta de compromisso com sonoridades nobres, num papo de botequim num final de tarde, onde os assuntos se sucedem como folhas de papel a voar desgovernadas pela ventania de ideias descompromissadas com o profundo.
Carregamos conosco uma série de convicções, que muitas vezes, ao encará-las de frente, enxergamos detalhes que as faz tornarem-se menores e menos importantes do que na verdade nossas mentes nos faziam entender. Certas ideias que herdamos do meio que nos cerca, são como peças de roupas que com o passar do tempo se desgastam e se tornam grotescas e fora dos padrões do bom gosto.
A grandeza vivencial de se tornar mais um que não busca nada além da essência de sua verdadeira natureza interior, faz com que a tarefa de atravessarmos a escura e tortuosa caverna que abriga nossas decisões e atitudes pessoais se torne uma tarefa menos dolorosa e cruel. Caminharmos ao encontro do que nos é essencial nos afasta de vãs tentativas de buscarmos formar o quebra-cabeça de nossa personalidade com peças alheias.
Muitas vezes, buscando nos engrandecer diante dos olhares dos que nos cercam, tropeçamos na falta de convicção que espalha suas incertezas pelo solo irregular das atitudes forçosamente tomadas em breves delírios de quem procura fugir de seus próprios instintos, e acaba vendo a si mesmo como alguém com o qual não se identifica.
domingo, 25 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Carnaval na avenida e na ponta da agulha
O carnaval oficial da cidade começa hoje. Entenda-se por carnaval, os desfiles das agremiações, porque não há clima de carnaval nas ruas, não se ouve batucadas e nem se vê blocos de foliões. Esse carnaval fora de época não tem cara de carnaval. Talvez para quem vá assistir aos desfiles, pode vir a sentir um certo espírito carnavalesco, mas que esse carnaval deslocado de sua data oficial parece estranho, disso não há dúvida. Pelo menos na próxima Noite do Vinil, na sexta, dia 23, procuraremos reviver os velhos carnavais das marchinhas e dos antigos sambas-enredo, quando ainda não eram feitos para virarem produtos vendáveis, e eram mais bonitos. Em nosso caso particular o que vemos hoje é uma briga entre dirigentes de escolas e blocos e o poder público, relativa às verbas destinadas aos desfiles, e a cada ano saem mais pobres. Prefiro mesmo ouvir e cantar aquelas marchinhas, que hoje já não se fazem mais. Pelo menos em vinil, no Relicário Bistrô, na 28 de Março em frente ao Isepam,a partir das 22h poderemos lembrar de antigos carnavais, mesmo em pleno abril. Como curiosidade, vou transcrever uma famosa marchinha, vertida para o latim, que encontrei no livro Balanço da Bossa e Outras Bossas, de Augusto de Campos.
O horticultrix
Cur tam tristis es
Quid autem tibi acciderit?
Fuit camelia
Quea de ramo cecidit
Suspiros dedit duos
Postea perivit.
Veni, horticultrix
Veni, amor mi
Ne sis tam tristis
Quia mundus tibi est
Tu camelia pulchritudine
Logissime praestas.
(Ó jardineira/ por que estás tão triste/ Mas o que foi que aconteceu?/Foi a camélia que caiu do galho/deu dois suspiros/ E depois morreu/ Vem jardineira/ Vem meu amor/ Não fiques triste/que este mundo é todo teu/ Tu és muito mais bonita/ Que a camélia que morreu.)
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Uma Maratona Inesquecível- parte 2

No sábado, após trabalhar até o meio-dia, e cerca de 30 horas sem dormir, almocei, cai na cama e apaguei. Dormi a tarde toda, e quando acordei já era quase hora de pegar o ônibus para a segunda noite do festival. Precisava daquela tarde de sono para me recuperar. No sábado seriam dois shows: a banda mineira de rock progressivo, Sagrado Coração da Terra e Titãs. Aquele segundo dia seria menos cansativo. Havia recuperado minhas forças, e no dia seguinte, domingo, não iria trabalhar. Cheguei no mesmo horário do dia anterior, e já conhecendo melhor a cidade, sabia o caminho para o campus da universidade. O local estava bem cheio, principalmente por causa dos Titãs, uma das bandas mais populares da época. O local estava bem mais lotado que na noite anterior. Já havia muita gente gente louca, e a exemplo da sexta, muita maconha era consumida livremente, sem repressão. O Sagrado Coração da Terra, a banda que abriu a segunda noite, fez um grande show. Um rock progressivo da melhor qualidade, que agradou a todos. Era o aquecimento para o tão aguardado show dos Titãs. Poucos minutos depois de encerrado o primeiro show, começou a chover. A chuva aumentava, e quando os Titãs subiram ao palco já caía uma verdadeira tempestade. O chão de barro virou um enorme lamaçal. Eu que estava com uma jaqueta de jeans, me cobri com ela, embora não resolvesse muita coisa. Mas ninguém arredou pé, e o show, mesmo com toda a chuva, foi fantástico e inesquecível. Saí com os pés e a barra da calça completamente enlameados. Novamente tive que aguardar durante horas o primeiro ônibus na rodoviária, e era interessante reconhecer quem estava no show pela lama nos pés e nas calças. Cheguei de manhã, menos cansado do que no dia anterior. Lavei minhas calças e meu par de tênis enlameados, e dormi bastante. O show de domingo estava programado para começar mais cedo, pela tarde. Era tudo que eu precisava. Começando mais cedo, terminaria também mais cedo, e eu poderia voltar no mesmo dia. Havia um ônibus para Ubá a uma da manhã. Minha preocupação era com o horário, pois tinha que abrir a estação às 7:30. Como não daria tempo de almoçar antes de viajar, por causa da hora que acordei, resolvei almoçar por lá. A cidade estava tomada pelo público do evento. Era um clima bem legal. Após almoçar me dirigi ao local do show, e após algum tempo o público foi informado que haveria um atraso nos shows, que só começariam à noite. Comecei a desconfiar que teria que voltar no mesmo horário de ônibus das noites anteriores. Só poderia chegar pra trabalhar com uma hora de atraso. O problema é se tivesse algum trem circulando cedo. Eu teria que dar explicações, e eu era novo na empresa. Mas o que eu pensava naquela hora era nos shows. Na entrada comprei uma camisa com uma foto de Hermeto Pascoal, essa da foto, que guardo até hoje. O primeiro show foi de Egberto Gismonti. Muito bom, embora Egberto não tenha se comunicado muito com o público. Falou através de sua música. Depois subiu um violonista chamado Romero Lubambo. O show final do festival foi de Hermeto Pascoal, que foi de arrepiar. Eu já havia tomado muita cerveja, e estava mais do que empolgado. No fim do show, eu não me esqueço que o cara da barraca em que eu comprei as cervejas me falou que eu fui a figura mais marcante pra ele de todo o festival. Novamente esperei por horas na rodoviária de Viçosa, preocupado com o meu atraso. Ao chegar à estação, apreensivo pelo atraso e esgotado por mais uma noite virada, verifiquei que não houve movimento algum, e meu atraso não foi notado. Apesar do cansaço e de todo sufoco que passei, aquele fim de semana mineiro foi perfeito e inesquecível.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Uma Maratona Inesquecível - parte 1
Há vinte anos eu era ferroviário, e por determinação da empresa, a antiga RFFSA, fui transferido para Minas. Desembarquei em Ubá, na zona da mata mineira, em junho de 1990, em plena Copa do Mundo. Logicamente eu não estava nada satisfeito com a transferência, até porque não sabia o que iria encontrar pela frente. Fui muito bem recebido, e aos poucos fui me adaptando à minha nova realidade. Meu colega de trabalho era um senhor já perto de se aposentar, e muito paciente com o novo colega ainda inexperiente e com muito a aprender. Sempre que desejava vir em casa, normalmente de 15 em 15 dias, ele cobria meu horário, e depois eu o compensava – uma prática comum, embora considerada irregular pela chefia. Trabalhamos juntos por dois meses, até ele se aposentar, em agosto. Um outro colega iria substituí-lo, mas ele estava de férias, e só se apresentaria na segunda semana de setembro. Então naquele mês de agosto, já um pouco mais experiente, tive que assumir sozinho a estação, e assim não poderia me ausentar dela e vir em casa. Naquele mês ouvindo o rádio soube que haveria um festival com várias atrações musicais durante três dias em Viçosa, uma cidade vizinha. As atrações eram imperdíveis, shows de artistas que nunca havia assistido, como Lô Borges, Wagner Tiso, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Ainda haveria um show dos Titãs, minha banda nacional preferida na época, em sua fase áurea, com a formação original. Os Titãs eu já havia assistido a um show dois anos antes, mas também era imperdível. O festival foi organizado por formandos da Universidade Federal de Viçosa, e além da música promoveriam durante o dia eventos ligados à consciência ecológica. Daí se vê como a juventude daquela época era diferente da de hoje, mais consciente e ligada no que havia de melhor em termos culturais e comportamentais. Os ingressos seriam vendidos por várias cidades vizinhas, inclusive em Ubá, onde eu estava morando. Mas o grande problema era que eu estava sozinho na estação, e não tinha como combinar me ausentar naquele fim de semana. O que eu sabia é que não perderia aquele evento por nada. Comprei meu ingresso, e resolvi encarar uma maratona das mais pesadas. Eu trabalhava de 7:30h às 16:30h de segunda a sexta , e nos sábados de 08:00 às 12:00. No primeiro dia do evento, 31 de agosto, cumpri meu horário, descansei um pouco, comi alguma coisa, e por volta das 7 da noite peguei o ônibus para Viçosa, viagem que demorava uma hora e meia aproximadamente. Cheguei por volta de 8 e meia e me dirigi ao campus da universidade. Devo ter chegado lá por volta das 9 horas. Havia no local bastante gente. Um telão passava imagens de shows. Lembro de ter visto o The Doors. Também havia números teatrais. O primeiro show foi do saxofonista Nivaldo Ornelas, depois foi a vez de Wagner Tiso, e encerrando com Lô Borges. Uma grande noite de estreia. Não me lembro bem, mas os shows devem ter terminado por volta das três da manhã. O primeiro ônibus para Ubá só sairia às 7. Eu já estava ligado desde às 7 do dia anterior, e teria que trabalhar até o meio-dia daquele sábado, e ainda chegar meia-hora atrasado. Cheguei quase morto para trabalhar, mais de 24 horas ligado, parecendo um zumbi. Na próxima postagem conto o restante da maratona.
domingo, 18 de abril de 2010
O Guru de Jimmy Page
A revista Rock Stars nº 3, de 1983, trazia uma matéria sobre uma figura bastante polêmica – Aleister Crowley, sob o título de O Guru de Jimmy Page.
A matéria começa destacando:
“Uma aura de infortúnios pareceu perseguir o Led Zeppelin depois que Jimi Page aderiu ao ocultismo, comprando uma mansão que pertencera a Alesteir Crowley e montando uma loja de artigos de magia. Em suas declarações, Page defendia entusiasticamente o guru: “Crowley acreditava realmente no futuro, numa nova era, tinha um senso contemporâneo em suas teorias”(...)
A verdade é que o cara era muito louco, e também foi o guru de Raul Seixas e Paulo Coelho na fase em que andaram envolvidos com entidades esotéricas. Essa influência fica bem nítida em discos como Gita e Novo Aeon. Abaixo um pequeno resumo da vida de Crowley, transcrita da citada matéria:
“ Filho de um abastado fabricante de cerveja, Edward Alexander Crowley nasceu em outubro de 1875, em Leamington, pacata cidadezinha inglesa. O pai, ao aposentar-se, tornou-se pregador religioso, enchendo a cabeça de Alesteir com a noção de que sexo era sinônimo de pecado. A mãe, igualmente carola, disse suspeitar que ele, Aleister fosse a própria Besta do Apocalipse. É fácil adivinhar o que isso produziu numa criança de imaginação fértil...
Com a morte do pai, Aleister foi, aos onze anos, mandado a uma escola cristã, onde começou a manifestar revolta contra a religião. Seduziu uma criada aos catorze anos, iniciando uma vida sexual que seria das mais intensas (e, já que considerava o sexo pecado, isso incutiu nele a convicção de que se tratava de um satanista). Aos quinze, uma bomba de fabricação caseira explodiu-lhe na cara, deixando-o desacordado durante quatro dias. Há quem atribua a esse incidente seus dotes reais de mago – que eram os de influenciar as pessoas através de sua vontade poderosa.
No fim da adolescência, não passava de um bon vivant que tentava adquirir prestígio como escritor, e praticava com habilidade o montanhismo. Atraído por textos esotéricos, ingressou em sociedade de magia e acabou recebendo uma “revelação”, quando Horus, espírito maligno superior, teria lhe ditado o Livro da Lei – curiosamente semelhante a seus próprios escritos. A partir daí, sua vida praticamente se resume em atrair discípulos para suas cerimônias de magia sexual (nas quais se transavam todas as práticas sexuais conhecidas e imagináveis), em arrancar dinheiro de seus adeptos e dissipá-lo, em consumir drogas em quantidades absurdas, em chocar os cidadãos com seu exibicionismo incurável e ser perseguido de país a país por imprensa e autoridades. Muitos dos que o cercavam enlouqueceram ou sofreram mortes violentas. Ele próprio resistiu até os 72 anos, morrendo pobre e decadente em dezembro de 1947.”
sábado, 17 de abril de 2010
Poema em Sibemol
Sou um poeta bissexto, daqueles que só se arriscam a escrever um poema quando surge uma rara inspiração não se sabe de onde. Penso que escrever poemas é coisa pra quem é do ramo, coisa que não sou. Esse, por exemplo, eu escrevi nos anos 80. Chama-se Poema em Sibemol.
Deixe-me cair no embalo
Deixe-me cair na gandaia
Antecipando a data marcada
Seguindo o calendário maia
Aterrissando nas aldeias
A procura de mentes sãs
Nas caravanas pela relva
Desbravada por nossos cães
Observando os perigos
Que apontam os nossos guias
Redescobrindo os tesouros
Que valorizavam os velhos dias
To be or not to be
Repetia o antigo sábio
Mas sem que a convicção
Fosse além do encarnado lábio
To be or not to be
Repetia sem parar
E a memória vinha em ondas
Que se perderam do mar
Abrindo clareiras nos túneis
Revelando normas ocultas
Sem visões de olhos fundos
Julgando alheias condutas
Distante dos muros erguidos
Para esconder antigas cores
Como esguichos de água fria
Para abrandar diferentes calores
Nas trincheiras do perigo
Que abundam nas picadas
Velhos trastes vislumbrados
Acadêmicas ruas asfaltadas
Enquanto o gado anda solto
Aqui ou em Corto Maltese
Segue o monge absorto
Defendendo a sua tese
E a lição que nós tiramos
De tantas observações
Vai servir de delirium-tremens
Quando os para-quedas deixarem os aviões
E é por isso que o pensamento
Como Howlin’Wolf solta o seu brado
E atravessa o perímetro urbano
Para sair do outro lado
Como o endeusamento ostensivo
Dos mitos dos antigos clãs
A se formar nos rios da madrugada
A desaguar no oceano das manhãs
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Power Trio e Seus Cometas no País dos Mutantes

Em 1967, Gilberto Gil iria apresentar Domingo no Parque no Festival de Música da Tv Record, e queria cantar acompanhado de um grupo de rock. Caetano, que tinha a mesma ideia, conseguiu a banda argentina Beat Boys, que estava no Brasil, para acompanhá-lo em Alegria Alegria. Gil queria uma banda que não fosse do estilo jovem guarda, procurava algo mais ousado. Então alguém lhe indicou um grupo paulista que estava surgindo, e que tocava umas coisas meio malucas, e talvez fosse isso que Gil procurava. Era perfeito para o que ele se propunha, e assim Os Mutantes foram incorporados ao grupo que no ano seguinte seria responsável por uma revolução no panorama da MPB: o Tropicalismo.
Por isso a mostra A Irreverência da Tropicália, que o Sesc está trazendo durante esse mês, não poderia deixar de fora o lado elétrico e rock'n roll do Tropicalismo. Assim, a Betinho Assad Power Trio, formada por Betinho Assad (guitarra), Fábio Cabelo (baixo) e Felipe Begão (bateria) virou um quarteto com a participação especial de Thiago Azevedo, da banda Vibratto nos vocais, para apresentar um tributo aos Mutantes.
Foi com certeza um desafio para a banda, que traz em seu repertório blues e rocks de raiz, tocar Mutantes, uma banda que faz um som mais experimental e irreverente, com pitadas de ritmos brasileiros e latinos. Primeiramente foi necessário buscar alguém para fazer o vocal, já que o repertório dos Mutantes não é adequado ao estilo vocal de Betinho. Foi então convidado Thiago da banda Vibratto, especializada em classic rocks, que teria que topar o desafio de fazer o vocal de algumas músicas cantadas originalmente por Rita Lee, num tom diferente do seu. Além disso, a banda teria que escolher as músicas que melhor se adaptassem a seu estilo, sem poder deixar de fora alguns clássicos dos Mutantes.
O resultado desse desafio foi apresentado ontem no Sesc, e o que posso dizer é que foi um grande show. Thiago, que confessou que não era um grande conhecedor do repertório dos Mutantes, estava totalmente à vontade no palco, e foi interessante vê-lo cantar em português – só o havia visto cantar em nosso idioma uma única vez, em um show em homenagem a Raul Seixas, quando fez uma participação especial cantando Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás.
A apresentação começou com o maior hit dos Mutantes, Ando Meio Desligado. Foi uma excelente amostra do que viria pela frente. A banda estava entrosada com o som dos Mutantes, e a interpretação foi bem convincente. Em seguida vieram outras pérolas do repertório mutante, como Não Vá Se Perder Por Aí, Portugal de Navio e Minha Menina, de Jorge Ben, gravada por eles em seu primeiro disco. Em seguida, foi a vez de um autêntico rock'n roll, que levantou o público: Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha O Rock' n Roll. O trio, de guitarra, baixo e bateria, estava perfeito e o vocal de Thiago parecia ser de alguém que ouvia Mutantes desde criança.
Foram tocadas músicas de todos os discos dos Mutantes da fase Rita, Sérgio e Arnaldo, sendo que a maioria era do álbum de 1972, Os Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets, da fase mais lisérgica e elétrica da banda. Desse disco, além de Posso Perder... também tocaram Dune Buggy e Beijo Exagerado, que Thiago destacou que tem uma levada a la Stones. Hey Boy e Tiro Leite (não sei esse é o título correto) também foram apresentadas, e o show se encerrou com outro hit da banda, Top-Top. Essa música, que foi gravada com vocais de Rita Lee, teve que ser colocada no tom adequado à voz mais grave de Thiago, o que acredito que deve ter dado um pouco de trabalho nos primeiros ensaios. Nessa música Thiago saiu do palco e deixou o trio executando uma jam instrumental, mostrando toda a virtuose de cada membro, numa performance memorável. Fábio Cabelo, um baixista de estilo sóbrio e seguro executou um solo de alto nível, remetendo a baixistas como Jack Bruce e Jaco Pastorius, duas de suas grandes influências. Felipe Begão é um baterista que tem uma técnica e uma coordenação fantásticas, e seus solos são contagiantes pela precisão e ritmo, de quem bebeu na fonte de Ginger Baker e principalmente Mitch Mitchell. Betinho é um músico que se adapta perfeitamente a qualquer estilo. Embora suas influências mais marcantes sejam Jimi Hendrix, Eric Clapton e Stevie Ray Vaughan, e mais voltado para o blues, ele se sente bem à vontade em qualquer repertório, como já provou no tributo ao Black Sabbath e no show de ontem.
Pra tudo ficar perfeito só faltou tocarem Jardim Elétrico. Quem sabe, de uma outra vez. Seria apenas mais um desafio.
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